Trauma Counseling and Resilience · Terapia familiar

Padres Ayudando a Padres: co-construir uma intervenção de saúde mental centrada na família, de, por e para pais imigrantes da América Central

Como construir uma intervenção de saúde mental que não seja imposta de fora a uma comunidade imigrante? Na Virgínia, uma equipe da Universidade George Mason e um comitê de mães centro-americanas, as Amigas de la Comunidad, desenharam em conjunto, reunião após reunião, um grupo de apoio para pais e mães abalados pela pandemia. O relato, etapa por etapa, mostra o que custa e o que rende compartilhar de fato o poder.

Autores Rachael D. Goodman, Colleen K. Vesely, Maribel Tohara Nakamatsu, Victoria Stone e Bethany Letiecq (Universidade George Mason, Virgínia, EUA); Valeria Quintana (Escolas Públicas da Cidade de Alexandria, Virgínia, EUA); Amigas de la Comunidad (coletivo de mães parceiras da comunidade)Primeira publicação Trauma Counseling and Resilience, agosto de 2026Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Padres Ayudando a Padres: co-construir uma intervenção de saúde mental centrada na família, de, por e para pais imigrantes da América Central, de Rachael D. Goodman, Colleen K. Vesely, Maribel Tohara Nakamatsu, Victoria Stone, Valeria Quintana, Bethany Letiecq e Amigas de la Comunidad, publicado na Trauma Counseling and Resilience (Marshall Digital Scholar (Marshall University)) (2026), doi: 10.33470/2997-7088.1095, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; as siglas do conselho consultivo comunitário (CCC) foram traduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Intervenções eficazes e significativas precisam colocar no centro os saberes, as prioridades e a liderança das famílias e das comunidades.

Rachael D. Goodman, Colleen K. Vesely, Maribel Tohara Nakamatsu, Victoria Stone, Valeria Quintana, Bethany Letiecq e Amigas de la Comunidad

Resumo

Na esteira da pandemia de covid-19, nossas parceiras de um enclave de imigrantes centro-americanos relataram uma necessidade crescente de apoiar pais, mães e filhos cuja saúde mental havia sido afetada negativamente pela confluência de estressores sistêmicos subjacentes e de experiências traumáticas. Usando nossa abordagem de pesquisa-ação participativa centrada na família (FCPAR; Letiecq, Vesely, et al., 2022) e sob a orientação do modelo da transcriação (Nápoles & Stewart, 2018), coconstruímos uma intervenção em saúde mental em parceria com membros da comunidade, por meio de nosso conselho consultivo comunitário (CCC). Essencial nesse processo foi construir a intervenção com a comunidade, garantindo que ela estivesse ancorada na cultura e no contexto, para responder às experiências vividas, às necessidades e às forças próprias dessa comunidade. A partir das lentes das teorias interseccionais do trauma e da resiliência (Ezell et al., 2021; Goodman et al., 2017) e da teoria relacional-cultural (RCT; Comstock et al., 2008), trabalhamos com o CCC para integrar informações locais à literatura existente; também codesenvolvemos métodos e processos de implementação e de avaliação da intervenção. Entre os principais achados estão os benefícios e os limites de trabalhar em relação direta com membros da comunidade e a importância crucial da flexibilidade. Oferecemos recomendações para uma cocriação de intervenções significativa e com impacto, capaz de romper a opressão e a marginalização por meio do compartilhamento de poder e da atenção à posicionalidade e ao contexto sociopolítico.

Palavras-chave: trauma, resiliência, imigrantes, parentalidade, transcriação

As desigualdades estruturais existentes nos Estados Unidos levaram a efeitos nocivos desproporcionais da covid-19 sobre comunidades minorizadas, em particular as comunidades imigrantes de origem latino-americana (Echeverri Herrera et al., 2025; Fortuna et al., 2020; Kira et al., 2021). Políticas anti-imigração e racializadas causaram estresse e trauma sistêmicos, históricos e contínuos, ligados à migração, ao status legal, a barreiras financeiras e a barreiras linguísticas (Fortuny et al., 2007; Menjívar & Abrego, 2012; Pereira et al., 2012; Vogt, 2013). A covid-19 agravou essas disparidades, aprofundando problemas como o subemprego, o acesso limitado à saúde, a moradia inacessível e a discriminação sistêmica (Clark et al., 2020; Falicov et al., 2020). As mães latinas, em particular, viveram estresse, ansiedade e depressão acentuados por causa da perda de empregos e do medo (Hibel et al., 2021).

Embora uma infinidade de intervenções e programas tenha sido desenvolvida para enfrentar as disparidades nos desfechos de saúde mental, muitas intervenções têm eficácia limitada porque não estão alinhadas às perspectivas culturais, às necessidades e às forças da comunidade e refletem, em vez disso, os vieses implícitos presentes em grande parte do tratamento em saúde mental (por exemplo, Comas-Díaz, 2016; McKinley et al., 2019; Nápoles & Stewart, 2018). A parceria com a comunidade e a cocriação podem ser usadas para desenvolver intervenções que levem em conta, em vez de ignorar ou perpetuar, o trauma e o estresse sistêmicos contínuos vividos pelas comunidades minorizadas (Echeverri Herrera et al., 2025; Israel et al., 2005; Nápoles & Stewart, 2018). Como parte de um projeto de pesquisa-ação participativa centrada na família (FCPAR) em andamento, este artigo detalha como codesenvolvemos e testamos em caráter piloto uma intervenção de grupo de apoio para pais e mães, Padres Ayudando a Padres: Construyendo Familias Fuertes [Pais que ajudam pais: construindo famílias fortes], em colaboração com nosso conselho consultivo comunitário (CCC). O projeto se fundamentou num referencial interseccional do trauma e da resiliência (Ezell et al., 2021; Goodman et al., 2017; Kira et al., 2021), bem como na teoria relacional-cultural (RCT; Comstock et al., 2008), e foi guiado pelo modelo de transcriação em sete etapas de Nápoles e Stewart (2018). Nosso desenvolvimento colaborativo da intervenção resultou na realização de um grupo de apoio parental em sete sessões semanais de 90 a 120 minutos, com 15 participantes.

Nossa abordagem de pesquisa-ação participativa centrada na família (FCPAR)

Desde 2014, nossa equipe de pesquisa trabalha em parceria com mães imigrantes, vindas sobretudo da América Central e de famílias de status migratório misto, que vivem num enclave étnico do norte da Virgínia, Chalatenango (pseudônimo). Em nosso trabalho, usamos uma estratégia com várias frentes baseada na FCPAR (ver Letiecq, Vesely, et al., 2022; Vesely et al., 2023), que inclui: (1) identificar lideranças comunitárias; (2) criar um conselho consultivo comunitário (CCC) formado por membros da comunidade; (3) construir parcerias com organizações que atendem famílias; (4) colaborar na pesquisa; e (5) implementar etapas de ação. Por meio dessa abordagem, o CCC construiu relações sólidas com instituições locais-chave. Por exemplo, o CCC trabalha regularmente com a rede escolar local para ajudar as escolas a atender às necessidades das crianças e famílias de origem latino-americana. Desde o início de nosso trabalho conjunto, o CCC e as parcerias universitárias vêm realizando pesquisas de forma colaborativa (por exemplo, coleta, análise e divulgação de dados) e iniciativas de ação (por exemplo, plantões jurídicos sobre separação familiar e proteção da criança, eventos “conheça seus direitos”; Letiecq, Vesely, et al., 2022; Vesely et al., 2018), e enfrentaram numerosas questões de interesse da comunidade, entre elas educação e cuidados na primeira infância (Vesely et al., 2021, Vesely, Letiecq, Davis, et al., 2024), moradia (Vesely et al., 2018), covid-19 (Vesely, Letiecq, Davis, et al., 2024), preocupações ligadas à imigração (Letiecq, Davis, et al., 2022) e saúde mental e trauma de pais, mães e filhos (Hernandez Dubon et al., 2024; Letiecq et al., 2019). Embora a composição do CCC tenha variado um pouco desde sua criação em 2014, suas integrantes são recrutadas por organizações parceiras ou por outras integrantes do CCC, por seu interesse e dedicação em ajudar a comunidade em parceria com nossa equipe de pesquisa universitária. O CCC tinha cinco integrantes durante o processo de transcriação; todas eram mães imigrantes latinas (da América Central ou do México) e viviam no bairro de Chalatenango. A missão do CCC orienta a participação nas ações que realizamos em conjunto: Somos un grupo de madres trabajando juntas para el mejoramiento bienestar de nuestras familias y comunidad. [Somos um grupo de mulheres que trabalham juntas pela melhoria e pelo bem-estar de nossas famílias e de nossa comunidade.]

Os princípios da FCPAR, como os de outras abordagens comunitárias, buscam situar o poder nas comunidades e colocar, neste caso, as famílias na condução de todos os aspectos de nossos projetos colaborativos, com o objetivo de democratizar a produção e a divulgação do conhecimento, reconhecendo que as famílias sofrem marginalização estrutural não apenas nos sistemas sociais, mas também na pesquisa (Fals Borda, 2001; Freire, 1982; Israel et al., 2005; Letiecq, Vesely, et al., 2022; Wallerstein et al., 2018). As abordagens FCPAR de desenvolvimento de intervenções em saúde mental, e a pesquisa relacionada, incluem intencionalmente as famílias que pretendem atender, ao passo que abordagens mais tradicionais costumam excluí-las. A exclusão das famílias mais afetadas pelas iniquidades em saúde mental, em particular as comunidades não brancas e economicamente marginalizadas, é uma manifestação de uma opressão sistêmica antiga que acaba cristalizando as disparidades que tantas iniciativas dizem querer reduzir. Embora muitas abordagens semelhantes usem processos dirigidos pela comunidade, a FCPAR se distingue porque nós (parcerias universitárias) trabalhamos diretamente com as famílias, e não por meio de organizações comunitárias, o que leva a relações interpessoais mais diretas, a menos estruturas organizacionais com que negociar e a mais decisões, e portanto mais poder, nas mãos de membros da comunidade. Mais importante, seguindo a FCPAR, nos comprometemos a agir em conjunto, muitas vezes com base nos resultados de nossas pesquisas, de modo que as famílias e as comunidades sejam as beneficiárias diretas de nossos esforços coletivos para fortalecer a resiliência comunitária.

A covid-19 e o contexto comunitário

O bairro de Chalatenango foi fortemente atingido pela covid-19, e o setor censitário local foi classificado como “ponto crítico” por causa das altas taxas de positividade (Miles, 2020). Muitas pessoas adultas estavam empregadas de forma desproporcional em setores afetados pela pandemia, como cuidados, hotelaria e restaurantes (Gould et al., 2020), e muitas famílias viviam em moradias compartilhadas, sem possibilidade de isolamento (Vesely et al., 2018). O impacto desproporcional da pandemia refletiu o racismo estrutural e as inúmeras disparidades em saúde infligidas há muito tempo a comunidades oprimidas (Grant, 2025). No início da pandemia, o CCC nos pediu com insistência, como parcerias universitárias, que ajudássemos a documentar as experiências da comunidade por meio de entrevistas em profundidade. Essas entrevistas tratavam de cuidados com as crianças, educação, emprego, moradia e saúde física e mental. Ao analisar as entrevistas com o CCC (Vesely, Letiecq, Davis, et al., 2024), encontramos preocupações disseminadas que refletiam iniquidades antigas e atuais para comunidades minorizadas, entre elas: prejuízos à educação das crianças, riscos de exposição à covid-19, efeitos sobre a saúde mental de crianças, pais e mães, e os impactos do tempo excessivo de tela sobre a juventude. Da mesma forma, a rede escolar local relatava preocupações crescentes com o trauma e os problemas de comportamento de estudantes. À medida que a pandemia continuava a perpetuar ciclos de disparidade, o CCC reconheceu a necessidade urgente de apoiar a saúde mental tanto de pais e mães quanto de filhos. As integrantes contaram: “Estamos preocupadas com as mudanças nos nossos filhos e nas nossas famílias. Não sabemos como nos recuperar do que foi perdido.” Com essa preocupação no centro de nosso trabalho, cocriamos em conjunto um grupo de apoio parental para pais e mães que imigraram da América Central, buscando romper as dinâmicas de poder tradicionais ao fazer com que as experiências vividas e o saber de membros da comunidade conduzissem o desenvolvimento e a implementação da intervenção.

Colocar a cultura e o contexto no centro do desenho de intervenções terapêuticas

Nápoles e Stewart (2018), que criaram o referencial da transcriação, argumentam que muitas intervenções fracassam, sobretudo em comunidades que enfrentam disparidades persistentes de saúde, por negligenciar fatores contextuais, culturais e sistêmicos, o que muitas vezes decorre da falta de parceria com as comunidades. Essas preocupações foram levantadas em diversas comunidades minorizadas e refletem os sistemas de opressão que impedem o desenvolvimento de intervenções eficazes. Por exemplo, McKinley et al. (2019) e Dixon et al. (2007) observam que intervenções em saúde mental desconectadas da cultura, em especial para comunidades indígenas, podem ser ineficazes ou até prejudiciais. Comas-Díaz (2016) enfatiza que intervenções terapêuticas eficazes precisam integrar fatores culturais e enfrentar questões sistêmicas, como o racismo, no caso das comunidades minorizadas. Gone (2009), cujo trabalho se insere na pesquisa indígena, sustenta que adaptar tratamentos existentes para fins culturais e contextuais não basta e que as intervenções devem ser desenvolvidas com as comunidades, integrando suas crenças e práticas culturais.

Temas semelhantes valem para a comunidade em foco, reforçando a necessidade de colocar os fatores culturais e sistêmicos no centro de intervenções eficazes. Por exemplo, Hurtado-de-Mendoza et al. (2014) constataram que imigrantes latinas nos Estados Unidos vivem altos níveis de isolamento por causa de barreiras sistêmicas. Menjívar e Abrego (2009) discutiram como a instabilidade jurídica entre imigrantes centro-americanos nos Estados Unidos afeta negativamente a saúde mental e as relações entre pais, mães e filhos; essa instabilidade é uma forma de violência legal própria da experiência de imigração centro-americana (Menjívar & Abrego, 2012). Kaltman et al. (2016) destacaram a importância dos fatores sistêmicos para o bem-estar da população centro-americana nos Estados Unidos, pedindo mais pesquisas sobre essas experiências. Ainda assim, a maioria das intervenções em saúde mental para imigrantes de origem latino-americana se concentra em fatores individuais, negligenciando ou até agravando questões sistêmicas, o que ressalta a necessidade de intervenções coconstruídas com as comunidades (Echeverri Herrera et al., 2025).

Desenvolvimento da intervenção conduzido pela comunidade

A coconstrução de Padres Ayudando a Padres seguiu o referencial da transcriação, um modelo em sete etapas desenhado para enfrentar disparidades em saúde (Nápoles & Stewart, 2018), colocando no centro as necessidades, os valores, as circunstâncias e as características específicas que as intervenções existentes muitas vezes deixam de considerar (por exemplo, Echeverri Herrera et al., 2025; McKinley et al., 2019). A transcriação usa uma abordagem comunitária, na qual as intervenções são desenhadas com a comunidade desde o início, em vez de adaptadas depois. Ela coloca a cultura e o contexto no centro, como condições essenciais para a sustentabilidade, a eficácia e uma avaliação precisa. O processo de transcriação inclui: (1) identificar a infraestrutura comunitária e engajar parcerias; (2) especificar a teoria; (3) identificar insumos; (4) desenhar a intervenção; (5) desenhar os métodos de estudo; (6) desenvolver capacidades; e (7) implementar a intervenção. Nossa abordagem também foi guiada pela ferramenta “ábaco do grau de colaboração” de Doberneck e Dann (2019), que oferece um referencial para apoiar equipes de pesquisa comunitária a refletir de forma crítica e concreta sobre liderança e compartilhamento de poder em cada fase da pesquisa. Essa ferramenta alimentou nossa reflexão sobre as formas de compartilhar o poder e contribuiu para a construção de confiança e para a tomada de decisão colaborativa. De modo geral, esses referenciais guiaram nosso processo, sempre dando prioridade à capacidade de resposta à comunidade. Embora as etapas da transcriação sejam apresentadas de forma linear, nós as percorremos de modo iterativo; a tabela 1 descreve nosso processo em ordem cronológica, indicando qual ou quais etapas da transcriação foram abordadas. A descrição abaixo indica os momentos em que alguns componentes foram tratados em outros momentos do processo, em vez da descrição linear apresentada na tabela.

Tabela 1 — Atividades de desenvolvimento e insumos

Para cada período: atividades e, em seguida, insumos mobilizados. Na tabela original, as Amigas são as integrantes do CCC.

Fase fundacional: etapas 1, 2 e 3 da transcriação (1) identificar a infraestrutura comunitária e engajar parcerias; (2) especificar a teoria; (3) identificar insumos.

  • Semestre de outono de 2021. Atividades: as Amigas levantam, nas reuniões do CCC, preocupações sobre saúde mental e parentalidade e identificam a necessidade de apoio. Insumos: conversas com parcerias escolares que acrescentam contexto e informações às preocupações e necessidades descritas pelas Amigas.
  • Semestres de primavera e verão de 2022. Atividades: elaboração, em parceria com as Amigas e com outras parcerias docentes, de um pedido de subsídio inicial para financiar o desenvolvimento de um grupo de apoio parental próprio para a comunidade. Insumos-chave que guiaram nosso processo: o referencial da transcriação (Nápoles & Stewart, 2018), junto com a abordagem geral de pesquisa-ação participativa centrada na família (FCPAR; Israel et al., 2005; Wallerstein et al., 2018) proposta para o codesenvolvimento da intervenção; o ábaco do grau de colaboração (Doberneck & Dann, 2019), usado para cuidar do compartilhamento de poder ao longo do processo. Insumos-chave que guiaram nosso enquadramento teórico: trauma e resiliência interseccionais (Ezell et al., 2021; Kira et al., 2021), como perspectiva teórica de base; teoria relacional-cultural (RCT; Comstock et al., 2008; Jordan, 2024), que orientou a mudança de comportamento.

Fase de desenvolvimento: etapas 4, 5 e 6 da transcriação (4) desenhar a intervenção; (5) desenhar os métodos de estudo; (6) desenvolver capacidades. Etapas secundárias da transcriação: 2 e 3 (2) especificar a teoria; (3) identificar insumos.

  • Setembro de 2022. Reunião no 1: definição de três temas principais para o grupo de apoio (1. habilidades parentais; 2. recursos e defesa de direitos; 3. saúde mental de pais e mães). Insumos: experiências vividas e dados informais coletados pelas Amigas na comunidade; dados de entrevistas qualitativas (formais) coletados pela equipe de pesquisa durante a covid-19 e analisados em colaboração com as Amigas; literatura existente e saber da equipe de pesquisa sobre trauma, estresse e parentalidade.
  • Setembro a novembro de 2022. Reuniões nos 2, 3, 4 e 5: desenvolvimento do conteúdo do grupo de apoio para o tema 1 (habilidades parentais). Insumos: contribuições das Amigas sobre preocupações parentais; integrantes da equipe de pesquisa com experiência em parentalidade, confiança e intencionalidade, contextos difíceis e famílias imigrantes; literatura sobre parentalidade em contextos perigosos (Ceballo et al., 2012; Cruz-Santiago & Ramírez García, 2011) e sobre construção de confiança (Borelli et al., 2021).
  • Dezembro de 2022. Reunião no 6: desenvolvimento do conteúdo do grupo de apoio para o tema 2 (recursos e defesa de direitos). Insumos: experiências vividas e dados informais coletados pelas Amigas na comunidade; contribuições de parcerias escolares e comunitárias.
  • Janeiro de 2023. Reunião no 7: revisão do conteúdo do tema 1 (habilidades parentais) diante de preocupações emergentes da comunidade; desenvolvimento do conteúdo do tema 3 (saúde mental de pais e mães). Insumos: experiências vividas e dados informais coletados pelas Amigas na comunidade; saber da equipe de pesquisa em saúde mental.
  • Fevereiro de 2023. Reunião no 8: organização do conteúdo num roteiro geral do grupo de apoio, resultando numa intervenção de sete sessões; esclarecimento dos objetivos gerais do grupo. Insumos: experiências vividas e dados informais coletados pelas Amigas na comunidade; saber da equipe de pesquisa em facilitação de grupos de saúde mental.
  • Fevereiro de 2023. Reunião no 9: revisão do conteúdo do tema 1 (habilidades parentais) para reforçar o alinhamento cultural. Insumos: referencial BRAVING (Brown, 2017) para apoiar a construção de confiança; contribuições das Amigas sobre alinhamento cultural.
  • Março de 2023. Reunião no 10: escolha do nome do grupo; discussão de preocupações da comunidade. Insumos: experiências vividas e dados informais coletados pelas Amigas na comunidade.
  • Março de 2023. Reunião no 11: integração do conteúdo ao referencial da árvore da vida. Insumos: literatura sobre a árvore da vida, de Borelli et al. (2021) e de Ncube e Denborough (conforme citação em Pells & Treisman, 2012).
  • Abril de 2023. Reunião no 12: definição dos processos e da logística do grupo; análise de possíveis instrumentos de avaliação. Insumos: literatura e medidas existentes, Kansas Parental Satisfaction Scale e Stress of Immigration Survey (Borelli et al., 2021; James et al., 1985; Sternberg et al., 2016); saber da equipe de pesquisa e das Amigas.
  • Maio de 2023. Reunião no 13: revisão e confirmação das fontes de dados. Insumos: literatura e medidas existentes, Kansas Parental Satisfaction Scale e Stress of Immigration Survey (Borelli et al., 2021; James et al., 1985; Sternberg et al., 2016); saber da equipe de pesquisa e das Amigas.
  • Maio a agosto de 2023. Pausa de verão por causa da disponibilidade limitada das integrantes das Amigas.
  • Agosto de 2023. Reunião no 14: confirmação da logística do grupo e do recrutamento.
  • Setembro de 2023. Finalização do manual da intervenção. Insumos: retornos sobre o conteúdo e a implementação de parcerias escolares com longa experiência de trabalho com a comunidade, além de contribuições linguísticas e culturais.
  • Setembro de 2023. Finalização e aprovação pelo comitê de ética (IRB).
  • Setembro de 2023. Mudança temporária do desenvolvimento do grupo de apoio para o enfrentamento de preocupações atuais da comunidade, já discutidas em reuniões anteriores (nos 9, 10, 11 e 14). Prioridade para a preparação e a realização de uma reunião com a direção escolar para discutir a segurança nos ônibus e nas escolas.
  • Outubro de 2023. Encontro individual com uma integrante das Amigas para testar o protocolo de entrevista.
  • Implementação adiada por falta de um local adequado disponível.
  • Agosto de 2024. Confirmação da logística e recrutamento de participantes. Insumos: apoio e conselhos de parcerias escolares e comunitárias, bem como das Amigas.
  • Agosto a setembro de 2024. Recrutamento e acolhimento de reforços adicionais para a facilitação.

Fase de implementação: etapa 7 da transcriação (7) implementar a intervenção. Etapas secundárias da transcriação: 3, 4 e 6 (3) identificar insumos; (4) desenhar a intervenção; (6) desenvolver capacidades.

  • Agosto a setembro de 2024. Realização das entrevistas pré-intervenção.
  • Setembro a outubro de 2024. Realização das 7 sessões do grupo de apoio: (1) criar vínculo e estabelecer objetivos; (2) exercer a parentalidade nos Estados Unidos; (3) melhorar a comunicação e a confiança; (4) recursos e defesa de direitos; (5) orgulho cultural; (6) bem-estar de pais e mães; e (7) aprendizados e encerramento. Insumos: reuniões semanais de preparação em cofacilitação antes de cada encontro do grupo de apoio, para planejar e revisar conforme necessário; conversas de avaliação após cada sessão com toda a equipe de facilitação; integração de psicoeducação sobre a regulação do sistema nervoso (Porges, 2020) e de práticas de regulação de base somática (Levine, 1997; Rothschild, 2021).
  • Outubro a novembro de 2024. Realização das entrevistas pós-intervenção.
  • Dezembro de 2024 em diante. Engajamento mantido por meio de encontros de grupo, oficinas e mensagens em grupo. Insumos: retornos e pedidos das Amigas e de membros do grupo; retornos de parcerias escolares e comunitárias.

Etapa 1: identificar a infraestrutura comunitária e engajar parcerias

Segundo o referencial da transcriação, a primeira etapa para criar uma intervenção cultural e estruturalmente humilde (Asabor et al., 2024) é identificar os espaços comunitários mais adequados e as “parcerias e formar uma coalizão universidade-comunidade para enfrentar a disparidade em saúde” (Nápoles & Stewart, 2018, p. 5). As integrantes de nosso CCC foram nossas principais parceiras e codesenvolvedoras da intervenção; todas são mães imigrantes da América Central ou do México, moradoras da comunidade e a força motriz deste projeto. Havia anos elas eram parceiras fundamentais em projetos de FCPAR, atuando como lideranças e defensoras da comunidade. Também nos apoiamos em nossas relações com integrantes da equipe da rede escolar local, que ofereceram recursos para apoiar a implementação e a sustentabilidade da intervenção: apoio em espécie (por exemplo, alimentação e cuidado das crianças), locais de reunião, recrutamento e apoio à facilitação. Docentes e estudantes da universidade com saber pertinente e habilidades linguísticas também foram parcerias decisivas. Por exemplo, foram incluídas parcerias docentes com experiência em saúde mental e parentalidade e parcerias estudantis com habilidades linguísticas e saber cultural.

Etapa 2: especificar a teoria

O referencial da transcriação aborda a teoria em dois componentes distintos, mas que se cruzam: (a) identificar um “referencial de determinantes socioecológicos das disparidades” e (b) identificar uma “base teórica para mudanças de comportamento” (Nápoles & Stewart, 2018, p. 5). Primeiro, o trauma interseccional identifica como o trauma é moldado por formas sobrepostas de injustiça social e discriminação (Ezell et al., 2021), vinculando o racismo, nos níveis estrutural, interpessoal e individual, aos desfechos em saúde física e mental (Bailey et al., 2021; Carter, 2007; Goodman & West-Olatunji, 2010; Kira, 2021). A saúde mental, portanto, precisa ser compreendida em relação às experiências vividas e às identidades das pessoas. Do mesmo modo, a resiliência, isto é, a capacidade de enfrentar, resistir ou se recuperar, precisa ser vista por uma lente interseccional que considere fatores contextuais e culturais (Goodman & West-Olatunji, 2008; Goodman et al., 2017; Raghavan & Sandanapitchai, 2020). Essas dimensões eram especialmente pertinentes para esse enclave de imigrantes centro-americanos, dados os importantes desafios estruturais que moldam o trauma e a resiliência (Fortuny et al., 2007; Goodman et al., 2017; Letiecq et al., 2019).

Em segundo lugar, nossa abordagem da mudança de comportamento e do bem-estar se inspirou na RCT. A RCT enfatiza que o crescimento acontece por meio da conexão, priorizando o empoderamento mútuo, o engajamento e a justiça social (Comstock et al., 2008; Jordan, 2024; Westcott & Grimes, 2023). Como imigrantes muitas vezes vivem isolamento e acesso limitado ao apoio, especialmente em ambientes anti-imigração (Hurtado-de-Mendoza et al., 2014; Mora et al., 2014), a RCT é especialmente pertinente para comunidades imigrantes que enfrentam esse trauma ligado à opressão, pois promove a cura por meio das relações (Birrell & Freyd, 2006). A RCT tem sido aplicada com eficácia na comunidade de origem latino-americana. Por exemplo, foi usada para alinhar o aconselhamento escolar aos valores de pais e mães de origem latino-americana (Tuttle & Haskins, 2017), para construir parcerias entre famílias e escolas (Tuttle et al., 2022) e para explorar as forças relacionais de casais imigrantes de origem latino-americana (Silverio et al., 2025). Ruiz (2012) também destacou o valor da RCT para tratar de conexão, poder e pertinência cultural no trabalho com imigrantes latinas.

Revisamos os referenciais teóricos com o CCC para verificar sua adequação às experiências das integrantes, incluindo o estresse e o trauma comunitários, como a discriminação e as políticas de imigração injustas. Também observamos como esses fatores contribuem para o isolamento, prejudicam a saúde mental e dificultam o apoio comunitário, sobretudo entre imigrantes (Hurtado-de-Mendoza et al., 2014; Rogers, 2025). Essas ideias ressoaram entre as integrantes do CCC, assim como a importância de cultivar relações de apoio mútuo. Por exemplo, uma integrante do CCC contou como a falta de um número de seguridade social impedia pais e mães de acompanhar as excursões escolares dos filhos, gerando estresse, tristeza e desengajamento. Na comunidade, “todo mundo se envolveu para lutar contra isso”, e as famílias conseguiram mudar a regra, o que mostra a força da resiliência, da comunidade e da ação coletiva para superar injustiças sistêmicas. Ao cocriarmos Padres Ayudando a Padres, integramos outras teorias e perspectivas que ajudaram a tratar de áreas específicas que o CCC considerava importantes para a intervenção (detalhes abaixo).

Etapa 3: identificar insumos para ajudar a desenvolver o programa

O referencial da transcriação ressalta a importância de que o desenvolvimento da intervenção seja informado por insumos (a) das evidências científicas e (b) da comunidade. Usamos um processo iterativo e integrativo, que combinou a pesquisa científica e as contribuições das integrantes do CCC, permitindo que uma fonte informasse a outra e moldasse uma compreensão matizada e localmente ancorada das questões. As evidências científicas incluíam a literatura existente sobre trauma interseccional (por exemplo, Ezell et al., 2021) e sobre o impacto da covid-19 (por exemplo, Hibel et al., 2021), com foco em comunidades semelhantes. Durante a transcriação de Padres Ayudando a Padres, recorremos a outros estudos para embasar nossa abordagem e tratar de questões identificadas pelo CCC. Por exemplo, as integrantes do CCC relataram sentir um estresse importante ao tentar impor limites aos filhos, sobretudo no uso de tecnologia. Disseram que as crianças pareciam “viciadas” em tecnologia e a usavam para “lidar com os próprios sentimentos ruins”, como os adultos muitas vezes fazem. O CCC decidiu que ferramentas para lidar com o sofrimento emocional eram essenciais para que pais e mães pudessem apoiar a si e aos filhos; por isso, nos baseamos na teoria polivagal (Porges, 2020, 2022) para incorporar às sessões educação sobre o sistema nervoso e habilidades de regulação que apoiassem pais e mães.

Além disso, as pesquisas anteriores de nossa equipe com essa comunidade serviram tanto como evidência científica quanto como informação de base comunitária (ver Letiecq et al., 2019; Vesely, Letiecq, Davis, et al., 2024). Por exemplo, nossa pesquisa anterior à covid-19 constatou que depressão, trauma, condições de moradia e preocupações econômicas eram questões comuns na comunidade (ver Letiecq et al., 2019), enquanto Vesely, Letiecq, Davis, et al. (2024) trouxeram elementos sobre as experiências da comunidade durante a covid-19, em particular quanto a cuidados com as crianças, educação e emprego. Além disso, nossos trabalhos anteriores (ver Letiecq, Vesely, et al., 2022; Vesely, et al., 2018, 2021, 2023; Vesely, Letiecq, Choe, et al., 2024) orientaram nossa estratégia de implementação da FCPAR e nossos esforços de codificação comunitária.

Contribuições específicas da comunidade vieram também de uma pesquisa escolar local que mostrou que pais e mães priorizavam apoio para preocupações de saúde mental. Parcerias escolares relataram que o interesse das famílias por apoio em saúde mental vinha de preocupações crescentes com o estresse ligado à pandemia e com comportamentos ligados ao trauma nos filhos, como a exposição a riscos e a depressão. Com base nas contribuições da comunidade e nas observações do CCC, nossas reuniões semirregulares do CCC passaram a se concentrar em preocupações emergentes ligadas à covid-19, à saúde mental e à parentalidade. As conversas contínuas com as parcerias escolares reforçaram o consenso crescente de que eram necessárias intervenções para apoiar a saúde mental de pais, mães e filhos. Assim, no início de 2022, colaboramos com o CCC para elaborar uma proposta de financiamento para um grupo de apoio parental adaptado às necessidades, aos valores e à cultura da comunidade. A proposta foi financiada por um subsídio inicial da universidade destinado a apoiar o desenvolvimento da intervenção, sua implementação e um estudo piloto de avaliação. Esse foi um componente decisivo do engajamento no processo de transcriação, pois nos permitiu remunerar as integrantes do CCC por seu tempo, um princípio-chave do trabalho em FCPAR.

Etapa 4: desenhar a intervenção

No referencial da transcriação, uma etapa-chave é (co)desenhar a intervenção com a comunidade, de modo que ela incorpore as evidências científicas e esteja alinhada, em termos contextuais e culturais, às experiências e necessidades da comunidade. A coconstrução da intervenção é necessária para alcançar esse alinhamento e essa pertinência, submetendo protótipos e planos de intervenção ao CCC (Nápoles & Stewart, 2018).

Em 2022, começamos a codesenhar Padres Ayudando a Padres com o CCC. Esses esforços de desenho e desenvolvimento duraram cerca de um ano (ver tabela 1). Em conformidade com os princípios da FCPAR, as integrantes do CCC foram remuneradas por cada reunião de que participaram, com recursos do subsídio inicial. De modo geral, nessas reuniões, revisamos vários insumos (dados anteriores, literatura existente, experiências vividas e conhecimentos das integrantes do CCC), que orientaram o desenvolvimento dos temas principais, dos objetivos, do conteúdo das sessões, de sua condução, da avaliação da intervenção e de sua logística. Tal como o CCC a imaginou, a intervenção foi desenhada como um grupo de apoio, e não como aconselhamento ou terapia, enfatizando a importância da aprendizagem colaborativa e do apoio recíproco entre membros, complementados por informações trazidas por especialistas.

As sessões de desenvolvimento do grupo de apoio foram estruturadas em torno dos três focos que o CCC considerou essenciais: (1) habilidades parentais, (2) recursos e defesa de direitos e (3) saúde mental de pais e mães. Em conjunto, traduzimos cada um desses focos gerais nas sete sessões e intervenções do grupo de apoio (ver tabela 1). Por exemplo, em relação às habilidades parentais, o CCC identificou questões que pais e mães da comunidade tinham dificuldade de manejar com os filhos. A dificuldade de impor limites ao uso de tecnologia surgiu como tema; as integrantes do CCC disseram que pais e mães se sentiam “impotentes e sob estresse” quando as crianças, por exemplo, “faziam birra e se recusavam a fazer coisas como tarefas domésticas enquanto jogavam videogame”. O CCC decidiu oferecer a pais e mães habilidades para impor limites e manejar comportamentos, reconhecendo ao mesmo tempo que as crianças podem sentir que “‘precisam’ do celular ou do tablet porque se sentiam estressadas e entediadas durante a covid-19 e agora”. Em resposta, a quarta autora, especializada no trabalho com jovens e com pais e mães, participou da reunião seguinte do CCC para ajudar a identificar maneiras de apoiar as famílias na imposição de limites, sobretudo à medida que os filhos crescem. Ela envolveu o CCC na identificação de práticas parentais eficazes e ineficazes, de formas de apoiar as crianças em diferentes idades e fases e de objetivos parentais. Na reunião seguinte, revisamos os temas e as sugestões que haviam surgido, e o CCC indicou quais aspectos estavam alinhados a seus valores pessoais e culturais. Os principais aprendizados dessas discussões, depois incorporados a várias sessões, incluíram habilidades para refletir sobre objetivos parentais, construir confiança na relação entre pais, mães e filhos e considerar questões culturais próprias de famílias imigrantes que criam os filhos nos Estados Unidos.

Ao longo do processo, focamos intencionalmente nas interseções entre cultura, contexto e parentalidade como imigrantes nos Estados Unidos, bem como nas preocupações de saúde mental relacionadas. Por exemplo, o CCC identificou o orgulho cultural como um tema importante de sessão, dizendo que as famílias queriam ensinar os filhos a não “perder sua cultura”, mas que isso pode ser difícil. As integrantes descreveram como, à medida que os filhos se tornavam mais “americanos”, às vezes relutavam mais em expressar orgulho cultural, sobretudo no clima anti-imigração (Eyal et al., 2023). As integrantes do CCC queriam que os filhos compreendessem suas histórias de migração e as injustiças sistêmicas que elas viveram, inclusive conhecendo “as coisas que foram injustas” e “a história, o perigo e a luta” de suas histórias de imigração.

Na mesma linha, as integrantes do CCC contaram que pais e mães queriam “mais ideias de como criar os filhos de um jeito diferente do de seus próprios pais”, que usavam a “correção física”, e perguntaram: “Quais são outras maneiras de corrigir o comportamento?” A pessoa que assina em segundo lugar apresentou a literatura sobre parentalidade em contextos perigosos (Ceballo et al., 2012; Cruz-Santiago & Ramírez García, 2011), dadas as ameaças contínuas de deportação, detenção e criminalidade que as famílias relataram viver. Combinando isso com habilidades de construção de confiança, conseguimos criar um referencial no qual pais e mães podiam usar intencionalidade e discernimento para pensar na “ferramenta” certa para cada situação, em sintonia com seu(s) objetivo(s) parental(is). Ou seja, se o objetivo identificado fosse a segurança, estratégias de controle, monitoramento ou afastamento seriam apropriadas; já se o objetivo fosse o vínculo ou a construção de confiança, estratégias de empatia ou de companheirismo seriam apropriadas (por exemplo, Borelli et al., 2021; Ceballo et al., 2012).

Enquanto construíamos esse componente, o CCC relatou que pais e mães tinham dificuldade em discernir seu objetivo e sua estratégia parental; diante de uma situação difícil com os filhos, a sobrecarga ou a desregulação muitas vezes predominavam, uma experiência que ressoou com os pais e mães da equipe de pesquisa e que reflete a extensa literatura sobre a reatividade do sistema nervoso em situações estressantes (por exemplo, Levine, 1997; Porges, 2020, 2022; Rothschild, 2021). Para ajudar pais e mães a compreender a própria reatividade em suas interações, sobretudo à medida que o estresse contextual da covid-19 se prolongava, acrescentamos à intervenção psicoeducação sobre a regulação do sistema nervoso (Porges, 2020) e práticas de regulação de base somática (Levine, 1997; Rothschild, 2021), ajudando as famílias a desenvolver mais capacidade de responder aos filhos com intencionalidade.

Após sete reuniões de desenvolvimento da intervenção, a equipe de pesquisa organizou as ideias e redigiu sete temas de sessões do grupo de apoio que abordavam os três focos iniciais: (1) criar vínculo e estabelecer objetivos; (2) exercer a parentalidade nos Estados Unidos; (3) melhorar a comunicação e a confiança; (4) recursos e defesa de direitos; (5) orgulho cultural; (6) bem-estar de pais e mães; e (7) aprendizados e encerramento. Na oitava reunião de desenvolvimento, o CCC aprovou esses temas como fiéis a seus objetivos. Em conjunto, identificamos então os objetivos de cada sessão e o conteúdo adicional necessário para alcançá-los. Por exemplo, o CCC observou que construir confiança era um objetivo essencial para pais e mães; a terceira autora identificou o referencial BRAVING de Brown (2017), que descreve como criar relações de confiança. O CCC verificou que esse referencial ressoava cultural e contextualmente, e ele foi adotado na sessão 3, “Melhorar a comunicação e a confiança”. Além disso, sugerimos usar o referencial da árvore da vida para ancorar a intervenção, com base no trabalho de Borelli et al. (2021) e de Ncube e Denborough (conforme citação em Pells & Treisman, 2012). A árvore da vida se baseia numa atividade centrada nas forças, na qual cada pessoa associa partes da árvore a facetas específicas de sua vida. Por exemplo, o tronco (el tronco) representa habilidades e forças, enquanto os galhos (las ramas) representam sonhos e esperanças. As integrantes do CCC examinaram e confirmaram o alinhamento cultural e a pertinência dessa metáfora como fio condutor das sessões do grupo de apoio.

Outras reuniões de desenvolvimento de Padres Ayudando a Padres se concentraram na facilitação do grupo. O CCC avaliou e escolheu opções de facilitação que apresentamos, bem como ideias próprias. Por exemplo, o CCC sugeriu oportunidades para que membros do grupo compartilhassem “suas próprias dicas, para aprendermos com as forças umas das outras”. Perguntamos se pedir às pessoas participantes que escrevessem ou desenhassem as respostas seria uma técnica eficaz; a resposta foi que algumas pessoas gostam disso, mas outras “preferem falar”, e por isso incorporamos várias formas de resposta para membros do grupo.

O CCC também tomou decisões sobre aspectos logísticos. Por exemplo, em vez de focar em famílias com filhos de uma certa idade e adaptar Padres Ayudando a Padres a preocupações próprias dessa faixa etária, o CCC decidiu que o grupo deveria ser aberto a pais e mães de filhos de qualquer idade, “para que as famílias aprendam umas com as outras, tendo filhos em fases diferentes”. O CCC definiu a duração de cada sessão (60 a 90 minutos), o horário (18h30, num dia útil), o local (um centro comunitário de confiança no bairro), o incentivo (US$ 25 por sessão) e o número de sessões (sete, “para que pais e mães possam construir confiança ao longo do tempo”).

Depois que o CCC decidiu o conteúdo e a logística, a equipe de pesquisa criou o manual de Padres Ayudando a Padres para as pessoas facilitadoras do grupo. A pessoa que assina em primeiro lugar e a terceira autora trabalharam juntas na redação do documento em inglês; em seguida, a terceira autora o traduziu para o espanhol, de modo que as instruções ficassem lado a lado nas duas línguas. Para cada sessão, definimos: título, citação norteadora (vinda do processo de desenvolvimento do CCC), objetivos, intervenções, materiais, referências e instruções cronometradas para a facilitação.

Etapa 5: desenhar os métodos de estudo

O referencial da transcriação orienta a pesquisa na criação de avaliações rigorosas e adequadas em termos culturais e contextuais para intervenções comunitárias, incluindo ferramentas de coleta e análise de dados sob medida. Planejamos usar fontes de dados qualitativas e quantitativas no estudo piloto de Padres Ayudando a Padres. Para determinar quais fontes de dados seriam adequadas, discutimos os objetivos do programa com o CCC, perguntando: o que vocês gostariam que as pessoas participantes tivessem ou sentissem depois de frequentar este grupo de apoio? As integrantes do CCC observaram que um objetivo era sentir-se “mais confiante na criação dos filhos”; por isso, escolhemos a Kansas Parental Satisfaction Scale (KPS; James et al., 1985), disponível em espanhol e já usada com mães imigrantes latinas (Borelli et al., 2021). O CCC também queria que pais e mães se sentissem “sob menos estresse”; como grande parte do estresse estava ligada a suas experiências como imigrantes, escolhemos o Stress of Immigration Survey (SOIS; Sternberg et al., 2016), já usado com imigrantes latinas economicamente marginalizadas e disponível em espanhol. As pessoas participantes responderam à KPS e ao SOIS antes e depois da intervenção.

Elaboramos perguntas qualitativas para entrevistas pré e pós-intervenção. As perguntas pré-intervenção buscavam compreender os desafios, as forças e os apoios das pessoas participantes na criação dos filhos. Para os dados pós-intervenção, o CCC queria entender “o que as famílias levam do grupo e do que gostaram” e “se veem diferenças nos filhos”. Por isso, criamos perguntas sobre o que as pessoas participantes aprenderam, mudanças de comportamento, impactos na parentalidade e nos filhos, pontos fortes e fracos da intervenção e outros apoios necessários.

Depois de redigidas as perguntas qualitativas e escolhidos os instrumentos, revisamos as possíveis fontes de dados em reuniões com o CCC (por exemplo, perguntas e opções de resposta foram lidas uma a uma). Tivemos de lidar com o dilema de usar avaliações padronizadas e, ao mesmo tempo, responder à comunidade. Por exemplo, o CCC recomendou usar apenas três opções de resposta, mas a KPS tinha sete e o SOIS, cinco. Também discutimos que o SOIS incluía itens que não eram o foco específico do grupo de apoio parental, como “Quanto estresse ou preocupação você sentiu por não ter um emprego com benefícios como plano de saúde?” O CCC considerou que a maioria das perguntas era pertinente e que o SOIS oferecia um bom panorama geral do estresse nessa comunidade. Embora as integrantes se identificassem sobretudo com a subescala “Dissonância cultural com os Estados Unidos”, observaram que “as outras perguntas também são importantes”. Assim, optamos por manter todos os itens, já que os itens que elas destacaram atravessavam diferentes subescalas. Depois de identificadas todas as fontes de dados, testamos o protocolo com uma integrante do CCC pelo Zoom. Ela foi escolhida principalmente pela disponibilidade e pelo interesse em dar retorno, já que todas as integrantes do CCC têm conhecimento comunitário e cultural e domínio do espanhol. As integrantes do CCC contribuíram com observações sobre a redação das perguntas, formas de melhorar a clareza e aspectos da realização de entrevistas por videoconferência pelo celular em vez do computador.

Etapa 6: desenvolver capacidades para implementar a intervenção

Segundo o modelo da transcriação, um manual que “especifique os componentes, o conteúdo e os procedimentos de implementação do programa” (Nápoles & Stewart, 2018, p. 5) ajuda a aumentar a fidelidade. Assim, nosso rascunho de manual de Padres Ayudando a Padres continha instruções detalhadas para as pessoas responsáveis pela intervenção, incluindo tempos, falas a serem lidas literalmente e instruções de facilitação do processo, como dividir as pessoas participantes em pequenos grupos de 3 a 5 para uma atividade específica. Depois de criado o manual, previmos que a terceira autora e uma funcionária de nossa parceira escolar com experiência na comunidade conduziriam Padres Ayudando a Padres inteiramente em espanhol. Em reunião conjunta, revisamos o manual e discutimos como as duas facilitadoras trabalhariam juntas (por exemplo, definindo quem conduziria cada componente). Como a funcionária da escola não havia participado das reuniões do processo de transcriação, mas conhecia a comunidade e tinha experiência em facilitação de grupos, nós a apresentamos aos objetivos e às modalidades desenvolvidos com o CCC.

Enfrentamos dificuldades importantes para agendar Padres Ayudando a Padres num local comunitário de confiança, o que atrasou a intervenção. O CCC descartou a realização da intervenção fora da comunidade por questões de segurança e de transporte. Quando conseguimos o local preferido, a pessoa de nossa parceira, a rede escolar, já não estava disponível para cofacilitar. Revisamos o plano: a pessoa que assina em primeiro lugar e a terceira autora, que haviam participado do processo de transcriação e têm experiências complementares com a comunidade, assumiram como dupla principal de facilitação. A pessoa que assina em primeiro lugar, profissional licenciada em aconselhamento, tem domínio limitado do espanhol, enquanto a terceira autora, doutoranda bilíngue, tem menos formação formal em saúde mental. A dupla se preparou identificando e discutindo as áreas fortes de cada uma: a pessoa que assina em primeiro lugar conduziu os aspectos clínicos, e a terceira autora avaliou a sintonia linguística e cultural e coconduziu as partes ligadas a seu saber em ensino e em apoio a pais e mães.

Para fortalecer a equipe, recrutamos mais integrantes, chegando a cinco pessoas assistentes de facilitação para apoiar a dupla principal. Primeiro, foram recrutadas quatro pessoas hispanofalantes do mestrado em aconselhamento do programa acadêmico da pessoa que assina em primeiro lugar. Esta se reuniu individualmente com cada uma delas para avaliar seu interesse e sua disponibilidade para o trabalho; todas tinham domínio do espanhol, experiências culturais vividas e conhecimentos pertinentes para trabalhar nessa comunidade (por exemplo, experiência pessoal ou familiar de imigração da América Latina), disciplinas de aconselhamento cursadas e experiências de aconselhamento ou afins. Receberam uma breve apresentação do histórico, do desenvolvimento e dos objetivos da intervenção. Para aproveitar suas forças durante o grupo, ficaram encarregadas de criar vínculo e facilitar os pequenos grupos. Em segundo lugar, uma doutoranda hispanofalante em educação, ex-professora no bairro e que já colaborava com o trabalho do CCC, também se ofereceu como assistente de facilitação. Para aproveitar suas forças, ela ficou encarregada de apoiar a coleta e a documentação de dados e de trazer informações culturais e contextuais adicionais, com base em sua longa experiência com as famílias da comunidade. As cinco pessoas assistentes, que participaram de quase todas as sete sessões do grupo de apoio, foram fundamentais para o uso de pequenos grupos ao longo de toda a intervenção; além disso, suas trajetórias culturais e linguísticas ajudaram a aumentar o vínculo e a sintonia com as pessoas participantes.

Etapa 7: implementar a intervenção

Padres Ayudando a Padres foi realizado semanalmente durante sete semanas, com um total de 15 participantes que frequentaram as sessões. Cada sessão durou cerca de 90 minutos. A maioria das entrevistas pré-intervenção foi realizada cerca de uma semana antes da primeira sessão, para obter dados de linha de base e compreender melhor as necessidades e os interesses das pessoas participantes. Várias entrevistas pré-intervenção foram realizadas durante a primeira sessão com pessoas inscritas de última hora; isso não fazia parte do plano original, mas nossa assistente doutoranda se ofereceu para realizar essas entrevistas, para que pudéssemos acolher o maior número possível de participantes. As entrevistas pós-intervenção foram realizadas nas duas semanas seguintes à intervenção, para obter dados retrospectivos.

Durante Padres Ayudando a Padres, prestamos atenção às informações em tempo real, registrando a “recepção do programa” pelas pessoas participantes e as dificuldades da equipe de intervenção para conduzir o programa, em sintonia com o referencial da transcriação (Nápoles & Stewart, 2018, p. 6). Decidimos fazer mudanças na intervenção com base nos retornos recebidos durante sua realização, em vez de seguir estritamente o manual. Embora isso se afastasse da ênfase da transcriação na fidelidade ao tratamento manualizado, nossa capacidade de resposta refletiu nosso compromisso com os princípios da FCPAR, sustentando a cocriação e colocando no centro as necessidades e as experiências vividas da comunidade. Por exemplo, depois da primeira sessão, integramos mais atividades em pequenos grupos, com base em nossas observações das reações das pessoas participantes. Com 15 participantes e cinco pessoas assistentes, além da dupla principal, foi possível que cada uma das quatro pessoas do mestrado em aconselhamento trabalhasse com um pequeno grupo, enquanto a doutoranda voluntária coletava dados de observação. Não gravamos as sessões por questões de privacidade; por isso, as notas de campo foram uma fonte de dados essencial.

Logo após cada sessão, a dupla principal e as cinco pessoas assistentes faziam uma conversa de avaliação. A equipe de facilitação pedia os retornos e as ideias das pessoas voluntárias, solicitando que cada uma compartilhasse suas observações e impressões em tempo real sobre a eficácia do grupo e as reações das pessoas participantes. Antes da sessão seguinte, a dupla principal revisava a sessão anterior, os retornos das pessoas voluntárias e os planos para a próxima sessão. Adaptamos o manual com base nas necessidades das pessoas participantes e nas modalidades de condução mais eficazes e mais centradas na comunidade.

Por exemplo, na segunda sessão, as pessoas participantes tiveram dificuldade em compartilhar exemplos de desafios pessoais na criação dos filhos. Uma pessoa assistente relatou que “uma barreira de timidez se instalou e notei um padrão de as mães se sentirem vulneráveis se falassem de ‘situações ruins’”. Embora tivéssemos planejado que os exemplos viessem do grupo para garantir sua pertinência, percebemos que compartilhar dificuldades pessoais era difícil com um vínculo de grupo ainda limitado. Em vez disso, usamos o que sabíamos das conversas com o CCC e com o grupo, além de pesquisas anteriores, para criar cenários pertinentes para a terceira sessão. Um dos cenários foi:

Um menino de 10 anos não quer guardar os brinquedos depois de brincar. Um dia, os pais ficam bravos com ele por não assumir essa responsabilidade, e ele fica bravo com os pais por pedirem que obedeça. Os pais lhe dizem que ele é “malcriado” [levado] e “cochino” [sujo].

As mães indicaram que os cenários faziam sentido para elas e se envolveram numa discussão animada. Uma pessoa assistente observou que “as mães estavam animadas e envolvidas no que compartilhavam”.

As pessoas assistentes também deram sugestões para melhorar a facilitação como um todo e a própria capacidade de facilitar pequenos grupos. Por exemplo, uma delas perguntou: “Como lidar com situações sensíveis/negativas? Por exemplo, mães mencionaram que os filhos não têm vontade de ir à escola.” Uma das mudanças feitas a partir de perguntas semelhantes de várias pessoas assistentes foi oferecer perguntas e estímulos adicionais para a facilitação dos pequenos grupos. Segundo essas pessoas, isso as ajudou a trabalhar com mais eficácia com seus pequenos grupos, sobretudo quando se sentiam travadas ou sem saber como esclarecer uma ideia ou uma pergunta. As notas de sessão das pessoas assistentes ajudaram a melhorar a intervenção em tempo real e também forneceram dados retrospectivos. Por exemplo, uma assistente contou que “notou um tema comum: pais e mães com frustração porque os filhos não os ouvem ou não os escutam quando há um conflito”.

Outra área decisiva de melhoria em tempo real dizia respeito ao trabalho entre línguas. Por exemplo, usamos o referencial BRAVING de Brown, que traduzimos para o espanhol. Accountability [responder pelos próprios atos] foi traduzido como “responsabilidad” [responsabilidade], e percebemos durante a sessão que as mães o interpretavam como ajudar os filhos a serem responsáveis, quando a intenção era a forma como pais e mães assumem a responsabilidade pelos próprios atos. Esclarecemos isso durante a sessão, mas registramos que deveríamos “considerar outra tradução em futuras edições” para reduzir a confusão.

Ao final da intervenção, as pessoas participantes disseram que queriam continuar em contato umas com as outras e que havia outros temas sobre os quais desejavam apoio. Foi então proposto a membros do grupo que entrassem num grupo de mensagens opcional, onde membros do grupo e equipe de facilitação podiam compartilhar informações e manter contato. Além disso, realizamos encontros eventuais sobre temas de interesse (por exemplo, como lidar com a tecnologia da escola; conheça seus direitos) e seguimos em contato com as pessoas do grupo conforme surgem necessidades. Tanto os retornos informais das pessoas participantes quanto as entrevistas formais pós-intervenção têm orientado a revisão do manual e a preparação de uma busca de financiamento externo para apoiar futuras edições da intervenção. Os dados coletados foram analisados e preparados para divulgação numa publicação separada sobre os resultados da intervenção.

Discussão

Este artigo descreveu a cocriação de uma intervenção em saúde mental centrada na comunidade, usando o referencial da transcriação (Nápoles & Stewart, 2018) e guiada por nossa abordagem FCPAR. A intervenção surgiu em resposta direta a um pedido do CCC para apoiar famílias que lidavam com a parentalidade e a saúde mental na esteira da pandemia de covid-19. No centro desse processo estava a atenção deliberada às realidades culturais e contextuais, tantas vezes ignoradas ou descartadas nas intervenções comunitárias, o que provoca desalinhamento e até danos, reforçando as próprias iniquidades que essas intervenções dizem enfrentar (por exemplo, Comas-Díaz, 2016; Dixon et al., 2007). O referencial da transcriação ofereceu uma base valiosa; constatamos, porém, que era preciso adaptá-lo para alinhá-lo à FCPAR e resistir à tendência de reduzir a agência e o poder da comunidade em nome da fidelidade à intervenção proposta. Constatamos também que nossa abordagem FCPAR de colaboração direta com as famílias que queríamos atender, em vez de trabalhar por meio de parcerias organizacionais, trouxe questões específicas, além de forças e limitações próprias.

Implicações para o aconselhamento: prática clínica

Do ponto de vista do aconselhamento, situamos esse tipo de intervenção na primeira fase do modelo trifásico de aconselhamento do trauma de Herman (1997), cujo foco é o apoio e a estabilidade. Como intervenção de grupo de apoio, e não de aconselhamento ou terapia, seu foco não é explicitamente tratar experiências traumáticas e suas sequelas, mas ela está alinhada aos objetivos da primeira fase, pertinentes e essenciais para o aconselhamento do trauma como um todo. Assim, essa intervenção tem grande potencial para tratar o trauma e promover a resiliência por meio de uma aprendizagem recíproca e de um desenvolvimento de habilidades culturalmente alinhados e centrados na comunidade.

Este projeto trouxe à tona e ressaltou alguns dos desafios de colocar de fato no centro as famílias, a cultura e o contexto. Apesar de nosso compromisso com esses valores, os mal-entendidos continuaram sendo um problema e evidenciaram a complexidade do trabalho entre línguas e culturas. Do ponto de vista clínico, isso implica que priorizar a construção de uma compreensão compartilhada é um componente essencial ao longo de todo o processo de intervenção em saúde mental, e não apenas na cocriação da intervenção, como enfatiza a humildade cultural (Tervalon & Murray-García, 1998). Além disso, para reduzir ainda mais os mal-entendidos entre línguas e culturas, é preciso não só formar melhor as equipes clínicas para o trabalho intercultural, mas também fazer com que essas equipes representem mais, linguística e culturalmente, as comunidades minorizadas. Atualmente, apenas 5% de quem presta atendimento fala espanhol, contra 13% da população dos Estados Unidos (Martinez & Sanchez, 2024), o que ressalta as barreiras sistêmicas que precisam ser enfrentadas para melhorar o cuidado clínico às comunidades minorizadas.

A clínica também pode considerar como o codesenvolvimento de uma intervenção pode afetar o bem-estar das integrantes do CCC, o que também poderia ser um tema importante, ou uma “intervenção orgânica”, para pesquisas futuras, além da compreensão dos efeitos sobre as pessoas participantes. Engajar-se na defesa de direitos e apoiar outras pessoas pode ser um caminho relevante para a cura do próprio trauma (Herman, 1997).

Implicações para o aconselhamento: cocriação de intervenções

Por meio do engajamento direto, a FCPAR contorna o controle de acesso institucional ao colocar no centro as vozes e as experiências vividas das famílias e da comunidade. Essa abordagem rompe com as soluções de cima para baixo comuns nas práticas de saúde mental e de pesquisa, sobretudo no trabalho com grupos minorizados, como as comunidades imigrantes. Em nossa experiência, a FCPAR, com seu foco em deslocar as dinâmicas de poder e realizar ações coletivas, favoreceu um engajamento comunitário autêntico e responsivo. Por exemplo, durante o processo de desenvolvimento da intervenção, as integrantes do CCC levantaram preocupações urgentes sobre a segurança na escola e nos pontos de ônibus. Em resposta, pausamos o desenvolvimento da intervenção para fazer defesa de direitos e preparar uma reunião com a superintendência escolar (ver tabela 1, “setembro de 2023”). Nosso trabalho anterior na comunidade havia estabelecido uma conexão importante entre o CCC e a direção escolar, à qual pudemos recorrer rapidamente nesse caso. Depois da reunião com a superintendência, retomamos o desenvolvimento da intervenção, integrando essas preocupações de segurança para refletir as necessidades atuais da comunidade. Flexibilidade e um compromisso genuíno com a agência da comunidade foram necessários para manter a tomada de decisão conjunta e concretizar os princípios de democratização do conhecimento e de liderança conduzida pela comunidade (Asabor et al., 2024; Echeverri Herrera et al., 2025). Refletimos muitas vezes sobre as tensões que podem surgir ao sustentar esse compromisso de deslocar o poder em relações desiguais, mas tínhamos plena consciência de que não manter a tomada de decisão conjunta poderia facilmente resultar nas práticas de alterização, silenciamento e marginalização que buscávamos romper.

Constatamos que as relações diretas com a comunidade reduzem os desequilíbrios de poder e a rigidez que muitas vezes acompanham as parcerias institucionais (por exemplo, parcerias entre universidades e organizações comunitárias). Por exemplo, nosso pequeno subsídio inicial universitário (e os mecanismos internos para prorrogar o financiamento) nos permitiu adiar a intervenção até que o local preferido estivesse disponível. O prazo de um financiador externo poderia limitar essa flexibilidade, resultando num local menos acessível e possivelmente reduzindo a participação ou a segurança das pessoas participantes. Além disso, as prioridades costumam mudar com as mudanças organizacionais, deslocando compromissos com as comunidades (e com as parcerias universitárias) e, por consequência, deixando de atender às necessidades das comunidades (Vesely, Letiecq, Choe, et al., 2024). Nesses cenários, as limitações estruturais das organizações podem retirar o poder de decisão da comunidade, podendo gerar desconfiança e até danos em comunidades que já vivem estresse e trauma ligados à opressão sistêmica (Echeverri Herrera et al., 2025; Ezell et al., 2021).

Apesar de nosso foco nas relações diretas, lidar com a necessidade de apoios financeiros e institucionais, e com seus benefícios, é inevitável e necessário para o trabalho de intervenção comunitária. Por exemplo, o apoio de nossa parceira, a rede escolar, e nosso subsídio inicial universitário forneceram recursos vitais ao projeto, como cuidado das crianças, tradução e incentivos às pessoas participantes. Limitar o envolvimento institucional minimizou restrições e o controle institucional, mas também limitou nossa capacidade. Com mais recursos financeiros, poderíamos ter incluído mais participantes, contratado mais pessoal e oferecido formação remunerada. Ao longo do processo de desenvolvimento, tivemos de avaliar com cuidado a melhor forma de usar nosso tempo e nossos recursos dentro desses limites. Por exemplo, para desenvolver o conteúdo da intervenção, as parcerias docentes ofereciam ideias e referenciais com base nos pedidos do CCC, como acrescentar práticas polivagais e somáticas para ensinar a regulação emocional; o CCC então avaliava e aprovava esses conceitos. Com mais tempo e recursos, poderíamos ter cocriado práticas de autorregulação com o CCC. Idealmente, trabalhos futuros poderiam envolver as integrantes do CCC na formulação da própria compreensão das respostas ao estresse e na identificação de estratégias de regulação enraizadas na cultura. Embora tenhamos nos apoiado na suposta universalidade das respostas do sistema nervoso, o alinhamento com práticas culturalmente fundamentadas poderia ter ampliado o impacto desse componente (Marsella, 2010). Com mais recursos, membros da comunidade poderiam ter sido formados para conduzir a intervenção.

Há várias áreas-chave para pesquisas futuras, entre elas a formação de membros da comunidade segundo um modelo de promotores (Cáceres et al., 2022), para entender se ter facilitação feita por pessoas que compartilham a cultura e as experiências vividas das pessoas participantes aumenta a eficácia da intervenção. Explorar e identificar quais componentes da intervenção tiveram impacto especial, bem como quais abordagens de facilitação foram especialmente eficazes, forneceria dados-chave para melhorar a intervenção quanto ao conteúdo e ao processo. Com tempo e recursos limitados, aumentar o impacto da intervenção num período mais curto poderia beneficiar a comunidade. Além disso, estudos longitudinais poderiam examinar os impactos ao longo do tempo, incluindo dados individuais, familiares e comunitários, e identificar formas de manter o engajamento e de dar continuidade ao trabalho iniciado nesta intervenção de curta duração. Uma chave desse trabalho é o financiamento para apoiar não só a facilitação, mas também as pessoas participantes; nas comunidades minorizadas, a participação esbarra em barreiras financeiras importantes, de modo que recursos para aliviar esse peso e viabilizar a participação são essenciais.

Conclusão

Em síntese, constatamos que, embora nossas adaptações tenham se afastado da ênfase da transcriação na fidelidade ao tratamento manualizado, mantivemos a integridade de nossos princípios de FCPAR e um compromisso com a cocriação que resiste às práticas que muitas vezes silenciam ou deixam de lado as comunidades minorizadas. Ao reconhecer os danos estruturais sofridos por pessoas historicamente excluídas da definição do cuidado que recebem, essa abordagem afirma que intervenções eficazes e significativas precisam colocar no centro os saberes, as prioridades e a liderança das famílias e das comunidades. Tratar o trauma e promover a resiliência se faz melhor por meio de processos que nos permitam deslocar as relações de poder, democratizar o conhecimento e agir coletivamente, a fim de construir um mundo mais justo, em que cada família possa prosperar.

Complexe Systémique: a reter

O interesse deste texto é mostrar por dentro o que significa “coconstruir” uma intervenção, para além do slogan. O comitê de mães não está ali para dar aval: escolhe os temas, o local, o horário, o número de sessões, relê os questionários item por item e suspende o projeto quando a segurança das crianças no ponto de ônibus se torna mais urgente. Para a clínica sistêmica, algumas lições se destacam: o sintoma familiar (as telas, a raiva, o cansaço parental) se inscreve num contexto de estresse migratório e de precariedade jurídica; a facilitação se reajusta sessão após sessão a partir dos retornos do grupo; e a própria tradução produz mal-entendidos, como “responsabilidad”, entendida como a responsabilidade da criança e não a de pais e mães. As limitações são assumidas: um único grupo de 15 pessoas, resultados remetidos a outra publicação, práticas de regulação importadas em vez de cocriadas. Para ler junto com a entrevista com Celia Falicov sobre intervenções comunitárias e com o artigo sobre o teste em sala e a adaptação cultural participativa.

Notas do original

Financiamento. Este projeto foi apoiado em parte pelo programa de subsídios iniciais do College of Education and Human Development da Universidade George Mason.

Conflitos de interesse. A equipe declara não haver conflitos de interesse.

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Tradução não oficial em português de Padres Ayudando a Padres: co-construir uma intervenção de saúde mental centrada na família, de, por e para pais imigrantes da América Central, de Rachael D. Goodman, Colleen K. Vesely, Maribel Tohara Nakamatsu, Victoria Stone, Valeria Quintana, Bethany Letiecq e Amigas de la Comunidad, Trauma Counseling and Resilience, vol. 3, no 1 (2026), doi: 10.33470/2997-7088.1095, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Padres Ayudando a Padres: Co-constructing a Family-Centered Mental Health Intervention of, by, and for Central American Immigrant Parents”, publicado em Trauma Counseling and Resilience (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Goodman, R. D., Vesely, C. K., Tohara Nakamatsu, M., Stone, V., Quintana, V., Letiecq, B., et Amigas de la Comunidad (2026). Padres Ayudando a Padres: co-construir uma intervenção de saúde mental centrada na família, de, por e para pais imigrantes da América Central (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/padres-ayudando-a-padres-co-construir-uma-intervencao-de-saude-mental-centrada-na-familia (Obra original publicada em 2026 em Trauma Counseling and Resilience, 3(1), article 3 (2026); republicada em 2026 por Trauma Counseling and Resilience, https://mds.marshall.edu/tcr/vol3/iss1/3/)

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