Método Estratégico Resolutivo
Existe uma armadilha discreta nas primeiras sessões: acreditar que o problema já está ali, depositado diante de nós, simplesmente porque uma pessoa, um casal ou uma família acabou de relatá-lo com precisão.
Tudo isso parece um problema. No entanto, do ponto de vista estratégico e sistêmico, trata-se muitas vezes de definições do problema, ou seja, de construções já trabalhadas, repetidas, defendidas, verificadas e às vezes enrijecidas pelo próprio sistema.
O risco, para o terapeuta, não é portanto apenas compreender mal. É compreender rápido demais.
Ou melhor, compreender dentro da equação já disponível. Se o interventor adota a definição inicial tal como ela lhe é trazida, corre o risco de acrescentar sua inteligência, sua empatia e suas técnicas à organização que já mantém o problema. Ele se torna, então, um ator a mais no mesmo ciclo.
Yara Doumit define o problema como uma tensão produzida por uma distância não desejada entre dois estados relativos à mesma questão:
Um estado atual
real, mas julgado não conforme
Um estado desejado
conforme, mas ainda não real
O problema não é, portanto, apenas um fato; é uma tensão organizada em torno de uma distância, de uma expectativa e de um significado.
Uma dificuldade raramente aparece de imediato como um “problema”. No começo, há um incidente, um incômodo, uma inadequação, uma ruptura de ajuste. Uma criança deixa de estudar. Um casal já não consegue conversar. Uma família se crispa em torno das saídas de um adolescente. Uma pessoa evita uma situação. O sistema tenta então se adaptar. Ele corrige, insiste, explica, tranquiliza, vigia, ameaça, se retira, negocia, dramatiza ou minimiza.
Esses ajustes são normais. Fazem parte da variabilidade comum de um sistema vivo. O problema se constitui quando essas tentativas não produzem o efeito esperado e sua repetição acaba organizando a dificuldade em vez de resolvê-la. Nesse momento, os membros do sistema já não vivem apenas uma dificuldade; começam a produzir hipóteses sobre o que está acontecendo.
Cada um seleciona uma hipótese e começa a verificá-la. E como a percepção humana raramente é neutra, cada um percebe muito mais os indícios que confirmam sua hipótese do que aqueles que poderiam refutá-la.
Assim, o sistema entra numa espécie de investigação circular. Cada um acredita buscar a verdade do problema, mas cada um também contribui para estabilizar uma versão do problema. Quanto mais a mãe vigia, mais o filho se sente não reconhecido. Quanto mais o filho se fecha, mais a mãe vê uma confirmação de sua oposição. Quanto mais o pai endurece, mais o adolescente se convence de que não é compreendido. O problema torna-se, então, uma organização de confirmações recíprocas.
Quando uma pessoa chega à sessão, ela não conta apenas “o que aconteceu”. Ela tenta, muitas vezes sem ter consciência disso, fazer-nos entrar na lógica perceptiva que lhe permite manter-se de pé. Ela nos mostra os fatos, mas também a grade que permite lê-los. Ela nos propõe implicitamente um lugar: testemunha, juiz, reparador, aliado, tradutor, especialista, advogado, árbitro.
É aqui que a demanda inicial se torna clinicamente delicada. Ela pode parecer clara: “Faça com que ele mude”, “Ajude-me a não sofrer mais”, “Diga a ela que está exagerando”, “Nosso filho precisa entender”. Mas uma demanda clara não é necessariamente uma demanda operacional. Yara Doumit distingue, em particular, formas de demanda que podem manter a intervenção na ineficácia se não se transformarem: cumprir um mandato, compartilhar ou delegar.
Um adolescente mandatado pelos pais pode vir “para que o deixem em paz”. Um cônjuge pode vir “para provar que tentou de tudo”. Um pai ou uma mãe pode vir “depositar” a dimensão de seu sofrimento sem estar ainda disponível para modificar a organização relacional. Um paciente pode delegar: “Diga-me o que fazer”, mantendo intacta a definição do problema que tornou ineficazes todas as prescrições anteriores.
O terapeuta estratégico não despreza essas demandas. Ele as escuta como portas de entrada. Mas não adere a elas. Ele as transforma.
Uma das proposições mais úteis para os terapeutas é esta:
Os fatos não são o problema. Os fatos são os materiais disponíveis.
O problema nasce de sua qualificação, de seu arranjo, de sua inserção numa lógica de sentido. O mesmo acontecimento pode tornar-se prova de amor, sinal de abandono, ato de dominação, falta de jeito, traição, sintoma, proteção ou tentativa desesperada de vínculo. A qualificação dos fatos configura o problema, enquanto os próprios fatos podem ser lidos de maneiras diferentes conforme os quadros de referência mobilizados.
Essa distinção muda profundamente a posição clínica. Quando os pais dizem: “Ele não estuda”, o fato pode ser exato. Mas esse fato ainda não diz qual é o problema.
Da mesma forma, quando um casal diz: “Nós brigamos o tempo todo”, o enunciado factual não basta. A briga pode organizar um vínculo, evitar uma separação, manter uma hierarquia, proteger de uma intimidade mais arriscada, permitir que cada um continue esperando que o outro acabe dando a prova esperada.
O terapeuta não precisa, portanto, buscar imediatamente “quem tem razão”. Ele busca como os fatos se tornaram provas na economia relacional do sistema.
A grande armadilha consiste em tratar a demanda inicial como se ela já fosse a boa definição do problema. Uma mãe diz: “Meu filho não quer fazer nada.” Se o terapeuta entra nessa definição, vai procurar como motivar o filho, como reforçar a autoridade parental, como reduzir a oposição. Isso às vezes pode ajudar. Mas se a definição é, ela própria, uma parte do problema, a intervenção produz mais do mesmo.
O sistema já tentou. Explicou, puniu, negociou, ameaçou, suplicou, encorajou. Talvez tenha consultado, lido, pedido conselhos. As soluções tentadas já selecionaram certas variáveis: vontade, obediência, compreensão, esforço, amor, respeito. Se o interventor retoma as mesmas variáveis, mesmo com mais fineza, corre o risco de chegar ao mesmo resultado.
O conluio de definição
O terapeuta não entra em conluio apenas com uma pessoa; entra em conluio com uma equação. Ele aceita que o problema esteja localizado onde o sistema o localiza, nos termos em que o sistema já o estabilizou.
O método estratégico resolutivo convida, ao contrário, a definir o problema “em termos resolvíveis”. Essa etapa consiste em selecionar os dados pertinentes, construir uma explicação plausível e propor ao cliente uma definição que torne possível um caminho rumo a um resultado.
Uma boa redefinição terapêutica deve cumprir uma condição delicada: deve estar suficientemente próxima da experiência das pessoas para que elas possam se reconhecer nela, mas suficientemente diferente de sua definição inicial para abrir um novo espaço de ação.
Se ela está perto demais
não muda nada.
Se ela está longe demais
é rejeitada.
“O problema é que seu filho se recusa a fazer esforço.”
“O problema é o seu controle materno.”
“Vocês dois parecem presos numa organização em que cada um tenta obter do outro uma prova: a senhora, uma prova de que ele se engaja de verdade; ele, uma prova de que pode ser ouvido de outra forma que não como alguém que decepciona. Quanto mais cada um busca essa prova, mais o outro se defende.”
Essa formulação não nega os fatos. Ela os engloba. Não diz que a mãe está errada, nem que o filho tem razão. Ela desloca o problema do indivíduo para a organização das tentativas. Torna o problema tratável: passa a ser possível intervir na maneira de pedir uma prova, nos momentos de escalada, nas sequências de verificação, nas exceções, nas condições de reconhecimento.
Num casal, em vez de “ela é crítica demais” ou “ele foge”, poderíamos propor: “Vocês parecem presos num ciclo em que, quanto mais um busca obter uma resposta explícita, mais o outro tenta preservar sua liberdade retirando-se; e quanto mais ele se retira, mais a demanda se torna urgente.” Também aqui, a redefinição transforma dois defeitos individuais numa dança relacional.
O trabalho do interventor consiste, muitas vezes, em alternar três movimentos.
1
Observar as sequências concretas: quem faz o quê, em que momento, depois de qual sinal, com qual expectativa, e que reação isso desencadeia. A aproximação protege da generalidade.
“Ele é sempre opositor” torna-se: “Quando a mãe lhe pede as lições de casa às 19h, depois de verificar o Pronote, ele responde que vai fazer mais tarde; ela insiste; ele sobe para o quarto; ela o segue; ele bate a porta.”
2
Sair da cena imediata para identificar a função do padrão: o que ele mantém? O que protege? Que ameaça tenta evitar? Que pertencimento, que lealdade, que identidade está em jogo?
O distanciamento evita reduzir o problema à cena espetacular.
3
O terapeuta propõe uma definição nova que liga os fatos, os significados e as tentativas de solução.
Na obra, os autores descrevem precisamente esse percurso junto a sistemas compostos: o interventor cria um canal com cada unidade, acolhe os significados e as representações de cada um e, em seguida, propõe uma definição suficientemente englobante para que cada participante possa reconhecer nela a sua demanda.
Nas primeiras sessões, o terapeuta pode manter em mente uma bússola simples.
1
Acolher plenamente a definição inicial sem validá-la rápido demais. Ela é verdadeira como experiência, mas não necessariamente operatória como mapa de intervenção.
2
Distinguir os fatos, os significados e as tentativas de solução. O que as pessoas relatam pertence, muitas vezes, a esses três níveis ao mesmo tempo.
3
Entre qual estado real e qual estado desejado a tensão se organiza? Quem carrega essa distância? Quem a define? Quem a contesta? Quem se beneficia dela sem o querer?
4
Uma formulação que inclui as vivências de cada um, reduz a lógica acusatória, torna visível o ciclo interacional e sugere implicitamente que outra experiência se torna possível.
Essa definição não deve ser um veredicto. É uma hipótese de trabalho suficientemente justa para que o sistema aceite explorá-la. A adesão do cliente a essa definição é um momento decisivo, pois marca a passagem de uma posição em que se sofre o problema para uma posição em que se aceita participar de sua resolução.
A arte terapêutica não consiste em descobrir o “verdadeiro problema” escondido atrás do falso. Essa formulação ainda seria linear demais. Trata-se, antes, de coconstruir uma definição do problema que permita ao sistema sair de seus próprios impasses.
O problema não é o que chega à sessão sob a forma de um relato convincente. Não é apenas a criança que se recusa, o cônjuge que foge, o pai ou a mãe que controla, o paciente que evita. O problema é a organização relacional e significante que transformou uma dificuldade num ciclo repetitivo, e depois esse ciclo numa identidade.
É nessa distância que começa a mudança.
O interventor útil não é, portanto, nem aquele que adere ao primeiro relato, nem aquele que o contradiz brutalmente. É aquele que escuta com precisão suficiente para que cada um se sinta reconhecido, e que se desloca com fineza suficiente para que o sistema já não possa continuar a se pensar exatamente da mesma maneira.
Como citar este artigo
Besse, J. (2026, 6 de junho). O problema não é o que se pensa: como evitar aderir à demanda inicial em terapia. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-problema-nao-e-o-que-se-pensa-como-evitar-aderir-a-demanda-inicial-em-terapia
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