Journal of Solution Focused Practices · Debate
Este artigo busca fazer um balanço dos desenvolvimentos da terapia breve focada nas soluções ao longo da última década. Concluo que já vimos chegar uma espécie de forma nova, firmemente centrada nas descrições e ainda mais simples em sua forma do que a TBFS original desenvolvida por Steve de Shazer, Insoo Kim Berg e colegas. Essa forma nova continua sendo, sem dúvida, TBFS quanto às prioridades e ao foco dos autores originais, mas também deixou para trás muitos elementos herdados, durante o desenvolvimento inicial, das tradições anteriores da terapia familiar e da terapia breve. O nome “TBFS 2.0” é proposto para ajudar a evitar a confusão com as formas anteriores, mantendo ao mesmo tempo que não se trata de uma nova terapia, e sim de uma evolução importante de uma prática existente.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de SFBT 2.0: The Next Generation of Solution-Focused Brief Therapy Has Already Arrived, de Mark McKergow, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2016), doi: 10.59874/001c.75089, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e rediagramado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelo autor nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Será impossível colocar essa versão à prova se não fizermos a distinção desde o início.
Mark McKergow
Na terapia breve focada nas soluções (TBFS), costuma-se fazer a pergunta: “como você notaria que o milagre aconteceu?”. Isso não é de modo algum o mesmo que perguntar como fazer o milagre acontecer – é mais como se teletransportar adiante, para o futuro, e explorar ali a diferença que o milagre faz na vida cotidiana. Isso leva a uma conversa sobre notar a mudança, em vez de lutar para produzi-la do zero – uma conversa sobre descobrir que a mudança já está acontecendo, como preâmbulo daquilo que se vai construir sobre ela.
Proponho a ideia de que os sinais dessa mudança em nossa própria prática estão se tornando cada vez mais notáveis. Neste artigo vou expor esses sinais e dizer em que medida eles mostram, a meu ver, que já estamos avançando em direções novas. Nesse sentido, este artigo não é um chamado à ação. Não estou propondo uma nova forma de TBFS, estou tentando dar mais clareza e forma ao que está acontecendo, e propor que é hora de reconhecermos esses desenvolvimentos e de nos servirmos deles, em vez de fingir que continuamos todos na mesma página do início dos anos 1990. Essas versões mais recentes já estão impressas, mas não estão claramente sinalizadas como novas.
O fato de que formas diferentes de TBFS convivem sob a mesma bandeira arrisca causar confusão entre os recém-chegados e mesmo entre praticantes mais experientes, que veem ideias e métodos diferentes sob um mesmo título.
Como essas versões mais recentes continuam sendo inequivocamente TBFS, não seria apropriado procurar dar-lhes um nome novo. Há hoje, no entanto, diferença suficiente para que valha a pena estabelecer uma distinção. À maneira dos grandes lançamentos de uma nova versão de software, proponho que “TBFS 2.0” possa servir como título de trabalho.
Neste artigo vou procurar descrever as diferenças e as inovações entre a TBFS 2.0 e o que poderíamos chamar de TBFS 1.0, a versão “original”. Mesmo esta não é fácil de delimitar em detalhe, seguindo a insistência de Steve de Shazer, em muitas ocasiões, de que “não há ortodoxia”. Essas distinções, porém, estão ficando maiores e cada vez mais importantes, e o campo corre o risco de se embaralhar ainda mais.
A TBFS emergiu gradualmente durante a segunda metade dos anos 1980, a partir de um extenso programa de pesquisa empírica realizado no Brief Family Therapy Center (BFTC) de Milwaukee, sob a direção de Steve de Shazer, Insoo Kim Berg e colegas. De Shazer e Berg foram fortemente influenciados pela abordagem de terapia breve do Mental Research Institute (MRI), de Palo Alto, e se propuseram a desenvolver essa abordagem em seu próprio centro. De fato, John Weakland, pilar do MRI, permaneceu supervisor e amigo próximo de Steve de Shazer até a morte do primeiro, em 1995. Esse pano de fundo é importante para entender o modo como a linguagem é inicialmente usada na TBFS, como veremos.
Durante a primeira metade dos anos 1980, a equipe do BFTC desenvolveu suas ideias de terapia breve, com Steve de Shazer produzindo dois livros (de Shazer, 1982, 1985) que prolongavam a ideia de encontrar padrões e desenvolviam ideias baseadas em métodos ericksonianos (por exemplo a técnica da “bola de cristal”), criando intervenções que podiam ser vistas como “chaves-mestras” para destrancar os casos. Os primeiros traços da TBFS tal como a conhecemos apareceram em um artigo-chave de 1986 (de Shazer et al., 1986) e se consolidaram no livro de 1988, Clues: Investigating Solutions in Brief Therapy (de Shazer, 1988). Gale Miller, contratado pelo BFTC como observador e pesquisador, passou um tempo no Centro em 1984 e novamente a partir de 1989. Ele diz que a prática mudou nitidamente nesse período:
Gale Miller, citado por McKergow (2009, p. 79)
Tenha em mente que, em 1984, eles não estavam fazendo terapia focada nas soluções, estavam fazendo algo muito parecido com o primeiro livro de Steve (de Shazer, 1982) – eu chamava isso de terapia ecossistêmica. Era muito informado pelo grupo de Palo Alto (o Mental Research Institute)… [Em 1989] descobri que era um lugar muito, muito diferente. Dava para ver que tinham feito um movimento dramático na direção da prática focada nas soluções, outros tipos de pressupostos, muito menos sistêmicos, muito menos tempo dedicado a criar intervenções engenhosas, muito menos tempo mapeando problemas ou dificuldades; era muito mais centrado nas soluções e mais fluido.
Muitos praticantes no mundo todo lembram de ter começado sua prática focada nas soluções lendo Clues, que continha os principais ingredientes da TBFS (embora não no mesmo equilíbrio entre os elementos: dá-se ali muito mais ênfase à construção de exceções, ficando as conversas em torno de uma solução hipotética reservadas aos casos em que nenhuma exceção pode ser encontrada). Steve de Shazer escreveu em seguida dois livros que tratavam menos do “como fazer” do que tentavam acrescentar algum rigor intelectual às suas descobertas (de Shazer, 1991, 1994). No início dos anos 1990 a abordagem ganhava terreno internacionalmente, e a fundação da European Brief Therapy Association (EBTA) em 1994 deu aos praticantes um lugar para se reunir, trocar e se desenvolver.
Os desenvolvimentos dos anos 1990 e do início dos anos 2000 incluem mais atenção à pesquisa (e a elaboração de um protocolo de pesquisa da EBTA, destinado a assegurar alguma clareza sobre o que contava como TBFS para fins de pesquisa), assim como a aplicação das ideias da TBFS a outras áreas da terapia e da vida (escolas, organizações, serviço social, prisões, etc.). Ao longo da primeira década dos anos 2000 foram publicadas centenas de estudos (Macdonald, 2011), e em 2012 uma coletânea de referência foi organizada por Cynthia Franklin e publicada pela Oxford University Press (Franklin, Trepper, McCollum, & Gingerich, 2012). O segundo capítulo desse livro (Trepper et al., 2012) se intitula “Solution Focused Brief Therapy Treatment Manual” e dá uma boa descrição do que poderíamos chamar de “TBFS clássica”.
Este resumo servirá de linha de base para o que vem a seguir. Não acho que haja aí nada de controverso como enunciado geral da prática.
Durante os anos 2000 e adentrando os anos 2010, alguns desenvolvimentos interessantes emergiram no campo da TBFS, que me parecem estender e modificar o manual de tratamento da TBFS 1.0 clássica apresentado acima. Muitos desses desenvolvimentos são mencionados, sem muita cerimônia, por Shennan e Iveson (2011) e também em outros trabalhos da equipe do BRIEF e de outros autores (Iveson, George, & Ratner, 2011; Iveson & McKergow, 2016; Ratner, 2014; Ratner, George, & Iveson, 2012). Em alguns casos, porém, receio que os autores não tenham feito esforço suficiente para distinguir suas próprias inovações da prática estabelecida. Eu resumiria assim essas distinções:
Vejamos cada um desses pontos, um a um.
Desde os primeiríssimos dias, a terapia breve do modelo MRI valorizava a informação descritiva, concreta e específica (ver Weakland & Fisch, 1992, para um resumo mais tardio, que também indica que Steve de Shazer participou de um seminário de terapia breve do MRI já em 1972). A abordagem do MRI, uma verdadeira ruptura de paradigma em saúde mental, consiste em ver tais problemas não como estando “dentro” do paciente, mas como uma espécie de resultado dos padrões de comunicação entre o cliente e as pessoas ao seu redor. O foco na informação descritiva, concreta e específica é uma maneira de parar de ser arrastado para hipóteses psicológicas internas e de se concentrar, em vez disso, nas interações: quem faz o quê, com quem, quando e em que ordem.
É aí, no modelo do MRI, que está a chave para encontrar maneiras de perturbar o padrão que mantém o estado problemático e de abrir as portas para que algo diferente aconteça, criando uma intervenção comportamental. Uma vez que algo diferente ESTÁ acontecendo, pode-se aconselhar o cliente a fazer mais disso, para promover o novo e melhor padrão de comportamento.
Esse foco em uma linguagem específica é levado adiante na TBFS 1.0. De fato, de Shazer e os demais nomearam conscientemente seu artigo fundador Brief Therapy: Focused Solution Development em eco à contribuição anterior do MRI (Weakland, Fisch, Watzlawick, & Bodin, 1974), como uma maneira de indicar que essas duas abordagens estavam conectadas. Contudo, esse detalhe concreto trata agora muito mais do que o cliente quer, do dia seguinte ao milagre, do que está funcionando e assim por diante, do que do padrão do problema. Os propósitos gerais – evitar hipóteses mentalistas e se concentrar no específico – continuam ali, assim como o foco em reunir informação com o objetivo de criar intervenções ou dar tarefas.
Se olharmos agora para a recente “virada descritiva” descrita por Shennan e Iveson, esse mesmo foco na informação descritiva, concreta e específica está presente. Mas agora esse detalhe não se destina ao terapeuta, para que ele crie intervenções: destina-se muito mais ao cliente, para que ele o diga, o escute e responda a ele. Se há alguma diferença, o nível de detalhe é ainda maior do que antes – por exemplo, o caso do “abraço” relatado por Iveson e McKergow (2016), em que um abraço de cinco segundos leva outros tantos minutos para ser descrito. (Os leitores mais atentos terão notado que o título do artigo deles, Brief Therapy: Focused Description Development, ecoa conscientemente os dois artigos mencionados no parágrafo anterior, também em homenagem a uma abordagem em evolução.)
O objetivo da terapia fica assim modificado. O terapeuta não busca reunir informação para criar intervenções. Seu papel é antes ajudar o cliente a expandir o detalhe de suas descrições, as quais então ficam cada vez mais salpicadas de minúsculos elementos específicos que poderiam facilmente se sugerir ao cliente como ações. Uma vez que o cliente está falando, digamos, do dia seguinte ao milagre, o terapeuta vai encorajá-lo a falar com mais detalhe sobre si mesmo e sobre as pessoas ao seu redor (um eco muito consciente ao MRI de meio século atrás), mas em termos de detalhes do que o cliente quer, e não dos padrões do problema. Perguntas muito simples podem ajudar nisso:
Note que [X] não precisa ser específico aqui – pode ser uma simples reformulação das melhores esperanças, ou mesmo apenas “isso” na conversa. Essas perguntas ajudam a tornar as coisas detalhadas, mesmo a partir de pontos de partida muito nebulosos e pouco claros.
Assim, o papel do terapeuta passa de classificador-de-detalhes (para descobrir os detalhes relevantes para o desenho de uma intervenção) a expansor-de-detalhes (para ajudar o cliente a mergulhar em suas descrições de melhores futuros, passados e presentes). O vocabulário se desloca do “fazer” para o “notar”. Parece que Steve de Shazer e Insoo Kim Berg tocaram em parte desse deslocamento de ênfase já em 1992, em seu artigo Doing Therapy: A Post-Structural Re-Vision (de Shazer & Berg, 1992), no qual discutem a ideia de mudanças de gramática durante a sessão. Pode ser, no entanto, que não tenham captado, naquele momento, todas as consequências de tal deslocamento. Esse novo papel entra em jogo também em muitas das outras distinções que vou expor a seguir.
As perguntas sempre estiveram no coração da TBFS. De fato, os vídeos originais produzidos pelo BFTC, que mostram Steve de Shazer e Insoo Kim Berg trabalhando, são legendados para ajudar o espectador a acompanhar o que acontece na sessão. Os títulos dizem “pergunta do milagre”, “pergunta de escala”, e assim por diante. O foco está na pergunta. Existem hoje até livros que reúnem quantidades enormes de “perguntas FS” e mesmo livros de “1001 perguntas focadas nas soluções” (Bannink, 2010), como se uma pergunta sozinha pudesse ser “focada nas soluções”. (Qualquer pergunta pode ser feita de uma miríade de maneiras diferentes, e apenas algumas delas serão focadas nas soluções.)
É claro que tais perguntas são um elemento importante da prática focada nas soluções. Mas o ponto dessas perguntas não é simplesmente serem feitas: é iniciar uma seção da entrevista ou da sessão, ou construir sobre ela. Uma pergunta do milagre e uma única resposta podem avançar um pouco, mas a carne de verdade está no que vem depois – a expansão das respostas em descrições, na conversa.
A pergunta do milagre ou a pergunta de escala não são simplesmente perguntas, mas o começo de um trecho de conversa bem mais longo. Faz sentido, portanto, focar nesses blocos de conversa, e não apenas nas perguntas, como elementos distintos. Assim, uma conversa de “futuro preferido” é uma pergunta do milagre MAIS todos os desdobramentos sobre os primeiros sinais minúsculos de que o milagre aconteceu, sobre quem mais poderia notar, sobre o que essa pessoa notaria, sobre o que acontece em seguida, sobre a diferença que isso faz e para quem, e assim por diante.
Chris Iveson vem falando há algum tempo de uma metáfora da “galeria de arte” para a conversa terapêutica. Essa galeria de arte tem uma série de “salas” com coisas diferentes para olhar e examinar. Essas salas poderiam ser as seguintes:
Obter do cliente algumas melhores esperanças, um “ingresso” para prosseguir com o trabalho.
Um conjunto de imagens ou descrições de um futuro melhor para o cliente e os seus (palavra errada), com essas melhores esperanças realizadas.
Um conjunto de imagens ou quadros de ocorrências, no passado ou no presente, que se conectam com esse futuro preferido (e que podem ser construídos com uma escala de 1 a 10).
A última sala, que pode apresentar uma série de imagens ou quadros do N+1, de pedaços menores ou de sinais, ao longo do caminho, de que se está progredindo.
As quatro salas da galeria de arte focada nas soluções, segundo Chris Iveson (figura 1 do artigo original).
À maneira da galeria das ocorrências, Adam Froerer, da Mercer University, fala de uma sala dos recursos (Froerer, 2017), na qual são reunidos diferentes elementos da vida do cliente que mostram seus recursos. O ponto dessa metáfora não é que cada sala deva ser visitada em ordem, sem que se permita voltar atrás. Longe disso – embora haja certamente um sentido de percurso sugerido, da entrada para a saída, durante a sessão o cliente e o terapeuta podem passar mais tempo em uma sala do que nas outras, podem voltar e revisitar algo, ou talvez descobrir alguma outra coisa que não tinham notado antes, e assim por diante. Isso não é uma receita, mas um guia para o que será inevitavelmente um percurso singular.
Essas “salas” ajudam o praticante a manter o registro de onde está e do que se passa na conversa. Em geral é bom permanecer um tempo em uma mesma sala, em vez de correr freneticamente de uma para outra. Se, durante uma conversa de futuro preferido, surge uma “ocorrência” interessante e pertinente (voltaremos a esse conceito), o terapeuta tomará nota dela para ir visitá-la mais tarde, em vez de desviar imediatamente para vê-la agora e perder o fio da conversa de futuro preferido. Terapeuta e cliente podem circular juntos de sala em sala, voltando atrás se necessário. A distinção essencial aqui é tirar o máximo de cada “sala” ou fase, em vez de saltar de sala em sala (uma tendência que observo em muitos iniciantes absolutos em TBFS, que parecem querer aplicar todas as perguntas de uma vez!).
Esse desenvolvimento já era anunciado pelo trabalho de Jackson e McKergow (2002, 2007) sobre as “ferramentas das soluções”. Também ali havia uma tentativa de encontrar uma unidade de conversa maior do que a pergunta-resposta, para ajudar praticantes e coaches em formação a manter o fio. Jackson e McKergow tentaram dar a essas ferramentas nomes bem marcados, como Future Perfect (o futuro perfeito, ou seja, o futuro preferido) e Counters (os contadores, que incluem as ocorrências e também os recursos pertinentes).
Esses termos nem sempre se traduzem bem para outras línguas, mas se mostraram duráveis ao longo da última década e mais, ajudando os praticantes a tirar o máximo da conversa que estão tendo (permanecendo nela), em vez de sair correndo para outras conversas quando o cliente balança diante deles um petisco tentador. O conceito de ferramentas tem ainda a vantagem de não impor uma “ordem correta” de utilização, o que dá flexibilidade ao praticante dentro de um quadro fácil de carregar consigo.
A discussão sobre a natureza dos objetivos na TBFS vem de longa data. Nos primeiros tempos, parece-me que havia um foco em objetivos (pequenos, específicos, comportamentais) como maneira de favorecer o afastamento geral das hipóteses psicológicas e a aproximação de alguma forma de discussão sobre o que era desejado pelo cliente. A ideia de ser “orientado para objetivos” era um marcador útil para se distinguir de outras práticas “orientadas para o insight” ou “profundas”. Contudo, a natureza emergente da TBFS implica que o processo se concluirá não necessariamente quando os objetivos do cliente forem atingidos, mas quando o cliente estiver satisfeito de poder tocar sua vida por conta própria – conecte-se isso ou não com seus objetivos iniciais.
O movimento de começar perguntando pelas “melhores esperanças” do cliente, como fazem o BRIEF e outros, é um passo para fora dos objetivos. Um objetivo é uma coisa específica a ser realizada (eventualmente em uma data precisa). Uma esperança é algo que está no futuro, algo desejado e ainda assim não (inteiramente) presente no momento. Uma melhor esperança é isso, mas mais ambicioso e talvez até mal possível. (Isso se distingue de imediato das “razões para vir à terapia”, que costumam estar no passado e não são desejadas por ninguém.)
As respostas às melhores esperanças – e tais respostas podem não vir de imediato – são uma maneira de definir o tema ou a natureza do trabalho. Harry Korman (Korman, 2004) escreveu sobre a definição de um “projeto comum”, comum entre o cliente e o terapeuta, sobre o qual ambos concordam em trabalhar por um tempo. Outros, entre eles Michael Hjerth (em Klingenstierna, 2001) e Jackson & McKergow (2002), descreveram essa etapa como uma “plataforma”, um lugar onde se apoiar quando o trabalho começa. É bom lembrar a peroração inicial que Steve de Shazer usava em seus últimos anos: “Não há garantias, mas farei o meu melhor, e espero que você faça o mesmo. (Olhando para o cliente para obter alguma forma de resposta afirmativa).” Isso é propor um contrato claro: vou trabalhar nas suas esperanças junto com você, e será preciso que nós dois trabalhemos juntos.
Isso não é fixação de objetivos. É um título ou um tema para o trabalho, que pode ser posto em prática de imediato, fazendo uma pergunta do milagre ou uma escala para embarcar na fase seguinte da entrevista. Isso deixa tudo aberto à mudança e à evolução à medida que as coisas avançam. Se objetivos são fixados e depois abraçados com força, mesmo objetivos pequenos podem virar sua prisão (McKergow joga aqui com goals, os objetivos, e gaol, a cadeia), já que desenvolvimentos inesperados fazem com que o que era no começo um objetivo razoável se transforme ou em um passeio fácil, ou em um sonho impossível.
A discussão do “futuro preferido” (o dia seguinte ao milagre, que costuma acontecer esta noite) e as perguntas de escala são há muito tempo, e continuam sendo, elementos centrais da prática focada nas soluções. No entanto, com a passagem da coleta de informação para criar intervenções à construção de descrições ricas e detalhadas, os objetivos desses processos também mudam. O terapeuta tem, portanto, “uma cabeça ligeiramente diferente” quando conduz essas discussões.
Em vez de estar à escuta de padrões comportamentais que poderiam ser amplificados e repetidos, o praticante se preocupa mais em ajudar o cliente a desenvolver e enriquecer suas descrições, particularmente em termos interacionais. Quem fará o quê, em resposta a quem, com quais sinais minúsculos e notáveis? Note como isso parece próximo da ideia original do MRI sobre a linguagem detalhada, mas com um objetivo diferente. O propósito não é destrancar o caso inteiro com um momento de “aha”; é muito mais uma construção gradual de detalhe que, de um modo ou de outro, deixa o cliente em outro lugar ao final – mesmo que nenhum momento de “aha” espetacular esteja envolvido.
O elemento talvez MAIS importante no começo da TBFS era a arte de encontrar e construir exceções – momentos em que o problema deveria ter acontecido mas não aconteceu, ou aconteceu menos. De fato, em 1988, quando Clues foi publicado, essa era a principal estratégia do terapeuta – a pergunta do milagre e os futuros hipotéticos só sendo discutidos se nenhuma exceção pudesse ser encontrada. A ideia era que a presença dessas exceções mostrava não apenas que a ocorrência do problema não era inevitável (como muitas vezes parecia ao cliente), mas também que o cliente podia, por meio de ação e observação engenhosas, começar a produzir essas exceções deliberadamente. Isso abria a porta ao controle e depois à redução dos comportamentos problemáticos, com o cliente no comando.
A ideia original da busca de exceções – os momentos em que o problema não acontece ou acontece menos – inclui tudo, menos o problema acontecendo em seu pior. É uma categoria muito ampla! Hoje em dia é bem mais habitual que o terapeuta embarque primeiro em alguma forma de conversa de futuro preferido, o que permite uma alternativa diferente e mais bem definida – “ocorrências” (instances) desse futuro preferido acontecendo no todo ou em parte, ou eventos passados que parecem prefigurar esse futuro esperado. Isso dá um foco muito mais nítido em eventos que não se referem simplesmente à ausência ou à redução do problema, mas que se conectam às melhores esperanças e ao futuro preferido descritos pelo cliente. É uma investigação mais focada, e pode portanto trazer para a conversa ideias imediatamente mais úteis e pertinentes. Outros chamariam esses vários elementos de “pedaços de melhor” (por distinção de simples “pedaços de diferente”) – e, claro, para discutir isso precisamos de alguma compreensão do que “melhor” significa no contexto.
Uma maneira de começar uma conversa dessas é com a clássica pergunta da “escala de 1 a 10”, em que 10 é o futuro preferido ou as melhores esperanças realizadas (não é necessário fazer uma pergunta do milagre completa para simplesmente evocar as melhores esperanças enunciadas pelo cliente). O cliente pensa um instante e pode então dizer “3”, ou qualquer outro número. Claro, o trecho de conversa seguinte é: “como é que você está em 3 na escala, e não mais baixo?” – novamente um trecho clássico do trabalho focado nas soluções, que permanece amplamente inalterado, exceto pelo novo foco em construir descrições ricas, em vez de tentar deliberadamente empurrar o cliente para a ação.
A terapia breve do modelo MRI emergiu da mesma equipe do MRI que havia desenvolvido a terapia familiar alguns anos antes (nos anos 1950 e 1960). Esse grupo havia se acostumado a usar a parafernália e o aparato da terapia familiar – uma sala de terapia especial equipada com espelho unidirecional, uma equipe de terapeutas sentada atrás do espelho (invisível para o cliente), um telefone para se comunicar com o terapeuta que está na sala com o cliente. A rotina da terapia familiar era que o terapeuta principal conduzisse a sessão com o cliente (podendo ser incitado pelos colegas a fazer certas perguntas) e depois deixasse o cliente sozinho enquanto se retirava para a sala da equipe, atrás do espelho. Ali se instaurava uma deliberação sobre quem havia notado o quê, sobre que tipo de intervenção poderia ser apropriada e sobre como ela poderia ser “vendida” ao cliente como sendo útil. O terapeuta então voltava ao cliente e lhe entregava uma mensagem de fim de sessão, intervenção inclusa.
A ideia de dar elogios ao cliente surgiu primeiro como um movimento estratégico nessas mensagens de fim de sessão. Alguém observou que oferecer ao cliente elogios sobre ele, sobre a forma como ele havia lidado com a situação até ali, sobre suas forças e qualidades úteis, produzia um “yes-set”: o cliente balançava a cabeça concordando com esses pontos favoráveis e ficava, assim, mais inclinado a aceitar a intervenção dos terapeutas.
Se continuamos a explorar o novo papel do terapeuta como aquele que suscita descrições detalhadas, e não como aquele que projeta intervenções, algumas consequências essenciais se seguem.
1
Não há mais necessidade de equipe. A conversa existe para que o cliente a escute, e o terapeuta, sozinho, faz parte dela. A ideia de que outros assistam, escondidos da vista, parece não apenas custosa como também bastante sinistra.
2
Não há portanto mais necessidade de pausa, já que não há intervenção a projetar nem ninguém com quem se aconselhar. Na definição de pesquisa da EBTA de 1997, a pausa era um dos seis elementos que indicariam que uma terapia era propriamente “focada nas soluções”. Os tempos mudaram.
3
Não há a mesma necessidade de elogios em barragem sustentada, como prelúdio à venda de alguma forma de intervenção. Isso não quer dizer que os elogios sejam proibidos – e sim que sua finalidade se transforma em possível ressignificação das dificuldades e normalização dos desafios, e que eles podem ser usados a qualquer momento da sessão.
4
E é claro que não há intervenção. Alguns (inclusive o BRIEF) chegariam a dizer que qualquer conversa sobre ações possíveis e próximos passos é desnecessária – o cliente fará algo se achar conveniente, e se não achar conveniente não adianta perguntar. Pessoalmente, trabalhando em contexto organizacional, ainda posso perguntar ao cliente o que ele pensa sobre possíveis próximos passos pequenos – a ideia sendo que é muito normal, nesses contextos, combinar ações, a ponto de algumas pessoas suporem que, se não combinaram nenhuma ação, então positivamente não têm nada a fazer, o que não é de modo algum a impressão que busco. O foco costuma ser ajudá-las a se concentrar em ações pequenas, bem mais suscetíveis de serem realizadas do que ações grandes e, portanto, bem mais suscetíveis de fazer diferença. De todo modo, isso é hoje no máximo uma última pergunta leve feita aos clientes, e não uma intervenção complexa com cara ou coroa, fingir, tarefa fórmula da primeira sessão, ou agir de maneira diferente em dias alternados da semana, e todos os outros aspectos que figuravam no repertório da terapia familiar estratégica.
Acabamos de ver que o fim da sessão perdeu boa parte dos ornamentos que eram tidos como evidentes nos primeiros tempos. Não há mais ritual da pausa, nem elogios, nem tarefas. É preciso, no entanto, encerrar as coisas de alguma maneira. Um resumo apreciativo feito pelo praticante pode ser utilmente colocado aqui – ele mostra que você esteve escutando e oferece ao cliente a chance de ouvir de novo algumas das coisas que vem dizendo, talvez em outra ordem. Uma maneira de acrescentar um elemento de detalhe suplementar, que pode ajudar o cliente a olhar para detalhes menores (e portanto mais factíveis), é engajar-se em uma descrição dos sinais minúsculos de que o (N+1) foi alcançado.
Outra maneira de se engajar em uma espécie de discussão sobre ações sem falar de ações é escalonar a confiança do cliente. Evan George (George, 2017) escreveu recentemente sobre três formas de usar as escalas de confiança no fim de uma sessão:
Outro aspecto do encerramento das sessões na TBFS 2.0 é um compromisso ainda mais claro de oferecer o poder ao cliente, quanto a saber se haverá outra sessão e qual poderia ser o bom momento para ela. Podemos portanto esperar ver menos “marque uma consulta para a próxima terça-feira, por favor” e mais “espero que isso tenha sido útil para você… você gostaria de voltar para continuarmos nosso trabalho juntos?”. Steve de Shazer sempre dizia que a terapia deve levar tantas sessões quantas forem necessárias e nem uma a mais; devemos portanto procurar ajudar o cliente a decidir se e quando deseja voltar. E se ele achar que já é o bastante, então há motivo para uma pequena e discreta celebração.
Em conclusão, poderíamos resumir assim as semelhanças e as diferenças entre a TBFS 1.0 e a TBFS 2.0.
Parece-me que, se essas duas colunas têm muito em comum, tanto explícita quanto implicitamente, há diferenças substanciais suficientes para justificar que se faça uma distinção. O papel do praticante, em particular, é bastante diferente: passa-se de alguém que poderia se ver como um hábil mestre de tarefas a alguém cujo papel é ajudar o cliente a expandir suas descrições do que quer. Na primeira perspectiva, a mudança acontecerá depois da sessão, quando o cliente sair e fizer algo de modo diferente (ou vir algo de modo diferente). Na segunda, uma mudança importante está acontecendo bem ali, na sessão, na conversa.
Isso não equivale a dizer que a TBFS 1.0 esteja errada, ou seja ruim, ou ultrapassada, nem nada do gênero. Há pessoas praticando-a neste exato momento e obtendo bons resultados com seus clientes. No entanto, se quisermos fazer a TBFS progredir, pareceria importante sermos claros sobre o que estamos e não estamos fazendo. Suspeito que muitos praticantes estejam provavelmente fazendo, neste momento, um pouco de cada coluna. A situação atual, em que tudo o que precede acontece sob o mesmo título, não me parece um lugar acolhedor para praticantes, aprendizes nem, aliás, pesquisadores. Existe uma primeira pesquisa (Shennan e Iveson, 2011) mostrando que aquilo que chamo de TBFS 2.0 é mais breve – e portanto melhor, segundo a estética da terapia breve – do que a versão mais estabelecida. Há também a experiência – a minha, ao longo de vários anos, e a de outras pessoas – de que essa versão mais recente da TBFS é eficaz, eficiente e ainda mais elegante do que as versões anteriores. Tudo isso, claro, precisa ser colocado à prova. Mas será impossível colocá-lo à prova se não fizermos a distinção desde o início.
Quem é Mark McKergow
Mark McKergow dirige o Centre for Solutions Focus at Work, em Edimburgo, na Escócia. Pioneiro no uso das ideias focadas nas soluções em ambiente organizacional, é também, desde 2010, visiting research fellow no departamento de filosofia da Universidade de Hertfordshire (Reino Unido), onde trabalha em ampliar as raízes e as conexões acadêmicas da TBFS junto ao pensamento pós-wittgensteiniano mais recente, como a cognição enativa e a filosofia narrativa.
A continuação do debate
Este artigo desencadeou a controvérsia mais acirrada que a abordagem focada nas soluções já conheceu. Harry Korman respondeu a ele na mesma revista, depois Guy Shennan, depois um coletivo de praticantes reunido sob o nome de Solution-Focused Collective: o que McKergow descreve como uma nova geração, seus contraditores descrevem como uma variante entre outras, ou como uma perda. Esses textos pertencem ao mesmo corpus e sairão, por sua vez, no atlas da sistêmica.
Referências
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Tradução não oficial para o português de SFBT 2.0: The Next Generation of Solution-Focused Brief Therapy Has Already Arrived, de Mark McKergow, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n. 2 (2016), doi: 10.59874/001c.75089, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “SFBT 2.0: The Next Generation of Solution-Focused Brief Therapy Has Already Arrived”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2016) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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McKergow, M. (2016). TBFS 2.0: a nova geração da terapia breve focada nas soluções já chegou (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/tbfs-2-0-a-nova-geracao-da-terapia-breve-focada-nas-solucoes-ja-chegou (Obra original publicada em 2016 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n° 2; republicada em 2016 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75089)
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