Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Teoria e pesquisa

Os fundamentos teóricos e empíricos da coconstrução do sentido no diálogo

de Shazer (1991) introduziu na terapia uma visão pós-estrutural da linguagem, na qual a interação social dos participantes determina o significado das palavras que eles usam. As teorias mais amplas da construção social são semelhantes, mas não trazem detalhes sobre o papel da linguagem. Este artigo trata dos detalhes observáveis da coconstrução do sentido no diálogo. A pesquisa em psicolinguística forneceu evidências experimentais sobre como os falantes e seus destinatários coconstroem colaborativamente seus diálogos. Revisamos vários dos experimentos que demonstraram a influência e a importância do destinatário na formulação daquilo que o falante diz. A partir dessa pesquisa, apresentamos uma sequência de estabelecimento de base comum em três passos, momento a momento, na qual o falante apresenta uma informação, o destinatário manifesta compreensão e o falante confirma essa compreensão. Propomos que esse micropadrão e suas variações são o processo observável pelo qual os participantes de um diálogo negociam e coconstroem sentidos compartilhados.

Autores Janet Beavin Bavelas (University of Victoria), Peter De Jong (Grand Rapids, Michigan), Sara Smock Jordan (Texas Tech University), Harry Korman (SIKT, Malmö, Suécia)Primeira publicação Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n. 2, 2014Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de The Theoretical and Research Basis of Co-Constructing Meaning in Dialogue, de Janet Beavin Bavelas, Peter De Jong, Sara Smock Jordan e Harry Korman, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n. 2 (2014), doi: 10.59874/001c.75100, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido, rediagramado e provido de intertítulos, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Uma segunda opinião

Um dos autores atendeu recentemente um jovem que veio buscar uma segunda opinião. Na sessão, ele disse que tinha sido “ansioso a vida inteira” e que costumava pensar que se tratava de “um traço de personalidade” com o qual teria de viver. Havia pouco tempo, encontrara um médico que o diagnosticara com “transtorno de ansiedade generalizada” e lhe dissera que existiam medicamentos (ISRSs) que iriam “curá-lo”, que “sempre funcionam” e que “não têm efeitos colaterais”. O cliente acrescentou que tinha dúvidas quanto aos ISRSs, porque conhecia amigos que os tomavam e que não estavam tão satisfeitos nem com a eficácia terapêutica nem com os efeitos colaterais; daí sua decisão de buscar uma segunda opinião.

Ele respondeu à pergunta do milagre com muitos detalhes sobre como se sentiria, pensaria, agiria e interagiria com os outros se um milagre que resolvesse o problema tivesse acontecido enquanto dormia. Quando perguntado sobre momentos em que partes do milagre já estavam acontecendo, ele identificou pequenas partes acontecendo atualmente e partes importantes que haviam acontecido durante meses inteiros, dois anos antes. Durante a pausa, o terapeuta preparou a seguinte devolutiva.

Acho que entendo que as coisas têm sido muito, muito difíceis por muito, muito tempo. [O cliente assente.] Não penso, porém, que o transtorno de ansiedade generalizada combine com o que ouço e vejo de você aqui hoje. Você é alguém reflexivo e pensativo, luminoso como uma lâmpada, e tem uma intensidade relacional muito grande. Você também tem uma imagem muito clara de como quer estar no mundo. [O cliente assente novamente.] E ainda tem esse amplo registro emocional. [O cliente assente.] Ser esse tipo de pessoa tem seus custos.

Ele assentiu gravemente e disse: “É. Teria sido mais fácil ser apagado e feliz.” O terapeuta respondeu “é”, e os dois caíram na gargalhada.

Os praticantes focados nas soluções reconhecerão sem dificuldade a importância do que aconteceu nessa conversa. Como o terapeuta, quando ouvem a linguagem do cliente deslocar-se de “ansioso a vida inteira” e “transtorno de ansiedade generalizada” para “teria sido mais fácil ser apagado e feliz” (enquanto ri), eles sabem que algo potencialmente importante e mais esperançoso está acontecendo:

Passamos a ver que os significados a que se chega em uma conversa terapêutica se desenvolvem por um processo que se parece mais com uma negociação do que com o desenvolvimento de uma compreensão ou com a revelação do que está “realmente” acontecendo.

Berg & de Shazer, 1993, p. 7

Visões estrutural e pós-estrutural da linguagem

Devemos em especial a Steve de Shazer o ter chamado nossa atenção para o significado terapêutico dos deslocamentos da linguagem com que os clientes falam de si mesmos e de suas situações. Em meados dos anos 1980, ele e seus colegas do Brief Family Therapy Center haviam inventado técnicas (perguntas de exceção, a pergunta do milagre, escalas) para construir soluções com os clientes, em vez de resolver seus problemas. Foi então que ele começou a observar que as antigas maneiras de falar sobre terapia já não funcionavam e, como afirmou mais tarde, que se tornava necessário encontrar novas maneiras de descrever e analisar o que clientes e praticantes fazem na sala de terapia (de Shazer, 1991, pp. xiii-ix). Ele destacou que a terapia se realiza por meio da interação de linguagem, um ponto óbvio que, segundo ele, o campo da psicoterapia havia amplamente ignorado, e passou a recorrer às ideias de vários filósofos e estudiosos da linguagem, entre eles Bakhtin (1981), Berger e Luckmann (1966), Derrida (1978, 1981), Lyotard (1984) e sobretudo Wittgenstein (1958), para criar uma descrição mais útil do que acontece na terapia. Ele construiu essa nova descrição em torno da distinção entre uma visão estrutural e uma visão pós-estrutural da linguagem (de Shazer & Berg, 1992; de Shazer, 1991, 1994).

A visão estrutural da linguagem (Chomsky, 1968; Saussure, 1959) sustenta que as palavras usadas em uma conversa (a chamada estrutura de superfície) são representações de significados subjacentes e verdadeiros (estrutura profunda), que se supõem descobríveis para qualquer palavra (de Shazer & Berg, 1992; Harland, 1987). Nesse modo de pensar, as palavras dos clientes têm significados essenciais e cognoscíveis, que os terapeutas podem revelar por meio de suas avaliações de especialista. Por exemplo, em uma visão estrutural, quando um cliente chega e diz “estou deprimido”, o terapeuta deve fazer uma avaliação profissional, formulando perguntas para revelar a existência e o grau de uma condição clínica particular chamada “depressão”.

Em contraste, o pós-estruturalismo situa os significados das palavras dentro de contextos interacionais particulares. Assim, em vez de serem vistos como estáveis e ocultos sob a superfície, os significados das palavras ocorrem no nível de superfície da conversa e são cognoscíveis “por meio da interação social e da negociação” (de Shazer, 1991, p. 45). Nessa visão, os significados e as descrições que o cliente de nossa introdução atribuía a suas experiências deslocam-se de “ansioso o tempo todo” e de um possível “transtorno de ansiedade generalizada” para “teria sido mais fácil ser apagado e feliz”. Esses significados podem deslocar-se ainda mais no diálogo terapêutico que se segue, bem como por meio do que quer que ele faça com suas novas compreensões de si mesmo ao sair da sala de terapia.

de Shazer chamou de construtivismo interacional sua visão pós-estrutural de como as palavras funcionam na terapia (1991, p. 48). Ele sugeria que “precisamos olhar para como ordenamos o mundo em nossa linguagem e para como nossa linguagem… ordenou nosso mundo” (1994, p. 9). A implicação de que podemos reordenar nosso mundo com a linguagem foi ilustrada por de Shazer e Berg (1992; de Shazer, 1991) com um caso em que a terapeuta (Berg) e o casal negociaram o sentido da condição da esposa e do problema do casal, passando de uma descrição inicial como “ninfomania” (a palavra da esposa) para “mais um problema de sono para nós dois” (as palavras do marido, que a esposa aceitou). O deslocamento de sentido parece ter sido útil ao casal, pois, duas semanas depois, a mulher enviou um bilhete à terapeuta dizendo que seus “padrões de sono e libido” haviam voltado ao normal e que não era preciso mais terapia (de Shazer, 1991, p. 67). Foi esse caso, disse de Shazer, que convenceu a ele e a seus colegas de que precisavam desenvolver novas maneiras de descrever e analisar o que acontece na terapia.

O construcionismo social

O construtivismo interacional de de Shazer é muito próximo, em sentido, do termo usado mais amplamente nos campos da psicologia e da sociologia: o construcionismo social. Kenneth Gergen (1985, 1999, 2009), em particular, escreveu muito sobre construção social no campo da psicologia. Gergen usa o termo para designar a proposta de que as pessoas, por meio de suas interações sociais e de linguagem, criam e reelaboram continuamente os significados que influenciam suas vidas. Ele vê na abordagem dos sistemas de linguagem colaborativos (Anderson & Goolishian, 1992; Anderson, 1997; Hoffman, 1990), nas terapias narrativas (White & Epston, 1990), na abordagem da equipe reflexiva (Andersen, 1991), na terapia breve focada nas soluções e na terapia orientada para soluções (O’Hanlon & Weiner-Davis, 1989) instâncias do construcionismo social, nas quais possibilidades novas e esperançosas são coconstruídas entre terapeuta e cliente no diálogo terapêutico.

Segundo Gergen (2009), as práticas desses terapeutas construcionistas sociais diferem das dos demais no campo em dois aspectos. Primeiro, eles não demonstram interesse em categorizar problemas pessoais ou interpessoais dos clientes, nem em descobrir as causas dos problemas. Nada disso é visto como maneira útil de promover a mudança terapêutica. Uma segunda diferença está na postura do terapeuta em relação ao cliente. O terapeuta não é um avaliador separado e neutro do problema — ou dos problemas — objetivamente discerníveis de um cliente. Ao contrário, o terapeuta é, deliberadamente (no termo de Anderson & Goolishian, 1992), um parceiro colaborativo em posição de “não saber”, que busca continuamente ser informado pela linguagem do cliente e por sua expertise sobre a própria situação, e que o convida a participar de um diálogo que coconstrói novos significados, capazes de criar a vida mais satisfatória e produtiva que o cliente procura. Um conceito central do construcionismo social e dessas terapias construcionistas é, portanto, o processo de coconstruir novos significados no diálogo terapêutico.

É digno de nota que, embora o processo de coconstrução seja central para o construcionismo social, ele tenha permanecido um conceito teórico amplo, não especificamente ligado ao diálogo. Como observamos em outro lugar (De Jong, Bavelas, & Korman, 2013, p. 19), os resultados presumidos da coconstrução são tão abstratos quanto o próprio conceito de construção social. Diversas teorias da psicoterapia propuseram, por exemplo, que a coconstrução leva a novos significados subjetivos, compreensões, realidades da vida cotidiana, conhecimentos, realidades narrativas que refletem relações de poder, o self e muitas outras categorias amplas de significado (Anderson & Goolishian, 1992; Berger & Luckmann, 1966; Gergen, 2009; Hoffman, 1990; White & Epston, 1990). São, contudo, produtos finais reificados, sem descrição do processo. Em suma, a descrição da coconstrução na literatura permaneceu abstrata. Para fazer avançar essa visão, precisamos estudar o coconstruir como atividade, em vez de abstraí-lo como coconstrução.

O propósito deste artigo é tornar o coconstruir concreto e observável, isto é, desenvolver uma compreensão empiricamente fundamentada de como o coconstruir (como verbo) acontece nos diálogos terapêuticos. Fazemos isso voltando-nos primeiro para uma parte da literatura psicolinguística em que a pesquisa revelou como os participantes de um diálogo face a face colaboram uns com os outros para criar significados compartilhados — exatamente como de Shazer (1991, 1994) e Gergen (1985, 1999, 2009) propuseram. Depois de resumir essa pesquisa, propomos um micromodelo de um processo observável pelo qual os participantes de um diálogo face a face colaboram para coconstruir significados compartilhados e novos. Concluímos abordando as implicações de nosso modelo para o campo da psicoterapia e indicando direções úteis para uma pesquisa empírica que documente ainda mais o modelo.

Evidências experimentais do coconstruir no diálogo

A mesma mudança de paradigma em dois campos diferentes

Como se viu acima, a visão tradicional e dominante sobre o funcionamento da linguagem na terapia é a visão estrutural, na qual a linguagem transfere significados da mente de uma pessoa para a mente de outra. Juntamo-nos a outros — entre eles Berg, de Shazer e Gergen — que propõem uma visão alternativa e nitidamente contrastante: as pessoas em diálogo, terapeutas e clientes inclusive, coconstroem significados juntas. Essa posição implica que, para entender como a terapia funciona, o foco precisa estar no processo interativo do coconstruir.

Na psicolinguística experimental, Clark e seus colegas (por exemplo, Clark, 1992, 1996) também propuseram uma visão alternativa do diálogo. Chamaram de visão autônoma a visão tradicional e dominante, na qual os falantes escolhem a linguagem que melhor transmite seu significado e a enviam a um receptor cujo papel é simplesmente compreender corretamente esse significado. Em sua teoria colaborativa do diálogo, Clark e seus colegas propuseram que os participantes de um diálogo colaboram, momento a momento, para criar significados compartilhados. Na visão colaborativa, o significado é criado, modificado e sustentado pelas ações mútuas dos participantes — uma visão notavelmente próxima das teorias da coconstrução (Bavelas, 2011). A seção seguinte resume algumas das evidências centrais vindas da psicolinguística experimental, que mostram que uma teoria colaborativa prevê melhor do que uma teoria autônoma o que acontece no diálogo.

Testes da teoria colaborativa

A visão autônoma do uso da linguagem parece coisa de senso comum e, por isso, tem apelo intuitivo. Ela levou a uma enorme quantidade de pesquisas sobre indivíduos como falantes e ouvintes, e praticamente nenhuma sobre sua interação. Na visão autônoma, a interação é irrelevante, porque um ouvinte em diálogo é igual a qualquer outro ouvinte, como uma plateia ou alguém que escuta sem ser parte da conversa. Essa linha de pesquisa concentra-se nos processos cognitivos de um ouvinte tratado como “mudo ou invisível” na interação (Clark & Wilkes-Gibbs, 1986, p. 3), sem influência sobre o falante.

Em contraste, Schober e Clark (1989) apontaram que os ouvintes de um diálogo são fundamentalmente diferentes de outros tipos de ouvintes fora do diálogo. O ouvinte de um diálogo é um destinatário, isto é, o indivíduo singular a quem o falante se dirige e para quem o falante formula o que diz. O destinatário tem o direito — e a responsabilidade — de indicar compreensão e de ajudar quando necessário. Ao fazê-lo, exerce considerável influência tanto sobre o que o falante diz quanto sobre como o diz: “Os falantes e seus destinatários vão além… das ações autônomas e colaboram uns com os outros, momento a momento, para tentar garantir que aquilo que é dito também seja compreendido” (Schober & Clark, 1989, p. 211). Os experimentos a seguir concentraram-se na influência do destinatário sobre o diálogo.

Clark e Wilkes-Gibbs (1986)

Neste experimento, o falante e o destinatário, separados por uma divisória, tinham o mesmo conjunto de 12 cartões. Cada cartão mostrava uma figura geométrica abstrata (“figura de tangram”). Como se vê na figura 1, essas figuras não têm nomes padronizados e podem, portanto, ser descritas de uma grande variedade de maneiras. Os cartões do falante estavam dispostos em certa ordem, e os do destinatário em ordem aleatória. A tarefa do falante era dizer ao destinatário a ordem correta em que colocá-los. Fizeram isso seis vezes, em uma ordem diferente a cada vez.

Nota da tradução

A figura 1 do original — as doze figuras de tangram — não é reproduzida aqui. Ela pode ser vista no artigo original.

Os modelos autônomo e colaborativo diferem fortemente em suas previsões sobre como as duplas cumpririam sua tarefa. Lembremos que, no modelo autônomo, os falantes escolhem a linguagem que melhor transmite seu significado, e o papel do receptor é compreender corretamente esse significado. O falante estaria, portanto, no comando e escolheria a melhor maneira de descrever cada figura, fornecendo unilateralmente um termo ou expressão que os dois pudessem continuar usando ao longo das seis rodadas sempre que se referissem àquela figura. Ocorre que não foram os falantes que determinaram os nomes usados pelas duplas para essas figuras. Ao longo das seis rodadas, com as mesmas figuras em ordens diferentes, falante e ouvinte desenvolveram colaborativamente maneiras de se referir a cada figura. Muitas vezes foi o destinatário quem iniciou uma referência que ambos adotaram, como neste exemplo (adaptado de Schober & Clark, 1989, pp. 216-217).

Exemplo 1. Rodada 1, descrevendo a figura n. 12 da figura 1

  • 1. Falante: “Então o número 12, é (ri) parece uma, uma dançarina ou algo bem esquisito. Hum, e, tem uma cabeça quadrada, e hum, tem tipo, tem é — mais ou menos isso hum,”
  • 2. Destinatário: “Para que lado a cabeça está inclinada?”
  • 3. Falante: “A cabeça está, é — para a esquerda, e aí um braço poderia estar tipo levantado para a direita?”
  • 4. Destinatário: “Mm-hm.”
  • 5. Falante: “E, é —”
  • 6. Destinatário: [em sobreposição] “e —, uma perna bem gorda? Sabe qual?”
  • 7. Falante: [em sobreposição] “É, uma perna bem gorda.”
  • 8. Destinatário: “e uma perninha.”
  • 9. Falante: “Isso.”
  • 10. Destinatário: “Certo.”
  • 11. Falante: “Certo?”
  • 12. Destinatário: “É.”

Eles continuaram a se referir a essa figura em várias rodadas seguintes e, na última, haviam cocriado para ela uma referência breve, que exigia apenas um turno de fala de cada um; ela incorporava traços que cada um deles havia sugerido.

Exemplo 1a. Rodada 6, a mesma dupla descreve a mesma figura

  • 1. Falante: “Hum, 12, a dançarina com a perna bem gorda?”
  • 2. Destinatário: “Certo.”

Clark e Wilkes-Gibbs constataram que o número médio de turnos e a extensão média de cada turno diminuíram significativamente ao longo das seis rodadas com as mesmas figuras. Esse efeito é coerente com a ideia de que as duplas colaboraram para estabelecer um vocabulário compartilhado que lhes permitisse referir-se sem ambiguidade a cada figura. Contudo, embora se possa ver a colaboração em exemplos como o acima, os números em si não confirmam que tenha havido um processo colaborativo; poderia ser que os falantes simplesmente tivessem melhorado ao fornecer informações mais sucintas com o tempo. O experimento seguinte tratou dessa possibilidade.

Schober e Clark (1989)

Este estudo usou a mesma tarefa com um delineamento experimental que testava a teoria colaborativa de maneira mais direta. Os autores criaram duas condições idênticas quanto à informação fornecida pelo falante, mas que diferiam quanto à possibilidade de colaboração. Para cada dupla falante-destinatário havia uma terceira pessoa, também atrás de uma divisória, que podia ouvir tudo o que o falante e o destinatário diziam. A diferença, neste estudo, era que essa terceira pessoa não podia interagir com o falante nem falar de modo algum. Essas instruções criavam dois tipos de ouvintes para o mesmo falante: um destinatário livre para engajar o falante em diálogo e um ouvinte terceiro (overhearer) que não podia fazê-lo. O ouvinte terceiro não podia esclarecer sua compreensão, sugerir termos, fazer perguntas nem sequer indicar quando o falante poderia passar à figura seguinte. Assim, em cada tríade, o ouvinte terceiro dispunha de toda a informação de que dispunha o destinatário, mas sem o benefício de interagir com o falante. O modelo autônomo prevê que apenas a qualidade da informação do falante importaria. Ocorre que a possibilidade de colaborar também importou: os resultados mostraram que os destinatários se saíram significativamente melhor do que os ouvintes terceiros em colocar as figuras na ordem certa, com a mesma informação.

Isaacs e Clark (1987)

Este experimento também mostrou que o destinatário exercia influência importante mesmo quando, ao contrário das figuras de tangram, havia um nome correto para as imagens que o falante descrevia — ou seja, quando não era preciso inventar um nome novo. Como nos dois experimentos que acabamos de descrever, o falante tinha de dizer ao destinatário a ordem correta de um conjunto de imagens, mas desta vez tratava-se de cartões-postais de lugares famosos de Nova York (o Rockefeller Center, o lago do Central Park). Há, evidentemente, nomes próprios para esses lugares, mas Isaacs e Clark (1987) fizeram com que nem todos os conhecessem: testaram previamente os participantes potenciais quanto ao conhecimento de Nova York e identificaram “especialistas”, que haviam morado lá e conheciam bem a cidade, e “novatos”, que nunca haviam estado em Nova York e não conheciam os nomes próprios dos lugares. Isaacs e Clark criaram então quatro pareamentos possíveis entre falante e destinatário: especialista para especialista, novato para novato, especialista para novato e novato para especialista. Sem surpresa, as duplas em que falante e destinatário eram ambos especialistas começaram com os nomes próprios e continuaram a usá-los. As duplas com dois novatos eram como as duplas que descreviam tangrans: elaboraram uma maneira de descrever um traço saliente de cada cartão-postal (por exemplo, “o prédio alto com o topo triangular”) e usaram a descrição com que haviam concordado.

Poder-se-ia supor que, nas duplas mistas, um especialista falando com um novato introduzisse os termos corretos e que a dupla passasse a usá-los; não foi isso que aconteceu. Os resultados mostraram que, surpreendentemente, o conhecimento especializado do termo correto por parte do falante não determinava como a dupla descrevia as imagens. Falantes especialistas, por exemplo, aprendiam rapidamente que seus destinatários novatos não reconheciam os nomes próprios, e o uso desses nomes declinava significativamente ao longo das rodadas, à medida que passavam a criar descrições colaborativas.

Exemplo 2. O falante conhece Nova York, mas o destinatário não

  • 1. Falante/especialista: “O décimo é o Cidicorp — o edifício Citicorp?”
  • 2. Destinatário/novato: “É aquele com o topo inclinado?”
  • 3. Falante/especialista: “Sim.”
  • 4. Destinatário/novato: “Certo.” (adaptado de Isaacs & Clark, 1987, p. 28)

Em contrapartida, quando os falantes eram novatos, também aumentavam significativamente o uso dos nomes próprios — porque os aprendiam com seu destinatário especialista, que muitas vezes os fornecia como um acréscimo posterior; por exemplo:

Exemplo 3. O falante não conhece Nova York, mas o destinatário sim

  • 1. Falante/novato: “O décimo quarto é a fonte com o arco ao fundo.”
  • 2. Destinatário/especialista: “Isso, Washington Square, muito bem.” (p. 33)

Tanto nas duplas especialista-novato quanto nas novato-especialista, o falante, que era quem conhecia a ordem correta, adaptou-se ao nível de expertise de seu destinatário. Especialistas falando com novatos usavam descrições que não eram “corretas”, mas funcionavam, e novatos falando com especialistas aprendiam alguns dos nomes próprios. É tentador aplicar esses resultados ao modo como a expertise opera em diferentes práticas terapêuticas: é o cliente que aprende a falar de sua vida em uma linguagem que funciona para o terapeuta, ou é o terapeuta que aprende a falar da vida do cliente na linguagem do cliente? Ou um pouco dos dois?

Bavelas, Coates e Johnson (2000)

Este experimento mostrou a importância de um destinatário responsivo e em interação em um tipo de diálogo diferente, mais comum. Cada narrador contava a um destinatário, face a face, uma história pessoal em que escapou por pouco (algo ruim poderia ter acontecido, mas no fim tudo terminou bem). Eram estranhos entre si, de modo que o destinatário não podia conhecer a história. Na condição experimental, o destinatário tinha de se concentrar em um aspecto irrelevante da narrativa do falante (por exemplo, contar quantas palavras iniciadas pela letra t o narrador usava). Esses destinatários produziam significativamente menos respostas de ouvinte (assentir, fazer caretas, comentar a história) e — o mais importante — seus narradores contavam suas histórias significativamente pior do que os narradores cujos destinatários escutavam normalmente. Os narradores com destinatários distraídos tendiam, por exemplo, a ser menos fluentes e mais propensos a terminar abruptamente ou a explicar demais. Assim, ainda que nenhum dos destinatários pudesse contribuir para o conteúdo da história, o “contador de t” não responsivo fazia diferença na qualidade da narração de seu narrador.

Em resumo, cada um desses experimentos sustentou uma visão colaborativa da linguagem, e não uma visão autônoma. Em particular, não era o caso de o falante impor a linguagem que a dupla usaria. Ao contrário, o destinatário desempenhava papel essencial em ajudar a formular uma linguagem que funcionasse para ambos (Clark & Wilkes-Gibbs, 1986; Isaacs & Clark, 1987). Ouvintes que não podiam colaborar se saíam pior (Schober & Clark, 1989), assim como falantes com destinatários não responsivos (Bavelas et al., 2000). Se, como propomos, colaborar equivale a coconstruir, esses resultados também sustentam uma visão coconstrucionista e pós-estrutural do diálogo.

As sequências de base comum como processo de colaboração

A questão seguinte é saber exatamente como a colaboração funciona: o que fazem os participantes de um diálogo quando coconstroem significados em sua interação? Uma visão interativa do sentido tem raízes antigas, entre elas os escritos de George Herbert Mead (1934).

Não é necessário, ao tentar resolver esse problema [do significado do significado], recorrer a estados psíquicos, pois a natureza do significado, como vimos, mostra-se implícita na estrutura do ato social, implícita nas relações entre seus três componentes individuais básicos; a saber, na relação triádica de um gesto [isto é, qualquer ato comunicativo] de um indivíduo, de uma resposta a esse gesto por um segundo indivíduo e da conclusão do dado ato social iniciado pelo gesto do primeiro indivíduo. (p. 81; itálicos acrescentados)

Markova e Linell (por exemplo, Linell, 2001; Linell & Markova, 1993; Markova, 1990) retomaram e enfatizaram a tríade de Mead: uma unidade mínima em que uma pessoa inicia, a outra responde e a primeira completa a tríade respondendo a essa resposta. Como Mead, porém, eles não testaram essa proposta em um corpo de dados.

Com base em sua análise intensiva de uma vasta coleção de diálogos, Clark e Schaefer (1987, 1989) também propuseram que o significado, no diálogo, se estabelece colaborativamente, por um processo que chamaram de grounding, o estabelecimento de uma base comum, no qual falante e destinatário trabalham juntos, momento a momento, para estabelecer que se compreendem bem o bastante para prosseguir. Assentar algo (to ground) é lhe dar um alicerce, estabelecê-lo sobre uma base firme (OED Online, junho de 2014). No diálogo em curso, falante e destinatário asseguram continuamente uma base firme de compreensão mútua.

A teoria do estabelecimento de base comum de Clark e seus colegas (Clark & Schaefer, 1987, 1989; Clark & Brennan, 1991; Clark, 1996) enfatizava duas grandes fases: o falante apresenta algo e o destinatário precisa aceitá-lo. Eles mencionavam, porém, também uma sequência em três passos no nível micro, semelhante à de Mead e à de Linell e Markova.

  • a. O falante diz algo ao destinatário.
  • b. O destinatário mostra ao falante que compreendeu.
  • c. O falante confirma que o destinatário o compreendeu corretamente. (adaptado de Clark & Schaefer, 1987, p. 22)

Clark e Schaefer apontaram que a resposta do destinatário, no segundo passo, é unilateral: ela fornece um retorno ao falante. Para que haja compreensão mútua, o falante também precisa fornecer um retorno ao destinatário, confirmando que este compreendeu corretamente. Isto é, tanto o destinatário quanto o falante necessitam de evidências de que estão se compreendendo, o que resulta em sequências familiares como esta.

Exemplo 4. Uma telefonista britânica dá a um chamador o número de um restaurante

  • a. Telefonista: “É Cambridge 12345.”
  • b. Chamador: “12345.”
  • c. Telefonista: “Isso mesmo.” (adaptado de Clark & Schaefer, 1987, p. 25)

Neste exemplo, a telefonista apresentou uma informação nova, o chamador manifestou compreensão repetindo parte da informação, e a telefonista confirmou que ele havia compreendido corretamente. Contudo, Clark e Schaefer (1987, 1989; Clark, 1996) não desenvolveram mais esse processo em três passos; embora os três passos sejam evidentes na maioria de seus exemplos, sua análise permaneceu em um nível de dois passos.

A investigação empírica sistemática do modelo em três passos está em sua fase inicial. Bavelas, Gerwing, Allison e Sutton (2011) testaram um modelo em três passos em quase 600 apresentações em 22 díades e constataram que uma sequência em três passos se ajustava a esses dados de modo praticamente perfeito. (Ver também Roberts & Bavelas, 1996.) Além disso, com base na observação intensiva de diálogos face a face, nós (Bavelas, De Jong, Korman, & Smock Jordan, 2012) propusemos e começamos a documentar empiricamente um micromodelo de sequências de base comum em três passos.

  • a. O falante apresenta uma informação nova.
  • b. O destinatário manifesta que compreendeu a informação (ou que não compreendeu, ou que não tem certeza).
  • c. O falante confirma que o destinatário compreendeu (ou não).

Quando essa sequência se completa, falante e destinatário estabeleceram base comum sobre determinado elemento de informação, isto é, demonstraram abertamente que se compreenderam até ali. Propusemos que essas sequências são contínuas ao longo de todo o diálogo e que são os tijolos do coconstruir e da produção de sentido (De Jong et al., 2013).

Documentação empírica das sequências em três passos

Apresentaremos as análises de sequências de base comum a seguir em forma de tabela. (Note-se que muitas vezes é mais fácil ler primeiro a coluna da transcrição e depois voltar para acompanhar as sequências.)

Nota da tradução sobre a diagramação

No original, cada uma das análises a seguir é disposta em uma tabela de duas ou três colunas: a transcrição, a sequência de base comum e, quando pertinente, uma sequência sobreposta. Para a leitura on-line, cada exemplo é dado aqui como transcrição primeiro, seguida de sua análise turno a turno, como os próprios autores sugerem. Na análise, 1a, 1b e 1c são os três passos da primeira sequência, 2a, 2b e 2c os de uma segunda sequência sobreposta, e assim por diante; um mesmo turno de fala pode servir a duas sequências ao mesmo tempo.

Exemplo 4a. O chamador havia pedido à telefonista o número de telefone de um restaurante específico (adaptado de Clark & Schaefer, 1987, p. 25)

  • #1 Telefonista: “É Cambridge 12345.”
  • #2 Chamador: “12345.”
  • #3 Telefonista: “Isso mesmo.”

Sequência de base comum

#1 — 1a: apresenta uma informação.

#2 — 1b: manifesta compreensão da informação.

#3 — 1c: confirma que o chamador compreendeu corretamente.

1: base comum estabelecida — o número é Cambridge 12345.

O exemplo seguinte, tirado de um vídeo de terapia não publicado, é igualmente simples.

Exemplo 5. No início de uma sessão de aconselhamento universitário, a terapeuta havia perguntado ao cliente em que ano ele estava

  • #1 Cliente: “Estou no terceiro ano.”
  • #2 Terapeuta: “Você está no terceiro ano aqui.”
  • #3 Cliente: [aceno rápido de cabeça]

Sequência de base comum

#1 — 1a: apresenta uma informação.

#2 — 1b: manifesta compreensão da informação.

#3 — 1c: confirma que a terapeuta compreendeu corretamente.

1: base comum estabelecida — o cliente está no terceiro ano nesta instituição.

Há várias variações do padrão básico que ainda assim preservam a sequência em três passos. No exemplo 2, acima, a manifestação do destinatário também apresentava uma informação nova, o que iniciava uma segunda sequência sobreposta, na qual alguns enunciados tinham duas funções, como mostra a tabela seguinte.

Exemplo 2a. Um especialista em Nova York fala com um novato e descreve o décimo cartão-postal da série (adaptado de Isaacs & Clark, 1987, p. 28)

  • #1 Especialista: “O décimo é o Cidicorp — o edifício Citicorp?”
  • #2 Novato: “É aquele com o topo inclinado?”
  • #3 Especialista: “Sim.”
  • #4 Novato: “Certo.”

Sequência e sequência sobreposta

#1 — 1a: apresenta uma informação nova.

#2 — 1b: manifesta compreensão com uma descrição alternativa. · 2a: apresenta uma informação nova.

#3 — 1c: confirma que a manifestação é exata. · 2b: manifesta evidência de ter compreendido a descrição alternativa.

1: base comum estabelecida — o décimo cartão-postal é o edifício Citicorp.

#4 — 2c: confirma que o especialista compreendeu a descrição alternativa.

2: base comum estabelecida — o décimo cartão-postal é também o edifício com o topo inclinado.

Note-se que, no modelo de Bavelas et al. (2012), qualquer uma das duas pessoas pode sinalizar falta de compreensão mútua no segundo ou no terceiro passo, de modo que as sequências de base comum também detectam e corrigem erros. Isto é, o destinatário pode mostrar que não compreendeu, e o falante pode indicar que o destinatário entendeu errado. O exemplo 6 ilustra um padrão mais complexo, em que os participantes usaram sequências de base comum para resolver seu problema.

Exemplo 6. A telefonista havia pedido o nome da pessoa sobre a qual a chamadora perguntava, mas de início não compreendeu o que ela disse (adaptado de Clark & Schaefer, 1987, p. 20)

  • #1 Chamadora: “Mrs. Lane.”
  • #2 Telefonista: “Desculpe, poderia repetir, por favor?”
  • #3 Chamadora: “Lane.”
  • #4 Telefonista: [soletrando] “M-A-I?”
  • #5 Chamadora: [soletrando] “L-A-N-E.”
  • #6 Telefonista: “N de Nellie, A-N-E.”
  • #7 Chamadora: “Não, L de London.”
  • #8 Telefonista: “Ah! desculpe, Lane, L de Leonard.”
  • #9 Chamadora: “Sim.”

Sequência e sequência sobreposta

#1 — 1a: apresenta uma informação nova.

#2 — 1b: manifesta que NÃO compreendeu.

#3 — 1c: confirma a NÃO compreensão da telefonista apresentando de novo. · 2a: apresenta uma informação nova (em forma mais simples).

1: base comum estabelecida — a telefonista não compreendeu o nome “Mrs. Lane”.

#4 — 2b: manifesta compreensão POSSÍVEL.

#5 — 3a: apresenta uma informação nova. · 2c: confirma a compreensão ERRADA apresentando a grafia correta.

2: base comum estabelecida — a telefonista não compreendeu o sobrenome soletrado.

#6 — 3b: manifesta compreensão ERRADA.

#7 — 3c: confirma a compreensão ERRADA (“Não”). · 4a: e apresenta de novo (“L de London”).

3: base comum estabelecida — a telefonista não compreendeu o nome soletrado.

#8 — 4b: manifesta compreensão CORRETA.

#9 — 4c: confirma a compreensão CORRETA.

4: base comum estabelecida — o nome é “Lane”.

Pôr tanta ênfase na microssequência em três passos pode parecer estreitamente técnico, mas isso tem implicações radicais. Primeiro, desafia abertamente as visões individualistas e mentalistas do diálogo, tão difundidas, nas quais a unidade básica do diálogo é o turno de fala de cada indivíduo. Nessa visão, cada falante extrai da própria mente um pacote de significado e o entrega (uma visão em um passo, não interativa). Há também uma visão em dois passos, na qual o destinatário indica passivamente sua compreensão. Nossa sequência em três passos insiste em que não houve base comum enquanto o falante não confirmar ao destinatário que ele compreendeu corretamente. A unidade mínima de análise do diálogo é, portanto, uma sequência de base comum em três passos, na qual as contribuições do destinatário são tão importantes quanto as do falante.

A segunda implicação de nosso modelo é que o diálogo é um microprocesso, que avança por pequenas sequências de ações muitas vezes despercebidas, mas nada triviais. Nos exemplos acima, o estabelecimento de base comum não era uma pausa ocasional para resumir a cada poucos minutos. Era constante, e cada contribuição contava, inclusive as repetições, os acenos de cabeça ou os “certo”. Segundo a segundo, os participantes manifestavam e confirmavam continuamente sua compreensão a cada passo, acumulando um alicerce de conhecimento aceito por ambos.

Uma terceira implicação crucial de nosso modelo é que os participantes não estabelecem necessariamente sua base comum sobre aquilo que o falante apresentou. Ao contrário, sua sequência pode levar falante e destinatário a aceitar uma versão modificada. No exemplo 1, em #6, o destinatário interrompeu e manifestou compreensão fornecendo uma descrição inteiramente nova (“uma perna bem gorda”), que o falante aceitou, sobre a qual em seguida estabeleceram base comum e que usaram depois (exemplo 2a). Do mesmo modo, nas duplas mistas de Isaacs e Clark (1987), era o destinatário que contribuía para a versão sobre a qual estabeleciam base comum.

Implicações para a psicoterapia

Uma das primeiras coisas que se tornam óbvias para quem observa qualquer sessão de terapia é que os clientes e o terapeuta estão tendo uma conversa; estão usando a linguagem. E, no entanto, o fato de que fazer terapia envolve usar a linguagem foi, na prática, escondido, escondido como a Carta Roubada de Poe. O fato de que fazer terapia envolve usar a linguagem esteve sempre já bem na superfície das coisas, mas de algum modo passou despercebido. (de Shazer & Berg, 1992, p. 71; itálicos no original)

Embora a linguagem sempre tenha estado ali, à mostra, oferecida à observação, como sustentavam de Shazer e Berg, o campo da psicoterapia ignora em grande medida como a linguagem funciona na interação entre clientes e terapeuta. Compartilhamos a curiosidade de de Shazer e Berg pela linguagem e pela terapia. Propomos, mais precisamente, identificar interações de linguagem entre clientes e terapeuta que sejam diretamente observáveis. Em dado momento, o cliente apresenta sua visão de algo; o terapeuta pode responder (parafraseando-a, por exemplo); e o cliente pode aceitar, corrigir ou rejeitar a versão do terapeuta. Em outro momento, o terapeuta apresenta sua versão de outra coisa, que o cliente pode modificar, e que o terapeuta pode aceitar, corrigir ou rejeitar. Essas sequências de base comum são micronegociações que constroem os significados compartilhados a que chamamos coconstruções.

Escrevendo sobretudo sobre a natureza coconstrutiva dos modelos pós-modernos de terapia, tanto de Shazer (1991, 1994) quanto Gergen (1985, 1999, 2009) teorizaram que, independentemente do modelo empregado pelo terapeuta, todas as conversas de terapia são coconstrutivas. No nível empírico, nossa análise das sequências de base comum sustenta essa afirmação. A seguir, apresentamos nossa análise das sequências em dois diálogos terapêuticos contrastantes: um é focado nas soluções e o outro vem de uma sessão de entrevista motivacional.

Exemplo 7. De Shazer perguntou ao cliente: “O que traz você aqui?” (de um vídeo não publicado; também em de Shazer, 1994, p. 247. Este trecho do diálogo seguinte durou 17,3 segundos.)

  • #1 Cliente: “Bom, neste momento estou lidando com um problema com bebida.”
  • #2 de Shazer: “Mm-hm”
  • #3 Cliente: “É” (muito baixinho).
  • #4 (de Shazer fez uma pausa, olhando para baixo e escrevendo, depois diz: “Certo, e, é” e faz nova pausa.)
  • #5 Cliente: “Às vezes eu bebo —”
  • #6 de Shazer: “Você diz ‘neste momento’” (com ênfase).
  • #7 Cliente: “Bom, eu venho lidando com isso —”
  • #8 de Shazer [em sobreposição]: “Mm-hm.”
  • #9 Cliente (continuando): “— mas neste momento eu simplesmente sinto que é a hora da minha vida de encarar isso de verdade, de fazer alguma coisa a respeito.”

Sequência e sequência sobreposta

#1 — 1a: apresenta uma informação nova.

#2 — 1b: manifesta compreensão com uma resposta mínima.

#3 — 1c: confirma a manifestação de compreensão, também com uma resposta mínima.

1: base comum estabelecida — neste momento o cliente está lidando com um problema com bebida.

#4 e #5 — Na segunda pausa de de Shazer, em #4, o cliente começou a falar (#5), mas se interrompeu assim que de Shazer voltou a falar (#6). Em #6, estavam novamente sincronizados.

#6 — 1b′: segunda manifestação de compreensão do que o cliente disse em #1, desta vez mais explícita.

#7 — 1c′: o cliente confirma a manifestação de compreensão de de Shazer (em #6) começando a dar mais informação sobre o que significava “neste momento”. · 2a: apresenta uma informação nova.

1′: base comum estabelecida — ele está lidando com isso “neste momento”.

#8 — 2b: manifesta compreensão.

#9 — 3a: apresenta uma informação nova sobre esse tema. · 2c: confirma que a manifestação de de Shazer era exata, prosseguindo nesse tema.

2: base comum estabelecida — ele “vem lidando com” isso há algum tempo (seu problema com bebida).

Em #1, o cliente apresentou dois elementos de informação relacionados: “neste momento estou lidando com” e “um problema com bebida”. De Shazer poderia ter comentado, repetido ou parafraseado qualquer um dos dois. Em sua manifestação explícita de compreensão, em #6, escolheu a parte de #1 em que o cliente afirmava estar lidando com seu problema com bebida “neste momento”, o que poderia representar o começo de uma solução. Em #7, o cliente confirmou a manifestação de compreensão de de Shazer começando a construir sobre o tema de lidar com isso. Depois, em #9, confirmou essa manifestação incorporando “neste momento” e acrescentando uma declaração de compromisso mais forte: “é a hora da minha vida de encarar isso de verdade, de fazer alguma coisa a respeito”, e sobre isso também estabeleceram base comum. Depois de #9, o cliente continuou a contribuir com informações sobre esse tema. Outro terapeuta poderia ter escolhido manifestar sua compreensão de #1 com “Você disse ‘problema com bebida’”, o que poderia ter levado a mais detalhes sobre esse outro tema.

O exemplo seguinte mostra uma escolha diferente por parte de um terapeuta.

Exemplo 8. Em um vídeo de entrevista motivacional, Miller (Lewis & Carlson, 2000) perguntava se o cliente tinha uma adição que estivesse se tornando um problema. (O diálogo a seguir durou 12,7 segundos.)

  • #1 Cliente: “O cigarro virou um problema porque eu comecei a jogar futebol, certo?”
  • #2 Miller: “Então você não consegue respirar.”
  • #3 Cliente: “E aí eu não consigo respirar.”
  • #4 Miller: “É.”
  • #5 Cliente: “A garotada é cada vez mais nova, certo?”
  • #6 Miller: “É.”
  • #7 Cliente: “Eles têm metade da minha idade e o dobro do meu tamanho.”
  • #8 Miller: [assente]
  • #9 Cliente: “Estou tendo um problema com isso.”

Sequência e sequência sobreposta

#1 — 1a: apresenta uma informação nova.

#2 — 1b: manifesta compreensão apresentando uma inferência. · 2a: apresenta uma informação nova.

#3 — 1c: confirma a manifestação de compreensão repetindo-a. · 2b: manifesta compreensão da informação nova.

#4 — 1: base comum estabelecida — o cigarro está virando um problema porque ele começou a jogar futebol. · 2c: confirma essa manifestação.

2: base comum estabelecida — o problema entre o cigarro e o futebol é que ele não consegue respirar.

#5 — 3a: apresenta mais uma informação nova sobre esse tema.

#6 — 3b: manifesta compreensão.

#7 — 3c: confirma a manifestação de Miller dando mais detalhes sobre o problema. · 4a: apresenta mais uma informação nova.

#8 — 3: base comum estabelecida — a garotada do futebol é cada vez mais nova. · 4b: manifesta compreensão.

#9 — 5a: apresenta mais uma informação nova. · 4c: confirma sua compreensão prosseguindo.

4: base comum estabelecida — a garotada do futebol tem metade da idade dele e o dobro do tamanho.

Como no exemplo 7, o enunciado inicial do cliente apresentava dois elementos de informação diferentes: “o cigarro virou um problema” e “eu comecei a jogar futebol”. A manifestação do terapeuta (“então você não consegue respirar”) referia-se ao cigarro como problema que atrapalha o desempenho do cliente no futebol, e o diálogo seguinte continuou a empilhar problemas. Um terapeuta diferente poderia ter escolhido manifestar compreensão da outra parte do que o cliente disse, por exemplo com “Ah! Você começou a jogar futebol?”, o que poderia ter levado a uma conversa sobre uma escolha saudável.

Além de documentar como as terapias são coconstrutivas, analisar diálogos de terapia com nosso micromodelo em três passos tem implicações mais específicas sobre o que acontece entre terapeutas e clientes na psicoterapia. Uma delas é que os terapeutas são mais influentes do que muitas vezes se supõe. Eles contribuem continuamente para a direção da coconstrução por meio das paráfrases, das elaborações e das perguntas com que escolhem manifestar compreensão. No exemplo 7, em #6, de Shazer escolheu, por exemplo, concentrar sua manifestação de compreensão no que o cliente estava fazendo no presente, em vez de elaborar sobre o problema. Do mesmo modo, no exemplo 8, em #2, Miller escolheu manifestar sua compreensão dando mais detalhes sobre um problema, em vez de comentar uma possível escolha saudável. Evidentemente, essas escolhas eram coerentes com suas respectivas teorias.

Uma segunda implicação sobre o que acontece na psicoterapia é que os clientes na maioria das vezes cooperam com as contribuições do terapeuta, especificamente confirmando sua manifestação de compreensão. Os terapeutas dos exemplos 7 e 8 forneceram manifestações de compreensão que levaram o diálogo a direções diferentes e, em ambos os casos, os clientes seguiram a condução do terapeuta. O cliente de de Shazer confirmou que “neste momento” era o que sua apresentação inicial queria dizer, ao começar a apresentar mais detalhes sobre sua motivação atual. O cliente de Miller confirmou que “o cigarro virou um problema” era o que sua apresentação inicial queria dizer, ao apresentar mais detalhes sobre como o cigarro lhe criava um problema.

Conclusão

O propósito deste artigo foi tornar concreto e observável o coconstruir na terapia. Encontramos um rico recurso, para esse esforço, na literatura psicolinguística, que contém evidências experimentais persuasivas em favor de uma visão colaborativa, e não autônoma, de como o sentido surge no diálogo. Seguindo cientistas sociais e psicolinguistas que sugeriram que a colaboração no diálogo ocorre em sequências interativas, propusemos um micromodelo em três passos de sequências de base comum como o processo empiricamente observável pelo qual a coconstrução de significados acontece nos diálogos terapêuticos. Até aqui, os diálogos que analisamos sustentaram consistentemente esse modelo empírico, o que, por sua vez, dá apoio às ideias teóricas de de Shazer e de Gergen sobre o que acontece nas interações de psicoterapia entre terapeuta e clientes.

Vemos a conceitualização e os primeiros testes de nosso micromodelo como o começo de uma área importante de estudo científico das interações terapêuticas. Apresentamos aqui alguns primeiros achados sobre as sequências de base comum; em um artigo futuro, pretendemos apresentar mais achados, bem como detalhes sobre as regras de observação para microanalisar essas sequências em diálogos de psicoterapia. Para além de nossa pesquisa, há espaço para que outros retomem essas regras de microanálise e as apliquem em outras investigações, como a microanálise das sequências de base comum no trabalho com casais e famílias, em que três ou mais pessoas participam simultaneamente do diálogo. Acreditamos que essa é uma linha de pesquisa potencialmente fecunda para toda a psicoterapia, e que respeita claramente a convicção de de Shazer de que aprenderemos mais sobre como a psicoterapia funciona concentrando-nos no que acontece na interação entre cliente e terapeuta, e não no que poderia estar acontecendo nas mentes e nas emoções dos clientes.

Quem são os autores

Janet Beavin Bavelas é professora emérita de psicologia em atividade na University of Victoria, na ilha de Vancouver, na Colúmbia Britânica, Canadá. Dedicou sua carreira de psicóloga experimental ao estudo da linguagem e da comunicação no diálogo face a face e foi coautora, com os pioneiros da terapia familiar Don Jackson e Paul Watzlawick, de Pragmatics of Human Communication: A Study of Interactional Patterns, Pathologies and Paradoxes (Pragmática da comunicação humana). Nos últimos anos, com a equipe formada por Korman, De Jong e Smock Jordan, aplicou essa pesquisa — e em especial o método da microanálise — a questões teóricas e práticas da terapia breve focada nas soluções.

Peter De Jong é professor emérito de sociologia e serviço social no Calvin College, em Michigan, Estados Unidos, e ex-praticante da terapia breve focada nas soluções em saúde mental. Assinou muitas publicações com Insoo Kim Berg, entre elas quatro edições de Interviewing for Solutions, e hoje acompanha, forma e assessora quem deseja aprender essa abordagem. Também realiza pesquisas de microanálise sobre conversas de terapia com os colegas Bavelas, Korman e Smock Jordan.

Sara Smock Jordan é associate professor de terapia conjugal e familiar na Texas Tech University, em Lubbock, Texas. É a autora do Solution Building Inventory, realizou pesquisas de resultado e de processo sobre a terapia breve focada nas soluções e participa ativamente do reconhecimento crescente dessa abordagem como prática baseada em evidências. Sara é a presidente que acaba de deixar a Solution-Focused Brief Therapy Association.

Harry Korman é psiquiatra da infância e terapeuta familiar em consultório particular no SIKT, em Malmö, Suécia. Trabalha sobretudo como formador e supervisor de pessoas que desejam aprender a abordagem focada nas soluções. Seu interesse de pesquisa é tornar visível a coconstrução na interação momento a momento entre as pessoas. Harry também mantém a lista de discussão na internet da terapia focada nas soluções (SFT-L).

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Tradução não oficial para o português de The Theoretical and Research Basis of Co-Constructing Meaning in Dialogue, de Janet Beavin Bavelas, Peter De Jong, Sara Smock Jordan e Harry Korman, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n. 2 (2014), doi: 10.59874/001c.75100, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “The Theoretical and Research Basis of Co-Constructing Meaning in Dialogue”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Bavelas, J. B., De Jong, P., Smock Jordan, S., & Korman, H. (2014). Os fundamentos teóricos e empíricos da coconstrução do sentido no diálogo (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/os-fundamentos-teoricos-e-empiricos-da-coconstrucao-do-sentido-no-dialogo (Obra original publicada em 2014 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n° 2; republicada em 2014 por Journal of Solution-Focused Brief Therapy, https://journalsfp.org/article/75100)

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