Resenha · Red Sistémica

O jogo dos vínculos. Subjetividade e redes: figuras em mutação

Denise Najmanovich pensa ali a subjetividade como uma tecelagem de vínculos, e não como uma propriedade de indivíduos, e o corpo como um corpo encarnado, situado, histórico. Elina Dabas dá conta dele da única maneira que lhe parece honesta para um livro assim: contando onde estava quando o leu. Um hotel do noroeste argentino, cento e trinta pessoas vindas de comunidades distantes e uma mulher que não tinha terminado de falar com o filho.

Obra El juego de los vínculos. Subjetividad y redes: figuras en mutación, de Denise Najmanovich, Editorial Biblos, 126 páginas. Não existe edição em português.Resenha por Elina DabasTradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

Uma leitura datada e situada

O comentário se abre com uma cena de táxi. Uns vinte dias antes, a caminho de uma reunião, Denise Najmanovich entregou a Elina Dabas o primeiro exemplar do seu livro, recém-saído: queria que ela fosse a primeira a tê-lo. Nenhuma das duas soube, naquele momento, pôr em palavras o que aquilo trazia de afeto, de narrativas trocadas, de conversas mantidas e de conversas prometidas. Quando a autora lhe pede, duas semanas depois, que escreva um comentário, Dabas começa por medir a dificuldade: pôr ordem nas imagens e nas associações que o livro suscita equivaleria a tirar-lhes o sabor e a polivocidade.

Ela aceita então ocupar, provisoriamente, o papel de “a comentarista”, sabendo que tanto o prazer quanto a angústia vêm de se deixar inundar pela obra. E escolhe retomar o itinerário do encontro entre as duas em vez de resumir teses.

No dia seguinte, o livro parte na sua mala rumo a Tucumán. Três dias e três noites, cento e trinta pessoas vindas dessa província e de Jujuy, para falar das crianças e das famílias das suas localidades e do que favorece o seu crescimento. Gente distante das palavras “subjetividade”, “paradigma”, “complexidade”, “corpo encarnado”, mas muito próxima da própria vida e dos próprios silêncios. Muitas tinham viajado horas; para várias delas, era a primeira vez que deixavam a sua comunidade e a sua família.

Rosalía, ou a eficácia como ponto cego

Na primeira noite, no grande salão de jantar do hotel, Dabas repara em uma mulher de traços incas, cabeça baixa, o prato intacto diante de si. Julga-a adoentada, aproxima-se, apresenta-se, pergunta o seu nome e depois o que não vai bem. A resposta vem em voz muito baixa, sem que ela levante os olhos: “é que eu não pude terminar de falar com o meu filho”. Dabas entende primeiro uma ligação telefônica interrompida. Depois vem a explicação: tinham sido chamadas para o jantar. Ela leva alguns instantes para compreender e reage com vergonha diante da sua própria eficácia organizacional — horários e dinâmicas pensados em Buenos Aires, em uma língua concebida como universal. Ela apenas se oferece para acompanhá-la a ligar de novo para o filho depois da refeição. Rosalía levanta a cabeça, mal sorri, murmura um obrigada e aproxima a sua cadeira da mesa.

Naquela noite, Dabas abre o livro. Já no prólogo, uma frase a toma: o jogo dos vínculos consistiria em criar formas sem congelá-las, em fazer existir. Depois o primeiro capítulo a interpela perguntando de que falamos quando falamos do corpo — e ela revê o corpo curvado de Rosalía enquanto o seu percorria com segurança o espaço de uma organização cuidadosamente pensada. Ela não apenas ajudou: foi Rosalía que a ajudou em um dos seus pontos cegos.

“Somos cegos da nossa cegueira. Somos incapazes de ver que não vemos.”

Denise Najmanovich, citada por Elina Dabas

A comentarista mede então o número de bifurcações que poderia ter tomado: não ver Rosalía; vê-la sem se aproximar; aproximar-se, interrogá-la e atribuir a sua reação a uma submissão ancestral. O que ela fez, em vez disso, foi repensar a organização “eficaz” de um encontro que produzia desacordos com os vínculos singulares de cada um.

O que o livro compromete

A leitura assim conduzida faz ressaltar o gesto inaugural do livro: ele exige, como ponto de partida, que se precise o lugar de onde se fala. Daí três dimensões que atravessam toda a escrita de Najmanovich, tal como Dabas as identifica: uma dimensão ética, pela decisão de quem fala de assumir o seu discurso; uma dimensão estética, que reconhece a importância do conteúdo da forma e dos vínculos que ela cria; uma dimensão política, porque esse discurso reivindica um lugar no tecido relacional contemporâneo.

Daí decorre uma tese sobre a tradução, que Dabas retém porque ilumina o seu contratempo de Tucumán: as linguagens são incomensuráveis entre si, e nunca se passa mecanicamente de uma a outra, mas por uma tradução parcial, metafórica e criativa — inclusive entre a linguagem verbal e a experiência corporal.

A seção dedicada ao “corpo da modernidade” é a que provoca na comentarista mais surpresa e admiração: ela vê ali descritas as inoculações sutis e profundas que recebemos e das quais é difícil se desfazer. O capítulo se fecha, lembra ela, com a ideia de que o sujeito encarnado goza do poder de criar e de escolher, mas que lhe cabe assumir o mundo que cocriou.

O que o livro traz

Um instrumental conceitual para pensar a subjetividade em termos de vínculos e de redes, e não de indivíduos, útil a quem trabalha com comunidades, instituições ou dispositivos coletivos. E um lembrete exigente para o clínico: o lugar de onde se fala nunca é neutro, e a eficácia de um enquadre pode produzir exatamente os desacordos que ela pretende evitar.

Quem é Denise Najmanovich

Doutora pela PUC de São Paulo, é professora de epistemologia das ciências sociais e de epistemologia da psicologia social na Universidade CAECE, bem como professora de subjetividade e organização no mestrado de psicologia das organizações. É conselheira acadêmica da Fundação para o Desenvolvimento e a Promoção das Redes Sociais (FUNDARED).

A Red Sistémica publica apenas um fragmento deste comentário; o texto integral de Elina Dabas foi publicado em Perspectivas Sistémicas n. 88. As passagens do livro que a resenha cita longamente não são reproduzidas aqui: restituiu-se o seu teor.

Esta resenha é a tradução para o português de “Comentando «El juego de los vínculos», de Denise Najmanovich”, publicada pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 88). Traduzida e republicada com a autorização da revista.

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Como citar este artigo

Dabas, E. (2022). O jogo dos vínculos. Subjetividade e redes: figuras em mutação (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-jogo-dos-vinculos-subjetividade-e-redes-figuras-em-mutacao (Obra original publicada em 2022 em Perspectivas Sistémicas, n° 88; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/08/01/comentando-el-juego-de-los-vinculos-de-denise-najmanovich/)

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