Journal of Solution Focused Practices · Resposta
Em 2021, ao responderem a Guy Shennan, Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan deram ao seu texto um subtítulo que nomeava também o Solution-Focused Collective, e contestaram o manifesto pela mudança social do Coletivo. O Coletivo responde aqui. Sim, ele tem uma agenda: a justiça social. Não, não é essa agenda que impediria de chamar o manifesto de “focado nas soluções”, pois o manifesto não trata de fazer terapia com clientes. Onde há ação coletiva não há clientes, não há quem ajuda nem quem é ajudado, e a pergunta que os praticantes focados nas soluções podem trazer é outra: quais são as nossas melhores esperanças ao agirmos juntos?
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Solution-Focused Collective Action: A Response to Harry Korman, Peter De Jong, and Sara Smock Jordan, do Solution-Focused Collective, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021), doi: 10.59874/001c.75047, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido, rediagramado e provido de intertítulos, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece. A revista disponibiliza ainda resumos traduzidos deste artigo para o chinês, o francês, o alemão, o persa e o espanhol; a nossa é independente delas.
Na ação coletiva não há separação entre quem ajuda e quem é ajudado.
The Solution-Focused Collective
A edição de julho de 2021 desta revista trouxe tanto uma resposta (Shennan, 2021) ao artigo Steve de Shazer’s Theory Development (Korman et al., 2020) quanto uma réplica a essa resposta pelos autores do artigo (Korman et al., 2021). Esses autores deram à sua réplica o subtítulo: “A Response to Guy Shennan and the Solution Focused Collective”, ainda que a resposta de Guy fosse uma resposta individual e que o Coletivo não tenha tomado parte alguma em sua escrita (e, pela leitura que fazemos de seu artigo, não nos parece que Guy tenha sugerido o contrário). No entanto, uma vez que Korman et al. fizeram em sua réplica alguns comentários críticos a respeito do nosso manifesto (Solution-Focused Collective, 2019/2021), gostaríamos de entrar na conversa.
O título da resposta de Korman et al. é “We Don’t Want to Blur the Boundaries” — não queremos borrar as fronteiras — e as fronteiras também nos preocupam, ainda que não sejam as mesmas: aquelas entre praticante e cliente, que acreditamos precisarem mesmo ser borradas, se não eliminadas por completo, ao menos no caso da mudança social, como argumentaremos adiante. As fronteiras a que Korman et al. se referem são as que separam a terapia breve focada nas soluções (TBFS) de outras formas de terapia, e que, segundo eles, deveriam ser firmemente demarcadas. Não é nossa intenção deter-nos aqui nessas fronteiras específicas, a não ser para dizer que, embora seja importante ter clareza sobre o que distingue a prática focada nas soluções de outras abordagens, também vemos valor em procurar as conexões entre nós e os praticantes de outras abordagens, o que é uma razão para procurar as conexões entre nossas abordagens.
Queremos deter-nos aqui no nosso manifesto, não apenas porque Korman et al. o submeteram a um exame crítico, mas também porque manifestaram ressentimento quanto à posição em que acreditam que o manifesto os coloca. Lamentamos saber que esse ressentimento surgiu e, de início, também ficamos perplexos. Acreditamos que essa reação veio de um mal-entendido sobre as intenções do manifesto, e agradecemos a oportunidade de oferecer alguns esclarecimentos a respeito. Esperamos poder lançar luz suficiente para que outra posição possa ser assumida.
O manifesto chegou à sua forma atual depois de mais de um ano de elaboração, desde o momento em que um primeiro esboço foi apresentado no congresso de 2018 da UK Association for Solution Focused Practice, em que uma das trilhas de oficinas tratava da mudança social. Ele continuou a ser desenvolvido pelas pessoas que participavam das reuniões do então recém-formado Solution-Focused Collective, as quais consultaram também a comunidade focada nas soluções mais ampla, por meio de fóruns de discussão por e-mail e dos congressos europeu (EBTA) e americano (SFBTA). O manifesto encontra-se no site do Coletivo, tanto no inglês original quanto — até agora — em outras sete línguas (Solution-Focused Collective, 2019/2021).
Nós o chamamos de manifesto focado nas soluções pela mudança social, e queremos explicar por que lhe demos esse rótulo de “focado nas soluções”. Primeiro, é um documento criado por um grupo de praticantes focados nas soluções que compartilham a convicção de que uma abordagem focada nas soluções pode ser empregada na busca da mudança social. Queremos compartilhar essa convicção com nossos colegas praticantes focados nas soluções, torná-la pública dentro da comunidade focada nas soluções; e o manifesto termina com um convite aos nossos colegas praticantes focados nas soluções para que se juntem a nós. Além disso, é um manifesto voltado para o futuro, no qual expomos nossas esperanças de justiça social e delineamos um futuro preferido “de comunidades caracterizadas pela igualdade, pela reciprocidade e pela interdependência, que permitam às pessoas levar vidas realizadas em seus próprios termos”. Compartilhamos também nossa convicção de que existem ocorrências de um futuro assim e progressos em sua direção, e de que nos inspiramos em outros que agiram pela justiça social. Em suma, acreditamos que o manifesto adotou uma abordagem focada nas soluções no modo como formulou nossas convicções e intenções.
No entanto, em seu artigo de resposta, Korman et al. contestam o nosso uso do termo “focado nas soluções” para descrever o manifesto. Eles têm razão ao dizer que os praticantes que escreveram o manifesto têm uma agenda — queremos ver a justiça social e acreditamos que uma abordagem focada nas soluções pode ser empregada no trabalho rumo a esse objetivo — e a preocupação deles é que “quando o terapeuta tem uma agenda para o cliente, ele já não está fazendo terapia breve focada nas soluções” (Korman et al., 2021, p. 69). Acreditamos que as preocupações deles estão mal colocadas e que nascem de uma confusão entre a ação coletiva e a terapia.
Não escrevemos o manifesto como um grupo de profissionais, para declarar que desejávamos fazer terapia breve focada nas soluções com outro grupo de pessoas — nossos clientes — sendo a agenda dessa terapia trabalhar rumo à justiça social, uma agenda conduzida por nós, os profissionais. São essas as fronteiras que queremos borrar, ou derrubar. Não: escrevemos como praticantes focados nas soluções, a respeito das nossas próprias esperanças de justiça social, dos nossos próprios futuros preferidos de igualdade, reciprocidade e interdependência, das nossas próprias ideias de progresso rumo a esses futuros. E acreditamos compartilhar essas esperanças com muitas outras pessoas, com as quais podemos agir juntos, empreitadas às quais esperamos poder levar nossa experiência e nossas competências de prática focada nas soluções. Acreditamos na ação coletiva e acreditamos que, como praticantes focados nas soluções, podemos trabalhar coletivamente, “com grupos, organizações e comunidades, e nos juntar a ações coletivas conduzidas por outros, inclusive por aqueles que são especialistas por experiência” (Solution-Focused Collective, 2019/2021).
Na ação coletiva não há separação entre quem ajuda e quem é ajudado. Pode-se notar aí uma semelhança com a ajuda mútua, e há vários livros que descrevem formas de autoajuda focadas nas soluções (ver, por exemplo, Ghul, 2015). O deslocamento, aqui, vai de ajudar a nós mesmos a mudar o mundo. Como atores coletivos, somos todos simplesmente humanos entre humanos, preocupados com o estado do mundo, todos embarcados juntos nisso. Não há um terapeuta situado, não se sabe como, em algum lugar fora dessas preocupações, para perguntar às pessoas que as carregam quais são as suas melhores esperanças em relação a alguma terapia — porque não há terapia alguma acontecendo. Concordaríamos com Korman et al. que “usar o foco nas soluções ‘na busca da justiça social’ com clientes é fazer algo que não é terapia breve focada nas soluções” — só que não há clientes. Desejamos agir coletivamente com quem quer que deseje fazê-lo, e a nossa oferta focada nas soluções, nesse caso, incluirá a pergunta: “Quais são as nossas melhores esperanças ao agirmos juntos?”
Lamentamos que a leitura do nosso manifesto tenha suscitado ressentimento em Korman et al., que sentiram ter sido “colocados na posição de ser contra fazer trabalho político pela justiça social para criar um mundo melhor”, porque não concordavam que o manifesto fosse chamado de “focado nas soluções”. Não temos desejo algum de colocar quem quer que seja em tal posição, e esperamos que a nossa exposição, aqui, dos modos como vemos o manifesto como focado nas soluções possa ajudar nesse sentido. Ao compartilhar nossa ideia de que uma abordagem focada nas soluções pode servir para ajudar a criar um mundo melhor, não estamos dizendo que essa seja a única maneira pela qual pessoas que por acaso são praticantes focados nas soluções podem fazer trabalho político pela justiça social.
Por fim, como o manifesto não diz respeito à prática da TBFS, não estamos tão preocupados em nos afastar da teoria de Steve de Shazer, tão bem exposta e elucidada por Korman et al. Steve escrevia sobre fazer terapia com clientes, e nós falamos de empreender ação coletiva como humanos entre humanos. Acreditamos que uma abordagem focada nas soluções pode ser adotada nos dois casos. Convidamos nossos colegas praticantes focados nas soluções e os seres humanos que acreditam no mesmo a se juntarem a nós.
Referências
Ghul, R. (2015). The power of the next small step: What’s the best that could happen? The Connie Institute.
Korman, H., De Jong, P., & Jordan, S. S. (2020). Steve de Shazer’s Theory Development. Journal of Solution Focused Practices, 4(2).
Korman, H., De Jong, P., & Jordan, S. S. (2021). We don’t want to blur the boundaries: A response to Guy Shennan and the Solution Focused Collective. Journal of Solution Focused Practices, 5(1).
Shennan, G. (2021). Narratives of distinctiveness or similarity and connection: A response to Korman, De Jong and Jordan’s Steve de Shazer’s Theory Development. Journal of Solution Focused Practices, 5(1).
Solution-Focused Collective. (2019/2021). The manifesto. The Solution-Focused Collective. https://solfocollective.net/the-manifesto-for-text-readers/
Nota do autor
The Solution-Focused Collective
E-mail: solfocollective@gmail.com
Tradução não oficial para o português de Solution-Focused Collective Action: A Response to Harry Korman, Peter De Jong, and Sara Smock Jordan, do Solution-Focused Collective, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n. 2 (2021), p. 66-67, doi: 10.59874/001c.75047, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença, com cinco intertítulos acrescentados. Nem os autores nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Solution-Focused Collective Action: A Response to Harry Korman, Peter De Jong, and Sara Smock Jordan”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Solution-Focused Collective (2021). Ação coletiva focada nas soluções: uma resposta a Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/acao-coletiva-focada-nas-solucoes-uma-resposta (Obra original publicada em 2021 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n° 2 (2021), p. 66-67; republicada em 2021 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75047)
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