Prospectiva · Terapia sistêmica

Como será a terapia de amanhã?

Em 2026, a terapia já não se jogará apenas no consultório do terapeuta. O cenário clássico — um paciente, um terapeuta, uma hora, uma sala fechada — está rachando. Na era da inteligência artificial e dos grandes abalos da sociedade, cuidar torna-se uma questão de sistemas: de vínculos, de ausências de vínculos, de algoritmos, de pertencimentos e de restrições materiais.

Proponho aqui explorar seis grandes tendências já visíveis na paisagem da psicoterapia. Não se trata de previsões mágicas, nem de anunciar “eis exatamente o que vai acontecer”. A ideia é antes identificar sinais fracos, movimentos já em curso, e perguntar: o que isso muda para os terapeutas, para os pacientes, para os casais, para as famílias e, mais amplamente, para a nossa maneira de pensar a saúde mental? Manter um dedo no pulso do presente não é vidência. É preparação, e é cuidado.

1. A “recessão sexual”: menos frequência, mais sentido

Há alguns anos fala-se muito de sex recession: uma queda na frequência das relações sexuais, particularmente comentada nos países ocidentais. Os números americanos alimentam o debate. Segundo uma análise baseada na General Social Survey, a proporção de adultos americanos de 18 a 64 anos que declaram ter relações pelo menos uma vez por semana teria passado:

55 %
em 1990
37 %
em 2024

Trabalhos mais antigos já mostravam um aumento da inatividade sexual entre certos jovens adultos, especialmente os homens de 18 a 24 anos, entre 2000 e 2018.

Mas é aqui que é preciso ter cautela: a queda da frequência não significa mecanicamente uma queda da qualidade relacional. Muitos casais não sofrem tanto por ter “menos sexualidade”, e sim por já não saber o que a sexualidade quer dizer entre eles.

  • Para um, fazer amor significa “ainda sou desejado”. Para o outro, “ainda esperam algo de mim”.
  • Para um, a ausência significa “você não me ama mais”. Para o outro, “estou exausto, não tenho mais acesso ao meu corpo”.
  • Para um, a sexualidade é uma linguagem de apego; para o outro, tornou-se um lugar de pressão.

O trabalho terapêutico consiste, então, em reabrir a conversa sexual, sem vergonha e sem viés normativo.

A boa pergunta não é tanto

“Eles têm mais ou menos relações?”

Mas

“Eles têm o tipo de sexualidade que desejam, aquela que faz sentido para eles?”

Em 2026, mesmo os terapeutas que não são sexoterapeutas provavelmente precisarão estar mais à vontade com essas questões. Porque a sexualidade não é um suplemento da vida psíquica: ela toca o corpo, o vínculo, a identidade, o apego, a vergonha, a segurança e a saúde.

2. O burnout parental: quando a família inteira está em sobrecarga

Fala-se há muito tempo do burnout profissional. O burnout parental, por sua vez, torna-se uma questão central, porque atinge simultaneamente o indivíduo, o casal, os filhos, a família ampliada, a escola, o trabalho, a economia, as telas e as normas educativas.

Os pais carregam hoje uma carga de estresse considerável: instabilidade financeira, custo do cuidado das crianças, isolamento, preocupações com a saúde mental dos filhos, polarização social, acontecimentos mundiais. E esse estresse não afeta apenas os pais; ele colore o clima emocional em que as crianças crescem — crianças que percebem e absorvem o que captam nos adultos.

É preciso insistir num ponto: o burnout parental não é “estar cansado dos filhos”. É um esgotamento emocional, corporal e psíquico ligado à distância entre os recursos disponíveis e as exigências percebidas do papel parental.

6 %
dos pais estariam afetados na França, segundo a Santé publique France — principalmente mulheres

Com possíveis consequências para a saúde mental do pai ou da mãe, para a relação do casal e para os comportamentos com a criança.

Essa distância é muitas vezes aprofundada por uma injunção contemporânea exaustiva: seria preciso ser um pai ou uma mãe disponível, calmo, consciente, informado, acolhedor, estimulante, protetor, emocionalmente regulado, atento às telas, à escola, à alimentação, ao casal, ao trabalho — e a si mesmo. A pista terapêutica mais sólida não se resume a estratégias parentais aplicadas como um curativo: ela passa primeiro pela regulação do sistema nervoso do pai ou da mãe, condição de uma corregulação possível com a criança.

3. A inteligência artificial entra no consultório

Alguns anos atrás, perguntávamos se os pacientes consultariam o Google antes da sessão. A pergunta mudou de natureza. Hoje, eles já usam a IA para formular seus sintomas, interpretar suas relações, exigir um diagnóstico, preparar um término, analisar uma briga, redigir uma mensagem para o parceiro ou obter uma validação emocional imediata.

E o fenômeno não tem nada de marginal. Um estudo publicado na JAMA Pediatrics em 2026, com adolescentes e jovens adultos americanos, estima:

1 em 5
jovens já tinha usado um chatbot para obter conselhos de saúde mental em 2025
2/3
deles não teriam revelado isso a ninguém

A OMS, por sua vez, alertou em março de 2026 para o uso crescente de ferramentas de IA generativa para apoio emocional, lembrando que muitas não foram concebidas nem testadas para a saúde mental, e recomendando tratar esses usos como uma questão de saúde pública. Na França, a HAS e a CNIL anunciaram um trabalho conjunto sobre boas práticas de uso da IA no contexto de cuidados — qualidade, segurança, dados pessoais, responsabilidade.

A IA modifica, portanto, o próprio ambiente da terapia. Muitos pacientes a tratam como uma espécie de coterapeuta. Os clínicos precisarão desenvolver uma competência nova: não apenas o letramento psicológico, mas um letramento digital clínico. Isso supõe abordar a ferramenta com abertura, sem envergonhar quem busca respostas — essa necessidade sempre vem de algum lugar — e, ao mesmo tempo, restabelecer os fatos quando a IA erra. Pode-se imaginar que, no futuro, pediremos ao paciente que “traga sua conversa com a IA para a próxima sessão”, como hoje pedimos suas anotações de diário.

4. O terapeuta já não é a única fonte de cuidado

Por muito tempo, o terapeuta pôde ser percebido como a fonte principal da compreensão psicológica. Já não é o caso. O paciente chega agora com podcasts, vídeos, contas de Instagram, livros de autoajuda, newsletters, grupos no Discord, coaches, comunidades pagas, aplicativos, IAs, influenciadores — e todo um vocabulário: trauma, narcisismo, TDAH, apego evitativo, hipersensibilidade, dissociação, criança interior, gaslighting.

Esse fenômeno tem efeitos positivos: democratiza a linguagem psicológica, ajuda a pôr palavras em vivências, pode reduzir a vergonha e levar a procurar ajuda. Mas tem também efeitos problemáticos: termos clínicos se cristalizam em identidades rígidas, hipóteses viram certezas, as nuances se apagam e conflitos comuns acabam patologizados. O ambiente digital é profundamente ambivalente. Uma investigação do Guardian sobre os cem vídeos mais populares do TikTok sob a hashtag #mentalhealthtips concluiu que mais da metade continha alguma forma de desinformação. Outra síntese, relatada pela Euronews em 2026, apontava até 56% de conteúdos frequentemente imprecisos ou sem embasamento num corpus de 5.000 publicações.

O terapeuta torna-se, assim, menos o detentor exclusivo do saber do que o cartógrafo do sistema de cuidado.

Em vez de considerar esses recursos uma concorrência, ele ganha ao enxergá-los pelo que são: um ecossistema de atores — o terapeuta, o coach, a comunidade on-line, os amigos, o clube de leitura — em que um único interveniente já não carrega todo o peso da mudança. Porque nem o melhor dos grupos pode acompanhar alguém através de uma intervenção orientada ao processo, que segue o sistema nervoso, cuida do ancoramento, da mobilização de recursos, das pausas, da desaceleração, da regulação. Isso exige uma atenção individual focalizada que as redes não substituirão: elas abrem uma porta, mas não substituem a avaliação clínica, o contexto, a história, o corpo, as contradições, as temporalidades lentas.

5. O apego evitativo: parar de patologizar o parceiro que se retrai

Os conceitos de apego saíram dos livros especializados para entrar massivamente na linguagem cotidiana. Ouve-se agora: “sou ansioso”, “ele é evitativo”, “ela é desorganizada”, “meu parceiro é emocionalmente indisponível”. Isso é útil — mas essas palavras correm o risco de ser manejadas como armas.

O parceiro mais ansioso costuma estar mais em contato com seu sofrimento e, portanto, mais inclinado a ler, buscar terapia, compreender, mudar. O parceiro mais evitativo demanda menos — não porque não sinta nada, mas porque sua estratégia principal consiste precisamente em não entrar depressa demais em contato com sua dor. Daí nasce uma assimetria explosiva. Um acaba dizendo: “Eu faço o trabalho, eu leio, eu vou à terapia, eu entendi minhas feridas. Você é evitativo, você não faz esforço nenhum.” Mesmo que uma parte disso seja verdade, o efeito produzido é o inverso do buscado: o parceiro evitativo se sente julgado, patologizado, atacado — e se fecha ainda mais.

A tendência terapêutica decisiva, aqui, consiste em não confundir responsabilização com acusação. O primeiro gesto é obter a adesão do parceiro evitativo deixando claro que o espaço terapêutico não será um lugar onde ele será patologizado. Uma vez instalada a segurança, pode-se apoiar na resistência em vez de combatê-la:

“Ajude-me a entender o que é tão assustador, ou o que não lhe parece justo, em receber ajuda para a sua relação.”

Descobrem-se muitas vezes boas razões por trás da recusa — uma associação entre terapia e divórcio, o medo de ser demonizado, a desconfiança em relação a um terceiro. Dizer a alguém que não deveria ver as coisas assim é o meio mais seguro de fixá-lo em sua posição. Ao contrário, apostar na curiosidade e na criação de segurança emocional — “vamos nos encontrar num plano humano para falar de nossos medos e de nossa dor” — constitui o ponto de partida para reparar praticamente qualquer coisa.

6. O retorno da cura comunitária

Pensamos por muito tempo a terapia como uma aventura muito individual: alguém sofre, consulta, conta sua história, compreende seus padrões, trabalha em si mesmo. Essa representação continua útil, mas é incompleta. Porque um ser humano nunca sofre apenas “dentro de si mesmo”. Ele sofre em vínculos, em ausências de vínculos, em grupos que o excluíram, em famílias que não souberam contê-lo, em instituições que o fragilizaram, numa sociedade em que se pode estar permanentemente conectado e, ainda assim, profundamente só.

Daí o retorno dos grupos, das oficinas experienciais, dos retiros terapêuticos, das rodas de conversa, das comunidades de prática — espaços aonde não se vai apenas “entender o próprio problema”, mas refazer a experiência de um vínculo suficientemente seguro. Se a nossa primeira experiência de grupo — muitas vezes a família de origem — foi dolorosa, insuficiente ou traumática, então uma parte da reparação provavelmente terá de passar por outra experiência de grupo. Não apenas por uma compreensão individual. Não apenas por uma interpretação. Mas por uma experiência relacional corretiva. Esses grupos oferecem um continente mais vasto para carregar o que é pesado demais para uma só pessoa; e ali costuma acontecer outra coisa — um afrouxamento da couraça corporal, às vezes o riso e o jogo, a experiência reencontrada do prazer de estar junto.

A necessidade é tangível.

24 %
das pessoas entrevistadas declaram sentir-se sós “todos os dias ou quase” ou “com frequência” (estudo Solitudes 2025, Fondation de France)

A terapia vai precisar reaprender a trabalhar com o pertencimento.

Conclusão: a terapia torna-se mais sistêmica, mesmo quando não o diz

Se tomarmos essas seis tendências em conjunto, um movimento se desenha nitidamente: a terapia de amanhã será cada vez mais obrigada a pensar em sistemas — mesmo quando trabalha com uma única pessoa.

Porque uma pessoa é um corpo, uma história, uma família, vínculos, ausências de vínculos, instituições, pertencimentos, lealdades, algoritmos, normas, restrições materiais. É um ser de narrativas que evolui num mundo saturado de narrativas dominantes, normativas e inquietantes.

Para ir mais longe

Colóquio IA, digital e saúde mental: https://app.complexe-systemique.com/fr_FR/taxons/espaces/colloques

Para ir mais longe neste site

Não mais carregar sozinho

Essas tendências nos lembram que cuidar não consiste apenas em ajudar alguém a funcionar melhor individualmente. É, às vezes, ajudá-lo a reencontrar vínculos seguros o bastante para não ter mais de carregar sozinho o que nunca foi feito para ser carregado sozinho.

Artigo inspirado no dossiê “6 Therapy Trends to Watch in 2026”, publicado pela Psychotherapy Networker, e nas reflexões de Linda Thai, Justin Garcia, Sahaj Kaur Kohli, Matthias Barker, Julie Menanno e Chinwé Williams.

Como citar este artigo

Besse, J. (2026, 27 de junho). Como será a terapia de amanhã? Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/como-sera-a-terapia-de-amanha

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