Comunicação · Ética da relação

A armadilha do não julgamento: quando calar-se deixa de ser neutro

Há frases que parecem sábias até o momento em que se tornam perigosas. “Eu não julgo” é uma delas.

Uma virtude que virou confusão

No campo terapêutico, educativo e social, mas também em nossas famílias, nossas instituições e nossos grupos de amigos, o não julgamento é frequentemente apresentado como uma virtude absoluta. Seria preciso acolher, compreender, suspender nossas conclusões, não aprisionar o outro em uma categoria moral apressada demais. Acredito profundamente nessa exigência. Reduzir uma pessoa a seu ato, a seu sintoma, a seu fracasso ou a sua violência é sempre correr o risco de perder uma parte de sua humanidade.

Mas uma confusão se instalou. Não reduzir uma pessoa ao que ela faz não significa renunciar a qualificar o que é feito. Há uma diferença fundamental entre dizer:

Julgar a pessoa

“Essa pessoa é má.”

Nomear o ato

“Esse ato humilha”, “essa fala racializa”, “essa atitude domina”, “essa relação é injusta”.

Quando o silêncio fala

O problema começa quando o não julgamento se torna uma maneira elegante de não nomear mais. Não julgamos, então não dizemos nada. Não queremos tomar partido, então deixamos passar. Queremos preservar a complexidade, mas às vezes acabamos preservando o conforto do grupo, a reputação da instituição, a tranquilidade das testemunhas ou a posição de quem já detém o poder.

Nesses momentos, o silêncio não é vazio. Ele fala.

À pessoa humilhada

“O que você vive não é grave o suficiente para que corramos o risco de perturbar a ordem estabelecida.”

A quem humilha

“Aqui, isso pode continuar.”

Ao grupo

“A paz aparente vale mais do que a justiça.”

O vínculo também se sustenta pela justiça

É aqui que o pensamento sistêmico me parece essencial. Uma relação nunca se compreende apenas a partir das intenções individuais. Ela se compreende também pelos lugares, pelas lealdades, pelas assimetrias, pelas dívidas invisíveis, pelas regras implícitas e pelos benefícios silenciosos.

Ivan Boszormenyi-Nagy nos ensinou que o vínculo não se sustenta apenas pelo amor ou pela comunicação. Ele se sustenta também pela justiça. Quando a equidade desaparece, quando alguns dão sem ser reconhecidos, quando outros tomam sem ser questionados, o vínculo se deforma.

Essa reflexão vale também para a clínica. Se falamos de sofrimento psíquico sem falar do mundo que o produz, corremos o risco de psicologizar o que é também social, político, econômico ou institucional. Uma pessoa nunca sofre no vazio. Ela sofre em relações, em contextos, em histórias, em relações de poder. A OMS lembra que os determinantes sociais da saúde — as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem — pesam fortemente sobre a saúde e o bem-estar. Fazer de conta que tudo se joga unicamente na interioridade psíquica é reduzir a complexidade que pretendemos respeitar.

Nem todos os silêncios se equivalem

É preciso, no entanto, permanecer preciso: nem todos os silêncios se equivalem. O silêncio de uma pessoa dominada pode ser uma estratégia de sobrevivência. Calar-se quando falar expõe a mais violência, rejeição ou descrédito não é a mesma coisa que calar-se a partir de uma posição protegida.

O silêncio de quem foi ferido

pode ser uma proteção.

O silêncio da testemunha confortável

é muitas vezes uma cumplicidade passiva.

Reencontrar um discernimento moral

A questão, portanto, não é tornar-se juiz permanente dos outros. Isso seria outra violência. A questão é reencontrar uma forma de discernimento moral.

  • Não humilhar as pessoas, mas nomear os atos.
  • Não reduzir os indivíduos, mas identificar os mecanismos.
  • Não esmagar a complexidade, mas recusar que ela se torne um álibi para a injustiça.

Talvez o verdadeiro não julgamento não seja a ausência de julgamento. Talvez seja a capacidade de suspender o julgamento que condena a pessoa, ao mesmo tempo em que se refina aquele que protege a dignidade.

Para ir mais longe neste site

Isso já não é prudência.

Porque quando um grupo, uma família, uma instituição ou até mesmo um espaço terapêutico já não consegue nomear o que fere, o que domina ou o que humilha, isso já não é prudência. É uma omertà.

Como citar este artigo

Besse, J. (2026, 23 de maio). A armadilha do não julgamento: quando calar-se deixa de ser neutro. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-armadilha-do-nao-julgamento-quando-calar-se-deixa-de-ser-neutro

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