Journal of Solution Focused Practices · Opinião

Cavalos, histórias e futuros: reflexões sobre a evolução da terapia breve focada nas soluções

Bruno Latour conta uma exposição do Museu de História Natural de Nova York: de um lado, fósseis de cavalos; do outro, a história das interpretações que os cientistas deram deles. Gale Miller encontra aí uma maneira de pensar o futuro da terapia breve focada nas soluções: e se grandes cavalos de três dedos e dentes longos já existissem no mundo da terapia, sem que ninguém os reconhecesse pelo que são? Três pistas para ir procurá-los: escutar o que os clientes ensinam aos terapeutas, reler as versões oficiais da abordagem e continuar conversando ali onde não há acordo.

Autor Gale Miller, Marquette UniversityPrimeira publicação Journal of Solution Focused Practices, 2020Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Horses, Histories and Futures: Some Thoughts on the Evolution of Solution-Focused Brief Therapy, de Gale Miller, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2020), doi: 10.59874/001c.75065, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido, rediagramado e provido de intertítulos, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelo autor nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Sem conversa séria, não há evolução.

Gale Miller

Duas histórias do cavalo

O sociólogo da ciência francês Bruno Latour (2006) conta que, há uns vinte anos, visitou o Museu de História Natural de Nova York. Latour começou pelo último andar, onde encontrou uma exposição em duas partes dedicada à história dos cavalos. Uma delas consistia em um arranjo de fósseis que traçava a evolução dos cavalos, desde sua mais antiga presença conhecida na terra até hoje. A outra mostrava a história das interpretações que os cientistas deram dessa evolução. Ele observa que os cientistas afirmam que os cavalos, de modo geral, passaram de pequenos animais de três dedos e dentes curtos a grandes animais de um só dedo e dentes longos.

Latour acrescenta, no entanto, que há grande variação dentro dessa tendência. Mesmo tendo a maioria dos cavalos evoluído da maneira típica, encontramos fósseis do século XX de cavalos menores, de três dedos e dentes curtos. A história dos cavalos tal como a contam os fósseis é muito mais variada do que a história contada pelas representações lineares desse processo. Latour volta-se em seguida para as interpretações que os cientistas dão do sentido dos fósseis. Também aí ele descobre diferenças significativas, inclusive cientistas que põem em dúvida a certeza de seus próprios enunciados sobre a evolução dos cavalos. Latour (2006) escreve que “… todo o andar é pontuado por vídeos de cientistas em trabalho, pequenas biografias de caçadores de fósseis famosos em guerra uns com os outros, e até por reconstituições divergentes de esqueletos, para provar ao público que ‘não sabemos com certeza…’” (p. 4).

As duas partes da exposição mostram que, embora as interpretações dos cientistas sobre a evolução dos cavalos estejam ligadas às descobertas desenterradas pelos arqueólogos, essas interpretações são mais do que simples relatos dessas descobertas. Elas também dependem dos lugares onde se procuram os fósseis, da maneira como se os data, dos modos como se os monta em representações de cavalos e dos pressupostos dominantes sobre o que é o estudo científico correto dos cavalos. Tais decisões podem institucionalizar-se como pressupostos e métodos habituais de avaliação da credibilidade científica das próprias pesquisas e das dos outros. Os pressupostos e os métodos tornam-se justificativas quando os cientistas os usam, por exemplo, para minimizar a importância da existência de cavalos de três dedos numa época em que a maioria dos cavalos tem apenas um.

E se encontrássemos uma manada hoje?

A descrição hábil de Latour constitui um ponto de partida para refletir sobre uma série de questões a respeito do uso que os cientistas fazem da categoria social chamada cavalo. Por exemplo, como reagiriam os cientistas à descoberta de uma manada de grandes animais cavalares de três dedos e dentes longos, vivendo no mundo contemporâneo? Tratariam esses animais como uma curiosidade interessante, sem relação com seu saber científico? Posso imaginar alguns cientistas declarando que a categoria de “cavalo” só se aplica a animais que outrora foram pequenos, de três dedos e dentes curtos, e que hoje são grandes, de um só dedo e dentes longos. Portanto, os animais recém-descobertos não seriam vistos como cavalos.

Outros poderiam dizer que os animais recém-descobertos mostram que o tamanho do corpo, o comprimento dos dentes e o número de dedos dos cavalos evoluem de maneira relativamente independente uns dos outros. Isso poderia ser uma base para classificá-los como uma variação distinta dentro da evolução dos cavalos. Um terceiro grupo poderia insistir em que a manada recém-descoberta anuncia o futuro dos cavalos. Se ao menos pudéssemos viver o bastante, veríamos que a maioria dos cavalos, no futuro, será grande, terá três dedos e dentes longos. Assim, os cientistas que definem os grandes cavalos de três dedos e dentes longos como não sendo cavalos de verdade declaram prematuramente o fim da evolução do cavalo. Diante dessas possibilidades, é de espantar que as conversas dos cientistas sobre os limites de seu saber nunca cessem?

Cavalos de três dedos no mundo da terapia

O que quero dizer talvez seja óbvio. Os terapeutas focados nas soluções não têm mais intuição do que qualquer outra pessoa sobre o que será sua vida futura. Isso não deveria, porém, impedi-los de imaginar o que é possível no futuro. Essas imaginações importam, porque alimentam a maneira como os terapeutas avaliam as mudanças que podem emergir no pensamento e na prática focados nas soluções. A ligação estreita entre imaginar o que é possível no futuro e avaliar as descobertas inesperadas está no centro do meu desacordo hipotético: de um lado, cientistas que sustentam que grandes animais cavalares de três dedos são um indício precoce do que o futuro reserva; de outro, cientistas que os descartam como algo que não é cavalo.

Reconheço que esse tipo de comentário é senso comum para terapeutas focados nas soluções, que facilitam a mudança encorajando seus clientes a ver e a pensar de outro modo os acontecimentos reais e possíveis de suas vidas. Esse senso comum também pode servir para imaginar e enxergar os desenvolvimentos futuros possíveis do pensamento e da prática focados nas soluções. Para mim, ir ao encontro dos futuros possíveis começa pela seguinte realidade imaginada: algo como grandes cavalos de três dedos e dentes longos existe no mundo da terapia, ainda que os pensadores e praticantes focados nas soluções nem sempre os reconheçam pelo que são.

Essa hipótese me ajuda a ver futuros focados nas soluções possíveis nas ideias e nas práticas de terapeutas que não se classificam a si mesmos como focados nas soluções, e nos desvios que tomam, em relação às ideias e às práticas habituais, terapeutas que são, esses sim, reconhecidos como focados nas soluções. Infelizmente, essas fontes potenciais de mudança estão em grande parte ausentes dos congressos de terapia focada nas soluções, das revistas e dos outros lugares estabelecidos de participação na comunidade focada nas soluções. Essa ausência é lamentável, pois priva os terapeutas focados nas soluções de recursos potencialmente ricos para imaginar seus futuros. Concluo discutindo algumas maneiras pelas quais os terapeutas focados nas soluções poderiam ajudar uns aos outros a imaginar e a notar coletivamente novas direções possíveis na evolução de sua comunidade.

Três maneiras de ir ao encontro dos futuros possíveis

Perguntar o que os clientes ensinaram ao terapeuta

Talvez a fonte mais rica de percepções sobre os futuros possíveis sejam as técnicas usadas pelos terapeutas na interação com seus clientes. Vejo as técnicas focadas nas soluções como vagamente semelhantes ao tamanho do corpo, aos dedos e aos dentes dos cavalos. A evolução dos cavalos é uma história de ambientes mutáveis aos quais os cavalos lentamente se adaptam. Essa lição é facilmente esquecida quando se trata das mudanças nas práticas dos terapeutas focados nas soluções. Com demasiada frequência, os defensores de novas técnicas insistem em excesso no modo como suas práticas derivam de princípios focados nas soluções já estabelecidos e subestimam o quanto suas interações com os clientes são contextos de invenção. Essa ênfase corre o risco de ocultar que os clientes são agentes que influenciam o tipo de perguntas que os terapeutas podem fazer e, talvez o mais importante, o que as perguntas dos terapeutas significam no contexto das interações terapêuticas.

Uma maneira alternativa de dar sentido a uma técnica nova consiste em perguntar: “Como os clientes desse terapeuta lhe ensinaram a fazer isso?” Uma pergunta correlata diz respeito aos ambientes profissionais em transformação aos quais os praticantes focados nas soluções se adaptam. Essas perguntas também permitem contestar a rejeição das técnicas antigas como não sendo mais pertinentes para a prática focada nas soluções. Tratar qualquer prática do passado como não sendo mais pertinente é arriscado para pessoas que trabalham em ambientes que não controlam inteiramente. O futuro às vezes se esconde nos vestígios de pressupostos e práticas de outrora, marginalizados pela sabedoria convencional do momento. Os clientes podem ser muito hábeis em revelar esses futuros.

Reler as versões oficiais

Uma segunda maneira de ir ao encontro dos futuros possíveis consiste em reinterpretar as versões oficiais do que significa ser focado nas soluções. Considere como os textos venerados, as histórias dominantes e os métodos de formação habituais poderiam ser refundidos para construir novas percepções e novas práticas, mais bem ajustadas às suas condições de trabalho. Peça àqueles que justificam suas técnicas inovadoras fazendo-as derivar de ideias focadas nas soluções de longa data que discutam também como suas invenções alteram, ou mesmo questionam, alguns aspectos do pensamento focado nas soluções já estabelecido. Isso não é heresia. É a própria maneira como a terapia breve focada nas soluções foi criada no início. Sei que os terapeutas focados nas soluções gostam de dizer que não se deve tentar consertar um problema que não existe, mas essa afirmação foi feita a respeito da situação dos clientes. Ela não capta fielmente a atitude dos primeiros experimentadores dessa abordagem da mudança, nem o trabalho dos inovadores atuais.

Continuar conversando, sobretudo onde não há acordo

Em terceiro lugar, continuem interagindo uns com os outros, particularmente em torno dos pontos de desacordo. Essa é, para mim, a lição mais importante da história de Latour. Os cientistas discordam continuamente sobre como estudar os fósseis de cavalos e sobre o que aprenderam com eles. Reconhecem também que, sem conversa séria, não há evolução. Conversas sérias, envolvendo múltiplas perspectivas, lembram-nos que ninguém sabe realmente o que o futuro reserva. Os terapeutas focados nas soluções poderiam animar-se com os cientistas de Latour, que fazem de suas incertezas sobre a evolução dos cavalos a energia de seus esforços contínuos para compreender o que é ser um cavalo.

Aqueles que não vão aos congressos

Isso me traz de volta àqueles grandes cavalos de três dedos e dentes longos que não vão aos congressos profissionais. Quem são eles, o que seus clientes querem deles, como respondem aos desejos e às necessidades desses clientes, em que seus ambientes de trabalho se parecem com os da maioria dos praticantes focados nas soluções e em que deles diferem, e como adquiriram suas competências e seus saberes? Vejo nos congressos focados nas soluções cenários particularmente promissores para interagir com terapeutas cujas ideias e práticas poderiam desafiar a sabedoria convencional dos pensadores e praticantes focados nas soluções. Suas ideias podem estimular novas conversas sobre o que significa ser focado nas soluções e sobre os limites daquilo que os terapeutas focados nas soluções da corrente dominante compreendem do que o pensamento e a prática focados nas soluções poderiam vir a ser.

Referências

Latour, B. (2006). A textbook case revisited – Knowledge as mode of existence. In E. J. Hackett, O. Amsterdamska, M. E. Lynch, & J. Wajam (Eds.), The handbook of science and technology studies (3rd ed., 2007, pp. 83–112). Cambridge, MA: MIT Press.

Tradução não oficial para o português de Horses, Histories and Futures: Some Thoughts on the Evolution of Solution-Focused Brief Therapy, de Gale Miller, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n. 1 (2020), doi: 10.59874/001c.75065, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Horses, Histories and Futures: Some Thoughts on the Evolution of Solution-Focused Brief Therapy”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2020) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Miller, G. (2020). Cavalos, histórias e futuros: reflexões sobre a evolução da terapia breve focada nas soluções (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/cavalos-historias-e-futuros-reflexoes-sobre-a-evolucao-da-terapia-breve-focada-nas-solucoes (Obra original publicada em 2020 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n° 1; republicada em 2020 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75065)

Para ir mais longe

Trocas

Comentários 0

Entre para participar da discussão. Entrar

  1. Nenhum comentário por enquanto. Comece a discussão.

Carrinho

Seu carrinho está vazio.