Bastidores · O projeto

O projeto mais louco da minha carreira…

Vou falar com você do projeto mais “faraônico” que já carreguei até aqui. Mas, para que essa palavra tenha sentido, preciso rebobinar um pouco: uma formação universitária sólida, um descompasso no campo, uma virada, e depois uma vontade de transmitir que acabou virando uma casa.

Melhor em detectar do que em acompanhar

Quando me formei na universidade, aprendi muitíssimo. De verdade. Referências preciosas sobre o desenvolvimento da criança e do adolescente, noções sólidas sobre neuroatipicidade e transtornos do espectro autista, ferramentas de observação e de avaliação. Fui formado para identificar, classificar, compreender funcionamentos. E, no começo da minha vida profissional, isso me serviu.

Mas, bem rápido, no campo, um descompasso se impôs. Eu trabalhava em instituição, com crianças e suas famílias, e percebi que muitas vezes eu era melhor em detectar do que em acompanhar. Melhor em nomear do que em transformar. Como se eu tivesse aprendido a iluminar um cômodo… sem ter aprendido a habitá-lo com as pessoas.

As ferramentas nas quais eu tinha sido formado eram sérias e estruturantes: grades de análise funcional, avaliações comportamentais, métodos do tipo ABA, PECS e outras abordagens padronizadas. Não nego o interesse delas. Mas, na realidade dos vínculos familiares, na espessura das histórias, nas emoções contraditórias, nas lealdades, nos esgotamentos, eu sentia que alguma coisa não passava. Às vezes funcionava, sim. Mas, com frequência demais, eu saía de certas situações com uma impressão desagradável: a de ter feito o que se sabe fazer em vez de ter realmente encontrado as pessoas onde elas estavam.

Digo isso de forma simples: eu me senti limitado. E, para mim, esse limite era um sinal que dizia: “Você precisa aprender de outro jeito. Você precisa aprender a acompanhar sistemas humanos, não apenas sintomas.”

A virada

Foi nesse momento que me orientei para uma formação em terapia familiar de orientação sistêmica. E escolho bem as palavras: foi uma revolução. Uma virada na maneira de escutar. Uma virada na maneira de estar no atendimento.

O que descobri não era apenas uma caixa de ferramentas. Era uma mudança de olhar. A ideia de que o problema nem sempre está “dentro” da pessoa, mas nos circuitos relacionais, nos contextos, nas regras implícitas, nas tentativas de solução que se enrijecem. A ideia de que um sintoma pode ter uma função, um lugar, uma utilidade paradoxal. A ideia de que, muitas vezes, o que faz sofrer não é um defeito individual, mas um sistema que já não consegue se ajustar.

E, sobretudo, descobri algo muito concreto: a atenção aos recursos.

Antes

Uma formação em que se caçam os déficits, em que se identifica o que vai mal, o que falta, o que disfunciona.

Depois

Outra pergunta, quase subversiva de tão simples: “O que ainda se sustenta? O que funciona, mesmo que um pouco? O que permitiu a esta família chegar até aqui?”

Essa inversão mudou a minha prática. E, honestamente, mudou a mim. Fui tomado por uma bulimia de leitura: acho que li tudo o que me caía nas mãos. Textos fundadores, maneiras de pensar que, para mim, tinham passado meio fora do radar durante os anos de universidade. Eu tinha ouvido falar delas, vagamente, no fim do percurso, graças a um professor — uma semente plantada tarde, mas que acabou brotando.

Com o tempo, outro acontecimento contou: encontrar pessoas que fundaram, encarnaram ou transformaram essa corrente. A abordagem sistêmica não é tão antiga, e há algo de raro em poder cruzar com pioneiros ainda vivos, poder escutá-los, vê-los trabalhar, ouvir a voz deles, perceber a sua maneira de estar no mundo.

Tornar acessível sem empobrecer

E é aí que outro fio se teceu, quase à minha revelia: a transmissão. Acho que sou movido por uma pergunta muito simples, e muito exigente.

“Como tornar acessível sem empobrecer?”

A pergunta que sustenta todo o projeto

Como falar de conceitos complexos sem simplificá-los no sentido de torná-los falsos, mas tornando-os abordáveis, respiráveis, praticáveis? Como fazer pedagogia sem trair a complexidade — e sem esmagar as pessoas sob um jargão?

Comecei a transmitir ao meu redor, depois de forma mais ampla, e um dia lancei um canal no YouTube e conteúdos nas redes sociais. Naquela época, eu não fazia ideia do que isso abriria. Eu pensava em compartilhar. Ainda não media que eu iria, sobretudo, encontrar. Encontrar profissionais do campo. Pessoas que encarnam maneiras de pensar. Pessoas que duvidam, que trabalham, que tentam, que erram, que ajustam. E, em espelho, encontrar também um público: pessoas em formação, profissionais em questionamento, curiosos, às vezes céticos. Uma comunidade em construção.

De tudo isso nasceu a ideia do Complexe Systémique. Digo “ideia”, mas na verdade virou uma instituição de formação. E faço questão de dizer como penso: não o vejo primeiro como uma estrutura. Vejo-o como uma comunidade de ajuda mútua, de apoio, de partilha, de troca de conhecimentos. Um lugar em que a diversidade de pontos de vista não é um problema a resolver, mas um recurso a cultivar. Um lugar em que se tenta fazer a complexidade existir de forma viva, e não teórica.

O saber é situado

Neste ponto, uma confidência ajuda a explicar a minha maneira de pensar. Sou um grande leitor. E sempre tive uma frustração estranha: a de não poder ouvir Victor Hugo. Posso lê-lo, claro. Mas não posso ver a sua postura, a sua presença, a sua voz. Não consigo captar o que ele emanava, o que encarnava quando falava.

Por que isso me toca tanto? Porque acredito profundamente que o saber é situado. Ele não existe fora do chão. Tem uma geografia, uma história, um corpo, uma época. E um pensamento também se compreende pela maneira como uma pessoa o carrega, o diz, o matiza, o vive. É uma das razões pelas quais quis ir encontrar autores, terapeutas, pessoas que construíram abordagens, e filmá-los. Para a posteridade, sim — a palavra pode soar grandiloquente, mas diz algo verdadeiro: guardar um rastro, preservar uma voz, transmitir uma encarnação, e não apenas conceitos.

Nessa lógica, tive a sorte de viver aventuras humanas fortes, às vezes urgentes. Penso em especial nesta formação on-line criada com Charlie Crettenand, num momento em que a doença o atingia. Charlie não está mais entre nós. Mas essa transmissão existe. E digo com sobriedade: tenho orgulho de que esse saber possa continuar a circular.

Penso também em Robert Neuburger, imensa fonte de inspiração, e nesta formação on-line sobre as bases da terapia de casal que construímos. Também aqui não se trata apenas de um conteúdo: é uma maneira de tornar disponível uma experiência, um pensamento, uma clínica.

Um canal para as fundações, outro para a época

Mas ainda faltava alguma coisa. Ir buscar os fundadores é essencial: compreender as raízes, as viradas históricas, os gestos iniciais. Para que uma abordagem perdure, porém, ela também precisa se renovar. Precisa se confrontar com a época. É nesse espírito que fico muito feliz em anunciar a criação de um novo canal no YouTube: o canal do Complexe Systémique, distinto do canal Julien Besse.

A ideia é simples, e nasceu de uma constatação: não se fala com todo mundo da mesma maneira. Existe um público muito amplo que merece uma divulgação rigorosa, acessível, humana, sem condescendência. E existe também um público de profissionais, de futuros terapeutas, de pessoas que querem entrar numa tecnicidade, numa epistemologia, numa clínica mais aprofundada. Progressivamente, o canal do Complexe Systémique vai acolher conteúdos mais especializados, mais voltados ao ofício: conceitos trabalhados, ferramentas, análises, diálogos entre profissionais, reflexões sobre ética, postura, intervenção. E o canal Julien Besse poderá continuar cumprindo o seu papel de porta de entrada para o grande público, para dar a conhecer a abordagem sistêmica ao maior número de pessoas.

Estamos nos primeiros balbucios, de verdade. O começo de uma aventura. E digo isso sem efeito: me emociona escrever, porque sei o que custa começar, se expor, propor.

A outra vertente: uma formação longa

Há muito tempo eu tinha uma vontade: criar uma formação longa, certificadora, exigente, contemporânea. Uma formação de quatro anos, 1400 horas. É muito. É até o dobro do que propõe a maioria dos institutos de terapia sistêmica.

4
anos de formação
1400
horas, o dobro da maioria dos cursos
2026
primeira turma em março

Por que mirar tão alto? Por ego? Não. Muito honestamente: por responsabilidade. Porque vejo terapeutas demais se encontrando sozinhos, cedo demais, com situações pesadas, famílias em crise, casais em impasse, instituições em tensão, e um sentimento de impostura ou de isolamento. E acredito que não se formam terapeutas apenas com conceitos. Formam-se com tempo, prática, supervisão, intervisão, retornos, atritos, clínica viva. Formam-se também dando-lhes uma coluna vertebral: uma epistemologia, uma ética, uma capacidade de pensar em complexidade sem se perder.

Essa formação integrará, evidentemente, os fundamentos da abordagem sistêmica. Mas será pensada também para hoje: com o digital, os usos contemporâneos, as redes sociais, e ainda questões que crescem forte, como a inteligência artificial — não como gadget, mas como transformação das práticas, dos enquadres e da relação com o saber.

Porque, a meu ver, fazer terapia hoje não se limita mais à escala do consultório. A nossa ação pode se desdobrar de outras formas: pela prevenção, pela formação, pela criação de recursos, pela intervenção em instituições, pela difusão de uma cultura relacional, pela abertura de espaços de pensamento. Existem muitas maneiras de ser terapeuta que estão se abrindo, e a ideia é formar os terapeutas de amanhã: competentes, ancorados, críticos, capazes de trabalhar com a complexidade sem reduzi-la.

A primeira turma começará em março de 2026. Depois, conforme a demanda, uma nova turma poderá abrir a cada ano.

Se uma dessas duas aventuras falar com você — o canal do Complexe Systémique ou a formação longa —, espero encontrá-lo por lá. E, como sempre, cuide-se bem. Conto tudo isso com a minha própria voz no vídeo abaixo, em francês.

Como citar este artigo

Besse, J. (2026, 11 de janeiro). O projeto mais louco da minha carreira…. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-projeto-mais-louco-da-minha-carreira

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