Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Frontiers in Public Health · Serviço social
Falar de “engajamento parental” é colocar o peso da colaboração sobre um único ator: os pais. Em Montreal, Berna Elias e Aline Bogossian propõem substituí-lo por uma parceria a três, entre criança, pais e profissional, inscrita no modelo bioecológico de Bronfenbrenner. Pensado para famílias imigrantes de crianças com condições do neurodesenvolvimento, o referencial integra a trajetória migratória, as políticas e as relações de poder.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Proposta de um novo referencial conceitual para orientar profissionais de intervenção precoce em contexto transcultural, de Berna Elias e Aline Bogossian, publicado na Frontiers in Public Health (Frontiers Media) (2025), doi: 10.3389/fpubh.2025.1689596, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As figuras são reproduzidas com legenda traduzida, e seus esquemas permanecem em inglês; as tabelas do material suplementar on-line não foram reproduzidas; as declarações de fim de artigo estão reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Em vez de ver o engajamento parental como mera participação, que precisa ser monitorada, a PCPP incentiva a ver a relação como um processo dinâmico de colaboração que valoriza a expertise e as experiências singulares de cada parte.
Berna Elias e Aline Bogossian
Resumo
Contexto. O engajamento parental em programas de intervenção precoce para crianças com condições do neurodesenvolvimento é complexo, sobretudo em contextos transculturais. Este estudo examina os modelos atuais de engajamento parental para identificar os fatores-chave que sustentam abordagens inclusivas e para desenvolver um referencial flexível, que dê conta das realidades de famílias imigrantes que criam crianças com condições do neurodesenvolvimento em contextos transculturais.
Métodos. Foi realizada uma revisão crítica não sistemática para integrar modelos de engajamento parental de várias áreas, com o objetivo de desenvolver uma ferramenta teórica para orientar um projeto de pesquisa de doutorado.
Resultados. Constatamos que os modelos atuais muitas vezes ignoram as realidades transculturais e as dinâmicas de poder. Propomos, por isso, o referencial da Parceria Criança–Pais–Profissional, que oferece uma abordagem ecológica holística, sensível às realidades de pais imigrantes.
Limitações. Os resultados apresentados são, por natureza, provisórios e servem de base para o delineamento da pesquisa empírica realizada em seguida pela pessoa que assina em primeiro lugar. Assim, o presente artigo pretende ser uma exploração conceitual inicial, e não uma análise definitiva, e são necessárias novas investigações empíricas para validar essas primeiras percepções e ampliar seu alcance.
Conclusão. O referencial proposto oferece uma visão abrangente das influências que afetam o engajamento parental em contextos transculturais, enfatizando a importância de uma abordagem antiopressiva para promover parcerias sintonizadas com as realidades de pais imigrantes. A originalidade desse referencial está na integração de abordagens teóricas e práticas: ele oferece ao mesmo tempo uma lente conceitual para compreender dinâmicas complexas e uma base para implementar parcerias autênticas.
O engajamento parental (EP) em programas de intervenção precoce (IP) para crianças com condições do neurodesenvolvimento (CND) é crucial para alcançar os melhores resultados de desenvolvimento. No entanto, o conceito de envolvimento ou engajamento parental pode ser carregado e gerar mal-entendidos e confusão (1) sobre como ele pode se apresentar na prática e sobre o que profissionais podem fazer para apoiar o engajamento dos pais na IP. Há na literatura uma diversidade de termos ligados ao EP (50), e muitas vezes eles não representam com precisão as dinâmicas inerentes às relações interpessoais (como as dinâmicas de poder entre pais e profissionais), sobretudo em contextos transculturais. Em outras palavras, os modelos existentes com frequência negligenciam as realidades transculturais e as dinâmicas de poder. Para preencher essas lacunas, realizamos uma revisão da literatura com o objetivo de desenvolver um novo referencial conceitual que destaque os fatores-chave para construir parcerias equitativas com famílias imigrantes de crianças que vivem com CND em programas de IP. Esse referencial abrangente integra perspectivas teóricas críticas e bioecológicas, deslocando o foco dos modelos existentes de EP para um referencial mais amplo de parceria criança–pais–profissional (PCPP) em contexto transcultural.
Esse referencial PCPP foi desenvolvido a partir de uma revisão crítica da literatura (2) realizada pela pessoa que assina em primeiro lugar, como fase fundadora de seu projeto de tese de doutorado. Optou-se por uma revisão intencional não sistemática para permitir uma reflexão mais ampla sobre o EP tal como tem sido representado em diversas áreas e reunir percepções que outras abordagens deixariam escapar (3). O objetivo dessa revisão foi examinar de forma ampla como o conceito de EP tem sido definido nos modelos existentes, revisar e documentar os componentes desses modelos e apoiar-se nos mais relevantes para desenvolver um novo referencial que reflita melhor as realidades específicas de famílias imigrantes de crianças que vivem com CND em contextos transculturais e responda melhor a elas. Em outras palavras, a ênfase deste trabalho foi conduzir indagações profundas e gerar percepções originais, e não definir o EP de maneira exaustiva nem avaliar o conjunto das evidências (3).
Esse referencial, apresentado como provisório e hipotético, oferece uma nova lente promissora para aproximar teoria e prática junto a uma população raramente considerada. A exploração conceitual inicial apresentada neste artigo foi uma fase preliminar do desenvolvimento de uma teoria da prática1, aplicada depois no trabalho de campo realizado como parte da pesquisa de doutorado da pessoa que assina em primeiro lugar. Como observa Payne (4), os referenciais são uma abordagem entre outras dentro da teoria da prática; eles servem de guia ao organizar o conhecimento e esboçar uma gama de abordagens para lidar com as situações da prática. Por isso, a originalidade desse referencial está na integração de abordagens teóricas e práticas: ele oferece ao mesmo tempo uma lente conceitual para compreender dinâmicas complexas e uma base para implementar parcerias autênticas.
Além disso, enraizado no serviço social, ele pretende apoiar equipes interdisciplinares indo além de modelos concebidos em silos disciplinares. Diferentemente das abordagens tradicionais, centradas sobretudo em fatores do microssistema, esse referencial incorpora influências ambientais mais amplas, permitindo uma análise matizada dos vários fatores que afetam o desenvolvimento da colaboração e da parceria. Ele se inscreve no modelo bioecológico (5) e se apoia tanto nas perspectivas transculturais (6–8) quanto nas abordagens antiopressivas (9, 10). Essa abordagem integrativa permitirá que equipes de pesquisa e profissionais considerem a interação complexa de fatores individuais, familiares, culturais e sistêmicos que influenciam a parceria entre pais e profissionais nos programas de IP.
Apoiamo-nos na seguinte definição de engajamento parental: “o envolvimento e o investimento ativos do pai ou da mãe, ou de outra pessoa da família responsável pelos cuidados principais, no processo de intervenção” (11), p. 1. No contexto dos programas de IP2 para crianças com CND, o engajamento parental é um ingrediente ativo para alcançar os melhores resultados de desenvolvimento. Os pais são considerados atores-chave na vida dos filhos e no estímulo ao desenvolvimento das crianças (12). Eles desempenham papéis complexos nos programas de IP: espera-se que aprendam sobre o diagnóstico da criança, adquiram novas habilidades e, muitas vezes, recebam orientação ou acompanhamento para aplicar estratégias de intervenção que apoiem e incentivem a consolidação de novas habilidades em casa.
A pesquisa demonstrou os benefícios do EP em vários domínios, incluindo os resultados de programas educacionais (13–15), os programas de apoio à família (16, 17), a saúde mental (18–20) e os programas de IP (21, 22). Embora o EP seja crucial, pode ser difícil de alcançar e de manter (18, 19). Entre os fatores que influenciam o EP estão a percepção dos pais sobre o valor e o sucesso da terapia, as expectativas positivas e as relações interpessoais (23). Além disso, a compreensão que profissionais têm das condições sociais das famílias afeta o engajamento e os resultados da intervenção (24).
A diversidade etnocultural do Canadá apresenta desafios e oportunidades específicos para o EP nos programas de IP. Para compreender melhor o EP nesse contexto, é essencial considerar o contexto transcultural, marcado pela complexidade das transições culturais, da trajetória migratória e do processo de imigração, e por seu impacto na vida das famílias (6). Essas transições muitas vezes envolvem a desconstrução e a reconstrução da identidade para se adaptar a uma nova vida, longe das redes de apoio habituais. O processo de imigração pode desestabilizar os pais e exigir uma reorganização psicológica e cultural à medida que a família se integra a um novo ambiente multiétnico, linguístico e cultural. Pais imigrantes de crianças com CND enfrentarão complexidades adicionais, incluindo valores e visões diferentes sobre a parentalidade, o desenvolvimento infantil e as necessidades de reabilitação. Essa diversidade cultural, moldada por diversos sistemas de crenças e padrões de imigração, pode criar disparidades significativas de compreensão entre os pais e as equipes que trabalham com as famílias. Essas disparidades podem resultar em contradições marcadas, levando a desalinhamentos de expectativas, objetivos e estratégias de intervenção, com possível impacto na efetividade da intervenção. O contexto da imigração também pode favorecer oportunidades de intercâmbio cultural dinâmico entre pais e profissionais, em que ambas as partes contribuem para as perspectivas uma da outra e aprendem com elas (25). É crucial reconhecer que a própria trajetória migratória, junto com as crenças, os costumes e as práticas que as pessoas imigrantes trazem consigo, molda de forma significativa o contexto da intervenção (6). As equipes profissionais precisam reconhecer esses elementos e integrá-los à sua abordagem para garantir um apoio culturalmente responsivo e evitar a categorização simplista das pessoas em classificações culturais.
Nossa investigação se fundamenta no modelo bioecológico (5) como influência teórica predominante, complementado por duas abordagens de intervenção: as perspectivas transculturais (6–8) e as abordagens antiopressivas (9, 10). O modelo bioecológico serve de referencial teórico fundador e permite examinar o desenvolvimento humano de uma perspectiva interdisciplinar e integrativa. Ele permite considerar as pessoas em sua complexidade e em interação com sistemas sociais proximais e distais ao longo do tempo e do espaço, facilitando a integração de elementos objetivos e subjetivos nas diversas camadas sistêmicas.
As perspectivas transculturais (6–8) ampliam nossa compreensão das identidades diversas que interagem nos programas de IP, ao reconhecer o impacto das origens culturais, tanto das equipes profissionais quanto dos pais, nos processos de intervenção. O impacto das trajetórias migratórias no bem-estar da família também é uma consideração relevante, assim como as crenças, as tradições e as mudanças de referências culturais que moldam a vida das famílias imigrantes (6). Consequentemente, as equipes que desejam criar intervenções de impacto precisam priorizar e colocar no centro a interpretação que a família faz de sua situação, que pode estar intrinsecamente moldada por sua experiência singular de migração e de estabelecimento. Essa abordagem reconhece que as famílias são especialistas em sua própria experiência e que suas perspectivas culturais são parte integrante do processo de intervenção.
As abordagens antiopressivas (9, 10) formam o terceiro pilar de nosso referencial teórico. Elas enfatizam a importância de enfrentar os desequilíbrios de poder e as iniquidades sistêmicas que podem afetar a intervenção. Reconhecem e questionam as barreiras estruturais que famílias imigrantes podem enfrentar para se beneficiar dos serviços, promovem a equidade e a justiça social no processo de intervenção (26) e incentivam profissionais a examinar criticamente seu posicionamento social, sua postura profissional e as dinâmicas de poder nas relações interpessoais (27).
Essas três abordagens teóricas sustentam nosso trabalho e oferecem uma lente abrangente para examinar a interação complexa dos fatores que influenciam o EP das famílias imigrantes. Elas orientam nossa perspectiva analítica e moldaram o delineamento do referencial proposto. Essas escolhas refletem a necessidade de captar perspectivas diversas de famílias imigrantes e de profissionais, de examinar as múltiplas camadas sistêmicas que influenciam os resultados da intervenção e de enfrentar as dinâmicas de poder tanto no processo de pesquisa quanto no de intervenção.
Este artigo apresenta um trabalho realizado pela pessoa que assina em primeiro lugar em uma fase inicial de seu projeto de pesquisa de doutorado, na qual uma revisão da literatura era exigida para desenvolver um futuro estudo empírico de doutorado. O objetivo dessa fase inicial era explorar como o conceito de EP tem sido abordado na literatura, examinando os elementos-chave dos modelos de engajamento parental e analisando criticamente como eles refletem as realidades específicas de famílias imigrantes de crianças com CND em contextos transculturais e respondem a elas.
Empregamos uma metodologia de revisão crítica (2) em uma abordagem de revisão não sistemática (3, 28). Esta última, ou “[a]s revisões intencionais tendem a tratar de questões mais amplas, de longo alcance e menos definidas. Elas buscam integrar resultados de várias áreas, muitas vezes focando em ‘Por que ou como funciona?’, além da pergunta mais simples ‘Funciona?’” (3), p. 58.
A presente revisão se fundamenta, portanto, em um paradigma construtivista que se apoia em metodologias de pesquisa qualitativa e foi intencionalmente concebida para ser flexível, criativa, iterativa e reflexiva (29). Essa flexibilidade distingue as revisões críticas de outras formas mais estruturadas de revisão da literatura. A natureza adaptável dessa abordagem não segue uma estratégia sistemática e convida as equipes de pesquisa a recorrer à sua expertise e ao seu conhecimento na seleção e na avaliação da literatura. Ela permite desenvolver interpretações matizadas e contextualizadas dos materiais, que podem, por sua vez, culminar na criação de novos referenciais conceituais (29). A Figura 1 oferece uma visão geral do processo de revisão.

As seguintes perguntas orientaram nossa revisão e análise dos materiais publicados:
O processo de nossa revisão crítica vai além de demonstrar uma pesquisa sistêmica e de simplesmente descrever a literatura existente; envolve uma análise aprofundada que pode resultar em inovação conceitual, em um novo modelo ou em uma teoria (2). Como afirma Cook (3), as revisões não sistemáticas ou intencionais têm a capacidade de acomodar a complexidade inerente às intervenções e interações sociais. Por isso, nossa estratégia de busca foi “intencionalmente seletiva, e não sistemática”, o que permitiu um exame mais focado e intencional da literatura relevante (29), p. 187. A estratégia de busca seguiu uma abordagem criativa, como recomenda Snyder (30). Essa abordagem se afasta da prática convencional de cobrir todas as publicações existentes sobre um tema e seguir um processo sistemático de triagem. Em vez disso, prioriza a integração de perspectivas e percepções diversas de várias disciplinas ou tradições de pesquisa. Para isso, e a fim de captar a complexidade das dinâmicas interpessoais e sociais que ocorrem na IP, realizou-se uma busca seletiva na literatura para identificar artigos que apresentassem modelos conceituais de envolvimento ou engajamento parental em diversas áreas de estudo, incluindo a intervenção (IP, saúde mental, reabilitação), a educação, o apoio à família e a proteção à infância.
Empregamos uma estratégia de busca que visava abranger bases de dados que cobrem a pesquisa em serviço social e profissões da saúde, educação e ciências sociais. Essas bases incluíram Social Services Abstracts, Sociological Abstracts, EBSCO, Social Work Abstracts (publicações sobretudo em inglês), além de CAIRN e ÉRUDIT (publicações sobretudo em francês). Nossa busca envolveu testar combinações de palavras-chave em francês e em inglês (por exemplo, engagement, involvement, partnership, collaboration with parent*, family, father*, mother*), com base em recomendações de uma pessoa bibliotecária universitária. Examinamos artigos publicados entre 2010 e 2020 que pareciam mais relevantes para o projeto de doutorado da pessoa que assina em primeiro lugar, dedicado ao envolvimento e/ou ao engajamento parental. Esse recorte temporal3 foi considerado adequado aos objetivos do projeto de doutorado e rendeu um número significativo de fontes a explorar e selecionar. A estratégia de busca incluiu também a exploração da literatura cinzenta e das listas de referências de artigos relevantes.
Como afirmam Kahlke et al. (29), “[…] quem faz revisões críticas fica inevitavelmente limitado a compartilhar apenas uma amostra das fontes que encontrou” (p. 187). De fato, o processo de exploração está completo quando se atinge o objetivo de produzir uma síntese significativa, que traga assim uma contribuição valiosa para a área. Estabeleceu-se uma meta de 30 artigos para esta revisão crítica. A pessoa que assina em primeiro lugar examinou uma ampla gama de estudos e selecionou os 30 artigos mais relevantes, representando uma grande variedade de disciplinas e modelos, para esta revisão. O método de amostragem se afastou da triagem sistemática convencional e buscou reter estudos ilustrativos do campo mais amplo, como sugerem Paré e Kitsiou (31) e Cook (3). Os artigos vieram de uma grande variedade de áreas e subespecialidades, incluindo artigos do contexto educacional, de diversos campos de intervenção (por exemplo, saúde mental, reabilitação, visitas domiciliares), das abordagens centradas na família e da proteção à infância, além da literatura cinzenta.
As decisões de inclusão e exclusão de artigos são matizadas, estratégicas, adaptáveis e guiadas por sua relevância para as perguntas norteadoras (3, 29). A estratégia de seleção se apoiou na considerável experiência da pessoa que assina em primeiro lugar no trabalho com pessoas que vivem com CND, com suas famílias e com as equipes que as acompanham, tanto no setor da educação quanto no da reabilitação. Adotou-se uma abordagem não sistemática, caracterizada por uma incorporação estratégica e seletiva dos dados (3). Os artigos considerados para inclusão na revisão foram os que:
O objetivo era identificar suas contribuições e limitações, na expectativa de que isso pudesse levar a um novo referencial abrangente.
Segundo Cook (28), as abordagens não sistemáticas empregam com frequência a análise indutiva e se apoiam em uma síntese perspicaz. As equipes de pesquisa priorizam a relevância percebida para a questão estudada e incorporam deliberadamente uma variedade de fontes, consideradas oportunidades de novas perspectivas. A análise geralmente adotada é de natureza qualitativa e narrativa, produzindo resultados ricos, críticos e interpretativos.
Primeiro, os conceitos e elementos que compõem cada modelo de EP foram identificados e revisados criticamente. Esses elementos foram depois mapeados no modelo bioecológico, o que permitiu uma organização sistemática dos fatores envolvidos nos modelos de EP nos diferentes níveis ecológicos (micro, meso, exo, macro). Em seguida, realizou-se uma investigação exaustiva das tendências na conceituação e no tratamento do conceito de EP, que incluiu um exame minucioso dos modelos e artigos selecionados. Depois, empreendeu-se uma análise para apurar as contribuições e as limitações da literatura existente. Com base nas percepções extraídas da literatura, desenvolveu-se um conjunto de princípios norteadores para formular a hipótese de um referencial conceitual que incorporasse os elementos centrais dos modelos de EP estabelecidos, conceitos da perspectiva transcultural e princípios das abordagens antiopressivas.
O referencial foi validado pela banca do exame de qualificação do doutorado. Também foi apresentado em vários congressos científicos e a profissionais de diversas áreas em diferentes contextos, em que pais e profissionais o consideraram significativo e em que despertou interesse por sua maneira clara e simplificada de explicar e ilustrar as dinâmicas interpessoais e sociais em jogo na IP.
Nesta seção, apresentamos os resultados de nossa revisão crítica da literatura, organizados em torno de três temas principais que respondem à nossa primeira pergunta de pesquisa, sobre as maneiras como o EP tem sido abordado na literatura. Primeiro, apresentamos as tendências na exploração do EP. Em segundo lugar, analisamos as características do EP tal como apresentadas nos estudos revisados. Por fim, oferecemos uma discussão crítica dos resultados, destacando as limitações das abordagens atuais. Segue-se uma resposta à segunda pergunta, na seção dedicada a explicar o novo referencial conceitual hipotético.
Nossa análise revelou três tendências principais na forma como o conceito de engajamento parental é abordado na literatura selecionada (Tabela 2 do material suplementar).
O EP tem sido estudado em várias disciplinas, o que levou a uma grande variabilidade de terminologias, definições e modelos (24, 32, 33, 50). O discurso sobre o EP é extenso, mas muitas vezes prejudicado por uma terminologia inconsistente entre os diversos modelos e áreas de estudo. A falta de uma definição comum e a multiplicidade de modelos podem gerar confusão. Essa abordagem em silos pode levar a equívocos, pois o EP não pode ser considerado de forma isolada nos diferentes aspectos da vida de uma criança. Por exemplo, não podemos considerar o EP na escola e na educação e ignorá-lo quando ele ocorre nos programas de reabilitação de uma criança com CND; é crucial olhar o quadro completo.
A segunda tendência evidente na literatura é um foco estreito do engajamento em níveis específicos do sistema bioecológico. Embora o EP tenha sido examinado em vários níveis contextuais, a maioria dos estudos revisados se concentra em apenas um ou dois desses níveis. O EP é examinado nos níveis micro e meso, com foco nas interações entre pessoas, por exemplo nos encontros entre pais e profissionais. O nível macro raramente é considerado nos modelos de EP, e poucos modelos integram construtos de todos os níveis (micro, meso e exo). Essa limitação impede uma visão holística dos vários fatores que influenciam o EP, tal como descritos no modelo bioecológico (5). Para preencher essas lacunas, nossa análise busca considerar tanto os fatores proximais quanto os distais que afetam o EP, mapeá-los no modelo bioecológico e incluir influências do nível macro frequentemente negligenciadas, como a situação migratória e as políticas que podem afetar indiretamente o EP e o trabalho com famílias imigrantes.
As equipes de pesquisa abordam o EP de diferentes ângulos, focando níveis, fatores, componentes, processos, dimensões ou condições que afetam o engajamento. Uma série de modelos foi concebida para racionalizar o conceito e seus componentes (ver a Tabela Suplementar 1 para uma lista dos modelos identificados na literatura selecionada). O EP também foi explorado em vários contextos, evidenciando tanto barreiras quanto benefícios em programas distintos e em ambientes específicos (14, 19, 22). Essa diversidade na delimitação do conceito dificulta a comparação da literatura e dos modelos. Com base na literatura científica atual, não existe um modelo de EP “tamanho único” para orientar a prática e a pesquisa com famílias. A necessidade mais premente é a de modelos adaptáveis, capazes de atender às necessidades mutáveis das famílias, acompanhando as mudanças no desenvolvimento e nas condições da criança, e de se ajustar aos diversos ambientes que a criança pode frequentar (por exemplo, escola, programa de intervenção, atividades extraescolares).
Conseguimos identificar alguns elementos-chave que contribuem para delimitar o conceito. Nossa análise da literatura revela quatro características fundamentais do EP (Tabela 3 do material suplementar).
O EP é amplamente reconhecido como um processo dinâmico que envolve múltiplos fatores em interação (1, 19, 24, 32–34) e é caracterizado por um conjunto multifacetado de condições (12, 19, 32, 35–37). Ele vai além de indicadores simples, como a frequência e a adesão, e abrange fatores que interagem e são interdependentes, tornando o engajamento mais complexo. Os modelos examinados mostram uma ligação com fatores pessoais (por exemplo, escolaridade, estabilidade afetiva, condições de saúde), com fatores ligados ao programa (por exemplo, a intensidade da intervenção, o contexto ambiental, a acessibilidade) e com fatores sociais (por exemplo, normas e valores sociais, políticas).
O EP se dá em um ecossistema complexo que envolve múltiplos atores, principalmente a equipe de intervenção e os pais. Essa dinâmica é influenciada pelas características da família, pela dinâmica interparental e pelo contexto organizacional, como a acessibilidade e a implementação dos programas (24, 38).
O processo de EP compreende seis componentes inter-relacionados: os sentimentos dos pais, suas habilidades, seus conhecimentos, a logística, os valores e crenças e a relação entre pais e profissional (24). Para alcançar um EP efetivo, terapeutas precisam ter boa formação, confiança e senso de autoeficácia (12, 39). Isso ilustra a interconexão entre os vários componentes do EP, bem como a complexidade das dinâmicas de interação que ocorrem em um contexto que envolve múltiplos atores (criança, pais e profissionais).
O EP deve ser visto como um continuum. O modelo de Goodall e Montgomery (2014) ilustra a progressão do envolvimento inicial até o nível ótimo de engajamento. As ações e responsabilidades do EP mudam progressivamente e se renovam, adaptando-se ao desenvolvimento da criança e à evolução de suas necessidades (40). O modelo de Carman et al. (2013) mostra que o engajamento pode ocorrer em diferentes níveis: cuidado direto, desenho e governança organizacionais e formulação de políticas. Nesse modelo, o engajamento evolui ao longo de um continuum, começando no momento da consulta inicial (a extremidade inferior do continuum), passando pelo ponto de envolvimento (o ponto intermediário) e chegando por fim à parceria e à liderança compartilhada (a extremidade do continuum).
O EP é cada vez mais pensado como uma parceria entre famílias e profissionais. Rivard et al. (22) definem a parceria “como a forma pela qual as famílias e quem presta os serviços trabalham em conjunto, apoiando-se na expertise e nos recursos uns dos outros para tomar decisões conjuntas que beneficiarão diretamente a criança e indiretamente a família e as equipes profissionais” (p. 4). Da mesma forma, Roose et al. (41) apresentaram o EP como um engajamento bidirecional e recíproco entre pais e profissionais. Essa equipe defende uma abordagem democrática, destacando a importância do engajamento recíproco e da tomada de decisão conjunta entre pais, profissionais e crianças.
Nossa análise das características mais citadas na literatura revelou vários pontos que exigem mais atenção para ampliar a compreensão dos fatores que influenciam o EP nas intervenções, sobretudo em contexto transcultural. Identificamos cinco temas-chave que merecem consideração mais aprofundada (Tabela 4 do material suplementar).
Os modelos atuais muitas vezes negligenciam o papel de fatores importantes para além dos pais e das equipes, como os ligados à criança (isto é, complexidade do diagnóstico, idade, necessidades etc.), aos demais membros da família (isto é, a fratria, os avós, as figuras paternas) ou a outros atores-chave (isto é, lideranças comunitárias ou pessoas mediadoras culturais). Como indicou Platt, “o principal destinatário dos serviços é a criança, e, no entanto, o foco de grande parte da preocupação com a cooperação e o engajamento é o pai ou a mãe” (32), p. 140.
A dinâmica complexa das interações entre as diversas partes interessadas não é adequadamente captada nos modelos existentes, sobretudo a influência mútua entre pais, crianças e profissionais. Existem algumas exceções, entre elas os modelos que consideram a dinâmica interparental (38), as dinâmicas entre pais e filhos (40) e as parcerias interinstitucionais (22).
Muitos modelos deixam de considerar fatores sociais e culturais mais amplos que podem influenciar significativamente o processo de engajamento, como as políticas de imigração, os fatores socioeconômicos e as normas culturais. Esses fatores podem afetar a tomada de decisão e os níveis de estresse (42, 43). Embora as influências culturais no processo de engajamento não tenham sido especificamente estudadas nos modelos revisados, alguns aspectos, como determinantes externos ou fatores internos (por exemplo, as competências culturais ou as crenças e percepções), foram estudados.
Os modelos atuais simplificam demais as experiências diversas e complexas das famílias, sobretudo as de origens culturais diferentes ou que enfrentam desafios específicos. Essas experiências singulares são mais difíceis de captar, mas precisam ser consideradas ao avaliar o grau de engajamento dos pais.
Os pais de crianças com CND enfrentam desafios emocionais e físicos significativos, incluindo níveis mais altos de estresse e problemas de saúde (44). Esses desafios são agravados pela complexidade do diagnóstico da criança e pela complexidade das condições socioeconômicas da família (24). Compreender esses processos pode criar condições para expectativas mais razoáveis de envolvimento, parceria e colaboração.
As experiências específicas das famílias imigrantes não são tratadas nos modelos existentes. O processo de adaptação que as famílias imigrantes atravessam antes de viver um sentimento de pertencimento e de compreender os diferentes sistemas que compõem a sociedade de acolhimento (isto é, sociopolítico, de saúde e de serviços sociais, jurídico etc.) também não é levado em conta.
É necessário examinar criticamente a linguagem usada nos modelos de EP e reconsiderar como as responsabilidades são distribuídas entre as diversas partes interessadas no processo de engajamento. Com base em uma abordagem antiopressiva, refletimos sobre como o termo “engajamento parental” coloca o peso da colaboração sobre um único ator nessa complexa dinâmica de interação: os pais. No entanto, a literatura discutida acima se refere à colaboração entre diferentes atores (isto é, pais, profissionais e criança). É, portanto, pertinente questionar o uso contínuo do termo “engajamento parental” nesse contexto e seu impacto sutil sobre as dinâmicas de poder existentes na intervenção.
A partir das percepções de nossa revisão crítica da literatura, observamos que o conceito de engajamento parental nos programas de IP ganhou atenção significativa em várias disciplinas. No entanto, os modelos existentes nem sempre captam toda a complexidade desse processo dinâmico. Propomos o referencial da Parceria Criança–Pais–Profissional (PCPP), um conceito derivado de uma revisão abrangente da literatura existente e de uma análise crítica. Esse referencial enfrenta as limitações das abordagens anteriores ao oferecer uma compreensão matizada do engajamento na IP em contextos transculturais.
O referencial PCPP concebe o engajamento como um processo de parceria dinâmico e complexo que envolve três atores principais (pais, crianças e profissionais de IP). Enraizado no modelo bioecológico do desenvolvimento infantil de Bronfenbrenner e Morris (2006), o referencial reconhece que o engajamento é moldado por influências recíprocas entre as várias partes interessadas (isto é, crianças, pais e profissionais) e entre os diferentes níveis (micro, meso, exo, macro).
Uma característica-chave do referencial PCPP é sua adaptabilidade: ele evolui em resposta às necessidades de desenvolvimento em mudança. O referencial postula que o engajamento se situa em um continuum que vai da consulta à parceria plena, esta última representando a meta ideal, que promove o sentimento de pertença e o compromisso de todas as partes interessadas. Guiado por princípios de governança democrática e por relações equitativas entre todas as pessoas envolvidas, o referencial PCPP permite uma distribuição flexível de papéis e responsabilidades, que acomoda as condições específicas, os objetivos e os acordos mútuos de todas as partes da parceria dinâmica.
O referencial PCPP se apoia nas contribuições dos programas de IP existentes, enfatizando uma abordagem centrada no paciente e na família nos níveis micro e meso, onde ocorre a colaboração entre família, criança e equipe. Esse referencial teórico proposto se caracteriza pela consideração de um contexto mais amplo, que permite analisar os vários componentes, fatores, dimensões e condições que podem influenciar essa parceria ao longo do tempo. A análise, realizada em um sistema de múltiplos níveis que compreende domínios biopsicossocioculturais, pretende facilitar a identificação dos elementos que podem dificultar ou favorecer o processo de engajamento em evolução.
A Figura 2 ilustra a fase inicial de nossa análise da complexa dinâmica de interações, representando a parte central da PCPP, o nível do cuidado direto, em que se dá a parceria entre a criança, os pais e a pessoa profissional. Cada ator é influenciado por uma série de dimensões internas, externas e interacionais.

Essa ilustração simplificada, centrada nos três atores principais, serve de lembrete útil às equipes sobre seu papel nesse processo dinâmico. É crucial reconhecer que os fatores internos, externos e interacionais de profissionais estão tão presentes nessa dinâmica quanto os ligados aos pais ou à criança. As equipes também podem precisar considerar a participação de outros atores (fratria, outras equipes etc.) que possam ter um papel na parceria. Uma perspectiva individualizada no nível micro é imprescindível para avaliar quem incluir nesse ecossistema (49).
A Figura 2 é composta de três círculos, cada um representando uma parte diferente da relação: a criança, os pais e a pessoa profissional. A interseção dos círculos ilustra a parceria. Cada círculo representa uma dimensão interna distinta, caracterizada por atributos específicos, como fatores cognitivos, afetivos e comportamentais. A interseção de dois círculos simboliza as dimensões interacionais que emergem das relações entre duas partes: criança–profissional, criança–pais e pais–profissional. Essas dimensões interacionais podem abranger fatores como a aliança de trabalho, a comunicação, a confiança, a negociação e muitos outros. Por fim, os fatores externos decorrem do contexto circundante (por exemplo, institucional, cultural, socioeconômico, político) e exercem uma influência profunda sobre a parceria. Esse recurso visual ilustra a complexidade e a dinâmica da parceria ao destacar as contribuições individuais, as interações mútuas e as influências contextuais.
Abrangem os fatores ligados às disposições pessoais de cada pessoa envolvida na parceria. Para os pais, os fatores internos incluem condições afetivas, cognitivas, comportamentais e de saúde, combinadas a experiências pessoais que moldam a identidade e a motivação, bem como componentes como receptividade, disposição, autoeficácia e expectativas (12, 24, 32, 49). Para profissionais, os fatores internos são semelhantes aos dos pais, mas incluem também a expertise profissional, que influencia a tomada de decisão e a qualidade da interação. Para as crianças, os fatores internos dizem respeito à complexidade do caso ou do diagnóstico (por exemplo, competências e aquisições cognitivas e/ou do desenvolvimento), bem como às disposições de saúde, psicológicas e comportamentais.
Referem-se aos elementos contextuais de cada parte que escapam ao controle individual. Para os pais, incluem as condições familiares (situação econômica, valores e crenças culturais, (in)disponibilidade da rede de apoio), os recursos acessíveis e as restrições logísticas [complexidade dos serviços, políticas e estruturas dos programas (24, 32)]. Para profissionais, os fatores externos incluem as condições sociais, a cultura institucional, a logística do sistema e a estrutura organizacional. Para as crianças, os fatores externos envolvem tudo o que foi mencionado acima.
Esses fatores captam as dinâmicas relacionais entre as partes. Descritas no modelo bioecológico (5) no nível do mesossistema, essas dimensões representam interações entre diferentes entidades que afetam diretamente a criança. As principais dimensões interacionais incluem: (a) relações entre pais e profissional(is); (b) interações entre criança e pais; (c) interações entre criança e profissional; (d) relação entre os pais (ou dinâmica interparental) e outras relações que afetam diretamente a criança.
É importante observar que esta é uma versão inicial simplificada do modelo, concebida para destacar as dimensões interacionais centrais, reconhecendo ao mesmo tempo a possibilidade de incluir outras partes interessadas e outras relações.
Ao considerar essas dimensões, nosso referencial conceitual hipotético oferece uma perspectiva abrangente dos fatores que podem afetar a parceria entre os principais atores em uma dinâmica complexa de interações. Embora possa não abranger todas as áreas, oferece uma visão mais ampla das possíveis interferências no processo, ajustada às realidades específicas de cada família.
O referencial PCPP, inscrito no modelo bioecológico, oferece uma perspectiva ecológica holística para compreender as condições das famílias imigrantes em contexto transcultural. Ele se concentra nos fatores de influência no nível micro, mantendo observações mais amplas no nível macro. Para obter uma compreensão mais abrangente das dimensões externas e das condições que cercam a criança, os pais e profissionais em contexto transcultural, a Figura 3 situa a PCPP (Figura 2) no centro do modelo bioecológico.

O referencial PCPP fica no centro do modelo bioecológico, ocupando o nível meso. Esse nível representa o espaço em que se dão as interações diretas entre as diversas partes, ilustrando as dinâmicas relacionais essenciais à parceria.
Em torno desse núcleo, o nível exo abrange sistemas que, embora indiretamente relacionados à parceria, influenciam cada uma das partes. Incluem, por exemplo, o local de trabalho dos pais, as políticas escolares, o bairro e as políticas provinciais de serviços de saúde. Esses sistemas podem afetar indiretamente uma das partes e, por sua vez, repercutir na qualidade e na natureza da parceria. O nível macro envolve todo o sistema. Representa fatores sociais mais amplos, como os valores culturais, as ideologias dominantes, as políticas federais e as tendências econômicas. Essas influências, embora mais distantes, moldam os sistemas do nível exo e, com isso, influenciam as partes e sua colaboração. Por fim, o cronossistema introduz a dimensão do tempo e da historicidade. Ele leva em conta as mudanças que ocorrem ao longo do tempo, tanto no plano individual (desenvolvimento da criança, transições familiares) quanto no plano social (desdobramentos políticos, transformações nos sistemas de saúde ou de educação). Essa dimensão nos leva a examinar as trajetórias singulares de todas as pessoas envolvidas e como as dinâmicas da parceria evoluem com o tempo.
Esse posicionamento do referencial PCPP no centro do modelo bioecológico permite analisar melhor e enfrentar as influências multifacetadas sobre a parceria e o desenvolvimento da criança, sobretudo em contexto transcultural. Essa abordagem oferece várias vantagens. Ela permite uma compreensão mais matizada da natureza dinâmica e complexa das influências, o reconhecimento de sua adaptabilidade às necessidades da criança em evolução ao longo do tempo e a consideração de uma gama mais ampla de fatores contextuais, incluindo valores culturais, políticas e elementos estruturais. Além disso, favorece a valorização das dimensões interacionais da parceria. É importante observar, porém, que o referencial, por si só, não fornece às equipes profissionais e de pesquisa as ferramentas necessárias para estabelecer parcerias efetivas. Por isso, adotar uma abordagem antiopressiva é crucial do ponto de vista do serviço social.
Adotar uma abordagem antiopressiva exige reconhecer os múltiplos sistemas de opressão presentes em um contexto e adotar uma prática reflexiva e autorreflexiva4 (45). Construir parcerias genuínas significa que profissionais precisam ir além do modelo médico de interação, em que atuam apenas como especialistas que definem problemas e tratamentos, e reconhecer a importância da colaboração e da tomada de decisão compartilhada com as famílias. Isso está alinhado às recomendações de redefinir as diferenças de poder entre profissionais e pessoas usuárias dos serviços (46). As relações de poder são moldadas por várias formas de opressão presentes nas atitudes individuais, nos sistemas sociais e nas normas culturais (10). A opressão acarreta oportunidades limitadas de desenvolvimento pessoal, capacidade restrita de participar plenamente da sociedade e direitos desiguais em comparação com os grupos dominantes (10). Pais imigrantes, sobretudo quando têm pouca proficiência na língua ou pouca familiaridade com o sistema de saúde, enfrentam maior vulnerabilidade nos encontros clínicos e transculturais, o que dificulta o acesso ao cuidado e a comunicação efetiva com as equipes.
Adotar uma abordagem antiopressiva (9, 10) significa reconhecer as relações de poder nos níveis pessoal, sistêmico e cultural. Isso exige que profissionais e equipes de pesquisa se engajem na reflexão crítica, examinem as desigualdades de poder nos contextos clínicos no nível micro, analisem os impactos mais amplos nos níveis exo ou macro (por exemplo, a experiência de opressão pelo sistema institucional ou pela trajetória migratória) e busquem ativamente meios de fortalecer o poder de agir dos pais e promover sua participação.
Quando desenvolvem uma compreensão mais profunda das dinâmicas de poder e das restrições enfrentadas por pais imigrantes, as equipes ficam mais bem preparadas para contrapor as barreiras sistêmicas. Na prática, comprometer-se com uma abordagem antiopressiva no referencial PCPP incentiva quem trabalha com pais imigrantes a examinar criticamente as diversas formas de opressão em diferentes níveis e a contrapor-se a elas. Por exemplo, as equipes podem oferecer informações em linguagem acessível (isto é, na língua de preferência da família) e defender adaptações organizacionais (por exemplo, horários flexíveis, previsão de intervenções específicas ou acompanhamento dos pais a serviços comunitários). Além disso, podem promover a tomada de decisão compartilhada, estabelecendo em colaboração com a família os objetivos da intervenção, em vez de impor metas padronizadas. Em outras palavras, ao adotar uma abordagem antiopressiva, as equipes podem facilitar uma resposta mais efetiva às necessidades dessas famílias.
Essa leitura ampliada do referencial, combinada com a abordagem antiopressiva e com a perspectiva transcultural, é crucial em sociedades multiétnicas, multilíngues e multiculturais como o Canadá. As famílias imigrantes passam por um processo transformador (47). Essa realidade, cheia de rupturas e mudanças na vida familiar, pede uma perspectiva sensível às transições culturais, às ideologias políticas e às trajetórias singulares das famílias imigrantes. O referencial adaptado propõe considerar os níveis macro e exo, que representam as crenças, ideologias e políticas dominantes que afetam direta ou indiretamente a PCPP. Enfatizar uma abordagem antiopressiva na prática é essencial para promover parcerias genuínas e dar conta das complexidades enfrentadas pelas famílias imigrantes.
Este referencial conceitual norteador propõe uma mudança de paradigma, do conceito de engajamento parental para um termo mais matizado, que represente melhor a relação que se estabelece nos serviços de IP. A PCPP poderia ser testada tanto em contextos de pesquisa quanto em contextos de intervenção. Ela foi concebida para o projeto de doutorado da pessoa que assina em primeiro lugar, que usará uma metodologia de estudo de caso combinada com uma abordagem de pesquisa-intervenção para examinar a PCPP em condições reais, em que pais e profissionais se associam para gerar ideias de melhoria dos serviços para famílias imigrantes em um programa de saúde provincial.
De fato, esse referencial conceitual proposto tem implicações profundas para a prática e a pesquisa no campo da IP. Ele foi desenvolvido para promover a prática reflexiva de profissionais e equipes de pesquisa que costumam atuar em equipes multidisciplinares. A PCPP enfatiza uma transição para modelos de cuidado mais inclusivos, reflexivos e orientados para a parceria e oferece uma visão abrangente das influências que afetam o engajamento em contexto transcultural.
O novo referencial conceitual, baseado no modelo bioecológico, oferece uma perspectiva ecológica holística sobre as famílias imigrantes e as equipes profissionais, suas condições e as implicações relacionadas nesse contexto dinâmico. Ao considerar a interação complexa de fatores individuais, sociais e sistêmicos, as equipes de campo podem ajustar melhor suas intervenções, aumentando sua relevância e seu impacto. Por exemplo, a PCPP facilita o mapeamento das redes de apoio disponíveis (isto é, membros da família extensa ou comunidade étnica, serviços comunitários). Também pode revelar a situação precária e instável de certas famílias, como pessoas solicitantes de refúgio com complicações médicas e sem acesso aos serviços de saúde e sociais. Além disso, esse referencial pode revelar os desafios que profissionais enfrentam na vida pessoal ou profissional (isto é, problemas de saúde ou familiares, conflitos no trabalho, reformas de políticas e sua implementação), bem como os que decorrem do contexto distal (isto é, normas socioculturais, discurso político sobre a imigração). Esses fatores influenciam significativamente as interações profissionais em contextos transculturais e merecem atenção e consideração cuidadosas. Em outras palavras, a PCPP permite que as equipes reflitam não apenas sobre os fatores ligados à família, mas também sobre suas próprias condições na dinâmica relacional. Ela promove relações equitativas e recíprocas com as famílias imigrantes em contexto transcultural. Em vez de ver o EP como mera participação, que precisa ser monitorada, a PCPP incentiva as equipes a ver a relação como um processo dinâmico de colaboração que valoriza a expertise e as experiências singulares de cada parte (membros da família e profissionais).
Além de lançar luz sobre o contexto mais amplo, o referencial oferece orientações para a adoção de uma abordagem antiopressiva que promova parcerias autênticas e reduza os desequilíbrios de poder. Enraizada nos princípios do serviço social, essa abordagem pede que se incorpore a reflexividade sobre o posicionamento social, a postura profissional e as dinâmicas de poder na prática. Isso é fundamental para defender uma relação caracterizada pela colaboração horizontal, questionando as dinâmicas hierárquicas tradicionais. A abordagem antiopressiva é a base de parcerias autênticas e tem papel decisivo para promover o fortalecimento do poder de agir e garantir que as intervenções sejam culturalmente sensíveis e adequadas ao contexto.
A PCPP foi desenvolvida como uma ferramenta heurística destinada a simplificar e facilitar a compreensão de conceitos complexos. Seu objetivo é triplo: (1) ajudar a pessoa que conduz a pesquisa a organizar os conceitos-chave em preparação para o trabalho empírico, (2) identificar relações entre esses conceitos e (3) estimular a pesquisa. Como já dito, esse referencial serve sobretudo de guia para as atividades de pesquisa exploratória da pessoa que assina em primeiro lugar. Não é uma teoria estabelecida, mas uma fórmula adaptável destinada a gerar ideias e orientar futuras pesquisas empíricas.
Nesta etapa, as implicações desse referencial inovador para a pesquisa são limitadas, pela ausência de testes empíricos, que serão feitos na etapa seguinte do projeto de doutorado da pessoa que assina em primeiro lugar. Ainda assim, a PCPP oferece uma perspectiva ampla, que permite às equipes de pesquisa refletir sobre os diferentes níveis de contexto (do micro ao macro, incluindo o contexto transcultural) que influenciam famílias, profissionais e resultados da intervenção. Além disso, a lente antiopressiva convida a pesquisa a dedicar mais atenção ao componente sutil das dinâmicas de poder, que pode influenciar o desenvolvimento de uma parceria genuína. Por exemplo, no contexto da pesquisa participativa, esse referencial pode ajudar a verificar a presença de uma relação genuinamente equitativa e a natureza do esforço colaborativo. Em um estudo de caso que envolva uma parceria criança–pais–profissional, pode ajudar a identificar os múltiplos fatores que tiveram papel na intervenção para uma ou mais partes (por exemplo, profissionais ou pais).
O referencial teórico proposto questiona estruturas institucionais rígidas, muitas vezes organizadas em silos, com mandatos estritamente definidos em diferentes departamentos. Ao promover a colaboração e uma lente antiopressiva, o referencial nos convida a reconsiderar modos tradicionais de funcionamento que reproduzem formas de opressão tanto em relação às pessoas que usam os serviços quanto a quem trabalha neles. Essa perspectiva destaca a necessidade de reavaliar mandatos, normas e restrições e de refletir criticamente sobre a cultura do desempenho e da produtividade que molda os contextos de intervenção. Criar ambientes mais flexíveis e interconectados, focados nas necessidades reais das partes, é essencial para promover práticas mais equitativas, humanas e efetivas.
Além disso, o referencial enfatiza a importância de reduzir a separação entre os serviços institucionais e os oferecidos por organizações comunitárias. As organizações comunitárias têm papel crucial no apoio a famílias e crianças, muitas vezes complementando os serviços públicos. Maior abertura, reconhecimento e integração dos recursos comunitários nos percursos de atendimento fortaleceriam as parcerias, garantiriam a continuidade do cuidado e responderiam melhor às necessidades complexas das populações.
É imperativo reconhecer as limitações inerentes a este trabalho, que afetam sua transferibilidade e generalização. Essas limitações podem ser divididas entre as que dizem respeito à metodologia e as que dizem respeito aos vieses de quem conduz a pesquisa durante o processo, estando umas e outras entrelaçadas.
Por seu caráter preliminar, e porque o referencial proposto resulta de uma revisão crítica da literatura que adotou uma abordagem não sistemática, são necessários novos estudos empíricos para testar sua ressonância na intervenção e na pesquisa. Uma abordagem não sistemática, em que várias fontes são trianguladas, pode aumentar a validade da pesquisa. É importante, porém, reconhecer os riscos possíveis de tal empreendimento, entre eles a possibilidade de viés de quem conduz a pesquisa. Por isso, reconhecemos a subjetividade inerente que pode ter gerado vieses na seleção dos artigos e na análise aqui apresentada. A inclusão de apenas 30 artigos e de um recorte de 10 anos pode levar à omissão de outras pesquisas e modelos relevantes fora do período especificado. Além disso, como o foco da revisão foi o EP, reconhecemos a necessidade de ampliar a compreensão para incluir as circunstâncias de profissionais e de outras possíveis partes. O artigo oferece uma visão abrangente, mas não pode tratar de todos os aspectos de seu escopo. Por fim, reconhecemos a importância de ampliar o referencial para abarcar uma gama maior de fatores que afetam a Parceria Criança–Pais–Profissional.
Este artigo apresenta um referencial teórico preliminar desenvolvido por meio de uma revisão crítica de modelos e pesquisas sobre o EP. Uma contribuição-chave deste trabalho está em sua fundamentação no serviço social, que recorre a diversas perspectivas disciplinares para informar a pesquisa e a prática profissional. Ao adotar uma abordagem holística que articula abordagens teóricas, o referencial busca promover práticas de IP mais inclusivas, culturalmente sensíveis e efetivas, que fortaleçam de fato o poder de agir das famílias e otimizem os resultados para crianças com CND. Olhar a complexidade das realidades de pais imigrantes pela lente do contexto transcultural e das dinâmicas de poder oferece uma compreensão mais ampla dos fatores que afetam a PCPP. Ao considerar as contribuições de todos os atores e do ambiente social mais amplo, o referencial favorece a reflexão sobre as influências, os desafios e as oportunidades nas relações interpessoais. Ele oferece orientações para uma prática reflexiva crítica, fundamental para revelar e potencialmente reduzir as dinâmicas de poder na IP. Essa abordagem é particularmente benéfica ao estabelecer parcerias equitativas com famílias imigrantes, pois incentiva maior atenção à forma como o ambiente social mais amplo afeta as interações entre as partes. O referencial é uma ferramenta valiosa tanto para equipes de pesquisa quanto para profissionais, pois oferece uma representação dos elementos micro e macro que influenciam o engajamento.
A robustez e a ressonância desse referencial em sua aplicação estão sendo analisadas. Desde o desenvolvimento desse novo modelo conceitual, a pessoa que assina em primeiro lugar delineou e conduziu uma pesquisa em um programa de reabilitação de IP que reuniu pais imigrantes e profissionais do desenvolvimento infantil atuantes em um programa provincial de IP. Uma série de encontros de grupo, ao longo de seis meses, culminou na coconstrução de um conjunto de recomendações baseadas nas percepções tanto dos pais quanto das equipes. Publicações futuras apresentarão os resultados da implementação do modelo. Em outras palavras, essas publicações detalharão como as percepções derivadas desse referencial foram usadas para delinear a intervenção em grupo e analisar seus resultados.
O referencial também pode ser aplicado a outros contextos, como serviços comunitários, programas de reabilitação e escolas. Ao integrar uma abordagem de prática antiopressiva, esse modelo busca oferecer a equipes de pesquisa e profissionais estratégias para reconhecer e enfrentar os desequilíbrios de poder nas interações entre criança, pais e profissionais, promovendo parcerias autênticas e equitativas. Além disso, permite explorar as preocupações, os valores e as realidades de pais imigrantes a partir de uma perspectiva transcultural, ampliando a consciência sobre suas trajetórias migratórias, incluindo traumas, perdas e saberes culturais, e sobre seu impacto na parentalidade. Reconhecer essas realidades é essencial para construir uma PCPP autêntica.
Complexe Systémique: a reter
O interesse do artigo está em requalificar uma noção que se tornou banal. Dizer que os pais estão “pouco engajados” é situar o problema em uma única parte; falar de parceria criança–pais–profissional é olhar o próprio sistema de intervenção, em que a pessoa profissional traz suas próprias restrições, seu cansaço, seus enquadres institucionais, e em que a criança conta como parte plena. Quem lê com olhar sistêmico reconhecerá um pensamento em níveis encaixados e influências recíprocas, ampliado às políticas migratórias e à história das famílias. O referencial convida a gestos concretos: falar a língua da família, definir os objetivos com ela, mapear seus apoios, interrogar a própria posição de poder. Os limites são claros: trata-se de uma proposta teórica oriunda de uma revisão não sistemática de 30 artigos, ainda sem teste empírico, e que ignora a rica literatura da terapia familiar sobre as relações entre famílias e instituições. Para ler junto com o artigo sobre o pior e o melhor das parcerias entre famílias e instituições e com o artigo sobre mobilidades e migrações.
Notas do original
1 “Defino uma teoria como um conjunto generalizado de ideias que descreve e explica de modo organizado nosso conhecimento do mundo ao nosso redor. Uma teoria do serviço social é aquela que nos ajuda a compreender e a fazer serviço social. Uma teoria da prática do serviço social descreve e explica quais ações realizar ao fazer serviço social” (4), p. 3.
2 A intervenção precoce é definida como “a oferta ou a mobilização de apoios e recursos às famílias de crianças pequenas por membros de redes sociais informais e formais, que influenciam direta ou indiretamente e melhoram o comportamento e o funcionamento dos pais, da família e da criança, com consequências de fortalecimento de capacidades” (48), p. 37.
3 O ano de 2020 foi inicialmente escolhido como marco final da revisão da literatura, por coincidir com o exame de qualificação. Para garantir a relevância e a atualidade dos estudos incluídos, a busca foi depois estendida retroativamente por um período de dez anos, a partir de 2010.
4 “Reflectividade é o processo de reconhecer como os próprios pressupostos e ações contribuem para uma situação. […] A reflexividade é descrita como o posicionamento de cada pessoa, complementado pelo ato de ser reflectivo” (45), p. 42.
Abreviaturas. EP, engajamento parental; IP, intervenção precoce; CND, condições do neurodesenvolvimento; PCPP, parceria criança–pais–profissional.
Agradecimentos. A pessoa que assina em primeiro lugar agradece muito os valiosos comentários e observações dos membros de sua banca de qualificação do doutorado, Sophie Hamisultane e Mélina Rivard, do corpo docente.
Disponibilidade de dados. As contribuições originais apresentadas no estudo estão incluídas no artigo e no material suplementar; outras dúvidas podem ser dirigidas à pessoa responsável pela correspondência.
Contribuições. BE: redação da versão inicial, revisão e edição. AB: obtenção de financiamento, supervisão, revisão e edição.
Conflitos de interesse. A equipe declara que a pesquisa foi conduzida na ausência de qualquer relação comercial ou financeira que pudesse ser interpretada como potencial conflito de interesse.
Inteligência artificial generativa. A equipe declara não ter usado IA generativa na redação deste manuscrito. Todo texto alternativo que acompanha as figuras foi gerado pela Frontiers com apoio de inteligência artificial.
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Tradução não oficial em português de Proposta de um novo referencial conceitual para orientar profissionais de intervenção precoce em contexto transcultural, de Berna Elias e Aline Bogossian, Frontiers in Public Health, vol. 13, article 1689596 (2025), doi: 10.3389/fpubh.2025.1689596, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (figuras com legenda em português). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Proposal for a new conceptual framework to guide early intervention professionals in a transcultural context”, publicado em Frontiers in Public Health (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Elias, B., et Bogossian, A. (2025). Proposta de um novo referencial conceitual para orientar profissionais de intervenção precoce em contexto transcultural (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/proposta-de-um-novo-referencial-conceitual-para-orientar-profissionais-de-intervencao (Obra original publicada em 2025 em Frontiers in Public Health, 13, 1689596 (2025); republicada em 2025 por Frontiers in Public Health, https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2025.1689596/full)
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