Journal of Solution Focused Practices · Debate

Narrativas de singularidade ou de semelhança e conexão: resposta a Korman, De Jong e Smock Jordan

Em 2020, o Journal of Solution Focused Practices publicou um artigo intitulado Steve de Shazer’s Theory Development. Ele percorria toda a carreira de de Shazer, que os autores dividiam em quatro fases, e dela destilava seis axiomas que consideram fundadores do pensamento e da prática de de Shazer. No comentário desses seis axiomas há uma ênfase considerável na singularidade da TBFS, que os autores fazem questão de estabelecer como diferente, em cada um de seus aspectos fundadores, da maioria das outras terapias, senão de todas. Este artigo responde a esse aspecto particular do texto deles. Ele sugere que, ao comparar as abordagens do campo, é possível construir tanto narrativas de singularidade quanto narrativas de semelhança e conexão; e apresenta algumas razões para desenvolver mais estas últimas.

Autor Guy Shennan, The Solution-Focused CollectivePrimeira publicação Journal of Solution Focused Practices, 2021Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Narratives of Distinctiveness or Similarity and Connection – A Response to Korman, De Jong, and Jordan’s Steve de Shazer’s Theory Development, de Guy Shennan, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021), doi: 10.59874/001c.74984, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido, rediagramado, provido de intertítulos que o original não tinha, com suas três notas reunidas no fim do artigo e acrescido de links para outros artigos deste site — o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelo autor nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

É essa importância aparentemente dada ao estabelecimento da TBFS como singular que desejo questionar.

Guy Shennan

Um clássico instantâneo, lido num contexto particular

Creio que o artigo sobre o desenvolvimento do pensamento teórico de Steve de Shazer recentemente publicado nesta revista (Korman et al., 2020) se tornará um clássico instantâneo. Tive grande prazer em lê-lo, tanto que o li duas vezes em rápida sucessão (a outra razão dessa segunda leitura, para além do simples prazer, virá logo adiante). Steve de Shazer deixou uma obra considerável, quando se somam a seus livros todos os seus artigos e comunicações (de Shazer, 1982, 1985, 1988, 1991, 1994; de Shazer et al., 2007) e, embora ela recompense uma leitura atenta, não é realista supor que a maioria dos praticantes focados nas soluções, ou das outras pessoas interessadas, encontrará tempo para lê-la por inteiro. E, mesmo que alguém o fizesse, discernir nessa massa e dela destilar uma exposição coerente da elaboração teórica de de Shazer já é outra história. Devemos, portanto, gratidão aos autores deste artigo por sua exposição coerente e convincente.

Reli o artigo porque ele foi escolhido como foco do primeiro encontro de 2021 do grupo de leitura do Solution-Focused Collective. Esse contexto me levou a ler — ou a ler mal, como de Shazer (1991, 1993) talvez tivesse dito, seguindo os desconstrucionistas — o artigo de uma maneira particular, que influenciou minhas contribuições no grupo de leitura. Um traço do artigo me saltou aos olhos nessa segunda leitura, e escrevi esta resposta apenas a respeito dele. Um dos grandes legados de de Shazer foi a importância que dava à conversa, não só ao ver a terapia como conversa, mas ao incentivá-la dentro da comunidade focada nas soluções. Espero que esta resposta ajude a desenvolver uma conversa e que outras conversas se desenvolvam a respeito de outros aspectos do artigo. Por exemplo, a continuidade que ele mostra no pensamento de de Shazer parece-me atravessar as noções de uma TBFS 1.0 e 2.0 aventadas nos últimos anos (McKergow, 2016).

O aspecto do artigo que vou explorar e ao qual vou responder aqui diz respeito, de um lado, à medida em que a terapia breve focada nas soluções (TBFS) é singular em relação às outras terapias da fala e às outras abordagens de ajuda e, de outro, aos modos como ela se assemelha a essas abordagens; bem como aos efeitos possíveis de escrever e falar dela como singular, como semelhante, ou como ambas as coisas. Vou compartilhar uma ideia que se formou à medida que li, pensei e discuti o assunto: a partir do mesmo material, é possível construir narrativas de diferença ou narrativas de semelhança e conexão, e essas narrativas diferentes terão efeitos diferentes.

O que desejo questionar

Dentro das quatro fases da elaboração teórica de de Shazer, os autores1 destilam seis axiomas que propõem serem “fundadores de uma compreensão da TBFS” (p. 472). Acrescentam que, sendo fundador de uma compreensão da TBFS, cada axioma “contribui para distinguir a TBFS das outras terapias da fala”. Quando ensino o foco nas soluções3, ocasionalmente o contrasto — a ele, ou a alguns de seus aspectos — com outras abordagens, acrescentando invariavelmente o que me parece uma ressalva importante: ao fazer isso, não estou dizendo que ele seja melhor do que as outras abordagens, apenas que é diferente, e que o contraste pode ajudar a fazer sobressair o que ele tem de singular. Em outras palavras, às vezes recorro a uma narrativa de singularidade, no contexto de ajudar as pessoas a aprender a abordagem. E, sempre que faço isso, pergunto-me o quanto é necessário. De todo modo, como meus contrastes visam a facilitar a compreensão da abordagem, eles são um meio a serviço desse fim, ainda que um meio pouco usado. Neste artigo, esses meios e esses fins às vezes parecem invertidos, como se vê no resumo: “uma compreensão da TBFS… contribui para distinguir a TBFS das outras terapias da fala” (p. 47). É essa importância aparentemente dada ao estabelecimento da TBFS como singular que desejo questionar.

Um desvio: como se constroem as narrativas

Antes de examinar como isso é feito, permitam-me um desvio pela ideia de construção de narrativas e pelo modo como se podem criar narrativas diferentes. Encontra-se um enunciado claro disso na pena do próprio de Shazer. Na fase 4 de sua elaboração teórica (Korman et al., 2020), de Shazer começou a falar das conversas de terapia como histórias ou narrativas (de Shazer, 1991, p. 91). Ao considerar as narrativas desenvolvidas nas conversas de TBFS, apoiou-se nos trabalhos de Gergen e Gergen (1983, 1986), segundo os quais há três tipos de narrativa disponíveis para descrever e avaliar a vida das pessoas: as narrativas progressivas, que retratam as pessoas como caminhando numa direção preferida; as narrativas de estabilidade, que mostram a vida como imutável; e as narrativas regressivas (de Shazer preferia dizer digressivas), nas quais as pessoas se afastam de seus objetivos (de Shazer, 1991, p. 92). Segundo essa visão, a conversa de terapia não explora uma realidade externa cujo sentido já teria sido fixado de antemão e estaria à espera de ser descoberto na terapia: ela desenvolve uma narrativa construída em conjunto pelo terapeuta e pelo cliente. Os terapeutas focados nas soluções procuram construir narrativas progressivas, como de Shazer (1994, p. 135) deixa claro a propósito das finalidades de uma sessão de acompanhamento focada nas soluções, entre as quais está “construir o intervalo entre as sessões como tendo incluído alguma melhora” (grifo acrescentado). O mesmo ponto emerge nitidamente no relatório do estudo seminal sobre a “fala de mudança” (Gingerich et al., 1988), em que o passo decisivo foi trazer a “construção da mudança” (grifo acrescentado) para dentro da sessão inicial.

Fica claramente implicado que outras narrativas poderiam ser construídas além das progressivas, típicas das conversas focadas nas soluções. Parece evidente, por exemplo, que o intervalo entre duas sessões quaisquer, para qualquer cliente, poderia ser construído como tendo incluído algum problema, ou algo que não combina com a direção preferida do cliente naquele momento. Como sabemos, a partir de nossa crença na existência das exceções, nada acontece sempre (de Shazer, 1985, p. 161, 1988, p. 52); portanto a “melhora” não terá acontecido continuamente entre as sessões, tanto quanto os problemas também não. Gergen e Gergen ofereceram uma tipologia de três narrativas para descrever e avaliar a vida das pessoas. Eu gostaria de sugerir, a título de hipótese, uma tipologia de narrativas para comparar coisas — por exemplo, maneiras de fazer terapia — que incluiria igualmente três tipos de narrativa: uma narrativa de singularidade; uma narrativa de semelhança, ou de conexão; e uma narrativa de semelhança-e-diferença.

Axiomas 1 e 2: a conversa observável e a unidade mínima

O artigo sobre a elaboração teórica de de Shazer desenvolve desde o início uma narrativa que destaca a singularidade da TBFS, e isso é enfatizado em particular na apresentação de cada um dos seis axiomas. Vou considerá-los um a um. Sob o primeiro — A terapia é um processo interacional observável, isto é, uma conversa (p. 50) —, os autores afirmam que de Shazer “começa a distinguir claramente seu foco teórico do das terapias que se centram no que se passa dentro do cliente, que não é observável, e que não se centram na interação cliente-terapeuta” (p. 50, grifo acrescentado). Ora, o mesmo ponto, quanto ao que de Shazer está fazendo aqui, poderia igualmente ser formulado dentro de uma narrativa de conexão, que poderia incluir o seguinte: “ele começa a aliar claramente seu foco teórico ao daquelas terapias que se centram nas interações cliente-terapeuta, e não no que se passa dentro do cliente e não é observável” (grifo acrescentado). Seria difícil afirmar que de Shazer foi o único a centrar-se nas interações cliente-terapeuta e, de fato, os autores não o afirmam em seu comentário do axioma 1.

Um exemplo de outra abordagem conversacional da terapia, familiar a muitos praticantes focados nas soluções, foi desenvolvido por Harlene Anderson e Harold Goolishian, que cofundaram o Houston Galveston Institute em 1978 — o mesmo ano em que, por coincidência, Steve de Shazer, Insoo Kim Berg e seus colegas fundavam o Brief Family Therapy Center. Num capítulo de uma coletânea dedicada às abordagens construcionistas sociais da terapia, Anderson e Goolishian (1992) referem-se à sua terapia como tendo evoluído ao longo dos vinte e cinco anos anteriores, o que cobriria a totalidade das três primeiras fases da elaboração teórica de de Shazer. Imagino que os leitores desta revista conheçam menos o modelo conversacional do psicoterapeuta britânico Robert Hobson, cujo livro de 1985, Forms of Feeling, expõe a abordagem eclética da terapia que ele vinha desenvolvendo ao longo dos trinta anos anteriores. Seria fácil criar uma narrativa de singularidade contrastando o modelo conversacional com a TBFS, mas há também semelhanças maravilhosas, não menos por causa da simplicidade da abordagem de Hobson e de sua insistência em que “o terapeuta está sempre envolvido numa situação de duas pessoas” (Hobson, 1985, p. 202).

Esse comentário é interessante à luz do segundo axioma que os autores propõem para a teoria de de Shazer: A unidade mínima de análise é o terapeuta em interação com o cliente no contexto da terapia. Essa unidade não pode ser subdividida (p. 51). Hobson talvez esteja dizendo algo semelhante. Os autores fazem um comentário ousado sob o axioma 2: “Com esse axioma, uma fronteira clara foi traçada em relação a basicamente todas as outras teorias do campo” (p. 51). O sentido da palavra “basicamente” nessa frase não é claro; pode ser que se destine a qualificar o “todas” que vem em seguida, no sentido de “a maioria” ou de “talvez todas”. Penso que essa qualificação seria sensata, pois há sempre a chance de existirem teorias ou modelos de que não se tem conhecimento.

Já existe ao menos uma narrativa de semelhança e conexão que postula similaridades entre a TBFS e a terapia centrada na pessoa de Carl Rogers (Hales, 1999). Uma das “condições básicas” da terapia centrada na pessoa é a empatia, e já se sugeriu que os terapeutas breves focados nas soluções não se interessaram muito por ela (Turnell & Lipchik, 1999). Pode-se pensar a empatia como algo que o terapeuta possui ou, de modo mais comportamental, como consistindo em respostas do terapeuta ao cliente. No entanto, duas figuras britânicas de destaque da terapia centrada na pessoa descrevem-na de uma maneira que parece conectá-la ao axioma 1, como um processo interativo que “deve levar em conta não apenas a resposta verbal do conselheiro e o modo como ela é percebida pelo cliente, mas também a sequência de interação que conduziu a essa resposta” (Mearns & Thorne, 2007, p. 70).

Axioma 3: a mudança e o que me levou ao foco nas soluções

Passando ao terceiro axioma proposto pelos autores — A mudança é a finalidade do encontro entre terapeuta e cliente (p. 54) —, sinto-me tentado a iniciar outra conversa, ou antes a nela reentrar, dadas as reflexões que apresentei na Theory of Solution-Focused Practice produzida pela European Brief Therapy Association (Sundman et al., 2020, p. 101-109). Sustentei ali a visão de que o foco nas soluções é “um processo que tem a esperança em seu centro… e não a mudança” (p. 107). Mas aquela era uma visão minha, ao passo que estes axiomas dizem respeito à teoria de de Shazer; e, de toda forma, não é esse o objeto desta resposta. Ao voltar a isso, dou-me conta de que, para sustentar meu argumento, estou eu mesmo construindo uma narrativa de diferença entre os autores e eu. Preciso tomar cuidado! Em seu comentário do axioma 3, os autores destacam que os terapeutas focados nas soluções “não se interessam pelo problema nem pelas causas do problema” e referem-se às “enormes diferenças que isso acarreta na prática, em comparação com quase todo o resto do mundo da psicologia e da psiquiatria” (p. 54). Um dos traços da TBFS que mais singular me pareceu, e que mais me entusiasmou quando me formei nela pela primeira vez, foi justamente esse desinteresse pelo problema. Ao mesmo tempo, não eram tanto as “enormes diferenças” de prática daí decorrentes que me entusiasmavam, mas o apoio que isso me dava para praticar do modo como eu queria. Talvez isso tenha a ver com o fato de eu não vir do mundo da psicologia ou da psiquiatria, e sim do serviço social. Há muito se travam debates sobre se deve estar no centro do serviço social a avaliação ou o esforço de mudança; e, como assistente social na proteção à infância, eu havia redigido um documento interno defendendo uma mudança de abordagem para minha equipe, que nos faria deslocar o equilíbrio da avaliação para a mudança. O que precisávamos era de um modelo e de um conjunto de competências que nos permitissem fazer isso, e foi o que a TBFS me proporcionou e, por extensão, à minha equipe.

Daí vem uma das principais razões pelas quais penso que pode haver efeitos benéficos em desenvolver, ao menos em parte ou ao menos em certas ocasiões, uma narrativa de semelhança e conexão para a TBFS. Como formador, sugiro com frequência a quem está aprendendo a abordagem que procure os modos como ela se ajusta às suas maneiras preferidas de trabalhar. Há para isso pelo menos duas razões. Primeiro, é provável que as pessoas formem uma boa impressão da abordagem no primeiro contato se enxergarem conexões com as maneiras de trabalhar de que já gostam. Segundo, adaptar e integrar a abordagem ao que fazem pode ser uma tarefa difícil para muitos aprendizes, sobretudo para aqueles cujo contexto de trabalho não é tão simples quanto a terapia — ao menos para o uso do foco nas soluções. Parece, portanto, sensato procurar onde ela vai se encaixar, em vez de onde poderia destoar, em relação às abordagens preexistentes. Foi o que aconteceu no meu caso. Além de se ajustar ao meu desejo de me centrar mais na mudança e menos na avaliação, a TBFS também se conectava com minhas abordagens preferidas do serviço social. Em particular, o serviço social centrado na tarefa havia sido desenvolvido como alternativa breve ao trabalho social de casos tradicional (Reid & Shyne, 1969; Reid & Epstein, 1972) e, durante minha formação em serviço social, eu havia sido atraído por sua condução pelo cliente, seu foco em objetivos e sua ausência de teoria esotérica. Não sou o único a fazer conexões entre o trabalho centrado na tarefa e a prática focada nas soluções. Num relato de uma abordagem focada nas soluções aplicada ao ensino da prática em serviço social, Bucknell (2000) discute tanto semelhanças quanto diferenças. No manual britânico de referência sobre a prática centrada na tarefa, dois de meus antigos professores de serviço social contestam a ideia de que “ir à raiz do problema” seja um precursor essencial da mudança, e citam de Shazer com admiração: “De fato, há terapias breves que partem do objetivo e deixam os problemas intocados. Afinal, é possível começar a desembaraçar um novelo de lã e aprender a mantê-lo desembaraçado sem saber como ele se embaraçou em primeiro lugar” (Doel & Marsh, 1992, p. 94).

Axioma 4: a cooperação, então e hoje

O quarto axioma — A mudança do cliente por meio da terapia ocorre através de interações observáveis nas quais o terapeuta encontra maneiras de cooperar com ele (p. 54) — refere-se ao grande avanço que de Shazer realizou quanto à ideia de que os clientes resistem ao terapeuta (de Shazer, 1984). Dado o quanto isso foi inovador, uma narrativa de singularidade faz sentido ao contar aquela época, em que de Shazer “questionou e descartou muitos conceitos estabelecidos no campo da terapia familiar e, com isso, continuou a diferenciar o modo como a terapia era feita no BFTC em comparação com muitas outras clínicas de terapia familiar…”. Já não estou tão convencido pelas últimas palavras dessa frase: “… tanto então quanto hoje” (p. 54).

Em 1996, um ano depois de minha primeira formação em TBFS, iniciei dois anos de formação em terapia familiar e prática sistêmica. Eu conhecia os tipos de terapia familiar predominantes nos anos 1980 por ter trabalhado nesse período numa unidade psiquiátrica para jovens, e o contraste com minha formação posterior era marcante. A ênfase estava então firmemente nas abordagens colaborativas e ditas de segunda ordem, nas quais terapeutas e equipes assumiam posições de não especialista. Lynn Hoffman (2002) descreveu isso como um “novo paradigma” para a terapia familiar, com a virada tornando-se perceptível no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, exemplificada por Anderson e Goolishian (1992), por Tom Andersen e sua abordagem da equipe reflexiva (1987), pelo trabalho pós-Milão de Cecchin (1987) e pelas abordagens construcionistas sociais resumidas em McNamee e Gergen (1992). A terapia breve focada nas soluções é, evidentemente, distinta de todas essas abordagens e, ao mesmo tempo, todas elas são empreendimentos colaborativos e cooperativos em maior ou menor grau. Desde esse período, narrativas de semelhança e conexão a esse respeito são não só possíveis como têm sido contadas com frequência (ver, por exemplo, Friedman, 1993).

Axioma 5: desenvolver soluções

O quinto axioma — A terapia breve consiste em desenvolver soluções com os clientes (p. 63) — pretende resumir o processo focado nas soluções tal como se desenvolveu na fase 3 da elaboração teórica de de Shazer. Não estou convencido pela formulação desse axioma, o que talvez reflita minha formação e meu trabalho com o BRIEF, bem como as exposições posteriores da “versão BRIEF” da prática focada nas soluções (Shennan, 2019). Hoje, porém, acredito que, embora existam entre as versões da abordagem algumas diferenças de fundo, outras são mais superficiais e resultam do modo como ela é apresentada. Não descrevo o que faço como “desenvolver soluções” com os clientes; mas o comentário mais detalhado que desdobra o axioma reflete, sim, minha prática, pois envolve as duas atividades gêmeas de “trabalhar cooperativamente para dar continuidade às mudanças já em curso na vida do cliente, especialmente àquelas que vão na direção do futuro mais positivo que o cliente quer” e de “convidar os clientes a expandir e construir os detalhes de suas definições de um futuro mais satisfatório” (p. 63).

As duas últimas frases desse parágrafo de desdobramento, sob o axioma 5, oferecem um exemplo nítido da narrativa de singularidade que me deu vontade de escrever esta resposta. Depois de enfatizar a postura interacional de de Shazer e a “terapia-como-sistema” que promove a mudança do cliente, o parágrafo termina assim: “Em contraste, o desenvolvimento de soluções não consiste em ver os clientes como tendo problemas conceituados como enigmas a serem avaliados e resolvidos. Nesse aspecto, de Shazer distinguiu claramente a TBFS da maioria das outras terapias” (p. 63). O que fica implicado é uma visão monolítica da maioria das terapias como sendo sobre avaliar e resolver problemas conceituados como enigmas, o que parece ao mesmo tempo uma generalização e uma espécie de caricatura. Às terapias colaborativas, pós-modernas e construcionistas sociais mencionadas acima somam-se as terapias centradas na pessoa, humanistas, existenciais e muitas terapias integrativas e criativas, que é difícil ver como baseadas dessa maneira na avaliação e na resolução de problemas. Além disso, uma vez exposto aquilo em que positivamente consiste o “desenvolvimento de soluções”, é discutível a necessidade de acrescentar que ele não envolve certas outras atividades. Por fim, ainda que esse contraste seja útil para esclarecer o processo focado nas soluções, encerrar o parágrafo com a nota conclusiva de que, com isso, “de Shazer distinguiu claramente a TBFS da maioria das outras terapias” sugere que demonstrar essa singularidade era o objetivo desde o início. Por que seria assim?

de Shazer e White: “vastamente diferentes”?

Tendo conhecido o trabalho de Michael White pela primeira vez, e em resposta a uma narrativa de semelhança-e-diferença que comparava a TBFS e as terapias narrativas (Chang & Phillips, 1993), Steve de Shazer (1993) escreveu uma narrativa de singularidade bastante enfática, bem sua. Ele concluía: “os ‘desfechos únicos’ e as ‘exceções’ são conceitos vastamente diferentes. Eles conduzem a, decorrem de e estão relacionados a práticas clínicas e teorias da mudança vastamente diferentes” (de Shazer, 1993, p. 119). Creio que os desfechos únicos e as exceções são, na verdade, bastante semelhantes; mas, mesmo aceitando que haja diferenças entre eles, o uso que de Shazer faz da palavra “vastamente”, duas vezes em rápida sucessão, parece curiosamente hiperbólico. Sua conclusão pode ter sido influenciada por sua incompreensão do termo desfechos únicos e da razão pela qual o sociólogo Erving Goffman o cunhou. Ele supõe que a unicidade de um desfecho único se refere ao fato de ser um acontecimento isolado que, sendo um desfecho, vem ao fim de um longo processo (de Shazer, 1993, p. 118). Ora, em sua análise clássica dos hospitais psiquiátricos como “instituições totais”, Goffman (1961, p. 119) empregava os desfechos únicos para designar aspectos de uma pessoa que são negligenciados quando ela é considerada como membro de uma categoria social — a de doente mental, por exemplo —, aspectos que são próprios daquele indivíduo. White tomou o termo emprestado para designar “aspectos da experiência vivida que caem fora da história dominante” (White & Epston, 1990, p. 15), sendo a história dominante habitualmente uma história saturada pelo problema. Diferentes das exceções? Talvez, mas certamente não muito, e definitivamente não vastamente. Só podemos conjecturar as razões de uma narrativa de singularidade tão extrema; seria, no entanto, compreensível que esses grandes terapeutas (White (1993) havia concluído de modo semelhante), estando em processo de estabelecer suas abordagens relativamente novas, sentissem a necessidade de enfatizar sua singularidade para consegui-lo. Quase trinta anos depois, essa razão particular para construir narrativas de singularidade parece menos premente.

Axioma 6: negociar os sentidos

O sexto e último axioma proposto — A terapia é um processo interacional visível e dialógico de negociação dos sentidos da linguagem do cliente (p. 66) — reflete o interesse crescente de de Shazer por Wittgenstein e pelas ideias pós-estruturalistas sobre o modo como o sentido se faz nas interações entre as pessoas. Sua conexão com o primeiro axioma, sobre a terapia ser um processo interativo, que os autores veem emergir na primeira fase de de Shazer, entre 1969 e 1978, é testemunho da continuidade e da consistência de seu pensamento e de sua visão ao longo dos anos. Há um lampejo de narrativa de semelhança no comentário dos autores sob o axioma 6, antes de um retorno à singularidade: “Embora algumas outras terapias pós-modernas possam compartilhar essa visão teórica, a maioria das terapias do campo não é pós-moderna e funciona como se as palavras que descrevem as dificuldades dos clientes e suas soluções tivessem significados essenciais” (p. 66). Posso atestar que outras terapias pós-modernas compartilham essa visão: o maior aporte que recebi sobre pós-estruturalismo foi ao participar de uma formação em terapias narrativas em 2014 e 2015.

Os autores dizem que a visão pós-estrutural é hoje mais frequentemente conhecida como construcionismo social (p. 63) e, em suas reflexões sobre “o poder terapêutico do pós-estruturalismo”, Drewery e Monk (1994, p. 304) veem o construcionismo social como “inserindo-se na diversa gama de implicações decorrentes das intuições pós-estruturalistas”. Eles refletem como praticantes do aconselhamento, mas abordam tanto a mudança social quanto a pessoal, e encerram seu texto olhando para o potencial do construcionismo social “muito além do microcontexto da entrevista de aconselhamento” (Drewery & Monk, 1994, p. 312). Isso me traz de volta ao ponto de partida: minha leitura do artigo sobre a elaboração teórica de Steve de Shazer para um encontro do grupo de leitura do Solution-Focused Collective.

Vínculos e alianças

Creio que foi ler o artigo nesse contexto que me levou a ver seus aspectos de narrativa de singularidade e a refletir sobre eles; e, para explicá-lo, vou remeter ao manifesto focado nas soluções para a mudança social (Solution-Focused Collective, 2019). O manifesto assenta na crença no potencial da abordagem focada nas soluções para “ser posta a serviço da justiça social”. Ele enuncia uma série de intenções voltadas a ampliar a justiça social por meios focados nas soluções, entre elas a de que “construímos vínculos com os movimentos pela justiça social e pela igualdade, e com praticantes de outras abordagens comprometidos com esses fins, de modo que aprendamos uns com os outros e enriqueçamos mutuamente nossos trabalhos”. Aprecio a singularidade da prática focada nas soluções: a percepção que dela tive contribuiu para que ela mudasse minha vida e minha carreira praticamente da noite para o dia, quando me formei nela pela primeira vez, em 1995. Aprecio também que ela tenha me oferecido uma maneira de trabalhar que se ajustava ao modo como eu queria ver as pessoas e trabalhar com elas. Tenho certeza de que outras abordagens também teriam se ajustado a isso, mas só se pode fazer um curso de formação por vez, e é provavelmente em parte um acidente das circunstâncias do fim do verão de 1995 que eu trabalhe hoje como praticante focado nas soluções. Fico contente de ter encontrado, desde então, semelhanças com outras abordagens; e talvez a construção de algumas narrativas de semelhança e conexão, ou ao menos de algumas narrativas de semelhança-e-diferença, ajude a criar os vínculos e as alianças entre abordagens da mudança de que se precisa para a construção de um mundo melhor.

Notas do original

1. Cada vez que, daqui em diante, eu usar a expressão “os autores”, estarei me referindo a Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan, os autores do artigo de 2020 ao qual respondo.

2. Salvo indicação em contrário, todos os números de página remetem a Korman, De Jong e Jordan, 2020.

3. Como meu próprio trabalho ultrapassa o campo da terapia, falarei mais frequentemente do foco nas soluções do que da terapia breve focada nas soluções quando me referir a isso.

Complexe Systémique · o fio do debate

Esta resposta pertence a um intercâmbio publicado pelo Journal of Solution Focused Practices. Ela responde a A elaboração teórica de Steve de Shazer, de Harry Korman, Peter De Jong e Sara Smock Jordan (2020). O Solution-Focused Collective respondeu por sua vez ao mesmo artigo em Ação coletiva focada nas soluções, e Korman, De Jong e Smock Jordan replicaram às duas respostas em Não queremos borrar as fronteiras. Guy Shennan havia exposto sua própria posição no ano anterior em Rumo a uma prática crítica focada nas soluções?

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Tradução não oficial para o português de Narratives of Distinctiveness or Similarity and Connection – A Response to Korman, De Jong, and Jordan’s Steve de Shazer’s Theory Development, de Guy Shennan, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n. 1 (2021), doi: 10.59874/001c.74984, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Narratives of Distinctiveness or Similarity and Connection – A Response to Korman, De Jong, and Jordan’s Steve de Shazer’s Theory Development”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Shennan, G. (2021). Narrativas de singularidade ou de semelhança e conexão: resposta a Korman, De Jong e Smock Jordan (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/narrativas-de-singularidade-ou-de-semelhanca-e-conexao (Obra original publicada em 2021 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n° 1 (2021), p. 61-67; republicada em 2021 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/74984)

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