Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Olhar sociológico
Gale Miller não é terapeuta: sociólogo, ele observa o mundo focado nas soluções desde 1984, quando começou a frequentar o Brief Family Therapy Center de Milwaukee. Ele propõe aqui descrever a consultoria focada nas soluções como uma negociação intercultural. Com Clifford Geertz, a cultura passa a ser feita de “teias de significados” que as pessoas tecem e nas quais ficam suspensas; com Gary Alan Fine, cada consulta se torna uma pequena “idiocultura” que profissional e clientes fabricam juntos, tomando emprestado das culturas de que participam em outros lugares. Uma sessão com um casal indígena norte-americano serve de banco de prova — e Miller se interessa tanto pelo que não foi dito quanto pelo que foi dito.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Culture in Solution-Focused Consultation: An Intercultural Approach, de Gale Miller, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n. 2 (2014), p. 25-40, doi: 10.59874/001c.75101, sob licença CC BY 4.0. O asterisco que acompanha o título do original remete a uma nota do autor: elementos do texto haviam sido apresentados em sessão plenária no congresso anual da Solution-Focused Brief Therapy Association, em Santa Fe, em novembro de 2014. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido, rediagramado e provido de um intertítulo suplementar para a abertura, que o autor havia deixado sem título, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelo autor nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo
Neste artigo desenvolvo uma abordagem intercultural da consultoria focada nas soluções. A abordagem representa uma interpretação antropológica e sociológica e é escrita por um observador externo interessado no mundo focado nas soluções. A análise enfatiza como preocupações multiculturais permeiam as consultas focadas nas soluções, na medida em que profissionais e clientes recorrem a outras culturas de que participam. As interações entre profissional e cliente são tratadas como negociações que dependem das competências interculturais dos participantes, isto é, de sua capacidade de navegar entre suas próprias orientações culturais e as das outras pessoas envolvidas na consulta. Explico de que maneira minha perspectiva intercultural prolonga temas culturais presentes na literatura focada nas soluções e ilustro sua utilidade analisando um estudo de caso. Por fim, examino possibilidades futuras de desenvolvimento dessa perspectiva.
Nota do original
Elementos deste artigo foram apresentados em sessão plenária, sob o título “Continuity and Change: The Dance of an Attitude”, no congresso anual da Solution-Focused Brief Therapy Association, em Santa Fe (Novo México, EUA), em novembro de 2014. Gostaria também de agradecer a Sara Smock Jordan por seus comentários a uma primeira versão deste texto.
Complexe Systémique — sobre o estado do arquivo de origem
O PDF de 2014 digitalizado pela revista apresenta algumas lacunas de uma a três palavras no fim de certas linhas. Nós as assinalamos com “[…]”. As palavras entre colchetes são restituições nossas, conferidas nas coordenadas da página impressa; elas não figuram como tais no arquivo da revista.
Este artigo trata do conceito de cultura como aspecto das interações entre profissional e cliente na abordagem focada nas soluções, apresentando essas interações como negociações interculturais. Emprego o termo intercultural para chamar a atenção para as maneiras pelas quais profissionais e clientes focados nas soluções trazem múltiplos significados culturais para as questões práticas em jogo em suas interações. O termo negociação dirige a atenção para o modo como as interações focadas nas soluções envolvem diálogo, deliberação e até barganha, destinados a favorecer novas compreensões da situação em pauta e acordos de trabalho sobre como proceder diante dela. As negociações envolvem contribuições de duas ou mais partes, cujos interesses podem ser, de início, bastante diferentes. Os temas aqui desenvolvidos pretendem valer para uma grande variedade de contextos (terapia, empresas, escolas, serviços médicos etc.) em que se pratica a consultoria focada nas soluções.
Este artigo tem dois propósitos. O primeiro consiste em identificar questões culturais que foram minimizadas nas conversas entre pensadores e profissionais focados nas soluções, e em sugerir como essas questões poderiam fazer parte das conversas futuras. O segundo consiste em ampliar o horizonte dessas conversas, incluindo perspectivas desenvolvidas fora do mundo focado nas soluções. Esse propósito se liga à minha condição de observador externo interessado, cujo envolvimento principal com o mundo focado nas soluções é o de um pesquisador qualitativo. Esse envolvimento remonta a 1984, no Brief Family Therapy Center (BFTC) de Milwaukee.
Ainda que a afirmação me favoreça, considero a inclusão das perspectivas de observadores externos interessados vital para o desenvolvimento do pensamento e da prática focados nas soluções. As observações e interpretações vindas de fora desafiam os profissionais focados nas soluções a refletir de novas maneiras sobre seu trabalho. Observadores externos interessados estão particularmente bem posicionados para atuar como corretores intelectuais, ligando o mundo focado nas soluções às “correntes intelectuais do mundo contemporâneo” (Miller, 2014, p. 9). As correntes pertinentes incluem tanto perspectivas que claramente complementam temas do pensamento focado nas soluções dominante quanto perspectivas que questionam seus pressupostos e suas afirmações sobre as interações focadas nas soluções.
Apoio-me na abordagem da antropologia cultural de Geertz (1973) e na análise sociológica dos pequenos grupos como idioculturas de Fine (1979) para descrever as interações entre profissional e cliente focadas nas soluções como negociações interculturais. Ambas as abordagens repousam na ideia de que os seres humanos são animais que fabricam e usam símbolos (Burke, 1966). Elas também tocam a preocupação de pensadores e profissionais focados nas soluções com o modo como o sentido emerge no interior das interações sociais. Assim, ressoam com a abordagem interacional da consultoria focada nas soluções de McKergow e Korman (2009) e com a descrição que Miller e McKergow (2012) fazem das interações focadas nas soluções como sistemas complexos no interior dos quais emergem, por vezes, realidades sociais imprevistas.
Minha abordagem das consultas focadas nas soluções trata a cultura como um aspecto fundamental e onipresente dessas consultas. Este artigo pode, portanto, ser lido como uma resposta ao apelo dos teóricos da complexidade por descrições múltiplas da produção de sentido em interações sociais complexas (Cilliers, 1998; Miller & McKergow, 2012). As consultas focadas nas soluções são contextos de construção social de significados multiculturais, com consequências sobre as interpretações e as ações futuras dos clientes. Desenvolvo esses temas no restante do artigo. Começo por uma breve revisão da evolução do conceito de cultura no mundo focado nas soluções e, em seguida, exponho minha perspectiva intercultural sobre a consultoria focada nas soluções. Depois analiso um exemplo de caso para ilustrar minha abordagem intercultural e examino algumas linhas de desenvolvimento futuro de uma abordagem intercultural da consultoria focada nas soluções.
O estatuto da cultura entre os inventores da terapia breve focada nas soluções, no BFTC, em meados dos anos 1980, variava conforme o contexto e o momento. Dizia-se com frequência aos visitantes que a cultura não era uma preocupação dos terapeutas breves focados nas soluções. Os responsáveis dos primeiros tempos explicavam que a abordagem havia emergido de um trabalho com uma população de clientes multicultural. Eles tinham desenvolvido técnicas eficazes para lidar com problemas diversos, relatados por clientes que variavam quanto a raça e etnia, renda, origem regional, idade e gênero. A ênfase desses terapeutas no minimalismo também contava. Por que complicar a abordagem ocupando-se de questões desnecessárias? Mas também observei como esses mesmos terapeutas às vezes levavam em conta questões culturais ao fazer terapia. Por exemplo, nas sessões com membros das Testemunhas de Jeová (que não acreditam em milagres), eles substituíam a pergunta do milagre por perguntas sobre estar na graça de Deus; e modificavam a pergunta de escala para que fosse de menos 10 a 0, de modo a se ajustar melhor às orientações culturais dos clientes de certos países.
Uma virada importante foi o artigo de Berg e Jaya (1993) sobre o trabalho com famílias norte-americanas de origem asiática. Elas defendiam a inclusão de preocupações culturais na terapia breve focada nas soluções, advertindo ao mesmo tempo os leitores para não generalizarem demais a respeito dos asiático-americanos, nem colocarem a cultura acima da cooperação com os próprios clientes. Mais recentemente, vimos surgir uma série de publicações que discutem como os terapeutas breves focados nas soluções podem levar em conta a cultura do cliente. Entre elas, a incorporação, por Lee (2003), de ideias e práticas focadas nas soluções ao trabalho social clínico intercultural, e a abordagem de Lee e Mjelde-Mossey (2004) da dissonância cultural entre imigrantes do Leste Asiático nos Estados Unidos. As experiências de Geisler (2010), que praticou a abordagem focada nas soluções no México, e a discussão de Hsu e Wang (2011) sobre a piedade filial como questão nas sessões com clientes taiwaneses e chineses são também contribuições significativas a essa literatura. Um acréscimo recente é o relato de Moir-Bussy (2014) sobre o ajuste da terapia breve focada nas soluções às preocupações culturais de clientes chineses e australianos.
Lee (1996) abriu outra linha de desenvolvimento ao mostrar como o construtivismo social se relaciona com a diversidade cultural. Cabe também assinalar o volume organizado por Kim (2014a) sobre multiculturalismo e terapia breve focada nas soluções, notável por aplicar o conceito de competência cultural a diferentes grupos: clientes com deficiência, clientes LGBTQ, clientes economicamente pobres, clientes espirituais e religiosos. A competência cultural supõe tanto aprender os valores, as práticas e as crenças dos membros de outras culturas quanto usar esse conhecimento para refletir sobre as próprias orientações culturais (Lee & Zaharlick, 2013).
Por fim, profissionais focados nas soluções e outros autores aplicaram a ideia de cultura à formação de equipes e à liderança nas organizações (Aoki, 2009; Godat, 2013; Gray, 2011; Yoshida, 2011). Outros empregaram técnicas focadas nas soluções em culturas médicas, prisionais e escolares (Ferraz & Wellman, 2009; Greenberg et al., 2001; Lindforss & Magnusson, 1997; Metcalf, 2008). Esses trabalhos ampliam a atenção primeira dos terapeutas breves focados nas soluções às culturas dos grupos raciais, étnicos e nacionais, incluindo nela os locais de trabalho, as ocupações e as instituições como culturas.
Esta breve revisão da literatura mostra o interesse crescente de alguns membros do mundo focado nas soluções, e de alguns observadores externos interessados, pelo conceito de cultura. No entanto, como observa Kim (2014b), boa parte da literatura desse campo expressa incerteza quanto ao grau em que os profissionais focados nas soluções deveriam ser orientados para a cultura. Ele explica que muitos profissionais focados nas soluções temem que uma formação centrada em questões culturais venha a
reforçar pressupostos ligados ao estereótipo e à falácia de saber tudo sobre determinada raça, cultura ou grupo minoritário. Por causa dessas preocupações, os clínicos focados nas soluções defendem antes uma abordagem de não saber, que é central na terapia breve focada nas soluções…
Kim (2014b, p. 10; itálicos no original)
Considero essas preocupações fundadas, mas apenas até certo ponto. Outra dificuldade está na tentação de definir a cultura de maneira excessivamente abstrata, desligando-a das realidades vividas pelas pessoas. Também é problemática a tendência frequente a definir os valores e as práticas dos outros como expressões culturais, negligenciando os próprios. Apesar dessas inquietações realistas, Jahoda (2012, p. 300) enuncia um ponto importante ao dizer que “o conceito de ‘cultura’ é provavelmente indispensável” à vida nas sociedades multiculturais. É essa a lição que extraio da literatura sobre a cultura que emergiu no mundo focado nas soluções ao longo dos últimos vinte anos. Esses trabalhos apontam para os contextos multiculturais da consultoria focada nas soluções; eles defendem, portanto, a incorporação de uma maior consciência cultural ao mundo focado nas soluções.
A questão decisiva é, evidentemente, a do como incorporar uma maior consciência cultural ao pensamento e à prática focados nas soluções. Tratar as interações entre profissional e cliente focadas nas soluções como negociações interculturais é um ponto de partida possível para respondê-la. As competências decisivas nas negociações focadas nas soluções são as competências interculturais de profissionais e clientes. Elas incluem a capacidade de expressarem mutuamente suas preocupações práticas e suas orientações culturais, bem como de ajudar as outras partes a expressarem as suas. Um primeiro passo para ampliar a consciência intercultural no mundo focado nas soluções consiste em desenvolver uma perspectiva intercultural sobre as consultas focadas nas soluções. É a isso que passamos agora.
Minha abordagem da cultura e da consultoria focada nas soluções parte da definição que Geertz (1973, p. 5) dá de cultura: “teias de significados”, sentidos que as pessoas tecem e nos quais ficam suspensas. A representação da cultura como teia, em Geertz, mostra como múltiplos significados se ligam uns aos outros no interior de uma cultura determinada. Dito de outro modo, a cultura é feita de aglomerados simbólicos (Burke, 1973). “Cada elemento do aglomerado serve de pano de fundo para os outros elementos, impregnando-os assim de valores que de outro modo não lhes seriam associados” (Miller, 2014, p. 13). Essa é uma das razões pelas quais grupos que parecem compartilhar alguns dos mesmos valores podem definir-se como significativamente diferentes uns dos outros — e até opostos.
Tecer teias de significados é um processo de construção social. Os significados emergem à medida que as pessoas interagem e interpretam aspectos de sua própria experiência de vida e da dos outros. Ambas as atividades são fontes de mudança e de continuidade. Aí está a importância do modo como Geertz (1973) apresenta a cultura como algo que suspende as pessoas. Os significados mantêm as pessoas em um lugar por um tempo, mas elas não estão necessariamente aprisionadas nesse lugar para sempre. Na medida em que significados socialmente construídos mantêm as pessoas em um lugar, esses significados culturais funcionam como quadros de orientação através dos quais elas se engajam nos mundos ao seu redor. Tais significados guiam a percepção, apresentando certas preocupações como mais pertinentes que outras e certas respostas às situações como mais apropriadas.
A abordagem de Geertz (1973) não limita o conceito de cultura a algumas categorias ou identidades de grupo. Todos os grupos são candidatos à análise cultural, desde que o analista possa demonstrar que seus membros se orientam por significados compartilhados. Podemos, portanto, falar de uma cultura focada nas soluções. Além disso, a abordagem de Geertz questiona as análises culturais que tratam os membros de grupos culturais como se orientando por significados estáveis e duradouros. Esse questionamento chama a atenção para a variedade de contextos culturais (teias de significados) nos quais as pessoas se suspendem ao longo de sua vida cotidiana. Considere um dia de sua vida. Ele pode incluir a participação na família, em uma profissão, na cultura popular, no serviço público, na política e na religião. Cada um desses contextos supõe tecer teias de significados um tanto distintas. De fato, uma parte importante da condução de uma vida consiste em passar com sucesso de um contexto cultural a outro.
Pode-se argumentar que identidades culturais como raça, gênero, orientação sexual e nacionalidade atravessam contextos diversos mais do que outras; isso não quer dizer, porém, que essas identidades tenham o mesmo sentido em todos os contextos. É uma razão importante para que os analistas da cultura prestem atenção às práticas sociais associadas a cenários sociais particulares e às negociações pelas quais as realidades culturais são socialmente construídas. Considere, por exemplo, a etnografia das identidades raciais e de classe realizada por Jackson (2001) entre moradores do Harlem, na qual ele escreve:
muitos afro-americanos têm noções decididamente performativas da identidade social. A posição de classe é entrevista por meio da interpretação de condutas cotidianas. A identidade racial é fundada na percepção de ações sociais [particulares] e é sustentada pelo recurso a tipos determinados de atividades. A “localização” racial não depende apenas de regras da gota de sangue ou de graus de pigmentação da pele. As identificações socialmente significativas derivam em parte de condutas, práticas e performances sociais observáveis.
Jackson (2001, p. 4)
O enunciado de Jackson sublinha o caráter multidimensional de identidades culturais aparentemente estáveis. Seu estudo é um ponto de partida útil para ver como a vida nas sociedades contemporâneas envolve encontros e negociações interculturais contínuos. Sustentar identidades raciais, de gênero, sexuais e outras supõe adaptações contínuas às teias de significados associadas aos diversos grupos sociais e cenários de que as pessoas participam.
A análise dos pequenos grupos como idioculturas, em Fine (1979), complementa as intuições de Jackson (2001) ao mostrar como os membros de um pequeno grupo recorrem a múltiplas culturas para construir teias de significados distintivas, ajustadas à sua situação social comum. Fine se apoia em seus estudos de times de beisebol da little league para mostrar como os membros de cada time usavam aspectos selecionados da cultura do beisebol, dos mundos sociais adultos e de sua experiência compartilhada como crianças para inventar suas próprias práticas, valores e perspectivas culturais. Os membros do time demonstravam competência intercultural ao negociar quais temas culturais gerais tomar da sociedade mais ampla, como reorganizá-los em suas próprias teias de significados e como aplicá-los em situações diversas.
Fine (1979) identifica várias exigências que orientam as negociações dos membros do grupo quanto à incorporação de determinados valores e práticas em sua idiocultura. Três delas são particularmente pertinentes para a consultoria focada nas soluções: os valores e as práticas incorporados devem ser conhecidos pelos membros do grupo, ser compatíveis com os interesses sociais do grupo e ser apropriados às relações sociais do grupo. Os times de beisebol de Fine diferiam quanto ao conhecimento das tradições do beisebol, quanto aos seus interesses principais e quanto ao tipo de relação que preferiam entre companheiros de equipe. Assim, nem todos os times colocavam a vitória acima dos demais valores sociais, nem empregavam os mesmos critérios para atribuir a seus membros diferentes status dentro do grupo.
A análise de Fine (1979) é diretamente pertinente para compreender como as realidades culturais se constroem nas consultas focadas nas soluções. Os participantes de uma consulta formam um pequeno grupo centrado em um número limitado de questões. Como os times de beisebol da little league, profissionais e clientes focados nas soluções negociam quais aspectos das culturas mais abrangentes são pertinentes para sua interação e como os elementos culturais selecionados devem ser ajustados uns aos outros para formar teias de significados compatíveis com suas relações nascentes. Os participantes de uma idiocultura não precisam ser especialistas nas culturas dos outros, mas precisam saber o bastante para negociar com sucesso uns com os outros. Isso nos remete de volta à ênfase de Jackson (2001) na atenção minuciosa ao que os outros dizem por suas palavras e por suas ações não ditas.
Ao tratar a cultura como teias de significados e as consultas focadas nas soluções como idioculturas emergentes, os profissionais focados nas soluções poderiam ver melhor em que medida suas maneiras de interagir com os clientes estão enraizadas em uma cultura focada nas soluções. Os profissionais tomam emprestado seletivamente dessa cultura ao fazer determinada pergunta, ao responder de determinada maneira às respostas dos clientes e ao formular mensagens de encerramento. Profissionais e clientes focados nas soluções constroem idioculturas compartilhadas negociando se as ações do profissional se ajustam aos temas culturais introduzidos pelos clientes, e como. É assim que profissionais e clientes focados nas soluções tecem teias de significados que expressam aspectos de múltiplas culturas, e nelas se suspendem. Ilustro na próxima seção como essas idioculturas são negociadas. Ela resume um exemplo de caso oferecido por Blakeslee e Smock Jordan (2014), que envolve uma terapeuta branca e dois clientes indígenas norte-americanos. Resumo o exemplo para poupar espaço e me concentrar no toma lá dá cá da negociação.
Nota do original
1. O exemplo de caso aqui discutido provém de Blakeslee e Smock Jordan (2014) e é utilizado com a autorização dos autores.
Blakeslee e Smock Jordan (2014) começam por apontar alguns valores centrais da cultura indígena norte-americana, contrastando-os com a cultura dominante — branca — dos Estados Unidos. Esses valores são: uma orientação espiritual holística que trata a natureza como sagrada; a ênfase nas relações comunitárias como fonte de bem-estar; uma identidade pessoal inseparável das identidades familiar e tribal; um tempo coordenado pelos acontecimentos naturais; e práticas de comunicação que incluem evitar o contato visual e longas pausas entre as frases. Blakeslee e Smock Jordan discutem também o abuso de substâncias, a violência conjugal e familiar, a pobreza e o desemprego, a depressão e o suicídio como problemas clínicos majoritários nas comunidades indígenas norte-americanas. Em seguida, oferecem algumas sugestões sobre como os terapeutas breves focados nas soluções poderiam ajustar suas práticas para respeitar a cultura indígena norte-americana: substituir a palavra fazer pela palavra ser (por exemplo: “então, se vocês não estivessem brigando tanto, como vocês estariam em vez disso?”, p. 116), modificar a pergunta do milagre para perguntar sobre ter uma visão e ser diretivo ao dar a mensagem de encerramento.
A sessão envolve um casal (Mika, que tem emprego, e Matt, que está desempregado) e seu filho de quinze anos (Tokada, que não está presente). A terapeuta começa perguntando o que precisa acontecer “[na] nossa reunião de hoje para que ter vindo aqui tenha sido útil” (p. 113). Mika explica que foi enviada por seu chefe e que teme perder o emprego. A terapeuta observa: “Então só estar aqui já é útil” e “Manter seu emprego é importante” (p. 113). Matt acena com a cabeça e Mika diz “Sim”. A terapeuta pergunta então sobre o trabalho de Mika. Mika responde que tem poucas folgas, que precisa usar dias de licença médica para participar de eventos tribais, e conclui: “Eu queria que nunca tivéssemos ido embora” (p. 113). Mika passa então às suas preocupações com Tokada, de quem diz que está “perdendo sua herança” porque a escola “tenta fazê-lo pensar como os brancos”, acrescentando “sem ofensa” (p. 113). A terapeuta responde que não se ofende e pede a Mika que fale mais sobre o filho. Mika conta que ele prefere ser chamado de Tate, o que “é realmente um tapa na nossa cara, porque o nome dele tem um significado especial em nossa tribo” (p. 113).
Em seguida, a terapeuta pergunta como o casal está lidando com a situação. Mika explica que ela e Matt têm brigado e que isso está interferindo em seu trabalho. A terapeuta responde que deve ser difícil falar com uma terapeuta branca. Mika concorda. A terapeuta pergunta: “Como eu poderia ser útil, considerando que não sou indígena norte-americana?” (p. 114). Mika diz que ajudaria se a terapeuta fizesse um relatório positivo para seu chefe, um relatório que dissesse que Mika é uma boa trabalhadora e não é louca. Mika explica que brigar menos também ajudaria, porque ela não chegaria atrasada ao trabalho, dormiria mais e passaria mais tempo com Tokada. À pergunta “o que mais?” da terapeuta, Mika acrescenta que os membros da família passariam tempo conversando sobre as tradições tribais se houvesse menos brigas, e que “isso nos faria sentir mais em casa” (p. 114).
Vem então uma pergunta do milagre. A terapeuta pede a Mika e a Matt que imaginem uma mudança em que “um ancião ou um animal aparecesse em uma visão e lhes fizesse saber que os problemas de que vocês falaram hoje já não são um problema” (p. 114). Mika menciona quatro mudanças decorrentes de sua visão: ela e Matt acordariam na mesma cama, porque não estariam brigando; Matt e Tokada retomariam os cantos matinais; Tokada se juntaria aos pais para o chá da manhã; e eles levariam Tokada a pé até a escola antes de Mika ir trabalhar. Ela descreve isso como a melhor situação possível “enquanto vivemos fora de nossa tribo” (p. 115).
Esta sessão ilustra como os consultores focados nas soluções atendem às preocupações dos clientes mantendo ao mesmo tempo as sessões coerentes com os princípios da consultoria focada nas soluções. Vemos isso no uso que a terapeuta faz da palavra ser, em sua resposta acolhedora às inquietações de Mika a respeito dos brancos […], no tratamento dos acenos silenciosos de Matt como uma forma aceitável […] e no recentramento da pergunta do milagre em torno de uma visão de um ancião ou de um animal. A sessão mostra como as respostas dos consultores focados nas soluções aos enunciados dos clientes guiam estes últimos para a identificação de recursos de mudança. Consideremos agora em que sentido esse exemplo de caso é uma negociação intercultural.
Vista de uma perspectiva intercultural, a interação de Mika e de Matt com sua terapeuta breve focada nas soluções é um primeiro passo na construção de uma idiocultura que poderia desenvolver-se mais nas sessões seguintes. As perguntas da terapeuta (que expressam preocupações culturais focadas nas soluções) formam um contexto no qual clientes e terapeuta recorrem seletivamente às culturas indígena norte-americana e branca para construir uma orientação compartilhada diante das questões em pauta. As perguntas da terapeuta estabelecem os parâmetros dentro dos quais valores, práticas e identidades culturais indígenas e brancas são incorporados à idiocultura emergente. É significativo que as perguntas da terapeuta não peçam aos clientes que fundam ou harmonizem as diferenças entre essas culturas. De fato, a interação se sustenta em contrastes entre elas, enunciados ou não enunciados.
O exemplo ilustra como profissionais e clientes focados nas soluções constroem idioculturas usando aspectos conhecidos de sua própria cultura e da dos outros para tecer teias de significados compatíveis com seus interesses e suas relações. Todas as partes da interação manifestam competências interculturais, mas as ações de Mika são particularmente instrutivas. Mika manifesta sua compreensão da cultura branca ao expressar sensibilidade aos possíveis sentimentos negativos da terapeuta diante de sua desaprovação da orientação branca ensinada na escola de Tokada, ao pedir um relatório ajustado às preocupações de seu chefe (a saber, que ela é uma boa trabalhadora e não é louca) e ao buscar a melhor situação possível para viver dentro da sociedade branca. Mika manifesta também sua compreensão de como as relações terapêuticas se organizam na sociedade não tribal. O mais impressionante talvez seja o modo como Mika se situa fora tanto da cultura branca quanto da cultura terapêutica, participando ao mesmo tempo de ambas. Suas ações sugerem, sem garantir, que a interação responde adequadamente às suas preocupações e ao seu senso do que devem ser relações apropriadas entre cliente e terapeuta.
Olhar o que se diz na terapia é apenas uma maneira de ver a competência intercultural na interação. Deveríamos considerar também aquilo de que se poderia ter falado e de que não se falou. As escolhas da terapeuta são centrais aqui. Especificamente, a terapeuta não demonstra nenhum interesse pelos problemas clínicos que Blakeslee e Smock Jordan (2014) descrevem como recorrentes nas comunidades indígenas norte-americanas. Tampouco se concentra em questões que poderiam, de outro modo, ser tidas como fundamentais para as identidades culturais dos membros da família. Por exemplo, a terapeuta não pede aos clientes que discutam os significados associados a certas práticas tribais (como os cantos matinais e o significado especial do nome de Tokada), nem quais aspectos da cultura branca lhes parecem particularmente problemáticos, nem seus arrependimentos por terem deixado a tribo, nem o que é diferente quando eles se sentem mais em casa vivendo na sociedade branca. É revelador que Mika não retorne a essas questões à medida que a interação prossegue.
Três aspectos não ditos da sessão merecem menção especial: o modo como a terapeuta trata o tempo, o desemprego de Matt e as circunstâncias da saída da família da reserva. Cada uma dessas questões poderia ser considerada pertinente para a situação atual da família, a partir do que a terapeuta sabe da cultura indígena norte-americana. Por exemplo, os atrasos de Mika no trabalho poderiam estar relacionados à orientação tradicional dos indígenas norte-americanos em relação ao tempo? O desemprego de Matt poderia ser causado por consumo excessivo de álcool, por depressão ou por ideação suicida? Pode-se também imaginar diversas razões pelas quais a família se afastou da reserva, entre elas a alienação de membros da família em relação a outros membros da tribo. Poderíamos, portanto, perguntar se os problemas dos clientes estão ligados a sentimentos de separação social que minam seu senso de bem-estar e ameaçam a estreita conexão entre suas identidades pessoais e sua identidade tribal. Quem sabe aonde a interação poderia ter chegado se a terapeuta tivesse usado seu conhecimento cultural para explorar essas e outras possibilidades na sessão.
Os aspectos não ditos do exemplo apontam para a importância da disciplina interacional por parte dos consultores focados nas soluções, na escolha dos temas a desenvolver com os clientes. Essa questão remete à advertência de Berg e Jaya (1993) contra o uso, pelos terapeutas, de seu conhecimento cultural para generalizar demais sobre os desejos e as necessidades dos clientes. A disciplina interacional consiste em sustentar uma curiosidade disciplinada, centrada nas circunstâncias reais da vida dos clientes. Isso não quer dizer que só haveria uma maneira correta de conduzir uma consulta focada nas soluções com determinados clientes. Fine (1979) mostra claramente que todas as idioculturas são — em graus variados — construções sociais únicas. O que quero dizer é apenas que a construção das idioculturas focadas nas soluções deveria ser informada pelos desejos e pelas necessidades que os clientes expressam. Exploro na próxima seção outras implicações de uma abordagem intercultural da terapia breve focada nas soluções.
Descrevi uma abordagem intercultural da consultoria focada nas soluções que se apoia na definição de cultura por Geertz (1973) como teias de significados tecidas na interação social e na análise das idioculturas por Fine (1979). Essa abordagem prolonga a análise de McKergow e Korman (2009), para quem os significados emergem entre profissionais e clientes. Mostrei como os participantes das consultas focadas nas soluções se apoiam em aspectos de outras culturas em suas interações. Não há, portanto, fronteira clara nem estável que separe as interações entre profissional e cliente dos ambientes culturais mais amplos em que elas ocorrem. Minha abordagem intercultural faz avançar o interesse dos teóricos da complexidade pelo modo como transformações de sentido emergem em certas interações sociais (Miller & McKergow, 2012), observando que as consultas focadas nas soluções são contextos de construção de idioculturas. Ao negociar quais aspectos de outras culturas devem ser incluídos na consulta e ao ligá-los uns aos outros de determinada maneira, profissionais e clientes focados nas soluções criam as condições possíveis de uma transformação interacional.
Uma abordagem intercultural tem também implicações práticas para os profissionais focados nas soluções que buscam aumentar sua competência intercultural. O exemplo de caso de Blakeslee e Smock Jordan (2014) ilustra em particular como uma orientação intercultural pode ajudar os consultores focados nas soluções a […] suas perguntas e seus comentários de modo a levar em conta os valores e as práticas culturais dos clientes. Esses autores mostram também a utilidade de reconhecer as diferenças culturais com os clientes e, talvez, de lhes pedir orientação para conduzir a consulta de maneira culturalmente preferida. Importa notar os vários temas culturais potenciais que a terapeuta evitou abordar. Tomadas em conjunto, essas implicações práticas de uma orientação intercultural combinam bem com a terapia simples de Panayotov (2011, p. 8), em particular com sua prática de perguntar aos clientes: “Qual você acha que é a pergunta mais útil que eu tenho que lhe fazer agora?”
Vejo a abordagem intercultural aqui descrita como um primeiro passo na incorporação de uma maior consciência e de uma maior competência culturais no mundo focado nas soluções. Mas reconheço também não ter tratado algumas questões importantes a ela relacionadas. Essas questões representam considerações futuras que os consultores focados nas soluções e os observadores externos interessados poderiam abordar por meio de pesquisas, de elaborações teóricas e de inovações nas práticas focadas nas soluções. Discuto três delas aqui. A primeira diz respeito ao modo como uma perspectiva intercultural questiona certos aspectos do discurso dominante no mundo focado nas soluções.
Um primeiro questionamento se refere às descrições dos profissionais focados nas soluções como adotando uma postura, uma posição ou uma atitude de não saber na interação com os clientes. O não saber seria, assim, uma escolha. Visto interculturalmente, é preciso, porém, perguntar: “como os profissionais poderiam algum dia saber de antemão que temas culturais os clientes vão introduzir em determinada consulta, ou como profissionais e clientes vão negociar teias de significados para tratar de suas preocupações comuns?” O não saber é uma circunstância da vida que exige reconhecimento e aceitação, nada mais nem menos. A curiosidade disciplinada, ao contrário, é uma habilidade, presente em graus variados nas negociações interculturais das consultas focadas nas soluções. Como habilidade, a curiosidade disciplinada pode ser cultivada pela formação, pela supervisão, pela conversa e pela análise de negociações interculturais.
Os pressupostos individualistas que permeiam o discurso focado nas soluções também são significativos. Os clientes são descritos como expressando desejos individuais únicos nas consultas focadas nas soluções, e os profissionais são advertidos a prestar atenção estreita a seus clientes enquanto indivíduos. Esse tema ecoa uma ênfase essencialista bem estabelecida nas culturas ocidentais. Não é surpreendente, portanto, que afirmações individualistas sejam frequentemente feitas pelos clientes nos mais diversos contextos focados nas soluções. Os profissionais focados nas soluções deveriam levar essas afirmações a sério, tratando-as como contribuições dos clientes à construção de idioculturas, isto é, como afirmações culturais. O caráter único de profissionais e clientes é negociado e realizado à medida que eles selecionam e organizam temas tomados de empréstimo das outras culturas de que participam. Toda sessão de consulta é, portanto, um contexto em que clientes e profissionais são socialmente construídos como únicos.
A segunda consideração futura consiste em realizar estudos sobre a cultura focada nas soluções. A análise teológica da terapia breve focada nas soluções por Bidwell (1999) é um ponto de partida. Bidwell sustenta que a esperança e a possibilidade são as metáforas últimas da terapia breve focada nas soluções, e acrescenta que esses valores impregnam as técnicas e as orientações éticas dos terapeutas. Outro ponto de partida é a caracterização da terapia breve focada nas soluções por Ferraz e Wellman (2009, p. 326) como algo que “fomenta uma cultura de engajamento”. Esses são apenas pontos de partida. As discussões futuras precisarão ir além de afirmações tão vagas quanto: a consultoria focada nas soluções é colaborativa, respeitosa e otimista.
Há muitas maneiras de abordar essa questão, mas acredito que estudos etnográficos do mundo focado nas soluções sejam particularmente promissores. Digo isso porque a cultura focada nas soluções consiste em mais do que aquilo que acontece nas interações entre profissional e cliente. O mundo focado nas soluções comporta uma grande diversidade de cenários, atores e atividades: formações, leitura e escrita de textos, supervisão, apresentações em congressos, conversas informais sobre as próprias práticas de consulta e as dos outros, ou ainda explicações da consultoria focada nas soluções a pessoas de fora. Um exame etnográfico holístico do mundo focado nas soluções deve observar como os pressupostos, as afirmações e as práticas focadas nas soluções são descritos, explicados e justificados em diferentes contextos sociais. Deve observar também os desacordos entre os membros desse mundo: as críticas que fazem ao próprio trabalho e às práticas dos outros, e os momentos em que consideram apropriadas, em certas circunstâncias, práticas que habitualmente criticam. Este último foco é importante, porque as teias de significados construídas por humanos incluem tanto temas coerentes quanto incoerentes, tanto certezas quanto dilemas.
A terceira questão dirige a atenção à relação entre a vida dos clientes dentro e fora das consultas focadas nas soluções. Como os clientes interpretam seu breve envolvimento com a cultura focada nas soluções quando voltam para suas famílias e comunidades? Os estudos quantitativos que tratam das mudanças de comportamento ou de atitude dos clientes após uma consulta focada nas soluções são inadequados para tratar dessa questão. Ela exige estudos qualitativos das teias de significados e dos contextos interacionais nos quais os clientes incorporam sua experiência focada nas soluções a outras idioculturas. Poderíamos tratar esse processo como uma tradução intercultural (Latour, 1983). Os clientes traduzem interpretando e aplicando seletivamente, em sua vida cotidiana, aspectos da cultura breve focada nas soluções. Estudos sobre os usos que os clientes fazem da cultura focada nas soluções em seus mundos cotidianos prometem aumentar a capacidade (a competência) dos consultores focados nas soluções para apoiar a tradução intercultural de seus clientes em contextos não consultivos.
Este artigo desenvolve uma abordagem intercultural da consultoria focada nas soluções. As consultas são negociações no interior das quais profissionais e clientes empregam suas competências interculturais para desenvolver teias de significados relativamente únicas, capazes de transformar as orientações dos clientes em relação à sua vida presente e futura. Essas negociações são também contextos de construção de recursos práticos que os clientes poderão usar para mudar sua vida. Novos significados e novos recursos emergem à medida que os profissionais tomam emprestados aspectos de múltiplas culturas e os reorganizam para criar idioculturas, as quais podem servir de pontos de vista de onde vislumbrar novas possibilidades na vida dos clientes.
Minha abordagem intercultural é também um recurso possível para os terapeutas que desejam refletir sobre os valores e as práticas que definem a cultura focada nas soluções e sobre a diversidade de formas que ela assume nas diferentes consultas entre profissional e cliente. Ela pode ajudar os consultores focados nas soluções a refletir sobre seus valores, suas práticas e suas identidades profissionais, bem como a se perguntarem que outras maneiras de ser um profissional focado nas soluções são possíveis. Tais reflexões reposicionam os clientes e suas preferências culturais como fontes do desenvolvimento profissional dos profissionais. É uma maneira de ampliar a consciência e a competência interculturais do consultor focado nas soluções: engajando-se com o mundo não focado nas soluções e aprendendo com ele.
Ainda que eu tenha enfatizado a utilidade de desenvolver uma consciência intercultural no mundo focado nas soluções, faltaria ao meu dever se deixasse a impressão de que a análise cultural é sempre a maneira mais útil de compreender a consultoria focada nas soluções. O conceito de cultura é apenas um entre os muitos conceitos de que as pessoas se servem para dar sentido às questões da vida. Por exemplo, muitas questões ditas culturais poderiam também ser abordadas em perspectivas econômicas ou biológicas — sem falar das muitas filosofias políticas e morais existentes nas sociedades contemporâneas. Não há [dúvida] de que há momentos em que outras perspectivas respondem melhor às preocupações dos clientes e dos profissionais focados nas soluções. Ainda assim, não consigo imaginar uma forma de prática focada nas soluções que seja isenta de cultura. Minha dificuldade em imaginar essa possibilidade está ligada à diversidade das teias de significados e das idioculturas de que as pessoas participam nas sociedades contemporâneas.
É difícil sustentar que vivemos em um mundo de realidades múltiplas sem incluir aí o conceito de cultura.
Gale Miller
Sobre o autor
Gale Miller é professor emérito de sociologia na Marquette University, em Milwaukee. Seus principais interesses recaem sobre o estudo empírico e teórico das instituições de serviço à pessoa (sendo a terapia breve focada nas soluções uma delas) e sobre a maneira como as pessoas vivem as dificuldades de sua vida. Gale passou longos períodos observando diversas atividades, sessões de terapia e usos da linguagem no BFTC de Milwaukee, a “casa” da terapia breve focada nas soluções. Seu relato etnográfico de observador externo interessado foi publicado com o título Becoming miracle workers: Language and meaning in brief therapy (Aldine de Gruyter, 1997).
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Tradução não oficial para o português de Culture in Solution-Focused Consultation: An Intercultural Approach, de Gale Miller, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n. 2 (2014), p. 25-40, doi: 10.59874/001c.75101, sob licença CC BY 4.0. Tradução, diagramação e intertítulo de abertura: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Culture in Solution-Focused Consultation: An Intercultural Approach”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Miller, G. (2014). A cultura na consultoria focada nas soluções: uma abordagem intercultural (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-cultura-na-consultoria-focada-nas-solucoes-uma-abordagem-intercultural (Obra original publicada em 2014 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n° 2 (2014), p. 25-40; republicada em 2014 por Journal of Solution-Focused Brief Therapy, https://journalsfp.org/article/75101)
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