Journal of Marital and Family Therapy · Terapia familiar
O que faz o corpo de quem conduz a terapia durante uma sessão de casal? A equipe de Sari Kailanko entrevistou oito terapeutas que há muito tempo formam em terapia de casal focada nas emoções. Todas as pessoas entrevistadas dizem se apoiar nas próprias sensações para guiar as intervenções, ler o que se passa entre os membros do casal e aprofundar a emoção, e pedem que essa competência, aprendida fora das formações, passe enfim a ser ensinada.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A experiência somática da emoção na terapia de casal focada nas emoções: pontos de vista e experiências de terapeutas com longa prática que formam em EFT, de Sari Kailanko, Stephanie A. Wiebe, Giorgio A. Tasca, Aarno A. Laitila e Robert Allan, publicado na Journal of Marital and Family Therapy (Wiley) (2022), doi: 10.1111/jmft.12543, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas; o apêndice on-line que descreve o procedimento de análise não foi reproduzido. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
É o que torna o trabalho significativo e profundo; senão, é um exercício intelectual.
Terapeuta formadora em EFT, citada por Sari Kailanko, Stephanie A. Wiebe, Giorgio A. Tasca, Aarno A. Laitila e Robert Allan
Resumo
De modo geral, a ativação das emoções costuma ser sentida e expressa como uma experiência somática no corpo. Na terapia de casal focada nas emoções (EFT, Emotionally Focused Couple Therapy), o aprofundamento da experienciação emocional possibilita a mudança terapêutica. Esta pesquisa explora a experiência de oito terapeutas com longa prática que formam em EFT, a respeito de sua experiência somática no trabalho com casais. Por meio da análise fenomenológica interpretativa de entrevistas em profundidade transcritas, os dados da pesquisa geraram três temas centrais que captam as experiências dessas pessoas terapeutas no uso, em terapia, de sua própria experiência somática e da dos casais: (1) a importância e a relevância das experiências somáticas, (2) o uso que terapeutas fazem de suas próprias experiências somáticas e (3) o trabalho com as experiências somáticas de quem está em terapia. Os resultados sugerem que terapeutas de fato se concentram em suas próprias experiências somáticas e nas dos casais no trabalho com casais, e que terapeutas de EFT poderiam se beneficiar de um mapa que oriente como focar nas experiências sentidas, somáticas, como forma de manter a ênfase na experiência emocional.
Palavras-chave: terapia de casal, EFT, terapia focada nas emoções, experienciação, somático
A terapia de casal focada nas emoções (EFT; Johnson, 2004, 2020) é uma terapia experiencial e sistêmica que se concentra nas experiências emocionais ligadas ao apego de cada parceiro ou parceira de um casal. Ela busca criar para cada um dos membros do casal, na sessão, uma experiência emocional profunda, possibilitando assim a mudança e o compartilhamento da experiência por meio de encenações (enactments), a fim de favorecer a interação do casal e a sensação de um vínculo emocional seguro entre os membros do casal (Palmer e Johnson, 2002). Embora a experiência somática da emoção seja parte essencial da experiência emocional, ela recebeu um exame limitado na literatura sobre EFT (p. ex., Allan et al., 2015). O objetivo deste estudo é explorar como terapeutas com longa prática que formam em EFT descrevem suas experiências e seus pontos de vista sobre os fenômenos somáticos em seu trabalho terapêutico. Esta pesquisa pode trazer uma nova compreensão da experiência somática da emoção na terapia de casal EFT, para apoiar terapeutas na facilitação de emoções mais profundas, sentidas no corpo, em cada membro do casal.
Nas terapias experienciais, uma ativação emocional de moderada a alta é vista como necessária ao processo de mudança. Por isso, o objetivo de quem conduz a terapia é facilitar a ativação emocional, mas não a ponto de desregular (Greenberg, 2015). Quando pessoas em psicoterapia vivenciam emoções, ocorrem reações fisiológicas correspondentes no corpo (Jung et al., 2017). A consciência dos próprios estados corporais internos, ou interocepção, tem papel importante na vivência das emoções. A pesquisa de Jung e colegas (2017) identificou padrões significativos de sensações corporais para cada emoção, como medo, raiva e tristeza. Assim, a emoção é um estado interno subjetivo da pessoa, acompanhado de respostas fisiológicas involuntárias.
Paralelamente, parte da pesquisa em psicoterapia passou de um foco exclusivo nos modos linguísticos de comunicação à incorporação dos modos afetivos e somáticos de comunicação, inclusive na terapia de casal (Laitila et al., 2018; Nyman-Salonen et al., 2020; Seikkula et al., 2018). As raízes das intervenções terapêuticas de orientação somática estão nas pesquisas de Gendlin (Gendlin, 1961, 1964, 1969) e em seu conceito de “sentido sentido” (felt sense), que se refere à vivência das emoções no corpo (Gendlin, 1961). O filósofo fenomenólogo Merleau-Ponty afirmou que a compreensão de nossa vida e do mundo começa como uma experiência encarnada e, além disso, que “é por meu corpo que compreendo o outro” (1962, p. 186). Nessa linha, um estudo recente de Sleater e Scheiner (2019) aplicou a análise fenomenológica interpretativa às transcrições de terapias de seis terapeutas de longa experiência que atendiam individualmente. Os resultados sugeriram que a “corporeidade” era um tema de destaque no “uso de si” de terapeutas na terapia (Sleater e Scheiner, 2019). No presente estudo, o interesse recaiu sobre o ponto de vista de terapeutas de casal a respeito dos fenômenos somáticos, incluindo suas próprias experiências somáticas e as dos casais.
Greenberg et al. (1993) definiram a presença terapêutica não apenas como a demonstração de empatia, mas também como a consciência que a pessoa terapeuta tem de sua própria experiência, no momento presente, do que está acontecendo na sessão. Greenberg e colegas destacaram que o jeito e o estilo de quem conduz a terapia, incluindo o tom de voz e a expressão não verbal, têm papel essencial na comunicação dessa presença.
A pesquisa sobre terapia de casal reconhece que a presença emocional de terapeutas é uma parte importante da EFT para casais (Furrow et al., 2012). A prática da EFT, tal como formulada por Johnson (2004, 2020), inclui sintonia empática, validação, conjecturas empáticas, perguntas e respostas evocativas, trabalho com as estratégias de desativação e hiperativação, intensificação, reenquadramento e encenações (Johnson, 2004, 2020). Johnson (2004) destacou o acesso de terapeutas à própria experiência emocional como uma fonte importante de empatia, sintonia empática e responsividade. No entanto, Palmer e Johnson (2002) observaram que terapeutas em início de percurso podem aplicar a EFT para casais de modo mais mecânico, até que o modelo esteja plenamente integrado a seu modo de trabalhar por meio da supervisão clínica.
Num estudo sobre o abrandamento de quem persegue (pursuer softening), um evento-chave de mudança na EFT, Furrow e colegas (2012) relataram que a presença emocional de terapeutas previa níveis mais altos de experienciação emocional em quem estava em terapia. Ou seja, quando terapeutas de EFT dirigiam uma atenção explícita às experiências atuais dos membros do casal, transmitindo uma sensação de presença e de envolvimento pessoal, esses membros demonstravam uma experienciação emocional mais profunda (Furrow et al., 2012). Mais especificamente, quando terapeutas de EFT suavizavam a voz durante uma intervenção, a probabilidade de os membros do casal atingirem um nível intensificado de experienciação emocional era 2,2 vezes maior. Uma maior responsividade emocional de terapeutas também previa maior probabilidade de experienciação emocional intensificada nos membros do casal (Furrow et al., 2012). Portanto, a capacidade de terapeutas de se sintonizar com a própria experiência somática e com a de quem está em terapia pode facilitar um engajamento mais profundo e um processo terapêutico experiencial.
Na maior parte do tempo, as intervenções da EFT envolvem aprofundamento da emoção (Johnson, 2009). As intervenções da EFT que envolvem aprofundamento da emoção, e provavelmente um componente somático, estão ligadas a eventos significativos de mudança na EFT, como acessar, explorar e intensificar medos e anseios ligados ao apego, vividos primeiro por um membro do casal e depois compartilhados entre os dois por meio de uma encenação. Além disso, a experiência do compartilhamento é explorada com cada membro do casal (Bradley e Furrow, 2004, 2007). Entender como terapeutas usam de modo eficaz a intensificação e as intervenções evocativas na EFT pode melhorar nossa compreensão de como facilitar a mudança nos casais. Compreender melhor como terapeutas lidam com o aspecto somático da intensificação e das intervenções evocativas pode ser um caminho para esse objetivo.
Para compreender melhor o papel das intervenções da EFT que envolvem a experiência somática, Kailanko e colegas (2020a, 2020b) estudaram intervenções centradas nas experiências somáticas de quem estava em terapia, durante sessões de EFT para casais. A equipe constatou que terapeutas com longa prática que formam em EFT usavam intervenções centradas nas experiências somáticas dos membros do casal, e que essas intervenções de foco somático estavam significativamente associadas a uma maior profundidade da experienciação emocional dos casais.
No presente estudo qualitativo, com metodologia fenomenológica interpretativa, exploramos como terapeutas com longa prática que formam em EFT veem os fenômenos somáticos e suas experiências, se e como relatam prestar atenção a eles, e como descrevem suas experiências de trabalho com a própria experiência somática e com a dos membros do casal. Compreender o ponto de vista de terapeutas de EFT sobre os fenômenos somáticos é importante por duas razões. Primeiro, esse tipo de conhecimento pode ajudar a preencher uma lacuna da pesquisa no âmbito da EFT, com o objetivo de compreender melhor como o aspecto somático da experiência nas sessões de EFT facilita a mudança emocional dos membros do casal. Segundo, esse conhecimento pode contribuir para a elaboração de um mapa que oriente terapeutas a focar nas experiências sentidas, somáticas, como forma de manter o foco na experiência emocional durante a EFT.
Recrutamos oito das 56 pessoas certificadas como formadoras em EFT listadas no site do International Centre for Excellence in Emotionally Focused Therapy (ICEEFT) em outubro de 2018. Contatamos 12 delas diretamente por e-mail, e 8 manifestaram interesse em participar do estudo. Antes da entrevista, cada terapeuta recebeu informações sobre o procedimento do estudo e um aviso de privacidade, e deu seu consentimento livre e esclarecido para participar. As entrevistas ocorreram entre julho e novembro de 2019.
As oito pessoas participantes, sete mulheres e um homem, vinham de três continentes diferentes e tinham em média mais de 25 anos (18-40) de experiência clínica em terapia de casal. Todas eram brancas, com idade entre 50 e 70 anos. A escolha de terapeutas com longa prática que formam em EFT buscou reunir, da forma mais ampla e profunda possível, uma sabedoria coletiva sobre como a EFT é praticada de modo prototípico ou ideal, isto é, sobre a teoria professada da prática da EFT. Assim, a seleção dessas pessoas terapeutas visou verificar se reconheciam os fenômenos somáticos em seu trabalho e, em caso afirmativo, como descreviam o uso desses fenômenos. Cada terapeuta relatou usar apenas a abordagem da EFT em sua prática e atuava ativamente na formação e na supervisão de novas gerações de terapeutas de EFT, local e internacionalmente.
Coletamos os dados por meio de entrevistas semiestruturadas presenciais. O objetivo da entrevista era captar uma compreensão rica e aprofundada das experiências das pessoas participantes com os fenômenos somáticos na terapia de casal. Os tópicos da entrevista semiestruturada incluíam: (a) o ponto de vista das pessoas participantes sobre a relevância ou a importância dos fenômenos somáticos em seu próprio trabalho clínico, (b) suas experiências de prestar atenção ao aspecto somático durante a terapia, (c) suas experiências de uso da experiência somática, se houver, (d) exemplos do uso de experiências somáticas em seu próprio trabalho clínico e (e) sua consciência do uso da experiência somática no trabalho clínico. Usamos perguntas abertas, como: Como você vê os fenômenos somáticos na EFT? Como você os usa em seu trabalho com casais? Poderia me dar um exemplo, por favor? Com que grau de consciência você os usa? Como você vê a importância do aspecto somático em seu trabalho? Teria outros exemplos de como você os usa? O objetivo era explorar os pontos de vista e a experiência relatados verbalmente sobre os fenômenos somáticos. Quem conduzia as entrevistas fazia perguntas complementares, como “como”, para que as pessoas participantes pudessem desenvolver seus pontos de vista, experiências e exemplos, enquanto a entrevista buscava uma compreensão mais profunda da experiência relatada e procurava dar sentido a ela.
As entrevistas duraram de 40 a 90 minutos. Foi realizada uma entrevista com cada terapeuta. As entrevistas transcritas foram analisadas por meio da análise fenomenológica interpretativa (IPA, interpretative phenomenological analysis; Smith, 1996; Smith et al., 2009, 1999; Smith e Osborn, 2008). A IPA é um método qualitativo de análise enraizado na fenomenologia, que explora a experiência subjetiva e busca oferecer exames detalhados da experiência pessoal vivida. Aplicamos um método de dupla hermenêutica (Smith e Osborn, 2015), que se refere a um modo de trabalhar em que a equipe de pesquisa procura dar conta de como terapeutas com longa prática que formam em EFT viam os fenômenos somáticos em seu trabalho clínico com casais e lhes davam sentido. Escolhemos a IPA porque ela oferece um referencial para explorar áreas de pesquisa novas, como neste estudo dos fenômenos somáticos na terapia de casal EFT, e para compreender as experiências pessoais das pessoas participantes.
Utilizamos neste estudo uma amostragem intencional homogênea (Smith e Osborn, 2008). As pessoas participantes eram semelhantes, já que todas eram terapeutas de casal com longa prática que formam em EFT, mas cada uma tinha sua própria experiência dos fenômenos somáticos em seu trabalho clínico com casais. Buscamos explorar a experiência detalhada de cada terapeuta e, ao mesmo tempo, captar a experiência compartilhada. A IPA é um processo dinâmico que reconhece as concepções próprias de quem pesquisa, enquanto dá sentido ao que aparece durante a análise. Duas pessoas da equipe (Kailanko e Wiebe) conduziram as entrevistas e codificaram os dados. São profissionais de psicologia, com formação básica em EFT e também formação em psicoterapia somática. Mantiveram um caderno para registrar as próprias preconcepções e o desenvolvimento dos temas durante o estudo, como sugere Giorgi (1985). O processo analítico deste estudo seguiu um percurso semelhante ao descrito por Smith e colegas (2009), isto é, uma série de etapas analíticas em que os temas emergentes foram primeiro identificados e depois agrupados em conjuntos de temas. Em seguida, criou-se uma estrutura de temas centrais, ou tabela de temas, como resultado que capta e descreve as experiências compartilhadas das pessoas participantes. A descrição do procedimento analítico deste estudo está no apêndice.
A credibilidade e a validade dos resultados do presente estudo foram avaliadas segundo os critérios de validade de Smith (2011b), como coerência e transparência. Cada terapeuta de EFT que participou da entrevista tinha a opção de receber uma cópia da transcrição e podia alterá-la conforme julgasse necessário. Além disso, as duas pessoas da equipe (Kailanko e Wiebe) conduziram e analisaram as entrevistas por meio de um processo de validação consensual. Neste estudo, aplicamos os aspectos teóricos da IPA (fenomenológico, idiográfico e hermenêutico), conforme descrito na seção sobre o método de análise. Os critérios de validade relativos à amostragem, para um estudo com oito entrevistas, indicam a necessidade de extratos de pelo menos três participantes para cada tema (Smith, 2011b). Este estudo atende a esse critério, com no mínimo três e até seis citações para cada tema emergente de cada tema central. Além disso, as afirmações negativas, mesmo de uma única pessoa participante, referentes ao aspecto somático da experiência emocional, como “não uso ou não faço…”, foram marcadas separadamente de forma intencional, para receber atenção clara. Para que se possa acompanhar com transparência como conduzimos a análise, apresentamos na tabela 1 um exemplo: parte da estrutura composicional do tema central 2, com algumas citações diretas dos dados para os temas emergentes que formam os blocos constitutivos do tema central 2. Terapeutas (T) e linhas da transcrição (L) dos extratos são indicados para garantir a rastreabilidade.
Tabela 1 — Estrutura composicional e citações ilustrativas do tema central 2
Tema central: uso que terapeutas fazem das próprias experiências somáticas. Código: 2.1. Tema superordenado: o próprio corpo de terapeutas como ferramenta do trabalho terapêutico.
Temas emergentes (15 temas emergentes)
Citações (75 citações no total)
N = 8 terapeutas.
As pessoas participantes do estudo têm muita experiência, o que forneceu um material de pesquisa interessante e plausível para análise. Recorremos à validação por respondente: apresentamos os resultados a uma terapeuta participante para ouvir o ponto de vista dela sobre nossa interpretação dos dados (Dallos e Vetere, 2005). Ou seja, discutimos os resultados da presente pesquisa com uma terapeuta de longa prática que forma em EFT, para entender a relevância, a importância, os pontos interessantes e o potencial impacto clínico dos resultados.
Trabalhar sobre os textos das entrevistas transcritas, fazendo marcações preliminares e destacando temas e interpretações, é uma prática reflexiva contínua usada na codificação para registrar as próprias preconcepções (Smith et al., 2009). No entanto, é possível não ter consciência das próprias atitudes e pontos de vista (Smith et al., 2009). Por isso, para alcançar a validade consensual, todo o material das entrevistas foi revisado pelas duas pessoas responsáveis pela codificação, a fim de verificar o que tinha sido marcado como interessante ou importante. Do ponto de vista da validade reflexiva, as duas pessoas da equipe que conduziram as entrevistas e a codificação observam que sua própria compreensão da experiência somática na EFT mudou entre o antes e o depois das entrevistas.
A análise das transcrições das entrevistas gerou três temas centrais: (1) a importância e a relevância das experiências somáticas, (2) o uso que terapeutas fazem das próprias experiências somáticas e (3) o trabalho com as experiências somáticas de quem está em terapia. Os resultados deste estudo, temas centrais e superordenados, são apresentados como visão geral na tabela 2, e depois cada tema central é discutido em uma seção separada. Smith (2011a) recomenda extrair trechos de metade da amostra para cada tema. Neste estudo, cada um dos temas superordenados se apoia em falas literais de pelo menos metade das pessoas participantes. No texto abaixo, mostramos a rastreabilidade das falas remetendo, em cada extrato, ao número de terapeuta (T1) e às linhas da transcrição (L111).
Tabela 2 — Temas centrais e temas superordenados
Código, tema superordenado (número de extratos).
1. Importância e relevância das experiências somáticas
2. Uso que terapeutas fazem das próprias experiências somáticas
3. Terapeutas trabalhando com as experiências somáticas de quem está em terapia
N = 8 terapeutas.
Este tema central reflete a importância e a relevância da experiência somática da emoção que as pessoas participantes associavam a seu trabalho clínico com casais. Para as oito pessoas terapeutas, o aspecto somático era importante no trabalho terapêutico. As descrições literais desse tema incluíram: “Com certeza. Sim. Eu não conseguiria trabalhar sem isso” (T4, L 458); “Totalmente, 100%” (T5, L418); “Sem dúvida” (T1, L 484); “Não consigo imaginar não trabalhar somaticamente na EFT”. Uma pessoa afirmou: “Acho que as emoções se mostram somaticamente. Acho que o corpo não mente. Você pode dizer que está sentindo alguma coisa, mas o corpo, realmente, acho, manifesta suas emoções” (T2, L 386). Além disso, as pessoas participantes afirmaram que o aspecto somático precisa ser reconhecido explicitamente na EFT, como indicam estes relatos literais: “Acho que um dos S da sigla RISSSC (isto é, repeat-images-soft-slow-simple-client's words: repetir, imagens, suave, lento, simples, palavras da pessoa), … precisa representar o somático ou as sensações, na minha opinião” (T5, L 418); “Acho interessante e ótimo que vocês estejam focando nisso (a experiência somática) no estudo, porque acho que usamos bastante o aspecto somático na EFT, mas nem sempre somos explícitos sobre isso” (T3, L 250).
As pessoas participantes discutiram os benefícios de trabalhar com a experiência somática, como indicam estes relatos literais: “Sei que é um caminho fértil para explorar” (T3, L 57); “Acho mesmo que a expressão não verbal da emoção costuma ser o ponto de entrada” (T2, L 77); “É o canal para uma mudança duradoura” (T1 L 485); “As sensações corporais ajudam muita gente a se sintonizar, e outras pessoas simplesmente a aprofundar o que está acontecendo” (T1, L437). Terapeutas relataram usar conscientemente o aspecto somático: “Tenho muita consciência disso, e é algo em que confio. Provavelmente é o meu maior recurso” (T1, L 190); “Com esse tipo de foco, meus olhos se voltam ainda mais para o processo sensório-motor da pessoa. Então ganho precisão, consciência de tudo isso, e tenho muito mais informação” (T6, L 56). O grupo de terapeutas de EFT via o aspecto somático como altamente relevante ao longo de todo o processo terapêutico. Por exemplo, uma pessoa participante observou: “Eu focaria no corpo durante todo o processo, e também me usaria dessa forma ao longo do processo” (T3 L 138). Parte das pessoas terapeutas considerava gratificante trabalhar com as experiências somáticas e relatava que isso permitia a elas e a quem estava em terapia trabalhar num nível mais profundo: “É o que torna o trabalho significativo e profundo; senão, é um exercício intelectual” (T1, L 485).
As pessoas participantes também discutiram as razões e as necessidades por trás de seu interesse pela experiência somática. Todas as pessoas participantes mencionaram como é desafiador trabalhar com quem se retrai: “Com quem se retrai, quando a pessoa está na cabeça e é de lá que se sente à vontade para falar, … eu quero trabalhar experiencialmente, e aí faço intervenções de EFT e não chego muito longe… nada realmente sai delas. E eu digo: ‘Como é para você (que eu pergunte) sobre o seu mundo interior, e você pode me ajudar a saber que sensações ganham vida quando tento focar no seu mundo interior?’ As pessoas muitas vezes relatam desconforto ou tensão, então eu me demoro ali, porque essa tensão, esse desconforto, é algo que quero então trazer à vida experiencialmente” (T5 L 93); “Eu sentia que não tinha nenhum acesso, porque não havia palavras, não havia emoções. Nada realmente acontecia com essas pessoas nas sessões…, então senti que precisava encontrar outro caminho para entender o que estava acontecendo e entrar em conexão” (T6 L 26).
As pessoas participantes tinham experiências diferentes de trabalho com a experiência somática de quem persegue. Algumas relataram: “Quem persegue costuma ser muito mais verbal e, ainda assim, também tem dificuldade de entrar em contato com o que está acontecendo somaticamente, … pois talvez esteja compartilhando um monte de emoções reativas.” (T5 L 113). Por isso, algumas pessoas terapeutas sugeriram que a experiência somática pode ajudar quem persegue a desacelerar e a voltar o foco para dentro de si, e não para fora: “Uma das principais formas que conhecemos de fazer quem persegue desacelerar é ajudar essa pessoa a desacelerar o suficiente para se conectar com sua experiência somática, para que não fique só reagindo emocionalmente e se enredando na própria reatividade, o que a amplia e a afasta ainda mais de sua experiência intrapsíquica” (T5 L 118). Uma pessoa relatou que pode dizer a quem persegue: “Me ajude a saber o que você sente por dentro, de que sensações você tem consciência. Vejo sua mão se fechando em punho, ou vejo suas pernas tremendo, então você está sentindo o quê, por dentro?” (T5 L 115). Outra, porém, via o trabalho com quem persegue de outro modo: “Eu não diria ‘onde você sente isso no seu corpo?’, sobretudo se for alguém que persegue e está em desregulação, porque a pessoa já está sentindo no corpo, e não queremos chamar a atenção para isso. Já está quente, e queremos meio que chegar à calma, a uma regulação suficiente para que ela consiga ficar quieta e sentir algo de que possa falar, falar do que sente e de como essa pessoa (o outro membro do casal) a faz se sentir assim” (T4 L 645).
As pessoas participantes explicaram que o uso da experiência somática da emoção veio de uma necessidade de poder trabalhar com certas pessoas em terapia, como as que se retraem, ou da necessidade de ir mais fundo na experiência sentida. Falaram de seus próprios percursos rumo ao uso das experiências somáticas como terapeutas, que podem ter levado vários anos, já que sua formação em aconselhamento ou em terapia familiar não incluía um foco na experiência somática ou emocional de quem conduz a terapia. Algumas relataram que o papel tradicional de terapeuta era o de ser uma “tábula rasa”. Por isso, o uso da experiência somática da emoção foi aprendido copiando ou imitando colegas, ou buscando formações externas centradas na experiência somática.
Este tema central, o de terapeutas que usam o próprio corpo como ferramenta nos encontros terapêuticos, foi o que reuniu o maior número de citações das pessoas participantes. Além disso, cada terapeuta mencionou esse aspecto: “Sim. Percebo quando meu corpo responde ao processo com os membros do casal, e presto atenção às minhas respostas somáticas, à minha experiência somática” (T5 L 53).
As pessoas terapeutas observaram que seus próprios sinais somáticos as guiavam no trabalho e nas intervenções: “Levei algum tempo para confiar nas minhas próprias experiências emocionais e em como posso vivê-las somaticamente … Se eu me sintonizava comigo e realmente percebia … o que estava acontecendo dentro de mim, isso era um verdadeiro guia para o que estava acontecendo lá do outro lado, com a pessoa em terapia” (T1 L 91); “Uso minha própria experiência como um barômetro que me orienta nas decisões clínicas e nas intervenções … Converso com a pessoa como forma de ajudá-la a reunir e aprofundar sua emoção. E depois ajudo a pessoa a usar essa emoção. Isso está muito ligado à sua experiência somática, para criar experiências emocionais corretivas que lhe permitam seguir adiante …” (T3 L 31).
As pessoas participantes descreveram que começam já na primeira sessão, com o objetivo de sentir como é estar no lugar de cada pessoa em sua relação de casal. Relataram que se colocar no lugar dos membros do casal, e escanear o próprio corpo e as próprias reações enquanto um dos membros do casal fala, as ajuda a compreender e validar os membros do casal e suas estratégias de enfrentamento. Quando alguém do casal está sem acesso à própria experiência emocional, terapeutas procuram sentir dentro de si a experiência dessa pessoa, para poder convidar ou ajudar cada membro do casal a sentir. Por exemplo, uma pessoa sugeriu que poderia dizer a alguém em terapia: “… enquanto você fala, tenho uma sensação de afundamento no meu próprio corpo, e fico pensando se você se identifica com isso, ou como é para você, ou…” (T2 L 225). É importante observar, porém, que uma terapeuta tinha uma abordagem diferente e afirmou explicitamente não compartilhar sua própria experiência somática com os membros de um casal; em vez disso, ela podia notar em silêncio a importância de sua própria experiência somática para orientar suas intervenções.
As pessoas participantes descreveram que podem usar o corpo e as reações somáticas, como deixar que as próprias lágrimas sejam vistas, para aprofundar a emoção em um membro do casal. Por exemplo, uma pessoa descreveu um evento assim numa sessão de terapia de casal: “Notei uma lágrima no olho dele. Eu poderia prestar atenção a isso e perguntar: ‘Se seus olhos pudessem falar, o que diriam?’, e, ao fazer isso, vou usar uma voz suave e lenta, deixar minha própria emoção vir à tona e usar meus próprios olhos para aprofundá-la (a emoção) com os olhos daquela pessoa” (T3 L 87).
As pessoas participantes relataram também usar o corpo para verificar o que está acontecendo entre os membros do casal na sala, sintonizando-se com as próprias sensações. Os próprios sinais somáticos, como a frequência cardíaca ou uma sensação de calor, podiam indicar que algo destrutivo talvez estivesse acontecendo na sala entre os membros de um casal. Se um casal está indo e voltando muito depressa num modo reativo, a pessoa terapeuta pode se sintonizar com a própria sensação de confusão e verbalizá-la ao casal: “Estou sentindo tensão agora. Fico pensando se é isso que vocês estão sentindo” (T1 L350). Terapeutas relataram ainda mudar intencionalmente a posição do corpo, por exemplo inclinando-se para frente, para criar uma mudança energética na sala ou mais conexão. Às vezes, o próprio coração sinalizava a quem conduzia a terapia que aquilo que ocorria nas interações do casal estava mexendo emocionalmente com essa pessoa.
Terapeutas mencionaram com frequência a consciência do próprio estado emocional por meio das experiências somáticas e o esforço para regular as próprias sensações somáticas, a fim de manter o equilíbrio e a postura profissional. Às vezes, o que acontecia na sessão mexia com a pessoa ou a sobrecarregava: “Tenho de acompanhar minhas próprias reações. Quando não me sinto em segurança, vou para a cabeça, mas sei que não estou fazendo uma boa EFT quando vou para a cabeça” (T5 L 231); ou “A coisa simplesmente explodiu, e fiquei ali paralisada por um segundo, meio que olhando as brigas como num filme. Mas então eu me recompus e disse ‘OK, o que está acontecendo aqui’, me ancorei com uma respiração longa e disse ‘OK, vamos parar’, eu passo à ação” (T6 L 329).
O terceiro tema central reflete a ênfase que terapeutas dão ao trabalho com as experiências somáticas dos casais. Por exemplo, descreveram seu foco nos sinais somáticos e na experiência dos membros do casal em sua interação: “A maior parte do que faço numa sessão é observar (os membros do casal)… Foco muito no corpo, no que fazem, em como se voltam ou não para o outro, ou em quando escutam ou não escutam” (T4 L 86); “Como quero trabalhar experiencialmente em todos os momentos possíveis, quando há uma mudança no corpo, na voz ou na expressão facial, presto atenção a essas mudanças, e desacelero e amplifico, ou desacelero e passo à evocação, para amplificar esses momentos e saber mais sobre o que acabou de começar, o que mudou ou qual foi a mudança dentro da pessoa. (T5 L 88); “Eu me sintonizo muito com o não verbal da pessoa e muitas vezes vejo isso como um ponto de entrada, meio que refletindo o que percebo. Como os olhos de alguém que se arregalam, … ou talvez o jeito como a pessoa se senta na cadeira, por exemplo… meio com ar de murcha, ou talvez até um gesto que ela usa, um punho se fechando. Então me sintonizo com esses sinais não verbais e uso isso como ponto de entrada para fazer surgir a emoção” (T2 L 80).
Terapeutas relataram refletir os sinais somáticos dos membros do casal e trabalhar esses sinais. Descreveram, por exemplo: “Reflito o que vejo, como uma lágrima no olho, e peço à pessoa que simplesmente fique com isso, se puder; eu a convido a ficar com esse sentimento, se puder. Faço uma espécie de pausa e dou a ela espaço para isso, e então faço uma pergunta evocativa, como ‘O que você percebe por dentro quando essas lágrimas vêm?’, ‘Do que falam essas lágrimas?’, ‘Você consegue ficar com essas lágrimas para ver do que elas falam?’” (T2 L 89); “E aí, claro, o que quer que a pessoa diga está bem. Acho que essa é uma parte importante: meio que acolho o que quer que ela diga e a ajudo a relacionar isso às experiências de vida dela… a que experiência relacional essa emoção se conecta.” (T2 L 96). Uma pessoa descreveu que o corpo pode ajudar a acessar o medo e os lugares vulneráveis: “Acho que o corpo nos mostra os sinais sutis do medo… o olhar de medo nos olhos ou… o som da… voz, ou todas essas coisas, acho, podem nos ajudar a ir para esse lugar mais vulnerável.” (T7 L 161).
A terapeuta descreveu sua iniciativa de facilitar e direcionar o processo de quem está em terapia de volta à experiência do momento presente: “Sempre trago para o imediato, mesmo que a pessoa esteja no meio de uma história. Eu a convido a se sintonizar com as lágrimas que está tendo agora e a falar do que essas lágrimas dizem, agora, enquanto conta a história.” (T2 L 158).
Na EFT, a encenação é uma das intervenções-chave, em que terapeutas incentivam um membro do casal a compartilhar com o outro sua experiência emocional ligada ao apego. Terapeutas relataram fazer referência ao corpo ao coreografar a encenação, como forma de ajudar os membros do casal a se conectarem. Por exemplo: “Peço à pessoa que se vire e compartilhe essas palavras com o outro membro do casal a partir dos olhos, das entranhas, do peito” (T3 L 101). “Eu poderia perguntar ao outro membro do casal: ‘Como é isso no seu corpo quando ele compartilha com você, o que acontece dentro de você?’ Se a pessoa vai para a própria aflição, peço que saia da cabeça e compartilhe a experiência a partir do corpo, para que possamos focar em consolidar essa nova experiência entre os dois” (T3 L 226). Outro exemplo descreveu uma intervenção no estágio dois da EFT, em que a pessoa terapeuta foca no abrandamento de quem persegue (Johnson, 2004, 2020). Aqui, uma terapeuta descreveu como trabalhou o gesto de uma integrante do casal: “Enquanto ela segurava as mãos no colo, pude ver que a outra mão estava se movendo um pouco para frente. E eu disse: ‘Então, o que está acontecendo, vejo sua mão se movendo para frente. O que está acontecendo?’ Então ela entrou no seu anseio, dizendo: ‘Eu gostaria de alcançá-lo. Sei que ele está lá.’ E eu disse: ‘Então, o que está acontecendo com a outra mão?’, e aí veio uma avalanche, e ela disse ‘eu não confio em você’ ao marido. Foi um momento muito poderoso. Ela conseguiu captar com o corpo o medo de se aproximar e o anseio de se aproximar” (T6 L 170). Ao descrever o trabalho com uma integrante do casal, essa terapeuta relatou também acompanhar as reações somáticas do outro membro: “Ele estava respondendo corporalmente a ela e meio que se inclinando em direção a ela, então isso é uma mensagem para mim (a terapeuta) de que, OK, ele está ali… Não foi para a vergonha. Ele está aqui agora… Então, quando pensamos no poder da conexão, posso me sintonizar com ela e digo: então, quando você o vê se inclinando em sua direção, o que acontece no seu corpo? … E ela pode dizer: bem, fico menos tensa” (T6 L 239).
Terapeutas relataram sentir que seu trabalho é ajudar os membros do casal a conhecer a própria experiência somática quando as emoções ganham vida. Assim, ajudam os membros de um casal a conhecer as próprias estratégias de enfrentamento, sejam elas de perseguir ou de se retrair. Por isso, segundo relataram, é muito importante que, antes do fim da terapia, os dois membros do casal façam amizade com seu mundo interior, para que possam tolerar as próprias sensações e ficar com elas tempo suficiente para atravessar momentos que podem parecer avassaladores. “Ajudo o casal a se demorar e a se sintonizar com os sentimentos, para que as emoções comecem a servir de recurso que traz a informação importante sobre o modo de viver a relação, ou de viver áreas importantes da vida.” (T2 L 164). Terapeutas relataram também trabalhar com as experiências somáticas de quem está em terapia para ir mais fundo no sentido sentido, que se refere à vivência das emoções no corpo (Gendlin, 1961): “Então, é primeiro com um sentido sentido. Por exemplo, a pessoa (em terapia) pode dizer que sente borboletas, ou tensão, ou um nó ou um aperto, e então eu posso dizer: ‘Se você focar de verdade nesse aperto e ficar bem perto dele, deixe que cresça, deixe que aumente, deixe que se expanda.’ E muitas vezes fechar os olhos ajuda a focar, mas não é obrigatório. E então pergunto: ‘Se esse sentimento pudesse falar, o que ele diria?’, ou se há uma imagem que poderia representá-lo” (T3 L 46). Dessa forma, segundo o relato de terapeutas, as experiências dos membros do casal podem ser integradas de maneira mais profunda.
Terapeutas se referiram às experiências sentidas somaticamente em momentos de vínculo do casal como eventos-chave: “Criar esses momentos de emoção sentida na sala aproxima as pessoas e fortalece o vínculo” (T2 L 416); “O sentido sentido é vivenciar a emoção que está ali, você está sentindo o seu sentimento, de forma viva, aqui e agora, e quando isso acontece com uma pessoa, começa a acontecer também com a outra. Todo mundo sente isso na sala. O corpo está engajado de forma congruente no sentir dessa emoção” (T2 L 404); “No fim (da terapia), acho muito importante, quando pensamos no que o apego significa, que a gente o torne somático… Então você pode convidar o casal, e muitas vezes… por exemplo, alguns meses atrás havia esta mulher que disse sim, eu gostaria de sentar no seu colo (do marido)” (T6 L 492). Os múltiplos relatos verbais e exemplos de terapeutas descreveram um trabalho experiencial que usa a experiência somática no acesso, no aprofundamento e no vínculo do casal em diferentes momentos do processo terapêutico.
O objetivo desta pesquisa era explorar o ponto de vista de terapeutas com longa prática que formam em EFT sobre as experiências somáticas em seu trabalho clínico com casais. Três temas centrais emergiram da análise IPA dos dados: (1) a importância e a relevância das experiências somáticas, (2) o uso que terapeutas fazem das próprias experiências somáticas e (3) o trabalho com as experiências somáticas de quem está em terapia. Os temas que emergem deste estudo captam a própria experiência de terapeutas e sua compreensão do que consideram importante para um trabalho experiencial emocional profundo, e da presença, na qual as experiências somáticas têm papel importante. Este estudo sugere que a experiência somática está sempre presente no trabalho clínico de terapeutas e precisa ser reconhecida como um aspecto central do trabalho clínico com casais.
Neste estudo, na visão das pessoas terapeutas, trabalhar experiencialmente significava permitir que as experiências de quem está em terapia as afetassem somaticamente, e isso é fundamental para se conectar com essas pessoas e conhecer sua experiência. Também usavam a própria experiência somática para perceber o que acontecia entre os membros do casal na sala de terapia e agiam com base nesse saber. Podiam ainda criar intencionalmente uma mudança na atmosfera alterando a própria postura, por exemplo inclinando-se para frente. O foco de terapeutas não está primeiro em compreender ou encontrar soluções, mas em vivenciar profundamente. Gendlin (1968) observou que terapeutas não devem apenas reagir na terapia, mas refletir sobre seus sentimentos e usá-los para promover os objetivos da terapia, que são tornar mais acessíveis os sentimentos implícitos de quem está em terapia. Ele chamou isso de interação experiencial e de resposta experiencial de terapeutas. Em pesquisas anteriores sobre EFT (Furrow et al., 2012), a presença emocional de terapeutas previa níveis mais altos de experienciação emocional em quem estava em terapia, e a experienciação emocional de quem está em terapia é preditora de bons resultados terapêuticos (Wiebe e Johnson, 2016). A pesquisa também reconheceu que a presença terapêutica exige de terapeutas o uso do tom de voz e da comunicação não verbal para indicar sua presença (Furrow et al., 2012; Greenberg et al., 1993). O presente estudo aprofunda nossa compreensão da presença ao examinar os relatos de terapeutas sobre sua atenção intencional às experiências somáticas e seu uso delas. Os temas que emergiram da IPA neste estudo indicaram que a experiência somática de terapeutas é descrita como o fundamento de um trabalho clínico experiencial mais profundo com casais na EFT. Segundo esses relatos, depois de perceber e vivenciar por meio do próprio corpo, terapeutas usam essa informação para guiar suas intervenções e decisões clínicas, o que por sua vez lhes permite vivenciar e refletir emoções por pessoas em terapia que talvez estejam bloqueando seus sentimentos.
As análises indicaram também que terapeutas com longa prática que formam em EFT enfatizaram seu objetivo de ajudar quem está em terapia a se sintonizar e a permanecer na vivência plena e somática das emoções, o que pode permitir que essas pessoas aprendam a confiar nas emoções como fonte de informação importante sobre como vivem a relação com o outro membro do casal, algo que não foi destacado na literatura atual sobre EFT. Os membros do casal podem então expressar e compartilhar, nas intervenções de encenação, suas emoções ligadas ao apego e sentidas no corpo, como o medo da rejeição e os anseios. Entre os exemplos oferecidos pelas pessoas terapeutas estava ajudar quem está em terapia a usar referências sentidas somaticamente para identificar sentimentos como sensações físicas, corporais. Isso está em consonância com a pesquisa em EFT, que demonstrou de forma consistente que a profundidade da experienciação emocional de quem está em terapia é preditora de bons resultados, como a satisfação no relacionamento (Wiebe e Johnson, 2016). Além disso, uma metanálise recente sugeriu que a experienciação é um provável fator comum na predição dos resultados em psicoterapia (Pascual-Leone e Yeryomenko, 2017). Alguns dos exemplos de foco no corpo trazidos pelas pessoas terapeutas são expressões semelhantes às usadas em outras abordagens de psicoterapia experiencial (Ogden e Fisher, 2015).
Neste estudo, terapeutas descreveram o processo de aprofundar a experiência somática da emoção em quem está em terapia. Tipicamente, ele começa com a observação dos sinais e reações não verbais da pessoa e com a sintonia com eles, sobretudo focando e refletindo as expressões não verbais de emoções ligadas ao apego desencadeadas pelo outro membro do casal durante a sessão. Segundo os resultados, terapeutas muitas vezes veem esse processo como o ponto de entrada na experienciação de quem está em terapia e como o caminho para levar essas pessoas a um nível emocional mais profundo. Isso está em consonância com Gendlin (1964) e Madison (2014), que propuseram que o corpo é a porta de entrada para o sentido sentido de si, que está por baixo das palavras e dos pensamentos. Neste estudo, ficou evidente que terapeutas descrevem a ênfase em pedir a quem está em terapia que permaneça com o que quer que esteja percebendo no corpo, dando tempo e espaço à experiência. Terapeutas descrevem que o aprofundamento da experiência se dava por meio de perguntas evocativas que faziam referência à experiência somática. Além disso, descreveram como ligam esse processo à experiência relacional do casal e permanecem ainda mais tempo com as emoções, por meio de encenações entre os membros do casal e de perguntas evocativas de acompanhamento. Essa descrição está em consonância com a pesquisa que indica que as intervenções de foco somático de terapeutas de EFT estavam associadas a maior profundidade da experienciação de quem está em terapia (Kailanko et al., 2020a, 2020b). O presente estudo, porém, aprofunda essa compreensão ao revelar explicitamente os objetivos e as intenções de terapeutas que emergiram da codificação qualitativa das entrevistas.
Ficou evidente que terapeutas descreveram ter consciência da experiência somática e a reconheceram como relevante e importante em seu trabalho clínico com casais. Suas descrições demonstraram experiências em primeira mão dos múltiplos benefícios de prestar atenção à própria experiência somática e à de quem está em terapia e de usá-las conscientemente. Além disso, terapeutas relataram achar essa forma de trabalhar gratificante e significativa.
O interesse de terapeutas pela experiência somática da emoção surgiu da necessidade de acessar as emoções de quem está em terapia e de aprofundar as experiências emocionais, o que foi descrito como desafiador, sobretudo com quem, no casal, se retrai mais. Furrow et al. (2012) apontaram a necessidade de apoiar a capacidade de terapeutas de EFT de acessar, intensificar e processar afetos ligados ao apego profundamente sentidos, sugerindo que uma parte da formação em EFT se dedique especialmente a isso. Neste estudo, ficou evidente que, para essas pessoas terapeutas com longa prática que formam em EFT, aprender a prestar atenção à experiência e ao processo somáticos, a usá-los e a confiar neles levou vários anos e ocorreu fora de um programa formal de formação. Além disso, não existe um percurso de formação definido sobre como tomar consciência da experiência somática e usá-la no âmbito da EFT. Por isso, o aprendizado se deu por meio de consultas a colegas ou de formações externas fora do referencial da EFT. A identificação dessa lacuna sugere uma possível necessidade de formação explícita no uso da experiência somática da emoção no âmbito da EFT.
Embora este seja o primeiro estudo a explorar explicitamente os relatos e as descrições de terapeutas sobre a experiência somática da emoção na EFT para casais, ele tem algumas limitações. O foco em terapeutas com longa prática que formam em EFT pode limitar a generalização dos resultados para a prática cotidiana. Ao mesmo tempo, porém, vemos nisso a força do estudo. Os resultados indicam os pontos de vista, a experiência e a sabedoria de boas práticas, apoiados por exemplos ricos de terapeutas com longa prática que formam em EFT. Portanto, os resultados podem indicar um modo de trabalhar prototípico ou ideal e poderiam servir de base para o desenvolvimento de uma formação com foco somático em EFT para casais, o que poderia ser uma área de investigação futura. Como pesquisa futura, estudar as diferentes formas de trabalhar com a experiência somática, idealmente a partir das sessões gravadas de terapia de casal desse mesmo grupo de terapeutas, com uma microanálise qualitativa intensiva, poderia ampliar ainda mais a compreensão prática e oferecer uma perspectiva mais rica sobre a teoria em ação, e não apenas sobre a teoria professada. Outro estudo futuro poderia incluir terapeutas com diferentes graus de experiência clínica, para ampliar e comparar como os temas emergentes poderiam diferir dos resultados atuais. Este estudo qualitativo também pode orientar futuras pesquisas quantitativas centradas na experiência somática e nas intervenções de foco somático, utilizando entrevistas de recordação estimulada ou assistida por vídeo, tanto com quem está em terapia quanto com terapeutas.
Algumas limitações do estudo podem estar relacionadas à coleta de dados. As duas pessoas da equipe que conduziram as entrevistas e a codificação reconheceram que sua formação e seu interesse pelo aspecto somático da experiência emocional aumentavam o risco de viés durante as entrevistas ou a codificação, a favor de perceber o aspecto somático ou em detrimento de outros aspectos; por isso, todas as opiniões negativas foram especialmente destacadas. No entanto, sua compreensão da EFT também lhes permitiu ir mais fundo na captação dos pontos de vista de terapeutas durante as entrevistas e a codificação.
Esta pesquisa pode ter impacto no referencial teórico da EFT, pois sugere a importância de terapeutas trabalharem explicitamente com a experiência somática da emoção como forma de aprofundar o trabalho na EFT. Os resultados implicam uma necessidade de formação no trabalho com a experiência somática. Além disso, este estudo pode contribuir para o desenvolvimento de um mapa que oriente terapeutas a focar nas experiências sentidas, somáticas, como forma de manter a ênfase na experiência emocional no processo terapêutico da EFT. Este estudo e os temas que emergiram das entrevistas com terapeutas que formam em EFT sugerem acrescentar módulos à formação de terapeutas de EFT. Esses módulos poderiam se concentrar explicitamente em desenvolver a habilidade de terapeutas de identificar sua própria experiência das emoções sentida no corpo e de refletir sobre ela, de usar essas experiências para compreender melhor quem está em terapia, de desenvolver intervenções baseadas nessas experiências e compreensões, e de ajustar e dosar as intervenções às fases específicas da EFT e a quem persegue e a quem se retrai.
A presente pesquisa ofereceu uma compreensão das experiências e dos pontos de vista de terapeutas com longa prática que formam em EFT sobre os fenômenos somáticos no trabalho clínico com casais. Nas entrevistas, terapeutas expressaram que consideram a experiência somática uma parte importante de seu trabalho terapêutico com casais. Também indicaram que suas próprias respostas somáticas aos membros de um casal lhes davam uma compreensão mais profunda de quem estava em terapia. Terapeutas apontaram algumas dificuldades em focar nas próprias experiências somáticas, mas consideraram que esse foco era necessário para dosar as intervenções e dirigi-las a membros específicos do casal ou a eventos de vínculo específicos, a fim de alcançar bons resultados para os casais. Terapeutas com longa prática que formam em EFT explicaram que sua atenção ao aspecto somático das emoções surgiu da necessidade de poder trabalhar com certas pessoas em terapia, como as que se retraem e as que perseguem, para ir mais fundo em sua experiência sentida.
Complexe Systémique: a reter
O estudo dá voz a um grupo excepcional: oito terapeutas que formam em EFT há muito tempo, um grupo inteiramente branco, de 50 a 70 anos, que descreve uma prática ideal mais do que observada, o que a equipe reconhece ao distinguir teoria professada e teoria em ação. Sua contribuição para a clínica sistêmica, no entanto, é real: o corpo de quem conduz a terapia se torna um instrumento de leitura do sistema na sessão. Um coração que acelera, uma sensação de calor ou de confusão sinalizam a escalada entre os membros do casal antes que ela seja dita; inclinar-se para frente muda o clima da sala. Encontra-se aí, na linguagem do apego e da experienciação, uma intuição próxima da ressonância: o que a pessoa terapeuta sente também pertence ao sistema ao qual se junta. Duas nuances merecem ser guardadas: as práticas divergem diante de quem persegue (convidar a sentir o corpo ou acalmar primeiro), e compartilhar o próprio sentir continua sendo uma escolha, que uma terapeuta recusa. Por fim, essa competência foi aprendida fora das formações oficiais, o que pesa a favor de integrá-la. Para ler junto com o estudo das conjecturas empáticas na terapia de casal focada nas emoções e com o artigo de Bernard Filleul sobre o papel do corpo em terapia.
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Tradução não oficial em português de A experiência somática da emoção na terapia de casal focada nas emoções: pontos de vista e experiências de terapeutas com longa prática que formam em EFT, de Sari Kailanko, Stephanie A. Wiebe, Giorgio A. Tasca, Aarno A. Laitila e Robert Allan, Journal of Marital and Family Therapy, vol. 48, no 3 (2022), doi: 10.1111/jmft.12543, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Somatic experience of emotion in emotionally focused couple therapy: Experienced trainer therapists' views and experiences”, publicado em Journal of Marital and Family Therapy (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Kailanko, S., Wiebe, S. A., Tasca, G. A., Laitila, A. A., et Allan, R. (2022). A experiência somática da emoção na terapia de casal focada nas emoções: pontos de vista e experiências de terapeutas com longa prática que formam em EFT (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-experiencia-somatica-da-emocao-na-terapia-de-casal-focada-nas-emocoes (Obra original publicada em 2022 em Journal of Marital and Family Therapy, 48(3), 677-692 (2022); republicada em 2022 por Journal of Marital and Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jmft.12543)
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