Esta versão foi traduzida do espanhol pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Red Sistémica · Cinema e psicopatologia
Existem três fontes fundamentais que procuram descrever a realidade: a história, a mídia e a arte. Das três, é a arte que mais se aproxima da realidade. Coringa, de Todd Phillips, não é exceção: com um sentido profundamente humano, o filme nos mergulha no mundo subestimado da saúde mental. O que ele descreve magistralmente é uma história clínica: a da maneira como se incuba um transtorno mental.
O filme
Direção: Todd Phillips (2019). Com: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Frances Conroy. O filme conta a lenta desagregação de Arthur Fleck, palhaço de aluguel e aspirante a humorista que vive com a mãe em uma metrópole em crise, até sua metamorfose em Coringa.
Nota da tradução
Este texto foi escrito em Lima em outubro de 2019, algumas semanas depois do lançamento do filme, e republicado pela Red Sistémica em 2023. Nele o autor mobiliza o vocabulário relacional da escola sistêmica: a desconfirmação (a experiência subjetiva de ver a própria existência negada pelos seus) e a desqualificação, tais como se encontram em Watzlawick e depois em Juan Luis Linares. Por respeito ao direito autoral do filme, as falas citadas no original são aqui restituídas em discurso indireto, e não reproduzidas.
“Toda personalidade doentia se incuba em vínculos doentios; e por trás de toda personalidade doentia existe sempre uma história de desamor que explica essa conduta.”
José Baldeón Valdivia
Há três fontes fundamentais que procuram descrever a realidade: a história, a mídia e a arte. Das três, é a arte que mais se aproxima da realidade. Os filmes, como tais, quase sempre tentam fotografar aspectos da realidade humana. O filme Coringa — que encena o célebre personagem da DC Comics, conhecido por ser o inimigo jurado do Batman — e que bate recordes de bilheteria, não é exceção. É um filme, dirigido por Todd Phillips, que nos mergulha no mundo subestimado da saúde mental, com um sentido profundamente humano.
O personagem do Coringa é interpretado por Joaquin Phoenix, que provavelmente receberá, por essa interpretação brilhante, o Oscar de melhor ator. Há neste filme uma riqueza psicológica profunda a explorar. É aí que está o seu valor.
Certas críticas o disseram problemático e o acusaram de romantizar a violência; outras vozes asseguram que é um filme necessário. Diz-se que ele faz a promoção da violência, quando esta sempre existiu, inclusive na época em que não havia filmes.
Claro, se nos contentarmos em olhar a violência do Coringa — como quando se olha apenas a revolta dos filhos —, nós a desaprovaremos; mas se fizermos o esforço de olhar para além do Coringa e se pararmos para examinar sua história e sua família, como quem se olha no papel parental, nós nos poríamos a refletir — e poderíamos até descobrir com espanto — onde pode estar alojada a origem de tanta violência e de tanta revolta. Eis o que é interessante: Coringa põe o dedo na ferida ao descrever magistralmente a história clínica da maneira como se incuba um transtorno mental. Em muitas das frases-chave do personagem, podemos analisar o relato de uma pessoa que sofreu, marcada por uma história de desamor, e que acaba transformada em doente mental.
É evidente que o Coringa sofria de um mosaico de transtornos psicológicos, a começar por uma psicose inegável, caracterizada por seu delírio de grandeza de herói disfarçado de vilão; ele renuncia a ser Arthur Fleck — seu verdadeiro nome — e pede que o chamem de Coringa, abandonando assim a própria identidade para assumir outra. Ele delira ser um palhaço feliz que, no fundo, recobre um homem infeliz. Apresenta também traços sociopáticos profundos, que o levam a matar sem sentir culpa, como quando mata a mãe — ainda que, antes, ela mesma e outros já o tivessem assassinado psicologicamente.
Sofria, além disso, de uma depressão crônica, manifesta em sua solidão e naquele tique de riso forçado atrás do qual escondia sua tristeza profunda. A neurose também não estava ausente, expressa na forte ansiedade que ele procurava apaziguar a golpes de cigarro… eis quem era Arthur: um colecionador de sintomas e de diagnósticos que tornaram sua vida miserável e angustiante, como a de milhares de seres humanos que sofrem de transtornos mentais e não são compreendidos: nem mesmo pela própria família, e menos ainda pela sociedade que os cerca.
Mas como um inocente chega a se transformar em monstro ameaçador? Como Arthur, a criança boa, se torna o Coringa, o adulto mau, que acaba criminoso demente? Como uma pessoa chega a desenvolver um transtorno mental? Onde toda patologia psicológica mergulha suas raízes? Uma larga faixa da psiquiatria clássica, com sua ideologia biologizante, nos fez crer que a maioria dos transtornos mentais tem uma origem genética, que a maior parte das pessoas atingidas tem uma predisposição genética com a qual nasceu e que está condenada a viver para sempre com seu mal; para a felicidade da indústria farmacêutica e o enriquecimento dos donos dos grandes laboratórios, que tornarão as pessoas doentes dependentes de seus comprimidos, mas não as curarão.
Não se nasce com um transtorno mental, já que um feto inicia sua concepção mais ou menos à perfeição; uma patologia se forma no ambiente de crescimento, desde o ventre materno. Pode haver exceções, mas elas não passam disso. Não é a genética a responsável por uma perturbação mental, são os vínculos doentios em que crescem um feto e depois uma criança que podem levá-la a adoecer psicologicamente. Não é a biologia cerebral, são as relações doentias que engendram as patologias. Nosso axioma é que toda personalidade doentia se incuba em vínculos doentios. Arthur — essa é a sua verdadeira identidade, e me recuso a chamá-lo de Coringa, o bufão — não teve predisposição genética para se tornar um criminoso demente; o que ele teve foi uma atmosfera relacional que o converteu em tal. Isso não justifica seu ato, mas o explica.
Toda criança precisa chegar e crescer em um ambiente relacional caracterizado pelo amor, o único capaz de garantir sua saúde mental. Um amor que nunca esteve presente na vida de Arthur: ele mesmo diz não ter conhecido, em toda a sua vida, um único momento de felicidade. Uma infância infeliz prepara uma vida adulta potencialmente perturbada. É em uma infância infeliz, marcada pelo desamor, que se incubam as grandes psicopatologias humanas. Quase todas as doenças psicológicas, e muitas doenças físicas também, têm sua origem no desamor (Maturana, 1993). Eis o ninho em que crescem os grandes transtornos da personalidade. É por isso que outro de nossos axiomas é que, por trás de toda personalidade doentia, existe sempre uma história de desamor que explica essa conduta. Um desamor que se exprime em vínculos doentios capazes de destruir a identidade de uma criança, como aconteceu com Arthur. Mergulhemos, pois, agora na história de desamor de nosso personagem tão provado, cuja existência ganha forma em um roteiro extraordinário que me comoveu profundamente e me surpreendeu de modo agradável quando vi o filme.
Desde a nossa posição terapêutica, acreditamos que os vínculos doentios em que se exprime o desamor e que ferem o psiquismo de uma pessoa são principalmente cinco. Vários deles estiveram presentes na vida de Arthur. O principal foi o vínculo doentio da desconfirmação (Watzlawick, 1969), que é a forma de maus-tratos psicológicos mais destrutiva de todas: ela faz com que a criança sinta que não existe para as pessoas mais significativas de sua vida, suas figuras parentais, e que sua existência não tem importância para elas. Tal foi a experiência de Arthur, que teve uma mãe para quem ele não existia, já que ela vivia agarrada ao passado e só contavam suas lembranças e a esperança de ser socorrida por aquele homem rico que a havia engravidado. É por isso que ela vivia na compulsão de enviar cartas que nunca recebiam resposta. Ela se atolou em uma superconexão com o pai, mas nunca conseguiu se conectar ao filho. Arthur era invisível para ela, como também não existiu para seu pai.
É a isso que chamamos de desconfirmação: pais que se desinteressam de sua prole em favor de seus próprios assuntos profissionais, de seus conflitos conjugais ou de suas frustrações pessoais, invisibilizando os filhos e, por isso mesmo, desconfirmando-os. O pior é que, depois de lhes ter dito implicitamente “você não existe para mim”, exigimos deles explicitamente uma existência bem-sucedida e feliz, sem nos preocuparmos com o que pensam e o que sentem. É uma dupla desconfirmação, e foi o que fez a mãe de Arthur ao lhe repetir que ele devia sempre sorrir, que devia ser feliz e que sua missão era fazer os outros rirem; em outras palavras: “finja que é feliz, não importa que você seja infeliz”. A metamensagem é: “não seja você, você deve ser outro”.
Não é de espantar, portanto, que Arthur diga nunca ter existido para os outros, e que tenha chegado a pensar que nem sequer existia para si mesmo. É exatamente o sentimento de alguém que viveu no vínculo doentio da desconfirmação. Eis o embrião de uma futura personalidade psicótica. Não se nasce assim: fazem você assim. Ninguém pode existir sentindo-se um nada e sem identidade; é por isso que, como mecanismo de defesa, é preciso construir uma identidade alternativa com a qual se sinta existir e ter importância: eu sou Napoleão. A Arthur, sua família negou a possibilidade de configurar a própria identidade, obrigando-o a construir uma identidade emprestada de um personagem cruel, vingativo e sanguinário, como era o Coringa.
Não importa o preço a pagar, o importante é existir e ser reconhecido. Sendo Arthur, ele é um joão-ninguém marginalizado; mas agora, como Coringa, ele é alguém reconhecido. Pois, claro: se meu eu real é desprezado, invento um eu irreal que me garanta ser valorizado; não importa que eu seja reconhecido por ser mau e que isso me destrua, o importante é ser reconhecido e que os outros percebam que eu existo.
O célebre romancista William Faulkner, em seu romance Palmeiras selvagens, nos diz: “Entre a dor e o nada, escolho a dor”; isto é: entre não existir e sofrer, escolho sofrer. Não importa ser um marginal perseguido pela polícia; o importante é que, agora, eu existo, a qualquer preço. É por isso que a conduta de uma criança-problema ou de uma adolescência rebelde é muitas vezes um grito — “eu existo, eu conto” — e uma súplica por um vínculo saudável. É por isso que, atrás da fantasia e da maquiagem do Coringa, escondia-se um ser humano que buscou desesperadamente poder existir, ser aceito, escutado, compreendido, amado, respeitado… ele quis ser Arthur Fleck, mas acabou sendo o Coringa.
Muitas vezes, os filhos acabam encarnando aquilo que os pais temiam, e que era, no entanto, sem que os pais se dessem conta, o roteiro escrito para a vida dos filhos. Arthur acabou transformado nesse personagem maléfico que é o Coringa porque sua família lhe escreveu esse roteiro desde o vínculo doentio da desconfirmação, a qual não é senão o assassinato psicológico de uma criança, já que se lhe destrói a identidade. A isso, muitas crianças poderiam responder: “mãe, pai, eu seria a criança perfeita que vocês querem se, ao menos, vocês tivessem prestado atenção em mim”. Mas muitas vivem afetivamente abandonadas e emocionalmente órfãs.
Outra frase-chave em que se revela o relato psicótico de Arthur é aquela que ele repete para si mesmo, tentando acreditar nela de verdade: sua vida não seria uma tragédia, mas uma comédia. Aparece assim o delírio, sintoma principal da psicose, que se desencadeia na vida de Arthur e que consiste em negar a realidade dolorosa para escapar a um mundo irreal de felicidade aparente. Ele não queria ter consciência de que sua vida era uma triste tragédia; precisa, portanto, fugir para um mundo inventado de alegre comédia. Pois ninguém pode viver num mar de angústia com a sensação de não existir para as pessoas mais significativas de seu entorno — uma das piores tragédias que um ser humano pode viver, com mais razão ainda na infância. Diante dessa experiência angustiante, busca-se sempre agarrar a boia de um relato que mantenha à tona; é por essa razão que Arthur embarca na ideia delirante de que sua vida é uma comédia, como um mecanismo de defesa que o impede de naufragar em sua dolorosa realidade de tragédia. Isso significa: eu não posso viver na tragédia de me sentir um joão-ninguém; preciso, portanto, me pensar como alguém, mesmo que minha vida se transforme em comédia. Pois se meu eu real experimenta a vida como uma tragédia, ele precisa inventar um eu irreal em que possa experimentar a vida como uma comédia.
Já que não se pode viver em uma profunda angústia existencial constante, é preciso escapar para um mundo irreal no qual a vida é uma alegria profunda. Não podendo viver com a própria identidade, busca-se uma identidade alternativa que garanta o reconhecimento que foi recusado (Linares, 2010). É por isso que Arthur se recusa a ser ele mesmo, o sujeito que vive engolido no abismo da tragédia, escapando da própria identidade para adquirir uma nova, como a do Coringa, o palhaço bufão, na qual possa experimentar a vida desde o alto da alegria. Muitas vezes, enganar a si mesmo é uma questão de sobrevivência psicológica, para suportar a dor da tragédia. A psicose é o autoengano levado ao extremo: aquele em que se renuncia a ser si mesmo, alguém infeliz, para se convencer de que se é outra pessoa, mas feliz.
A outra patologia concomitante à esquizofrenia de que Arthur sofria era uma profunda depressão, manifesta em seu relato: ele quer que sua morte tenha mais sentido do que sua vida. Em outras palavras, ele nos metacomunica: “minha vida não tem sentido, minha morte tem mais”. Ele valoriza mais a morte do que a vida, sentimento típico da depressão com ideias suicidas, quando a existência não tem mais objetivo definido. Mas se uma psicose se incuba no vínculo doentio da desconfirmação, a personalidade depressiva se aninha, por sua vez, em uma desqualificação (Linares, 2010) não isenta de rejeição. Se a mensagem do primeiro vínculo doentio é “você não existe para mim”, a mensagem dos dois outros é “você existe, mas eu não gosto de você e não quero estar com você”. Essa foi outra experiência doentia de desamor de que Arthur sofreu ao longo de toda a sua vida: a implacável rejeição a que foi submetido. Foi rejeitado pelo pai ausente, pela mãe indiferente, pelas zombarias dos colegas de escola, pelo desprezo de uma paixão possível, pela indolência de um patrão que o demite, pelo descaso de um governo que lhe retira os comprimidos que lhe dava, e até por um apresentador de televisão que só o convida para caçoar dele.
Toda a vida de Arthur foi marcada pela tragédia da rejeição e da desconfirmação; não é estranho, portanto, que ele queira convertê-la em comédia, para o que seu próprio corpo colaborou. Pois uma parte da “comédia” de Arthur consistiu em desenvolver um transtorno neurológico chamado labilidade emocional, ou síndrome pseudobulbar: uma afecção caracterizada por episódios de crises de riso (ou de choro) súbitas, incontroladas e fora de propósito, que ocorrem quando a pessoa tem vontade de chorar ou fica nervosa; episódios que podem durar vários minutos e provocar vergonha, isolamento social, angústia e depressão. Arthur sofria de tudo isso, mas tentava negar sua depressão construindo o relato de uma vida que seria uma comédia. Ora, tudo o que não explode para fora vai implodir para dentro. Eis a origem de muitas doenças psicossomáticas. É assim que Arthur negava sua depressão afirmando que sua vida não era uma tragédia, mas uma comédia; ora, quando negamos alguma coisa com nosso psiquismo, nosso corpo reclama, e um curto-circuito pode se produzir em nosso sistema nervoso, o que pode se traduzir em um transtorno neurológico como aquele de que Arthur sofria.
Pois o que a alma cala, o corpo diz. Negar a tristeza de sua alma fez com que seu corpo falasse por meio de uma síndrome; o que demonstra que muitas doenças físicas ou psicológicas podem não ser senão metáforas, que escondem a mensagem de uma realidade dolorosa que nos recusamos a aceitar. Arthur preferia viver na mentira de um riso a viver na verdade de um choro.
Os vínculos doentios, como a desconfirmação e a rejeição, em que uma pessoa pode viver lhe produzem feridas psicológicas: vergonha, culpa, raiva etc., que são os alicerces sobre os quais se edifica um transtorno da personalidade. A maioria das pessoas nessa situação acumula rancor e raiva, fonte de agressividade contra si ou contra os outros, como foi o caso de Arthur. Mas a maior violência que observamos no filme não é a que ele comete contra os outros: é a que os outros exerceram primeiro contra ele. Arthur o faz de maneira visível e brutal, mas a violência contra ele foi invisível e progressiva. É verdade que ele é um criminoso demente, mas também é verdade que a verdadeira demência criminosa é a que se produziu contra ele, com um entorno marcado pelos maus-tratos, que o assassinou psicologicamente com o desamor da desconfirmação e da rejeição, e que acabou fazendo explodir sua identidade frágil.
Depois de ter vivido em uma atmosfera relacional tão contaminada, alguém pode ousar dizer que ele acabou psicótico e deprimido por alguma causa genética? Seria uma loucura maior que a de Arthur. Não há dúvida de que é nos vínculos doentios de desamor, com os quais se maltrata psicologicamente uma criança, que se encontra a verdadeira causa que a faz adoecer física e psicologicamente, podendo até levá-la à loucura.
Diz-se que o Coringa representa a violência assassina encarnada, e é o caso; mas atrás dele há uma violência ainda maior, a que o engendrou: a violência do desamor, expressa na desconfirmação de seus pais e na rejeição dos outros. Todo esse entorno é cúmplice de ter criado o monstro que agora repudia. Arthur não é inocente, mas seu entorno é o grande culpado de sua criação. Ele não falhou totalmente: seu entorno falhou mais. Ele é o digno filho do desamor. Foi violento porque foram violentos com ele. É verdade que nem a dor nem a ferida justificam a violência, pois assim como se pode aprender um comportamento agressivo, pode-se desaprendê-lo; mas isso é fácil de dizer, e o que não se consegue compreender plenamente é que o restabelecimento de uma pessoa perturbada não depende apenas dela, mas também de seu entorno — inclusive nós.
Muitas vezes, as pessoas que o atormentam deveriam cuidar dele; mas, ao contrário, continuam a maltratá-lo. É por isso que Arthur observa que o pior, quando se tem um transtorno mental, é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse nenhum. Exige-se dele que se comporte bem e não se compreende que ele não pode, por causa de sua doença. É como se exigíssemos de uma pessoa paralisada que se pusesse a correr. A maioria das pessoas atingidas por um transtorno não é compreendida nem pela família nem pela sociedade: espera-se delas que ajam bem, como se não sofressem de transtorno algum. Cortam-lhes as pernas e depois lhes pedem que andem normalmente.
Para lembrar
A todos os sintomas de que sofre uma pessoa perturbada é preciso acrescentar a raiva engendrada pela incompreensão de seu entorno que, com sua indiferença e sua rejeição, alimenta ainda mais sua patologia. É por isso que dizemos que a falha central não está nela, mas no entorno que a abriga. Se o contexto familiar de uma criança está cheio de violência, não podemos esperar dessa criança que cresça de maneira saudável. Uma atmosfera relacional doentia produzirá uma personalidade doentia.
É verdade que há crianças que escapam a essa maldição, mas esse é um assunto que exige uma explicação que ultrapassa o âmbito do presente artigo.
Por ora, sublinhamos as consequências do desamor e as falhas do entorno. Arthur nasceu e cresceu em um contexto familiar abarrotado de desamor. Desde a infância, só conheceu a linguagem da violência e nunca aprendeu a falar outra língua. Não é que ele tenha nascido como a ovelha negra da família: foi ela que o converteu em tal. Sua única culpa foi não ter podido romper com o roteiro programado e ousar escrever sua própria história de vida. Foi condenado pela justiça, mas seu entorno ficou impune; é por isso que, no fim, ele quis fazer justiça com as próprias mãos.
“Há famílias em que se sofre mais do que em um campo de concentração”, escreveu um antigo detento de Auschwitz, o complexo de extermínio nazista. Pois quando o desamor da desconfirmação e da rejeição é o que prevalece em um lar, as crianças sofrem mais do que as pessoas que viveram nesses campos de extermínio. Elas precisam respirar uma atmosfera familiar próxima do paraíso para crescerem saudáveis e felizes. Não engendremos um Coringa: formemos um ser capaz de ter sucesso. Nem um nem outro são questão de genética nem de sorte: é uma questão de vínculos. Se uma criança cresce em vínculos doentios de desamor, sua personalidade se engajará em uma trajetória doentia; mas se ela se desenvolve em vínculos saudáveis de amor, sua identidade caminhará pela senda da funcionalidade e da plena realização. Infelizmente, Arthur viveu a primeira situação.
Ao longo de todo o filme, encontra-se o grito dilacerante e silencioso de um Arthur que nos metacomunica, de todas as maneiras: “eu preciso que me amem”; até o momento em que ele vai comunicá-lo abertamente, aquele em que encontra seu pai. É uma das cenas mais comoventes e mais fortes do filme, que se assiste com o coração apertado. Arthur fez o impossível para conseguir ver seu pai, rico e inacessível; e agora, enfim, ele o tinha ali, à sua frente. Diz-lhe que o procurou não para lhe reclamar a herança a que tem direito nem o sobrenome que lhe cabe, mas apenas para poder pronunciar aquela palavra nunca dita antes: pai; uma palavra que nunca pôde dizer a mais ninguém, já que sua mãe lhe negou a possibilidade de um novo pai, jamais tendo conseguido superar seu amor impossível. A cena mais comovente é aquela em que ele lhe dirige um pedido que, se tivesse sido aceito, poderia ter mudado seu destino. Até aquele instante, sua vida poderia ter sido outra; depois, tudo se tornou irreversível. Foi um instante que poderia ter mudado tudo, mas que só fez piorar tudo. Arthur pedia apenas um gesto de amor que poderia tê-lo curado, mas recebeu, mais uma vez, um gesto de desamor que acabou de perturbá-lo. É o momento em que ele faz o homem que tem diante de si compreender que não lhe pede seu dinheiro, mas apenas o abraço de um pai. Não reclamava nem dinheiro nem nada em particular; diz apenas que veio pedir o abraço de um pai, por tanto tempo adiado e procurado; ele suplicava apenas por uma carícia de amor que enchesse de amor o buraco de sua alma.
É preciso satisfazer as necessidades físicas e materiais de nossos filhos, mas não esqueçamos jamais que suas necessidades mais profundas não passam por aí: elas são psicológicas e espirituais, e a criança precisa se pensar e se sentir amada para crescer de maneira saudável. Pois assim como há vínculos doentios de desamor — como a desconfirmação e a rejeição — que adoeceram Arthur, há também vínculos saudáveis de amor, como a ternura e as carícias, que poderiam tê-lo curado; porque se o desamor adoece, o amor cura. Arthur viveu toda a sua vida no desamor, e é por isso que adoeceu; ele tinha agora a ocasião de receber o pouco de amor que reclamava aos gritos e, assim, de poder se curar.
A ternura
Encontrar sempre disponível a pessoa de quem espero amor; saber que não estou só e que posso contar com ela.
As carícias
Expressões gestuais — abraços, beijos — ou elogios sinceros.
Arthur esperava essas duas coisas de seu pai: é por isso que estava ali, mendigando um pouco de amor. No entanto, em vez de um abraço, o que ele recebe é um soco no rosto, que representa a violência física da rejeição; mas não seria esse o golpe que mais o machucaria: seria aquele outro soco recebido na alma, quando seu pai lhe dá a entender que não é seu pai e que ele nunca mais deve se aproximar dele; em outras palavras: “não estou disponível para você”, a representação da violência psicológica da desconfirmação. É nesse ato final que se produz, creio eu, o ponto culminante da consumação de seu desmoronamento. O processo de gestação de um criminoso demente chegava ao seu termo. Arthur morre enquanto tal, e nasce o Coringa como criminoso.
Por que o filho do vice-presidente da General Electric entraria na escola primária de Sandy Hook, em Newtown, no Connecticut, para explodir os pequenos corpos de vinte crianças do primeiro ano? Por que agiu assim, se seu pai o fez viver na abundância e lhe deu tudo? Certamente porque satisfez todas as suas necessidades materiais, mas deixou vazias suas necessidades psicológicas. Esteve sempre disponível para o filho, ou sempre ocupado com seu trabalho, desconfirmando-o? Soube abraçá-lo e elogiá-lo o tempo todo, ou o rejeitou? A ternura e as carícias são, entre outros, vínculos de amor, tão vitais para uma criança quanto o alimento físico; e quando não são satisfeitos, a alma adoece e feridas se abrem, como o rancor, que está por trás de muitas expressões de violência e que, nos casos extremos, pode levar a matar o outro, como fez esse filho.
“O mal existe, e ele é a ausência de amor”, diz-nos Juan Luis Linares; isto é, a maldade não é apenas um ato explícito de insultos e de tapas, é também um ato de omissão e de ausência, como a recusa das carícias. Deixar de abraçar é maltratar; e é nesse contexto de uma história de desamor, e não em uma herança genética, que se incubam as personalidades perturbadas. O destino de Arthur poderia ter mudado com um simples abraço, que o teria feito se sentir amado e tocar o céu; mas em vez disso, ele recebeu um soco que o fez se sentir novamente rejeitado e jogado no inferno. O soco no rosto foi uma violência física visível que quase não o machucou; o verdadeiro soco na alma, o da rejeição, é a verdadeira violência psicológica invisível, a que acabou de deixar sua alma ainda mais doente.
Há muitos pais que, em vez de abraços, dão socos em seus filhos: socos de indiferença, de ausência, de gritos, de insultos, de críticas… e depois lhes pedimos que sejam boas pessoas e que tenham sucesso na vida. Nós os maltratamos e depois exigimos deles que não sejam Coringas; no entanto, é justamente o desamor de muitos pais e o descaso de uma sociedade doente que criam tantos Coringas no mundo de hoje. Sejamos, pois, pais e pessoas que vão pelo mundo dando abraços em vez de socos. Se o golpe da rejeição é a violência do desamor, as carícias do abraço são a expressão do amor. Como já dissemos: se o desamor adoece e produz um transtorno mental, o amor, por sua vez, cura, e pode transformar a vida de mais de uma pessoa perturbada. Devemos acreditar que há um profundo poder terapêutico no amor. É por isso que, quando vemos uma infância malcriada ou uma adolescência rebelde que extrapola, o que provavelmente nos é pedido aos gritos, atrás dessa conduta, é amor, como fazia Arthur; mas talvez respondamos com ainda mais rejeição e punição, e assim, sem nos darmos conta, pavimentaremos o caminho para a patologia.
Arthur é culpado, mas é também um inocente que foi desregulado. Não o julguemos nem o condenemos como um ser mau; também não se trata de eximi-lo de seus atos, mas tenhamos em mente que o algoz de hoje foi a vítima de ontem. A verdadeira vilania é não querer mudar, e Arthur quis fazê-lo, mas não o deixaram. Não sejamos levianos em nossa maneira de julgar e de criticar as pessoas perturbadas por sua má conduta. Lembremo-nos do que diz Eckhart Tolle: “Quando você for tentado a julgar uma pessoa, pense: se o passado dela fosse o seu passado, se a dor dela fosse a sua dor, se o nível de consciência dela fosse o seu nível de consciência, você pensaria e agiria exatamente como ele ou como ela. Essa compreensão traz consigo o perdão, a compaixão e a paz.” É a capacidade de sentir empatia e de nos colocarmos no lugar do outro. Talvez o outro tenha recebido muitos socos e nós muitos abraços, e foi isso que fez a diferença entre nossas identidades. Tenhamos sempre em mente que, por trás de cada ser humano perturbado, há uma história de desamor que precisa ser compreendida: é necessário olhar os outros com compaixão antes de julgá-los.
Não vamos pelo mundo dando socos: vamos dando abraços. As agressões abundam, enquanto as carícias se tornam raras. Não rejeitemos nem nossos filhos nem nosso próximo, mesmo que nos provoquem ao máximo; sejamos agentes de amor, ofereçamos ternura e carícias permanentemente, e contribuamos assim para a cura de tantas pessoas feridas ao nosso redor. É por isso que, depois de ler este artigo, peça perdão a seu filho ou a sua filha pelos maus-tratos e declare seu amor; dê-lhe um abraço, um beijo e carícias psicológicas constantes. Mesmo em meio à disciplina, você pode lhe mostrar amor, para poder assim matar o Coringa em germe e fazer crescer uma criança saudável e feliz, capaz de ter sucesso e de contribuir para a construção de um Peru e de um mundo melhores.
Obrigado a Joaquin Phoenix, o ator; a Todd Phillips, o diretor; à Warner Bros., a produtora; e a todas as pessoas que tornaram possível este filme dilacerante que, para além de exaltar a violência, nos confronta claramente com suas origens: o desamor que adoece. Mas o amor, esse, cura.
Lima, outubro de 2019.
Quem é José Baldeón Valdivia
José Baldeón Valdivia é psicoterapeuta familiar e de casal. Estudou psicologia na Pontificia Universidad Católica del Perú, especializou-se em psicologia social e depois completou sua formação com a psicologia clínica em terapia gestalt. Cursou quatro anos de estudos de teologia, é titular de um diploma de especialização em família pela Universidad de la Sabana (Colômbia) e de um mestrado em terapia familiar sistêmica pela Universidad Autónoma de Barcelona (Espanha).
É atualmente diretor-geral do centro de formação e de atendimento terapêutico para famílias e casais Nuevas Sendas, e presidente da AETSIP, a Associação de Escolas e Terapeutas Sistêmicos do Peru. Participa regularmente de rádio e televisão (Capital, Radio Programas del Perú — RPP, entre outras), profere conferências sobre temas da família em escolas e nas províncias do Peru, e é membro ativo da RELATES, a Rede Europeia e Americana de Escolas Sistêmicas.
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Este artigo é a tradução para o português de “Joker: el retrato perfecto de un trastorno mental incubado en una historia de desamor”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Red Sistémica). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Baldeón Valdivia, J. (2023). Coringa: o retrato perfeito de um transtorno mental incubado em uma história de desamor (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/coringa-o-retrato-perfeito-de-um-transtorno-mental-incubado-em-uma-historia-de-desamor (Obra original publicada em 2019 em Red Sistémica; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/01/27/joker-el-retrato-perfecto-de-un-trastorno-mental-incubado-en-una-historia-de-desamor/)
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