Journal of Solution Focused Practices · Estudo de caso

Respostas não ditas: acolher o silêncio do cliente na sessão

Este artigo explora como o uso do silêncio dentro de uma sessão de terapia familiar pode atuar sobre a discórdia familiar, em especial quando associado a perguntas da terapia breve focada nas soluções (TBFS) feitas com cuidado, que convidam os clientes a refletir e a responder dentro de si mesmos, favorecendo tomadas de consciência pessoais sem a pressão de uma resposta verbal. Esse método levou a respostas não ditas que acabaram por tornar possível um progresso real. As mudanças poderosas ocorridas para a família se confirmaram nos encontros de acompanhamento, que revelaram deslocamentos importantes na dinâmica familiar. O artigo detalha as perguntas feitas, o processo terapêutico e os resultados observados; mostra como acolher o silêncio do cliente com perguntas focadas nas soluções pode ser uma maneira poderosa de atuar sobre a discórdia familiar.

Autores Joseph Lettieri e Ayse Adil, Family Based Solutions, LondresPrimeira publicação Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n. 2 (2024)Palavras-chave do artigo sessão silenciosa, terapia breve focada nas soluções, padrões de comunicação negativosPalavras da mãe entrevista ao vivo realizada na conferência on-line SF24 e dois e-mails escritos depoisTradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Unspoken Answers: Using Silence in Session – Engaging Client Silence With Thoughtful Solution Focused Questions to Address Family Discord, de Joseph Lettieri e Ayse Adil, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n. 2 (2024), doi: 10.59874/001c.126338, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido, rediagramado e provido de um intertítulo suplementar, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Este estudo de caso destaca uma maneira de fazer singular, adotada pela terapeuta Ayse Adil, que conduziu a sessão até o fim sem encerrá-la prematuramente e sem dispensar ninguém. Ao engajar os clientes com perguntas enquanto permaneciam em silêncio e respondiam dentro de si mesmos, ela criou uma sessão produtiva, livre das brigas que haviam marcado o seu início. Embora os clientes tenham respondido em silêncio, estavam ativamente engajados, processando internamente as perguntas da terapeuta. Esse método levou a respostas não ditas que acabaram por tornar possível um progresso real.

O recurso a uma sessão silenciosa não é uma ideia nova, nem é nova na terapia breve focada nas soluções. Já em 2006, Eileen Murphy, cuja organização, a Eileen Murphy Consultants, tem sede no Reino Unido, escreveu sobre a criação da sessão silenciosa especificamente para o trabalho com clientes que resistem pela fala. No momento em que a sessão silenciosa foi usada no exemplo clínico acima, isso não era do conhecimento de Ayse.

As mudanças poderosas ocorridas para a família se confirmaram nos encontros de acompanhamento, descritos nas páginas 11 a 16 do artigo original, que revelaram deslocamentos importantes na dinâmica familiar. O artigo também reconhece o papel da mãe como copesquisadora na exploração dessa técnica. Sua participação foi decisiva para o êxito da sessão, o que sugere que empregar o silêncio do cliente de modo estruturado pode ser útil em casos semelhantes no futuro. O artigo detalha as perguntas feitas, o processo terapêutico e os resultados observados; mostra como acolher o silêncio do cliente com perguntas focadas nas soluções pode ser uma maneira poderosa de atuar sobre a discórdia familiar.

Epígrafes

“O silêncio é uma fonte de grande força.” — Lao-Tsé

“Se houvesse um pouco mais de silêncio, se todos nos calássemos… talvez pudéssemos compreender alguma coisa.” — Federico Fellini

“As conversas mais importantes das nossas vidas acontecem em silêncio.” — Simon Van Booy, Love Begins in Winter: Five Stories

Complexe Systémique · nota sobre o texto publicado

O artigo reproduz as palavras de uma mãe: trechos de uma entrevista ao vivo realizada na conferência on-line SF24 e, depois, dois e-mails que ela escreveu, com títulos de sua autoria. A revista os publica com o consentimento dela; a SF24 é o contexto em que a entrevista ocorreu, e não uma publicação anterior. Nós os traduzimos o mais próximo possível, sem nada acrescentar. A família permanece anônima no artigo, exceto a mãe, que aceitou que seu nome verdadeiro fosse usado durante a oficina: não introduzimos aqui nenhum nome, idade ou lugar que não conste do original. Observação: o artigo data a conferência SF24 de agosto de 2024 ao apresentar o caso e de 3 de maio de 2024 na seção dedicada a ela; mantemos as duas menções tal como estão. Por fim, o título original traz quatro bandeiras: elas anunciam resumos traduzidos depositados como anexos pela revista (chinês tradicional e simplificado, polonês, romeno), e não traduções integrais; não as reproduzimos.

Introdução

A psicoterapia supõe que um cliente procure um profissional qualificado para ser ajudado a resolver problemas e a realizar as mudanças que deseja em sua vida. Isso se dá principalmente pela comunicação verbal, dentro de uma relação terapêutica. O progresso pode, às vezes, ser dificultado por diferentes fatores. Por exemplo, os clientes podem ter dificuldade em formular eficazmente seus pensamentos. Na terapia de casal e na terapia familiar, os clientes podem se envolver em excesso em discussões, brigas e conflitos improdutivos, o que também dificulta o progresso. Uma abordagem que se mostrou eficaz diante do conflito verbal nas famílias é a terapia breve focada nas soluções (TBFS), que se apoia em perguntas destinadas a ativar emoções positivas para contrapor as emoções negativas produzidas (Kim & Franklin, 2015). Há momentos, porém, em que nem mesmo as perguntas da TBFS bastam para deslocar a conversa entre os membros da família numa direção mais calma, mais positiva e mais produtiva. A razão de ser da abordagem aqui empregada foi fazer deliberadamente algo diferente para romper o ciclo do conflito verbal.

Terapia breve focada nas soluções, silêncio e imagética mental

Uma sessão silenciosa focada nas soluções é aquela em que a terapeuta faz perguntas e os clientes respondem internamente, refletindo sobre suas respostas dentro da própria cabeça em vez de dizê-las em voz alta. Em outra variante, os clientes podem se envolver em atividades como o desenho para exprimir seus pensamentos. Neste caso específico, a terapeuta escolheu fazer com que os clientes respondessem internamente, decisão espontânea destinada a dissipar as brigas surgidas durante a sessão. Essa maneira de fazer permite aos clientes processar as perguntas com profundidade e no próprio ritmo, criando um espaço calmo para a reflexão sobre si e para a tomada de consciência. A sessão foi uma tentativa de dar aos clientes tempo para responder às perguntas feitas sem interrupção nem crítica. Em matéria de silêncio, apenas a voz da terapeuta é ouvida do começo ao fim, e há apenas uma breve resposta ao final da sessão, sobre se os clientes acharam a conversa útil.

Quando se fala do silêncio em psicoterapia, pode tratar-se do cliente que não responde às perguntas do terapeuta ou que não se engaja no processo em geral. Esses comportamentos do cliente são habitualmente vistos de modo negativo e chamados de resistência do cliente (Levitt & Morrill, 2023). Ao mesmo tempo, admite-se que uma parte de silêncio faz parte do processo das conversas terapêuticas. As lacunas na conversa dão aos clientes tempo e espaço para refletir e formar uma resposta ponderada àquilo que eles muitas vezes vivenciam como perguntas difíceis.

A abordagem focada nas soluções é uma abordagem de terapia breve voltada para o futuro, dirigida por objetivos e baseada em evidências, que ajuda pessoas e organizações a realizar mudanças construindo soluções em vez de se centrar nos problemas e nos acontecimentos que levaram a eles (de Shazer et al., 2007, 2021; Kim et al., 2010, 2019). Na abordagem focada nas soluções, pedimos aos clientes que respondam a perguntas que talvez não esperassem numa conversa terapêutica. Os clientes costumam esperar que lhes perguntem sobre seus problemas, por exemplo: “O que traz você aqui para me ver?” — uma pergunta que não é necessariamente fácil de responder, mas sobre a qual o cliente em geral já terá pensado. Um praticante focado nas soluções, ao contrário, fará uma pergunta de abertura mais voltada para o futuro, do tipo: “Como você saberia que vir aqui me ver foi útil para você?”, que exige um trabalho de pensamento bem diferente. Por isso, um terapeuta focado nas soluções não se desconcerta quando um cliente responde com silêncio ou diz: “Não sei.” Segundo Macdonald (2011), “as perguntas voltadas para o futuro, na terapia focada nas soluções, muitas vezes pegam os clientes desprevenidos, pois não se costuma pedir-lhes que pensem em seus objetivos ou em soluções possíveis, como acontece nas abordagens terapêuticas tradicionais. O silêncio que se segue a tais perguntas é uma parte natural e necessária do processo, que permite aos clientes engajar-se numa reflexão mais profunda.” O silêncio dá ao cliente tempo e espaço para formular uma resposta às suas perguntas, para dar sentido ao que lhe é pedido e para buscar em seu banco de dados mental respostas já testadas. Fazer a um cliente uma pergunta voltada para o futuro exigiria mais tempo de processamento, pois as respostas prontas talvez não estejam disponíveis para ele.

Neste artigo, apresentaremos um estudo de caso envolvendo uma família com a qual a maior parte da sessão transcorreu sem respostas verbais dos clientes às perguntas que lhes eram feitas. Neste estudo de caso, os clientes foram atendidos on-line em razão da distância entre a casa deles e os escritórios da Family Based Solutions. Embora o estudo de caso seja um exemplo de uso da sessão silenciosa, ele comporta ainda o ancoramento (grounding) dos clientes, o que teve por efeito reduzir o conflito e a tensão entre os membros da família. Segundo Porges (2011), “o fundamento de uma terapia eficaz está na criação de um ambiente seguro e acolhedor para os clientes. Técnicas como a respiração profunda, o relaxamento muscular progressivo e a visualização guiada podem ajudar os clientes a relaxar e a se sentir ancorados, permitindo-lhes engajar-se plenamente no processo terapêutico” (Porges, 2011). Ayse sentiu que a família se beneficiaria de exercícios de ancoramento, pois, quando o cliente se sente à vontade e relaxado, fica mais capaz de explorar seus pensamentos. Ao ancorá-los em seu próprio espaço, ela fez a tensão baixar. As técnicas de ancoramento são muito usadas em terapia para ajudar os clientes a lidar com emoções penosas e a se ligar ao momento presente. Ao ancorar o cliente no presente, pode-se tornar mais fácil para ele pensar com mais clareza e concentração (Porges, 2011).

Veremos como Ayse Adil, por meio de seu questionamento, pede à família que se engaje numa imagética (não) guiada (Greene & Lee, 2011), fechando os olhos e visualizando seu futuro preferido com o máximo de detalhes possível. Isso difere da imagética guiada, que “designa um conjunto de técnicas terapêuticas com o propósito de reforçar a motivação das pessoas em relação a acontecimentos futuros, imaginando um ‘futuro positivo’ e praticando e ensaiando habilidades úteis a um engajamento comportamental futuro” (Hamilton et al., 2013). A diferença, na imagética empregada neste estudo de caso, é que Ayse não guia os clientes por um lugar ou uma série de ações imaginados; aqui, os clientes visualizam seu próprio percurso pessoal rumo a seus futuros preferidos, que são únicos.

O uso da imagética não guiada envolve simulações mentais, outra forma de imagética mental, mais próxima da intervenção empregada com a família. As simulações mentais são definidas como ensaios de acontecimentos futuros (Cole et al., 2021). Elas se dividem em dois tipos distintos: simulações mentais de resultado e simulações mentais de processo. As simulações mentais de resultado pedem ao cliente que considere o sentido do resultado desejado e como seria alcançar seu objetivo. As simulações mentais de processo pedem ao cliente que pense nos conjuntos de ações específicos necessários para alcançar seu objetivo, em quem mais precisaria estar envolvido no processo, nos obstáculos possíveis no caminho de seus objetivos e em como superá-los. A família deste estudo de caso é levada a pensar nos passos pertinentes rumo a seus objetivos próprios e a visualizá-los, o que tem por efeito aumentar sua confiança em realizar o comportamento com êxito. Isso supõe uma visualização detalhada dos aspectos processuais, e não apenas a atenção ao resultado final.

O caso apresentado neste artigo diz respeito a pessoas atendidas pela Family Based Solutions. A Family Based Solutions foi criada em outubro de 2012 por seus três fundadores e desde então trabalhou com 985 famílias. A organização, sediada em Londres, foi criada para apoiar pessoas que sofrem violência de seus filhos, famílias que se recuperam de violência doméstica, e para trabalhar com adultos autores de violência doméstica. A organização começou a usar a abordagem focada nas soluções em 2014 como principal intervenção familiar.

Estudo de caso: Milly, Penny e a mãe

Elementos de contexto

O encaminhamento veio da instituição de ensino que uma das filhas frequentava. Pediam apoio para a família, pois a estudante matriculada ali estava muito estressada e não conseguia lidar com a situação em casa. Quem encaminhou informou que a estudante estava a ponto de considerar seriamente sair de casa. A família era composta pela mãe e por duas filhas de 15 e 17 anos, a mais nova com diagnóstico de autismo. Ayse Adil encontrou-se primeiro com a mãe; abaixo estão as informações reunidas nessa conversa. O artigo passará então ao encontro familiar e às sessões de acompanhamento com cada um dos membros da família. Haverá também trechos abreviados da entrevista ao vivo com a mãe, na conferência on-line SF24 de agosto de 2024.

Encontro individual com a mãe, por Zoom

O encontro foi uma oportunidade de captar as preocupações da mãe e o modo como a família poderia ser mais bem apoiada. A mãe explicou que seu marido havia morrido seis anos antes e que ele era muito violento com ela e com as crianças. Ele era violento verbalmente e, quando as maltratava, proibia-as de chorar. O marido também exercia violência econômica, decidindo quando e onde o dinheiro podia ser gasto. Embora houvesse uma sensação de alívio desde a morte dele, a mãe sentia que elas não sabiam como fazer o luto. As emoções misturadas da perda de um marido, de um pai, e a sensação de alívio por ele não estar mais por perto vigiando cada gesto delas pesavam muito sobre a saúde mental de todas.

A mãe havia abandonado seu trabalho de professora para cuidar das duas filhas. Ao longo dos seis anos que se seguiram à morte do pai, todas haviam consultado terapeutas e recebido um diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático. A filha de 15 anos, a quem chamaremos Milly, recebera um diagnóstico de autismo aos 8 anos. O pai sempre negou esse diagnóstico e se recusou a aceitá-lo. Ele acreditava que ela queria chamar atenção. A mãe relatou que Milly havia aprendido a mascarar seus comportamentos diante do pai, por medo de que ele lhe fizesse mal.

A filha de 17 anos, a quem chamaremos Penny, enfrentava suas próprias dificuldades psíquicas e havia tentado tirar a própria vida depois da morte do pai. A mãe explicou que a pressão adicional ligada à condição da irmã e à falta de compreensão fazia com que discutissem constantemente, e que isso pesava muito sobre ela e sobre Penny. A mãe explicou que a casa é invivível quando as duas meninas estão juntas. Ficou combinado, então, que um encontro seria organizado para a família na semana seguinte. A mãe avisou que poderia haver resistência por parte das meninas e pediu desculpas antecipadamente caso elas parecessem grosseiras ou “frias”.

Encontro familiar por Zoom

A família estava reunida em torno da mesa da cozinha, diante da tela do notebook. Ayse apresentou-se e apresentou seu papel dentro da Family Based Solutions, e passou a perguntar a cada uma quais tinham sido suas próprias experiências com os apoios recebidos anteriormente. Essa pergunta lhes foi feita porque as meninas diziam estar relutantes e sem esperança de que aquela intervenção funcionasse para elas. Tinham tido experiências negativas de terapia e não eram participantes voluntárias.

A primeira pergunta foi: “O que lhes diria que esta sessão não foi uma perda de tempo para vocês?” As três deram respostas parecidas: “não ser julgada”, “não me dizer que há algo errado comigo” e “me deixar desconfortável”. Cabe observar que usaram muitas palavras “fortes” para descrever suas experiências. A pergunta seguinte foi: “o que vocês gostariam de ver acontecendo em vez disso?” Fazer essa pergunta ajuda os clientes a “visualizar um resultado positivo, alimentando um sentimento de esperança e uma direção” (Miller et al., 1996). A resposta das três foi simplesmente: “Não sei.”

Transcrição do restante da sessão

(Ayse Adil é designada por AA.)

Transcrição

AA – Mãe, o que você não mudaria na Milly?

(essa pergunta visava buscar as forças e o que elas não mudariam umas nas outras)

Mãe – Ah, hum, não sei bem. Bom, ela tem um caráter adorável, pode ser muito cuidadosa quando quer, adora o cachorro. (a essa altura, Milly havia interrompido a mãe de forma agressiva pelo menos cinco vezes, para sugerir que a mãe tinha depressão e estava com o cérebro nublado, e por isso não conseguia pensar direito)

AA – Milly, o que você não mudaria na sua mãe?

Milly – Só para você saber, vou lhe dar dez minutos. Se eu não gostar disto, vou embora. Eu sei o que eu mudaria. Graças a ela e à minha irmã, até o cachorro tem ansiedade. A veterinária diagnosticou ansiedade nela e até ela toma comprimidos.

AA – Ah, não. Sinto muito por ouvir isso. Então é ainda mais importante que todas nós trabalhemos juntas para ajudar a sua cachorra a superar a ansiedade dela. (a cachorra estava deitada no chão da cozinha e não se moveu durante toda a nossa sessão)

Penny – Você quer calar a boca? (para Milly) Para, só isso. Não aguento você.

Milly(imita Penny) Como se você se importasse.

Mãe – Milly, você precisa entender que a Penny e eu estamos realmente em dificuldade com a nossa saúde mental.

Milly(com sarcasmo) Ah, é? Nunca percebi. Nunca percebi vocês duas chorando o tempo todo.

Mãe – Sim, Milly, é por isso que eu tomo meu remédio, para me ajudar a atravessar o dia.

Milly(com sarcasmo) E está funcionando bem para você?

Penny – Cala a boca, só isso. (para Milly)

Milly(fala com AA) Semana passada eu fiz um esforço e pedi para a Penny assistir a um filme comigo. Pela primeira vez ela topou, e a gente pôs um filme na Netflix que eu já tinha visto. Perguntei o que ela achou do filme, e ela disse: “Foi bom, mas tem partes de que eu não gostei.” Quer dizer, como é que você pode dizer que é bom e depois dizer que não gostou de partes? Como isso é possível?

Penny – É a minha opinião, Milly. Deixa pra lá.

Mãe(para AA) Está vendo com o que eu tenho de viver?

Nesse momento, as meninas discutiam, a mãe chorava, e a cachorra permanecia imóvel no chão da cozinha. Ficou claro, então, que as discussões e as brigas interrompiam a sessão e tornavam altamente improvável qualquer perspectiva de progresso. AA decidiu usar a sessão silenciosa como meio de pôr fim à discórdia na sala e de evitar que a sessão terminasse prematuramente. AA já havia usado uma sessão silenciosa num caso anterior, semelhante no sentido de que todos os membros da família falavam uns por cima dos outros e discordavam.

AA – Certo… Vou tentar uma coisa com vocês. Vou fazer perguntas e tudo o que preciso que vocês façam é responder às perguntas dentro da própria cabeça. A regra é: vocês não falam, não revelam seus pensamentos a nenhuma de nós. Se ajudar, vocês podem pegar um caderno e uma caneta para anotar as perguntas. Quando estiverem prontas para a próxima pergunta, façam um sinal de polegar para cima. Se em algum momento se sentirem desconfortáveis, me digam e eu paro. Vou pedir que fechem os olhos, a não ser que isso deixe vocês desconfortáveis. As perguntas serão a respeito de vocês e da sua família.

A sessão silenciosa foi usada no momento, por causa do conflito na sessão familiar. Estava muito claro que havia pouca chance de evitar que as partes se culpassem mutuamente, e pouco espaço para a escuta do ponto de vista da outra.

Milly correu para o andar de cima para pegar três cadernos e três canetas. Ayse notou que já haviam passado os dez minutos e que Milly continuava participando da sessão. Enquanto Milly estava lá em cima, Ayse percorreu a sala com o olhar para ver se havia objetos que pudessem ser usados na sessão. Ayse queria começar a sessão com alguns exercícios de ancoramento e de visualização, para preparar a família para as perguntas que viriam a seguir.

O silêncio começa

AA – Eu gostaria que vocês fechassem os olhos e visualizassem onde estão sentadas. Sintam a almofada na cadeira em que estão sentadas. Movam as mãos para sentir a madeira da cadeira onde a almofada termina. Como é a textura? Lisa? Áspera? Quão fria ela parece? Sintam os pés no chão. Sintam as mãos e mexam os dedos. Agora, visualizem a cozinha em que estão sentadas. Sem abrir os olhos nem se mexer, visualizem onde vocês estão sentadas e onde os outros membros da sua família estão sentados. Pensem numa vez em que as três se sentaram nessas cadeiras, à mesa, e aproveitaram uma refeição juntas. O que vocês comeram? Qual foi a conversa que fez dessa experiência uma boa experiência? O que vocês fizeram para contribuir com isso?

AA – Usando apenas o polegar para cima ou para baixo, digam-me se estão à vontade para prosseguir (polegar para cima de todas)

AA – Sem se virar, quero que vocês visualizem a geladeira. Na geladeira há um ímã. Nesse ímã há uma foto das três num parque de diversões, num brinquedo aquático. A mãe está sentada atrás no tronco, a Milly no meio e a Penny na frente. Gostaria que as três visualizassem a expressão dos seus rostos na descida do tronco. Tomem um instante para lembrar como foi. (Milly e Penny começaram a rir, a mãe então se juntou a elas, os olhos permaneceram fechados)

  • Do que vocês se lembram de quando estavam naquele brinquedo? (pausa)
  • O que vocês podiam ver? (pausa)
  • O que vocês ouviam? (pausa)
  • O que vocês podiam sentir de cheiro? (pausa)
  • Houve alguma conversa entre vocês três? Se sim, qual? (todas começaram a rir baixinho) (pausa)
  • Qual foi o melhor momento do dia para vocês? (pausa)
  • Do que vocês mais gostaram? (pausa)
  • O que vocês fizeram ou alcançaram naquele dia de que mais se orgulham? (pausa)

As perguntas e o ancoramento usados nessa parte da sessão buscavam lembrar à família que houve momentos em que ocorreram exceções aos problemas apresentados. Esperava-se que o detalhe que essas perguntas teriam suscitado nos pensamentos da família a deixasse mais relaxada e menos saturada pelo problema.

AA(verificou com a família — elas estavam de acordo em prosseguir, o que foi indicado pelo sinal de polegar de todos os membros da família)

AA – Pensando em tudo o que vocês atravessaram, apesar de tudo isso, o que faz vocês seguirem em frente? (pausa)

Essa foi a pergunta com que Ayse começava a fazer emergir as forças e os recursos da família e o modo como elas conseguiram seguir em frente apesar de todo o trauma passado. Na FBS, as famílias que apoiamos passaram todas por alguma forma de violência entre membros da família; é importante para nós fazer aparecer como conseguiram lidar com isso, bem como suas forças e seus recursos. Numa sessão comum, em que os clientes respondem em voz alta, essa pergunta muitas vezes suscita respostas como “não sei” ou “tenho de seguir, não tenho escolha”, que podem então levar de volta à fala-problema e a um sentimento de desesperança. Como as respostas ficaram na cabeça da família, a resposta dada não era conhecida por Ayse, de modo que a sessão podia prosseguir sem interrupção.

  • O que vocês não mudariam umas nas outras? (pausa) Pensem em pelo menos três coisas. (pausa)
  • O que vocês mais apreciam na sua família? O que mais? (pausa)
  • O que mais vocês não mudariam? (pausa)
  • Imaginem que as coisas estivessem melhores em casa: o que seria diferente? O que mais? O que mais? (pausa)

Quando o tempo entre a pergunta e o polegar para cima era curto, Ayse fazia mais perguntas “o que mais”, pois esse curto intervalo era interpretado como sinal de que a pergunta era fácil de responder; levar os clientes a pensar em outros benefícios acrescentava assim mais detalhes às suas respostas.

  • Numa escala de 1 a 10, sendo 10 tudo indo muito bem em casa e todas vocês se comunicando melhor, e 1 exatamente o contrário, onde vocês situariam as coisas neste momento? (pausa)

No primeiro encontro com a mãe foi dito que a casa havia se tornado invivível e que elas discutiam constantemente. A escala foi formulada de modo a levar a família a imaginar uma casa em que a comunicação fosse mais positiva e em que as relações estivessem bem melhores.

  • O que vocês já estão fazendo que contribui para chegarem ao seu 10? O que mais? O que mais? (pausa)
  • Houve algum momento em que vocês teriam dito um número mais baixo? (pausa)
  • Pensando naquele momento, identifiquem as forças que usaram para atravessá-lo. (pausa)
  • Que outras forças vocês conseguem identificar? (pausa)
  • O que vocês tiveram de superar, e como fizeram isso? (pausa)
  • Pensando no número que identificaram hoje, o que vocês acham que precisam fazer para chegar ao número seguinte da escala? Identifiquem o que VOCÊ precisa fazer, não os outros membros da família. (pausa)

É importante que cada pessoa da família tenha um papel a desempenhar na conquista de seu futuro preferido. Não se pode deixar que apenas certos membros da família realizem as mudanças desejadas.

  • Que diferença isso fará para a família quando vocês fizerem isso? O que mais? (pausa)
  • Como os outros membros da família se beneficiarão disso? O que mais? (pausa)
  • Como vocês se beneficiarão disso? O que mais? O que mais? (pausa)
  • Pensando em passar ao número seguinte da escala, qual é a primeira coisa que vocês vão notar e que lhes dirá que estão caminhando para o número seguinte? (pausa)
  • Como vocês farão isso? (pausa) O que mais? (pausa)
  • Vocês conseguem prever alguma dificuldade que possam enfrentar ao caminhar para o número seguinte? (pausa)
  • Se sim, quais? Como vocês superarão essas dificuldades? (pausa)
  • Às vezes as pessoas sentem todo tipo de emoção, inclusive tristeza. Se vocês estiverem tendo um bom dia, mas outra pessoa da família estiver triste, o que farão de diferente para que o ambiente de casa permaneça calmo? Quais seriam os benefícios de fazer isso? O que mais? (pausa)

Ayse fez muitas perguntas sobre como a família lidaria com eventuais recaídas. Isso se deveu ao caos inicial do encontro familiar e ao fato de que um encontro anterior com a mãe sozinha havia mostrado que os problemas da família eram complicados e enraizados. Também é realista supor que, como em todas as famílias, as relações familiares têm altos e baixos.

  • Quão confiantes vocês se sentem quanto a caminhar para o número seguinte da escala? (pausa)
  • Há alguém que possa ajudar vocês a chegar ao número seguinte da escala? (pausa)
  • Se sim, como vocês abordariam essa pessoa e o que diriam a ela? (pausa)
  • A vida pode ser bem corrida, e a pessoa a quem vocês pedirem apoio pode não estar disponível. Onde mais vocês podem buscar apoio? (pausa)
  • Numa escala de 1 a 10, quão dispostas vocês estão a trabalhar para alcançar o número seguinte da escala? (pausa)

AA – Visualizem a cozinha. Visualizem umas às outras e o modo como a pessoa ao seu lado talvez esteja sentada. Lembrem-se de um momento em que vocês estavam felizes com essa pessoa, de um instante ou de um momento em que riam juntas. O que havia de formidável naquele momento? Sintam a almofada embaixo de vocês. Sintam a cadeira de madeira. Sintam os pés e mexam os dedos dos pés. Agora abram lentamente os olhos.

Esse foi o fim da sessão, que levou pouco menos de 45 minutos; a família não deu nenhuma resposta verbal às perguntas. A sessão terminou da seguinte maneira.

Transcrição

AA – Como foi isso para vocês?

Milly – Foi relaxante. Mãe, você lembra quando a gente desceu do brinquedo aquático e você ficou tão tonta?

Penny – É, e depois ela ficou enjoada (todos os membros da família riem)

Mãe – Era a minha primeira vez, me deem um desconto (rindo)

AA – E o que mais foi útil?

Penny – Eu gostei, foi bom. Achei que ia ser uma porcaria, para ser honesta.

Milly – Eu também.

Mãe – Foi bom sentir os bons momentos e lembrar que a gente passou por tanta coisa, mas está junta, e tem muitos momentos em que a gente é feliz.

Ayse ficou aliviada por ter conseguido conduzir a sessão e pôr fim às brigas com que ela havia começado.

Sessão de acompanhamento individual com a mãe, depois da sessão silenciosa

Ayse encontrou-se com a mãe duas semanas depois da sessão silenciosa da família. Os encontros foram combinados por e-mail com a mãe. O intervalo de duas semanas servia para deixar passar algum tempo, a fim de que a família pudesse notar eventuais mudanças. A primeira coisa que Ayse notou foi a cachorra. Ela abanava o rabo e queria atenção. A mãe relatou que as coisas estavam bem melhores. Ela ainda não faz ideia de quais eram as melhores esperanças de Milly e de Penny na sessão silenciosa, mas elas estão passando mais tempo juntas em família e apreciando a companhia umas das outras. As melhores esperanças da mãe eram reencontrar a si mesma. Desde a sessão silenciosa ela saiu mais e contou às filhas que está se encontrando com alguém e que tem aproveitado esses encontros. Ficou surpresa por as meninas estarem extremamente felizes por ela. A mãe também voltou a pintar. Ela havia abandonado isso quando as meninas eram pequenas, pois seu marido de então decidira que era um desperdício de dinheiro.

Sessão de acompanhamento com Milly

A sessão de acompanhamento com Milly aconteceu duas semanas depois da sessão silenciosa. Milly descreveu a sessão silenciosa como “barulhenta”. Foi a sessão mais barulhenta que ela já teve. Explicou que foi barulhenta porque foi a vez em que mais falou numa sessão. Perguntada sobre que diferença isso fez para ela, respondeu: “Eu me senti reconhecida, e foi divertido pensar em momentos em que a mãe e a irmã dela estavam mais felizes.” Ficou muito surpresa ao notar que a mãe está mais feliz e que a irmã está menos “ranzinza”.

Sessão de acompanhamento com Penny

A sessão de acompanhamento foi duas semanas depois da sessão silenciosa. Penny explicou que a irmã havia se acalmado. Ao longo da conversa, deu-se conta de que a irmã havia se acalmado por causa das mudanças que ela e a mãe tinham feito. Penny agora ia à instituição de ensino na maioria dos dias e havia começado a tricotar com a mãe. Penny descreveu a sessão silenciosa como diferente, mas “uma boa diferença”. Explicou que conseguiu acompanhar as perguntas e que, embora às vezes achasse algumas difíceis de responder, apreciou ter o controle do momento em que a pergunta seguinte seria feita.

SF24 — Construir esperança, tornar a mudança possível

A conferência SF24 aconteceu em 3 de maio de 2024. Essa conferência on-line se estendeu por 24 horas e por quatro fusos horários diferentes. Um evento gratuito, em que praticantes focados nas soluções que usam a abordagem em contextos e organizações variados ofereceram uma oficina sobre o seu uso da abordagem. A Family Based Solutions apresentou uma oficina intitulada “Trabalhar com famílias que enfrentam desafios múltiplos”. A mãe indicou que aceitava que seu nome verdadeiro fosse usado na oficina.

Essa oficina recebeu 39 participantes, que puderam fazer perguntas à mãe sobre sua experiência da sessão silenciosa e sobre os resultados para ela e para as filhas. A transcrição a seguir foi editada para destacar os pontos principais da sessão, com as perguntas feitas pelos participantes presentes.

Trechos da oficina SF24

Pediu-se à mãe do estudo de caso que desse seu ponto de vista sobre o uso da sessão silenciosa e sobre o impacto que ela teve sobre ela e sobre suas filhas. A sessão inteira da oficina pode ser assistida no seguinte link: YouTube; a mãe do estudo de caso entra na sessão aos 18 minutos e 24 segundos.

Oficina SF24

Mãe – Há muita discussão e muita contestação do ponto de vista do outro na nossa casa. A sessão silenciosa foi um choque. Estive numa relação abusiva e coercitiva por 20 anos, e dizer meus próprios desejos e minhas próprias esperanças era corajoso. Dizê-los na minha cabeça sem que meus filhos ouvissem foi poderoso para mim e para elas.

A sessão silenciosa foi usada para garantir que cada pessoa pudesse pensar sem ser interrompida. Ayse sentia que a sessão estava saindo de controle e que era preciso fazer algo para trazer alguma ordem a ela. A única indicação de que as perguntas estavam recebendo respostas vinha do sinal de polegar para cima dos membros da família. A mãe indicou que, por causa de sua relação abusiva anterior com o companheiro, havia perdido a voz, em razão do caráter controlador da relação. A sessão silenciosa é uma maneira de garantir que sobreviventes de violência doméstica possam começar a dizer aquilo que antes era proibido ou ignorado.

Mãe – Uma pergunta poderosa que a Ayse fez foi: “Como alguém que olhasse de fora saberia que vocês fizeram algumas mudanças?” Isso deslocou a minha perspectiva. A dinâmica da nossa casa mudou enormemente. Em uma semana, as discussões pararam. Comecei a fazer as minhas coisinhas, com uma sensação revolucionária. A nossa casa está bem melhor. Estou lá embaixo no meu ateliê fazendo minha arte, e as crianças estão mais felizes. Isso não resolveu todos os nossos problemas, mas o deslocamento na nossa dinâmica é enorme. O silêncio nos deu permissão para fazer mudanças. As crianças notaram que eu estava muito mais feliz. O silêncio criou tanta ação na nossa casa.

Perguntar quem mais, além da família, poderia notar as mudanças deslocou, neste caso, o olhar da mãe sobre o problema. Ao retomar sua paixão pela arte, a mãe ficou mais feliz, o que teve por efeito diminuir as discussões e deslocar os padrões de interação até então negativos dentro da unidade familiar.

Os participantes tiveram a oportunidade de fazer perguntas à mãe.

Oficina SF24

Participante 1 – Mãe, isso foi formidável. Obrigada por compartilhar. Uma coisa que eu me perguntava é sobre o tipo de perguntas que lhe foram feitas. Então, você respondeu a elas na sua cabeça durante a sessão. Você voltou a elas desde então? Alguma vez lhe ocorrem outras respostas? E as respostas mudaram com o tempo?

Mãe – Ótima pergunta. Então, eu anotei todas. E voltei a elas, sabe, quando a gente tem um dia meio vacilante ou algo assim, e pensa: “Ainda quero essas coisas?” E: “Quero mudá-las?” Mas, sabe, são muitos passinhos bem pequenos para chegar a uma mudança bem grande, aquela a que eu gostaria de chegar.

Participante 2 – De novo, obrigado, Mãe, por estar aqui. Eu talvez tivesse dito: tudo bem, não responda em voz alta, mas escreva. Não sei se eu teria tido a coragem de ir para o silêncio. E fico pensando: parece que era melhor simplesmente responder em silêncio do que pedir a todo mundo que escrevesse. Mas fico pensando se estou certo, se você sentiu que escrever depois, em vez de na hora, era melhor?

Mãe – Acho que não dizer em voz alta fez com que, sabe, eu sei que eu conseguia pensar em coisas que são realmente importantes. E acho que, para a minha mais velha, que era permanentemente abafada pelos gritos da minha filha de 15 anos, pela primeira vez elas puderam dizer o que queriam dizer na cabeça delas, sem ter de defender.

Participante 3 – E obrigada de novo, Mãe, por compartilhar parte da sua história conosco, é muito útil. Minha pergunta é: qual foi a sua reação quando a Ayse propôs pela primeira vez, a você e às suas filhas, uma sessão silenciosa? Você chegou a questionar a sanidade ou a competência dela? Ou você se perguntou: “Mas o que é que ela está fazendo?”

Mãe – Então, fiquei muito surpresa quando ela disse, tipo, todas nós vamos ficar sem falar por 20 minutos. Vou só fazer estas perguntas. E eu, sabe, todas nós ficamos realmente chocadas. E foi preciso muito autocontrole para as pessoas não gritarem alguma coisa, ou o que fosse. E acho que, no começo, eu pensei: bom, isso é uma bobagem; mas sabe, eu pensei: ah, isso é meio uma saída fácil. Porque afinal, trata-se de a gente se entender, ou o que seja. Mas na verdade foi inacreditável, já na primeira pergunta. E estamos todas ali. E depois ver as minhas adolescentes reagirem, sabe, acenando com a cabeça ou o que fosse.

Ayse – Posso fazer uma pergunta? Mãe, se eu não tivesse introduzido uma sessão silenciosa no momento em que introduzi, você acha que a sessão teria corrido tão bem? Ou acha que o resultado teria sido semelhante?

Mãe – Não sei o que você teria feito em vez disso. Todo mundo estava participando, o que era ótimo. Mas dava para ver a dinâmica, com as pessoas se abafando aos gritos. E acho que teria simplesmente saído de controle, ou a minha mais nova teria simplesmente ido embora, sabe, ou a minha mais velha teria ficado completamente calada e simplesmente concordado com tudo. A mais nova disse: “Acho que isso parou aquela espécie de dinâmica em espiral.” Mas eu tinha, eu tinha aquilo na minha cabeça, e ninguém ia me calar, nem nada, nem me contestar. E fiquei pensando se as minhas adolescentes sentiam o mesmo, mesmo que a gente só ouvisse a si mesma.

Ayse – Uma das suas filhas me disse, cerca de uma semana depois da sessão, que aquela tinha sido uma das sessões mais barulhentas que ela já tivera. Perguntei se isso era uma coisa boa ou ruim. Ela disse que era uma coisa boa.

Mãe – Elas simplesmente disseram: “Meu Deus, isso foi incrível.” E cada uma foi para o seu canto, mas acho que foi realmente, é, foi realmente poderoso.

Participante 4 – Posso perguntar à Mãe: não saber o que a família queria tirou a pressão de levar adiante as suas ideias?

Mãe – É, acho que sim. Acho que todas nós queremos tentar muito, mas também estamos exaustas. E acho que muitos de vocês sabem, a gente sentia que era um fracasso de várias maneiras, cada uma por si. Para os outros, ou para as outras filhas, ou o que fosse; o fato de cada uma de nós poder dizer “ah, mas você não fez isso”, ou “achei que você ia fazer aquilo, e não fez”, tudo isso desapareceu. E tenho certeza de que é o mesmo para as minhas meninas, que acham a vida realmente difícil boa parte do tempo, ter essa pressão a menos, e poder simplesmente tentar cada uma do seu jeitinho. Mas também acho que isso nos fez olhar para nós mesmas de outro jeito, porque a gente fica ali procurando coisas positivas umas nas outras, para ver se eu notei alguém fazendo algo diferente, de um jeito gentil.

Depois de receber elogios dos participantes por sua contribuição, a mãe disse o seguinte.

Mãe – Ah, bom, eu sou simplesmente tão grata pela ajuda. Eu achava que não tinha nenhuma esperança. Mas ao final, só de falar, porque é tudo voltado para procurar uma solução. Não para o porquê, o quê e o como do que o passado foi. Na verdade, acho que escrevi para a Ayse depois e realmente senti: ah, talvez haja esperança, sabe, talvez as coisas possam mudar, quando eu simplesmente tinha desistido, sabe, e acho que as minhas meninas também tinham desistido, sabe, todas nós vínhamos lutando contra pensamentos suicidas e tudo, porque era só: como é que a gente sai um dia de todas essas tempestades sem fim de emoções, traumas e comportamentos em que a gente fica presa? Então acho que é. Isso nos devolveu esperança e positividade, que acho que tinham meio que acabado.

Participante 5 – Muito obrigada por ter vindo e por compartilhar conosco. Eu me pergunto: o que você notou em si mesma depois da sua sessão silenciosa? Tipo, o que você notou em si mesma? O que as suas filhas notaram em você que você pudesse reconhecer como: ah, isso é diferente, isso é melhor?

Mãe – E acho que, para mim, eu estava tão centrada nos comportamentos da minha mais nova, em como isso afetava o restante de nós, em como lidar com esses comportamentos? É, era isso que eu tinha na cabeça. E, e depois eu saí daquela sessão pensando: bom, não é sobre elas, há essa coisa enorme que eu preciso fazer. Tenho algo em que realmente preciso trabalhar, e eu não esperava isso. E eu não tinha percebido, então isso me fez, sabe, a gente ficou toda meio quieta depois, esperançosa, mas quieta.

Participante 3 – Esta pergunta é para vocês duas. São duas perguntas. Ayse, você disse que propôs uma sessão silenciosa de 20 minutos? E depois você fez. Então fico pensando: do fim daquele momento até o fim da sessão, como você terminou a sessão? E Mãe, como isso foi para você, em relação ao modo como a sessão foi encerrada? Que tipo de instruções? Como você concluiu?

Ayse – Eu queria que elas se sentissem seguras. Então eu descrevia onde elas estavam, antes de abrirem os olhos de novo. Então sentir onde estavam, o que estavam fazendo, a textura da cadeira, tudo isso. E depois pedi que abrissem os olhos e pronto, a sessão silenciosa está encerrada. Isso foi útil? Essa é uma pergunta que eu vou fazer o tempo todo. Eu fazia essa pergunta durante a sessão também. Isto é útil? Isto tem sido útil até agora? Eu fazia essa pergunta a cada quatro ou cinco perguntas, porque a sessão durou na verdade 45 minutos. Foram 15 minutos em que eu tentava fazer vocês escutarem os desejos umas das outras, e então pensei: eu não sou boa nisso. Não sei o que fazer pelo Zoom. Então tratava-se de elas reconhecerem onde estavam e o que estavam fazendo. E depois pedir que abrissem os olhos, e depois pedir que simplesmente ficassem sentadas, e dizer: “Isso foi útil?”

Mãe – É, acho que o que era bom nisso é, sabe, como no fim de um filme, sabe, o filme acaba, e como os jovens, que na hora pegam outra coisa e ficam passando, ou o que seja: deixar a coisa assentar em você. Então acho que nos reancorar, e depois era, sabe, só ficar com aquilo um pouquinho. Então ainda está ali, você não pula para a coisa seguinte. É meio como se tudo ainda estivesse ali.

A mãe teve outras reflexões interessantes mais adiante na sessão, destacadas abaixo.

Mãe – Porque acho que, para mim, as respostas que saltaram na minha cabeça não eram necessariamente as respostas que a minha mente consciente poderia ter percebido; então, sabe, uma parte de mim ficou meio chocada com o que eu estava pensando, sabe? Fiquei chocada com o que me veio à cabeça. Eu não tinha percebido que era isso que eu queria de verdade.

E-mails enviados depois pela mãe

Nos dias que se seguiram à sessão da SF24, a mãe enviou dois e-mails com suas reflexões e com o que quisera exprimir durante a conferência. Segue o conteúdo desses e-mails (o título era dela).

E-mail 1

o poder do silêncio / o barulho da sessão familiar silenciosa

  • a liberdade de usar uma voz (internamente) quando não foi seguro usar a sua voz (externamente)
  • a liberdade de pensar sem ser contrariada ou interrompida
  • a liberdade de pensar sem ser julgada nem aborrecer os outros
  • tempo para se concentrar em uma pergunta, para processá-la (sem varrer nem correr adiante para o próximo conjunto de perguntas)
  • tempo longe da preocupação de dar a resposta “certa” ou “errada”
  • tempo longe de dar a resposta que quem pergunta “quer”
  • deixar o subconsciente ser ouvido
  • a surpresa de “ouvir” o que você realmente quer ou espera

Obrigada por ajudar todas nós a fazer mudanças.

Estou trabalhando duro em trabalhar em mim mesma!

E-mail 2

Sessão silenciosa FBS 08/03/2024. Neste e-mail, a mãe expôs suas reflexões sobre as perguntas que lhe foram feitas e sobre suas respostas silenciosas.

O que você gostaria de mudar?

O modo como sou afetada pelos estados emocionais dos outros, buscar validação nos outros, andar na ponta dos pés em torno das emoções dos outros, sentir-me responsável pelos sentimentos dos outros, ter medo da raiva e da rejeição, sentir que sou um fracasso, duvidar de mim, perder-me, não ter coragem de me manter firme, de ter orgulho de quem sou, de estar aberta a ideias novas sem me desculpar pelos meus valores, ter dificuldade em aproveitar o tempo sozinha.

Como seria a vida se você mudasse isso?

Eu não seria sacudida pelas emoções delas e permaneceria calma e feliz enquanto elas atravessam aquilo que estão atravessando, eu não teria sede de ser tranquilizada.

O que você poderia fazer para conseguir isso?

Assumir a responsabilidade pela minha própria felicidade, tomar tempo para me preencher indo correr, fazendo massagens, dedicando-me às minhas próprias atividades artísticas, dizendo “estou tomando tempo para mim porque preciso, eu mereço”, aproveitando o tempo sozinha.

Que diferença isso faria para você?

Eu não guardaria ressentimento dos outros por não atenderem às minhas necessidades, estaria mais satisfeita, mais realizada, teria mais energia para lidar com os outros porque não estaria funcionando no vazio, teria mais autoconfiança.

Quem mais seria afetado pelas mudanças?

Eu não estaria com o pavio tão curto, teria mais paciência, seria menos carente, seria um exemplo de dar valor a si mesma.

Os e-mails deram à mãe a oportunidade de refletir e de se dar conta de que, ao trabalhar em sua própria autoconfiança, ela podia se dedicar a atividades que lhe davam prazer sem se sentir culpada. Essa reflexão mostrou que ela percebeu que trabalhar em si mesma teria benefícios adicionais para o modo como lidava com situações difíceis. Foi interessante e gratificante notar que ela agora sentia que “merecia”, algo que teria lhe sido tirado em sua relação abusiva anterior.

Discussão

Ayse dispunha apenas de indícios não verbais para avaliar se as perguntas acertavam o alvo ou passavam ao largo. Ela notou que as clientes levantavam os olhos quando a pergunta era feita, o que foi interpretado como sinal de que estavam pensando nela. Houve alguns franzires de testa em certos momentos, que podiam indicar que a pergunta era confusa ou inesperada. O tempo entre a pergunta feita e o polegar para cima também era mais longo ou mais curto conforme a pergunta. Ayse, a terapeuta neste caso, considerou muito importante avaliar as expressões faciais das clientes. É difícil tirar inferências das expressões faciais ou da linguagem corporal de uma pessoa, o que é subjetivo e talvez não seja uma ciência exata. Era importante para Ayse, no entanto, ver as clientes, mesmo por videochamada. Isso lhe dava, segundo ela, pistas sobre a dificuldade ou a facilidade das respostas mentais das clientes. Isso a orientava quanto a fazer ou não mais perguntas “o que mais?”, conforme o tempo transcorrido entre a pergunta feita e o sinal de polegar para cima que permitia passar à pergunta seguinte.

Perto do fim da sessão, Ayse fez perguntas como: “Suponhamos que vocês tenham feito progressos por várias semanas e que tenham uma recaída; pensem em tantas maneiras diferentes quanto puderem de superar essas recaídas”, ou ainda: “Como vocês fariam para que essa recaída não impedisse vocês de seguir em frente?” Essas perguntas foram incluídas porque Ayse considerava tratar-se de uma família marcada por anos de conflitos e que seria natural que enfrentasse algumas recaídas. As perguntas visavam preparar a família para essas recaídas e para o que ela poderia fazer para superá-las sem voltar às antigas maneiras de se comunicar.

A diferença, nesta sessão silenciosa, esteve no uso do ancoramento das clientes e em colocá-las num estado de espírito relaxado. O ancoramento foi acrescentado porque a família se comunicava negativamente e a sessão corria o risco de terminar prematuramente, ao passo que, numa sessão em que o cliente não se engaja verbalmente, o ancoramento não teria sido necessário. Essa maneira de fazer beneficiou tanto a terapeuta quanto a família, que havia começado a sessão num estado de conflito e desacordo. Pediu-se à família que fechasse os olhos, que representasse mentalmente o seu entorno e a posição do seu corpo, o que teve por efeito trazê-la ao momento presente. Estando mais presentes, elas puderam pouco a pouco acalmar a mente e se preparar para responder às perguntas feitas, com muito menos interferência da discussão conflituosa anterior.

Pediu-se à família que pensasse num momento em que estavam juntas naquele espaço, apreciando a companhia umas das outras, no que haviam comido e na conversa agradável que tiveram juntas. Isso terá tido o benefício de fazer a família visualizar um momento em que estavam felizes por estarem juntas. O mesmo terá acontecido quando a família descreveu a cena da foto na porta da geladeira. Pediu-se que descrevessem em detalhe o dia em que estavam no brinquedo aquático de um parque de diversões, o que podiam sentir, ouvir, cheirar, e a expressão de seus rostos. Isso as ajudou novamente a lembrar um momento em que estavam felizes juntas, o que terá aprofundado seu estado de relaxamento antes das perguntas da terapeuta. A tensão que antes reinava na sala terá sido superada pela lembrança de momentos mais calmos e mais felizes.

Na terapia focada nas soluções, uma das pressuposições é que há momentos em que o cliente consegue lidar com seus problemas de um modo mais útil, ou em que o problema normalmente ocorreria e não ocorreu. É o que a TBFS chama de exceção ao problema apresentado pelo cliente. “As exceções põem em questão a ideia de que os problemas são invasivos e insuperáveis. Ao destacar os momentos em que o problema não está presente ou é menos intenso, os terapeutas TBFS ajudam os clientes a reconhecer sua própria capacidade de agir e de mudar. Esse deslocamento do olhar dá aos clientes o poder de se apoiar em suas forças e de criar soluções que fazem sentido” (Franklin et al., 2012).

Na TBFS, a pergunta do milagre tem o poder de transformar futuros preferidos em imagens visuais. Pede-se aos clientes que descrevam um futuro que gostariam de ver acontecer para si mesmos, com o máximo de detalhes e de interações possível. É uma intervenção fundada no futuro esperado pelo cliente; cabe ao cliente descrever o possível, não imaginar o impossível. “Quando os terapeutas usam a pergunta do milagre, estão encorajando os clientes a descrever em detalhe como seria a sua vida se um milagre acontecesse e os seus problemas fossem resolvidos da noite para o dia. Essa descrição detalhada ajuda os clientes a identificar o que realmente querem e a reconhecer os sinais de progresso quando eles ocorrem” (Nelson & Thomas, 2007).

No e-mail da mãe, seus pontos em lista oferecem uma visão interessante da experiência que uma cliente faz de uma sessão silenciosa:

Palavras da mãe

A liberdade de exprimir internamente seus pensamentos, que ela não podia exprimir externamente.

Isso é importante, pois muitos dos clientes que recebemos na FBS não estão prontos, ou têm vergonha demais, para falar de sua experiência em voz alta. Constatamos que os homens vítimas de violência doméstica ficam constrangidos de falar de uma questão geralmente associada a um dos sexos. Os pais que sofrem violência de seus filhos também carregam muito estigma e muita vergonha; numa sessão silenciosa, eles ficam livres para explorar essas questões sem julgamento nem crítica.

A liberdade de pensar sem ser contrariada ou interrompida.

A liberdade de pensar sem ser julgada nem aborrecer os outros.

Essas observações indicam que a cliente podia voltar toda a sua atenção para a reflexão em torno das perguntas, sem oposição. Havia uma clareza, no sentido de que, sem interrupção, ela podia explorar plenamente seus pensamentos em torno das possibilidades de mudança. O que outros notariam quando essas mudanças fossem feitas, e as diferenças que isso traria para ela e para a sua família. Na sessão silenciosa, o cliente está no centro e em primeiro plano do processo de mudança. Para a mãe, a oportunidade de pensar nessas mudanças e de dizê-las na sua cabeça foi muito poderosa. Em especial porque ela esteve numa relação abusiva e coercitiva com o marido por 20 anos, sobre o que fez a seguinte declaração: “Estive numa relação realmente abusiva e coercitiva por 20 anos. E é preciso ser muito corajosa para dizer os seus próprios desejos e as suas próprias esperanças, quando todas as suas esperanças e todos os seus sonhos foram quebrados por tantos anos.” A mãe também indicou que, se a sessão não tivesse transcorrido em silêncio, sua filha mais velha teria simplesmente concordado com tudo o que fosse dito, e que, no silêncio, ela podia ser honesta em suas respostas sem ter de justificá-las nem ser derrubada pela irmã.

Tempo para se concentrar em uma pergunta, para processá-la (sem varrer nem correr adiante para o próximo conjunto de perguntas).

A família estava ao volante quando chegava o momento de Ayse fazer a pergunta seguinte. A pergunta seguinte não era feita antes que as três membros da família estivessem prontas para avançar. Isso dava às três a oportunidade de absorver plenamente suas próprias respostas, únicas, e de pensar nelas. A mãe indicou aqui que não havia nenhuma pressão para passar depressa à pergunta seguinte nem para prever qual poderia ser a pergunta seguinte.

Tempo longe da preocupação de dar a resposta “certa” ou “errada”.

Tempo longe de dar a resposta que quem pergunta “quer”.

Sendo todos os clientes únicos, quaisquer que sejam os problemas que apresentem, terão ideias diferentes sobre as causas e sobre as soluções. As respostas também são únicas e não podem ser certas nem erradas: são simplesmente o ponto de vista único do cliente sobre o seu problema. Acontece de clientes sentirem que devem dar uma resposta específica a uma pergunta. Isso pode vir do que acreditam que o terapeuta quer ouvir, ou do cuidado de não parecerem deficientes de algum modo. Ao não terem de dizer a sua resposta, esse medo é retirado da conversa; o cliente pode ser completamente honesto consigo mesmo e com as coisas que quer ver diferentes. Isso também dá ao cliente mais espaço para pensar de verdade em seu futuro preferido, sem que outros participantes da sessão coloquem dúvidas ou obstáculos em seu caminho.

“Quando os clientes são encorajados a pensar seus problemas de ponta a ponta sem serem interrompidos, muitas vezes desenvolvem melhores habilidades de resolução de problemas. Essa prática os ajuda a se tornarem mais hábeis em identificar soluções por conta própria” (Addis & Martell, 2004).

Deixar o subconsciente ser ouvido.

A surpresa de “ouvir” o que você realmente quer ou espera.

A mente subconsciente está ativa a todo momento e trabalha constantemente para trazer à realidade nossos pensamentos e desejos conscientes.

Carl Jung, Man and His Symbols

A mãe desta família ficou surpresa com o que lhe veio à mente quando refletia sobre suas melhores esperanças para a sessão. Na aparência, isso não parece ligado ao problema que a família enfrentava havia muitos anos. No entanto, o fato de ela ter retomado sua paixão pela arte mudou muito para ela e para o modo como conseguia lidar com as muitas dificuldades que ela e as filhas enfrentavam. A mãe pôde ir ao seu ateliê na sua hora e no seu ritmo, sem pressão externa; nem pressão interna, já que não seria culpada caso não o fizesse. Uma das pressuposições da TBFS é que a solução nem sempre está ligada ao problema e que, de fato, o terapeuta não precisa conhecer o problema para que uma solução aconteça. Numa entrevista com Victor Yalom, Insoo Kim Berg dizia:

Insoo Kim Berg

Descobrimos que não há nenhuma ligação entre um problema e a sua solução. Nenhuma ligação, absolutamente nenhuma. Porque quando você pergunta a um cliente sobre o seu problema, ele lhe dará um certo tipo de descrição; mas quando você lhe pergunta sobre as suas soluções, ele lhe dá descrições inteiramente diferentes de como a solução seria para ele. (Berg, citada em Yalom & Rubin, 2010, seção “Solution-Focused Model”)

A mãe, neste exemplo clínico, retomou seu hobby da pintura, e isso a tornou mais feliz e num estado de espírito mais positivo. A melhora do seu bem-estar psíquico também teve consequências positivas para as filhas e para a relação entre elas.

A mãe havia indicado que, para alcançar suas melhores esperanças, ela iria “tomar tempo para si”. A arte era uma das coisas que ela havia identificado como capazes de contribuir para isso. No e-mail 2 podemos ver as respostas às perguntas feitas à mãe, as quais, tendo ela respondido na sua cabeça, não eram conhecidas por Ayse. Este estudo de caso mostra claramente que Ayse não precisou conhecer o problema nem obter um retorno da cliente para que esta produzisse uma mudança positiva. Numa sessão comum, em que as respostas são dadas em voz alta, a terapeuta poderia ter perguntado: “Então que diferença faria para você tomar tempo para si?” — é o modo como o terapeuta leva o cliente a pensar mais profundamente nas mudanças propostas e no modo como elas podem afetar também quem está à sua volta. Isso não foi necessário aqui, e a cliente pôde ainda pensar nessas diferenças sem interferência de Ayse nem dos outros membros da família.

Conclusões

Este caso é um exemplo claro de uma terapeuta centrada no cliente. Já se relatou que Insoo Kim Berg, uma das fundadoras da abordagem TBFS, disse que era preciso “não deixar pegadas na vida do cliente” (Insoo Kim Berg, citada em George et al., 1999, p. 36). Isso remetia ao fato de deixar que as sessões fossem conduzidas pelo cliente e de lhe dar o espaço de encontrar suas próprias soluções. É muito difícil não deixar nenhuma marca nos clientes, pois o simples fato de estar na sala com um cliente deixa nele uma impressão. A troca de perguntas e respostas deixa uma pegada, e é uma escolha decidir qual pergunta o terapeuta fará em seguida, conforme a resposta do cliente. A escolha da pergunta pelo terapeuta pode então levar a conversa por outro caminho, que pode se revelar frutífero ou não. A lista de perguntas feitas à cliente, enumeradas acima, corresponde aos tipos de perguntas habituais de uma intervenção TBFS. O terapeuta tem confiança completa de que o cliente pode responder à pergunta e de que tem os recursos interiores para fazer as mudanças que espera.

A sessão silenciosa, neste exemplo clínico, teve o benefício de pôr fim à discórdia familiar evidente no início do encontro. O silêncio permitiu a cada uma tomar parte em pé de igualdade e sem medo de represálias por parte dos outros membros da família. É uma maneira alternativa de apoiar famílias cujo problema apresentado não melhorou por causa da culpabilização e da autoculpabilização. Ela pode ajudar clientes relutantes em falar, talvez por causa de más experiências de sessões de terapia anteriores, e, como neste caso, clientes que nunca puderam exprimir suas verdadeiras esperanças por medo de represálias, estando ou tendo estado numa relação abusiva. Como em qualquer sessão com um ou mais clientes, nunca se pode saber verdadeiramente quão eficaz a sessão foi para o cliente. Isso só pode realmente se saber na sessão de acompanhamento, em que o cliente pode informar o terapeuta de qualquer mudança no problema apresentado. Quantas vezes, como terapeutas ou praticantes, tivemos a sensação de que o primeiro encontro correra muito bem, para descobrir na sessão seguinte que as coisas continuavam as mesmas ou haviam piorado? Na realidade, é sempre o que os clientes fazem fora da sessão que terá mais impacto na melhora da sua situação. Na sessão silenciosa, não havia nenhuma pressão sobre os membros da família para pôr em prática o que haviam decidido a fim de melhorar suas relações. Nem a terapeuta nem os próprios membros da família sabiam o que cada uma faria de diferente; portanto, não teriam de prestar contas caso não conseguissem dar seus próximos passos rumo a seus futuros preferidos. A única pista de que a família disporia seria reconhecer que alguém na família faz algo diferente; foi esse o ponto que a mãe levantou neste caso: ela procurava qualquer sinal de melhora na dinâmica familiar. O olhar da mãe havia se deslocado para a busca de exceções à dinâmica familiar, em vez da percepção dos momentos em que a família não se entendia. A sessão ofereceu compreensões profundas sobre o modo como uma sessão silenciosa pode transformar dinâmicas familiares e tornar as pessoas capazes de fazer mudanças que fazem sentido. O retorno da mãe em particular mostrou que ela começava a ver que merecia, que podia tomar tempo para si e se dedicar a atividades que lhe traziam alegria. Isso a levou, por sua vez, a se sentir mais calma e capaz de enfrentar as dificuldades que assolavam a família havia anos. Confiar que o cliente sabe o que é melhor para ele, mesmo que isso possa não estar diretamente ligado ao problema, foi a diferença que deslocou o modo como ela lidava com a má comunicação.

Complexe Systémique · no atlas

A fórmula de Insoo Kim Berg citada na conclusão dá título a um texto de Chris Iveson que o atlas também traz: Não deixar pegadas, sobre a contenção do terapeuta e a confiança depositada no cliente. Sobre o que uma pergunta faz exatamente na conversa e sobre como o sentido se constrói ali a dois: Os fundamentos teóricos e empíricos da coconstrução do sentido no diálogo, de Janet Beavin Bavelas. E sobre o que a maneira de escutar muda naquilo que se diz: Como a sua escuta afeta as suas conversas, de Elfie Czerny e Dominik Godat. A visualização detalhada de um futuro preferido, tal como Ayse Adil a conduz aqui de olhos fechados, é trabalhada por si mesma em Entrar no futuro: uma técnica experiencial breve; e a questão de como sustentar uma conversa focada nas soluções quando as pessoas presentes não concordam em nada é tratada em Coconstruir conversas focadas nas soluções no desacordo.

Agradecimentos

Ayse Adil e Joseph Lettieri gostariam de dirigir seus agradecimentos sinceros e calorosos às seguintes pessoas:

Eve Lipchik, sem cujo encorajamento e cuja contribuição para o artigo ele não teria existido.

O professor Gil Greene, que foi de grande ajuda para pôr nossas ideias no papel, sempre pronto a fazer excelentes sugestões e a nos enviar 1001 artigos para ler!

As famílias, que são sempre uma inspiração para nós e nos ajudam a ser melhores praticantes e melhores seres humanos.

Nossos amigos e colegas da FBS, por seu trabalho árduo e por sua fé naquilo que tentamos realizar em nossa organização.

E também nossas famílias, que suportaram que estivéssemos menos presentes do que gostaríamos, e cujo amor e cuja paciência não faltam.

Submetido em 20 de agosto de 2024. Aceito em 21 de novembro de 2024. Publicado em 2 de dezembro de 2024.

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Tradução não oficial para o português de Unspoken Answers: Using Silence in Session – Engaging Client Silence With Thoughtful Solution Focused Questions to Address Family Discord, de Joseph Lettieri e Ayse Adil, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n. 2 (2024), doi: 10.59874/001c.126338, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tradução, diagramação, acréscimo de um intertítulo “Introdução”). Nem os autores nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Unspoken Answers: Using Silence in Session – Engaging Client Silence With Thoughtful Solution Focused Questions to Address Family Discord”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Lettieri, J., & Adil, A. (2024). Respostas não ditas: acolher o silêncio do cliente na sessão (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/respostas-nao-ditas-acolher-o-silencio-do-cliente-na-sessao (Obra original publicada em 2024 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n° 2; republicada em 2024 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/126338)

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