Red Sistémica · Psicoterapia

O trabalho com a pessoa do terapeuta

A tarefa terapêutica expõe diariamente a fortes doses de angústia, de violência e de desesperança; o que não é resolvido continua operando como perturbação no terapeuta. Oscar Galfré e Graciela Frascino descrevem o macrocontexto e o microcontexto que hoje pressionam o psicoterapeuta e propõem um dispositivo: oficinas de grupo dedicadas à pessoa do terapeuta, distintas dos cursos e das supervisões, para preencher um vazio que nem a análise didática nem a formação técnica preenchem.

Autores Oscar Julio Galfré, doutor em psicologia e em psicologia clínica; María Graciela Frascino, psicólogaPublicação Red Sistémica, 2022Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

“O cuidado do terapeuta é necessário para que ele possa cuidar: as pessoas que cuidam de pessoas devem, e merecem, ser cuidadas.”

Oscar Galfré e Graciela Frascino

Situação atual da prática da psicoterapia

A tarefa terapêutica, apaixonante sem dúvida alguma, nos expõe diariamente a interações marcadas por fortes doses de ansiedade, de violência, de desorganização, de desesperança etc., e nem sempre é possível dar uma resposta rápida e eficaz a essa demanda. Uma parte do que não foi resolvido continua operando como perturbação no terapeuta.

Por isso, uma das práticas que nos parecem necessárias é um retorno sobre nós mesmos, que reexamine, entre outras coisas, os modelos que nos orientaram. Esse retorno, longe de abandonar a clínica, contribui para aumentar sua qualidade. O cuidado do terapeuta é necessário para que ele possa cuidar; as pessoas que cuidam de pessoas devem e merecem ser cuidadas.

O exercício da psicoterapia implica, para o terapeuta, várias questões fundamentais:

  • a) enfrentar problemáticas graves, inseridas em um contexto sociocultural e econômico extremamente crítico;
  • b) uma formação teórico-clínica que nem sempre está em sintonia com os problemas a enfrentar; estes exigem mais trabalho de equipe, mais redes e mais colaboração interinstitucional e, em muitos casos, medidas socioambientais;
  • c) as situações mencionadas exigem do terapeuta um envolvimento emocional e pessoal maior, justamente no momento em que ele dispõe de menor preparo instrumental;
  • d) baixos níveis de renda e de estabilidade no emprego, assim como poucos recursos e menor grau de motivação para a formação permanente, o que acarreta uma queda na escala de prestígio e de reconhecimento social do profissional psicoterapeuta;
  • e) tudo o que acabamos de enumerar determina um certo isomorfismo entre a situação profissional do praticante médio e a de boa parte da população que o procura.

É um tempo de mudanças aceleradas e de desajustes, que produz mal-estar.

O macrocontexto do terapeuta

Em resumo, o novo século o encontra com:

  • consulentes que se apresentam com problemáticas cada vez mais graves e com possibilidades de pagamento decrescentes;
  • locais de trabalho institucionais que acolhem patologias graves e pagam honorários baixos, quando não inexistentes;
  • falta de meios pessoais e institucionais para obter continência, supervisão e treinamento;
  • a obrigação de rivalizar com diferentes “magias”: desenvolvimento pessoal, terapias florais etc.;
  • um Estado que não assegura plenamente os meios e as políticas necessários ao desenvolvimento da saúde mental e do atendimento psicológico, tanto do lado das prestações quanto do lado acadêmico e da pesquisa;
  • suas próprias problemáticas pessoais, familiares e sociais;
  • as problemáticas das instituições às quais pertence, que muitas vezes não conseguem adaptar seus paradigmas e suas práticas a um mundo mutável e implacável.

O microcontexto do terapeuta

Carl Whitaker (1992) resume muito bem as características do enquadre cotidiano de trabalho no consultório.

Carl Whitaker, 1992

“[O terapeuta] está submetido a uma forma de isolamento… Ainda mais do que ao pai, ao chefe ou ao funcionário, subtraem-se dele os efeitos retificadores de uma relação sadia de pessoa a pessoa… O terapeuta não tem ninguém com quem se relacionar. Ele não é o destinatário do afeto de seu paciente; esse afeto se dirige, para além dele, ao símbolo que ele representa. Durante a maior parte de sua jornada de trabalho, ele permanece isolado. Além disso, seu próprio afeto deve ser tão controlado quanto os golpes de um pai que boxeia com o filho de quatro anos. Sua participação deve ser graduada segundo a tolerância física e emocional do paciente em transferência.

O terapeuta permanece assim na posição incômoda de estar no meio das pressões do macro e do microcontexto.

O que nutre o terapeuta em sua vida profissional?

As matrizes fornecidas pela família de origem, pela família atual e pela comunidade socioeconômico-cultural em que vive. A formação inicial e continuada, os referenciais teóricos, sua própria psicoterapia, as supervisões, os treinamentos e a rede profissional da qual faz parte etc.

Mas por meio de que esses apoios de sua profissão chegam ao paciente? Por meio de sua pessoa, que é seu instrumento de trabalho. Por isso é muito importante cuidar dela.

A pessoa do terapeuta é o receptáculo de temas muito variados:

  • histórias e experiências de vida;
  • semelhanças e ressonâncias com as situações problemáticas dos pacientes, que ele pode ter resolvido ou não;
  • sentimentos que se põem em jogo na tarefa;
  • ideias e crenças próprias que podem colidir com as do paciente;
  • características de personalidade;
  • aprendizados teóricos;
  • mandatos de seus lugares de pertencimento sobre a maneira de trabalhar;
  • estilos pessoais de trabalho;
  • o fato de pôr em jogo, em seu trabalho, sua palavra, seus atos e suas atitudes.

É, portanto, muito desejável que os terapeutas disponham de um espaço para:

  • explorar a fundo sua vida pessoal;
  • tirar proveito de sua articulação com a prática clínica;
  • relacionar sua personalidade, seu estilo, sua experiência de vida etc. com os pacientes em tratamento.

Esse espaço deverá ser distinto e complementar dos cursos e das supervisões.

As oficinas de trabalho sobre a pessoa do terapeuta

O que acabamos de indicar pode ser obtido em oficinas de trabalho grupal em que se compartilham experiências em um enquadre de compreensão e de confidencialidade. Esse processo de troca se destinaria a:

  • a) ampliar a compreensão da realidade clínica complexa e de seu contexto;
  • b) avaliar o grau de envolvimento, de esforço e de desgaste emocional que a tarefa implica ou exige;
  • c) facilitar uma elaboração transformadora, para que o psicoterapeuta não fique sobrecarregado;
  • d) protegê-lo, ao mesmo tempo, de uma exposição perigosa, tanto para sua saúde quanto para a eficácia de sua tarefa profissional;
  • e) facilitar o aprendizado da detecção precoce das dificuldades, tanto nele mesmo quanto no curso de sua tarefa clínica;
  • f) aumentar o conhecimento de sua pessoa, de suas forças e de suas fraquezas.

Os temas de trabalho dessas oficinas

Quanto ao terapeuta

  • o quanto o terapeuta se conhece a si mesmo;
  • as dificuldades e os pontos de ancoragem que podem vir de sua história de vida;
  • em que momento de seu ciclo vital ele se encontra; suas famílias de origem e atual;
  • a capacidade relacional do terapeuta; a qualidade de sua rede social;
  • como ele lida com os conflitos (é evitativo ou amplificador?);
  • os mitos do terapeuta; sua cultura e sua experiência de vida.

Quanto à prática profissional

  • como ele lida com os pacientes; proximidade vs distância; flexibilidade; a aliança terapêutica; o desenvolvimento das habilidades;
  • as características de sua formação e as lacunas dela;
  • os diferentes modelos que orientam sua ação;
  • as chaves que permitem identificar os padrões interacionais (os seus e os do paciente);
  • a transformação das fraquezas do terapeuta em ferramentas a serviço de determinados fins;
  • sua condição de observador-participante-auto-observador;
  • as relações e as concorrências com outros profissionais;
  • as técnicas de sobrevivência em psicoterapia.

Quanto ao contexto sociocultural

  • as mudanças sociais que influenciam a terapia e as formas da demanda;
  • as novas patologias e seus desafios;
  • a vida, o cinema, o teatro e o romance como fornecedores de metáforas;
  • as questões éticas e a questão dos valores em psicoterapia.

Para lembrar

A oficina não substitui nem a psicoterapia pessoal nem a supervisão: ela ocupa um lugar que nenhuma das duas ocupa. No treinamento, o foco é a habilidade profissional e o efeito secundário, a mudança pessoal; no trabalho sobre o self, o foco é a mudança pessoal — e a de seu contexto — e o efeito secundário, o crescimento da habilidade profissional.

Conclusões

Abordar as tarefas indicadas torna-se importante no momento atual, em razão da demanda de apoio que vem de muitos terapeutas sem possibilidade econômica de acesso a psicoterapias individuais e privadas. Ao mesmo tempo, eles poderiam obter dessas oficinas um algo a mais quanto à prática profissional, que as psicoterapias não costumam fornecer.

Nesse sentido, compartilhar em equipe a reflexão sobre a função terapêutica, as perspectivas trigeracionais de cada um, o uso das ressonâncias, a troca em uma oficina que funcionará como uma equipe reflexiva à maneira de Andersen, T. (1994), pode enriquecer a prática profissional e torná-la mais eficaz. Todas essas atividades podem se fecundar mutuamente, em um processo em que os terapeutas participantes falam de sua clínica ao mesmo tempo que revisam aspectos pessoais e familiares.

A atividade que propomos pretende preencher um vazio, que provém da ausência de uma psicoterapia especializada do terapeuta, porque:

  • os terapeutas que não pertencem ao campo da psicanálise não podem recorrer ao que se chama de análise didática ou a seus equivalentes;
  • há questões derivadas do custo da psicoterapia;
  • há as limitações econômicas da profissão e, em consequência, a queda do compromisso do terapeuta com o próprio crescimento;
  • há certas linhas de trabalho que promovem o papel de técnico terapêutico.

Consideramos, portanto, que o trabalho com a pessoa do terapeuta pode constituir uma maneira de preencher o déficit mencionado, sem pretender substituir as psicoterapias individuais e as supervisões.

O crescimento do terapeuta segundo Harry Aponte

H. Aponte (1985/86) propõe que a psicoterapia desenvolva não apenas os resultados e as mudanças, mas também “o crescimento mental dos pacientes”, porque este contribuirá para sustentar e aprofundar os primeiros.

Nesse sentido, ele indica áreas de crescimento às quais os terapeutas devem prestar atenção:

  • a necessidade de que o trabalho profissional e a própria vida íntima sejam congruentes;
  • o crescimento pessoal do terapeuta gera um compromisso maior dele com seus pacientes e com sua profissão.

Boa parte do que o terapeuta consegue conhecer deve ser deduzida do que sua pessoa experimenta na relação com seus pacientes.

A aquisição de conhecimentos e de técnica é fundamental, mas a habilidade do terapeuta para pôr em prática o que aprendeu não decorre automaticamente dessa aquisição.

O mesmo autor classifica as habilidades terapêuticas em:

  • as habilidades teórico-técnicas;
  • as habilidades interiores, ou integração pessoal do terapeuta;
  • a disponibilidade e a capacidade para o trabalho colaborativo e interdisciplinar com outros profissionais.

Esta última habilidade é significativa quando a tarefa terapêutica tem a ver com a rede do paciente: mediações, problemas psicossomáticos, problemas escolares, empresas familiares, interfaces terapêuticas etc.

Como participante do processo de terapia, para se preservar, o terapeuta deve oscilar entre ser observador e auto-observador. Uma parte do estresse da profissão está em sustentar outras pessoas sem ser devidamente sustentado. No treinamento, o foco é a habilidade profissional, e o efeito secundário, a mudança pessoal. No trabalho sobre o self, o foco é a mudança pessoal (e a do contexto dessa pessoa), e o efeito secundário será o crescimento da habilidade profissional.

Sair do isolamento

C. Whitaker (1991/92) sublinha o isolamento do trabalho terapêutico e propõe, para remediá-lo, a troca entre profissionais, da qual menciona diferentes formas:

  • a supervisão em grupo;
  • a terapia lúdica;
  • a coterapia;
  • o grupo de amparo, nome que dá ao grupo permanente de supervisão dentro da instituição clínica de pertencimento.

E assinala igualmente:

  • a necessidade permanente de formação, combinada com;
  • o compromisso do terapeuta com seu próprio crescimento.

Em resumo, tudo isso é sintetizado por esse mestre em uma proposta de duas palavras:

“Curar… curando-se.”

Carl Whitaker

Bibliografia de referência

Andersen, T. (1994), El equipo reflexivo, Gedisa, Barcelona.

Aponte, H. (1985), “La persona del terapeuta”, Sistemas Familiares, ano 1, n° 1.

Aponte, H. (1996), “El sesgo político, los valores morales y la espiritualidad en la formación de los psicoterapeutas”, Sistemas Familiares, ano 12, n° 3.

Aponte, H. y Winter (1988), “La persona y la práctica del terapeuta”, Sistemas Familiares, ano 4, n° 2.

Boszormenyi-Nagy, I., Lealtades invisibles, Amorrortu.

Baringoltz, S. (1996), Integración de aportes cognitivos…, Editorial de Belgrano, cap. 5.

Bergman, J., Pescando barracudas, Paidós, cap. 8.

Galfré, O. y Barinboim, B. (1998), “Explorando un modelo posible de psicoterapia para psicoterapeutas”, Clínica Psicológica, vol. VII, n° 1.

González, O. y A., y otros (1993), “El self del terapeuta y su compromiso en la terapia”, Sistemas Familiares, ano 9, n° 3.

Minuchin, S., El arte de la terapia familiar, Paidós.

Santi, W. (comp., 1996), Herramientas para psicoterapeutas, Paidós.

Whitaker, C. (1991), De la psique al sistema, org. J. R. Neill e D. P. Kniskern, Amorrortu, Buenos Aires.

Whitaker, C. (1992), Meditaciones nocturnas de un terapeuta familiar, Paidós, Buenos Aires.

Quem são os autores

María Graciela Frascino é psicóloga, com pós-graduação em terapia de casal e de família (CEFYP). Coordenadora pedagógica e coordenadora da equipe de aprofundamento em terapia familiar do ISDEBA, atende em consultório particular adolescentes e adultos, em terapias individuais, de casal e de família. Coordena o projeto de pesquisa “Saúde e família”, organizado conjuntamente pela Universidad del Museo Social Argentino (faculdade de psicologia e psicopedagogia) e pelo hospital geral de agudos “Dr. T. Álvarez”, residência de medicina de família.

Oscar Julio Galfré é doutor em psicologia e doutor em psicologia clínica (UB). Antes havia estudado sociologia, disciplina em que se graduou na UBA. Especializou-se em psicologia clínica, terapia familiar, resolução de conflitos e abordagens interdisciplinares. Nesses campos, desenvolve atividade de atendimento, de ensino e de pesquisa. Professor e pesquisador da Universidad del Museo Social Argentino (faculdade de psicologia e psicopedagogia), é codiretor organizador do projeto de pesquisa “Saúde e família”, projeto conjunto dessa universidade e do hospital geral de agudos “Dr. T. Álvarez”, residência de medicina de família.

Este artigo é a tradução para o português de “El trabajo con la persona del terapeuta”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Red Sistémica). Traduzido e republicado com a autorização da revista.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Galfré, O., & Frascino, G. (2022). O trabalho com a pessoa do terapeuta (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-trabalho-com-a-pessoa-do-terapeuta (Obra original publicada em 2022 em Red Sistémica; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/14/el-trabajo-con-la-persona-del-terapeuta/)

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