Clínica · Dissociação

Por que você se sente um estranho para si mesmo? Os sintomas dissociativos do trauma explicados

Você já teve a estranha sensação de não estar mais totalmente presente na sua própria vida, como se observasse o mundo através de um vidro embaçado? Ou a de um tempo que desacelera ou acelera sem razão aparente? Essas experiências não são banais: elas podem ser manifestações da dissociação.

O que é a dissociação?

A dissociação é um mecanismo de proteção da mente diante de uma situação percebida como extremamente estressante ou traumática. Quando uma pessoa atravessa uma experiência insuportável, o seu cérebro pode fragmentar certas percepções, lembranças ou emoções para atenuar o impacto da dor.

Em alguns casos, essa estratégia de sobrevivência se torna problemática e se instala ao longo do tempo, gerando sintomas que afetam profundamente o cotidiano.

O DSM-5, manual diagnóstico dos transtornos mentais, reconhece um subtipo do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) com sintomas dissociativos. Ou seja: além dos sintomas clássicos do psicotrauma, a pessoa afetada pode apresentar manifestações dissociativas significativas.

As seis principais manifestações da dissociação

1 — Despersonalização: sentir-se estranho a si mesmo

Algumas pessoas descrevem a sensação perturbadora de não estarem mais conectadas ao próprio corpo, aos próprios pensamentos ou às próprias emoções. Isso costuma se traduzir em perguntas:

  • Por que tenho a impressão de ser espectador da minha própria vida?
  • Será que estou perdendo a cabeça?
  • Como posso recuperar o sentimento de ser eu mesmo?

Essa experiência pode dar a impressão de flutuar fora do próprio corpo, ou de estar em modo “piloto automático”, o que altera profundamente o sentimento de identidade.

2 — Desrealização: um mundo que parece irreal

Na desrealização, não é mais a própria pessoa que parece estranha, mas o mundo exterior. Quem passa por isso sente que o ambiente está deformado, enevoado, artificial, como em um sonho. E pode se perguntar:

  • Tudo isso é real?
  • Por que tenho a impressão de estar desconectado do meu ambiente?
  • Sou o único a viver isso?

Essa sensação pode ser angustiante, pois dá a impressão de estar cortado do mundo, o que reforça o isolamento e a incompreensão.

3 — Sintomas somáticos: quando o corpo expressa o trauma

A dissociação não atinge apenas a percepção de si ou do mundo: ela se expressa também através do corpo. Algumas pessoas sentem:

  • dores crônicas (enxaquecas, tensões musculares, dores abdominais);
  • dormências ou formigamentos, com sensação de desconexão física;
  • distúrbios digestivos (náuseas, inchaço, alterações do trânsito intestinal).

Esses sintomas, ainda que sem explicação médica, são reais e podem testemunhar um sofrimento psicológico não tratado.

4 — Distorção do tempo: um presente difuso e inapreensível

As pessoas afetadas podem sentir o tempo de maneira irregular e imprevisível. O tempo desacelera: uma simples conversa parece interminável. O tempo acelera: horas passam em um instante, sem lembrança precisa. Ou ainda instala-se uma amnésia temporal: trechos inteiros do dia parecem se apagar.

Essas distorções perturbam a organização da vida cotidiana e criam um sentimento de confusão e de perda de referências.

5 — Absorção: quando a atenção desaparece por completo

A absorção é um fenômeno em que a atenção se concentra de maneira extrema em uma atividade ou em um pensamento, a ponto de esquecer todo o resto. Uma pessoa pode mergulhar em uma tarefa e perder toda a noção do tempo, deixar de ouvir os ruídos ao redor, sentir-se totalmente cortada do que a cerca.

Se essa forma de dissociação pode às vezes ser útil — quando se está absorto em um livro ou em um filme, por exemplo —, ela se torna problemática quando acarreta uma perda regular de contato com a realidade.

6 — Amnésia dissociativa: quando a memória se apaga

Algumas pessoas afetadas por um trauma desenvolvem lacunas de memória importantes, sobretudo ligadas a acontecimentos dolorosos. Essa amnésia pode assumir várias formas:

  • bloqueio seletivo: o esquecimento de um detalhe ou de um acontecimento preciso;
  • memória compartimentada: certas lembranças ficam armazenadas separadamente e só são acessíveis em contextos particulares;
  • reminiscência: lembranças enterradas voltam à superfície de forma inesperada.

Trata-se, mais uma vez, de um mecanismo de proteção do cérebro, que busca evitar o sofrimento ligado a essas lembranças.

Por que reconhecer esses sintomas é essencial

A dissociação é um sinal de alarme psicológico. Se esses sintomas são frequentes e interferem no cotidiano, é essencial não ignorá-los: um acompanhamento terapêutico pode ajudar a tratá-los.

Se você se reconhece nessas manifestações, duas referências simples: falar disso com um profissional — psicólogo, psiquiatra ou terapeuta especializado em trauma — e se cercar de apoio, pois é importante não enfrentar isso sozinho.

Compreender melhor para agir melhor

Os sintomas dissociativos são por vezes pouco conhecidos, mas têm um impacto considerável na vida de quem sofre com eles. Compreendê-los melhor permite não apenas se conhecer melhor, mas também ajudar outras pessoas a colocar palavras na sua experiência — às vezes palavras que elas não ousavam pronunciar.

Essas seis manifestações são detalhadas uma a uma no vídeo abaixo, em francês.

Como citar este artigo

Besse, J. (2025, 9 de março). Por que você se sente um estranho para si mesmo? Os sintomas dissociativos do trauma explicados. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/por-que-voce-se-sente-um-estranho-para-si-mesmo-os-sintomas-dissociativos-do-trauma-explicados

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