Journal of Solution Focused Practices · Terapia focada nas soluções

A elaboração teórica de Steve de Shazer

Ouve-se dizer com frequência, dentro e fora da comunidade focada nas soluções, que a terapia breve focada nas soluções não tem teoria e não passa de uma coleção de técnicas úteis. Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan releram Steve de Shazer de ponta a ponta, de 1969 até sua morte em 2005. Dividem seu trabalho em quatro fases, extraem de cada uma os axiomas que ele sustentou até o fim e tornam visível o que a sua maneira de fazer teoria — colar-se ao que é observável na sala — tem de absolutamente singular no campo das psicoterapias.

Autores Harry J. Korman, M.D., SIKT Malmö, Suécia; Peter De Jong, Ph.D., MSW, International Microanalysis Associates, Victoria, Colúmbia Britânica, e Calvin University, professor emérito de sociologia e serviço social, Grand Rapids; Sara Smock Jordan, Ph.D., LMFT, professora associada e diretora do programa de terapia de casal e família, Universidade de Nevada, Las VegasPrimeira publicação Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n. 2, novembro de 2020Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português de Steve de Shazer’s Theory Development, de Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2020) sob licença CC BY 4.0. O texto foi traduzido e, portanto, modificado pelo Complexe Systémique. Esta tradução não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros; a versão original prevalece.

“A teoria de Steve de Shazer é uma teoria sobre a terapia: não é uma teoria sobre as pessoas que estão em terapia.”

Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan

Resumo

Este artigo traça os desenvolvimentos do pensamento teórico de Steve de Shazer, de 1969 até sua morte em 2005. Depois de examinar sua definição de “teoria”, organizamos os desenvolvimentos de sua elaboração teórica em quatro fases, extraindo de cada uma os axiomas que ele continuou a sustentar até a morte. Para cada axioma, indicamos em que medida ele é fundante para a compreensão da TBFS e contribui, portanto, para distinguir a TBFS das outras terapias pela fala. Mantemo-nos o mais próximo possível dos escritos de de Shazer, citando com frequência seus muitos artigos e seus seis livros. Concluímos com um resumo do que consideramos serem os seis axiomas duradouros de sua teoria da TBFS, com os traços marcantes do modo como ele desenvolveu suas teorias ao longo dos anos e com a nova lente que nos deixou para olhar as interações terapêuticas, além de um exemplo de pesquisa que promete ampliar seu legado teórico.

Introdução

É comum, tanto dentro quanto fora da comunidade focada nas soluções, ouvir a afirmação de que a terapia breve focada nas soluções (TBFS) não tem teoria, mas é simplesmente uma abordagem feita de técnicas úteis de prática. O próprio Steve de Shazer contribuiu para essa crença, pois afirmava com frequência, em oficinas e reuniões, que “a terapia breve focada nas soluções não tem teoria”. Seu estilo de ensinar também tornava difícil discutir o tema da teoria. Ele seguia o conselho de Wittgenstein: “Tudo o que o seu leitor puder fazer sozinho, deixe para ele” (Wittgenstein, 1984, p. 77), o que muitas vezes era desconcertante, para não dizer bizarro, para seu público. Por exemplo, em uma oficina na Alemanha em que Kirsten Dierolf traduzia, uma participante fez a simples pergunta: “O que você faz com a depressão?”, e de Shazer respondeu: “Eu não entendo essa pergunta?” (Dierolf, 2015, pp. 38-39). Sua resposta está de acordo com a ideia de que, ao responder a uma pergunta, aceitam-se os pressupostos contidos nela. A pergunta “o que você faz com a depressão” pressupõe que um terapeuta faz algo com a depressão, o que não cabe no quadro da TBFS. Sua resposta — “não entendo a pergunta” — levava com frequência os participantes a perguntar sobre sua teoria da depressão, da doença mental ou do que fosse. De Shazer então respondia que a TBFS não tem teoria sobre essas coisas. Essa resposta, e outras semelhantes, podem ter contribuído para a crença de que a TBFS não tem teoria.

Se examinarmos a fundo o desenvolvimento histórico da TBFS, e sobretudo os escritos de de Shazer, fica claro que ele e seus colegas falavam de teoria diariamente. De Shazer escreveu seis livros e cerca de setenta e cinco artigos, e pelo menos um terço desse conteúdo trata de teoria. Eve Lipchik, importante colaboradora dos primeiros tempos do desenvolvimento da TBFS, escreveu sobre a evolução da TBFS em seus dez primeiros anos: “a equipe [do Brief Family Therapy Center de Milwaukee (BFTC)] sempre tentou usar a teoria para guiar a prática e testar ainda mais, com os clientes, as práticas derivadas da teoria” (Lipchik et al., 2013, p. 6). Dada essa relação estreita entre teoria e prática no BFTC, os autores acreditam ser essencial examinar de perto a “teoria” de de Shazer em seus escritos para compreender mais plenamente o desenvolvimento da TBFS.

Este artigo é fruto de um estudo e de uma reflexão iniciados há vários anos com a International Microanalysis Associates (IMA). Junto com nossa colega da IMA Janet Bavelas1, ficamos impressionados com a frequência com que praticantes afirmavam, em congressos, que a TBFS não tem teoria. Decidimos, então, reler os escritos de de Shazer do começo ao fim, concentrando-nos no desenvolvimento teórico e extraindo os axiomas da teoria que ele elaborou. “Um axioma é um enunciado aceito como verdadeiro e que serve de base para uma argumentação ou uma inferência” (Merriam-Webster.com Dictionary, Merriam Webster, https://www.merriam-webster.com/dictionary/axiom, acesso em 28 de setembro de 2020). Entre os sinônimos de axioma estão postulado, princípio ou proposição primeira. Como seus sinônimos, os axiomas são os enunciados fundantes sobre os quais uma teoria se constrói. Ao longo dos anos, apresentamos esses axiomas em congressos (Bavelas, De Jong, & Smock Jordan, 2014; Bavelas & Korman, 2014; De Jong & Smock Jordan, 2014; Korman, 2018) e oferecemos agora nossas reflexões e conclusões em forma de artigo.

Primeiro, abordamos o modo como de Shazer definia teoria, tentando desfazer a confusão em torno de sua afirmação de que “a terapia breve focada nas soluções não tem teoria”. Em seguida, traçamos o desenvolvimento da teoria de de Shazer através de quatro fases sucessivas. Depois de resumir e citar seus escritos em cada fase, concluímos com o enunciado do ou dos axiomas que acreditamos que ele desenvolveu naquela fase. O artigo termina com uma discussão dos axiomas que perduraram e estavam em vigor quando de sua morte, em 2005. Em nossa conclusão, propomos o significado do ponto de vista teórico de de Shazer para os praticantes dos campos da terapia e do coaching.

O que de Shazer entendia por “teoria”?

Como já observamos, cerca de um terço dos escritos de de Shazer discute explicitamente teoria. Para compreender sua pesquisa e seu desenvolvimento teórico, é importante compreender a distinção que ele traçava entre Teoria (teoria com T maiúsculo) e teoria (teoria com t minúsculo). De Shazer expressamente não tentou explicar o comportamento humano nem a doença mental. Sua teoria era, ao contrário, deliberada e explicitamente limitada:

Certamente, não tive a intenção de desenvolver, nem desenvolvi, uma Teoria ou um Grande Projeto, uma Teoria que tente explicar tudo ou que possa ser usada como se tivesse sido concebida para explicar tudo (de Shazer, 1994, p. 274).

Ele afirmava, antes:

Desde que comecei a praticar terapia breve, no início dos anos 1970, minha pergunta de “pesquisa” era: “O que os terapeutas fazem que seja útil?” Nos anos 1980, mudamos isso para: “O que clientes e terapeutas fazem juntos que seja útil?” (de Shazer & Berg, 1997, p. 122).

Steve de Shazer era rigoroso. Dois pontos permaneceram constantes em seus projetos de pesquisa e de construção teórica. Um dizia respeito aos fenômenos que ele e seus colegas estudavam, e o outro, às condições de alcance de sua pesquisa. Dito de outro modo, o primeiro tratava daquilo que de Shazer e seus colegas olhavam, e o segundo identificava sob que condições suas teorias eram válidas e úteis. Uma de suas muitas declarações sobre o que tentava alcançar é de 1991:

Construção teórica. Para construir uma teoria útil sobre como fazer terapia (breve), precisamos identificar o que é observável e repetível nas sessões de terapia. Precisamos descrever as regularidades de sessão para sessão e de caso para caso, com base no que terapeutas e clientes efetivamente fazem durante as sessões. Portanto, o desenvolvimento teórico precisa se basear na observação disciplinada da terapia tal como é feita dentro de um contexto específico. A partir desse processo, pode-se construir uma descrição do que se faz nas sessões e, então, criar regras que permitam a outras pessoas fazer terapia “do mesmo modo” (Gingerich & de Shazer, 1991, pp. 241-242).

De Shazer também definia claramente o que entendia por “teoria”:

Teoria, no sentido em que uso o termo, não é entendida como uma “explicação” [isto é, inferências], mas antes como uma “descrição” coerente de sequências específicas de eventos dentro de um contexto específico [isto é, uma descrição do terapeuta interagindo com o cliente no cenário terapêutico] (de Shazer, 1988, p. xiv).

Ele também definia claramente aquilo de que sua teoria não tratava:

A teoria [da TBFS] não tem absolutamente nada a dizer sobre “problemas, queixas, dificuldades” etc. De fato, a teoria explicitamente não inclui nem exclui ideias sobre causação, e não inclui nem exclui as várias ideias sobre manutenção do problema: ela trata apenas de como fazer terapia (de Shazer, 1988, p. xix).

Inicialmente, de Shazer concentrou-se em descrições do que o terapeuta faz na sala e depois passou a se concentrar no que terapeuta e cliente fazem juntos, isto é, em suas interações. Ao subscrever uma visão interacional, ele recusou-se a teorizar sobre comportamentos ou problemas fora das interações terapeuta-cliente nas quais esses comportamentos ou problemas eram descritos. Limitou ainda mais sua teoria às interações visíveis e audíveis2 na sala de terapia do BFTC, dizendo que essas eram as condições de alcance de sua teoria. Acrescentava, no entanto, que a teoria seria inútil se não pudesse ser aplicada em outros cenários (de Shazer, 1988, p. 67).

O projeto de construção teórica de de Shazer destaca-se dos demais desenvolvimentos teóricos do campo da psicoterapia. Habitualmente, a construção teórica nesse campo parte de um conjunto de proposições inter-relacionadas sobre a natureza e a causa de um problema. A construção teórica de de Shazer, ao contrário, começou com a tentativa de conceituar as regras que Milton Erickson usava quando concebia suas intervenções incomuns (Erickson, 1980). De Shazer passou então a descrever o que o terapeuta fazia e, em seguida, o que clientes e terapeutas faziam juntos. Durante todo esse percurso, ele não parou de desenvolver descrições teóricas de como a mudança acontece na terapia.

Sua teoria em desenvolvimento da TBFS como “… uma descrição coerente de uma sequência de eventos dentro de um contexto específico” (1988, p. 63) pode ser comparada à teoria da gravidade de Einstein. Nos dois casos, os estudiosos podem descrever o que está observavelmente acontecendo, mas admitem não saber com precisão como nem por que os fenômenos ocorrem daquele modo. Einstein afirmou, por exemplo, que a gravidade curva o espaço, o que não diz muito sobre como ou por que a gravidade funciona assim. Ainda assim, com as sofisticadas descrições matemáticas de Einstein, cientistas e engenheiros conseguiram enviar pessoas à Lua e trazê-las de volta. Do mesmo modo, as descrições coerentes que de Shazer desenvolveu ao longo dos anos sobre o que acontece nas interações terapeuta-cliente na TBFS não retratam como nem por que essas interações funcionam. Mesmo assim, apoiando-se em suas descrições, muitos terapeutas de TBFS ajudam clientes a viver vidas mais satisfatórias.

Desenvolvimento histórico, ou as “fases” de Steve de Shazer

Com base em nossa leitura e em nossa compreensão do trabalho de de Shazer (ou talvez se devesse dizer de nossa má leitura e de nossa má compreensão3, como ele preferia chamar), pode-se dividir grosseiramente seu projeto teórico em quatro fases diferentes e algo sobrepostas: o jovem de Shazer, 1969-1978; os primeiros anos do BFTC, 1978-1982; de Shazer no BFTC, 1982-1989; e o último de Shazer, 1989-2005. Encontramos dificuldades ao apresentar essas fases por causa de defasagens temporais compreensíveis, a saber: (a) o tempo decorrido entre as mudanças na prática e a construção teórica correspondente, (b) o tempo que de Shazer levou para escrever sobre essas mudanças e (c) o tempo que essas mudanças levaram para ser publicadas. Essas defasagens tornam a reconstrução retrospectiva tentada neste artigo difícil e um tanto arbitrária. Este artigo é, portanto, nossa versão ou nossa compreensão do projeto de desenvolvimento teórico de de Shazer, e não pretende de modo algum ser a versão certa nem a única.

Fase 1. O jovem de Shazer, 1969-1978

De Shazer tinha vinte e nove anos quando começou a imitar o que acreditava que Milton Erickson fazia com seus clientes. Aprendeu os métodos de Erickson lendo seus casos (H. Korman, comunicação pessoal, setembro de 2002) e descobriu mais tarde que havia compreendido completamente mal o modo como Erickson trabalhava4.

Encontramos muito pouco desenvolvimento teórico nos primeiros escritos de de Shazer. Seus quatro primeiros artigos tratam, primeiro, de sua compreensão dos princípios e procedimentos de Erickson e, depois, apresentam descrições de suas próprias técnicas e estratégias inovadoras de hipnoterapia (de Shazer, 1974; 1975a; 1975b; 1977).

Nos quatro artigos seguintes (de Shazer, 1978a; 1978b; 1979a; 1979b), ele usou teorias de outros autores como lentes através das quais olhava o trabalho de Erickson e o seu próprio. Em 1978, por exemplo, de Shazer escreveu sobre sua variação da técnica da bola de cristal de Milton Erickson5, usando a “teoria dos estados de expectativa” (Expectation States Theory; Webster & Sobieszek, 1974) para olhar seu próprio trabalho:

… A técnica da bola de cristal, tal como descrita nos dois exemplos de caso, não é, em nenhum sentido formal, uma aplicação da teoria dos estados de expectativa, nem o material clínico é oferecido como prova adicional da teoria. Simplesmente, essa teoria será usada para olhar a terapia de um ponto de vista diferente (de Shazer, 1978a, p. 204; grifo nosso).

Entre 1971 e 1976, de Shazer trabalhou com Jerry Talley e Joseph Berger, do departamento de sociologia da Universidade Stanford, aplicando a teoria do equilíbrio de Heider (Heider, 1946). Eles tentavam compreender as regras que Erickson usava em suas sessões e, porque de Shazer estava imitando Erickson, também tentavam compreender o que de Shazer fazia nas suas.

Como com outras teorias que examinou ao longo dos anos, de Shazer usou a teoria do equilíbrio de Heider como uma lente através da qual olhar e descrever o que acontece na sala de terapia. Era como se tentasse responder à pergunta: como aquilo que fiz nesta sessão se ajusta a esta teoria, ou faz sentido dentro dela?

O jovem de Shazer parecia buscar uma teoria que pudesse servir para descrever e, talvez, explicar seu trabalho. Em um artigo retrospectivo não publicado, retirado originalmente do site do BFTC, de Shazer escreveu sobre o trabalho com Berger e descreveu dois projetos de pesquisa:

[escrevendo sobre o primeiro projeto] … tentaríamos fazer o conhecimento sociológico incidir sobre cada um dos casos. Acabamos reduzindo isso a descrever a situação usando a Teoria do Equilíbrio de Fritz Heider. O segundo [projeto] era tentar desenvolver uma teoria baseada no trabalho de Milton H. Erickson ou, talvez, descobrir a teoria de Erickson que está implícita nos artigos (de Shazer, 1999, p. 7).

O trabalho de de Shazer com a teoria do equilíbrio de Heider na terapia e no desenvolvimento teórico é explorado e descrito em grande detalhe em seu primeiro livro (de Shazer, 1982a). Não nos parece que a teoria do equilíbrio tenha tido impacto duradouro sobre a teoria da TBFS.

Prenúncios do que virá. Encontramos o primeiro indício do que emergiria mais tarde nos projetos de construção teórica de de Shazer quando ele descreveu seu desacordo com Berger, em 1972, enquanto mapeavam casos usando o modelo teórico do equilíbrio de Heider. O desacordo dizia respeito a incluir o terapeuta nos mapas de teoria do equilíbrio que elaboravam juntos. Berger queria ficar no mapeamento da família, enquanto Steve queria mapear todo o sistema da sala de terapia, o qual, como ele o via, incluía o terapeuta: “Isso acabou nos levando a concordar em discordar quando comecei a assumir uma posição de ‘observador externo’, incluindo o terapeuta no mapa” (de Shazer, 1999, p. 7).

Quando de Shazer escreveu “Beginnings”, em 1999, fica claro que ele sentia que, já em 1972, começava a acalentar a ideia de investigar a “terapia-como-sistema” (de Shazer, 1981, p. 56) em vez de olhar a “família-como-sistema” (de Shazer, 1981, p. 56), ainda que essa distinção crucial não lhe estivesse plenamente clara na época6. Esse deslocamento é notável por pelo menos duas razões. Primeiro, o método de investigação de de Shazer consistia em observar sessões de terapia e depois tentar descrever o que havia observado. Segundo, o desacordo com Berger bem pode ter sido o começo da passagem, em de Shazer, da observação e da descrição do sistema problemático do cliente e do que o terapeuta fazia com isso para a concentração na interação entre cliente e terapeuta. “Incluir o terapeuta no mapa” (de Shazer, 1999, p. 7) tornou-se um princípio fundamental de tudo o que emergiu depois no BFTC. Conceituamos esse princípio da teoria em desenvolvimento de de Shazer em nossos dois primeiros axiomas.

Axioma 1

A terapia é um processo interacional observável, isto é, uma conversa.

O axioma 1 capta como de Shazer, tão cedo em sua elaboração teórica, dirige-se para o que está observavelmente acontecendo na sala de terapia, a saber, que clientes e terapeutas estão em interação, no sentido de manterem juntos uma conversa. Assim, ele começa a distinguir claramente seu foco teórico daquele das terapias que se concentram no que acontece dentro do cliente, o que não é observável nem está centrado na interação cliente-terapeuta.

Axioma 2

A unidade mínima de análise é o terapeuta interagindo com o cliente no cenário terapêutico. Essa unidade não pode ser subdividida.

Com esse axioma, ficou posta uma fronteira clara em relação a praticamente todas as outras teorias do campo. Se não se pode subdividir “a unidade do terapeuta interagindo com o cliente no cenário terapêutico”, não se pode mais teorizar nem especular sobre o que se passa com o cliente, dentro do cliente ou na família do cliente. Para descrever patologia ou disfunção no cliente ou no sistema familiar, é preciso subdividir a unidade em seus componentes. A teoria de Steve de Shazer é uma teoria sobre a terapia: não é uma teoria sobre as pessoas que estão em terapia.

Antes de prosseguir, queremos observar que logo nos ficou evidente, em nosso estudo dos escritos de de Shazer, que não é possível precisar exatamente quando e em qual manuscrito suas diferentes ideias apareceram. Algumas de suas ideias foram sugeridas em escritos iniciais, mas só foram plenamente descritas dez ou vinte anos depois. Tomemos o conceito de exceções. Harry Korman certa vez perguntou a de Shazer de onde vinha sua maneira “esquisita” (a palavra é de Harry) de escutar. De Shazer respondeu que sempre havia “escutado os buracos” na história. Quando começou a fazer terapia, dizia ele, as pessoas lhe falavam de seus problemas, mas o que sempre lhe saltava aos olhos eram os buracos. Os buracos eram as partes da história do cliente que não combinavam com a queixa. De Shazer dizia que esses buracos sempre estiveram lá e sempre foram o que mais o interessou. Dizia também que sempre trabalhou do mesmo modo (comunicação pessoal, meados dos anos 1990). Há traços disso nos artigos que escreveu. Em 1975a, publicou um artigo em que se vê que ele buscava ativamente aquilo que mais tarde seria chamado de exceções7:

Tentei obter dados exatos sobre o padrão dos acidentes do menino. Acontecia em casa, na casa do amigo, no jardim de infância, de manhã ou de tarde. Tampouco eles (a família) conseguiam descobrir qualquer padrão de comportamento comum aos dias em que não havia sujeira (de Shazer, 1975a, p. 86; grifo nosso).

Fase 2. Os primeiros anos do BFTC, 1978-1982

Em 1978, de Shazer e um grupo de colegas de orientações terapêuticas diversas, vindos da instituição Family Services de Milwaukee, fundaram o Brief Family Therapy Center (BFTC). A intenção declarada era tentar tornar a terapia mais breve e mais eficaz. Um de seus principais objetivos era suprir uma omissão do modelo do MRI (Mental Research Institute de Palo Alto):

Em nenhum lugar o grupo [do MRI] trata explicitamente da abordagem de terapia breve usada com pessoas que têm objetivos mutuamente excludentes ou com pessoas que têm objetivos vagos, mal formados, que não conseguem articular (de Shazer, 1982a, p. 29).

A tentativa de resolver os enigmas colocados por essas famílias8, ao mesmo tempo em que se fundiam as diferentes ideias presentes no BFTC, levou ao desenvolvimento do modelo da “terapia familiar breve ecossistêmica” (de Shazer, 1982a)9.

Foi durante esses anos que de Shazer articulou a distinção entre o estudo da família-como-sistema e o estudo da terapia-familiar-como-sistema. Ele argumentava que estudar a família-como-sistema no contexto de sessões de terapia faz pouco sentido, porque na terapia há também um terapeuta e, às vezes, uma equipe, com todos esses subsistemas trabalhando juntos com o objetivo, explícito ou ao menos implícito, de mudança (de Shazer, 1982a, pp. 1-3, 5-6). Ele começou a escrever sobre o que chamava de falhas fundamentais nas teorias sobre terapia familiar. Expôs as “confusões” (de Shazer, 1982a, p. 3; de Shazer, 1982b) criadas por conceitos como “homeostase”, “resistência”, “pensamento linear versus circular” e “mudança contínua versus descontínua”. Questionou também a utilidade de outros conceitos populares, como “paradoxo” e “poder” (de Shazer, 1981; 1982a, pp. 15-18; 1982b). Concluiu que esses conceitos não são úteis se se quer compreender como a terapia familiar funciona como sistema “promotor de mudança”. Os conceitos de resistência e de homeostase eram usados para dar sentido ao que causava e/ou mantinha os problemas na família-como-sistema. Para compreender o processo de mudança, é preciso recorrer a outros conceitos. O que motivava as conclusões conceituais de de Shazer nesse período era o que ele e seus colegas viam acontecer nas salas de terapia do BFTC. Em vez de famílias e casais manifestando reações homeostáticas ou resistência, a equipe observava famílias e terapeutas colaborando para produzir a mudança do cliente (de Shazer, 1982a, pp. 9-15). O desafio, para de Shazer, passou a ser descrever esse processo colaborativo de maneiras mais úteis.

Não se pode enfatizar demais a importância da passagem da descrição da família-como-sistema para a descrição da terapia-familiar-como-sistema. Adotar uma visão interacional entre os subsistemas da terapia familiar abriu todo um novo mundo de descrição teórica, de prática clínica e de investigação (pesquisa). Com o novo foco na terapia-familiar-como-sistema, de Shazer e a equipe do BFTC removeram a barreira conceitual artificial entre o terapeuta e a família. Entre outros deslocamentos conceituais, substituíram a homeostase pela “morfogênese”. A homeostase é um conceito que leva a uma descrição relativamente fechada e estática do sistema cliente (o casal ou a família). Empregar o conceito de morfogênese leva, ao contrário, a uma descrição mais aberta, “ecossistêmica”, do sistema cliente como subsistema em interação com outros subsistemas (o terapeuta e a equipe de consultoria) no contexto terapêutico. A morfogênese permite, portanto, descrever com mais clareza e exatidão a mudança do sistema cliente (de Shazer, 1982a, pp. 3-5).

A equipe do BFTC também substituiu o conceito de resistência do cliente pelo de “clientes que cooperam”. O estudo da família-como-sistema, as noções de homeostase e a ideia de sistemas clientes resistentes à mudança andavam de mãos dadas. Como de Shazer escreveu em seu artigo pioneiro, “A morte da resistência”:

A ideia [de resistência do cliente] era que a família-como-sistema parecia manter o status quo por meio de processos de contraposição aos desvios. As mudanças na família-como-sistema eram vistas como circuitos mútuos, causais, de retroalimentação negativa, que mantinham as mudanças dentro de certos limites e constrangimentos… As mudanças sistêmicas que vão além do platô homeostático ou destroem o sistema ou o reestruturam (de Shazer, 1984, p. 12).

E, um pouco adiante, ele continua:

O conceito de resistência prende muitas terapias baseadas em sistemas familiares à epistemologia dominante da causalidade linear, da “força” ou do “poder”, porque implica uma separação entre o terapeuta e o sistema familiar. Quando a homeostase é usada como conceito organizador nesse nível mais complexo, a “resistência” é vista como localizada na família e descrita como algo que a família faz. Não é vista como produto da interação terapeuta-família (de Shazer, 1984, p. 13).

Mais adiante, no mesmo artigo, ele explica que adotar uma visão da terapia-familiar-como-sistema, com sua visão ecossistêmica de subsistemas (família, terapeuta e equipe) em interação dentro de um suprassistema aberto (o contexto terapêutico), leva o conceito de resistência do cliente à “morte”10 (de Shazer, 1984). Em seu lugar, voltou-se para a noção de clientes que cooperam e escreveu o seguinte sobre o significado clínico de redescrever o sistema terapêutico com outras metáforas:

Se essas distinções [terapia-familiar-como-sistema versus família-como-sistema, e morfogênese versus homeostase] devem ser clinicamente úteis, então o comportamento comumente rotulado de “resistência” pode ser utilmente redescrito. Uma maneira de fazê-lo é conceituar ou pensar em termos de “cooperar”: [e então citando seu livro anterior, Patterns of Brief Family Therapy] “Cada família (indivíduo ou casal) mostra um modo único de tentar cooperar, e o trabalho do terapeuta passa a ser, primeiro, descrever para si mesmo esse modo particular que a família mostra e, então, cooperar com o modo da família e, assim, promover a mudança (de Shazer, 1982a, pp. 9-10).” (O termo “cooperar” é usado na tentativa de evitar a reificação, porque a forma em -ing ajuda a manter o terapeuta pensando em termos de processos de interação contínua entre os subsistemas, em vez da condição que poderia ser implicada pelo uso de “cooperação”, que descreveria um princípio e não um processo. A “cooperação” tende a desconectar um “algo” de seu fundo e a torná-lo “coisa”: processo provável, dada a dominância da velha epistemologia.) (de Shazer, 1984, p. 13)

Não sabemos o que veio primeiro, se a mudança de metáforas para a terapia ou o modo como a equipe do BFTC trabalhava com os clientes (provavelmente era diferente em dias diferentes, até que suas redescrições se cristalizassem). Sabemos, porém, que esses deslocamentos conceituais significavam um modo muito diferente de pensar as interações terapêuticas e de responder ao que os clientes diziam. Por exemplo, se uma família ou um cliente agora mostrava “resistência”, isso já não significava que estivessem resistindo à mudança — o velho conceito. Em vez disso, a resistência aparente passava a ser compreendida como uma tentativa de colaboração da família ou do cliente, procurando fazer o terapeuta saber que ele havia expressado uma ideia pouco útil (sabendo ou não) sobre qual era o problema, ou sobre o que o terapeuta achava que seria bom para a família, ou sobre o que a família deveria fazer para resolver o problema. Ao rotular isso de “colaborar”, o comportamento passava a ser compreendido — e respondido — como um sinal comunicativo da família indicando que o terapeuta estava fora do rumo em seu trabalho e que precisava mudar seu comportamento, isto é, continuar respondendo à família na direção de encontrar um jeito de cooperar com ela. A resistência aparente, portanto, já não era vista como sinal de patologia em uma família que precisaria preservar o problema e o status quo.

Uma vez que os terapeutas do BFTC começaram a descartar a homeostase e a resistência como modos úteis de compreender e de decidir o que fazer na terapia e, ao contrário, viram as respostas da família como tentativas de cooperar, essa mudança de ponto de vista reforçou a mudança dos comportamentos dos terapeutas com os clientes e, portanto, mudou os padrões interacionais no ecossistema terapêutico (a terapia-familiar-como-sistema). A prática no BFTC havia então mudado: novos padrões de interação haviam emergido, exigindo novos conceitos e novas teorias para que os novos padrões interacionais fossem descritos com mais exatidão. Isso, por sua vez, influenciava o desenho de novos projetos de pesquisa que, por sua vez, influenciavam a teoria e a prática em curso. Era assim que prática, teoria e pesquisa se relacionavam recursivamente no projeto de desenvolvimento teórico do BFTC.

Foi também nesse período que de Shazer desenvolveu sua teoria binocular da mudança no ecossistema terapêutico, que se apoiava diretamente no conceito de morfogênese em sistemas em interação de Maruyama (1963, p. 166). Maruyama definia a morfogênese assim:

Uma vez que um sistema é empurrado na direção certa e com impulso inicial suficiente, as retroalimentações positivas mútuas que amplificam o desvio assumem o processo, e o desenvolvimento resultante será desproporcionalmente grande em comparação com o empurrão inicial (citado em de Shazer, 1982a, p. 96).

De Shazer teorizou que o terapeuta e a equipe do BFTC iniciavam a mudança nos sistemas clientes ao mobilizar a morfogênese por meio da concepção e da entrega da “intervenção” ao final da sessão (de Shazer, 1982a, pp. 7-15). A ideia era que a família tinha uma visão do “problema” e do que acontece na família. O terapeuta e a equipe desenvolviam outra visão, diferente, mas suficientemente relacionada para estar em cooperação com a visão da família. A equipe então oferecia sua visão na devolutiva à família ao final da sessão. Um bônus emergia da diferença entre as duas visões. Esse bônus, segundo de Shazer, era do mesmo tipo daquele que acontece com a fusão das diferentes visões do mundo quando a imagem do olho esquerdo se funde com a do olho direito: surge a profundidade. Ele chamou isso de teoria binocular da mudança11. Durante muito tempo, esse foi o principal conceito que organizava as sessões no BFTC. O trabalho do terapeuta, ou “condutor”, era entrevistar a família e criar uma descrição detalhada do que acontecia quando o problema estava presente. O condutor e a equipe então se reuniam e criavam uma mensagem de intervenção para a família, o mais próxima possível da descrição da família, mas com algumas diferenças. O objetivo era criar uma descrição “correspondente” do problema da família, próxima o bastante — de Shazer dizia “isomórfica” — para ser reconhecida e aceita pela família como sua, e ainda assim diferente o bastante para criar uma diferença significativa e iniciadora de mudança quando fundida com a visão ligeiramente diferente da família. Os conceitos de “isomorfismo” e de “correspondência” eram os princípios organizadores de como fazer as entrevistas e criar essas mensagens de intervenção correspondentes e isomórficas. Na época, a teoria de de Shazer era que a mensagem de intervenção, com as tarefas nela incorporadas, e mais especificamente as respostas das famílias a essas tarefas, é que promoviam a mudança. A equipe do BFTC chamava essas tarefas de “pistas”. A pista podia ser qualquer coisa, de tarefas comportamentais específicas e experimentos a “técnicas de intercalação” ericksonianas indiretas, ou simplesmente contar uma história sobre como outras famílias com problemas semelhantes haviam resolvido os seus, ou simplesmente ser pessimista quanto ao desfecho da terapia12.

Achamos importante sublinhar que o modelo desenvolvido durante esses primeiros quatro anos no BFTC era um modelo de resolução de problemas, solidamente construído sobre o pensamento sistêmico e entremeado de ideias ericksonianas. Descrições detalhadas do problema e dos padrões interacionais em torno dele eram consideradas necessárias para criar tarefas intencionais que mudassem os padrões problemáticos de interação nas famílias e resolvessem seus problemas.

Ainda que haja indícios anteriores nos escritos de de Shazer, acreditamos que um novo axioma sobre a mudança se cristalizou durante essa fase de 1978-1982 e permaneceu proeminente em todo o seu trabalho posterior.

Axioma 3

A mudança é a finalidade do encontro entre terapeuta e cliente.

O axioma 3 pode parecer simplista e óbvio para todo mundo. Não é. Ao enfatizar a terapia como sistema promotor de mudança, de Shazer distingue seu foco de todas as terapias que se concentram na natureza e na avaliação das dificuldades do cliente como precursoras do tratamento. Como ele mesmo formulou: “O que os primeiros conceituadores e os terapeutas desde então não perceberam é que ‘o estudo da família’ e ‘o estudo da terapia familiar’ são estudos de tipos lógicos diferentes. O primeiro é um estudo da estabilidade, o segundo é um estudo do mudar” (de Shazer, 1982a, p. 4). Esse axioma também esclarece por que os terapeutas focados nas soluções não se interessam pelo problema nem pelas causas do problema, e as enormes diferenças que isso acarreta na prática em comparação com quase todo o resto do mundo da psicologia e da psiquiatria.

Axioma 4

A mudança do cliente pela terapia ocorre por meio de interações observáveis nas quais o terapeuta encontra maneiras de cooperar com o cliente.

Como descrevemos nesta seção, de Shazer e seus colegas notaram que, nas salas de terapia do BFTC, em vez de resistir, os clientes pareciam colaborar com seus terapeutas para produzir mudança. Essa observação, somada ao seu foco interacional já em desenvolvimento sobre o sistema cliente-terapeuta, levou de Shazer a questionar e a descartar muitos conceitos estabelecidos no campo da terapia familiar e, com isso, continuou a diferenciar o modo como a terapia era feita no BFTC do de muitas outras clínicas de terapia familiar, tanto então quanto hoje.

Fase 3. De Shazer no BFTC, 1982-1989: a emergência da terapia breve focada nas soluções

Da resolução de problemas ao desenvolvimento de soluções: como começou. Em 1982, uma família com vinte e sete problemas veio à terapia (o caso é descrito em Hopwood & de Shazer, 1994). Ao final da sessão, na hora de fazer a pausa e construir uma mensagem de intervenção, nenhum dos problemas havia sido descrito com detalhe suficiente para que se construísse uma mensagem isomórfica.

Então, seguindo a compreensão que de Shazer e a equipe do BFTC tinham dos princípios ericksonianos13, o terapeuta e a equipe construíram uma tarefa vaga, mais tarde chamada de “tarefa-fórmula da primeira sessão” (TFPS)14, e a entregaram à família ao final da sessão:

De agora até a próxima vez em que nos encontrarmos, queremos [quero] que vocês observem, para poderem nos (me) contar da próxima vez, o que acontece em sua [escolha uma: família, vida, casamento, relação] que vocês querem que continue acontecendo (Hopwood & de Shazer, 1994, p. 558, citando de Shazer, 1985, p. 137).

Hopwood e de Shazer (1994) descreveram o que aconteceu em seguida:

Duas semanas depois, quando a família voltou, meus [de de Shazer] colegas e eu ficamos surpresos quando a família descreveu vinte e sete coisas diferentes que haviam acontecido e que eles queriam que continuassem acontecendo. Vinte e cinco das vinte e sete estavam diretamente relacionadas às vinte e sete preocupações listadas na primeira sessão. Quando perguntados, os membros da família disseram que achavam que o problema que os havia trazido à terapia estava resolvido e que, portanto, não eram necessárias mais sessões (p. 558).

Nas discussões que se seguiram no BFTC, alguém observou que aquele era um caso muito interessante porque a família fez a tarefa e a tarefa foi útil, isto é, houve mudança, e o mais importante e interessante era que o terapeuta e a equipe não faziam ideia de qual dos vinte e sete problemas havia sido tratado pela tarefa. Esse fato acabaria levando a uma pergunta radicalmente nova: é possível resolver um problema sem saber qual é o problema? Outra coisa muito importante e interessante era que essa família com problemas vagos havia relatado coisas concretas.

Isso nos levou a começar a usar a intervenção-fórmula com outros casos em que os clientes descreviam objetivos e queixas vagos. Caso após caso, eram relatadas mudanças concretas e específicas no intervalo de uma semana entre a primeira e a segunda sessão. Isso motivou o desenvolvimento de um estudo mais organizado… (de Shazer, 1985, p. 138).

No estudo exploratório mais organizado que se seguiu, os terapeutas do BFTC receberam a instrução de dar a tarefa TFPS a todos os clientes e famílias ao final da primeira sessão, independentemente do que houvesse acontecido na entrevista, a não ser que o terapeuta tivesse uma razão muito boa para não fazê-lo. Se o terapeuta não desse a TFPS, tinha de descrever por quê. Sessenta e quatro por cento dos novos casos receberam a tarefa. Oitenta e nove por cento desses casos relataram ter notado algo digno de nota acontecendo no intervalo entre a primeira e a segunda sessão, e dois terços disseram que as coisas estavam melhores (de Shazer, 1985, p. 155).

Os resultados dessa pesquisa criaram um grande problema teórico. A teoria binocular da mudança, no modelo ecossistêmico de terapia breve (de Shazer, 1982a), exigia que a equipe produzisse uma descrição isomórfica do problema da família que correspondesse à visão da família. Isso era necessário para abrir a fechadura da porta trancada do problema e resolvê-lo. Era inconcebível que a TFPS pudesse corresponder e ser isomórfica às descrições que dois terços dos clientes e das famílias faziam de seus problemas e queixas. Identificando isso como uma anomalia, isto é, uma ocorrência em que os dados não se ajustam à teoria, de Shazer afirmou:

Como Kuhn (1970) [em A estrutura das revoluções científicas] apontou, anomalias se desenvolvem e, ou precisam ser redescritas dentro de uma teoria corrente, ou a teoria precisa mudar para que uma descrição seja possível (1988, p. xiv).

Assim, diante da escolha entre redescrever as observações do estudo do BFTC sobre a TFPS dentro de sua teoria ecossistêmica corrente — a da resolução de problemas, do isomorfismo e da correspondência — e mudar essa teoria, de Shazer escolheu a segunda via. Começou a duvidar das teorias que havia desenvolvido durante quinze anos e passou a elaborar novos conceitos e novas descrições teóricas.

Do isomorfismo e da correspondência ao ajuste. O deslocamento iniciado em 1982 só apareceu impresso três anos depois. Foi preciso esperar a publicação, em 1985, de Keys to Solution in Brief Therapy para que de Shazer oferecesse uma descrição bem diferente do que agora via acontecer nas salas de terapia do BFTC:

Enquanto a equipe do BFTC continuava a trabalhar junta e uma filosofia distinta e singular se desenvolvia, ocorreu um deslocamento: do nosso interesse por “problemas/queixas e como resolvê-los” para “soluções e como elas funcionam”. Olhamos o que há do outro lado das portas trancadas e começamos a entender como os clientes e nós chegamos lá (de Shazer, 1985, pp. 44-45).

A metáfora da porta trancada era central no livro de 1985. O problema do cliente era metaforicamente descrito como uma sala com várias portas trancadas, todas podendo levar a uma solução. Antes de o deslocamento começar, em 1982, a terapia se concentrava em compreender a fechadura (o problema) de modo que uma das portas pudesse ser aberta. O terapeuta precisava criar uma descrição isomórfica do problema, correspondente à que a família já tinha, mas com pequenas diferenças, para que novas possibilidades pudessem surgir da fusão das duas (a teoria binocular da mudança). Com os resultados do estudo sobre a TFPS, os conceitos de correspondência e de isomorfismo tiveram de ser abandonados. As intervenções já não precisavam ser isomórficas e correspondentes. Precisavam apenas se ajustar:

Estávamos olhando para “Problemas: queixas e como resolvê-los”, ao passo que o conceito de ajuste sugere antes que precisamos olhar para “soluções e como elas funcionam”. E não precisamos saber como uma fechadura particular (uma queixa) é construída para encontrar uma intervenção em forma de chave-mestra que se ajuste de tal modo que abra a porta para um futuro “melhor”, mais satisfatório, para o cliente (Nunnally et al., 1986, p. 95).

A mudança do processo de entrevista. Mudar o foco teórico dos problemas e de como resolvê-los para as soluções e como elas funcionam levou, com o tempo, a mudanças fundamentais no processo de entrevista e no tipo de informação buscada e amplificada nas entrevistas. Esse processo havia começado com a invenção da TFPS, porque, uma vez dada essa tarefa ao final de uma sessão, a equipe do BFTC retomava na sessão seguinte com perguntas sobre o que os clientes haviam descoberto que queriam que continuasse acontecendo em suas vidas. Essas perguntas eram novas. De Shazer escreveu o seguinte sobre essa mudança:

Enquanto meus colegas e eu, no Brief Family Therapy Center (BFTC), continuamos a estudar o desenvolvimento de soluções, nossas análises nos forçaram a olhar cada vez mais para o processo da entrevista. Descobrimos que já não bastava usar nossa ideia (talvez excessivamente) simples de que a entrevista levava à estratégia de intervenção e, portanto, à tarefa. Há claramente coisas relacionadas à solução que o cliente e o terapeuta fazem durante a sessão (de Shazer, 1988, p. xiii).

Ele continuava um pouco adiante:

Por várias razões, não gostei (e ainda não gosto) desse deslocamento de foco, mas nossa investigação do desenvolvimento de soluções o impôs a mim. Esta é a segunda vez que uma de nossas investigações impõe um deslocamento importante à nossa abordagem (ver de Shazer, 1985). Tais deslocamentos são partes normais de qualquer processo de exploração: segue-se por onde os dados levam (de Shazer, 1988, p. xiv).

De Shazer não foi explícito quanto ao que, nessa mudança de foco para as “coisas relacionadas à solução que o cliente e o terapeuta fazem durante as sessões”, não lhe agradava. Talvez ainda estivesse encantado com os resumos elegantes e as tarefas engenhosas que vinha oferecendo às famílias ao final das sessões. Talvez sentisse que era uma tarefa assustadora dar sentido ao caos e à complexidade que é a sessão de terapia e assumir a descrição e a teorização de como essas “coisas relacionadas à solução” de fato acontecem na interação, dentro da sala. De todo modo, ele decidiu seguir por onde os dados levavam. Em consequência, a equipe do BFTC passou a buscar padrões de interação em torno do desenvolvimento bem-sucedido de soluções. À medida que se concentrava mais no processo de entrevista, viu coisas acontecendo que antes não havia notado. Além de inventar e continuar a incorporar a TFPS e a entrevista de seguimento correspondente, inventou a entrevista sobre exceções e sobre mudança pré-sessão. Esses três fenômenos tinham em comum serem descrições de coisas melhores acontecendo na vida dos clientes. Em outras palavras, eram todos descrições de momentos em que as portas aparentemente trancadas do problema estavam abertas ou entreabertas. O modo mais simples de começar a abrir as portas trancadas e, portanto, de promover a mudança passou a ser construir sobre os momentos em que as coisas já estavam melhores, isto é, descobrir como os clientes haviam feito acontecer exceções e mudança pré-sessão e sugerir que fizessem mais do que já faziam e que estava funcionando para eles.

As exceções. De Shazer menciona as “exceções” pela primeira vez em 1985:

Embora a criança seja vista como fazendo xixi na cama sempre, provavelmente há algumas noites secas de vez em quando — exceções à regra (conceito importante desenvolvido conjuntamente pelo autor, por Wallace Gingerich e por Michele Weiner-Davis para descrever o que o terapeuta busca durante a primeira sessão). No entanto, essas exceções passam frequentemente despercebidas porque essas diferenças não são vistas como diferenças que façam qualquer diferença: a diferença é pequena demais ou lenta demais.

Essas exceções às regras do padrão são exatamente o tipo de informação que o terapeuta precisa conhecer. É importante que o terapeuta, a criança e o ou os pais saibam que a criança, de algum modo (talvez inconsciente?), sabe como ter uma cama seca (de Shazer, 1985, p. 34)15.

Mais tarde, de Shazer criou a distinção entre exceções espontâneas e exceções deliberadas:

… muitos clientes relatavam exceções à regra de que a queixa sempre acontece. Algumas dessas exceções o cliente descrevia como espontâneas — “simplesmente aconteceu” —, enquanto outras eram descritas como resultado de uma mudança deliberada de comportamento. Nos dois casos, sua descrição pode ser vista como incluindo uma diferença que ainda não havia feito diferença para eles (de Shazer, 1988, p. 4).

Criar descrições de exceções na entrevista terapêutica, e ser claro quanto a serem espontâneas ou deliberadas, acabou sendo visto por de Shazer e pela equipe do BFTC como um modo muito útil de promover o desenvolvimento de soluções. Cada exceção era considerada uma diferença na vida do cliente que potencialmente poderia ser transformada em uma diferença que cria a vida mais satisfatória desejada pelo cliente. Aos clientes que conseguiam descrever exceções deliberadas a seus problemas, de Shazer e seus colegas sugeriam que fizessem mais do comportamento da exceção, porque já o faziam e, portanto, sabiam como fazê-lo. Para os clientes que descreviam exceções espontâneas, a equipe recomendava: (a) prestar atenção a quando as exceções aconteciam, (b) a como poderiam estar contribuindo para que acontecessem e (c) relatar ao terapeuta e à equipe, na sessão seguinte, o que haviam descoberto.

A mudança pré-sessão. A passagem da resolução de problemas ao desenvolvimento de soluções começou com a invenção da TFPS. A equipe do BFTC usava a TFPS e outras tarefas-fórmula16 como principais intervenções no desenvolvimento de soluções e, em meados dos anos 1980, já as havia descrito em detalhe (de Shazer, 1985; de Shazer & Molnar, 1984). Durante muito tempo, de Shazer e seus colegas pensaram que as tarefas de fim de sessão fossem as principais iniciadoras da mudança do cliente. No entanto, a observação atenta e contínua das sessões continuava a levar a novas descobertas sobre como a própria entrevista poderia estar promovendo o desenvolvimento de soluções.

Weiner-Davis, de Shazer e Gingerich (1987) deram uma descrição detalhada do acontecimento fortuito que levou à descoberta e à descrição da mudança pré-sessão:

Ela (a mãe) supunha que seu divórcio, ocorrido vários anos antes, tivera efeito duradouro sobre ele (o filho de doze anos) e que talvez ele estivesse vivendo uma depressão profundamente enraizada. Justo quando o terapeuta ia consultar a equipe atrás do espelho, a mãe mencionou despreocupadamente que, nos três dias anteriores à vinda para a terapia, seu filho “vinha se esforçando na escola”. O terapeuta parou por um momento, expressou grande surpresa e perguntou ao menino por que ele decidira “virar a página”.

A princípio, o menino pareceu perplexo com essa ideia, mas logo afirmou que, de fato, havia virado a página porque estava “cansado de sempre se meter em encrenca”. O resto da sessão foi dedicado a ajudar o menino a determinar o que precisava fazer para manter sua decisão. Os objetivos da terapia foram alcançados em três sessões (p. 359).

A equipe do BFTC lembrou-se então de outros clientes que haviam relatado melhoras entre o telefonema para marcar a consulta e a primeira sessão. Esses achados levaram mais uma vez a um projeto de pesquisa, dessa vez na clínica de Weiner-Davis. Nesse estudo, trinta famílias receberam de seus terapeutas, no início da sessão, a seguinte pergunta:

Muitas vezes as pessoas notam que, entre o momento em que marcam a consulta para a terapia e a primeira sessão, as coisas já parecem diferentes. O que vocês notaram a respeito de sua situação? (Weiner-Davis et al., 1987, p. 360).

Em vinte dos trinta casos, o pai ou a mãe presente na sessão respondeu que as coisas já haviam começado a melhorar na direção do que queriam obter da terapia. Em consequência, como com a descoberta das exceções na primeira sessão, a terapia nesses casos voltou-se para a manutenção da mudança em vez de tentar iniciá-la. De Shazer e seus colegas escreveram o seguinte sobre os casos em que os clientes relatavam exceções, mudança pré-sessão ou quaisquer mudanças úteis nas primeiras sessões: “Notamos que então trabalhávamos para manter essas mudanças em curso e que essa abordagem levava a maior satisfação do cliente e a menos sessões por cliente” (Nunnally et al., 1986, p. 90).

Notar a presença e depois inventar os conceitos de exceções e de mudança pré-sessão mudou o modo como as entrevistas eram conduzidas no BFTC. Os terapeutas começaram a explorar a mudança sob a forma de exceções e de mudança pré-sessão cada vez mais cedo na primeira sessão. Além disso, como essa busca podia começar imediatamente, isso significava que:

… o terapeuta e o cliente constroem uma realidade terapêutica baseada em transformação ou mudança contínuas (evidenciadas por quaisquer exceções), e não na iniciação de uma mudança. Quando exceções são identificadas, a tarefa de casa incluirá geralmente a ideia de que o cliente deveria fazer mais do que já está fazendo, em vez de sugerir que faça algo novo (de Shazer, 1988, p. 5).

Um parêntese interessante, que revela mais uma vez quão revolucionárias eram as ideias e as práticas em desenvolvimento no BFTC nos anos 1980: já em 1978, Don Norum, que trabalhava na Family Services de Milwaukee ao mesmo tempo que de Shazer e Berg, escreveu e apresentou um artigo intitulado “A família tem a solução”. O artigo tratava de como a mudança pré-sessão pode ser usada para criar uma solução sustentável. Foi rejeitado como absurdo pelos pareceristas da revista Family Process (Kiser, 1995, pp. 263-264). O artigo só foi finalmente publicado vinte e dois anos depois (Norum, 2000).

A técnica da bola de cristal e a pergunta do milagre. Como Milton Erickson, de Shazer acreditava que a terapia breve deveria se organizar em torno dos objetivos do cliente. E, embora seu conceito de “objetivos” tenha evoluído junto com suas práticas terapêuticas e suas descrições teóricas, ele também acreditava que os objetivos do cliente deveriam ser tão específicos, concretos, comportamentais e realistas quanto possível (de Shazer, 1985, p. 9; 1990, p. 97). Contudo, como escreveu em 1985:

A realidade é que os clientes vêm com frequência com objetivos vagos e/ou mutuamente excludentes, ou com objetivos que não conseguem descrever. De fato, a versão mais difícil e confusa disso é que algumas pessoas não sabem como saberão que seu problema está resolvido. Sem objetivos realistas, sem um modo de medir o sucesso, as pessoas podem andar em círculos neste mundo, atoladas na lama de erros passados e de má sorte.

A técnica da bola de cristal de Erickson e a pergunta do milagre do BFTC eram práticas destinadas a ajudar os clientes a desenvolver e a descrever objetivos mais úteis do que os que tinham no início da terapia.

A técnica da bola de cristal foi a precursora da pergunta do milagre. Erickson descreveu o uso dessa técnica com uma variedade de problemas (Erickson, 1954, pp. 261-283). De Shazer começou a usar sua versão da técnica em meados dos anos 1970 (de Shazer, 1978a): ela consistia em fazer o cliente, em transe, imaginar várias bolas de cristal diferentes, olhar dentro delas e descrever o que via (1985, pp. 81-83). Duas das bolas tratavam de lembranças do passado, “uma lembrança agradável esquecida há muito tempo” e a lembrança de “um acontecimento recente, mas surpreendentemente esquecido”. Nos dois casos, pedia-se ao cliente (e assim se lhe ensinava) que observasse seu próprio comportamento e o modo como os outros respondiam. Outras duas bolas de cristal eram orientadas para o futuro, uma para a resolução bem-sucedida do problema do cliente e outra para o modo como o problema fora resolvido. De Shazer resumiu o alcance dessa técnica:

A técnica da bola de cristal serve para projetar o cliente em um futuro bem-sucedido: a queixa desapareceu. Descobri que o simples fato de o cliente, em transe, ver seu futuro em uma bola de cristal ou em uma série de bolas de cristal pode bastar para suscitar comportamento diferente, levando assim a uma solução (de Shazer, 1978a). As ideias por trás da técnica também podem ser usadas em situações clínicas que não envolvem transe formal. De um modo ou de outro, o cliente constrói sua própria solução, que pode então servir para guiar a terapia. A meu ver, os princípios por trás dessa técnica formam o fundamento de uma terapia baseada em soluções e não em problemas (1985, p. 81).

Duas dessas bolas de cristal, notadamente, foram retomadas nas novas entrevistas de desenvolvimento de soluções. Elas se transformaram em convites a lembrar “algum sucesso na vida, particularmente um que seja exceção às regras que cercam a queixa” e na pergunta “como serão as coisas para você e para os outros quando o problema estiver resolvido?” (de Shazer, 1985, pp. 82-83).

Ao refletir teoricamente sobre como o uso da técnica da bola de cristal nas sessões poderia estar promovendo a mudança do cliente, de Shazer apoiou-se em duas teorias diferentes: 1) a teoria dos estados de expectativa de Berger (Berger et al., 1977) e 2) a teoria da cooperação de Axelrod (1984). Ambas tinham o respaldo de pesquisas experimentais. Sobre a teoria dos estados de expectativa, de Shazer (1985, p. 74) escreveu que ela “trata tanto de como as situações interacionais desenvolvem e mantêm padrões quanto de como mudam os comportamentos que mantêm as expectativas”. De Shazer afirmava que, quando os clientes vêm à terapia, vêm porque suas tentativas de resolver seus problemas fracassaram e porque desenvolveram expectativas de futuro segundo as quais só mais da mesma “droga de sempre” vai continuar acontecendo. Ele então observava que a terapia pode mudar essas expectativas negativas:

Uma mudança na estrutura dessas expectativas [saturadas de problema] ocorrerá quando as condições mudarem de algum modo… Uma devolutiva ou uma avaliação vinda de uma fonte de autoridade, como um terapeuta, pode minar essas expectativas e assim promover mudanças de comportamento, desfechos diferentes e o desenvolvimento de novas expectativas (Berger et al., 1977). Naturalmente, essas novas expectativas também serão automantidas, e os clientes têm chance de uma vida mais satisfatória (de Shazer, 1985, p. 75).

De Shazer via, portanto, a técnica da bola de cristal como um modo de levar os clientes a descrever conjuntos novos e diferentes de expectativas para o futuro, expectativas de haverem resolvido com sucesso os problemas que os trouxeram à terapia.

A utilidade da teoria e da pesquisa de Axelrod para o projeto de de Shazer — descrever como a terapia em geral, e a técnica da bola de cristal em particular, parecem funcionar — aprecia-se melhor considerando sua definição de terapia em meados dos anos 1980. Naquele momento, ele definia a terapia nestes termos: “No BFTC, a prática clínica define a terapia como cooperativa, como orientada para a mudança e para as soluções e como centrada no presente e no futuro” (de Shazer, 1985, p. 79). Ao mesmo tempo, portanto, em que de Shazer descrevia a terapia como um processo interativo no qual o sistema terapêutico — terapeuta, cliente e equipe — trabalha colaborativamente rumo aos objetivos do cliente, Axelrod pesquisava sob que condições a cooperação entre participantes em interação era vantajosa. Como descrito na fase 2, de Shazer havia substituído o conceito de resistência do cliente pela ideia de clientes tentando cooperar. Os experimentos de Axelrod forneciam fortes evidências de que a cooperação é a estratégia que leva aos melhores resultados a longo prazo, mesmo nas situações de jogo competitivo que ele pesquisava. De Shazer (1985, p. 73), notando a pertinência dos achados de Axelrod para a situação terapêutica, citou-o: “… a cooperação mútua pode ser estável se o futuro for suficientemente importante em relação ao presente” (Axelrod, 1984, p. 126). Na técnica da bola de cristal, de Shazer via o terapeuta e a equipe cooperando com o cliente para construir uma descrição e uma experiência de um futuro desejado. Esse futuro desejado era, evidentemente, direta e importantemente pertinente ao presente saturado de problema que o cliente presumivelmente viera mudar na terapia.

A pergunta do milagre, de finalidade semelhante à da bola de cristal, foi inventada em 1984 por Insoo Kim Berg (De Jong & Berg, 2013, pp. 90-91; Korman, comunicação pessoal com Steve de Shazer, 1990). Berg tentava fazer uma mulher com muitas queixas complexas descrever como saberia que já não precisava de terapia. A cliente trabalhava duro com as perguntas, mas não encontrava respostas. Cerca de vinte a vinte e cinco minutos depois do início da sessão, a mulher suspirou fundo e disse: “Meus problemas são tão graves que seria preciso um milagre para resolvê-los.” Berg, retomando as palavras usadas pela cliente, então perguntou: “Então suponha que esse milagre aconteça, mas que aconteça enquanto você está dormindo, de modo que você não possa saber que aconteceu. Como você descobriria, ao acordar, que aconteceu? O que estaria diferente?” A mulher passou então a descrever dezesseis comportamentos que seriam, para ela, sinais de que o milagre havia acontecido e, portanto, indicações de que já não precisava de terapia17. Os membros da equipe do BFTC consideraram que a pergunta do milagre era significativa, e pediu-se a todos os terapeutas que a usassem. Lipchik et al. (2012, p. 15), ao revisar como a TBFS se desenvolveu, escreveram: “… logo ficou evidente que a pergunta do milagre acrescentava uma nova dimensão à terapia: uma orientação para o futuro e uma oportunidade para as pessoas construírem sobre suas esperanças e sonhos de soluções, e não apenas sobre forças e recursos passados e presentes.”

Em resumo, em meados dos anos 1980 de Shazer descrevia o problema do cliente como uma sala com portas trancadas, e o papel da técnica da bola de cristal (e, por extensão, da pergunta do milagre) como uma saída útil:

… o modo mais útil de decidir qual porta pode ser aberta para se obter uma solução é obter uma descrição do que o cliente estará fazendo de diferente e/ou do tipo de coisas que estarão acontecendo e que serão diferentes quando o problema estiver resolvido, criando assim a expectativa de uma mudança benéfica. A linguagem do cliente ao descrever alguns futuros alternativos e os detalhes das diferenças depois da solução parecem mais importantes do que os detalhes sobre a sala trancada da queixa. Com possíveis futuros alternativos em mente, o cliente pode se juntar ao terapeuta na construção de um conjunto viável de soluções (1985, p. 46).

Vez após vez, ao falar de objetivos, da técnica da bola de cristal e da pergunta do milagre, de Shazer voltava às teorias de Berger. Ele acreditava que era a expectativa de que a mudança aconteceria que fazia a mudança acontecer:

Quando um objetivo é definido, a expectativa de um futuro diferente, mais satisfatório, começa a se desenvolver, e mudanças de comportamento no presente tornam-se possíveis. O futuro é tornado saliente para o presente; assim, o objetivo e as consequências de sua realização podem “determinar” ou moldar o que acontece em seguida (de Shazer, 1985, p. 94).

É interessante notar que, ao mesmo tempo em que de Shazer desenvolvia seu pensamento em torno da bola de cristal e da pergunta do milagre como meios de o cliente construir e experimentar um futuro desejado (mudado), ele também escrevia sobre as tarefas de casa (“intervenções”) dadas ao final da sessão como um meio útil de ajudar os clientes a experimentar a mudança:

Nossos esforços para compreender como funcionavam as intervenções descritas acima [os autores haviam descrito “quatro intervenções úteis” em seu artigo] revelaram que elas têm uma qualidade em comum: cada uma tenta, de algum modo, ajudar os clientes a experimentar o mudar (de Shazer & Molnar, 1984, p. 303).

Assim, segundo de Shazer em meados dos anos 1980, as práticas terapêuticas que permitiam aos clientes experimentar mudanças pareciam contribuir para o desenvolvimento de soluções ao transformar as expectativas saturadas de problema que tinham no início da terapia em expectativas de vidas mais satisfatórias.

Elaborar uma teoria sobre as entrevistas de desenvolvimento de soluções: os mapas do BRIEFER. Em 1988, com a publicação de seu terceiro livro, Clues: Investigating Solutions in Brief Therapy, de Shazer prosseguia o deslocamento de seu foco para a importância crescente do próprio processo de entrevista no desenvolvimento de soluções. Com base na observação contínua de sessões em meados e no fim dos anos 1980, havia percebido de modo ainda mais convincente que a mudança terapêutica não pode ser toda atribuída às intervenções da mensagem de fim de sessão. Essa constatação complicava seu projeto de desenvolvimento teórico. Como dizia: “Vamos encarar: as entrevistas são uma bagunça e, portanto, estudá-las é igualmente bagunçado” (1988, p. xiv). Ainda assim, pôs-se a estudar o que os vários membros da equipe tinham em comum em suas entrevistas de desenvolvimento de soluções. Escreveu: “Cada membro da equipe do BFTC tem um estilo diferente e um modo diferente de implementar o modelo. E, no entanto, cada membro da equipe dirá que estamos ‘fazendo a mesma coisa’!” (1988, pp. xiv-xv).

Em consequência, de Shazer lançou-se ao mapeamento da “mesma coisa” que os membros da equipe do BFTC faziam em suas entrevistas de desenvolvimento de soluções. Via isso como um projeto de desenvolvimento teórico, porque: “Teoria, no sentido em que uso o termo, não é entendida como uma ‘explicação’, mas antes como uma ‘descrição’ coerente de sequências específicas de eventos dentro de um contexto específico” (1988, p. xiv). As sequências de eventos que desejava descrever eram “os vários caminhos (de entrevista) da ‘queixa’ à ‘realização do objetivo’ e à ‘solução’, que os casos tendem previsivelmente a seguir” (1988, p. xviii). De Shazer percebia também que precisava ser rigoroso nesse esforço: “A construção teórica exige que o mapa resultante tenha alto grau de rigor. Não basta que um passo se siga logicamente a outro: esses passos precisam se seguir uns aos outros previsivelmente” (1988, p. 15).

A observação tornava evidente que diferentes terapeutas do BFTC tomavam com frequência decisões semelhantes. Por exemplo, se um cliente descrevia no início de uma sessão que as coisas já estavam melhores, havia alta probabilidade de que o terapeuta prosseguisse com perguntas sobre o que estava diferente, sobre o que o cliente havia feito para que a mudança acontecesse e sobre o que o cliente precisava fazer para manter o progresso. Esse tipo de decisão pode ser mapeado:

SE: uma exceção ou uma mudança pré-sessão é descrita,
ENTÃO: existe alta probabilidade de que o terapeuta pergunte: “Como você fez isso?”

Verificou-se que muitos casos seguiam um caminho semelhante: fala-problema → entrevista sobre exceções → pergunta do milagre → perguntas sobre pedaços do milagre do cliente já acontecendo → pausa de consulta → devolutiva e, muitas vezes, uma tarefa de casa sugerindo que o cliente continuasse a fazer o que fazia, e/ou observasse progressos adicionais, e/ou observasse o que fazia para manter os progressos já alcançados.

Outros casos seguiam caminhos diferentes. Um deles podia ser uma sessão em que o cliente começa dizendo que não há problema e em que, apesar dos esforços do terapeuta ao longo de toda a sessão para apreender o que o cliente quer, nada emerge. Nesse padrão, era altamente previsível que o terapeuta terminasse a sessão apenas com “elogios” (de Shazer, 1988, pp. 87-88). Era igualmente previsível que, nesse tipo de sessão, o terapeuta perguntasse se alguém havia enviado o cliente à terapia, quem era essa pessoa e o que ela queria ver acontecer como resultado da terapia.

O mapa central (isto é, a teoria) mudava à medida que a prática mudava no BFTC. Por exemplo, uma vez descoberta e descrita a mudança pré-sessão, ela alterou o padrão das primeiras sessões, porque os terapeutas passaram a começar as sessões buscando a mudança já ocorrida. O antigo falar sobre o problema no início da sessão passou mais para o segundo plano, à medida que os terapeutas do BFTC começaram a tentar desenvolver descrições de progresso e de mudança já no início da sessão e, então, a trabalhar para manter em curso as mudanças já em andamento.

Refletindo sobre o “MAPA CENTRAL”, de Shazer escreveu:

Em consequência, a estrutura ou árvore genealógica que desenvolvemos para olhar as entrevistas nos deu um instrumento de observação e descrição disciplinadas das semelhanças entre entrevistas, apesar de sua diversidade aparente. Isso me ajudou em meu projeto de construção teórica, o qual, por sua vez, nos ajudou a compreender o que é que fazemos (1988, p. xvii).

À medida que o trabalho clínico no BFTC mudava e ficava mais simples, o mapa central e o programa de computador que o acompanhava mudavam. As diferentes versões do programa foram chamadas de “BRIEFER I” e “BRIEFER II” (de Shazer, 1988, pp. 14-19, 41-45). Uma terceira versão, BRIEFER III, nunca foi publicada e sobreviveu apenas nos computadores de algumas pessoas que ainda rodam Windows XP. No BRIEFER III, entre 80 e 90 por cento das sugestões de tarefa de de Shazer podiam ser previstas pelo programa. O programa em si contém apenas dezesseis regras (de Shazer, comunicação pessoal e demonstração do programa, setembro de 1988). A versão mostrada a Harry Korman destinava-se apenas a pesquisa e demonstração. Quando Harry perguntou a de Shazer se havia pensado em comercializar o programa, de Shazer respondeu que dava trabalho demais e que, se o programa fosse usado clinicamente, as questões de responsabilidade jurídica eram insolúveis.

As teorias sobre a mudança terapêutica. O que é a mudança? A pergunta parece simples até que se tente respondê-la. Mudança é apenas fazer algo de um modo diferente? Ou é pensar diferentemente uma situação, o que então suscita comportamento diferente? Ou é ser capaz de fazer hoje algo que não se conseguia fazer ontem, o que leva a se sentir bem-sucedido, a contar a alguém sobre o sucesso e depois a conseguir fazê-lo de novo? Ou a mudança é tudo isso e possivelmente muito mais?

Nunnally et al. (1986), em um artigo sobre a mudança terapêutica, descreveram como tentaram aplicar diferentes modelos teóricos de compreensão às suas observações da mudança dos clientes no BFTC. Consideraram: (a) as noções de mudança de primeira e de segunda ordem propostas pelo MRI (Watzlawick et al., 1974), (b) o quadro da mudança contínua/descontínua sugerido por Prigogine et al. (1972) e por Dell & Goolishian (1979), (c) a distinção entre homeostase e morfogênese (Maruyama, 1963; Wilden, 1980) e (d) os conceitos da teoria das catástrofes (Thom, 1975). Os autores do BFTC indicaram que nenhuma dessas teorias se ajustava muito bem à sua experiência ou às suas observações. Preferiram ficar com a compreensão básica que sustentavam havia vários anos: “Para nós, terapeutas breves influenciados por Milton Erickson, talvez seja mais simples pensar a ‘mudança’ como… o que quer que aconteça que torne a vida do cliente mais satisfatória, e deixar por isso mesmo” (Nunnally et al., 1986, p. 88). Além disso, muitos dos terapeutas do BFTC sustentaram por muito tempo uma visão budista da mudança, “… segundo a qual a mudança é constante e a estabilidade é uma ilusão”. Essa visão budista, sim, ajustava-se às suas observações de clientes que relatavam mudança pré-sessão, exceções aos problemas e progressos entre as sessões. Como escreveram: “nós… trabalhávamos para manter essas mudanças em curso e… essa abordagem levava a maior satisfação do cliente e a menos sessões por cliente” (Nunnally et al., 1986, p. 90).

Assim, independentemente de todas as diferentes teorias sobre a mudança, ou a mudança é satisfatória para o cliente ou não é. No fim das contas, portanto, os autores do BFTC concluíram o seguinte sobre a mudança:

Qualquer comportamento visto como novo ou diferente pode ser usado como parte da construção terapêutica de uma solução. Não precisa ser um pedaço de comportamento visto como parte do padrão da queixa. Mesmo que o novo comportamento tenha ocorrido pela primeira vez antes da primeira sessão de terapia, pode ser rotulado como o começo da solução. Assim, qualquer diferença pode ser desenvolvida em uma diferença que faz diferença, desde que o novo comportamento (ou o comportamento recém-percebido) seja “sacramental”, isto é, seja percebido [pelo cliente] como um “sinal exterior e visível de mudança”.

Claramente, qualquer teoria da mudança clínica precisa incluir a influência do observador, isto é, o gancho de Heisenberg. Embora o processo de mudança possa ser visto como constante, a influência do terapeuta-observador faz parte do que produz a distinção entre a) as diferenças que fazem diferença e b) as diferenças que não fazem diferença alguma (Nunnally et al., 1986, p. 90).

Como a terapia breve produz mudança? Vasculhar os escritos de de Shazer em busca de suas respostas a essa pergunta torna-se logo confuso e esmagador, de tantas teorias que ele desenvolveu sobre o tema. Em 1988, escreveu o seguinte sobre suas tentativas de responder a como a terapia breve produz mudança:

Ao longo dos últimos vinte anos fazendo, estudando, pensando e observando terapia breve, elaborei cerca de mil descrições [teorias] diferentes de como a terapia breve funciona. Isso é aproximadamente uma construção para cada dez casos. Pelo caminho, descobri que nunca sei o que penso até ver o que escrevo e como escrevo. Isso me permitiu jogar fora algumas das respostas mais obviamente estúpidas.

As respostas que me pareciam se sustentar melhor (as que mais se aproximavam de uma boa resposta!) usei como material para artigos, livros e, mais recentemente, sistemas especialistas (por exemplo, de Shazer, 1975a, 1978a, 1979a, 1985). Mas justo quando tenho uma que considero a melhor, a mais clara, a mais abrangente e a mais geral, algo acontece que me leva em outra direção. Portanto, a resposta de hoje é só para hoje; amanhã ela pode mudar, ou não (de Shazer, 1990, p. 92).

Embora a citação acima seja de uma publicação de 1990, essa publicação é a reprodução de uma conferência proferida por de Shazer em 1988 no Quarto Congresso Internacional sobre Abordagens Ericksonianas de Hipnose e Psicoterapia, em São Francisco, Califórnia. Foi nessa conferência que ele deu a descrição mais detalhada até então de como pensava que a terapia breve produz mudança no cliente. Começou essa descrição retomando ideias que havia introduzido antes, nos anos 1980, a saber, criar uma expectativa de mudança por meio das novas técnicas de entrevista do BFTC e fazer os clientes experimentarem a mudança por meio de tarefas de casa ou experimentos sugeridos nas intervenções de fim de sessão. Contudo, prosseguindo sua descrição, em 1988 ele já havia ampliado essas ideias de um modo que antecipava aonde levaria seu projeto de desenvolvimento teórico nos anos 1990 e depois.

Como descrevemos na seção anterior, sobre a bola de cristal e a pergunta do milagre, as queixas que os clientes trazem aos terapeutas breves parecem construídas sobre uma premissa simples: aquilo de que se queixam “sempre acontece”. Em 1988, de Shazer começava a desenvolver esse ponto mais plenamente, concentrando-se na linguagem que os clientes usam quando descrevem seus problemas e os dos outros: casais dizem com frequência “nós sempre brigamos”, pais dizem “nossos filhos estão sempre se comportando mal”, o cliente individual usa tantas vezes uma linguagem como “eu sou deprimido”, “eu sou anoréxico” ou “ela é esquizofrênica”. Como de Shazer escreveu: “De todo modo, os clientes tiveram o azar de falar das coisas de um jeito que os leva a construir a queixa como uma situação de estado estável. Isso está trancado nas palavras que usam, isto é, ‘eu sou’ e/ou ‘isso é’ e/ou ‘sempre’” (1990, p. 94). Então, apoiando-se em Wittgenstein (1958; 1968), ele apontou que esse modo de falar leva a equiparar o que quer que venha depois do “eu sou” a “algo imutável ou inalterável, como ‘eu sou homem’ ou ‘eu sou sueco’. … [E, ao usar uma] gramática análoga em frases diferentes [‘eu sou anoréxico’ e ‘eu sou sueco’], nós (talvez inconscientemente) esperamos que elas tenham significados análogos” (pp. 94-95). Em outras palavras, a gramática que os clientes usam regularmente desempenha papel importante no enrijecimento de sua percepção de seus problemas.

De Shazer (1990) então argumentou que as exceções furam um buraco no quadro do “isso sempre acontece” do cliente:

A meu ver, inventar exceções fura buracos no quadro dos clientes (‘eu sou isto’ ou ‘isso sempre acontece’) de modo que eles possam ver através dele: a regra da queixa é desconstruída, de tal modo que sua imutabilidade se torna indecidível. A regra ‘eu sou um exibicionista’ transforma-se em outra coisa, talvez: ‘às vezes eu me exibo’. O ‘às vezes’ nessa frase é muito forte. É difícil, mesmo inconscientemente, ouvir essa frase como análoga a ‘eu sou homem’. Essa desconstrução leva os clientes a ao menos começar a duvidar de sua regra do ‘isso sempre acontece’. Uma vez instalada a dúvida, o que realmente se passa torna-se indecidível e uma nova realidade pode ser construída (de Shazer, 1990, p. 96).

Nessa altura (1988), de Shazer também afirmava que as exceções que levam à mudança do cliente não são fenômenos objetivos:

É importante lembrar que as exceções não existem lá fora, no “mundo real”; elas são cooperativamente inventadas ou construídas pelo terapeuta e pelo cliente conversando juntos. Antes que terapeuta e cliente falem sobre exceções, esses momentos são simplesmente vistos como “golpes de sorte” ou como diferenças que não fazem diferença. É tarefa do terapeuta ajudar os clientes a transformar golpes de sorte em diferenças que fazem diferença. Sou continuamente surpreendido pelas exceções e frequentemente deixo o cliente ver isso. As histórias dos clientes sobre momentos em que a queixa está inesperadamente ausente frequentemente me “derrubam” (de Shazer, 1988, p. 96).

Na conclusão desse artigo importante, de Shazer resumia assim seu pensamento:

Dito do modo mais simples, a terapia é uma conversa entre pelo menos duas pessoas (no mínimo um terapeuta e um cliente) sobre alcançar o objetivo do cliente. Quando, em resultado dessa conversa, os clientes começam a ter dúvidas sobre seu enquadramento imutável de sua situação penosa, a porta para a mudança e para a solução foi aberta. É essa a essência da terapia breve (de Shazer, 1990, p. 98).

Assim, a teoria de de Shazer no fim dos anos 1980 sobre como a mudança acontece na terapia breve era que o terapeuta leva o cliente a duvidar do quadro do “isso sempre acontece” por meio da construção de exceções que equivalem a diferenças que fazem diferença para ele.

Para resumir com exatidão a terceira fase do projeto de desenvolvimento teórico de de Shazer, não se pode fazer muito melhor do que apontar que, com a publicação de Keys to Solution in Brief Therapy (1985), de Clues: Investigating Solutions in Brief Therapy (1988) e de cerca de vinte e cinco artigos entre 1982 e 1989, de Shazer e seus colegas do BFTC haviam se afastado dramaticamente de uma terapia breve centrada no problema e baseada no pensamento ecossistêmico. Em seu lugar, ele havia criado uma descrição teórica detalhada de como uma entrevista de desenvolvimento de soluções era conduzida no BFTC. Suas publicações incluíam mapas de sessão sobre o que fazer nas entrevistas e diretrizes sobre como usar o que havia emergido durante a sessão para elaborar mensagens de fim de sessão que incluíam elogios, afirmações dos objetivos dos clientes e intervenções ou tarefas padrão concebidas para levar os clientes a buscar e/ou a continuar as mudanças que queriam ter mais em suas vidas. Se alguém quisesse aprender a conduzir a TBFS com clientes, não poderia fazer muito melhor do que ler com atenção os livros e artigos de de Shazer dessa fase e depois trabalhar para pôr seu conteúdo em prática.

Essas fontes dos anos 1980 contêm uma descrição teórica da mudança do cliente pelo desenvolvimento de soluções e, com isso, incorporaram mais um axioma fundante ao projeto de desenvolvimento teórico de de Shazer.

Axioma 5

A terapia breve consiste em desenvolver soluções com os clientes.

Este axioma quer captar o desenvolvimento de soluções como trabalho cooperativo do terapeuta e do cliente para dar continuidade às mudanças já em curso na vida do cliente, especificamente àquelas que vão na direção do futuro mais positivo que o cliente quer. Implica também convidar os clientes a expandir e a construir os detalhes de sua definição de um futuro mais satisfatório. Este axioma reafirma a posição interacional de de Shazer, pois o desenvolvimento de soluções ocorre por meio do cliente, do terapeuta e da equipe (quando presente) agindo como um sistema único voltado para promover a mudança do cliente. Em contraste, o desenvolvimento de soluções não consiste em ver os clientes como portadores de problemas concebidos como enigmas a serem avaliados e resolvidos. Nesse aspecto, de Shazer distinguiu claramente a TBFS da maioria das outras terapias.

Fase 4. O último de Shazer e Wittgenstein, 1989-2005: coconstruir a mudança do cliente pela interação de linguagem

O caso da ninfomania. Alguns chamariam esse período de “o depois do caso da ninfomania”, outros de “fase pós-estrutural da TBFS”. Em 1989, de Shazer e seus colegas haviam mapeado como as entrevistas de desenvolvimento de soluções eram feitas. Tinham uma visão clara de como as tarefas de desenvolvimento de soluções eram criadas e haviam descrito as conexões entre a informação criada na entrevista e as tarefas que sugeriam aos clientes. O BFTC estava lotado de estudantes e praticantes que queriam aprender essa nova forma de terapia breve centrada em desenvolver soluções, e não em resolver problemas. De Shazer e Berg tornavam-se cada vez mais conhecidos e ensinavam pelo mundo inteiro. Então, em 1989, uma mulher e seu marido vieram ao BFTC queixando-se de que ela era “ninfomaníaca”. Na visão da mulher, sua condição — ter uma necessidade insaciável de sexo — era sintoma de um problema subjacente, muito grave, enraizado em sua primeira infância, que exigiria uma “terapia profunda” de longa duração para ser resolvido. Quando ela e o marido saíram da sessão, o problema havia sido rebatizado de “insônia”, e este se resolveu nas duas semanas que se seguiram à entrevista. De Shazer e seus colegas reconheceram que a mudança ocorrida na sessão e os resultados relatados pelos clientes não podiam ser compreendidos de dentro da teoria da TBFS de então; isto é, o caso não podia ser lançado nos mapas que haviam desenvolvido entre 1982 e 1989. Mais uma vez, ocorrera uma “anomalia”, e de Shazer voltou-se para seu “hobby”, a filosofia e a sociologia do conhecimento, para começar a redescrever a TBFS, dessa vez pela lente do pensamento “pós-estrutural”.

Dentro de um quadro estruturalista, a “ninfomania” certamente não pode deslizar para a “insônia”. No entanto, dentro da visão pós-estrutural da linguagem, desenvolvida mais recentemente (Harland, 1987), é exatamente assim que se vê as palavras funcionarem (de Shazer & Berg, 1992, p. 73).

E, no mesmo artigo, de Shazer e Berg escreveram:

Enquanto a visão estruturalista predominante vê o sentido e a verdade como estando atrás ou dentro de uma pessoa, de um sistema ou de uma estrutura, outra visão, chamada pós-estruturalismo (ver, por exemplo, Harland, 1987), enfatiza a interação das pessoas como atividade por meio da qual o sentido é construído. Fundamentalmente, estruturalismo e pós-estruturalismo implicam modos descontínuos de pensar as palavras, os conceitos e o sentido (p. 73).

Em que sentido essas duas visões são descontínuas? Na visão estrutural predominante, a produção de sentido é compreendida como um processo que acontece na mente da pessoa. O modo como as pessoas interpretam e compreendem o que percebem é uma atividade que se passa no cérebro. O que as pessoas dizem e como se comportam — os comportamentos de “superfície” — são determinados pelo que se passa abaixo da superfície, dentro delas. Compreender assim a produção de sentido leva a pesquisas sobre o que se passa dentro da cabeça de uma pessoa.

Na visão pós-estrutural — o que hoje se conhece mais frequentemente como “construcionismo social” (Gergen, 2015) —, a produção de sentido é interacional: acontece na comunicação entre as pessoas. A produção de sentido é um processo visível, na superfície (isto é, nas ações comunicativas visíveis e audíveis), e ocorre continuamente à medida que as pessoas se comunicam entre si. Compreender assim a produção de sentido leva a pesquisas sobre as interações visíveis e audíveis entre as pessoas. Os pesquisadores observam aqui as microssequências do que acontece em uma conversa quando as pessoas concordam ou discordam sobre o que fazer ou pensar em determinada situação, ou sobre como interpretar e descrever alguma experiência. Em outras palavras, os pesquisadores investigam aqui os muitos modos pelos quais os participantes do diálogo se influenciam reciprocamente.

Considera-se que todos esses fenômenos desempenham papel no modo como o sentido emerge no diálogo. De Shazer e Berg chamam esses fenômenos interacionais de “negociação” dos sentidos:

Como exemplo de uso da linguagem, a unidade terapeuta-conversa-cliente pode ser abordada de modo amplo, porque o que quer que a conversa venha a significar tanto para o terapeuta quanto para o cliente depende de suas negociações (1992, p. 77).

O casal do caso da ninfomania, por exemplo, descreveu no início da terapia o que via como seu problema. As palavras que usaram carregavam para eles, naquele momento, certos sentidos. A esposa dizia ter um desejo sexual insaciável e não conseguir dormir sem ter tido relação. Para ela, naquele momento da conversa, seu desejo e suas dificuldades de sono eram sinais de ser ninfomaníaca. Além disso, em sua visão, a ninfomania era sintoma de problemas profundos, enraizados em sua infância, que exigiriam terapia de longa duração para serem resolvidos. A descrição na superfície — “uma necessidade insaciável de sexo que a impede de dormir” — era, para ela, o sinal na superfície de uma realidade mais profunda, a “ninfomania”. Contudo, à medida que a sessão prosseguia, emergiu uma descrição alternativa com os sentidos que a acompanham. De Shazer e Berg escreveram:

A conversa sobre o que se passa aqui passou para o marido, que descreveu a agonia dela [da esposa] com a ninfomania e o cansaço dele. Como ele via, estava sendo privado da oportunidade de ser romântico com ela; em vez de seu amante, tornara-se apenas um garanhão, uma máquina de sexo.

Marido: “Mas para mim é mais um problema de sono, para nós dois.”

Terapeuta: “Fico pensando nisso. Talvez estejamos olhando para isso do jeito errado.”

Esposa: “Você tem alguma cura para a insônia? Eu topo.”

Terapeuta: “Não sei. Estávamos olhando para isso como um distúrbio sexual, mas está começando a parecer mais um distúrbio do sono” (p. 75).

O marido sugeriu que era mais um problema de sono para os dois. O terapeuta disse que talvez estivessem olhando para aquilo do jeito errado e sugeriu assim que talvez o marido tivesse razão. Talvez a necessidade de sexo antes de dormir fosse um modo de lidar com um distúrbio do sono. A esposa então pediu uma cura para a insônia. Na superfície, isto é, pelo modo como as três pessoas na sala falavam agora, o sentido das atividades sexuais diárias antes de adormecer havia começado a se deslocar: de sintoma evidente de ninfomania, passava a ser possivelmente sintoma de um distúrbio do sono, ou simplesmente um modo de lidar com a dificuldade de adormecer.

De Shazer e Berg prosseguem sobre o caso:

Durante todo o resto da sessão, o terapeuta manteve a conversa estritamente em nível comportamental e evitou qualquer discussão adicional de pensamentos, sentimentos e sentidos. A queixa do distúrbio do sono tornou-se unicamente uma dificuldade “comportamental” ou “técnica”, em torno da qual uma solução podia ser construída por meios técnicos (p. 77).

Assim, a partir desse ponto da sessão, o terapeuta e o casal falaram de um problema de insônia (não de ninfomania) e, ao final da sessão, a mulher recebeu conselho técnico da equipe que estava atrás do espelho unidirecional sobre algumas coisas que poderia tentar para “curar” sua insônia.

Depois de consultar a equipe atrás do espelho unidirecional, o terapeuta apresentou duas opções à mulher: 1. Talvez pudesse, a título de experimento, parar de se exercitar por ora. Essa ideia foi imediatamente rejeitada pela mulher. Ou 2. (a) se ela se encontrasse acordada uma hora depois de ir para a cama, deveria levantar-se e fazer tarefas domésticas detestáveis, como limpar o forno; ou (b) se ela se encontrasse acordada uma hora depois de ir para a cama, deveria continuar deitada, mas de olhos bem abertos, concentrando-se em impedir que sua língua tocasse o céu da boca até adormecer.

A segunda ideia foi aceita com bom humor: tanto a mulher quanto o marido caíram na gargalhada. Em resposta, a equipe acrescentou um elemento a mais: depois do jantar, em algum momento antes de ir para a cama, o marido deveria jogar uma moeda para decidir qual opção ela usaria naquela noite (pp. 77-78).

De Shazer e Berg, refletindo sobre o caso, comentaram:

O que se passa aqui? O marido ofereceu uma visão diferente, uma palavra/conceito diferente que foi imediatamente aceita por sua esposa e pelo terapeuta. Achávamos que estávamos em terreno seguro; a linguagem parecia estar se comportando muito bem, mas agora a mulher está dizendo que está disposta a considerar chamar sua queixa por outro nome (p. 76)!

De Shazer e Berg estão brincando, evidentemente, quando dizem que “a linguagem parecia estar se comportando muito bem”. Se a linguagem se comportasse bem, o que é a visão estruturalista habitual, a “ninfomania” não pode deslizar para a “insônia”. Resta, portanto, a pergunta: “O que se passa aqui?”

O mal-entendido. No mesmo artigo sobre uma revisão pós-estrutural do fazer terapia, de Shazer e Berg ofereceram esta descrição teórica do que acontece nas sessões:

Os clientes descrevem sua situação a partir de seu próprio ponto de vista, particular e singular. O terapeuta escuta, sempre vendo as coisas de modo diferente, sempre tendo sentidos diferentes para as palavras que os clientes usam, e assim redescreve o que os clientes descrevem a partir de um ponto de vista diferente. As possibilidades de novos sentidos se abrem a partir dessas duas descrições diferentes, desses dois sentidos diferentes, quando são justapostos. (Isso é metaforicamente semelhante ao processo envolvido na percepção de profundidade; ver “Teoria binocular da mudança” em de Shazer, 1982a.) O resultado não são as visões e os sentidos dos clientes, nem a visão e o sentido do terapeuta, mas algo diferente de ambos (p. 77).

Em uma publicação relacionada, de Shazer chamou esse processo interacional — em torno dos sentidos do cliente e das tentativas de compreensão do terapeuta — de “mal-entendido criativo” (de Shazer, 1991, pp. 68-69). Ele propôs que, porque os participantes de uma conversa, clientes e terapeutas incluídos, vêm de contextos e experiências diferentes, eles só podem, em sentido real, se mal-entender. É por meio de suas negociações de linguagem para reduzir os mal-entendidos que novos sentidos e novos caminhos para soluções podem emergir. Assim, de novo, no “caso da ninfomania”, o marido mal-entendeu a “ninfomania” da esposa como um “problema de sono”, e o terapeuta mal-entendeu o “distúrbio sexual” da esposa como um “distúrbio do sono”. Depois, como se disse, o trabalho posterior do terapeuta com o casal, naquela sessão inicial, concentrou-se no mal-entendido criativo de que eles viviam um distúrbio do sono e em como uma solução para essa dificuldade técnica poderia ser construída, inclusive com a entrega de uma tarefa clássica de fim de sessão do BFTC. Depois disso, e extraordinariamente:

Duas semanas depois dessa sessão, a mulher enviou um bilhete agradecendo ao terapeuta e à equipe por terem visto que sua “necessidade insaciável de sexo” era apenas “um sintoma de minha insônia”. Escreveu que “imediatamente meus padrões de sono e minha libido voltaram ao normal”. Não disse se ela e o marido chegaram a tentar a tarefa de intervenção (de Shazer & Berg, 1992, p. 78).

Ludwig Wittgenstein. Do início dos anos 1990 até sua morte, em 2005, de Shazer continuou a pensar e a escrever sobre o fato de os sentidos das palavras nas sessões de terapia não serem fixos e sobre as implicações desses sentidos móveis para a mudança do cliente. Apoiou-se no trabalho de vários filósofos, sobretudo de Ludwig Wittgenstein, para desenvolver suas próprias descrições teóricas. De Shazer apreciava a visão wittgensteiniana do funcionamento da linguagem. Wittgenstein não acreditava que as palavras tenham sentidos essenciais; ao contrário, dizia de Shazer: “Wittgenstein… aponta que o sentido das palavras é determinado pelo modo como são usadas pelos vários participantes dentro de um contexto específico” (1991, p. 71). Estreitamente associada ao sentido contextual das palavras está a ideia de que o sentido se estabelece no diálogo interativo: “… a linguagem e a fala nascem e se desenvolvem pelo uso, pela interação social e pela comunicação” (de Shazer, 1994, p. 51). De Shazer exprimia assim esse caráter contextual e interativo das sessões:

Por exemplo, um enunciado do terapeuta durante determinada sessão está relacionado a todos os seus enunciados anteriores (durante aquela sessão), a todos os seus enunciados futuros (durante aquela sessão) e também a todos os enunciados do cliente sobre determinado assunto durante aquela sessão — uma situação que… Wittgenstein chamava de “jogo de linguagem” (de Shazer, 1994, p. 51).

Ao usar o termo “jogo de linguagem”, Wittgenstein propunha a visão de que a linguagem é mais bem vista como atividade interativa do que como conjunto abstrato de sentidos essenciais (de Shazer et al., 2007, p. 109). Um pouco adiante, na mesma fonte, de Shazer escreve: “O que Wittgenstein chama de ‘jogos de linguagem’ pode ser simplesmente descrito como fatias da vida cotidiana, a base de origem das palavras e dos conceitos” (p. 110). Nos anos 1990 e até o fim de sua vida, de Shazer passou a ver e a falar das conversas focadas nas soluções como jogos de linguagem específicos de um contexto, nos quais as interações de linguagem podem abrir aos clientes novas possibilidades de criar para si vidas mais satisfatórias. Depois de 1990, é notável que de Shazer e seus colegas não tenham acrescentado novas técnicas focadas nas soluções às que haviam inventado nos anos 1980. Em compensação, apoiando-se especialmente em Wittgenstein e a partir do caso da “ninfomania”, ele passou a descrever de maneira muito diferente o que via acontecer pelo uso dessas técnicas. Por exemplo, sobre o uso das escalas na TBFS, de Shazer afirmava:

Diferentemente da maioria das escalas usadas para medir algo com base em padrões normativos (isto é, uma escala que mede e compara o funcionamento do cliente com o da população geral ao longo da curva de Gauss), nossas escalas são concebidas primordialmente para facilitar o tratamento. Nossas escalas são usadas não apenas para “medir” a percepção do próprio cliente, mas também para motivar e encorajar, e para elucidar objetivos, soluções e tudo o mais que seja importante para cada cliente. … As escalas permitem que terapeuta e cliente usem o modo como o diálogo funciona naturalmente, desenvolvendo um termo acordado (por exemplo, “6”) e um conceito (por exemplo, em uma escala em que “10” representa a solução e “0” o ponto de partida, “6” é claramente melhor do que “5”) que é obviamente múltiplo e flexível. Como não se pode ter certeza absoluta do que outra pessoa quis dizer com o uso de uma palavra ou de um conceito, as perguntas de escala permitem que terapeuta e cliente construam conjuntamente uma ponte, um modo de falar de coisas difíceis de descrever — inclusive do progresso rumo à solução do cliente (1994, p. 92).

Como as conversas de escala, de Shazer teorizou que as conversas em torno da pergunta do milagre, das perguntas sobre “o que está melhor”, das perguntas de exceção e das perguntas de enfrentamento apoiam-se todas, do mesmo modo, no “modo como o diálogo funciona naturalmente”. Isto é, essas técnicas focadas nas soluções convidam os clientes a construir, em sua própria linguagem, os futuros alternativos que querem, o que já está acontecendo de melhor em relação a esses futuros preferidos, os momentos em que mais do que querem já acontece em suas vidas e como se veem enfrentando as coisas quando quase perderam a esperança de um futuro melhor. De Shazer chamou sua descrição teórica das sessões focadas nas soluções e dos deslocamentos de sentido que tão frequentemente acompanham as soluções de “construtivismo interacional” (de Shazer, 1991, p. 48; 76-80). Além de manter o uso das técnicas focadas nas soluções inventadas nos anos 1980, seu construtivismo interacional continuou a respeitar o que os clientes diziam querer da terapia, e não o que a profissão dizia que eles precisavam. Seu construtivismo interacional, com seu foco no sentido móvel das palavras pela interação dialógica, também deixava muito clara a importância de atender à linguagem cotidiana do cliente e de trabalhar com ela. A esse respeito, de Shazer lembrava regularmente aos que queriam ser terapeutas e coaches focados nas soluções que, em suas conversas com os clientes, deviam “ficar na superfície” das palavras do cliente e não fazer hipóteses sobre o que poderia estar se passando dentro de suas cabeças ou de suas situações. Por fim, seu construtivismo interacional deu continuidade à mudança já iniciada nos anos 1980, a de ver o conteúdo da entrevista como mais importante, para iniciar a mudança do cliente, do que a intervenção ou a tarefa de fim de sessão. O foco do construtivismo interacional está firmemente nas interações de linguagem18 do terapeuta e do cliente nas sessões — no jogo de linguagem focado nas soluções. As tarefas, ainda oferecidas depois de 1990, passaram para o segundo plano e funcionaram mais como resumos de fim de sessão do que fora interacionalmente construído durante a sessão.

Voltando ao nosso propósito inicial, extrair os axiomas do projeto de desenvolvimento teórico de de Shazer, acreditamos que ele acrescentou mais um axioma em sua fase de 1989-2005.

Axioma 6

A terapia é um processo interacional e dialógico visível, que negocia os sentidos da linguagem do cliente.

Este axioma quer captar a visão de de Shazer segundo a qual a mudança do cliente ocorre pela negociação dos sentidos que os clientes trazem ao sistema cliente-terapeuta. As palavras que os clientes usam não têm sentido essencial nem fixo, mas negociável pelas conversas terapeuta-cliente sobre o que os clientes podem querer, sobre a mudança positiva já em curso em suas vidas e sobre com o que se pareceria um progresso adicional rumo a vidas mais satisfatórias. Ainda que algumas outras terapias pós-modernas possam compartilhar essa visão teórica, a maioria das terapias do campo não é pós-moderna e funciona como se as palavras que descrevem as dificuldades dos clientes e suas soluções tivessem sentidos essenciais (depressão, ansiedade, ninfomania, problemas de sono etc.). Isto é, para a maioria das terapias do campo, os problemas dos clientes e os tratamentos correspondentes são largamente tidos como tendo uma existência definível, separada dos clientes e do que os clientes possam dizer a respeito deles.

Este axioma também é coerente com os axiomas identificados nas fases teóricas anteriores de de Shazer. A negociação dos sentidos é um processo visível e dá continuidade à sua ênfase em descrever a construção das soluções a partir do que pode ser diretamente observado na sala de terapia. Os deslocamentos de sentido ocorrem nas interações de linguagem do sistema terapeuta-cliente, enquanto este trabalha cooperativamente para construir soluções em torno do ou dos objetivos do cliente por uma vida mais satisfatória.

Conclusão

Esperamos que este artigo tenha abalado o mito de que a TBFS não tem teoria. Se for o caso, nosso propósito ao escrevê-lo foi alcançado. Ao refletir sobre nossa tentativa de condensar os escritos de de Shazer, ficamos espantados com a criatividade e a riqueza de sua construção teórica. Ele começou olhando as sessões de Erickson, e depois as do BFTC, pela lente de várias teorias existentes no campo. Quando essas teorias já não conseguiram captar o que ele e seus colegas observavam em suas sessões, deixou de lado essas conceituações e desenvolveu outras descrições teóricas. Nesse processo, desconstruiu muitas construções teóricas arraigadas no campo da terapia familiar e da psicoterapia em sentido amplo, e várias vezes reformulou suas próprias descrições da mudança do cliente e do que clientes e terapeutas fazem juntos que seja útil para promovê-la. Quando de sua morte, em 2005, suas descrições eram claramente pós-modernas, centradas nas interações de linguagem entre terapeutas e clientes. A nosso ver, ele deixou um legado de seis axiomas teóricos duradouros para convidar a mudança do cliente pela prática da TBFS, elaborados ao longo de mais de quarenta anos de pensamento e de escrita. Na ordem cronológica em que foram desenvolvidos, esses axiomas da TBFS são os seguintes.

1

A terapia é um processo interacional observável, isto é, uma conversa.

2

A unidade mínima de análise é o terapeuta interagindo com o cliente no cenário terapêutico. Essa unidade não pode ser subdividida.

3

A mudança é a finalidade do encontro do terapeuta e do cliente.

4

A mudança do cliente pela terapia ocorre por meio de interações observáveis nas quais o terapeuta encontra maneiras de cooperar com o cliente.

5

A terapia breve consiste em desenvolver soluções com o cliente.

6

A terapia é um processo interacional e dialógico visível, que negocia os sentidos da linguagem do cliente.

Ao refletir sobre o que conceituamos como as quatro fases do desenvolvimento teórico de de Shazer, duas coisas nos impressionam especialmente. A primeira é seu método de construção teórica. Escrevemos sobre a visão que ele e a equipe do BFTC tinham da relação recursiva entre prática, pesquisa e teoria. É evidente em seus escritos que de Shazer nunca se afastou dessa abordagem do desenvolvimento do conhecimento, e é notável que tenha privilegiado a observação direta da prática como fonte das descobertas que levaram às descrições das técnicas inovadoras e distintivas da TBFS que temos hoje. Vez após vez, ao longo de suas quatro fases, foi uma observação direta de algo acontecido na sala de terapia entre o terapeuta e o cliente que levou a equipe a pensar diferentemente e a desenvolver um novo projeto de pesquisa para testar a utilidade da nova descoberta. A teoria, então, decorria disso.

A segunda coisa que nos salta aos olhos no projeto de desenvolvimento teórico de de Shazer é que ele desenvolveu uma teoria interacional do que acontece entre terapeutas e clientes. Nesse aspecto, ele está claramente em minoria entre os praticantes e teóricos do campo da psicoterapia. O campo permanece, em geral, um campo de resolução de problemas, isto é, centrado em avaliar os problemas dos clientes e em desenvolver as intervenções correspondentes. Energia e recursos enormes são dedicados a desenvolver tipologias de problemas, de clientes e de famílias. Essas tipologias destinam-se a dar direção aos terapeutas na condução de suas entrevistas e na elaboração de suas intervenções. É impressionante que o projeto de desenvolvimento teórico de de Shazer e a TBFS resultante não tenham acrescentado ao campo nenhuma tipologia ou categoria de clientes ou de problemas. De Shazer nem sequer tentou categorizar as forças dos clientes ou os tipos de soluções. A TBFS está unicamente centrada no que é conjuntamente construído nas interações de terapeutas e clientes e que é útil para a mudança do cliente. Quando de sua morte, ele continuava a descrever teoricamente o que acontece nas interações de linguagem do terapeuta e dos clientes.

Desde a morte de de Shazer, novas pesquisas em microanálise das conversas terapêuticas dão continuidade ao seu foco interacional e o ampliam a outros aspectos das interações terapeuta-cliente (Bavelas, De Jong e Smock Jordan et al., 2014; De Jong, Smock Jordan, Healing & Gerwing, 2020; Korman et al., 2013; Smock Jordan et al., 2013). Esses estudos, baseados na observação direta da interação cliente-terapeuta, oferecem apoio empírico ao construtivismo interacional de de Shazer. Indicam também que a coconstrução do sentido é um traço de todas as terapias, e não apenas das pós-modernas. Embora os sentidos coconstruídos por terapeutas que usam modelos diferentes sejam diferentes, todos os terapeutas empregam os mesmos processos interacionais, diretamente observáveis, para influenciar a direção de suas sessões no sentido do que acreditam ser mais útil aos clientes.

Acreditamos, portanto, que de Shazer fez contribuições teóricas significativas ao longo de toda a sua carreira. Acreditamos também que tanto seu método recursivo de desenvolver teoria quanto seu construtivismo interacional perdurarão. Se continuarmos a seguir o exemplo que ele deu nesses aspectos, acreditamos que nosso campo só ficará mais forte.

Notas do original

1. Este artigo deve muito à Dra Janet Beavin Bavelas. Sem sua contribuição criativa, ele não teria sido escrito.

2. De Shazer descrevia esse foco como “ficar na superfície” e tentar evitar fazer inferências sobre qualquer coisa que se passasse abaixo ou por baixo. Tratamos desse foco em mais detalhe na seção intitulada “O último de Shazer e Wittgenstein, 1989-2005”.

3. Voltamos mais adiante a essa ideia bastante confusa.

4. Muitos anos depois, quando de Shazer viu Milton Erickson em vídeo pela primeira vez, sua reação espontânea foi: “Puxa, ele está fazendo tudo errado” (McKergow & Korman, 2009, p. 44).

5. Em 1987, ele passara a ver a técnica da bola de cristal como “… uma tentativa precoce de focar sistematicamente o cliente nas soluções em vez de nos problemas” (Molnar & de Shazer, 1987, p. 350).

6. Em um artigo publicado no fim dos anos 1970, de Shazer ainda falava de “resistência” e de “homeostase”, sem ainda questionar esses conceitos ou metáforas (de Shazer, 1979b, pp. 83-95). É notável, como explicamos adiante, que os conceitos de homeostase e de resistência tenham desaparecido (ou deixado de ser úteis) uma vez claramente articulada a distinção entre terapia-familiar-como-sistema e família-como-sistema.

7. Uma exceção é “o que acontece quando a queixa não acontece” (de Shazer et al., 1986, p. 215).

8. De fato, de Shazer já havia publicado em 1975 um artigo (de Shazer, 1975b) em que sugeria um modo de trabalhar com famílias que tinham objetivos conflitantes.

9. Em agosto de 1980, de Shazer escrevia que estava dando os “retoques finais” em seu primeiro livro, Patterns of Brief Family Therapy: An Ecosystemic Approach (Underground Railroad, vol. 1, n. 2, p. 2). Houve, portanto, dois anos de intervalo entre os retoques finais e a publicação. Naquela altura (1982), com as inovações terapêuticas se desenvolvendo tão rapidamente no BFTC, de Shazer e seus colegas já não trabalhavam como o livro descreve (H. Korman, comunicação pessoal, 1988).

10. O artigo de de Shazer sobre “A morte da resistência” só foi publicado em 1984. Contudo, como ele explicou mais tarde em um artigo de 1989 intitulado “Resistance Revisited”, o artigo havia sido concebido e essencialmente escrito vários anos antes. Ele escreveu nesse artigo posterior: “Em 1978, depois de nos sentarmos atrás do espelho e vermos nossa equipe… trabalhar com clientes anunciados como ‘altamente resistentes’ pelos terapeutas encaminhadores, e vermos esses clientes cooperar prontamente conosco, decidimos que um pouco de violência conceitual se impunha e assim assassinamos a resistência” (p. 227). Pouco depois, em 1979, de Shazer submeteu o artigo pela primeira vez. Conta que foram necessárias seis revisões, sem mudar o título nem a tese do artigo, e dezessete recusas antes que o artigo fosse aceito e publicado em 1984. Aparentemente, a resistência pode ser muito difícil de superar.

Corre nos círculos da TBFS uma história segundo a qual, em julho de 1979, depois de a equipe do BFTC ter matado a resistência, teria sido enterrada e um santuário lhe teria sido erguido. Uns dizem que o enterro foi no BFTC, outros que aconteceu na casa de de Shazer e Berg. Embora amplamente divulgada, essa história nunca foi confirmada e, até hoje, nunca ouvimos ninguém dizer que viu o santuário. Talvez o enterro tenha sido metafórico, como o “assassinato”.

O artigo foi aceito para publicação em 3 de maio de 1984. Essa data foi escolhida como dia mundial da orientação para soluções, em honra ao que algumas pessoas veem como uma das publicações mais revolucionárias de de Shazer.

11. De Shazer apoiou-se no conceito batesoniano de “notícia da diferença” e na noção de “mudanças de segunda ordem” nos sistemas ao explicitar seu conceito de “bônus” na teoria binocular da mudança (1982a, pp. 7-9; 1984, p. 12).

12. O leitor encontrará muitos exemplos de casos de clientes e das pistas que a equipe do BFTC concebeu nesse período em de Shazer (1982a).

13. Ver a descrição desses princípios por Haley (1967), inclusive a que diz que problemas vagamente descritos devem levar a uma devolutiva vaga de fim de sessão e a uma tarefa de casa vaga.

14. De Shazer começara a desenvolver tarefas padrão (ou fórmula) já em 1969, para casos que envolviam problemas semelhantes (de Shazer, 1985, pp. 122-125). Em 1985, rebatizou-as de “chaves-mestras” (de Shazer, 1985, pp. 119-136). Muitos praticantes da TBFS continuam a usar essas tarefas hoje.

15. Um dos autores (PDJ) entrevistou Insoo Kim Berg em 1996 sobre o desenvolvimento da terapia breve focada nas soluções no BFTC e, em particular, sobre a origem do conceito de exceções. Ela pensava que ele viera pouco depois e diretamente do desenvolvimento da TFPS. A seu ver, pedir aos clientes que prestassem atenção ao que queriam que continuasse acontecendo em suas vidas (a TFPS) era semelhante a perguntar-lhes o que acontecia em suas vidas quando os momentos de problema não aconteciam (as exceções). A entrevista com Berg está disponível mediante solicitação a PDJ; os interessados podem escrever-lhe para pdejongsft@gmail.com.

16. Várias outras tarefas-fórmula tiveram origem no trabalho anterior, principalmente de de Shazer e de Erickson (de Shazer, 1985, pp. 119-136).

17. Outra versão da invenção da pergunta do milagre diz que Jim Wilk, residente no BFTC, teria observado Steve de Shazer usando-a pela primeira vez em meados dos anos 1980 (Lipchik et al., 2012).

18. Linguagem não é só palavras. Dar de ombros, revirar os olhos, as expressões faciais etc. fazem todos parte da linguagem.

Referências

Axelrod, R. (1984). The evolution of cooperation. Basic Books.

Bavelas, J. B., De Jong, P., Korman, H., & Smock, S. S. (2014). The theoretical and research basis of co-constructing meaning in dialogue. Journal of Solution-Focused Brief Therapy, 1(2), 1-24.

Bavelas, J. B., De Jong, P., & Smock Jordan, S. (2014, October). Theory development at BFTC: A shift from client problems as ecosystemically-based to solutions co-constructed through client/therapist language interactions. Workshop conducted at the meeting of American Association of Marriage and Family Therapy, Milwaukee, Wisconsin.

Bavelas, J., & Korman, H. (2014, September). Is there a theory about SFBT? Opening plenary at the yearly conference of the European Brief Therapy Association, Leeuwarden, Holland.

Berger, J., Fisek, M., Norman, R., & Zelditch, M. (1977). Status characteristics and social interaction: An expectations-state approach. Elsevier.

De Jong, P., & Berg, I. K. (2013). Interviewing for solutions (4th ed.). Brooks/Cole, Cengage Learning.

De Jong, P., & Smock Jordan, S. (2014, November). Does SFBT have a Theory? Workshop conducted at the meeting of the Solution Focused Brief Therapy Association, Santa Fe, New Mexico.

De Jong, P., Smock Jordan, S., Healing, S., & Gerwing, J. (2020). Building miracles in dialogue: Observing co-construction through a microanalysis of calibrating sequences. Journal of Systemic Therapies, 39, 84-109.

Dell, P., & Goolishian, H. (1979). Order through fluctuation. Presented at A. X. Rice Institute, Houston, Texas.

de Shazer, S. (1974). On getting unstuck: Some change initiating tactics for getting the family moving. Family Therapy, 1(1), 19–26.

de Shazer, S. (1975a). Brief therapy: Two’s company. Family Process, 14(1), 78–93.

de Shazer, S. (1975b). The confusion technique. Family Therapy, 2(1), 23–30.

de Shazer, S. (1977). The optimist-pessimist technique. Family Therapy, 4(2), 93–100.

de Shazer, S. (1978a). Brief hypnotherapy of two sexual dysfunctions: The crystal ball technique. American Journal of Clinical Hypnosis, 20(3), 203-208.

de Shazer, S. (1978b). Brief therapy with couples. The American Journal of Family Therapy, 6(1), 17-30.

de Shazer, S. (1979a). On transforming symptoms. An approach to an Erickson procedure. American Journal of Clinical Hypnosis, 22(1), 17–28.

de Shazer, S. (1979b). Brief therapy with families. The American Journal of Family Therapy, 7(2), 83-95.

de Shazer, S. (1980). Investigation of indirect symbolic suggestions. American Journal of Clinical Hypnosis, 23, 10-15.

de Shazer, S. (1980). The Underground Railroad, 1(2).

de Shazer, S. (1981). On useful metaphors. The Journal of Strategic and Systemic Therapies, 1, 54-62.

de Shazer, S. (1982a). Patterns of brief family therapy: An ecosystemic approach. Guilford.

de Shazer, S. (1982b). Some conceptual distinctions are more useful than others. Family Process, 21, 71-84.

de Shazer, S. (1984). The death of resistance. Family Process, 23, 79–93.

de Shazer, S. (1985). Keys to solution in brief therapy. Norton.

de Shazer, S. (1988). Clues: Investigating solutions in brief therapy. New York: Norton.

de Shazer, S. (1989). Resistance revisited. Contemporary Family Therapy, 11, 227-233.

de Shazer, S. (1990). What is it about brief therapy that works? In J. K. Zelg & S. G. Gilligan (Eds.), Brief therapy: Myths, methods and metaphors. Proceedings of the Fourth International Congress on Ericksonian Approaches to Hypnosis and Psychotherapy, held in San Francisco, California, Dec. 7-11, 1988, and sponsored by the Erickson Foundation (pp. 90-99). Brunner/Mazel.

de Shazer, S. (1991). Putting difference to work. Norton.

de Shazer, S. (1994). Words were originally magic. Norton.

de Shazer, S. (1999). Beginnings [From the BFTC-website]. https://www.sikt.nu/wp-content/uploads/2020/06/SdeS-Beginnings-.pdf

de Shazer, S., & Berg, I. K. (1992). Doing therapy: A post-structural revision. Journal of Marital and Family Therapy, 18, 71-81.

de Shazer, S., & Berg, I. K. (1997). “What works?” Remarks on research aspects of solution-focused brief therapy. Journal of Family Therapy, 19, 121-124.

de Shazer, S., Dolan, Y., Korman, H., Trepper, T., McCollum, E., & Berg, I. K. (2007). More than miracles: The state of the art of solution-focused brief therapy. Haworth.

de Shazer, S., & Molnar, A. (1984). Four useful interventions in brief family therapy. Journal of Marital and Family Therapy, 10(3), 297-304.

Dierolf, K. (2015). Found in translation. In M. Vogt, F. Wolf, P. Sundman, & H. N. Dreesen (Eds.), Encounters with Steve de Shazer and Insoo Kim Berg. Inside stories of solution-focused brief therapy (pp. Pos 579-615). Solution Books.

Erickson, M. H. (1954). Pseudo-orientation in time as a hypnotherapeutic procedure. Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 2, 261-283.

Erickson, M. H. (1980). The Collected Papers of Milton H. Erickson on Hypnosis - Volume IV. Innovative Hypnotherapy. Edited by Ernest L. Rossi. Irvington Publishers Inc.

Gergen, K. J. (2015). An invitation to social construction (3rd ed.). Sage.

Gingerich, W. J., & de Shazer, S. (1991). The BRIEFER project: Using expert systems as theory construction. Family Process, 30, 241-250.

Haley, J. (Ed.). (1967). Advanced techniques of hypnosis and therapy. Grune & Stratton.

Harland, R. (1987). Superstructuralism: The philosophy of structuralism and post-structuralism. Methuen.

Heider, F. (1946). Attitudes and cognitive organization. Journal of Psychology, 21, 107-112.

Hopwood, L., & de Shazer, S. (1994). From here to there and who knows where: The continuing evolution of solution-focused brief therapy. In M. Elkaim (Ed.), Therapies familiales: Les approches principaux (pp. 555–576). Editions de Seuil.

Kiser, D. (1995). The process and politics of solution-focused therapy theory development: A qualitative analysis [Unpublished doctoral dissertation]. Purdue University, Lafayette, IN.

Korman, H. (2018, July). Does SFBT have a theory? [Presentation]. Australian Association for Solution Focused Brief Therapy, Melbourne, Australia.

Korman, H., Bavelas, J. B., & De Jong, P. (2013). Microanalysis of formulations in solution focused brief therapy, cognitive behavioral therapy, and motivational interviewing. Journal of Systemic Therapies, 32(3), 31–45.

Kuhn, T. S. (1970). The structure of scientific revolutions (2nd ed.). Chicago: University of Chicago Press.

Lipchik, E., Derks, J., LaCourt, M., & Nunnally, E. (2012). The evolution of solution-focused brief therapy. In C. Franklin, T. S. Trepper, W. J. Gingerich, & E. E. McCollum (Eds.), Solution-focused brief therapy: A handbook of evidenced-based practice (pp. 3-19). Oxford University Press.

Maruyama, M. (1963). The second cybernetics: Deviation-amplifying mutual causal processes. American Scientist, 5, 164-179.

McKergow, M., & Korman, H. (2009). In between - neither inside or outside: The radical simplicity of solution-focused brief therapy. Journal of Systemic Therapies, 28(2), 34-49.

Molnar, A., & de Shazer, S. (1987). Solution-focused therapy: Towards the identification of therapeutic tasks. Journal of Marital and Family Therapy, 13(4), 349-358.

Norum, D. (2000). The family has the solution [Special issue]. Journal of Systemic Therapies: Solution-Focused Brief Therapy: Pushing the Limits of Current Discourse and Practice, 19, 3-15. https://doi.org/10.1521/jsyt.2000.19.1.3

Nunnally, E., de Shazer, S., Lipchik, E., & Berg, I. (1986). A study of change: Therapeutic theory in process. In D. E. Efron (Ed.), Journeys: Expansion of the strategic-systemic therapies (pp. 77-96). Brunner/Mazel.

Prigogine, I., Nicolis, G., & Babloyantz, A. (1972). Thermodynamics of evolution. Physics Today, 23, 11-23.

Smock Jordan, S., Froerer, A. S., & Bavelas, J. B. (2013). Microanalysis of positive and negative content in solution-focused brief therapy and cognitive behavioral therapy expert sessions. Journal of Systemic Therapies, 32(3), 46-59.

Thom, R. (1975). Structural stability and morphogenesis. Reading: Benjamin/Cummings.

Webster, M., & Sobieszek, B. (1974). Sources of self-evaluation: A formal theory of significant others and social influence. Wiley.

Weiner-Davis, M., de Shazer, S., & Gingerich, W. J. (1987). Building on pretreatment change to construct the therapeutic solution: An exploratory study. Journal of Marital and Family Therapy, 13(4), 359-363.

Wilden, A. (1980). System and structure (2nd ed.). Tavistock.

Wittgenstein, L. (1958). The blue and brown books. Harper & Row.

Wittgenstein, L. (1968). Philosophical investigations (3rd ed., G. E. M. Anscombe, trans.). Macmillan.

Wittgenstein, L. (1984). Culture and value (P. Winch, trans.). University of Chicago Press.

Tradução não oficial para o português de Steve de Shazer’s Theory Development, de Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan, Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n. 2, 2020, 10.59874/001c.75029, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em 7 de setembro de 2026: o texto foi, portanto, modificado. Esta tradução não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Steve de Shazer’s Theory Development”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2020) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Korman, H., De Jong, P., & Smock Jordan, S. (2020). A elaboração teórica de Steve de Shazer (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-elaboracao-teorica-de-steve-de-shazer (Obra original publicada em 2020 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n° 2 (2020), p. 47-70; republicada em 2020 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75029)

Para ir mais longe

Trocas

Comentários 0

Entre para participar da discussão. Entrar

  1. Nenhum comentário por enquanto. Comece a discussão.

Carrinho

Seu carrinho está vazio.