Journal of Solution Focused Practices · Tomada de posição
Uma abordagem que fez virtude de não perguntar “por quê?” pode levar em conta as relações de poder e as condições sociais? Guy Shennan, formador em prática focada nas soluções e ex-presidente da British Association of Social Workers, sustenta que a abordagem cresceu junto com o neoliberalismo e carrega suas marcas: individualizada, transacional. Em seguida ele procura o que ela já possui para a ação coletiva — o futuro, a esperança, a atenção aos recursos das pessoas — e termina com uma única palavra a mudar: de “Quais são as suas melhores esperanças?” para “Quais são as nossas melhores esperanças?”.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Towards a Critical Solution-Focused Practice?, de Guy Shennan, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2020), doi: 10.59874/001c.75064, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido e rediagramado — os intertítulos são os do autor, sua nota de rodapé foi colocada em um quadro e links internos foram acrescentados —, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelo autor nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo
Este artigo explora as conexões possíveis entre a prática focada nas soluções, a ação coletiva e a mudança social. Examina como a prática focada nas soluções poderia entrar em tais contextos e neles ser utilizada. Defende-se a ação coletiva como um dos tipos de resposta ao gênero de dificuldades que levam as pessoas a procurar terapia. Isso é abordado primeiro de um modo focado nas soluções, considerando as características da abordagem que possam ajudar em sua adaptação à ação social e coletiva. Por fim, são oferecidas ideias para tornar a prática focada nas soluções mais apropriada a tais empreendimentos.
Talvez possamos utilizar a prática focada nas soluções se mudarmos apenas uma palavra naquela pergunta de abertura, de “Quais são as suas melhores esperanças?” para “Quais são as nossas melhores esperanças?”.
Guy Shennan
Alguns desenvolvimentos recentes da prática focada nas soluções me entusiasmaram mais do que quaisquer outros desde que conheci o modelo, em meados dos anos 1990. No congresso mundial focado nas soluções de 2017, em Frankfurt, participei de uma discussão em “espaço aberto” facilitada por Wolfgang Gaiswinkler sobre “abordagem focada nas soluções e política”. Nesse encontro fomos tateando incertos rumo ao que uma relação entre a política e a abordagem focada nas soluções poderia implicar. No mesmo congresso, fui convidado a fazer a plenária de abertura do congresso norte-americano da SFBTA, em novembro de 2018. Minha fala tratava da ampliação da abordagem focada nas soluções do indivíduo ao nível da comunidade. No começo de 2018, uma seção do congresso anual da UK Association of Solution Focused Practice (UKASFP) dedicou-se a um tema semelhante, formulado dessa vez como “abordagem focada nas soluções e mudança social”.
Um esboço de “manifesto focado nas soluções pela mudança social” foi distribuído no congresso da UKASFP, assinado um tanto misteriosamente pelo “Solution-Focused Collective”. No fim do verão daquele ano, um grupo de praticantes focados nas soluções, todos interessados em usar ideias e práticas focadas nas soluções para fins de mudança social, formou-se sob esse nome. Depois de consultar a comunidade focada nas soluções mais ampla sobre seu conteúdo, desenvolvemos e publicamos o manifesto (Solution-Focused Collective, 2019).
Neste artigo quero explorar as conexões entre a prática focada nas soluções e a política, e o que pode significar pensar dessa maneira. Não abordo essa empreitada de modo neutro, pois estou comprometido com a importância da ação coletiva e com a necessidade de mudança social. Uma das razões pelas quais me interessei pela discussão sobre abordagem focada nas soluções e política em Frankfurt é que a militância havia se ligado à minha vida profissional enquanto presidi a British Association of Social Workers, de 2014 a 2018. Em particular, em abril de 2017, participei de um evento chamado “Boot Out Austerity”, uma caminhada de cem milhas para protestar contra as políticas de “austeridade” do governo britânico, que incluíam cortes selvagens em serviços e em benefícios pagos a pessoas com deficiência e a desempregados. Foi uma ação coletiva, feita por um grupo de assistentes sociais que queriam tornar os políticos e o público conscientes do impacto dessa austeridade e exigir seu fim (a expressão “Boot Out Austerity” é um trocadilho em inglês: to boot out é um coloquialismo que significa “livrar-se de”, ao passo que as botas, é claro, são usadas por quem caminha). As discussões de Frankfurt e as dos congressos britânico e norte-americano de 2018 me alertaram para as possibilidades de trazer a prática focada nas soluções para tais contextos e para o modo como ela poderia ser usada neles. Investigar essas possibilidades talvez leve a mais perguntas do que respostas, o que não surpreende, dado que estamos no início desse processo. Se essas perguntas são difíceis de responder, então, como sugere Jonathan Franzen (2013), isso as torna muito mais dignas de serem feitas.
Nota do original
Uma versão anterior deste artigo, em polonês, foi publicada no primeiro número do Polski Biuletyn BSFT, no início de 2018.
Primeiro, apresentarei os argumentos a favor da ação coletiva em resposta às dificuldades que levam as pessoas a procurar terapia. Em seguida, farei um olhar crítico sobre aspectos da prática focada nas soluções que podem impedir seu movimento para o domínio político. A existência de tais questões indicaria que é preciso trabalhar a abordagem focada nas soluções para que esse movimento aconteça. Farei isso de duas maneiras: primeiro, à boa maneira focada nas soluções, considerando as características da abordagem que combinam com uma ação mais política e coletiva ou que ajudarão a adaptá-la a ela; segundo, oferecendo algumas ideias para tornar a prática focada nas soluções mais apropriada a esses empreendimentos.
Permitam-me acrescentar uma breve observação sobre terminologia, pois as palavras podem assumir sentidos diferentes em diferentes partes do mundo. Refiro-me em particular à palavra “crítica” no título deste artigo. É, evidentemente, uma palavra de uso cotidiano, em que muitas vezes se associa a ser negativo e mesmo destrutivo. Colocada diante de “prática”, porém, pode designar “abordagens abertas e reflexivas, que levam em conta diferentes perspectivas, experiências e pressupostos” (Glaister, 2008, p. 8). Vamos um pouco além, e empregamos o termo “prática crítica focada nas soluções” para evocar, por exemplo, a “psicologia crítica” e a “psiquiatria crítica”, perspectivas que, em seus respectivos campos, se apoiam na teoria crítica (Fox et al., 2009; Thomas, 2017). Esta teve origem na sociologia da Escola de Frankfurt, embora o termo hoje se refira mais amplamente às críticas da sociedade que chamam a atenção para as estruturas de poder e as desafiam (Bohman, 2019). A teoria crítica vê os problemas sociais como determinados mais pelas estruturas societais do que por fatores individuais, e as perspectivas de prática a ela associadas veem, portanto, a mudança social e a ação coletiva como pelo menos tão importantes quanto a mudança individual.
Nos primeiros tempos das profissões de ajuda, a ação coletiva era algo comum. O serviço social no Reino Unido, por exemplo, foi inicialmente tanto uma abordagem coletiva feita de campanhas e reformas quanto uma abordagem usada com indivíduos e famílias (Dickens, 2018). A importância da primeira em relação à segunda foi defendida por Clement Attlee (1920) — depois primeiro-ministro britânico, responsável pela construção do Estado de bem-estar do pós-guerra —, entre outros assistentes sociais, o que por sua vez influenciou o trabalho de Jane Addams nos Estados Unidos (Knight, 2010). Addams, conhecida como a “mãe” do serviço social, garantiu que ele tivesse, no início, uma forte ênfase reformista. Isso foi desafiado pelo crescimento gradual de uma psicoterapia e de uma psicologia mais individualizadas, que conheceram rápida aceleração na segunda metade do século XX (Rose, 1990).
O sociólogo C. Wright Mills (1959, p. 9) estabeleceu uma distinção importante entre as aflições pessoais e as questões públicas. Ele a ilustrou com o caso do desemprego:
Quando, numa cidade de 100.000 habitantes, apenas um homem está desempregado, isso é a sua aflição pessoal, e para remediá-la olhamos, com razão, para o caráter do homem, suas competências e as oportunidades imediatamente ao seu alcance. Mas quando, numa nação de 50 milhões de empregados, 15 milhões de homens estão desempregados, isso é uma questão, e não podemos esperar encontrar sua solução no âmbito das oportunidades abertas a qualquer indivíduo. A própria estrutura de oportunidades desmoronou. Tanto o enunciado correto do problema quanto o leque de soluções possíveis exigem que consideremos as instituições econômicas e políticas da sociedade, e não apenas a situação pessoal e o caráter de um punhado de indivíduos.
A pertinência dessa distinção foi reforçada nos últimos anos pelos efeitos dos programas de austeridade implementados por muitos governos após o crash financeiro de 2008. O impacto psicológico da austeridade foi amplamente documentado (McGrath et al., 2015), o que não significa que esse impacto exija respostas individualizadas. A necessidade de uma resposta coletiva foi destacada por grupos de usuários, por exemplo o grupo britânico radical de sobreviventes da psiquiatria Recovery in the Bin (2015). Como disse um usuário dos serviços de saúde mental: “O melhor antidepressivo é a ação coletiva” (Curtis, 2018).
Acreditar na necessidade de respostas coletivas é uma das marcas das abordagens radicais e críticas nas profissões de ajuda; outra é a atenção ao trabalho colaborativo e ao empoderamento dos usuários. Embora a atenção central que a prática focada nas soluções dá ao que o cliente quer possa parecer torná-la uma abordagem radical, ela permaneceu um empreendimento em grande parte individualizado. Num artigo influente, Miller e de Shazer (1998) pretendem claramente manter a terapia focada nas soluções afastada da política, no sentido usual do termo, e não tratar os problemas dos clientes como problemas sociais. Eles afirmam que, num jogo de linguagem diferente, os terapeutas focados nas soluções de fato se engajam num processo político, ao substituir as histórias focadas no problema de seus clientes por histórias focadas nas soluções. É um jogo de linguagem que vê a terapia como um ofício, um trabalho com os clientes na construção da mudança, e “é para isso que os clientes pagam seus terapeutas” (Miller e de Shazer, 1998, p. 367).
O modo como a prática focada nas soluções está sendo conceituada aqui está preso ao contexto em que originalmente se desenvolveu, aquele em que uma pessoa paga honorários para receber terapia. Ela desde então se deslocou para muitos outros contextos, e ainda assim carregou consigo os traços individualizados e transacionais do cenário de mercado privado. O desenvolvimento da terapia focada nas soluções foi praticamente contemporâneo da atual era do neoliberalismo, e parte do nosso argumento é que os modelos de prática dominantes não conseguem escapar à influência da paisagem social e política mais ampla. Na era neoliberal, “todas as formas de solidariedade social deveriam ser dissolvidas em favor do individualismo, da propriedade privada, da responsabilidade pessoal e dos valores familiares” (Harvey, 2005, p. 23). Assim, embora seja tentador ver o ato de perguntar o que o cliente quer como algo radical, enquanto isso permanece no nível individual também se pode vê-lo como uma contribuição para os “modos pelos quais os indivíduos são encorajados, ou mesmo coagidos, a se verem inteiramente responsáveis por cada aspecto de suas vidas” (Ferguson, 2017, p. 76).
A palavra “coagidos” pode parecer forte, mas precisamos ter cuidado com o modo como a terapia focada nas soluções poderia ser usada em programas governamentais, ao lado de outras intervenções psicológicas, como meio de “psicocompulsão”, por exemplo para devolver as pessoas ao emprego (Friedli e Stearn, 2015). Há um preço a pagar por tentar tornar as pessoas inteira e individualmente responsáveis por suas vidas. Como formulou Recovery In The Bin (2015), “a autonomia e a autodeterminação só podem ser alcançadas pela luta coletiva, e não pelo esforço e pela aspiração individualistas”.
A essas reflexões sobre o contexto e sobre os limites de perguntar aos indivíduos o que eles querem soma-se outra crítica à abordagem focada nas soluções, de inspiração política: sua pouca atenção à pergunta “por quê?”. Essa é vista como a pergunta central no trabalho de grupo autodirigido, uma abordagem da ação coletiva desenvolvida dentro do serviço social (Fleming e Ward, 2017), que tem ligações com a pedagogia crítica de Freire (1970). Os criadores do modelo de trabalho de grupo autodirigido criticam as abordagens que saltam diretamente da pergunta “o quê?” para a pergunta “como?”, sem tratar do “por quê?” no meio do caminho. Afirmam que isso limita o alcance das soluções ao “mundo privado ao redor das pessoas e ao interior de seus conhecimentos e de sua experiência existentes” (Fleming e Ward, 2017). O que se sugere é que perguntar “por quê?”, sobretudo num contexto de grupo, desenvolve uma consciência crítica e leva a um leque mais amplo de opções de ação e de mudança.
Essa atenção aos problemas, e ao processo em vez do resultado, faz do trabalho de grupo autodirigido algo muito diferente da prática focada nas soluções, e não está claro nesta altura o que essa crítica particular oferecerá a um praticante focado nas soluções. Mas quem sabe que síntese poderia resultar da consideração de uma abordagem tão antitética! O importante é adotar uma postura crítica e reflexiva diante dos próprios métodos, o que já é em si parte de uma abordagem política (Warren, 1984). No mínimo, isso manterá nossa abordagem viva e ajudará a nos afastar do conformismo em direção ao desenvolvimento e à mudança.
Há, portanto, ao que parece, trabalho a fazer para que a prática focada nas soluções seja adaptada ao uso num contexto político, como parte de uma ação coletiva rumo à mudança social. Se queremos que a prática focada nas soluções siga nessa direção, comecemos por olhar o que já acontece, em busca de “instâncias” de tal adaptação.
Enunciamos acima uma ressalva a respeito do ponto de partida focado nas soluções que é perguntar o que o cliente quer: isso pode levar a que a mudança social necessária seja reduzida à busca de objetivos individuais, com uma responsabilidade indevida depositada sobre o indivíduo. Ao mesmo tempo, se nos precavemos disso, continua sendo um ato potencialmente radical e emancipador perguntar a uma pessoa, ou a um grupo de pessoas, o que ela quer. Deixem-me dar dois exemplos. Ferguson (2017) descreve as memórias de John Perceval, de 1838, como “talvez o relato mais perspicaz e pungente já escrito por um ex-paciente sobre a vida no manicômio”, e compartilha este trecho (p. 37):
Os homens agiam como se meu corpo, minha alma e meu espírito lhes tivessem sido simplesmente entregues, para neles exercerem sua maldade e sua tolice. Meu silêncio, suponho, valia como consentimento. Quero dizer que nunca me disseram: vamos fazer isto e aquilo; julgamos aconselhável administrar tal ou qual remédio, desta ou daquela maneira. Nunca me perguntaram: você quer alguma coisa? Você deseja, prefere alguma coisa? Você tem alguma objeção a isto ou àquilo?
Meu segundo exemplo é coletivo. Há alguns anos eu estava num congresso de serviço social na Coreia do Sul, no qual um grupo de ativistas pelos direitos das pessoas com deficiência realizou um protesto durante o discurso de boas-vindas do ministro. A plateia ficou chocada com o tratamento dado às pessoas com deficiência quando foram retiradas do palco e da sala, mas ao fim do congresso, três dias depois, elas estavam de volta ao mesmo palco, dessa vez a convite dos organizadores, e puderam transmitir sua mensagem. Isso se deu após negociações com os anfitriões do congresso, embora eu também tenha testemunhado uma relação verdadeiramente colaborativa que se desenvolveu entre os ativistas com deficiência e um grupo de assistentes sociais militantes presentes ao congresso, pela qual o grupo com deficiência obteve apoio para defender sua causa. Isso começou quando um dos assistentes sociais localizou o site dos ativistas após o protesto e lhes enviou um e-mail que terminava com esta simples pergunta: “Do que vocês precisam de nós, o que vocês querem?” (Shennan, 2016).
Há muitos anos a pergunta inicial da equipe do BRIEF, em Londres, usa a palavra “esperança” em vez de “querer”: “Quais são as suas melhores esperanças a respeito do nosso trabalho conjunto?” (Ratner et al., 2012). Um livro recente do estudioso marxista inglês Terry Eagleton (2015) talvez explique a popularidade dessa pergunta em particular, ao examinar as diferenças entre esperança e desejo. O relato de Eagleton é rico, recorrendo amplamente a fontes políticas, religiosas e literárias, às quais não posso fazer justiça aqui. Destacarei algumas dessas diferenças, que nos alertam para os aspectos políticos da esperança. Primeiro, a esperança, diferentemente do desejo, pode exprimir possibilidade tanto quanto anseio. “Espero ver você em Copenhague em setembro” sugere que julgo isso possível, ao passo que “eu queria ser Lionel Messi” não sugere (para o leitor pouco afeito a esportes, refiro-me aqui ao maior jogador de futebol do mundo).
Uma consequência desse aspecto da esperança — o de ser desejo de algo que se acredita possível — é que ela convida a que se aja em vista de sua realização. Para Tomás de Aquino, essa ação faz parte da própria esperança, que ele define como “um movimento… rumo a algum bem difícil” (Eagleton, 2015, p. 50). Que a esperança seja uma atividade e não um estado de espírito a torna performativa, isto é, ela não é “simplesmente uma antecipação do futuro, mas uma força ativa em sua constituição” (p. 84). Como escreveu o poeta romântico inglês Shelley em Prometheus Unbound: esperar até que a Esperança crie, de seus próprios destroços, aquilo mesmo que contempla (to hope till Hope creates / From its own wreck the thing it contemplates). Eagleton encontra aí uma explicação para a conexão entre a imaginação romântica e a política radical, e isso também poderia sugerir a nós que os convites que fazemos aos nossos clientes para imaginar futuros preferidos poderiam levar à ação política (p. 85):
O simples ato de poder imaginar um futuro alternativo pode distanciar e relativizar o presente, afrouxando sua garra sobre nós ao ponto em que o futuro em questão se torna mais viável. Essa é uma das razões pelas quais a imaginação romântica tem ligação com a política radical. A verdadeira falta de esperança seria que tais imaginações fossem inconcebíveis.
Essa ideia da esperança como movimento, e suas implicações para a ação política, fazem com que não seja apenas o foco no futuro da prática focada nas soluções que importa aqui, mas também sua atenção ao progresso. Eagleton cita ainda pensadores da teologia, como Jürgen Moltmann, que descreve o cristianismo como “esperança voltada para a frente e em marcha para a frente, e portanto também revolucionária e transformadora do presente” (p. 54). Isso se harmoniza com a atenção às narrativas progressivas na prática focada nas soluções (de Shazer, 1991) e insinua um potencial ainda inexplorado da abordagem para ser utilizada em movimentos radicais, sejam políticos ou espirituais.
Podemos mencionar também a atenção da prática focada nas soluções aos recursos. Raymond Williams (1983, p. 241) descrevia os movimentos sociais, como o movimento pela paz e o movimento feminista, como “recursos para uma viagem de esperança”, que ele julgava necessários para ir além da globalização. Ao trabalhar com movimentos e grupos de usuários, o praticante focado nas soluções estaria tipicamente atento a seus recursos, os quais, segundo Jones e Novak (2014, p. 17), incluem “intuições e compreensões incomparáveis de seus desafios e dificuldades e das maneiras de enfrentá-los”. No caso dos usuários afetados pela pobreza, isso seria um corretivo muito necessário, pois eles acrescentam que “os recursos dos pobres são uma contribuição muito negligenciada para a luta”.
Parece haver, portanto, várias maneiras pelas quais a prática focada nas soluções já poderia ser útil no que diz respeito à ação coletiva e à mudança social e política. Podemos notar também que a abordagem já é empregada com grupos de pessoas, e não apenas com indivíduos, ainda que em contextos diferentes dos que aqui nos ocupam. Há inúmeros exemplos de trabalho de grupo focado nas soluções, em ambientes educacionais ou de tratamento (Metcalf, 1998; Sharry, 2007), embora o tratamento seja em geral de indivíduos que se reuniram apenas para esse fim, e não um trabalho com um coletivo como tal. É provável que ainda haja lições a tirar daí, e talvez ainda mais da prática focada nas soluções nas e com as organizações (McKergow e Clarke, 2007). Fora da prática focada nas soluções, mas aparentado a ela pela atenção aos recursos, o desenvolvimento comunitário baseado nos recursos do território também poderia ser uma fonte a explorar (McKnight e Block, 2010).
Antes de examinar como a prática focada nas soluções pode se tornar mais pertinente para a mudança social, quero tratar de um temor possível quanto à natureza da mudança social para a qual a abordagem poderia ser usada. No manifesto mencionado acima (Solution-Focused Collective, 2019) está claro que se trata de um movimento rumo a mais justiça social. Pareceria difícil objetar a tal objetivo, mas surgem duas questões. A primeira é que um termo como “justiça social” é vago e que a justiça está, por assim dizer, nos olhos de quem vê. Um fim que parece justo a um grupo da sociedade pode parecer menos justo a outros. A segunda é que esse não é, de todo modo, o único tipo de mudança social desejado. Há grupos nativistas e outros grupos racistas que também veem certas estruturas sociais como injustas, e não há razão para supor que uma abordagem focada nas soluções não pudesse ser usada na busca de objetivos societais que eles favoreceriam. Em resposta, podemos ver que a mesma questão se coloca aos praticantes focados nas soluções no trabalho com indivíduos, onde as questões éticas precisam ser administradas do mesmo modo. Isso é tratado explicitamente nos critérios de um “projeto comum” focado nas soluções:
Já dissemos algumas vezes que, quando podemos resumir o que o cliente quer em uma ou duas frases, e isso é algo importante para o cliente, realista em sua situação de vida presente e ético — o que significa algo de que queremos participar ajudando o cliente a criar e algo que está dentro do âmbito legítimo do nosso trabalho —, então temos um projeto. (Korman, 2017)
Do mesmo modo, em qualquer sociedade haverá mecanismos de validação dos projetos de mudança social, e a disponibilidade de uma nova abordagem para ser usada nesses projetos é neutra quanto ao seu fundamento ético.
Passemos enfim ao que mais poderia ajudar a mover a prática focada nas soluções em direção à arena política. O mais importante é que precisamos abordar essa tarefa coletivamente. Assim como o neoliberalismo isolou as pessoas com quem os profissionais de ajuda trabalham, também fragmentou os profissionais e os serviços em que atuamos. Formar alianças com profissionais que pensam de modo semelhante é decisivo, e felizmente há vários grupos que deram passos rumo a modelos coletivos de trabalho e com os quais podemos aprender. Entre eles estão os psiquiatras críticos (Thomas, 2017), os psicólogos críticos, comunitários e da libertação (Fox et al., 2009; Afuape e Hughes, 2016) e os assistentes sociais radicais (Turbett, 2014).
Cada um desses grupos desenvolveu alianças com grupos de usuários. Embora esse seja também um aspecto importante da ação coletiva, isso coloca aos praticantes focados nas soluções uma questão que exigirá alguma reflexão. No contexto terapêutico, ao menos, os contatos entre os praticantes focados nas soluções e seus clientes são relativamente breves, e o praticante procura não deixar pegadas na vida do cliente (Insoo Kim Berg, citada em George et al., 1999, p. 36). Formar alianças pela mudança social, o que levaria os praticantes a entrar mais fundo na vida de seus clientes, não combina facilmente com isso. Contudo, em outros contextos, os praticantes focados nas soluções trabalham de fato com seus clientes em bases mais longas; e além disso, a ação coletiva provavelmente envolverá atividades de campanha, e não somente a prática focada nas soluções tal como tradicionalmente concebida.
O deslocamento mais radical de todos, aquele que tornaria possível uma aliança entre praticantes e usuários, decorreria talvez da adoção da posição de Raymond Williams, relatada por Eagleton (2015, p. 68), que “toma como certo que a esperança não é, em primeiro lugar, esperança para si mesmo, mas esperança para nós” (grifo do autor). No filme de Ken Loach de 2016, Eu, Daniel Blake, o personagem-título, submetido à indignidade do sistema britânico de seguridade social e privado de seus benefícios, prepara um discurso que ressoa de desafio. Ele começa com “Eu não sou um cliente, um consumidor, nem um usuário de serviços…” e termina com “Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nada mais, nada menos”. Somos todos cidadãos, e somos todos afetados pela globalização e por políticas regressivas, como a austeridade e a redução dos serviços públicos. Assim, talvez aqueles de nós que se unem a essas causas comuns possam utilizar a prática focada nas soluções se mudarmos apenas uma palavra naquela pergunta de abertura, de “Quais são as suas melhores esperanças?” para “Quais são as nossas melhores esperanças?”.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada no Polski Biuletyn BSFT, e eu gostaria de agradecer a essa revista e, em particular, à sua editora, Marta Rudnik, por darem autorização para que fosse publicado em outro lugar. Obrigado também a Rayya Ghul, Steve Myers, Marc Gardiner e aos pareceristas anônimos por seus comentários sobre um rascunho desta versão atualizada.
Referências
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Tradução não oficial para o português de Towards a Critical Solution-Focused Practice?, de Guy Shennan, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n. 1 (2020), doi: 10.59874/001c.75064, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Towards a Critical Solution-Focused Practice?”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2020) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Shennan, G. (2020). Rumo a uma prática crítica focada nas soluções? (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/rumo-a-uma-pratica-critica-focada-nas-solucoes (Obra original publicada em 2018 em Polski Biuletyn BSFT, n° 1, 2018 (version antérieure, en polonais); republicada em 2020 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75064)
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