Pensamento complexo

Quando os sistemas se decompõem… e se recompõem

Entropia, neguentropia, caos fértil: o que a física da desordem ensina a quem acompanha sistemas humanos.

Por Yara Doumit Terapeuta familiar e interventora sistêmica · Formadora e responsável pedagógica no Complexe Systémique
Parte 1

Entropia e neguentropia: da física ao vivo

Em termodinâmica, a entropia mede o grau de desordem de um sistema e tende a aumentar num sistema fechado. Sem aporte de energia nem de informação, todo sistema físico ou vivo se desorganiza progressivamente: é a flecha do tempo rumo ao caos.

Inversamente, a neguentropia — entropia negativa — caracteriza a ordem, a organização e a informação presentes num sistema. Schrödinger popularizou o termo ao observar que os seres vivos mantêm sua organização interna consumindo ordem disponível em seu ambiente: “a vida se nutre de entropia negativa”.

Um organismo retira energia utilizável e informação de seu meio para compensar sua própria tendência entrópica à degradação. Esse princípio vale da célula ao ecossistema: os sistemas vivos são abertos, importam energia — alimento, sol — e exportam desordem — calor, resíduos — para permanecerem organizados.

Entropia

A desordem que sobe. Perda de diversidade, empobrecimento das trocas, homogeneização. Sem aporte exterior, ela sempre vence.

Neguentropia

A ordem que se constrói. Informação, diferenciação, complexidade. Exige um fluxo de entrada e um sistema aberto.

Em biologia e em teoria da informação reencontra-se essa oposição. Um fluxo de informação pode ser visto como neguentropia, pois reduz a incerteza num sistema. Inversamente, a perda de informação ou a homogeneização empobrecem um sistema.

Henri Atlan, biofísico, estudou a organização do vivo como um jogo entre ordem e desordem, falando de “complexidade pelo ruído” para descrever como um sistema biológico utiliza flutuações desordenadas para gerar novas estruturas.

Edgar Morin

“No fundamento da organização do vivo encontra-se um jogo entre entropia e neguentropia, ordem e desordem.” As forças de ligação devem prevalecer sobre as de deslocamento para que um sistema vivo se mantenha. A ordem não elimina, portanto, a desordem: ela a integra e em parte a contém.

Parte 2

Entropia, evolução e enrijecimento nos sistemas humanos

Nossos sistemas humanos — indivíduos, famílias, organizações — são sistemas dinâmicos abertos, que trocam informação e energia e evoluem no tempo. A entropia manifesta-se neles pela desorganização progressiva, pela perda de diversidade ou de flexibilidade, e pela tendência à rigidez.

Uma família ou uma equipe fechada em hábitos cristalizados, que já não recebe ideias novas de fora, pode entrar numa forma de estagnação entrópica: as trocas empobrecem, os papéis endurecem, os não ditos se acumulam. Do mesmo modo, um indivíduo confrontado a um estresse constante sem recursos novos pode ver seu funcionamento desregular-se — esgotamento, confusão mental — sinal de uma entropia crescente em seu sistema psíquico.

Nas organizações, a subida da entropia traduz-se pela desintegração dos processos: perda de saber-fazer, comunicação deficiente e, por vezes, uma lenta morte térmica. A criatividade seca, cada um permanece em seu silo, e o sistema acaba por definhar. Edgar Morin observa que um sistema fechado, sem trocas com o exterior, tende ao equilíbrio inerte.

Inversamente, a neguentropia nos sistemas humanos corresponde à criação de ordem, de diferenciação e de complexidade: a inovação na empresa, a aprendizagem e o desenvolvimento no indivíduo, a regeneração dos vínculos numa família. Quanto mais complexa e rica em trocas é uma organização, mais capaz é de absorver desordem sem romper — e mesmo de servir-se dela para inovar.

Ordem demais pode tornar-se patogênica

Watzlawick explicou como tentativas rígidas de resolver um problema — o more of the same — levam com frequência ao impasse. Pais que mantêm um controle estrito sobre um adolescente antes tranquilo arriscam provocar ainda mais conflitos: o sistema familiar se crispa e a desordem sentida aumenta. A saída passa frequentemente por uma mudança de segunda ordem, a introdução de novas regras do jogo.

Certo caos pontual pode, portanto, ser necessário para evitar a lenta entropia de um sistema rígido demais.

Parte 3

Do caos nasce uma nova ordem: a visão da complexidade

Vários pensadores da complexidade inverteram nosso olhar sobre o caos. Longe de ser uma desordem absoluta, o caos pode conter uma ordem oculta e gerar novidade.

O físico Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química, estudou os sistemas longe do equilíbrio e introduziu a noção de estruturas dissipativas: estruturas ordenadas que emergem do caos quando um sistema recebe um fluxo de energia. Prigogine fala de “ordem por flutuações”: pequenas variações caóticas podem, ao ser atingido um limiar crítico, amplificar-se e provocar a reconfiguração do sistema segundo uma nova ordem. O caos não é vão; ele prepara a bifurcação rumo a uma nova organização.

Por seu lado, a teoria do caos determinista mostrou matematicamente que sistemas aparentemente simples podem produzir comportamentos imprevisíveis. Ora, como sublinha Fritjof Capra, nesse caos aparecem com frequência padrões subjacentes organizados: “o comportamento de sistemas caóticos não é simplesmente aleatório, mas revela um nível de ordem estruturada mais profundo”. Figuras como o atrator de Lorenz ilustram um caos estruturado: desordem na superfície, regularidades na profundidade. A ciência da complexidade fala de ilhas de ordem num oceano de caos.

Edgar Morin vai no mesmo sentido ao convidar a superar a oposição binária ordem/desordem: para ele, a desordem é constitutiva da vida e dos sistemas, e é da interação entre ordem e desordem que nasce a complexidade organizada.

Gilbert Simondon, por sua vez, conceituou o processo de individuação como uma resolução criativa do caos. Descreve todo sistema em gestação — físico, vivo ou psicossocial — como um estado metaestável rico em potenciais, onde tensões internas se resolvem numa nova forma coerente. A emergência de uma nova estrutura passa por uma fase de desordem fértil em que os elementos se reorganizam até encontrar uma configuração estável inédita.

A ordem pelo ruído

Já em 1960, Heinz von Foerster formula o princípio do order from noise: perturbações aleatórias permitem ao sistema explorar novos estados e atingir possivelmente um atrator mais estável e organizado. Um acontecimento imprevisto pode desestabilizar uma rotina, mas empurrar para a invenção de uma solução inovadora.

Parte 4

Crises e transformações

Consideremos uma crise familiar: a adolescência de um filho, um luto, uma revelação brutal. Toda crise familiar corresponde a uma ruptura da homeostase e impõe uma reorganização das interações e das regras do sistema. Durante um tempo, é o caos: tensões, conflitos, imprecisão dos papéis. Pode ser doloroso, mas é o sinal de que o sistema tenta reconfigurar-se.

Muitas vezes, a crise surge nas mudanças de ciclo de vida — nascimento, adolescência, saída dos filhos — que exigem uma evolução das relações. Se a família se adapta, por exemplo redefinindo a autoridade parental com um adolescente que se tornou jovem adulto, uma nova ordem familiar emerge da tormenta. Se ela se agarra rigidamente à antiga ordem, a crise pode envenenar-se: conflitos crônicos, sintomas diversos.

A intervenção de um terapeuta familiar nesses momentos visa facilitar a reestruturação. Bem acompanhada, a crise torna-se um momento fecundo para mudar modos de funcionamento obsoletos. Em vez de apagar o incêndio a todo custo, o terapeuta ajuda a família a atravessar o caos explorando novas maneiras de comunicar e trazendo à tona os não ditos.

Em terapia, certas intervenções paradoxais podem provocar um salto evolutivo: ao confrontar o cliente com uma situação desconcertante, elas induzem um curto-circuito dos esquemas habituais, abrindo caminho a uma reestruturação cognitiva e emocional. O caos não é o fim da viagem, mas uma passagem: por vezes é preciso tocar o fundo do caos para reconstruir uma nova ordem em si.

Observa-se um esquema análogo no contexto organizacional. As teorias do management evolutivo, como as chaordic organizations de Dee Hock, encorajam a aceitar uma parte de caos para fazer emergir uma ordem mais criativa. Fritjof Capra vê a empresa como um sistema vivo: tentar controlar tudo sufoca o potencial de evolução, ao passo que introduzir diversidade e jogo permite a auto-organização e a adaptação contínua. Um dirigente avisado saberá distinguir o caos destrutivo — perda total de sentido — do caos construtivo que precede as grandes adaptações.

Parte 5

Acompanhar o caos

Diante dessas dinâmicas, o praticante ganha em adotar uma postura complexa, feita de observação, de paciência e de intervenção estratégica. Concretamente, isso significa ser capaz de tolerar a incerteza e a instabilidade temporárias sem entrar em pânico nem reagir em excesso. Ele acompanha o sistema a dar sentido a esse caos, a exprimir as tensões para que se tornem matéria de transformação.

A metáfora do gesso

Diante de uma fratura psíquica ou relacional, o papel do terapeuta é colocar um gesso nem frouxo demais — deixar o caos piorar — nem apertado demais — impor uma camisa de força — a fim de sustentar a cura com justeza.

A postura do interventor implica saber dosar o desequilíbrio induzido. Caos demais pode submergir um sistema frágil, ao passo que mudança de menos deixa o sistema atolado em seus problemas. Ele pode introduzir uma perturbação construtiva — uma pergunta incisiva, uma mudança de ponto de vista, uma experiência emocional nova — e depois oferecer um enquadre seguro para tratar o que emerge.

É uma arte delicada, que exige intuição e prudência. Maurizio Andolfi preconizava utilizar a provocação de maneira controlada: responder às mensagens paradoxais da família com uma contraprovocação terapêutica, para revelar os não ditos e redistribuir as cartas relacionais, respeitando ao mesmo tempo o sistema e seu nível de resiliência. Não se faz explodir uma bomba numa família já em grande perigo.

Acompanhar o caos exige, enfim, uma ética particular. Heinz von Foerster formulava um imperativo precioso: “Age sempre de maneira a aumentar o número de escolhas possíveis.” Essa postura humilde — facilitador do processo em vez de dono do conteúdo — é central no acompanhamento das transições. Exige confiança nas capacidades autorreguladoras do sistema humano: como um jardineiro, o praticante cultiva o terreno — contexto, relações, enquadre de segurança — enquanto o sistema realiza sua própria transformação interior.

O que reter

O caos é muitas vezes a antessala de uma nova ordem. Alguém ainda precisa segurar a porta.

Referências para ir mais longe
  • Capra, F. (1996). The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. Anchor Books.
  • Morin, E. (1977). La Méthode I — La Nature de la nature. Seuil.
  • Prigogine, I., & Stengers, I. (1984). Order Out of Chaos: Man’s New Dialogue with Nature. Bantam Books.
  • Simondon, G. (1989). L’individuation psychique et collective. Aubier.
  • Schrödinger, E. (1944). What is Life? The Physical Aspect of the Living Cell. Cambridge University Press.
  • von Foerster, H. (1973). On constructing a reality. In Environmental Design Research, Vol. 2 (pp. 35-46). Dowden, Hutchinson & Ross.
  • Watzlawick, P., Weakland, J., & Fisch, R. (1974). Change: Principles of Problem Formation and Problem Resolution. Norton.
Para ir mais longe neste site
Como citar este artigo

Doumit, Y. (2025). Quando os sistemas se decompõem… e se recompõem. Complexe Systémique. https://www.complexe-systemique.com

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