Red Sistémica · Transtornos alimentares
Que mapa usar para encontrar saídas no território dos transtornos alimentares, um mapa que aproveite todos os recursos naturais, encurte os tempos de viagem e diminua os riscos? Três profissionais de psicologia do Centro de Trastornos del Comer de Buenos Aires propõem um itinerário: identificar os fatores predisponentes, precipitantes e perpetuadores, ler as práticas de controle do peso como soluções tentadas que mantêm o problema, trabalhar as crenças que as sustentam, informar primeiro, e fazer da família o meio natural da recuperação.
“Considerar as pessoas como capazes de mudar o que é preciso com uma ajuda limitada contribui para que elas possam fazê-lo.”
Dr. Hugo Rosarios, citado na epígrafe do artigo
Vinheta
O dia de Ana começa com uma passagem pelo banheiro para se pesar, ritual que ela cumpre há quase uma década. Como em quase todas as manhãs, a balança determinará seu humor durante o dia inteiro, e hoje ela não ficará muito feliz, porque constatou que pesa mais do que ontem. Vestir-se é um momento aterrorizante! Ela se sente gorda diante do espelho e vasculha o armário em busca da “roupa” (1) salvadora que não a trairá diante do mundo. Ana decide “se comportar” hoje: comerá o mínimo de calorias possível.
Hoje à noite, pouco antes de se deitar, seu peso lhe dirá o quanto ela foi “boazinha”, o quanto esteve “sob controle”, ou o quanto sua decisão conseguiu ser “coroada de sucesso”.
Ana é uma pessoa única, com experiências ricas, recursos e possibilidades. No entanto, como tantas outras mulheres, Ana sofre de um transtorno alimentar (*) que afeta de modo muito significativo não só o seu comportamento, mas também o que ela pensa, o que ela sente, quem ela acredita ser…
Que mapa usar para encontrar saídas nesse território dos transtornos alimentares, um mapa que aproveite todos os recursos naturais, encurte os tempos de viagem e diminua os riscos?
O problema de que nos ocupamos neste artigo é o que nasce da instalação de um transtorno alimentar (TA) numa pessoa e/ou numa família. As formas desses transtornos são diversas: anorexia nervosa (AN, 1 a 2% das estudantes), bulimia (BN, 3 a 5% das mulheres) ou transtornos alimentares não especificados (10 a 15% das mulheres), isto é, aqueles que não preenchem todos os critérios para serem diagnosticados como AN ou BN, mas apresentam boa parte de suas características. Os fatores comuns a todos esses transtornos são a preocupação extrema com o peso e a imagem corporal, e as práticas repetidas de controle do peso.
Convém ter em mente os seguintes dados, obtidos em 1994 (2):
Esses dados permitem concluir que, entre os fatores que predispõem ao desenvolvimento desse problema, figuram certamente:
Ele recompensa a magreza e alimenta preconceitos contra a gordura. Não é recente, embora venha crescendo, a pressão social exercida sobre a mulher para que ela considere beleza e magreza como sinônimos.
Eles aumentam de uma maneira ou de outra o risco de desenvolver um TA: uma dificuldade marcada de funcionar de forma autônoma em relação à família ou aos modelos externos, um déficit de autoestima que faz colocar todo o valor pessoal na aparência ou na aprovação externa, uma tendência ao perfeccionismo e ao autocontrole, um medo de amadurecer, de aceitar o crescimento e as mudanças.
É tão difícil falar deles, porque a instalação de um TA na família modifica substancialmente a interação. Poderíamos, contudo, admitir que uma família pouco flexível para assumir as mudanças próprias das etapas da vida e para modificar, consequentemente, suas regras de convivência, ou uma família superprotetora e fechada sobre si mesma, com expectativas parentais exigentes demais e histórias de alcoolismo, de depressão e/ou de abuso sexual ou físico, são terrenos mais propícios do que outros para o desenvolvimento de um TA em um de seus membros.
A natureza multideterminada dos TA faz com que nenhum desses fatores produza sozinho o transtorno. Em cada caso, é preciso uma combinação singular dos fatores predisponentes, dos fatores precipitantes (aumento do estresse próprio do ciclo de vida, dietas rigorosas) e dos fatores perpetuadores (práticas repetidas de controle do peso: jejuns, episódios de compulsão alimentar, purgas, e suas sequelas fisiológicas e psicológicas).
O contexto sociocultural, os fatores individuais e os fatores familiares descritos acima.
Aumento do estresse próprio do ciclo de vida, dietas rigorosas.
Práticas repetidas de controle do peso (jejuns, episódios de compulsão alimentar, purgas) e suas sequelas fisiológicas e psicológicas.
Seguindo o nosso mapa, o que acabamos de descrever como os fatores do TA poderia também ser chamado de soluções tentadas pelas pessoas para resolver o problema. Precisamente, o problema (a necessidade de controlar o peso e a silhueta) se perpetua graças às práticas de controle do peso que buscam resolvê-lo: restrição calórica ou dietas rigorosas, que levam à inanição se forem “bem-sucedidas”, ou ao episódio de compulsão alimentar como reação fisiológica natural para compensar a privação. A compulsão alimentar, por sua vez, leva a provocar o vômito ou a tomar laxantes e/ou diuréticos como reação psicológica para retomar o controle, o que legitima o início de um novo ciclo e, por conseguinte, a perda de controle.
Para lembrar
O círculo vicioso das soluções tentadas: restrição ou dieta rigorosa → inanição ou compulsão alimentar (reação fisiológica à privação) → vômitos, laxantes, diuréticos (reação psicológica para retomar o controle) → novo ciclo, e portanto perda de controle. São as tentativas de resolver o problema que o perpetuam.
Para prosseguir a viagem com o nosso mapa, é essencial descobrir a lógica que liga o problema às tentativas de resolvê-lo, porque é nesse espaço cognitivo que será preciso operar para que as ações se modifiquem. Ver o que acontece de outro modo torna possível fazer algo diferente a respeito.
Vamos conhecer algumas das crenças individuais, familiares e/ou sociais nas quais se apoiam as pessoas envolvidas para pôr em prática esse tipo de solução:
Do ponto de vista familiar, as ideias que sustentam as ações parecem mais ligadas a:
Questões não resolvidas pelos pais no manejo da própria imagem corporal, das quais às vezes têm pouca consciência, de modo que, por um lado, criticam o aspecto físico das filhas e as empurram para a dieta, mas caem em contradição quando o susto com os resultados obtidos pelas filhas, no desejo de agradar, obriga a família a freá-las.
Questões históricas ligadas a essa filha em particular, pelas quais se justifica a situação atual ou se espera que ela se modifique: “coitada, ela nunca conseguiu…”, “desde que nasceu, é a mais frágil”; “ela nunca nos deu problemas, vai sair dessa”, “tenho confiança, ela vai sair dessa sozinha”.
A própria instalação do transtorno, que modifica de fato as ideias e as interações anteriores: “coitada, ela está doente”; “eu também não conseguiria comer assim”; “nada vai fazê-la mudar de ideia”; “ela sempre faz o que quer”; “estou convencida de que não posso ajudá-la” etc.
A primeira intervenção recomendável para produzir a mudança cognitiva que tornará possível a modificação dos hábitos consiste em dar a informação básica que esclarece a relação direta entre as práticas de controle do peso e a manutenção e o agravamento do sintoma, e que, ao mesmo tempo, alerta para a gravidade da situação se ela se prolongar sem se resolver. Essa realidade é “dura”, não está sujeita a redefinições e, dado o risco a que a paciente está exposta, não pode ser evitada. Trata-se de dar ferramentas de mudança à família, função-chave da terapia.
A segunda intervenção é quase simultânea e consiste em garantir um acompanhamento médico da dimensão orgânica, quando ele não existe. Habitualmente, nos casos de AN, não são as pacientes que consultam, mas seus pais ou as pessoas significativas responsáveis por elas. Transmitir-lhes essa informação torna quase sempre possível uma modificação radical das maneiras de enfrentar a situação. Essas pessoas podem começar a tomar as coisas em mãos de modo mais eficaz, com o acompanhamento da equipe profissional, que dá as orientações a partir de um lugar mais periférico e, por isso mesmo, menos exposto ao confronto por parte da paciente.
Nos casos de BN e de outras variedades de TA, essa informação, transmitida por meio de grupos psicoeducativos, habitualmente contrabalança a tal ponto as crenças pessoais e as adquiridas por meio da mídia que, uma vez terminado o ciclo de cinco reuniões, o estado do sintoma mostra uma diminuição muito significativa. A partir dessa experiência, redesenha-se o tratamento a seguir, que geralmente prossegue com uma continência familiar enquadrada, com uma reeducação nutricional com uma pessoa especialista no assunto, e com a recomendação de se integrar a um grupo de pares, concebido para aprender a resolver problemas, e não apenas alimentares.
Todo o trabalho se faz numa estreita comunicação entre as diferentes especialidades envolvidas (clínica geral, nutrição, ginecologia, psicoterapia e psiquiatria, quando houver), procurando que seja, de uma maneira ou de outra, a pessoa em relação à qual a paciente e/ou a família têm a maior motivação quem conduza a estratégia concebida. Por exemplo: se o único motivo pelo qual a paciente consente em consultar é “recuperar a menstruação”, procuraremos então mobilizar a motivação a partir da ginecologista, que é, de fato, quem tem mais poder para convencê-la. Ou será a terapia familiar o eixo explícito quando a família chega com a convicção de que se trata de um problema psicológico, ainda que sua primeira tarefa seja convencer a família de que a paciente vai se curar comendo, ou abandonando as dietas para acabar com os episódios de compulsão alimentar.
Primeira intervenção
Dar a informação básica: a relação direta entre as práticas de controle do peso e a manutenção do sintoma, e a gravidade da situação se ela se prolongar. Uma realidade “dura”, não sujeita a redefinição.
Segunda intervenção, quase simultânea
Garantir um acompanhamento médico da dimensão orgânica, e fazer com que a estratégia seja conduzida pela pessoa em relação à qual a paciente ou a família estão mais motivadas.
Para terminar, é importante sublinhar que, a nosso ver, há dois eixos fundamentais sobre os quais se concebe a intervenção:
A família é o meio natural e desejável para a recuperação da paciente, e os pais têm recursos para acompanhar o caminho, seguindo as orientações da equipe competente.
Nas intervenções, só se aumenta o recurso aos meios disponíveis quando o que veio antes não foi suficiente. O grau de prescrição terapêutica será função da gravidade da situação.
A ideia é ir do menos ao mais e, se a internação ou o hospital-dia forem inevitáveis, recomenda-se reinserir progressivamente as pacientes em seu meio familiar e social, no menor prazo possível. É fundamentalmente em seu próprio meio que se encontram as melhores possibilidades de recuperação; o fato de não ocupar um lugar central no processo de recuperação faz com que os pais se sintam impotentes, com o desperdício de recursos que isso implica.
Acreditamos que é nosso dever que a intervenção terapêutica (a viagem pelo território transtornado) seja a mais breve possível, e que o fato de “estar em tratamento” não acabe se tornando um modo de vida ou uma adição substituta.
Notas do original
(1) No original, “pilcha”, argentinismo: roupa, vestimenta.
(2) Estatísticas publicadas pelo Toronto Hospital, Canadá, 1994.
(*) “Uma descrição típica que uma anoréxica pode fazer da sua situação conta como, no início, ela fez um grande esforço de vontade para parar de comer: pacto com uma amiga, promessa religiosa etc. Isso daria conta do fato de que a perda do desejo de comer (…) não sobrevém antes que a paciente esteja bem avançada em seu estado de desnutrição. O que indica que a perda do desejo de comer não é a causa, mas a consequência de parar de comer. Não é à toa que os velhos médicos de família sabiam que, para resolver esse tipo de problema, bastava aplicar o clássico ‘o apetite vem comendo’. (…) A direção da recuperação não deve consistir em recuperar primeiro a fome e depois comer, mas exatamente o inverso.” Citação do livro de Crispo, R., Figueroa, E. e Guelar, D., Trastornos del comer, Herder, 1994, p. 46-47.
Quem assina este artigo
Profissionais de psicologia, Rosina Crispo, Eduardo Figueroa e Diana Guelar fazem parte da equipe do Centro de Trastornos del Comer desde 1985.
Este artigo é a tradução para o português de “Anorexia y bulimia: lo que hay que saber. Un mapa para recorrer un territorio trastornado”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 34, décembre 1994 – février 1995). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Crispo, R., Guelar, D., & Figueroa, E. (2022). Anorexia e bulimia: o que é preciso saber. Um mapa para percorrer um território transtornado (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/anorexia-e-bulimia-o-que-e-preciso-saber-um-mapa-para-percorrer-um-territorio-transtornado (Obra original publicada em 1994 em Perspectivas Sistémicas, n° 34, décembre 1994 – février 1995; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/24/anorexia-y-bulimia-lo-que-hay-que-saber-un-mapa-para-recorrer-un-territorio-trastornado/)
Para ir mais longe
Comentários 0
Entre para participar da discussão. Entrar