Red Sistémica · Migração
As migrações fizeram emergir novas formas de família, as famílias transnacionais, que vivem literalmente de um lado e do outro. Celia Falicov mostra que a perda do migrante não é comparável nem à morte nem a nenhuma outra perda: ela é ambígua, incompleta, sempre adiada. E porque a trajetória migratória é quase vazia de ritos de passagem, ela descreve os rituais espontâneos que os migrantes inventam por conta própria, e depois cinco situações em que esses rituais já não bastam e em que o terapeuta pode coconstruir, com a família, rituais terapêuticos.
“Os rituais nos oferecem uma avenida que liga o concreto ao metafórico, criam pontes entre o passado, o presente e o futuro, e envolvem as contradições implícitas das perdas ambíguas da trajetória migratória.”
Celia Falicov
Os limites e as possibilidades da globalização afetaram todos os países do mundo. Grandes números de pessoas se deslocam de um país a outro, de uma cidade a outra, e do campo para a cidade. As migrações contribuíram para a emergência de novas formas de famílias, as famílias transnacionais, que vivem literalmente de um lado e do outro, fragmentadas, sofrendo desvantagens, e também vantagens, tanto para os membros da família que partem quanto para os que ficam no país de origem. Estes últimos, migrantes por caráter transitivo, frequentemente procuram atendimento, mas como não partiram, não mencionam necessariamente as perdas; os terapeutas, portanto, não pensam com frequência que os sintomas apresentados possam estar ligados às mudanças ocasionadas pela partida de pessoas próximas. Uma família cujo filho, irmã ou sobrinho partiu para um país distante, e cujo cotidiano fica assim alterado, entra — para certas partes da família nuclear ou da família trigeracional — na definição de família transcultural.
Todos os migrantes — os que deixam seu país voluntariamente como os que se veem obrigados a buscar asilo ou refúgio político, os que vêm de lugares próximos como os que vêm de lugares distantes, os homens, as mulheres, os jovens ou os velhos, os ricos ou os pobres — sofrem, em maior ou menor grau, de alguma forma de perda, de pesar ou de luto. A perda ligada à migração tem características particulares que a distinguem de outros tipos de perda.
Quais são essas características?
Diferentemente do fato inalterável da morte, à qual ela foi, creio eu, comparada indevidamente, as perdas do migrante são ao mesmo tempo mais vastas e mais reduzidas. São mais vastas do que a morte de uma pessoa próxima porque a migração acarreta perdas de toda espécie: perda dos parentes e dos amigos que ficam no país de origem, perda da língua materna, dos costumes e dos rituais, da própria terra.
No entanto, a migração é também menor do que a perda completa que é a morte. Comparadas à morte, as perdas da migração não são totalmente claras, completas ou irrevogáveis. Tudo continua vivo, ainda que ausente. Nada desaparece com a finalidade da morte. É sempre possível fantasiar um eventual retorno ou um reencontro futuro. Além disso, os migrantes raramente se dirigem a um vazio social no país estrangeiro. Um parente ou um amigo geralmente espera do outro lado para ajudar com o trabalho, a moradia ou um conselho para essa vida nova. Existem também elementos compensatórios, como a esperança de uma melhora econômica, oportunidades de formação ou novas liberdades políticas, econômicas ou sociais.
Esses elementos criam emoções contraditórias: tristeza e alegria; perdas e restituições; ausência e presença, que fazem com que as perdas sejam incompletas, ambíguas, adiadas e — como já foram chamadas por vezes — da ordem do “luto perpétuo”. Essa ideia não é nova. Já no século XVI, o médico Maimônides notava a doença da “nostalgia”, que produzia numerosos sintomas somáticos e emocionais, e considerava que o único remédio consistia em levar o doente de volta ao seu país natal. Esses mesmos sintomas de palpitações, choro, tiques, tremores e queixas aparecem no migrante do século XXI e, em certas circunstâncias, nos membros da família afetados pela partida. Talvez possamos avançar um pouco na descrição e no tratamento do migrante no contexto transnacional atual. [Nota da redação: a data é a do original; Maimônides viveu no século XII.]
O conceito de “perda ambígua”, proposto pela pesquisadora Pauline Boss (1999) para descrever as situações nas quais a perda é confusa, incompleta ou parcial, é útil para compreender a perda do migrante. Boss descreve dois tipos de perda ambígua.
A migração representa os dois tipos de perda ambígua simultaneamente. De um lado, as pessoas e os lugares amados estão fisicamente ausentes e, ao mesmo tempo, estão vivamente presentes na mente do migrante. De outro, a saudade e o estresse da adaptação podem deixar certos membros da família psicologicamente ausentes, mesmo estando fisicamente presentes.
Para lembrar
A perda do migrante não é assimilável a um luto: ela é ao mesmo tempo mais vasta (recai sobre os próximos, a língua, os costumes, a terra) e menor (nada desapareceu, o retorno continua imaginável). Essa ambiguidade não é uma falha de elaboração: é a própria estrutura da experiência migratória, e vale também para os que ficam.
Talvez em razão dessa qualidade particular de ambiguidade, de inacabamento e de transitoriedade, a trajetória da migração como transição de vida é quase vazia de rituais marcadores, ou de ritos de passagem. Os preparativos que precedem a migração podem ter algumas das características dos rituais — embalar objetos simbólicos (música, fotos, lembranças) —, mas essas práticas são em geral mais pessoais do que coletivas.
Não há estrutura formal, nem lugar nem segmento de tempo especialmente designado para marcar a transição, tentar superá-la e fornecer um continente para as emoções fortes que todos experimentam.
Uma lembrança da autora
Só recentemente me dei conta de que, há muito tempo, nossos amigos na Argentina haviam criado um ritual de despedida para o dia em que meu marido e eu partimos a bordo de um cargueiro mercante, do porto de Buenos Aires em direção aos Estados Unidos. O navio zarpava ao crepúsculo e nossos amigos tinham vindo ao porto nos dizer adeus. Enquanto meu marido e eu já estávamos a bordo e olhávamos para o cais acenando em sinal de despedida, notamos que todos os nossos amigos tinham voltado para seus carros, acendido os faróis e, em caravana solene, avançavam bem devagar seguindo o navio ao longo do cais até onde podiam, e então começaram a buzinar muito alto. Um deles devia ter trazido um megafone, pois cada um saía de seu carro e se aproximava do megafone para gritar:
“Boa sorte, boa sorte, não esqueçam de escrever. Não se percam. Não se façam de importantes e não virem gringos, hein. Não se esqueçam de nós. Não comam hambúrgueres ruins, defendam o bife argentino. Deem um alô a Nova York por mim. Fiquem ricos e mandem dinheiro para cá. Vão mostrar a este nosso país de merda tudo o que a gente pode se tornar. E voltem, hein, não se percam, sério, vamos, voltem!”
Nós dois rimos tanto, no meio de um mar de lágrimas. Aquela despedida no cais ficaria para sempre gravada em nós como a representação das contradições que jamais poderão ser reconciliadas: unir finais a começos; a dor da separação ligada à esperança de um futuro melhor; as amizades que se aprofundam mas que também se enfraquecem…
Sabemos, intuitiva e academicamente, a importância dos rituais como marcadores de transições. Existem, no entanto, transições para as quais nenhum ritual cultural foi criado. Um nascimento interrompido representa um futuro truncado pouco depois de ter começado; um divórcio deixa cada um com o sentimento do que poderia ter sido e não será mais possível. Como no caso da criança adotada, o termo “país de adoção” sugere que algo se passou antes, algo como o mapa de um território futuro que poderia ter sido habitado, mas que não o foi. Essas transições são privadas do benefício emocional que os rituais culturais trazem.
Comparado às outras perdas ambíguas, o que distingue mais dramaticamente a migração é o desenraizamento nos níveis físico, social e cultural. Se usarmos a metáfora da planta arrancada da terra, podemos dizer que, quando se retira uma planta do solo, ela leva consigo não apenas suas raízes, mas também um pouco da terra de origem em torno dessas raízes. O ambiente ecológico — o sol, o ar, a proximidade de outras plantas — não é transportável, mas um pouco de terra, sim. Todo bom jardineiro sabe que não se deve lavar essa pequena quantidade de terra agarrada às raízes, porque é desses nutrientes que depende um menor choque do transplante e, portanto, um transplante mais bem-sucedido.
Bom, dirão vocês, chega de aulas de botânica. E o que isso tem a ver com a perda dos migrantes?
Eu diria que o resíduo de terra que fica colado às raízes e que o migrante transporta consigo é representado por:
Como já disse, não existem rituais estabelecidos para a migração; existem, contudo, certas práticas dos migrantes que vocês reconhecerão quando eu as descrever, e que assumem, creio eu, as proporções de rituais espontâneos. Essas condutas ou práticas nascem talvez daquele pouco de terra do país que os migrantes levam consigo no transplante. E essas práticas espontâneas podem ser interpretadas como formas de lidar com as perdas ambíguas, criando pontes de presença física e psicológica que ajudam a preencher as ausências.
Essas práticas têm qualidades que as aparentam a rituais e, como tais, favorecem a continuidade em meio à mudança. Vejamos quais são essas ações.
Essas ações se transformam em rituais de conexão, com condutas ritualizadas como contatar intermediários em um momento preciso a cada mês, comprar ordens de pagamento bancárias para enviar dinheiro, ir ao correio e obter a confirmação do recebimento do outro lado.
Os que ficam também criam rituais de conexão, enviando cartas, fotos ou mensagens aos que emigraram. Os sentimentos dos que ficam tampouco são desprovidos de ambivalência. Emocionalmente, sentem falta do irmão ou da irmã migrante, ou da mãe ou do pai ausente; mas também não desejam um retorno rápido demais, pois esse retorno alteraria a solvência econômica de toda a família.
Pesquisas recentes ressaltam que os migrantes que cortam os laços, que se desligam e desritualizam as conexões manifestam mais sintomas clínicos do que as famílias que mantêm conexões.
Nas cidades onde vivem os migrantes, encontram-se comunidades étnicas (o bairro judeu ou coreano, a colônia libanesa ou cubana, a rede argentina). Essas paisagens e práticas urbanas reproduzem, no espaço público, os cheiros, os sons, as imagens, os sabores e as línguas do povoado natal. As feiras de domingo, em muitas cidades dos Estados Unidos, reproduzem com fidelidade os lugares de encontro do passado para muitos grupos étnicos — sem dúvida para os mexicanos do Texas e da Califórnia (Ainslie, 1998).
Essa recriação ritualizada e coletiva, que representa e transporta momentaneamente para o espaço cultural conhecido, pode ser vista como um retorno psicológico, um ritual de luto e de reencarnação, uma espécie do que Winnicott chamou de espaço potencial ou objeto transicional, suspenso entre a fantasia e a realidade. Esses cenários transportáveis parecem dizer que fingir estar em casa vale mais do que não estar em casa de modo algum.
Essas ações poderosas não ajudam apenas a restabelecer laços com a terra perdida: elas também transformam as culturas que acolhem os migrantes em lugares mais familiares, menos estranhos, mesmo que a cultura dominante esteja sempre presente no tipo de moeda, no custo das coisas, nos produtos ou na mistura das línguas.
As pesquisas mostram que a ausência de contato com as redes sociais étnicas e com os espaços culturais que essas redes tornam possíveis está correlacionada a sintomas de depressão nas mulheres e a um aumento da violência nos homens.
Todos sabemos que os migrantes gostam de falar de seu país, de contar os detalhes da saga de sua migração, de falar sua própria língua, de empregar os velhos provérbios, de repetir as anedotas e os costumes de seu país de origem. Eles também gravitam em torno de grupos de compatriotas com os quais podem falar sua língua e comparar impressões, idealizar, denegrir ou queixar-se de um país ou de outro, como se examinassem e digerissem os novos e os antigos valores, regras ou costumes.
Seria um erro pensar que contar histórias de seu país é algo pitoresco ou complacente; é provável que essa atividade sirva para criar uma narrativa do passado e para investir de sentido as mudanças inevitáveis. Mais ainda, contar histórias constrói pontes de memória com os filhos que crescem em outro país.
O importante trabalho sobre os rituais de Evan Imber-Black, Janine Roberts e Richard Whiting (1988) nos informou sobre o poder que os rituais tradicionais têm de preservar a continuidade, a identidade familiar e o vínculo comunitário. Para muitos migrantes, os rituais culturais podem ser praticados de maneira bastante fiel, mas também podem refletir aos poucos significações mutáveis e ambiguidades que exprimem e comparam estilos de vida duplos ou híbridos, tais como ser aculturado e étnico ao mesmo tempo.
Um dos aspectos culturais que os migrantes levam consigo são as celebrações dos ritos de passagem: casamentos, batizados, aniversários, funerais. Às vezes insistem em celebrar rituais mesmo quando estes já não refletem os valores culturais da família — algo como o que os antropólogos chamam de “rituais vazios”, porque as práticas continuam mas as significações originais se apagaram. Creio, no entanto, que, no caso dos migrantes, devemos evitar falar de rituais vazios, pois a prática ritual pode ser uma forma positiva de afirmar o passado da família e de seu grupo étnico de pertencimento.
As refeições em família, os jogos, as maneiras de se vestir, de cuidar da higiene, de manter a casa, as formas de saudação: outros tantos rituais regrados, quase automáticos, que refletem o que é conhecido no espaço privado do lar, mas que também incorporam progressivamente diferenças — o uso de novos produtos, o fato de assistir a novos programas de televisão, o interesse por novos esportes.
Mesmo que os migrantes não possam transportar consigo os elementos concretos de seu ambiente físico e social, significações mais internas, como os sistemas e as práticas de crença religiosa, gozam de grande transportabilidade. O mais transportável talvez seja a oração. Ir à missa ajuda a uma continuidade quase eterna, mas comporta também elementos de novidade: frequentar as igrejas do país de adoção e ligar-se a uma nova comunidade religiosa, de características semelhantes mas não idênticas.
As crenças culturais e os rituais indígenas relativos à saúde, à doença e à cura também persistem, paralelamente à aceitação das práticas médicas modernas, em muitos migrantes.
Em suma, os rituais cumprem uma série de funções — e, se não funções, talvez efeitos — que contribuem para a continuidade e a identidade da família, e que parecem contribuir para a resiliência das famílias em transição.
É importante que os terapeutas indaguem sobre a existência de rituais espontâneos na vida dos migrantes, incluindo a continuidade de práticas rituais ou a emergência de novos rituais espontâneos nas pessoas que ficaram em famílias fragmentadas pela partida de alguns entes próximos. Mais ainda, uma presença muito pobre ou muito exagerada dessas práticas rituais espontâneas, tanto nos que ficaram quanto nos que partiram, pode indicar adaptações familiares que problematizam as perdas ambíguas da migração em vez de aprender a viver com essas perdas.
Qual é a teoria da adaptação à migração implicada nesse ângulo de observação?
Os rituais espontâneos do migrante podem ser vistos como tentativas de abraçar a perda ambígua e de encontrar sentido na nova situação, recuperando o que é possível recriar e conseguindo talvez, assim, manter aquilo que os pesquisadores da resiliência familiar chamaram de “senso de coerência”.
O conceito de “senso de coerência” foi desenvolvido por Aaron Antonovsky (1987) e utilizado por Froma Walsh (1998) em seu trabalho sobre a resiliência familiar. É uma busca de coerência narrativa, ou de produção de sentido da história de nossas vidas. Está ligada à nossa capacidade de nos adaptarmos à mudança, mas também de manter uma continuidade suficiente com a cultura de origem.
É talvez por isso que vemos, no campo dos estudos migratórios, um abandono progressivo dos modelos lineares de aculturação e de assimilação, e uma insistência crescente nas noções de biculturalismo e de bilinguismo, no hífen que separa ao mesmo tempo que une as duas identidades: “Mexican-American, African-American, Chinese-American”. Em vez de viver “entre” dois mundos, o migrante resiliente adquire a capacidade de viver “em” dois mundos, alternando língua e costumes e aceitando o binacionalismo e a identidade dupla. A aceitação de uma biculturalidade permanente é talvez a outra face da aceitação da perda ambígua. Os rituais espontâneos dos migrantes encapsulam esse “both/and” (os dois ao mesmo tempo) que consiste em reencontrar o conhecido em meio à mudança.
A manutenção dessa dualidade não está, contudo, ao abrigo dos fatos históricos. Diante de ataques tão trágicos quanto os de 11 de setembro em Nova York e em Washington, um patriotismo autenticamente sentido surgiu nos grupos de migrantes, misturado talvez também ao temor de ser olhado com suspeita como o de fora. Assim, alguns migrantes mexicanos preferiram sublinhar o lado “American”, à direita do hífen de Mexican-American, em vez do lado Mexican, à esquerda. Até mesmo aquele funcionário de posto de gasolina de sobrenome latino, no Arizona, que, tendo matado a tiros um muçulmano uma semana depois da tragédia, declarou tê-lo feito para “defender o meu país contra os estrangeiros”. Num momento de crise, é possível que uma sociedade composta de migrantes ponha em primeiro plano processos destinados a reforçar a unidade nacional, em vez da diversidade e da lealdade étnica, como foi sublinhado nos Estados Unidos ao longo das duas últimas décadas. As consequências psicológicas desse tipo de assimilação brutal se verão sem dúvida nas gerações futuras.
Não devemos, portanto, romantizar nem simplificar a resiliência dos migrantes, nem subestimar os riscos e o estresse da migração para os que partem, para os que ficam e para os que vão e vêm, que são numerosos. Os migrantes estão expostos a múltiplas circunstâncias históricas e pessoais que modificam a experiência da perda ambígua.
A conversa terapêutica ganha em recolher os fatos, as motivações e as expectativas que precedem a migração, assim como uma narrativa da realidade encontrada, esperada e inesperada, do que se passou durante a própria passagem e durante a estada atual.
Essa narrativa da migração é útil tanto para as pessoas que emigram quanto para os próximos que ficam.
Examinemos agora várias situações que tornam particularmente difícil a possibilidade de viver com as perdas ambíguas.
Existem numerosas situações que complicam as reações à migração, mas vou me ater a cinco construções, oriundas de minhas observações clínicas, com a intenção de sublinhar as diferenças que fazem a diferença entre as diversas experiências de migração e de perda ambígua. Existem seguramente outras situações a descrever, mas utilizo as seguintes para mostrar que os rituais que emergem espontaneamente podem ser insuficientes para restabelecer um senso de coerência narrativa nas situações complexas que a vida do migrante pode reservar.
Para essas situações, proponho o uso de rituais terapêuticos que, em sua especificidade, serão cocriados pela família em colaboração com o terapeuta.
As categorias gerais de situações e de intervenções são as seguintes.
A migração nem sempre é um processo de decisão democrática. Há frequentemente uma linha sutil de gênero e de geração que marca as diferenças entre as migrações de iniciativa voluntária e as que ocorrem pela persuasão de uma pessoa sobre outra. Entre os persuadidos mas não convencidos encontram-se as crianças, as mulheres que seguem o marido a muito custo (mesmo que às vezes seja o inverso) e as pessoas idosas que atendem ao chamado dos filhos, seja para ajudá-los, seja para serem ajudadas. Esses indivíduos, que se sentem privados de iniciativa, geralmente têm mais dificuldades de adaptação do que os que decidem ativamente emigrar, e são encontrados com mais frequência nos atendimentos com sintomas de depressão, de ansiedade ou de somatização.
Entram também nessa categoria as situações de decisão precipitada, geralmente por causa de uma oferta difícil de recusar ou de um acontecimento inesperado, como a morte do cônjuge em uma pessoa idosa. Há, de um lado, uma falta de preparação e, às vezes, ambivalência naqueles que acolhem o migrante em sua chegada.
A terapia pode ser facilitada pelo uso de rituais antecipatórios, “como se” a pessoa se preparasse de antemão para o que pode acontecer com a migração, de tal modo que aquela que se sentiu coagida disponha pela primeira vez do poder, do empoderamento necessário para explorar os parâmetros da migração e os projetos de futuro. Dessa forma, mesmo que não seja possível modificar a decisão inicial, abre-se a possibilidade de falar sobre ela e até de mudá-la, como se verá no exemplo seguinte.
Vinheta clínica
Uma paciente de 24 anos foi encaminhada por ideação paranoide. Ela havia chegado recentemente a San Diego, vinda de Michoacán, onde seu novíssimo esposo, que conhecera por correspondência, fora buscá-la. Em suas cartas de amor, o jovem marido esquecera de lhe assinalar um pequeno detalhe: os dois recém-casados deveriam viver, como ele sempre fizera, com a mãe e as três irmãs solteiras dele. Desnecessário dizer que elas tornaram a vida impossível para a pobre jovem. Imaginem: recém-casada, recém-emigrada, e tendo de lidar com uma sogra e cunhadas que não a querem ali.
No curso da terapia de casal, criamos um ritual de preparação que consistia em comprar um calendário, virar suas páginas para trás e recomeçar desde o início do noivado. O marido devia escrever cartas todas as semanas, nas datas do ano anterior, e enviá-las pelo correio. Dessa vez, acrescentaria mais detalhes, e sua nova esposa faria mais perguntas sobre seus projetos relativos à moradia e às relações familiares. O ritual da troca de cartas já havia sido frutífero entre eles; agora acrescentava elementos de comunicação mais aberta, com uma melhor compreensão das expectativas mútuas quanto à estrutura da nova família e aos significados dessa situação para cada um num futuro compartilhado.
As migrações comportam por vezes passagens traumáticas. Muitas mulheres (e alguns homens) são estupradas ou roubadas na travessia da fronteira, ou exploradas em sua chegada por patrões sem escrúpulos. O sonho da migração é substituído por pesadelos, traumatismo, horror e uma imensa desilusão. Os ataques de pânico, os sentimentos de culpa e de vergonha, ou outros sintomas de estresse pós-traumático são frequentes. O medo perpétuo de ser identificado corrói os migrantes sem documentos. O encontro com o racismo e o classismo que existem em relação às pessoas pobres e às pessoas negras, em matéria de emprego, de acesso aos cuidados ou aos outros serviços sociais, complica uma migração começada no desejo de se sentir mais poderoso e menos estressado.
O uso do ritual de testemunho, que todos conhecemos pelo trabalho com os refugiados da América Central, com sua ênfase numa narrativa em primeira pessoa, oral e escrita (frequentemente sob ditado, anotada pelo terapeuta), documenta a história do quando, do onde e do como as injustiças e os abusos foram cometidos. Para que se qualifique como ritual terapêutico, esse testemunho deve ser contado repetidas vezes, acrescentando a cada vez mais detalhes. Validando e extraindo dessa narrativa os elementos positivos que impulsionaram a viagem, a pessoa vitimizada pode reencontrar alguns dos objetivos iniciais e talvez a esperança de um novo começo, e até certo ponto o “senso de coerência” de sua vida. O testemunho é também uma técnica útil para o trabalho com os membros da família traumatizados pelos mesmos acontecimentos, por caráter transitivo, mesmo que não tenham migrado.
A ambiguidade implícita na experiência da migração apodera-se por vezes, por assim dizer, do psiquismo da família. Os membros da família, e particularmente do casal, dividem-se e atribuem-se os polos opostos da ambiguidade. Um se identifica com o desejo de ficar e o outro com o desejo de partir; ou um idealiza o novo lugar e o outro o denigre; um exprime otimismo, o outro mergulha no pessimismo. A dúvida perpétua do migrante não é “ser ou não ser”, mas o perpétuo “partir ou não partir”.
Esses impasses geralmente resultam em escaladas, sobretudo se o terapeuta comete o erro de tentar resolver a questão de partir ou de ficar. Terapeuticamente, achei útil a prescrição de um período de moratória de três ou seis meses, que prescreve permanecer precisamente no limbo, sem saber qual será a decisão final, mas utilizando nesse meio-tempo, como prática, um ritual de oscilação, semelhante aos dias pares e ímpares de Mara Selvini Palazzoli. Às duas pessoas polarizadas sugere-se pensar, sentir e agir juntas como se ficassem no país de adoção nos dias pares. Nesses dias, elas devem aprender inglês, fazer novas amizades, ligar-se à escola dos filhos, ao bairro, à igreja, ou comprar uma poltrona, como se ficassem. Em compensação, nos dias ímpares, ambas devem agir como se voltassem para seu país de origem. Devem economizar para o retorno, comunicar-se com seus familiares e reconectar-se emocionalmente, informar-se sobre eventuais empregos, sobre a moradia, e manter-se a par da situação política atual de seu país.
Ancorar a ambivalência em ações alternadas mas conjuntas dá ao casal polarizado um sentimento de poder, de controle e de colaboração, em vez de competição, quanto às suas opções. Dessa forma, a empatia por cada posição aumenta. Outra vantagem do ritual de oscilação é a criação de um clima de ensaio de competências que não serão inúteis para nenhuma das decisões futuras. Essa mobilização suplanta o clima de paralisia que as polarizações rígidas criam.
As migrações implicam frequentemente separações no interior da família nuclear. Muitas vezes, uma mãe ou um pai deixa os filhos com parentes para poder enfrentar a travessia sem documentos, em razão de restrições econômicas ou da falta de ajuda para a guarda das crianças. Essas famílias transnacionais, com uma parte lá e outra aqui, sofrem com frequência separações múltiplas, às vezes ao longo de períodos de vários anos durante os quais se criam novos vínculos com pessoas que cuidam das crianças e com a família ampliada, e depois, eventualmente, novas separações ou reencontros (Suárez-Orozco, C., no prelo).
As partidas e os reencontros colocam todos os subsistemas da família trigeracional, aqui e lá, em situação de perda ambígua, o que cria uma falta de clareza sobre quem está dentro ou fora da família, e uma falta de clareza sobre quem cumpre qual função ou qual papel. Esse fenômeno foi chamado por Pauline Boss de “fronteiras familiares ambíguas”. Quando o homem parte, a mulher torna-se chefe de uma família monoparental; quando a mãe parte, a avó ocupa o lugar da mãe; mas, mais importante ainda, pedaços inteiros de história pessoal já não podem ser compartilhados.
Numerosos problemas estruturais, emocionais e psicossomáticos aparecem no período dos reencontros, que pode corresponder ao retorno ao país natal.
Entre os rituais terapêuticos úteis figura a construção de uma narrativa de atualização dos acontecimentos ocorridos durante a separação, de um lado e do outro da família transcultural.
Por exemplo, com crianças separadas de seus pais, pode-se construir uma narrativa sob a forma de um conto infantil que comece assim: “Era uma vez um menino que se chamava Juan Chávez Sandoval… Quando Juan tinha 3 anos, seus pais tiveram de partir para a Califórnia… quando Juan tinha seis anos, foi morar com seus pais.” Os fatos ocorridos durante os três anos de separação podem ser descritos assim: “Juan morou com sua avó em tal casa e tal escola, enquanto seus pais trabalhavam em tal e tal lugar…”, e continua-se assim a contar as histórias de um lado e do outro (feedback) até chegar ao presente — e até incluir ideias de futuro (um feedforward), em que a família planeja as atividades que deseja realizar junta como unidade familiar reintegrada. O registro por escrito dessa história pelo terapeuta, que a lê e relê, pode ser completado com desenhos, fotografias ou objetos que integrem o passado ao presente e reforcem os vínculos para todos (Falicov, C., 1998).
Não há dúvida de que as mudanças da vida seguem seu curso paralelamente à migração para as famílias de migrantes: nascimentos, mortes, casamentos marcam transições na família. Em certos casos, essas mudanças produzem novas perdas ambíguas, como o divórcio, ou novas perdas não ambíguas, como a morte de um membro da família, que vêm se acumular sobre as perdas da migração. No caso da morte súbita de um pai no país de origem, por exemplo, a qualidade provisória da partida e as possibilidades sempre adiadas de retorno acentuam os sentimentos de culpa e a impossibilidade de reparação, e frequentemente a impossibilidade de participar do luto coletivo. Nesses momentos, o migrante talvez questione mais uma vez a sabedoria de sua decisão de emigrar e se pergunte onde se encontra realmente seu lugar de pertencimento.
Os rituais terapêuticos de cura podem incluir a criação de cerimônias equivalentes no país de adoção: em caso de falecimento e de impossibilidade de reunião familiar, por exemplo, podem-se sugerir rituais como missas, a criação de altares privados com velas, fotos, flores e objetos do falecido, ou o convite para essa cerimônia de um membro do país de origem que esteja aqui ou lá; ou ainda criar um ritual de conexão com a família da pessoa falecida, ou qualquer forma de mensagem que simbolize a possibilidade de que o amor seja, na realidade, transnacional.
Em suma, podemos ligar os rituais espontâneos e os rituais terapêuticos, porque ambos:
Concluirei com um resumo das etapas sugeridas para o trabalho terapêutico:
Onde quer que estejamos, todos fazemos parte de um mundo quase sem fronteiras. A imigração é um dos temas centrais da globalização no século XXI. Nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, os hospitais, os centros de atendimento e os consultórios privados tornaram-se lugares de encontro intercultural entre profissionais e clientes. As famílias funcionam cada vez mais em espaços transnacionais. Para podermos nos tornar interlocutores eficazes, devemos refletir sobre nossas próprias experiências de migração ou de mudança de casa, e sobre nosso próprio uso de rituais espontâneos ou inventados — como o ritual da própria psicoterapia. Pois os rituais nos oferecem uma avenida que liga o concreto ao metafórico, criam pontes entre o passado, o presente e o futuro, e envolvem as contradições implícitas das perdas ambíguas da trajetória migratória.
Muito obrigada, e paz a todos.
Notas do original
(*) Trabalho apresentado no VIII Congresso nacional de terapia familiar da Asociación Mexicana de Terapia Familiar, em 5 de outubro de 2001, e em uma conferência organizada pelo CEFYP, em Buenos Aires, em 10 de novembro de 2001.
Este artigo foi publicado no n° 69 da Perspectivas Sistémicas, novembro-fevereiro de 2001/2002.
Quem é Celia Falicov
A Dra Celia Falicov, Ph.D., é Clinical Professor na universidade de San Diego, na Califórnia (Estados Unidos), e Visiting Professor na Tavistock Clinic de Londres. Ela também concedeu à Perspectivas Sistémicas uma entrevista sobre as intervenções comunitárias.
Este artigo é a tradução para o português de “Migración, perdida ambigua y rituales”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 69, novembre 2001-février 2002). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Falicov, C. (2022). Migração, perda ambígua e rituais (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/migracao-perda-ambigua-e-rituais (Obra original publicada em 2001 em Perspectivas Sistémicas, n° 69, novembre 2001-février 2002; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/29/migracion-perdida-ambigua-y-rituales/)
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