Red Sistémica · Entrevista

Conversas sobre biologia sistêmica. Entrevista com Humberto Maturana

Em um momento em que a biologia se assimila aos progressos surpreendentes da tecnologia — pensemos nos deslumbramentos midiáticos da genética ou no avanço irresistível da psicofarmacologia em nosso campo —, Humberto Maturana, o reconhecido biólogo e pensador chileno, propõe uma visão decididamente diferente. Nesta entrevista, com a fluência que o caracteriza, ele percorre temas como sua concepção pessoal da biologia, a dinâmica das relações sociais e o impacto da tecnologia sobre elas.

Entrevista realizada por Fernando Torrente e Claudio Des ChampsPrimeira publicação Perspectivas Sistémicas, n.º 47, julho-agosto de 1997Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

“O predeterminismo genético não é um fenômeno da genética: é uma opinião da genética.”

Humberto Maturana

A terapia e a biologia do amor

Qual é, do seu ponto de vista, a evolução dos problemas da epistemologia, da psicologia e da psicoterapia?

Não sei que rumo a terapia tomará no futuro. Penso que a terapia funciona, essencialmente, de um modo que chamo de biologia do amor.

Em outras palavras, há diferentes maneiras de se aproximar da mesma coisa.

Essas maneiras irão se transformando conforme as mudanças dos modos de vida, o que implica, portanto, a necessidade de fazer evoluir os espaços de reflexão, o modo como aparecem os problemas; do mesmo modo, em psiquiatria, as doenças psiquiátricas mudam com a história.

O que você pensa da tendência crescente de usar medicamentos, por exemplo os psicotrópicos?

Os psicotrópicos podem ajudar a resolver certos problemas; mudam um pouco a situação da pessoa, mas não os resolvem, porque os problemas são relacionais. Haverá, portanto, oscilações em muitas direções, mas o central é a biologia do amor.

Contra o determinismo genético: o organismo surge em uma história

A propósito da biologia do amor: a biologia atual tende, cada vez mais, a modelos a-históricos, com grande ênfase na genética, na ideia de que existem muitos comportamentos prefixados. Você, por sua vez, tem a ideia de uma biologia interacional, historicizante, no sentido de que as interações constroem em tempo real novas construções. Poderia desenvolver essas diferenças quanto ao modo de compreender a biologia?

A diferença é fundamental porque, em muitos aspectos da interpretação ou da tentativa de explicação dos fenômenos biológicos, põe-se muita ênfase, como você assinala, na noção de determinismo genético, que por sua vez vem acompanhada da noção de predeterminismo. Mas as situações são diferentes, porque o predeterminismo implica que a condição inicial determina o desenvolvimento ulterior ou o futuro, e isso nunca acontece. Mesmo no desenvolvimento e nas transformações biológicas do ser vivo, o que há é um fenômeno de epigênese. Sempre. Ou seja, o organismo surge pouco a pouco em uma história.

Ora, se as condições iniciais se repetem, se o fluxo histórico das interações se repete, as transformações vão se parecer ou ser as mesmas. Mas o fenômeno é sempre uma epigênese. Toda essa abordagem que enfatiza o determinismo genético me parece, portanto, inadequada. A terapia não funcionaria nas condições do determinismo genético. Se a terapia funciona, é justamente porque não há nem determinismo genético nem predeterminismo. As condições genéticas constituem a estrutura inicial do organismo, o fundamento do desenvolvimento, da epigênese, mas não determinam o curso da epigênese, porque este surge como um fenômeno histórico. Penso que essa abordagem determinista e predeterminista é um erro e que será, com o tempo, abandonada. Isso não quer dizer que eu negue os fenômenos da genética. Digo que o predeterminismo genético não é um fenômeno da genética, mas uma opinião da genética.

Para lembrar

Para Maturana, os genes fornecem a estrutura inicial do organismo, não o curso do seu desenvolvimento: todo ser vivo surge em uma história de interações (epigênese). É precisamente porque não há predeterminismo que a terapia pode funcionar.

No que você chama de biologia do amor, que características a-históricas ou fixas haveria, ou seja, que se repetem nas interações, e o que, na biologia do amor, muda com a história?

Quando falo da biologia do amor, refiro-me às características estruturais, e portanto genéticas, dos seres humanos em particular, que especificam a natureza da sua história como possibilidade, que especificam o tipo de história que eles podem viver.

Isso acarreta que, no presente dinâmico, a identidade humana não é fixa, porque não é nem determinada nem predeterminada geneticamente; há uma dinâmica sistêmica de configuração do ser humano que diz respeito a uma conservação dessa condição amorosa.

Claro, isso pode mudar com a história. Se a dinâmica sistêmica que conserva o ser amoroso não se mantiver, ela derivará em outra direção, a biologia mudará e o destino do Homo sapiens seguirá um curso diferente daquele que mostrou até aqui. Mas quando falo da biologia do amor, refiro-me, de um lado, à constituição de base que torna possível que sejamos uma classe particular de animais e, de outro, à dinâmica sistêmica da convivência humana que conserva isso como uma condição central para viver. Porque, para nós, seres humanos, essa relação de realização no interior de um espaço humano acolhedor é uma condição central. Então surge outra coisa: por exemplo, quando se fala de uma conduta psicopática, no fundo, é um ser humano diferente. É um Homo sapiens de outra classe.

Desvios, normalidade e comunidade: uma discordância com Cecchin

Gianfranco Cecchin sustentava que as sociedades precisam desses desvios para se autorregular e que, na realidade, o que consideramos patologias são desvios da norma por meio dos quais a própria cultura se autorregula, e que a terapia seria um modo de devolver a essa cultura central, normatizada, as mensagens desses desvios. Seriam as bordas de uma curva normal. Essas mensagens são as que permitem mudar o conjunto e o conceito de normalidade.

Creio que é uma bela ideia, mas não vejo as coisas assim. Creio que há certa variabilidade, que corresponde à diversidade possível a partir da condição fundamental, e que o que se conserva como o modo central do viver de uma comunidade é um fenômeno sistêmico. Esses extremos são, portanto, variações, e podem nos servir, claro, para nos darmos conta da direção em que podemos nos desviar; mas a conservação do modo central de vida é um fenômeno sistêmico, dinâmico, no qual o que se conserva se constitui e se conserva no viver.

Nesse processo, podemos tomar esses desvios como ocasiões de reflexão ou como situações a negar. Na história da humanidade, as duas coisas aconteceram.

Para que os desvios de que fala Cecchin sejam mensagens, essa conservação da normalidade deve ser essa dinâmica sistêmica de que falo. Porque, para que algo seja uma mensagem, devo lê-lo como tal. Nada é uma mensagem em si. De modo que, se vejo esses desvios como mensagens, isso quer dizer que eles me convidam à reflexão; mas, se os vejo como desvios, então não me convidam à reflexão, convidam-me à negação.

Cecchin dizia precisamente que, em um tipo de terapia, a terapia reflexiva, e em certos casos, a função da terapia seria essa interpretação dessas mensagens desprovidas de sentido; o processo ético, reflexivo, da terapia seria obter esse insight, que esses desvios possam ser retraduzidos em mensagens de possibilidades novas em vez de desvios a reduzir.

Como não faço terapia, não posso refletir nessa direção.

Penso que a terapia é uma tarefa que tem a ver com as pessoas enquanto resolvem seus conflitos (elas consultam porque têm conflitos e, por sua vez, têm conflitos porque têm emoções contraditórias em seu viver); isso as reincorporará, em maior ou menor grau, à comunidade fundamental à qual pertencem. Que essa comunidade fundamental assuma os desvios como um convite à reflexão, ou que não o faça, é outra questão. Nesse sentido, não concordo com G. Cecchin.

Ao mesmo tempo, os terapeutas podem dizer: “Senhores! Vejam que existem tais e tais tipos de desvios; por favor, vamos nos dar conta do que está acontecendo.

É, portanto, um chamado à atenção do terapeuta para que este lance um chamado à atenção da comunidade.

É interessante, porque, para que essa mensagem tenha alguma eficácia, ela deve ser recebida por uma comunidade capaz de interpretá-la.

Não pode ser simplesmente a intimidade de uma relação terapêutica…

Nesse sentido, a mudança e a aprendizagem que se produzem no vínculo terapêutico precisam ser contextualizadas em um quadro social mais amplo.

A aprendizagem se produz na convivência. Não falo de vínculo. A noção de vínculo estabelece uma ideia de dependência. Falo de convivência. Posso viver de muitas maneiras com os outros: posso estar no prazer, no encantamento, no desejo de aproximação, no desejo de distância, mas isso me acontece conforme a mobilidade que tenho.

Ponho uma criança na escola, e vão acontecer coisas a essa criança, quer seus professores, seus colegas queiram ou não; e acontecerão coisas diferentes em cada caso.

O que as crianças precisam, em contrapartida, é de uma relação amorosa para crescer no respeito por si mesmas. Uma criança pode crescer sem respeito por si mesma? Claro que pode crescer sem respeito por si mesma, mas será um adulto diferente daquele que cresce com respeito por si mesmo. Aquele que cresce com respeito por si mesmo verá crescer também sua consciência social e se tornará um ser adequadamente integrado.

O outro será diferente. O curso da humanidade pode ir para um lado ou para o outro; não está prefixado.

Vínculo

A noção de vínculo, que Maturana recusa, instala uma ideia de dependência.

Convivência

É na convivência que se produz a aprendizagem: prazer, encantamento, desejo de aproximação ou de distância, conforme a mobilidade de cada um.

Mídia e dinâmica das relações sociais

Hoje, os meios de comunicação se desenvolveram de um modo inimaginável há poucos anos. Como as dinâmicas das relações sociais mudam em relação às novas tecnologias?

Depende. Nem todas as relações humanas são relações sociais.

Se essas novas dimensões de interação abrem um espaço para o encontro no respeito mútuo, elas ampliam as dimensões de configuração da dinâmica social.

Mas, se elas constituem a abertura de um espaço que não se abre ao encontro no respeito mútuo, mas onde aparece a possibilidade da manipulação, a tentativa de controle — por exemplo com a propaganda —, é outra coisa. A propaganda não é um veículo de comunicação social, é um instrumento de manipulação.

Ao mesmo tempo, mostrar que há algo é uma abertura para o olhar e a reflexão. Depende, portanto, da emoção com que se faz. Se mostro com o objetivo de seduzir, de modo que a outra pessoa consuma um produto meu, faço algo completamente diferente de mostrar para que o outro saiba o que há e aja a partir da sua compreensão e de si mesmo.

Esses sistemas de comunicação, como a Internet, vão modificar os espaços de relação, mas isso dependerá do modo como forem usados. Por exemplo, quando surgiram, há alguns anos, os radioamadores, com o desenvolvimento do rádio, as pessoas se comunicavam, amizades se formavam, acontecia toda uma série de coisas pelas quais as pessoas se comunicavam através do rádio. As pessoas apareciam ali.

Na Internet, as pessoas aparecem? Se as pessoas aparecem, será como no sistema dos radioamadores. Se as pessoas não aparecem, se colocam na Internet para você coisas que você não quer, se se intrometem na sua vida, é outra coisa. Aparecerão a manipulação, a pornografia. A pornografia não tem a ver apenas com sexo; é toda atividade humana usada segundo um critério manipulador e comercial.

Se você toma a arte e a deforma para fins de manipulação e de comércio, transforma-a em pornografia. O problema é que, nesse estágio, não se tem o controle, não se pode dizer não, porque as coisas se introduzem ali.

Desde o nascimento dos meios de comunicação — a televisão em seus primórdios, como algo mais ingênuo, o rádio — até as megacorporações atuais, há um momento de abertura, depois uma reificação…

Bem, depende das tecnologias. Por exemplo, o rádio. Ele começa como um sistema de emissão para o mundo, como uma árvore que lança suas sementes: quem ouve, ouve, e quem não ouve, não ouve. Depois aparecem os radioamadores, que conversam entre si. É outra coisa.

O que a televisão lança ao mundo não é um sistema de encontro com o outro através dela; é um sistema de lançamento, como a planta que lança suas sementes no mundo.

Não interajo com a televisão, não tenho nenhum meio de interagir com ela. Se há encontro entre as pessoas, a nova tecnologia terá um caráter diferente daquele que terá se não houver.

Quando as pessoas se encontram, aparece a dinâmica da biologia do amor. Elas se encontram, conversam, se respeitam ou se rejeitam.

Penso que as tecnologias, por si mesmas, não fazem nada. Somos nós, seres humanos, que usamos as tecnologias. A ênfase nas tecnologias é um erro, ou quase um engano. Porque se fazem, através da tecnologia, promessas que não dependem dela, mas do que as pessoas fazem com a tecnologia.

Para lembrar

Uma tecnologia não faz nada por si mesma: tudo depende da emoção com que se usa. Se as pessoas aparecem nela e ali se encontram no respeito mútuo, o espaço social se amplia; se ela serve para seduzir, manipular, vender, torna-se propaganda — ou, no sentido amplo que Maturana lhe dá, pornografia.

Notas da redação de Perspectivas Sistémicas

Outros artigos do autor em Perspectivas Sistémicas, n.os 2, 3, 31 e 38.

Faz-se referência à entrevista com Gianfranco Cecchin publicada no n.º 43 de Perspectivas Sistémicas (“Os preconceitos sistêmicos”).

O artigo foi publicado em Perspectivas Sistémicas, n.º 47, julho-agosto de 1997.

Quem é Humberto Maturana

Humberto Maturana (1928-2021), biólogo e epistemólogo chileno, é o autor, com Francisco Varela, da teoria da autopoiese. Sua “biologia do conhecer” e sua “biologia do amor” marcaram profundamente o construtivismo e a cibernética de segunda ordem e, através deles, a terapia familiar sistêmica.

Esta entrevista é a tradução para o português de “Conversaciones sobre biología sistémica. Entrevista a Humberto Maturana”, publicada pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 47, juillet-août 1997). Traduzida e republicada com a autorização da revista.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Torrente, F., & Des Champs, C. (2022). Conversas sobre biologia sistêmica. Entrevista com Humberto Maturana (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/conversas-sobre-biologia-sistemica-entrevista-com-humberto-maturana (Obra original publicada em 1997 em Perspectivas Sistémicas, n° 47, juillet-août 1997; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/28/conversaciones-sobre-biologia-sistemica-entrevista-a-humberto-maturana/)

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