IA · Terapia sistêmica
Enquanto debatemos entre nós quem tem o direito de cuidar, outra história já está sendo escrita. Ela não passa pelas escolas. Nem pela universidade. Ela passa pelos usos.
Alguém está mal. Pega o celular, abre um aplicativo, escreve: “Não sei o que fazer.” E uma inteligência artificial responde. Ela nunca dorme. Nunca sai de férias. Não cobra a sessão. Responde às três da manhã, quando não há mais ninguém. Reformula, tranquiliza, propõe um exercício, explica. E, para muita gente, isso já se parece bastante com uma ajuda. Às vezes até melhor do que terapias que já fizeram.
É exatamente isso que deveria nos fazer parar.
Porque isso já não é uma hipótese de futurólogo.
Milhões de jovens já buscam ali um ouvido. Enquanto isso, nos nossos consultórios, seguimos discutindo títulos.
É toda a sua força. A IA não reivindica diploma algum, não reclama legitimidade alguma. Ela não diz “sou psicoterapeuta”. Ela diz “fala comigo”. E se instala onde as pessoas já estão: nas insônias, nos términos, nas dúvidas, nas angústias de domingo à noite. As instituições são lentas. Os usos, esses, andam depressa. Pode-se regulamentar um título, enquadrar uma profissão, lembrar o que é oficialmente uma psicoterapia. Mas nunca se impedirá que alguém, sozinho no quarto, escreva a uma máquina: “Estou mal, me ajuda.”
Então paremos de nos perguntar se a IA tem o direito de fazer terapia. Já está feito. A verdadeira pergunta, a única que conta, é esta:
Por que as pessoas estão começando a lhe dar um lugar de terapeuta?
E essa pergunta nos obriga a olhar para outro lugar que não o nosso diploma. Ela nos obriga a olhar para o que os pacientes vêm realmente buscar. Uma escuta. Uma presença tranquilizadora. Um lugar sem julgamento onde depositar o que pesa. Um pouco de alívio, imediatamente.
Em tudo isso — melhor reconhecer com franqueza — a IA é temível.
Ela está disponível no mesmo instante. Encontra as palavras que tranquilizam. Propõe um exercício de respiração, uma reestruturação cognitiva, um diário emocional. Explica a ansiedade, o apego, o trauma melhor do que muitos manuais. E os primeiros estudos sérios mostram que ela obtém, em certos pacientes, reduções de sintomas comparáveis a uma terapia de verdade — com um sentimento de aliança que as pessoas julgam tão forte quanto com um humano.
Isso não quer dizer que ela compreende. Nem que ela cuida. Nem que assume a menor responsabilidade quando as coisas descarrilam. Mas quer dizer que ela sabe produzir todos os sinais exteriores do cuidado. E isso basta para muita gente.
Eis o verdadeiro assunto. A IA não vai substituir toda terapia. Mas vai concorrer, frontalmente, com tudo o que em nossas práticas se resume a reformular, tranquilizar, validar, distribuir exercícios.
Sejamos honestos por um segundo. Se o meu trabalho consiste apenas em ser gentil, balançar a cabeça, dizer “eu entendo”, seguir o relato do paciente sem nunca sacudi-lo, sem nunca questionar uma explicação fácil demais, sem nunca tocar no enquadre nem pensar o contexto — então sim. Uma máquina pode fazer isso. Chamemos as coisas pelo nome.
A terapia pobre
É aquela que já não complexifica nada. Aquela que confunde alívio com transformação. Validação com cuidado. Calor humano com responsabilidade.
A IA vai nos obrigar a decidir entre duas coisas que deixamos se misturar por tempo demais:
De um lado
o que parece terapia
Do outro
o que realmente trabalha
Repetimos essa frase como um mantra tranquilizador. Só que ela só se sustenta se estivermos de acordo sobre a palavra “relação”.
Se estar em relação é sentir-se escutado, compreendido, validado, então a IA já fabrica essa sensação com maestria. Mas uma verdadeira relação terapêutica não é o conforto de ser compreendido. É um encontro com um outro. Um outro que pode me interromper, me surpreender, me devolver uma experiência, me situar — porque só nos construímos no contato com o que resiste um pouco.
Um paciente chega buscando validação, mas é de um limite que ele precisa. Busca uma resposta, mas é de uma pergunta que ele necessita. Busca uma explicação sobre si, mas é todo um sistema que ele deveria ver. Busca um alívio imediato, ali onde o espera um trabalho lento. Uma IA complacente demais é o interlocutor dos sonhos: sempre disponível, sempre paciente, sempre de acordo, sempre no tom que se pede.
Mas empatia sem alteridade tem um nome: câmara de eco. E no psiquismo, uma câmara de eco pode causar estragos.
Os pesquisadores têm até uma palavra para isso: a bajulação (sycophancy). Essa mania que as IAs têm de sempre dar razão, validar, lisonjear — não por benevolência, mas porque foram treinadas para agradar. O problema não é um bug que será corrigido amanhã: está inscrito na sua fabricação. Já vimos chatbots reforçarem delírios em vez de questioná-los, e psiquiatras alertarem para surtos delirantes alimentados por horas de diálogo com uma máquina que nunca contradiz. Uma fórmula resume tudo:
A psicose prospera onde a alteridade deixa de resistir.
E é exatamente esse o coração do cuidado. Algumas pessoas não precisam ser tranquilizadas. Precisam que se contenha o seu pensamento, que se o estruture, que se o contradiga às vezes — com delicadeza. Há uma coisa muito simples que uma IA jamais poderá oferecer: ser responsabilizada. Um terapeuta pode ser questionado, supervisionado, obrigado a um enquadre. Pode reconhecer um erro. Pode sentir que uma situação o ultrapassa e passar o caso adiante. A máquina, por sua vez, não tem nada a perder, nada a assumir, ninguém a quem prestar contas quando as coisas dão errado.
E há outra coisa que ela tem dificuldade de fazer: pensar em círculos em vez de linhas retas. A IA adora a causa única. “Você está mal porque viveu isso.” “Você repete isso por causa desse trauma.” Às vezes é verdade. Muitas vezes é curto demais. O pensamento sistêmico, por sua vez, olha para as retroações. Como cada um, sem querer, mantém uma situação da qual todos sofrem. Como um sintoma pode ser ao mesmo tempo uma dor íntima e uma solução para um grupo inteiro. Como aquele que é apontado como “o problema” carrega, na verdade, algo pelos outros.
É aí, exatamente aí, que está a nossa responsabilidade. Não apenas dar uma resposta. Proteger a complexidade.
Duas posturas fáceis nos estendem os braços, e é preciso resistir às duas.
“A IA vai democratizar a saúde mental, suprir a falta de terapeutas, cuidar daqueles que não alcançamos.” Há verdade nisso — ela pode oferecer um primeiro apoio, derrubar a barreira do custo e da vergonha, evitar que alguém fique sozinho.
Mas ela também pode dar a ilusão do cuidado, deixar passar um sinal de perigo, aprisionar numa crença, criar dependência. Quando se sabe que uma fração nada desprezível dos seus usuários lhe confia toda semana pensamentos suicidas, o entusiasmo morno já não basta.
“É frio, é falso, é desumanizante.” Simples demais também.
Porque os pacientes vão usá-la, conosco ou sem nós. E se nos recusarmos a pensar esse fenômeno, deixaremos o mercado pensá-lo em nosso lugar.
O lugar certo — a meu ver — não é nem o deslumbramento, nem o medo. É a responsabilidade.
Vejamos a IA pelo que ela é: um novo ator da paisagem psíquica. Não um terapeuta. Tampouco um gadget. Um objeto relacional, que já muda a forma como as pessoas pedem ajuda, narram seu sofrimento, buscam sentido — e imaginam o que é uma terapia.
Num mundo afogado em respostas, saber fazer a pergunta certa torna-se precioso.
Sustentar a complexidade.
É aí que está o nosso futuro. Não na corrida pelo diploma, não na defesa do título. Nessa função que nenhuma máquina poderá ocupar em nosso lugar: sustentar a complexidade. Ser suas guardiãs e seus guardiões.
Como citar este artigo
Besse, J. (2026, 20 de junho). Psis e IA: a próxima grande fratura do cuidado psíquico. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/psis-e-ia-a-proxima-grande-fratura-do-cuidado-psiquico
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