Teoria sistêmica

A homeostase: o que nos mantém… e por vezes nos retém

O equilíbrio de um sistema protege sua integridade. Esse mesmo equilíbrio pode tornar-se o principal obstáculo à mudança.

Por Yara Doumit Terapeuta familiar e interventora sistêmica · Formadora e responsável pedagógica no Complexe Systémique
Parte 1

O que é a homeostase? Antes de tudo, um equilíbrio dinâmico

A homeostase designa a capacidade de um sistema de manter seu equilíbrio interno apesar das perturbações exteriores.

Vindo da biologia, o conceito foi primeiro evocado pelo fisiologista francês Claude Bernard no século xix, que falava da “estabilidade do meio interior”, e depois formalizado por Walter B. Cannon em 1932, que cunhou o termo homeostasis. Etimologicamente, do grego hómoios (semelhante) e stásis (posição estável): trata-se de permanecer semelhante num mundo em mudança.

Concretamente, um organismo homeotérmico mantém sua temperatura corporal constante, e nosso corpo regula permanentemente a taxa de açúcar no sangue. Essa estabilidade é possibilitada por laços de retroação negativa: como um termostato, um sensor detecta a variação de um parâmetro e desencadeia ações corretivas para voltar ao valor de referência.

Estabilidade não quer dizer rigidez

A homeostase é um equilíbrio vivo e flutuante. Pense na sua respiração: ela oscila entre inspiração e expiração, ajustando-se constantemente ao esforço, mantendo ao mesmo tempo um aporte suficiente de oxigênio. Um sistema homeostático parece-se muito mais com um rio vivo do que com uma lagoa estagnada.

Parte 2

A homeostase nas famílias, grupos e organizações

Em sistêmica, a homeostase descreve a tendência de um grupo humano a preservar seus hábitos e seu modo de funcionamento. Cada família, casal, equipe ou instituição possui um equilíbrio implícito feito de regras, papéis e rotinas. Numa família, cada um pode ocupar um papel bem definido — o mediador, o rebelde, o protetor — e interagir segundo regras tácitas que mantêm a coerência do grupo. Essa coerência é tranquilizadora: oferece a seus membros um sentimento de segurança e de previsibilidade.

Vinheta clínica

Um adolescente apresenta comportamentos de rebeldia na escola e em casa. Por mais problemático que seja, esse sintoma pode desempenhar um papel homeostático: focaliza a atenção dos pais na conduta do jovem, evitando talvez que se confrontem com seus conflitos conjugais latentes. Enquanto “o problema” do adolescente ocupa todo o espaço, o edifício familiar se sustenta.

Se, por intervenção terapêutica, esse jovem se acalmasse bruscamente, a tensão parental subjacente correria o risco de vir à tona. O sistema familiar procura então restabelecer seu antigo equilíbrio. É assim que se observa por vezes uma recaída do comportamento do jovem, ou o surgimento de um novo sintoma: outro filho somatiza, um dos pais deprime. Como se a família inventasse um meio de reencontrar o status quo.

Nas organizações a homeostase também existe. Diante de uma mudança de procedimento ou da chegada de um novo gestor, a empresa pode mostrar resistências informais. Os funcionários continuam a aplicar os antigos hábitos em segredo, ou esperam que passe, até que a organização volte a seu modo de funcionamento familiar.

O mesmo vale para o indivíduo: nossos hábitos psicológicos, mesmo pouco saudáveis, têm uma função de equilíbrio interno. Mantêm uma zona de conforto conhecida. É por isso que mudar um comportamento enraizado pode provocar um mal-estar difuso, como se algo de anormal se passasse em nós. O sistema que é nossa mente procura voltar a seu ponto de equilíbrio conhecido, por vezes em detrimento de nosso bem-estar consciente. Podemos assim sabotar um projeto que nos é caro, simplesmente porque sair de nosso quadro habitual gera ansiedade demais.

Parte 3

Uma força de regulação vital… e um freio à mudança

A homeostase é ao mesmo tempo uma aliada preciosa e uma adversária tenaz da mudança.

O que ela protege

Sem mecanismos homeostáticos, os sistemas vivos descarrilariam ao menor imprevisto. Nossos sistemas sociais precisam de um mínimo de estabilidade — valores compartilhados, leis, rotinas — para não mergulharem no caos à primeira crise.

O que ela impede

Quando um sistema se organizou em torno de um status quo, toda tentativa de mudança maior desencadeia forças de retorno em sentido inverso. O sistema trata a mudança como um erro a corrigir.

Ela permite a perenidade. Pense num equilibrista que ajusta sem cessar seu centro de gravidade para permanecer no fio: cada microcorreção evita a queda.

Mas uma família que sempre se comunicou de maneira evitante — não falar dos problemas — reagirá com desconforto se um membro começar a exprimir honestamente suas emoções. De imediato, outros minimizarão, farão humor, ou mudarão de assunto. Reações que visam restabelecer o clima inicial de evitação.

A homeostase age portanto como um freio à mudança assim que esta é percebida como uma ameaça ao equilíbrio existente. É paradoxal: cada membro do sistema pode dizer que quer que as coisas melhorem, ao mesmo tempo que contribui involuntariamente para manter a situação problemática, simplesmente porque é o funcionamento que conhece.

Esse fenômeno é identificado pelos terapeutas familiares desde os trabalhos de Don Jackson em 1957, que descrevia a homeostase familiar como aquilo que dá conta da resistência à mudança nas famílias. Quanto mais um sistema se sente ameaçado, mais se agarra ao que conhece: melhor o diabo conhecido do que o diabo por conhecer.

Parte 4

Acompanhar a mudança: trabalhar com a homeostase, não contra ela

Diante da homeostase de um sistema, o instinto poderia ser querer quebrá-la a todo custo. Se ela mantém um problema, por que não sacudi-la frontalmente? A experiência mostra que uma abordagem brutal corre o risco de reforçar o medo, levando o sistema a crispar-se ainda mais em seu antigo modo de funcionamento. Equivale a puxar demais um elástico: ele volta na sua cara.

Um terapeuta que confrontasse violentamente uma família apontando de saída todas as suas disfunções corre o risco de vê-la fechar-se e interromper a terapia, submersa pela ameaça sentida.

1
Reconhecer os bons lados do equilíbrio atual

Legitimar a parte de cada membro que teme perder algo no processo de mudança.

2
Trazer à luz as funções ocultas

“Se sua família deixasse completamente de brigar, do que você teria receio?” A pergunta pode revelar que uma mãe teme que, ao parar de se preocupar com os conflitos dos filhos, tenha enfim de encarar seu próprio vazio.

3
Usar a resistência como alavanca

Os terapeutas da escola de Palo Alto elaboraram técnicas paradoxais em que se pede ao paciente que sobretudo não mude, ou mesmo que exagere seu sintoma.

4
Coconstruir um novo equilíbrio

Uma vez apaziguados os receios, acompanhar o sistema rumo a ajustes progressivos. Cada pequena mudança aceita desloca suavemente o ponto de equilíbrio.

A abordagem paradoxal desarma a luta de poder com a homeostase: em vez de um braço de ferro perde-perde, oferece-se ao sistema a permissão de permanecer estável, o que pode levá-lo a modificar espontaneamente seu funcionamento.

O objetivo, evidentemente, não é deixar o sistema cristalizado num status quo problemático. Trata-se de coconstruir um novo equilíbrio mais satisfatório.

O que reter

Ser ao mesmo tempo o parapeito que protege e o catalisador que inspira o movimento.

Mudar com a homeostase em vez de contra ela exige do interventor uma postura de humildade e de paciência. Ele torna-se um elemento do sistema em transição, um parceiro que sustenta tanto a estabilidade quanto a transformação.

Referências para ir mais longe
  • Cannon, W. B. (1932). The Wisdom of the Body. W. W. Norton.
  • Jackson, D. D. (1957). The question of family homeostasis. The Psychiatric Quarterly, 31(1), 79-90.
  • Watzlawick, P., Weakland, J. H., & Fisch, R. (1974). Change: Principles of Problem Formation and Problem Resolution. Norton.
  • Maturana, H. R., & Varela, F. J. (1980). Autopoiesis and Cognition: The Realization of the Living. D. Reidel.
  • Damasio, A. (2018). The Strange Order of Things: Life, Feeling, and the Making of Cultures. Pantheon Books.
Para ir mais longe neste site
Como citar este artigo

Doumit, Y. (2025). A homeostase: o que nos mantém… e por vezes nos retém. Complexe Systémique. https://www.complexe-systemique.com

Trocas

Comentários 0

Entre para participar da discussão. Entrar

  1. Nenhum comentário por enquanto. Comece a discussão.

Carrinho

Seu carrinho está vazio.