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Integrative Psychological and Behavioral Science · Prática sistêmica
E se a crise de replicação na psicologia não fosse antes de tudo uma questão de métodos falhos, mas de epistemologia? De Atenas, Alexios Brailas relê esse debate à luz da cibernética de segunda ordem de Heinz von Foerster: se quem observa faz parte do sistema observado, a replicação exata se torna impossível em princípio. Partindo da controvérsia sobre as “poses de poder”, o artigo defende uma “superposição epistemológica” e devolve à prática sua responsabilidade: agir de modo a aumentar o número de escolhas.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Crise de replicação na psicologia, cibernética de segunda ordem e causalidade transacional: da psicologia experimental à prática psicológica aplicada, de Alexios Brailas, publicado na Integrative Psychological and Behavioral Science (Springer) (2025), doi: 10.1007/s12124-024-09867-3, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A nota de rodapé e as declarações do fim do artigo estão reunidas nas notas do original. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Não precisamos temer as diferenças epistemológicas; precisamos, antes, aprender com elas.
Alexios Brailas
Resumo
Este artigo busca reconceituar a crise de replicação não apenas como um problema de métodos falhos, falta de rigor científico ou condutas de pesquisa questionáveis, mas como uma questão fundamentalmente epistemológica e filosófica. Embora seja necessário melhorar as metodologias e as práticas científicas, essas melhorias precisam ser pensadas à luz das epistemologias subjacentes. Com esse objetivo, propõe-se como instrumento um novo paradigma para a pesquisa e a prática em psicologia, fundamentado na cibernética de segunda ordem e na causalidade transacional. A cibernética de segunda ordem, tal como introduzida por Heinz von Foerster, questiona as metodologias científicas tradicionais que pressupõem uma separação estrita entre quem observa e o que é observado. A ideia central é que quem observa, pelo próprio ato de observar, torna-se inevitavelmente parte do sistema que estuda, o que leva a uma passagem da causalidade linear para a causalidade transacional. Essa mudança epistemológica tem implicações profundas para a prática da pesquisa e para a responsabilidade de quem exerce a psicologia. O imperativo ético de von Foerster, age sempre de modo a aumentar o número de escolhas, combinado ao imperativo estético, se desejas ver, aprende a agir, ilumina outra paisagem metodológica para a prática clínica. A crise de replicação na psicologia é examinada à luz dessas mudanças teóricas, o que permite uma nova visão construtiva que integra a pesquisa básica e a prática psicológica aplicada. A cibernética de segunda ordem estimula uma abordagem participativa da pesquisa, que enfatiza o papel catalisador de quem atua na prática e observa. O artigo conclui defendendo uma superposição epistemológica, na qual profissionais da psicologia transitam entre múltiplas perspectivas para fortalecer a integridade de seus achados e sua aplicabilidade no mundo real.
Palavras-chave: metodologia, epistemologia, crise de replicação, cibernética de segunda ordem, causalidade, prática psicológica
Neste artigo, busco oferecer uma perspectiva alternativa sobre a questão da reprodutibilidade na pesquisa em psicologia (Open Science Collaboration, 2015), pelas lentes da cibernética de segunda ordem e da causalidade transacional (Von Foerster, 2003). Começo com uma breve introdução à crise de replicação na psicologia, incluindo seus pressupostos subjacentes, para situar o contexto. Em seguida, apresento a cibernética de segunda ordem e a causalidade transacional como marco epistemológico. Discuto também as implicações desse marco para enfrentar o desafio da reprodutibilidade. Por fim, analiso um estudo controverso cuja história se desenrolou ao mesmo tempo que a crise de replicação na psicologia. Com base na cibernética de segunda ordem, apresento e exploro uma perspectiva epistemológica alternativa sobre esse caso e discuto suas implicações para a pesquisa e a prática em psicologia.
O propósito deste artigo não é discutir a crise de replicação ou como enfrentá-la por meio de modificações e reformas metodológicas dentro do paradigma de pesquisa positivista, algo já amplamente tratado na literatura existente (Munafò et al., 2017). Meu objetivo é, antes, explorar a crise de replicação a partir de outra perspectiva epistemológica: e se, em princípio, não for possível separar quem observa e pesquisa do sistema que observa e estuda? Essa mudança epistemológica tem implicações importantes para a prática psicológica, tanto em contextos sociais quanto clínicos, pois permite que as pessoas que participam das intervenções realizem futuros alternativos e mais transformadores para si mesmas e para suas comunidades.
O marco metodológico deste estudo se fundamenta na cibernética de segunda ordem e, em particular, nos imperativos ético e estético tais como formulados por Von Foerster (2003). Aplicando esses dois princípios à hipótese das “poses de poder” (Carney et al., 2010), uma teoria baseada em um estudo que muitos trabalhos não conseguiram replicar (Ranehill et al., 2015), mostro como até um estudo controverso pode se tornar uma ferramenta valiosa para uma prática psicológica bem informada, exercida em contextos naturais, no mundo real.
Como quem observa está sempre dentro do sistema, dentro do campo de observação, e não pode escapar dele, surge uma questão crucial: de que maneiras podemos incorporar essa perspectiva a nossos métodos de pesquisa de forma construtiva? Com esse fim, este artigo conclui discutindo a importância do ecletismo metodológico, da consciência e do letramento epistemológicos, da flexibilidade na pesquisa e da diversidade metodológica, como formas de enriquecer e fazer avançar ainda mais a prática da pesquisa em psicologia.
Em 2005, John Ioannidis, em seu artigo marcante intitulado Why Most Published Research Findings Are False (por que a maioria dos achados de pesquisa publicados é falsa), examinou criticamente a confiabilidade da pesquisa científica, com foco no campo da biomedicina. Do mesmo modo, tentou-se replicar 100 estudos experimentais e correlacionais para avaliar a reprodutibilidade dos achados de pesquisa em psicologia. Apenas cerca de 36% dos estudos replicados produziram resultados estatisticamente significativos semelhantes aos originais, com tamanhos de efeito que tinham, em média, a metade da magnitude (Open Science Collaboration, 2015).
Ioannidis (2005) argumentou que uma proporção significativa dos achados de pesquisa publicados não se replicava devido a uma combinação de fatores metodológicos e de práticas acadêmicas difundidas, como a dependência excessiva dos valores de p e o viés de replicação. E hoje há uma literatura cada vez maior sobre o fenômeno da flexibilidade oculta, como o p-hacking, em que equipes de pesquisa na prática manipulam os dados até obter resultados significativos, por exemplo um valor de p logo abaixo do limiar convencional de 0,05 (Chambers, 2017; Ioannidis, 2005).
Essa manipulação envolve com frequência múltiplas análises não relatadas, delineamentos de pesquisa com baixo poder estatístico ou o ajuste de parâmetros do estudo, como excluir seletivamente valores discrepantes, escolher covariáveis específicas ou interromper a coleta de dados em momentos convenientes para alcançar o resultado desejado (Chambers, 2017; Head et al., 2015; Ioannidis, 2005; Munafò et al., 2017; Simmons et al., 2011; Wicherts et al., 2016). Embora essas práticas possam não ser abertamente fraudulentas e muitas vezes ocorram com boas intenções ou por desconhecimento, elas ainda assim criam uma literatura científica distorcida, cheia de achados pouco confiáveis (Chambers, 2017).
Boa parte da literatura aponta que os desafios da reprodutibilidade são frequentemente sistêmicos e culturalmente enraizados nas pressões que as equipes de pesquisa enfrentam para publicar em revistas prestigiosas, obter financiamento e avançar na carreira, o famoso dogma do “publicar ou perecer” (Chambers, 2017; Munafò et al., 2017). Acredita-se que reformas como o pré-registro, os dados abertos e as iniciativas de transparência melhorem a reprodutibilidade e a credibilidade da ciência psicológica (Chambers, 2017; Munafò et al., 2017; Simmons et al., 2011). No entanto, a crise de replicação está profundamente enraizada em questões tanto metodológicas quanto epistemológicas sobre a natureza da investigação científica (Earp & Trafimow, 2015; Park, 2020), que merecem mais discussão e consideração cuidadosa.
A reprodutibilidade é considerada um princípio fundador da metodologia científica em ciências clássicas como a física ou a química, nas quais os experimentos devem poder ser repetidos nas mesmas condições, produzindo resultados idênticos repetidas vezes, independentemente de quem conduz o experimento (Atmanspacher & Jahn, 2003). Esse paradigma de pesquisa positivista tornou-se dominante na psicologia e em muitas outras disciplinas sociais durante o século XX, numa tentativa de se distanciar da filosofia e adquirir o status e o prestígio das ciências clássicas (Dafermos, 2014, 2021). Na psicologia, a noção de reprodutibilidade se apoia na hipótese de que os fenômenos psicológicos são generalizáveis entre diferentes contextos e épocas. A falha em replicar é então interpretada, em geral, como um problema dos achados originais, e não como resultado de diferenças de contexto.
No entanto, dada a complexidade do comportamento humano e as numerosas variáveis que podem influenciar os resultados experimentais, muitas vezes é difícil, na prática, determinar se a falha em replicar resulta de diferenças metodológicas, do acaso ou de fatores não reconhecidos e não considerados (Earp & Trafimow, 2015). Flis (2019) critica a resposta estreita dada à crise de replicação na psicologia, que reduz o problema a um conjunto de falhas psicológicas de cada pessoa que pesquisa, negligenciando a complexidade de como a ciência, enquanto sistema cultural, produz e legitima conhecimento. Os experimentos e suas replicações são moldados por pressupostos conceituais e materiais que, em muitos casos, tornam impossível uma replicação exata (Feest, 2019). Diferenças nas populações amostradas, nos contextos culturais e pequenas variações metodológicas podem afetar significativamente a possibilidade de replicar achados. A reprodutibilidade pode ser inalcançável quando as pessoas participantes sabem que o experimento está sendo repetido (algo muitas vezes inevitável, pois essas pessoas estão inseridas em uma paisagem cultural em constante mudança), alterando assim as próprias condições ao criar um efeito de laço: “Uma compreensão causal, se conhecida pelas pessoas que ela pretende compreender, pode mudar seu caráter, pode mudar o tipo de pessoas que elas são. Isso pode levar a uma mudança na própria compreensão causal.” (Hacking, 1996, p. 351). Esses desafios são particularmente problemáticos na psicologia e nas ciências do comportamento, em que a natureza subjetiva e mutável das pessoas participantes complica ainda mais a reprodutibilidade dos experimentos (Atmanspacher & Jahn, 2003). Portanto, embora a replicação seja essencial no paradigma de pesquisa positivista (sobretudo nos estudos quantitativos), ela deve ser abordada com consciência epistêmica das limitações e complexidades inerentes à pesquisa em psicologia. Teo (2020) critica a abordagem “hipercientífica” da psicologia, na qual a disciplina infla artificialmente seu rigor metodológico para mascarar a falta de um fundamento nas ciências naturais. Neste artigo, defendo uma mudança epistemológica para abordar a questão das falhas de replicação de uma forma nova, mais enativa e mais habilitadora.
A cibernética surgiu nos anos 1940 como um campo transdisciplinar voltado ao estudo da comunicação e do controle tanto nos sistemas vivos quanto nas máquinas (Scott, 2004). O termo foi cunhado por Norbert Wiener, inspirado na palavra grega Κυβερνήτης (Wiener, 1948/2019). As Conferências Macy sobre cibernética, realizadas entre 1946 e 1953, tiveram papel decisivo na constituição do campo (Umpleby, 2016). A cibernética dá ênfase particular ao conceito de laço de retroalimentação: todo resultado retroage sobre sua causa. Todo processo deveria, portanto, ser compreendido como circular. Essa ideia pode parecer bastante simples, mas suas implicações são dramáticas, sobretudo quando combinada ao conceito de sistema. Um sistema pode ser definido de modo amplo como um conjunto de partes interdependentes e inter-relacionadas, com propriedades emergentes diferentes das de seus componentes individuais (Kauffman, 1996). Com isso, o modo linear tradicional de interpretar os fenômenos foi posto em questão.
A teoria cibernética tradicional, hoje chamada de cibernética de primeira ordem, concentra-se principalmente nos sistemas observados, isto é, em como os sistemas funcionam, mantêm a estabilidade e atingem objetivos por meio de mecanismos e laços de retroalimentação, tal como percebidos por uma instância de observação independente. Heinz von Foerster foi uma figura-chave no desenvolvimento da cibernética de segunda ordem, que ele definia brevemente como a cibernética da cibernética (Scott, 2004; Von Foerster, 2003). A cibernética de segunda ordem introduziu o conceito de circularidade da observação, na qual quem observa deixa de estar separado ou isolado do sistema e passa a ser considerado parte ativa do laço. Essa inclusão de quem observa altera fundamentalmente a natureza da observação, que se torna um processo autorreferente. Quem observa retroage sobre o sistema, e o sistema, por sua vez, retroage sobre quem observa, criando uma espécie de causalidade transacional. Em outras palavras, a cibernética de segunda ordem exige que consideremos como nossas observações e ações influenciam os próprios sistemas que estudamos. Essa mudança tem implicações profundas para a metodologia científica, que vão além do campo da cibernética e da ciência dos sistemas (Umpleby, 2016).
Com a cibernética de segunda ordem, Von Foerster questionou a metodologia científica tradicional, que exigia separar quem observa do que é observado para garantir a objetividade. Ele argumentava que esse princípio não só é falho como é impossível de cumprir, pois ignora a influência transacional inerente de quem observa sobre o sistema observado (Von Foerster, 2003). A negação dessa influência, sugeria ele, tem raiz no medo dos paradoxos inevitáveis que surgem quando se reconhece quem observa como parte ativa do sistema que observa:
O que hoje nos parece mais natural ver e pensar não era, então, apenas difícil de ver, mas nem sequer podia ser pensado. Por quê? Porque violaria o princípio básico do discurso científico, que exige a separação entre o observador e o observado. É o princípio da objetividade. As propriedades do observador não devem entrar na descrição de suas observações. (Von Foerster, 2003, p. 287)
Na causalidade linear tradicional, a relação entre causa e efeito é vista como unidirecional: uma única causa leva a um único efeito. A causalidade transacional, em contrapartida, reconhece que a causalidade é recíproca e envolve interações simultâneas entre os elementos de um sistema. É essa mudança que Gergen mais tarde descreveu como a passagem da influência para a confluência (Gergen, 2009). O conceito de causalidade transacional é maravilhosamente ilustrado na famosa litografia de M. C. Escher, Drawing Hands (mãos desenhando), em que cada mão parece desenhar a outra no exato momento em que é trazida à existência pela outra. A causalidade transacional remonta às teorias de Heráclito e Crátilo:
Heráclito afirmava que ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque em cada tentativa seria uma pessoa diferente em um rio diferente. Crátilo, discípulo de Heráclito, levou a ideia mais longe: não se pode entrar no mesmo rio nem uma única vez, pois tanto a pessoa quanto o rio mudam pelo próprio ato de entrar. (Brailas, 2024, p. 510)
A causalidade transacional implica que todas as pessoas que participam de um estudo (incluindo a equipe de pesquisa), bem como seu contexto cultural e histórico, estão em um processo de determinação recíproca simultânea: “Chamamos essa abordagem de ‘transacional’ porque ela favorece a livre transação multilateral de todas as pessoas que dela participam. […] A abordagem é ao mesmo tempo analítica e inter-relacional, pois entendemos que uma não pode se desenvolver plenamente sem a outra.” (Vassiliou, 1968, p. 65) As observações sempre retornarão a quem observa, formando um laço fechado de interdependência, e o sistema como um todo não pode ser plenamente compreendido sem reconhecer o papel de quem observa na construção de sua realidade (Archibald Wheeler, 1977).
Se quem observa faz parte do sistema que observa, como poderíamos falar em replicação? Não é apenas porque as pessoas que participam de um estudo seriam diferentes. A replicação é impossível em princípio dentro de uma epistemologia da cibernética de segunda ordem porque as equipes de pesquisa diferem intrinsecamente: têm intenções diferentes. A equipe do estudo experimental inicial pode acreditar em uma ideia e buscar provar que sua hipótese está correta. A equipe do estudo de replicação pode, por outro lado, duvidar da hipótese original e buscar refutá-la. No primeiro caso, ganha-se reconhecimento provando que algo está certo; no segundo, ganha-se reconhecimento provando que algo está errado. Como aponta Sexton (1997), “a perspectiva de quem observa e o objeto de observação são inseparáveis; a natureza do sentido é relativa; os fenômenos dependem do contexto; e o processo de conhecimento e compreensão é social, indutivo, hermenêutico e qualitativo.” (p. 8).
E quanto aos delineamentos de pesquisa duplo-cegos? Eles não garantem a objetividade ao separar quem observa do que é observado? Só até certo ponto. Quem observa é sempre parte do sistema e observa as demais partes. As menores mudanças ou perturbações em uma parte do sistema podem levar, a longo prazo, a resultados complexos e imprevisíveis (o efeito borboleta) (Mitchell, 2009). Quando passamos das ciências clássicas às ciências sociais, a viabilidade de realizar experimentos reprodutíveis se torna muito mais incerta (Atmanspacher & Jahn, 2003). Essa incerteza surge porque, nos estudos que envolvem o comportamento humano, tanto as pessoas participantes quanto as equipes de pesquisa podem saber que o experimento está sendo replicado. Essa autoconsciência, ou reflexividade, altera fundamentalmente as condições originais em que o experimento foi conduzido. Saber que se faz parte de um estudo de replicação, junto com o conhecimento dos resultados anteriores, pode influenciar as respostas das pessoas participantes, modificando assim variáveis-chave e alterando o ambiente experimental. Com isso, recriar as condições exatas do experimento original torna-se impossível, o que torna uma verdadeira replicação difícil, se não impossível, nesses campos. A reflexividade dos sujeitos humanos introduz uma variabilidade inerente que compromete a possibilidade de obter condições idênticas em estudos replicados (Atmanspacher & Jahn, 2003).
A reprodutibilidade nas ciências sociais exige abordagens muito mais sofisticadas do que as usadas habitualmente nas ciências físicas tradicionais. Precisamos desenvolver modelos de investigação psicológica que deem conta dessa interdependência complexa entre os seres humanos e o mundo material (Atmanspacher & Jahn, 2003; Von Foerster, 2003). Esses modelos deveriam estar mais bem equipados para lidar com a complexidade inerente desses sistemas e oferecer formas mais complexas de julgar sua validade.
Consideremos agora o caso a seguir, o de um estudo controverso cuja história se desenrolou em paralelo à crise de replicação na psicologia. Em seguida, tentarei oferecer uma perspectiva epistemológica alternativa sobre esse caso pelas lentes da cibernética de segunda ordem.
Em seu controverso estudo experimental, Carney et al. (2010) investigaram como a adoção, por apenas dois minutos, de posturas não verbais de alto ou de baixo poder poderia influenciar estados fisiológicos e psicológicos. Seus achados sugeriam que breves mudanças de postura poderiam produzir alterações hormonais e comportamentais mensuráveis, reforçando a ideia de uma corporificação do poder e suas possíveis implicações na vida real.
Com base nesses achados, uma das autoras do estudo, Amy Cuddy, fez uma palestra TED intitulada Your body language may shape who you are (sua linguagem corporal pode moldar quem você é). A palestra logo viralizou, com milhões de visualizações no mundo todo. Sua fala enfatizava as implicações práticas das poses de poder e inspirava as pessoas a usar a linguagem corporal para construir confiança e resiliência no dia a dia. No entanto, quando a crise de replicação na psicologia eclodiu nos anos 2010, esse estudo se tornou um ponto de discórdia (Dominus, 2017).
Ranehill et al. (2015) realizaram uma replicação conceitual do estudo de Carney et al. sobre as poses de poder, com uma amostra significativamente maior, de 200 pessoas, e um delineamento de pesquisa mais rigoroso. Embora o estudo tenha confirmado que as poses de poder aumentavam significativamente a sensação de poder relatada pelas próprias pessoas, não encontrou efeitos significativos sobre os níveis hormonais nem sobre o comportamento de assumir riscos, o que levantou questões sobre a integridade do estudo original.
Logo se desencadeou uma “guerra científica”, envolvendo muitas figuras metodológicas que impulsionavam o movimento da crise de replicação, com muitas acusações de “terrorismo metodológico”, assédio científico ou más práticas de pesquisa feitas pelos dois lados (Dominus, 2017; Gelman & Fung, 2016). Numerosos estudos empíricos e metodológicos surgiram sobre o tema, alguns confirmando parcialmente a teoria das poses de poder e outros refutando-a (Loncar, 2021). Em meio à controvérsia, Carney, que assinava em primeiro lugar o estudo original, acabou renunciando à teoria das poses de poder1, enquanto Cuddy continuou a defendê-la, citando uma literatura crescente sobre o tema (Cuddy et al., 2018).
Na física quântica, o famoso gato de Schrödinger, fechado em uma caixa, não está nem vivo nem morto, mas existe em uma superposição de estados até que alguém abra a caixa. Nesse momento, o gato colapsa em um de dois estados distintos, vivo ou morto, uma condição binária de sim/não. Da mesma forma, no antigo oráculo da Pítia, a frase enigmática “Irás, voltarás nunca na guerra morrerás” não tem sentido definido até que alguém decida onde colocar a vírgula.
A hipótese das poses de poder surgiu e coevoluiu com a crescente consciência da crise de reprodutibilidade na psicologia. Loncar (2021) oferece uma visão geral concisa das evidências empíricas sobre o tema. Mas a questão permanece: fazer ou não fazer as poses de poder? Essa só é uma pergunta válida dentro de uma epistemologia da cibernética de primeira ordem, na qual existe uma instância de observação objetiva e uma resposta de sim ou não deve ser dada por meio de investigação científica rigorosa. A crise de replicação e o movimento metodológico que se seguiu sem dúvida melhoraram as práticas científicas, por exemplo ao promover a ciência aberta, o pré-registro de estudos e o reconhecimento da importância de publicar replicações. As revistas também passaram a aceitar resultados negativos com mais facilidade. O uso de ferramentas metodológicas como metanálises e diagramas de curva p se ampliou, e as equipes de pesquisa desenvolveram maior letramento metodológico, com conceitos como o p-hacking tornando-se bem compreendidos. No entanto, a epistemologia por trás da metodologia é uma parte central da investigação científica, e é nela que deveríamos concentrar a atenção.
Então, devemos fazer as poses de poder ou não? Sem negligenciar a necessidade de práticas científicas sólidas e robustas, dentro de uma epistemologia da cibernética de segunda ordem, a resposta não precisa ser um sim ou um não binário. Ela pode existir em uma superposição de estados, dependendo de quem observa e das partes envolvidas. As poses de poder podem funcionar ou não, conforme a situação específica. Na cibernética de primeira ordem, a pesquisa é considerada uma observação objetiva da realidade. Na cibernética de segunda ordem, quem pesquisa participa ativamente, é um catalisador no desdobramento da realidade que inevitavelmente facilita transformações (Cabell & Valsiner, 2014). Os processos psicológicos se desdobram no tempo de uma forma intrinsecamente ligada aos parâmetros contextuais específicos e aos objetivos voltados para o futuro das partes envolvidas, bem como do todo que elas cocriam com suas sinergias (Agazarian, 1992; Valsiner, 2017). O antigo oráculo poderia responder à pergunta sugerindo uma superposição de desfechos: Farás a pose de poder, te elevarás nunca no mundo perecerás.
Cada fenômeno psicológico, inserido em seu contexto social e histórico singular, exige abordagens metodológicas sob medida (Valsiner, 2017). Reconhecer quem observa como parte integrante do sistema significa que essa pessoa carrega uma responsabilidade maior por suas ações. Essa constatação levou ao famoso imperativo ético de von Foerster: “Age sempre de modo a aumentar o número de escolhas” (Von Foerster, 1984, p. 60). Situar quem observa dentro do sistema observado implica que o sentido é construído de forma colaborativa, e não imposto unilateralmente. Nesse sentido, a investigação científica se torna uma prática de criação de compreensão compartilhada e de ampliação do espaço de interação mútua, duas atividades profundamente éticas.
Uma pessoa que trabalha com sistemas humanos e tem experiência na facilitação de projetos de pesquisa-ação poderia decidir utilizar as poses de poder em uma intervenção comunitária, ao lado de outras ferramentas de fortalecimento das pessoas. Essa pessoa testaria na prática se as poses de poder se mostram significativas e benéficas em sua ação situada. Aderindo a uma epistemologia do sim ou não, limitada pela reprodutibilidade, você não precisa decidir nada, não precisa assumir a responsabilidade de desenvolver um plano de ação sob medida. Você não pode assumir a responsabilidade de influenciar seu futuro por meio de suas ações. Por que não pode? “Simplesmente porque as questões decidíveis já estão decididas pela escolha do marco em que são formuladas… no fim, chegamos, depois de uma longa sequência de passos lógicos coercitivos, a uma resposta irrefutável: um ‘sim’ definitivo ou um ‘não’ definitivo.” (Von Foerster, 2003, p. 293).
Von Foerster (2003) argumentava que a liberdade de escolher vem acompanhada da responsabilidade de tomar decisões que ampliem, em vez de limitar, as escolhas oferecidas. Aderindo a uma epistemologia da cibernética de segunda ordem, ao se considerar parte do sistema que observa, do sistema com o qual quer trabalhar, você precisa assumir a responsabilidade e agir de modo a aumentar o número de escolhas. Isso é bom ou ruim? “Com essa liberdade de escolha, somos agora responsáveis pela escolha que fazemos. Para algumas pessoas, essa liberdade de escolha é uma dádiva do céu. Para outras, essa responsabilidade é um fardo insuportável.” (Von Foerster, 2003, p. 293) Se a teoria das poses de poder é válida ou não é, não tenho responsabilidade alguma, não preciso decidir, não preciso agir. Mas, se a teoria das poses de poder existe em uma “superposição de validade”, então tenho a responsabilidade de decidir, de agir de modo a aumentar o número de escolhas oferecidas às pessoas, e também a mim.
A crise de replicação implica que a prática psicológica se apoia em pés de barro? Não necessariamente. O imperativo do movimento da crise de replicação era que, se a metodologia não é sólida, então não se pode confiar em todo o alicerce da psicologia como disciplina. Essa é apenas uma leitura da história. O pressuposto subjacente é que profissionais da psicologia lerão um estudo publicado, tomarão os resultados como dados e tentarão aplicá-los exatamente da mesma forma em sua prática. Mas será mesmo assim? Na psicologia, não estamos lidando com átomos ou moléculas. Mesmo que os resultados de um experimento psicológico fossem 100% confiáveis em um contexto controlado específico, como se esperaria que se aplicassem a um contexto diferente e natural? Na melhor das hipóteses, os resultados de um experimento de psicologia social podem oferecer uma pista ou uma ideia a experimentar, e isso pode ou não ser um problema, dependendo da sua epistemologia.
Wu (2023) usou modelos de simulação para estudar comunidades científicas que percorrem paisagens epistêmicas, nas quais as soluções variam em qualidade e o objetivo é encontrar o máximo global (a melhor solução). Wu comparou duas estratégias: a estratégia do melhor, que consiste em adotar a melhor solução conhecida, e a estratégia do mais bem, que consiste em adotar qualquer melhoria em relação à solução do momento. O achado central é que as comunidades que usam a estratégia do mais bem superam, com o tempo, as que usam a estratégia do melhor. Isso porque a estratégia do mais bem promove práticas diversas e uma exploração prolongada, reduzindo o risco de se fixar prematuramente em soluções subótimas. Em outras palavras, é “a diferença que faz a diferença” (Bateson, 1971, p. 5), e é a diversidade (epistêmica) que garante a resiliência (científica) (Capra & Luisi, 2014). Embora as metodologias normativas rígidas adotadas em resposta à crise de reprodutibilidade visem a conter o desvio negativo, elas correm ao mesmo tempo o risco de sufocar o desvio positivo, essencial para a evolução e o sucesso da ciência (Phaf, 2024).
Mas voltemos à nossa pergunta norteadora: fazer ou não fazer as poses de poder? Como decidir qual resposta é melhor? Isso nos leva ao “postulado metafísico” de Von Foerster (2003): “Somente as questões que são, em princípio, indecidíveis, nós podemos decidir.” (p. 293) Para von Foerster, só as questões indecidíveis oferecem verdadeira liberdade de escolha. As questões decidíveis são restringidas pelo marco e pelas regras em que são formuladas, o que leva a respostas específicas e inescapáveis. Em contrapartida, as questões indecidíveis, livres dessas restrições, nos deixam a liberdade de decidir quem nos tornamos. Ao aumentar o número de escolhas, ampliamos as possibilidades de construir e encenar realidades mais ricas e variadas (Von Foerster, 1984). Portanto, a pergunta deveria ser formulada de outro modo, de uma forma que nos obrigue a decidir, por exemplo: por que, quando e como fazer as poses de poder?
Von Foerster criticava o modo como estruturas sociais, como as hierarquias epistêmicas e o positivismo metodológico, são com frequência usadas para evitar a responsabilidade. Ele identificava essas estruturas como mecanismos para desviar a responsabilização, transferindo o poder de decisão para sistemas abstratos e “algoritmos” científicos, em vez de atribuí-lo a indivíduos que carregam a responsabilidade. Esse desvio, argumentava ele, mina o imperativo ético de agir com responsabilidade e limita a liberdade de escolha central em seu marco ético (Von Foerster, 2003). Na cibernética de primeira ordem (com uma instância de observação supostamente objetiva que observa os fenômenos), a responsabilidade reside exclusivamente nos métodos e ferramentas científicos, como os valores de p ou os algoritmos opacos de inteligência artificial, uma espécie de “escrituras sagradas da ciência” modernas. O papel do ser humano que pesquisa ou observa passa a ser apenas o de aplicar esses métodos com rigor e consistência, mantendo uma distância “segura” do que é observado para evitar interferências (por exemplo, a ideia dos ensaios clínicos randomizados duplo-cegos). Para Von Foerster (2003), a objetividade é um artifício para evitar a responsabilidade, pois “a objetividade exige que as propriedades do observador sejam deixadas de fora de qualquer descrição de suas observações. […] o observador é reduzido a uma máquina copiadora, e a noção de responsabilidade é habilmente escamoteada.” (p. 293).
O imperativo estético, “Se desejas ver, aprende a agir” (Von Foerster, 1984, p. 61), enfatiza o papel ativo de quem observa na construção de sua percepção. Esse princípio sugere que nossa capacidade de perceber beleza ou sentido no mundo depende de nossas ações e atitudes. Em outras palavras, a percepção não é uma experiência passiva, mas um engajamento ativo com o mundo (Von Foerster, 1984).
A passagem da exociência (observar de fora) para a endociência (observar de dentro) abre novas oportunidades na pesquisa científica (Umpleby, 2016). A ênfase no papel ativo de quem observa incentiva a comunidade de pesquisa a ter mais consciência de sua influência sobre o processo de pesquisa e, em consequência, de seu impacto sobre as pessoas estudadas. Se quem pesquisa é inevitavelmente parte do sistema que observa, então todo processo de pesquisa se torna um projeto de pesquisa-ação interativo, participativo e sensível ao contexto, tal como entendido no paradigma da pesquisa qualitativa.
O conceito de confluência, tal como definido por Gergen (2009), ressoa com os princípios da cibernética de segunda ordem e oferece uma lente provocadora para repensar a crise de replicação na psicologia. A cibernética de segunda ordem questiona a noção de uma instância de observação objetiva e distanciada, enfatizando a natureza participativa da observação, já que quem observa é intrinsecamente parte do sistema que estuda. Do mesmo modo, a teoria da confluência rejeita uma visão da causalidade delimitada e isolada, sugerindo que as ações e os sentidos humanos emergem de modo relacional, moldados por interações dinâmicas. A crise de replicação, frequentemente enquadrada como uma falha de métodos ou de rigor, pode ser reinterpretada por essa lente como sintoma de rigidez epistemológica. Os fundamentos positivistas da psicologia se apoiam fortemente em modelos causais replicáveis que simplificam demais a complexidade do comportamento humano, negligenciando a natureza contextual e relacional dos fenômenos psicológicos: “Assim, tratamos os atos de agressão, altruísmo e preconceito como efeitos e buscamos um conjunto independente de condições que os produza. Na prática, definimos o indivíduo como fundamentalmente separado do mundo ao seu redor, sozinho e sujeito às suas vicissitudes.” (Gergen, 2009, p. 51).
Uma mudança em direção à confluência e à cibernética de segunda ordem convida a comunidade de pesquisa a considerar as dinâmicas relacionais e a coação, a fim de promover práticas de pesquisa que acolham a complexidade e a variabilidade contextual. Ao incorporar epistemologias relacionais, a pesquisa psicológica pode ampliar sua relevância para aplicações no mundo real: “Se desejamos gerar futuros mais promissores, o grande desafio é criar colaborativamente novas condições de confluência. Como podemos recorrer a nossas histórias relacionais de modo que resultem confluências novas e mais promissoras?” (Gergen, 2009, p. 58).
A crise de replicação na psicologia reflete questões mais profundas do que a mera possibilidade de métodos falhos ou de práticas antiéticas. Um estudo da psicologia humana que isola os métodos das teorias e dos pressupostos pode levar à simplificação excessiva e à má interpretação da complexidade dos fenômenos psicológicos (Valsiner, 2017). Enfrentar a crise de replicação exige reconhecer a sensibilidade ao contexto dos sujeitos psicológicos e combinar reformas metodológicas rigorosas com uma compreensão teórica mais profunda (Feest, 2024). Talvez seja esse o caminho da psicologia experimental à prática psicológica aplicada.
Em um marco de ecletismo metodológico, dialogar com alternativas e pontos de vista contrastantes, buscando integrá-los na ação, pode ser muito benéfico (Parsons, 2015). Profissionais da psicologia precisam ser capazes de realizar estudos cientificamente sólidos, de acordo com os avanços e padrões metodológicos mais recentes. Precisam também ter letramento metodológico suficiente para avaliar estudos realizados dentro de uma epistemologia da cibernética de primeira ordem (uma instância de observação objetiva que examina um sistema a distância). Quem atua na psicologia com sistemas humanos também precisa ser capaz de acolher a complexidade que se desdobra no aqui e agora de um sistema vivo, acompanhar seu processo e aplicar seus conhecimentos, ajustando o tempo todo práticas e ações à situação em evolução, em imersão nela e como parte constitutiva dela.
Essa abordagem flexível, situada e orientada para o processo, tanto da pesquisa quanto da prática, também foi adotada pelas abordagens abdutivas da produção de conhecimento (Brinkmann, 2014; Salvatore, 2014). Aqui, o processo de abdução conecta a situação à investigação e a quem pesquisa, de modo muito semelhante aos laços de retroalimentação da teoria cibernética (Wiener, 1948/2019). Como os fenômenos psicológicos não preexistem à observação, mas emergem de intra-ações específicas com quem pesquisa (Sandle et al., 2024), profissionais da psicologia precisam “participar da vida de outras pessoas para compreendê-las” (Brinkmann, 2024, p. 15). No entanto, a maneira como as equipes de pesquisa se envolvem com as pessoas participantes durante o processo de pesquisa importa. Esse envolvimento deveria ser enquadrado em uma ética de parceria, como um ofício relacional, o que significa que, “em vez de apenas aplicar princípios abstratos e regras de procedimento, as equipes de pesquisa recorrem a julgamentos contínuos e flexíveis e a respostas criativas diante dos desafios complexos que surgem nas situações de pesquisa.” (Wertz et al., 2011, p. 354).
Na era da desinformação (Weatherall & O’Connor, 2024) em que vivemos, na qual a ciência é constantemente desafiada pela pseudociência, por crenças mágicas e por teorias da conspiração, precisamos de métodos e práticas científicos robustos e sólidos, em contínua autocorreção e evolução (Sikorski & Andreoletti, 2023), dentro de um marco de cibernética de primeira ordem. No entanto, não deveríamos varrer para debaixo do tapete os pressupostos epistemológicos inevitáveis que fazemos ao longo do processo. Pelo contrário, os pressupostos epistemológicos deveriam sempre ser tornados visíveis e discutidos com uma atitude aberta: “se não vejo que sou cego, sou cego; mas se vejo que sou cego, vejo” (Von Foerster, 1984, p. 43). As metodologias normativas atuais, com seu foco no pré-registro e no rigor estatístico, operam sob uma concepção linear da ciência, que pressupõe uma instância de observação objetiva que observa todo o processo (Phaf, 2024). Mas a crise de replicação não é apenas um problema estatístico; é uma questão mais ampla, que exige um trabalho filosófico e epistemológico de bastidores significativo para garantir a confiabilidade e o progresso da ciência (Gervais, 2021; Malich & Rehmann-Sutter, 2022; Romero, 2019). Essa abordagem tornará o método científico mais confiável e mais útil para indivíduos e comunidades.
Do livro seminal de Feyerabend (1975), Against the method (Contra o método), ao movimento de reforma metodológica da psicologia experimental e ao debate científico e à crise que dele resultaram (Derksen & Field, 2022), há uma grande distância epistemológica. Uma comunidade científica que permanece aberta a perspectivas e informações mais diversas ganha uma vantagem epistêmica (Wu, 2023). Essa diversidade permite à comunidade de pesquisa explorar um leque mais amplo de teorias possíveis (Gervais, 2021). Uma ciência bem-sucedida exige espaço para ideias desviantes que desafiem as normas estabelecidas, pois, historicamente, inovações científicas revolucionárias muitas vezes nasceram de hipóteses não convencionais que a princípio pareciam implausíveis (Phaf, 2024). No entanto, diversidade demais, ou a exploração prolongada de teorias inferiores, pode ser prejudicial e atrasar progressos científicos decisivos, sobretudo na prática clínica (Wu & O’Connor, 2023). Como a comunidade científica pode encontrar o equilíbrio entre os dois? É aqui que surge a necessidade de uma superposição epistemológica, para evitar uma resposta binária. Phaf (2024) defende uma concepção evolutiva da ciência, na qual teorias concorrentes podem coexistir e evoluir por tentativa e erro. Precisamos deixar para trás um ecossistema científico tóxico (Gervais, 2021) e caminhar para uma cultura metodológica habilitadora. Não precisamos temer as diferenças epistemológicas; precisamos, antes, aprender com elas.
Complexe Systémique: a reter
Para quem pratica a terapia sistêmica, este texto é uma volta às fontes: von Foerster, Bateson, a circularidade e o Athenian Institute of Anthropos, onde o casal Vassiliou já falava de abordagem “transacional”. Sua contribuição clínica é simples e exigente: um estudo publicado nunca é uma receita, mas uma pista a ser posta à prova em uma situação da qual quem atende faz parte e pela qual responde. O imperativo ético, aumentar o número de escolhas, pode servir de bússola tanto na sessão quanto na supervisão. A leitura crítica continua necessária: a “superposição de validade” pode deslizar para um relativismo que justificaria técnicas pouco fundamentadas, o exemplo das poses de poder é frágil e o ensaio não propõe um dispositivo metodológico concreto. O próprio texto lembra que a ciência precisa de métodos robustos de primeira ordem. Todo o desafio é sustentar os dois níveis ao mesmo tempo. Para ler junto com a apresentação da cibernética de primeira e de segunda ordem e com a mobilidade epistêmica na intervenção complexa.
Notas do original
1 Fonte: https://faculty.haas.berkeley.edu/dana_carney/pdf_My%20position%20on%20power%20poses.pdf.
Agradecimentos. Quero expressar minha profunda gratidão ao Athenian Institute of Anthropos (AIA), renomado centro de terapia de grupo e de família na Grécia. Foi durante minha formação em psicoterapia no AIA que conheci a epistemologia da cibernética de segunda ordem, e devo grande parte deste trabalho à equipe docente do instituto.
Financiamento. Financiamento do acesso aberto fornecido pela HEAL-Link Grécia.
Conflitos de interesse. A pessoa que assina o artigo não tem interesses financeiros ou não financeiros relevantes a declarar.
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Tradução não oficial em português de Crise de replicação na psicologia, cibernética de segunda ordem e causalidade transacional: da psicologia experimental à prática psicológica aplicada, de Alexios Brailas, Integrative Psychological and Behavioral Science, vol. 59, no 1 (2025), doi: 10.1007/s12124-024-09867-3, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Replication Crisis in Psychology, Second-Order Cybernetics, and Transactional Causality: from Experimental Psychology to Applied Psychological Practice”, publicado em Integrative Psychological and Behavioral Science (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Brailas, A. (2025). Crise de replicação na psicologia, cibernética de segunda ordem e causalidade transacional: da psicologia experimental à prática psicológica aplicada (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/crise-de-replicacao-na-psicologia-cibernetica-de-segunda-ordem-e-causalidade-transacional (Obra original publicada em 2025 em Integrative Psychological and Behavioral Science, 59(1), 14 (2025); republicada em 2025 por Integrative Psychological and Behavioral Science, https://link.springer.com/article/10.1007/s12124-024-09867-3)
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