Clinical Social Work Journal · Migração
Em 2018, a política de “tolerância zero” separou na fronteira dos Estados Unidos milhares de famílias centro-americanas que pediam asilo. Partindo da própria história migratória e de sua prática, Cheryl Aguilar lê com Kohut o golpe desferido no self dos pais por um governo que pune em vez de proteger, e descreve grupos em espanhol nos quais gemelaridade, espelhamento e idealização restauram aos poucos um self parental coeso.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Luchando Junt@s Por Una Familia Unida (Lutando em conjunto por uma família unida): reconstruir o self coeso de pais e mães migrantes e a cura comunitária após uma separação familiar nos Estados Unidos – uma perspectiva da psicologia do self, de Cheryl Aguilar, publicado na Clinical Social Work Journal (Springer) (2025), doi: 10.1007/s10615-024-00923-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As citações em espanhol foram mantidas, seguidas da tradução; as quatro notas de rodapé e as declarações do final do artigo (agradecimentos, conflitos de interesse) foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Naquele momento, seus sentimentos precisavam de ressonância, não de soluções.
Cheryl Aguilar
Resumo
A política de “tolerância zero” implementada pelo governo Trump resultou na separação de milhares de famílias centro-americanas que buscavam asilo na fronteira sul dos Estados Unidos. Essa política teve um impacto devastador na saúde mental dos pais e de seus filhos. Embora a maior parte da literatura sobre a separação familiar forçada ligada à imigração e sobre a reunificação se concentre nas reações traumáticas das crianças, é fundamental ampliar a literatura para incluir o impacto sobre os pais, que podem ajudar a atenuar as consequências negativas de eventos adversos e do estresse traumático sobre seus filhos. Quando os pais não recebem intervenções de cuidado adequadas e culturalmente sensíveis, sua angústia e suas necessidades emocionais podem comprometer sua capacidade de apoiar os filhos de forma eficaz. Pela lente da psicologia do self, este artigo teórico lança luz sobre as experiências psicológicas de pais centro-americanos que passaram por uma separação familiar forçada. Ele também contribui para a teoria da psicologia do self e para sua integração no trabalho em grupo com pessoas centro-americanas. O artigo se apoia na literatura, na minha experiência clínica com pessoas imigrantes e refugiadas e no meu trabalho com famílias centro-americanas solicitantes de asilo afetadas pela política migratória de “tolerância zero” para sustentar que a psicologia do self oferece uma lente para compreender o impacto da falha empática do governo sobre os pais na entrada nos Estados Unidos, falha que desferiu um golpe no self coeso desses pais. O self coeso dos pais pode ser restaurado com experiências coletivas suficientes de gemelaridade, espelhamento e idealização, que, na psicologia do self, são necessidades psicológicas primordiais a serem atendidas para construir e manter um self forte.
Palavras-chave: pessoas imigrantes e refugiadas; saúde mental de pessoas imigrantes; separação e reunificação familiar ligadas à imigração; América Central; solicitação de asilo; intervenções em grupo com pessoas imigrantes; psicologia do self e grupos
“Todo mundo fala do sonho americano, mas ninguém fala do pesadelo americano.” Uma pessoa solicitante de asilo.
No fim de 2021, 89,3 milhões de pessoas estavam deslocadas à força no mundo (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, 2023). A América Central é uma região com uma longa história de padrões de migração forçada e, nas duas últimas décadas, milhões de pessoas centro-americanas migraram para os Estados Unidos para escapar da violência, da corrupção dos governos, da perseguição, de desastres naturais, da pandemia de covid-19, da pobreza extrema e de outros desafios sociopolíticos e ambientais (Babich e Batalova, 2021), sozinhas, com a família ou em caravanas (Rechitsky e Hoekstra, 2020; Kenix e Lopez, 2021). O aumento da imigração, sobretudo pela fronteira entre os Estados Unidos e o México, foi recebido com políticas de controle duras e opressivas, como a política migratória de “tolerância zero” implementada pelo governo Trump em 2018 (Refugees International, 2018), que resultou na separação forçada e dilacerante de famílias solicitantes de asilo recém-chegadas (Olivares, 2019). As separações infligiram um profundo trauma emocional e graves repercussões na saúde mental, e negaram às famílias direitos humanos fundamentais, incluindo o devido processo legal (Baker e Timm, 2020).
A separação entre crianças e pais é uma parte sombria da história americana. Essa prática atingiu milhares de crianças escravizadas e indígenas, separadas à força dos pais pelo governo dos Estados Unidos, causando imenso trauma e dor às suas famílias (Burrison, 2007; Curtin, 2017; Williams, 2018). Séculos depois, a política de tolerância zero é um dos exemplos mais recentes de uma política racista e xenófoba concebida para separar famílias, apesar das evidências dos danos psicológicos traumáticos que causaria (Hampton et al., 2021). Analisar o impacto da política de tolerância zero é crucial: como medida governamental contemporânea, ela literal e psicologicamente despedaçou famílias e infligiu estresse traumático e danos duradouros aos vínculos de apego. As separações familiares forçadas impostas por essa política foram consideradas tortura, crime contra a humanidade (Arreaga, 2022) e trauma sistêmico1 (Domínguez, 2022).
Sob a política de tolerância zero, as pessoas flagradas atravessando a fronteira entre o México e os Estados Unidos como imigrantes não autorizadas2 são processadas criminalmente, em vez de responder a acusações civis ou administrativas (Famulari, 2020). Quando Jeff Sessions, então procurador-geral, apresentou a política, anunciou que ela provavelmente resultaria na separação de crianças de seus pais para que estes pudessem ser processados (Olivares, 2019). Em consequência, pais e mães imigrantes, sobretudo da América Central, tiveram os filhos retirados ao chegar ou foram deportados, enquanto as crianças eram enviadas para diversas instalações, inclusive centros de detenção e de acolhimento, em todo o país, por longos períodos (American Civil Liberties Union, 2019). A política de tolerância zero levou à separação de mais de 5.000 famílias imigrantes (Bruzzone, 2021) sem nenhum plano de reunificação (Olivares, 2019). A maioria das famílias vinha da Guatemala, de Honduras e de El Salvador, e a maioria das crianças era de meninos entre 5 e 17 anos (American Civil Liberties Union, 2019). Em abril de 2023, quase 1.000 famílias ainda não tinham sido reunificadas (Department of Homeland Security, 2023).
Os efeitos da política de tolerância zero serão sentidos por muitos anos. Está documentado que as separações ligadas à imigração podem ter consequências duradouras para a saúde mental, como sintomas traumáticos, ansiedade, depressão e transtornos de comportamento (Delgado et al., 2021). Há também a possibilidade de trauma intergeracional. A separação entre uma criança e um dos pais tem consequências de ruptura do apego que podem interferir na relação da criança com quem cuida dela e com outras pessoas até bem avançada a vida adulta (Cohen e Mannarino, 2019). A separação familiar também afeta negativamente os pais e está associada a uma prevalência maior de transtorno de estresse pós-traumático e de transtorno depressivo maior entre as pessoas cuidadoras que tiveram os filhos retirados à força (Bruzzone, 2021).
As dificuldades parentais que se seguem à separação e à reunificação ligadas à imigração continuam pouco exploradas na literatura. Intervenções de serviço e medidas políticas oportunas, eficazes e culturalmente sensíveis para apoiar pais e mães centro-americanos exigem sintonia com suas experiências psicológicas. A pesquisa mostrou que os pais podem atenuar as consequências negativas de eventos adversos e do estresse traumático sobre os filhos. Segundo Williamson et al. (2018), a resposta parental aos sintomas traumáticos desempenha um papel importante para apoiar ou dificultar o ajustamento psicológico; no entanto, sem o apoio adequado, a angústia e as necessidades emocionais dos pais podem comprometer sua capacidade de apoiar os filhos de forma eficaz.
Este artigo teórico examina os desafios psicológicos enfrentados pelos pais afetados pela política de tolerância zero depois de uma entrada traumatizante nos Estados Unidos. As experiências desses pais são explicadas pela lente da psicologia do self, uma teoria psicodinâmica que também servirá de marco para uma intervenção em grupo culturalmente informada. A psicologia do self é uma teoria e uma abordagem psicanalíticas para compreender o desenvolvimento humano e o funcionamento psicológico. Foi desenvolvida por Heinz Kohut, psicanalista de destaque, em meados do século XX. A psicologia do self se concentra na formação e no desenvolvimento do self, enfatizando a importância da sintonia empática (Kohut, 1971). A psicologia do self é uma teoria adequada para trabalhar com pessoas solicitantes de asilo porque permite compreender o impacto do ambiente externo sobre a psique e porque foi estendida ao trabalho em grupo.
Neste artigo, sustento que a psicologia do self oferece uma lente para compreender o impacto da falha empática do governo sobre os pais na entrada nos Estados Unidos, falha que desferiu um golpe em seu self coeso, isto é, em seu senso de integridade e de continuidade da identidade. Proponho teoricamente que o self coeso de um pai ou de uma mãe pode ser restaurado com experiências coletivas suficientes de gemelaridade, espelhamento e idealização, que, na psicologia do self, são necessidades psicológicas primordiais para construir e manter um self forte. Começo o artigo esboçando brevemente o contexto da imigração a partir da América Central e discutindo o impacto psicossocial da imigração, da migração forçada, da separação familiar e da reunificação. Em seguida, resumo conceitos-chave da psicologia do self e exploro como quem facilita um grupo, os membros do grupo e o próprio grupo podem atender às necessidades psicológicas do pai ou da mãe afetados. Por fim, desenvolvo o conceito de internalização transmutadora, isto é, a internalização de uma experiência, e proponho que o grupo como um todo, uma vez internalizado, pode cumprir uma função crucial de enfrentamento. Um caso composto, extraído da minha prática individual e em grupo com pais e mães centro-americanos, será usado para ilustrar as proposições teóricas.
Como pessoa imigrante vinda de Honduras, abordo este tema com a experiência vivida de uma separação e de uma reunificação familiar ligadas à imigração, experiência que não é exclusiva minha nem do caso composto que apresento neste artigo. Muitas trajetórias migratórias incluem membros da família que migram separadamente e se reencontram mais tarde; no entanto, as experiências de separação variam conforme as circunstâncias da separação e da reunificação. Minha familiaridade com a questão orienta minha curiosidade clínica para explorar, compreender e apoiar famílias imigrantes cujas situações de separação e reunificação levam à luta e ao sofrimento, mas também à esperança e à determinação.
Historicamente, a imigração da América Central para os Estados Unidos resulta de uma interação multifacetada de fatores de expulsão e de atração3 profundamente enraizados em contextos socioeconômicos, políticos e históricos (Rosenblum e Brick, 2011) e está profundamente entrelaçada com o contexto histórico da intervenção dos Estados Unidos na região (Organista, 2023; Zayas, 2023). Nas duas últimas décadas, as populações centro-americanas continuaram a enfrentar condições de vida difíceis, marcadas por uma crise sociopolítica persistente que envolve a violência crescente das gangues, a pobreza extrema, a falta de oportunidades educacionais e a corrupção e a instabilidade dos governos, o que impulsiona as famílias a buscar proteção e melhores oportunidades em outros lugares (Gerschutz-Bell, 2022; Meyer e Taft-Morales, 2019) e levou a um aumento dos pedidos de asilo nos Estados Unidos (Edyburn e Meek, 2021). Numerosos trabalhos acadêmicos foram publicados sobre os fatores fundamentais que contribuem para a prevalência da desigualdade e da violência na América Central, entre eles o legado duradouro do colonialismo e o impacto das políticas econômicas e comerciais exploratórias dos Estados Unidos, os desastres naturais, as mudanças climáticas e a má governança (Eckler, 2020; Edyburn e Meek, 2021; Main, 2020; Meyer e Taft-Morales, 2019). A intervenção dos Estados Unidos exerceu influência significativa sobre o panorama político, econômico e social de países como Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua. Notadamente, durante a guerra civil guatemalteca, de 1960 a 1996, o apoio dos Estados Unidos ao regime militar guatemalteco contribuiu para agravar a instabilidade e a violência, resultando em deslocamentos em grande escala e migração forçada (Rabe, 2012). Da mesma forma, em El Salvador e em Honduras, a intervenção dos Estados Unidos em conflitos internos e o apoio a regimes autoritários contribuíram para o deslocamento de centenas de milhares de pessoas (D’Haeseleer, 2017; LeoGrande, 1998; Montgomery, 1995). As consequências dessas intervenções históricas continuam a repercutir hoje, enquanto os países centro-americanos lidam com os legados duradouros da violência, da pobreza e da instabilidade política. Esses fatores levaram muitas pessoas e famílias a buscar refúgio e segurança econômica nos Estados Unidos, contribuindo para os desafios migratórios persistentes na fronteira entre os Estados Unidos e o México.
As pessoas migrantes que chegam à fronteira entre os Estados Unidos e o México, forçadas a deixar seus países de origem e fugindo de situações que ameaçam sua vida, muitas vezes preenchem as condições para o refúgio e precisam de proteção jurídica. Esse movimento migratório com um elemento de coerção, incluindo ameaças à vida e aos meios de subsistência decorrentes de causas naturais ou humanas, também é comumente chamado de migração forçada (Reed et al., 2016). As proteções jurídicas para pessoas refugiadas são reconhecidas desde 1951, quando a Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados estabeleceu que ninguém deve ser devolvido a um país onde corra perigo (Chin e Cortes, 2015; Hatton, 2020). No entanto, esses direitos são frequentemente violados e ameaçados por proibições de asilo impostas por governos.
A migração forçada da América Central reflete um fenômeno profundamente preocupante e complexo, impulsionado por fatores que se cruzam, como a violência persistente, o crime organizado e a instabilidade política, criando um ambiente em que a segurança fica gravemente comprometida. Um exemplo de migração forçada por convulsões ocorreu na década de 1980, quando mais de 300.000 pessoas afetadas pelas guerras civis regionais na América Central, principalmente de El Salvador, da Nicarágua e da Guatemala, fugiram de seus países. Entre as décadas de 1980 e 1990, a migração da América Central mais que triplicou (Babich e Batalova, 2021). Desde 2014, estima-se que 400.000 pessoas, com novas tendências de imigração de mulheres e crianças, migrem anualmente de El Salvador, da Guatemala e de Honduras (Cheatham e Roy, 2020). A escalada da violência nesses países, que estão entre os que têm as maiores taxas de homicídio do mundo, foi documentada como o motivo mais frequentemente associado à migração forçada (Roth et al., 2022).
Em outro exemplo de uma tendência violenta com implicações de trauma histórico e intergeracional (Cerdeña et al., 2021), algumas famílias centro-americanas afetadas pela política de tolerância zero fugiram de seus países depois de terem sido alvo da violência das gangues, por medo de perseguição contínua e para proteger os filhos de serem recrutados, estuprados ou mortos pelas gangues (Hampton et al., 2021). As perseguições cometidas pelas gangues violentas da região repetem a tirania das guerras civis passadas, quando crianças eram recrutadas como soldados para lutar na guerra civil de El Salvador (Courtney, 2010), o que levava famílias a fugir para proteger os filhos do recrutamento. Em um sistema de imigração norte-americano cuja reforma não avança, as famílias centro-americanas afetadas por essas condições contam com caminhos limitados para a cidadania norte-americana devido aos limites de vistos, à redução de vistos de trabalho e temporários e aos longos atrasos no processamento de vistos de imigração, que podem chegar a 20 anos. Esses obstáculos levam famílias em situação precária a pedir asilo nos Estados Unidos como uma das poucas opções legais para escapar de situações perigosas (Bier, 2022).
Uma extensa literatura se debruçou sobre o impacto psicológico da migração. Seja para fugir da violência, para se reunir com familiares ou para buscar oportunidades econômicas ou educacionais, a trajetória da imigração é feita de separação, mudança, adaptação, emoções, luto, ganhos e perdas, e da reelaboração da identidade e da narrativa de si (Akhtar, 1999; Falicov, 2011; Grinberg e Grinberg, 1989; Zayas, 2015). As pessoas solicitantes de asilo que fogem da violência e da perseguição enfrentam eventos traumáticos cumulativos e novos, vividos antes, durante e depois da trajetória migratória e no país de acolhida.
A extensão do impacto psicológico da imigração também está relacionada a vários fatores ligados às circunstâncias da migração, ao tipo de experiência migratória, à etapa do desenvolvimento em que a migração ocorreu, ao apoio disponível antes e depois da migração e ao fato de a pessoa ter chegado sem a família ou com familiares (Akhtar, 1999; Falicov, 2011; Lijtmaer, 2017; Tummala-Narra, 2019).
Diante de um contexto social, cultural e político desconhecido e diferente, migrar para um novo país pode provocar choque cultural (Lijtmaer, 2020). Akhtar (1999) afirma que essa experiência é agravada pelo clima político e social, pela acolhida oferecida pelo país de destino e pelas narrativas sobre imigrantes no país de acolhida, que interferem na forma como a pessoa imigrante se vê e em seu senso de self. Ao longo da história, as populações imigrantes se depararam constantemente com percepções negativas e estereótipos persistentes. Esses preconceitos têm consequências significativas: influenciam o tratamento dado às pessoas imigrantes, moldam as políticas de imigração e afetam profundamente seu bem-estar psicológico. As caracterizações desfavoráveis de pessoas imigrantes muitas vezes as retratam como ameaças à segurança, à identidade e ao tecido cultural do país de acolhida (Gonzales et al., 2019). Essas narrativas nocivas tendem a se intensificar, sobretudo quando a imigração vem de certas regiões geográficas, envolve pessoas racializadas ou é vista como não autorizada. Por exemplo, pessoas imigrantes da América Central e do México foram acusadas de ser criminosas, de portar doenças e de supostamente querer explorar as oportunidades econômicas dos Estados Unidos (Massey, 2020). A pesquisa indica que a proliferação de um ressentimento contra a população latinx e a ascensão do nacionalismo branco contribuem significativamente para a percepção das pessoas imigrantes como entidades criminosas (Baranauskas e Stowell, 2022). Esses preconceitos muitas vezes nascem de apreensões ligadas ao desconhecido e à competição econômica, e são exacerbados por tendências nativistas e sentimentos xenófobos. Essas representações, perpetuadas pelos meios de comunicação, pelo discurso político e pela opinião pública, contribuíram juntas para uma narrativa desumanizadora que corrói a autoestima das pessoas imigrantes e aumenta seu sentimento de marginalização (Morey, 2018). O custo psicológico é considerável, pois as pessoas imigrantes lutam com a vergonha internalizada, uma ansiedade maior e um senso de pertencimento diminuído.
As rupturas da identidade e da continuidade do self têm implicações importantes para o senso que a pessoa tem de suas próprias capacidades. Lijtmaer (2017) afirma que as pessoas solicitantes de asilo sofrem rejeição, suportam a desumanização e a vergonha, e experimentam desamparo, perda de dignidade, frustração e raiva quando são vistas como indesejadas. Ela sustenta que essas pessoas sofrem, ou logo sofrerão, de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) devido ao trauma psíquico, e sugere que esse ataque traumático muitas vezes leva à perda da coesão física e da continuidade do self.
Outros desafios enfrentados pelas pessoas migrantes são sentimentos conflitantes, como a culpa por deixar as pessoas queridas, o medo do futuro, a solidão e a tristeza, que podem predominar depois da migração, ao lado de experiências de alegria, de um maior senso de segurança e de esperança no futuro. Somam-se a esses sentimentos contraditórios o desejo de voltar a um lugar familiar (isto é, o país de origem) diante da rejeição ou da falta de pertencimento, e a perda e o luto ligados à impossibilidade de voltar ao próprio país sem pôr em risco o processo de solicitação de asilo ou depois de concedido o status de refugiado.
O impacto traumático sobre crianças retiradas à força de suas famílias está bem documentado na literatura (Monico et al., 2019). Embora esteja além do escopo deste trabalho revisar toda a história do impacto das separações familiares e da teoria do apego, é fundamental reconhecer as contribuições psicodinâmicas históricas para a compreensão do impacto da separação familiar forçada. Monico et al. (2019) resumiram as pesquisas realizadas no Reino Unido pelo psicólogo John Bowlby, que se preocupava com as crianças que o governo britânico havia afastado dos perigos dos bombardeios de Londres na Segunda Guerra Mundial, enviando-as para a segurança do campo. Bowlby, que desenvolveu a teoria do apego entre pais e filhos, estudou crianças que viveram essas evacuações. Ele observou que as crianças submetidas a separações prolongadas das pessoas que cuidavam principalmente delas apresentavam os níveis de trauma mais acentuados. Suas observações o levaram a concluir que as crianças que haviam estabelecido um apego emocional profundo e um senso de confiança com os adultos de sua vida lidavam melhor com a situação. Ele concluiu que as separações dos pais levavam a uma perturbação do apego com quem cuidava da criança, a dificuldades de apego mais tarde na vida e à delinquência juvenil. Embora o impacto da separação sobre as crianças tenha sido bem documentado por essa literatura inicial, os efeitos sobre os pais foram pouco estudados.
A separação dos pais ou das pessoas que cuidam principalmente da criança está documentada como um dos estressores traumáticos mais graves que uma criança pode viver, com um impacto severo sobre o apego, sobretudo quando a separação ocorre em circunstâncias súbitas, caóticas, assustadoras e prolongadas (The National Child Traumatic Stress Network, 2022). Esse tipo de separação aumenta o risco de as crianças desenvolverem depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático relacionado à separação, condições cujo impacto também foi documentado nos pais (de la Peña et al., 2019). A literatura e as evidências clínicas sugerem que mães expostas a trauma respondem menos à angústia dos filhos, o que leva a um desengajamento diante dessa angústia (Kim et al., 2014). Além disso, o trauma parental pode afetar diretamente o bem-estar psicológico dos filhos. Em um estudo sobre a transmissão do trauma em famílias refugiadas, Dalgaard et al. (2016) constataram que a história traumática dos pais e os sintomas de TEPT decorrentes dela podem influenciar negativamente os filhos e levar ao desenvolvimento de sofrimento psicológico neles. Além disso, a separação familiar forçada no contexto da detenção foi diretamente correlacionada a desfechos de saúde mental como depressão, sintomas de TEPT e qualidade de vida psicológica (de la Peña et al., 2019).
As expectativas das pessoas solicitantes de asilo em relação à sua transição migratória muitas vezes se chocam com uma realidade muito diferente da que imaginavam. Como me disse certa vez uma pessoa que eu atendia e que tinha solicitado asilo: “Todo mundo fala do sonho americano, mas ninguém fala do pesadelo americano.” Sob a política de tolerância zero, as famílias em busca de segurança viveram o governo dos Estados Unidos como hostil e punitivo, um governo que as considerava “más” e as tratava como criminosas. Em forte contraste, os pais e as mães centro-americanos com quem trabalhei consideram sua decisão de pedir asilo um ato de bravura e de sacrifício pelo bem-estar dos filhos. Mesmo apegados à convicção de que migrar foi um ato de coragem, muitos desses pais lutam, ao mesmo tempo, com a internalização de alguns dos estereótipos negativos predominantes.
Na minha prática clínica individual e em grupo, observei nas pessoas adultas pelo menos dois estados afetivos iniciais decorrentes da separação e da reunificação familiar: ansiedade e depressão, seguidas da ativação de sintomas traumáticos. A ansiedade está ligada ao que os pais sentiram durante a separação, enquanto estavam detidos, e a depressão, ao que sentem depois da reunificação com os filhos. Experiências traumáticas passadas se reativam no período de reunificação, quando os pais lidam com as razões pelas quais fugiram e com seus sentimentos de culpa, autoacusação e raiva. Essas últimas emoções são amplificadas pelo impacto da separação familiar sobre os filhos e pelas censuras dos filhos aos pais. As experiências afetivas dos pais são complicadas pela regressão a estados mais arcaicos, pela perda permanente das capacidades de se acalmar e de se confortar e por um sentimento de desamparo intolerável. Esses estados psicológicos são agravados pelos obstáculos constantes que os pais enfrentam para atender às necessidades básicas de moradia, emprego, serviços jurídicos e de saúde, pela pressão adicional das limitações de seu status migratório e pela exposição à discriminação e ao racismo.
Pais e mães separados dos filhos, como Silvia, relataram uma angústia intensa devido à falta de informações sobre o paradeiro das crianças, o que levava a preocupações constantes com o bem-estar delas e a confusão sobre o processo de separação e de detenção. “Estaba desesperada” (“Eu estava desesperada”), lembrou Silvia. Ela migrou de Honduras no início de 2018 com as duas filhas e o filho, que tinham entre 5 e 14 anos. Ela tinha sido vítima de vários estupros em diferentes períodos da vida, o último em 2016. O agressor ameaçou fazer mais mal a ela e aos filhos quando saísse da prisão, e as ameaças continuaram por vários meses depois de sua prisão e se intensificaram pouco antes de sua soltura. Pessoas desconhecidas iam à casa de Silvia para avisá-la: “Ten cuidado, algo va a pasar, el va a buscar revancha” (“Cuidado, alguma coisa vai acontecer. Ele vai querer vingança.”). Os temores de Silvia de sofrer mais violência eram fundados. Honduras tem as maiores taxas de feminicídio da América Latina (Grupo das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, 2021), e Silvia tinha ouvido falar de várias pessoas de sua comunidade que tinham desaparecido sem deixar rastro.
Aterrorizada com o que o agressor poderia fazer, Silvia fugiu com os filhos atravessando as fronteiras da Guatemala e do México, como outras pessoas em situações de ameaça semelhantes tinham feito antes. Ela tinha esperança de encontrar segurança e proteção nos Estados Unidos. Para seu desespero, e no que ela chama de seu pesadelo, no dia seguinte à travessia da fronteira, os filhos foram levados pelo governo e ela foi presa. “No hice nada malo. Nunca le he hecho nada malo a nadie y me trataron como una criminal. Lo único que quería hacer era protegerlos” (“Eu não fiz nada de errado. Nunca tinha feito mal a ninguém, e mesmo assim me trataram como uma criminosa. Tudo o que eu queria era protegê-los”). Silvia ainda se lembra vivamente da filha pequena chorando e estendendo os braços para ela quando alguém do serviço de imigração a levou.
Enquanto estava na detenção migratória, Silvia tinha dificuldade para dormir e, quando finalmente conseguia adormecer, tinha pesadelos com circunstâncias traumáticas do passado e com o futuro da família. Ela tinha ataques de pânico e dizia se sentir inquieta a maior parte do tempo. Contava que pensava no pior e temia nunca mais ver os filhos. Quando buscava apoio da equipe do centro de detenção e perguntava sobre o paradeiro dos filhos, a equipe agia com desinformação e descaso. Ela se sentia ridicularizada, incompreendida e sem ninguém a quem recorrer.
Silvia foi deportada depois de cinco meses de detenção, e os filhos foram entregues ao pai, que tinha migrado antes para os Estados Unidos. Cerca de três anos depois da deportação, no âmbito da Força-Tarefa do governo Biden para a Reunificação de Famílias (Olivares, 2023), Silvia se reencontrou com os filhos. Apesar da alegria inicial, Silvia sentiu que algo tinha mudado drasticamente. “Ya no me quieren. Se alejan de mí y ya no me escuchan. Es como que ya no existo” (“Eles não me amam mais. Eles me afastam e nem me escutam. É como se eu não existisse”), contou entre soluços. Essa desconexão dolorosa a levou a um estado depressivo profundo, com ideação suicida. Embora tivesse finalmente se reencontrado com os filhos, sentia-se mais sozinha do que quando estavam separados. Durante os anos de afastamento, os filhos de Silvia tinham crescido muito, passado a dominar o inglês e desenvolvido outros gostos de comida, roupa e passatempos. Também tinham criado um vínculo forte com o pai, que se tornou para eles uma fonte de apoio e orientação, e Silvia sentia que não conseguia se identificar com eles. Mais doloroso, porém, era o sentimento de Silvia de ser rejeitada pelos filhos. Essa rejeição está ligada aos sintomas traumáticos das crianças, que as levaram a se perceber como abandonadas. Elas se perguntavam o que tinha acontecido, por que a mãe não estivera lá para elas e se tinha lutado para recuperá-las. Para Silvia, isso era difícil de enfrentar porque, apesar dos esforços repetidos para explicar às filhas que não tinha culpa pela separação, ela se sentia incompreendida e magoada com as reações delas. As antigas feridas da violência sexual começaram a se reabrir quando ela se lembrava das razões da fuga, mas não conseguia compartilhá-las por inteiro por causa da vergonha.
Alguns pais e filhos vivem a clássica lua de mel que se segue à reunificação. Esse período alegre é interrompido quando os estressores acumulados da separação e da reunificação se manifestam em problemas psicossociais (Lu et al., 2020). Pais e mães separados dos filhos pela política de tolerância zero relataram não conseguir mais se conectar com eles como antes, passaram a duvidar de suas decisões migratórias e sentiam uma tristeza profunda quando percebiam rejeição por parte dos filhos. Na reunificação, quando os pais têm dificuldade de se reconectar, perdem a esperança de que a situação melhore, o que leva a uma inadequação parental percebida e real. Os pais se veem diante de um dilema: tentar confortar os filhos sem entender com precisão o que está errado e, ao mesmo tempo, tentar explicar como a separação familiar aconteceu, o que pode reduzir sua capacidade de validar a dor dos filhos, porque estão ocupados com o próprio sofrimento. Muitas vezes, os pais se sentem sozinhos na dor, sem ninguém que possa compreendê-los. Depois da reunificação com os filhos, os pais descrevem sintomas de estresse traumático e caracterizam os filhos como mudados, desafiadores e distantes. A resposta traumática das crianças e sua expressão (comportamentos verbais e não verbais) de irritabilidade e raiva são interpretadas como sinal de que estão “malcriados” (mal-educados, rudes, levados). A capacidade dos pais de lidar com a nova situação afeta seu senso de competência. Na desesperança e no sentimento de rejeição, podem deixar de buscar a conexão com os filhos, por medo inconsciente, e às vezes consciente, da rejeição e pela frustração de ver que suas tentativas não funcionam. Silvia parou de tentar depois de alguns meses de tentativas de reconexão com os filhos, porque sentia que seus esforços eram inúteis, por mais que tentasse. Parou de abraçar e de beijar as filhas, que também pararam de tentar. Silvia se lembra de ter a sensação de viver entre pessoas estranhas. Quando se sentiu incapaz de exercer a parentalidade, sua autoestima se despedaçou, afetando outros aspectos da vida, inclusive a capacidade de fazer novas amizades, por vergonha e medo de ser julgada se soubessem de seus problemas familiares.
Embora Silvia muitas vezes se sentisse derrotada nas primeiras tentativas de se reconectar com os filhos, nos momentos de tristeza nunca deixou de rezar pedindo conforto, orientação e que a situação melhorasse. Lia a Bíblia todos os dias, dizendo: “Esto me alimenta el espíritu y me ayuda en momentos difíciles” (“Isso alimenta meu espírito e me ajuda nos momentos difíceis”). Também falava com a mãe, em Honduras, por vídeo, várias vezes por semana. Essas forças e ações ajudaram a atenuar a depressão de Silvia.
Ao oferecer terapia individual a pais e mães que viveram a separação familiar forçada, comecei a identificar temas que surgiam nessas sessões. Os pais expressavam confusão diante dos novos comportamentos dos filhos e tinham dificuldade de compreendê-los e acalmá-los enquanto lidavam com as próprias emoções ligadas à experiência de separação e reunificação. Várias perguntas centrais surgiram nas sessões individuais, entre elas: “¿Que hago para ayudar a mis hijos? ¿Cómo hago para que las cosas sean como antes? ¿Por qué no me entienden? ¿Por qué no me hacen caso y se alejan de mí?” (“O que eu faço para ajudar meus filhos? O que eu faço para as coisas voltarem a ser como antes? Por que eles não me entendem? Por que eles não me escutam mais? E por que estão distantes de mim?”).
Por trás dessas perguntas pairavam os efeitos da ruptura do apego, que aparecia como um afastamento mútuo entre filhos e pais. O impacto da ruptura do apego e a resposta traumática do governo, que puniu a necessidade de segurança, apoio e refúgio dos pais, levaram a uma queda da autoestima e a um senso de self parental frustrado. Os pais passaram a sentir que tinham falhado em suas tentativas de proteger os filhos e a duvidar da própria capacidade de administrar a situação em casa. Diante dos estressores esmagadores de ser recém-imigrante e de lidar com os efeitos do trauma, os pais tinham acesso reduzido às próprias forças internas, qualidades e capacidade de sobreviver a situações precárias. Além de cuidar das dificuldades emocionais dos pais, vi a necessidade de oferecer psicoeducação sobre o impacto traumático das separações e seu impacto sobre o apego. Apesar de alguns progressos que eu via na terapia individual, a dimensão da dor dos pais parecia pedir uma resposta forte e coletiva de pessoas com experiências semelhantes (gemelaridade), também ávidas de compreensão e de espelhamento para sofrimentos, forças e objetivos que nunca tinham sido espelhados.
Tendo concebido e implementado vários grupos terapêuticos para pessoas imigrantes, como Emotions and Politics, um grupo em espanhol para imigrantes que viviam ansiedade diante do ambiente político, e tendo visto de perto o impacto positivo, para quem participava, de estar em comunidade com outras pessoas afetadas pela mesma questão, decidi criar um grupo terapêutico para pais e mães centro-americanos na minha prática comunitária de saúde mental. Os grupos duraram de 8 a 12 sessões semanais; são grupos fechados que se reúnem on-line pelo Zoom e são conduzidos em espanhol, minha língua materna e a língua materna e escolhida das pessoas participantes. São recrutados até 12 pais e mães para cada grupo. Os requisitos para participar são: (a) ter passado pela separação dos filhos, (b) ter se reencontrado com eles depois e (c) ter dificuldades de se reconectar com eles. Não era exigido ter feito terapia antes de entrar no grupo, mas algumas pessoas tinham feito terapia individual.
Sob o lema Conéctate, Aprende y Sana con Mi Familia Unida! (Conecte-se, aprenda e cure-se com minha família unida!), o grupo é apresentado aos pais como um espaço seguro para aprender estratégias para lidar com a transição da reunificação, com as emoções e com as experiências traumáticas decorrentes da separação familiar. As ideias de temas surgiram de assuntos observados nas sessões individuais e de assuntos sobre os quais os pais diziam querer aprender mais. As sessões incluíram os seguintes temas: apresentação do grupo e de seu propósito; a trajetória migratória como estressor; o que significa ser imigrante; psicoeducação sobre trauma; etapas do desenvolvimento infantil e trauma; o papel do apego no desenvolvimento infantil; estratégias para criar conexão e apego; linguagens do amor; estratégias de disciplina informadas pelo trauma; autocuidado parental; como se orientar na escola e nos recursos da comunidade; reflexões de encerramento. Cada sessão inclui três componentes terapêuticos: elaboração, psicoeducação e desenvolvimento de habilidades de enfrentamento.
Até agora, a maioria das pessoas participantes foi de mães entre 20 e 40 e poucos anos. Até hoje, conduzi três grupos terapêuticos para famílias centro-americanas, dois deles baseados nos princípios da psicologia do self.
Eu tinha uma lista de temas que, a meu ver, respondia às necessidades dos pais que eu via surgir nas sessões individuais; mas o grupo que conduzi na primavera de 2022 permitiu um olhar mais próximo e uma sintonia maior com a profundidade das feridas narcísicas4 dos pais. Diferentemente de outros grupos que eu tinha conduzido, em que a informação e a validação pareciam ter sido úteis para quem participava, essa metodologia baseada na informação não ressoava nesse novo grupo de pais e mães, que tinham tido os filhos violentamente arrancados pelo governo. A “psicoeducação” sobre os sintomas traumáticos dos filhos e sobre estratégias para ajudá-los a lidar com eles era difícil de aceitar quando os pais tinham as próprias decepções, a própria raiva e a própria perda para cuidar. Essa abordagem psicoeducativa pode ter infligido mais uma ferida. Também comecei a observar que as necessidades individuais ficavam em segundo plano diante das necessidades do grupo como um todo. Decidi então deixar de lado minha lista de temas e responder ao grupo à medida que os temas se desdobravam espontaneamente nas sessões, pela lente da psicologia do self, uma teoria em que eu estava me aprofundando. Os pais precisavam de conexão e de mais sintonia empática para se sentir vistos, ouvidos e compreendidos, antes das informações e das ferramentas. Naquele momento, seus sentimentos precisavam de ressonância, não de soluções. A ênfase da teoria na sintonia empática fez dessa nova orientação teórica uma escolha natural para os grupos.
Em A restauração do self, Heinz Kohut, pioneiro da psicologia do self, teoria que enfatiza o papel da empatia no desenvolvimento e na manutenção de um self coeso, afirmou que um bebê nasce poderoso graças a um meio de respostas empáticas (Kohut, 1977). Thomas Kohut, que ampliou o trabalho do pai na psicologia do self, enfatiza o papel do ambiente externo na formação da psique. Ele sustenta que o self é produto da internalização das respostas do ambiente (Kohut, 2023).
Kohut afirmava que o self em desenvolvimento de uma pessoa, ou o senso de “eu”, se forma por meio da sintonia empática de outras pessoas às suas necessidades emergentes (Harwood e Pines, 1998). Kohut e Wolf (1978) conceituaram ainda um self saudável como um self coeso, vibrante, criativo, amoroso, que experimenta vigor, harmonia interior e autoestima: um self que permanece estável mesmo diante de ameaças à identidade. O self coeso se desenvolve e se mantém por meio da sintonia empática com três polos em interação, aquilo que Kohut postulou como o self tripolar, cujas necessidades psíquicas são atendidas por outras pessoas e pelo ambiente, considerados selfobjetos (Kohut e Wolf, 1978). Essas necessidades são: o espelhamento da vitalidade, da grandeza, da perfeição e dos talentos; a idealização de outras pessoas vistas como fortes, tranquilizadoras e admiráveis; e as necessidades de gemelaridade, de encontrar semelhança e parceria com outras pessoas. Kohut via essas necessidades como necessidades narcísicas saudáveis, inerentes a todo ser humano, que se tornam patológicas quando a sintonia de outras pessoas com as necessidades de selfobjeto é insuficiente, o que leva a pessoa a permanecer excessivamente investida em si mesma (Kohut e Wolf, 1978).
Embora as experiências de selfobjeto sejam inicialmente proporcionadas pelos pais, por quem cuida da criança e por um ambiente de cuidado, as necessidades de selfobjeto são continuamente atendidas, satisfeitas e frustradas por outras pessoas e pelo ambiente externo ao longo de toda a vida. Na visão de Kohut, um selfobjeto cumpre uma função específica no atendimento das necessidades de alguém e representa a experiência que uma pessoa tem de outra, experiência que se torna parte do self e é tão vital quanto o oxigênio (Kohut, 1984). Ao sintetizar a definição de selfobjeto de Kohut, Melano Flanagan (2016) resume que os selfobjetos podem ser qualquer coisa do mundo externo que sirva de alimento psicológico, incluindo a cultura, a arte, a religião e a política. Harwood e Pines (1998) ampliaram esse conceito e observaram que noções de cultura, política, religião e circunstâncias históricas precisam ser consideradas como constitutivas do self individual.
Uma necessidade de selfobjeto crucial, a imago parental idealizada, ou função de selfobjeto idealizador, é internalizada pela criança por meio da internalização transmutadora: a incorporação da função que proporciona um senso de segurança, calma, competência e onipotência da figura idealizada, função que se torna uma capacidade própria da pessoa (Goldstein, 2001).
O acalento de uma mãe cumpre a função de confortar um bebê que chora e que se sente seguro e cuidado graças aos cuidados maternos. Esse sentimento de acalento e conforto é internalizado pelo bebê, que, com o tempo, aprende a se acalmar por conta própria. Na vida adulta, os selfobjetos podem assumir a forma de relações próximas, do trabalho, de passatempos e de atividades que proporcionam um senso de realização, conforto e valor próprio.
A posição firme da psicologia do self de conceber o desenvolvimento como um contínuo (Harwood, 1992) e a extensão que ela faz das figuras que influenciam a formação do self para além dos pais ou de quem cuida da criança, incluindo mentores, docentes, amizades, parentes ou a própria comunidade, ampliam as oportunidades de cada pessoa receber o espelhamento, a idealização de outras pessoas e a gemelaridade necessários, provisões que, nessa teoria, são um marcador de saúde e o centro do desenvolvimento psicológico. A interconexão entre o self e as experiências com outras pessoas e suas respostas torna esse senso de “nós” (we-ness) culturalmente aplicável ao trabalho com pessoas centro-americanas, que têm como valores culturais, entre outros, o familismo (importância da família e da comunidade) e o personalismo (importância das relações) (Añez et al., 2005), importantes fatores de proteção associados à boa saúde mental.
Kohut cunhou a expressão homem trágico para designar um self que reflete ambições não espelhadas, um self muito triste e sofrido (Goldstein, 2001). Na psicologia do self, os transtornos afetivos, como a ansiedade e a depressão vividas pelos pais centro-americanos, são vistos como resultado de um padrão de falhas empáticas em relação ao self tripolar. A falta de espelhamento dificulta o desenvolvimento de objetivos e ambições saudáveis. Necessidades de idealização não atendidas reduzem as oportunidades de fusão com uma outra pessoa tranquilizadora, forte e admirável e podem afetar a capacidade de se acalmar por conta própria, deixando a pessoa esgotada e vazia. A falta de gemelaridade pode levar a sentimentos de isolamento e solidão. Na psicologia do self, a ansiedade é vivida como angústia de desintegração, uma ameaça de dissolução ou de perda do self (Rowe e Mac Isaac, 2000). A falta de sintonia empática e de responsividade de outras pessoas leva a vulnerabilidades narcísicas, mobilizadas diante de decepção, rejeição, incompreensão, crítica, falta de reconhecimento, feridas traumáticas e outras falhas do ambiente (Melano Flanagan, 2016).
Kohut e Wolf (1978) formularam vários tipos de transferência ligados a necessidades de selfobjeto não atendidas, nas quais a pessoa projeta em outras pessoas suas emoções, expectativas e necessidades de desenvolvimento passadas. Na terapia, essas transferências de selfobjeto podem ajudar a reviver e a reparar necessidades precoces não atendidas de espelhamento, idealização e gemelaridade, por meio da sintonia empática e das respostas ótimas de quem conduz a terapia. Esse processo fortalece a estrutura do self da pessoa atendida e ocorre também em interações e relações fora da terapia. Além disso, Goldstein (2001) sustenta que as falhas empáticas de quem conduz a terapia causam rupturas na transferência e recomenda que terapeutas façam um autoexame para entender as razões de sua falta de sintonia com as pessoas atendidas, por exemplo examinando seus sentimentos contratransferenciais. Na psicologia do self, a contratransferência é entendida como as vulnerabilidades da pessoa terapeuta que decorrem de suas próprias necessidades de selfobjeto e são exacerbadas pelo trabalho com uma pessoa em particular.
Pais e pessoas cuidadoras que não conseguem atender às necessidades de selfobjeto dos filhos podem ter sofrido, ou estar sofrendo, de carências de selfobjeto, ou podem estar sob o efeito de estressores atuais que os obrigam a se voltar para dentro para atender às próprias necessidades narcísicas, o que torna difícil satisfazer as necessidades de outra pessoa ou se sintonizar com elas. Nos grupos de apoio, os membros podem transferir suas necessidades psicológicas frustradas para outros membros do grupo ou para a pessoa terapeuta, por meio de transferências.
Embora Kohut só tenha se dedicado ao trabalho em grupo no fim da vida, ele aludiu à influência do social em seus escritos e acabou chamando a atenção para o self grupal. Kohut tratou pela primeira vez do self grupal em 1976, no artigo “Creativeness, Charisma, and Group Psychology: Reflections on the Self-Analysis of Freud” (Karterud e Stone, 2003). Nesse texto seminal, Kohut afirmou que, quando as pessoas fazem parte de grupos, sua individualidade diminui para dar lugar a um self grupal, ou ao senso de self do grupo. Kohut teorizou que o self grupal representa as ambições e os ideais centrais do grupo e explica sua continuidade e coesão (Karterud e Stone, 2003).
Diversas pessoas terapeutas e acadêmicas que se apoiam na psicologia do self, entre elas Rosemary Segalla (2021) e Irene Harwood (1992), ampliaram os conceitos da psicologia do self para integrá-los ao trabalho terapêutico em grupo. A literatura sobre psicologia do self e grupos sugere que, na terapia de grupo, cada pessoa é vista como constituída a partir de uma rede de outras pessoas e extrai seu senso de identidade pessoal daquilo que os outros e o ambiente lhe oferecem (Harwood e Pines, 1998). Os membros do grupo se influenciam mutuamente, e suas necessidades, objetivos e desejos se interligam para se tornar as ambições e o senso de self do grupo. Schermer (2000), que também chama a atenção para a formação de um self grupal e enfatiza as necessidades coletivas que surgem no grupo, sustenta que, se o grupo tem um self, esse self tem um conjunto de funções destinadas a manter a coesão e a integração do self grupal, a favorecer a iniciativa do grupo e a definir a direção de seus objetivos.
O processo grupal é facilitado ativamente pela pessoa terapeuta do grupo, que, por meio de respostas transferenciais, atende às necessidades de selfobjeto das pessoas participantes. No entanto, diferentemente da terapia individual, as experiências e necessidades intrapsíquicas vão além das necessidades da pessoa e incluem a experiência intrapsíquica do grupo (Segalla, 1998). Reconhecendo as múltiplas necessidades de selfobjeto que surgem nos grupos terapêuticos, Segalla (2021) cunhou a expressão necessidades de objeto grupal (groupobject needs). As necessidades de objeto grupal também reconhecem as diferentes funções que sustentam a organização do self grupal (Segalla, 1998, citado em Karterud, 1998).
A força dos grupos está nas respostas e nas trocas transferenciais que os membros oferecem uns aos outros, naquilo que o grupo representa e na forma como o grupo pode ser internalizado como uma força positiva que se integra ao self, permitindo novos princípios organizadores. Minha hipótese teórica é que, para pais e mães centro-americanos, o grupo simboliza um coletivo do qual se podem extrair força e segurança, semelhante à la familia (a família), aos grupos e às comunidades a que pertenciam e aos quais recorriam em busca de apoio em seus países de origem.
Ao atender às necessidades de gemelaridade (semelhança), espelhamento e idealização, os grupos terapêuticos orientados pela psicologia do self oferecem oportunidades múltiplas e contínuas de interações reparadoras entre as pessoas participantes e quem conduz a terapia, e entre as próprias pessoas participantes, que ajudam a restaurar o self coeso ao mesmo tempo que fortalecem a comunidade. Nos grupos terapêuticos, o self grupal e as necessidades de objeto grupal têm precedência sobre o self e as necessidades individuais (Karterud, 1998). À medida que os objetos grupais se ativam, quem facilita e os membros do grupo atendem a essas necessidades por meio de respostas transferenciais. Como as necessidades de objeto grupal se ativam constantemente, a facilitação pode, sem querer, frustrar seu atendimento. Essas frustrações, porém, podem ser atenuadas pelos membros do grupo, e não só pela pessoa terapeuta. Embora a pessoa terapeuta do grupo deva permanecer atenta às múltiplas necessidades que surgem, a facilitação também cumpre outro papel: dar o exemplo de respostas empáticas, convidando assim, indiretamente, as pessoas participantes a responder umas às outras da mesma forma. Segalla (2021) afirmou que os membros do grupo internalizam gradualmente a capacidade de empatia ao longo da vida do grupo. Usando a analogia da regência de uma orquestra, Paparo (1984), citado em Paparo e Nebbiosi (1998), sugere que quem facilita o grupo (quem rege) “catalisa e mantém uma atmosfera que permite a mobilização e a elaboração das necessidades de selfobjeto” (p. 71).
A entrada traumática de Silvia nos Estados Unidos, a resposta agressiva de um governo ao qual ela tinha recorrido em busca de ajuda e a rejeição dos filhos como consequência da ruptura do apego levaram a uma vulnerabilidade narcísica que afetou seu senso de capacidade como mãe. Depois de alguns meses de terapia individual, Silvia decidiu entrar no meu grupo de apoio. A primeira sensação de Silvia de estar em um ambiente acolhedor surgiu quando outros membros do grupo começaram a falar dos pratos tradicionais de seus respectivos países, aqueles que se gostava de comer lá. Sua expressão não verbal e seu afeto sugeriam surpresa e conforto. As conversas sobre temas mais leves criaram um ambiente seguro e estável para mergulhar nas experiências traumáticas. Durante as sessões, ela observava em silêncio as outras pessoas narrarem suas experiências. A primeira menção da palavra “separação” desencadeou a dor e as lágrimas dos pais, e Silvia logo se identificou com a frustração, a tristeza e as preocupações de outros membros e começou a participar e a compartilhar suas experiências no grupo. “Pensé que yo era la única que se sentía así” (“Eu pensava que era a única que se sentia assim”). Togashi e Kottler (2015) afirmam que o trauma leva a uma profunda necessidade de semelhança. Embora parecesse tímida e cautelosa no início, Silvia, assim como outras pessoas do grupo, encontrou muita camaradagem nas experiências comuns como centro-americanas e no que tinham em comum, incluindo os motivos da fuga e a esperança no futuro.
Nesse grupo de apoio, reunir pessoas da mesma região geográfica, que tinham vivido experiências traumáticas semelhantes e também tinham aspirações semelhantes, gerou proximidade, pertencimento e um senso de identidade compartilhada. Em determinado momento das sessões, o self grupal começou a ganhar forma quando uma participante disse: “Somos fuertes” (“Somos fortes”), interligando suas forças às dos outros membros e às do grupo como um todo. Havia também elementos de gemelaridade entre as pessoas participantes e mim. Originárias, como eu, da América Central, de Honduras, falávamos a mesma língua, tínhamos grande prazer em encontrar na nossa região as comidas reconfortantes da América Central e sabíamos o que é deixar o próprio país e viver longe das pessoas queridas. Embora os grupos estivessem centrados nas experiências das pessoas participantes, minha conexão com elas como imigrante e minha própria experiência de separação familiar me forneceram sentimentos contratransferenciais valiosos, por meio dos quais eu podia acessar o sentimento de perda dessas pessoas. Às vezes, eu achava que sabia exatamente o que os membros do grupo sentiam e tinha pressa de oferecer validação. No entanto, o impulso que eu sentia no corpo de querer que as pessoas participantes soubessem imediatamente que eu compreendia suas experiências era também um sinal de que eu precisava fazer uma pausa e entender meus impulsos, nascidos da minha própria necessidade de demonstrar compreensão e mais empatia do que o governo. Reconhecer esses sentimentos contratransferenciais me permitiu deixar de lado meus próprios desejos e me sintonizar melhor com aquilo de que as pessoas participantes precisavam no momento.
Durante as sessões de grupo, Silvia começou a se sentir mais à vontade para compartilhar como era difícil se conectar com os filhos e o crescente sentimento de fracasso que isso lhe causava. Nas nossas sessões individuais, sua vergonha pela relação rompida era palpável.
Silvia muitas vezes cobria o rosto ao falar de como as coisas tinham sido difíceis com as filhas, mas no grupo falava com coragem, descobrindo o rosto e se deixando ver. As pessoas participantes logo se mobilizaram para confortar Silvia, contaram suas próprias tentativas fracassadas com os filhos e deram recomendações. Silvia viu sua dor refletida e aceita nas histórias das outras pessoas participantes. Mesmo quando não validavam diretamente sua experiência, a simples semelhança de suas narrativas oferecia um espelho em que Silvia podia se ver refletida. Ela não precisava mais se esconder. Talvez, na terapia individual, pela ativação da transferência, Silvia sentisse inconscientemente uma pressão vinda de mim para acertar, uma pressão que sentia também da mãe, que a consolava do outro lado das fronteiras pelo WhatsApp. Entre pares com a mesma experiência vivida, porém, a pressão por resultados parecia diminuir. As respostas empáticas das pessoas participantes às dificuldades de Silvia e a convicção delas de que ela poderia se reconectar com os filhos, como desejava, reavivaram seu senso de capacidade. Silvia voltava com entusiasmo semana após semana, compartilhando uma nova tentativa de reparar a relação com as filhas. “Ya vienen a donde mi para preguntarme consejos” (“Agora elas vêm me pedir conselhos”). Bacal (1985) e Stern (1985), citados em Jackson (1994), sugerem que as respostas empáticas atenuam o afeto doloroso e ajudam a recuperar estados coesos preexistentes.
Considerando que os selfobjetos podem ser qualquer coisa do mundo externo que sirva de alimento psicológico, incluindo a cultura, a arte, a religião e a política, por causa das expectativas que os pais imigrantes tinham quanto ao apoio que receberiam do governo dos Estados Unidos, esse sistema cumpriu a função de uma imago parental idealizada, mas falhou em suas funções de oferecer ajuda, conforto e segurança. Em vez disso, os pais centro-americanos sofreram a punição deplorável da separação familiar, do encarceramento e do abandono por parte de uma nação que interferiu nos assuntos de seus países, mas não soube responder com humanidade às necessidades crescentes das pessoas solicitantes de asilo. Para parte dos pais com quem trabalhei, o tratamento dado pelo governo dos Estados Unidos ativou uma transferência da experiência com um governo indiferente em seus países de origem, que não lhes ofereceu proteção. Jackson (1994) sugeriu que as falhas da imago parental idealizada levam a um self fraco e fragmentado e que, por meio da experiência vicária da vitalidade e da força do grupo, o self enfraquecido das pessoas participantes se fortalece. As pessoas participantes viveram o grupo como um todo como uma imago parental idealizada tranquilizadora, empática e validadora.
Embora seja essencial atender a todas as necessidades de selfobjeto, que proporcionam benefícios psicológicos específicos, sustento que, no trabalho em grupo com pais e mães solicitantes de asilo, as funções de força, segurança e calma oferecidas pela imago parental idealizada (quem facilita, as pessoas participantes, o grupo como um todo) são essenciais para propiciar a autorregulação e a reparação do self parental coeso. Quando essas funções passam por uma internalização transmutadora e se tornam parte do self (por exemplo: somos fortes, estamos em segurança), elas oferecem recursos internos e externos que esses pais podem mobilizar nos momentos de solidão, insegurança e necessidade de apoio. Durante uma sessão, uma das mães contou que pensou no grupo e nos membros quando sentiu medo de começar um novo emprego: “Pensé, todos estamos pasando por lo mismo. Si todas hemos podido llegar aquí y sobrepasar lo que hemos vivido, yo puedo hacer esto” (“Todos nós estamos passando pela mesma experiência. Se todas nós conseguimos chegar até aqui e superar o que vivemos, eu consigo fazer isso”). Essa participante conseguiu acessar a força do grupo e se conectar a ela como sua própria força. Lembrava-se das afirmações que os membros do grupo lhe tinham oferecido e que acabaram se tornando suas próprias afirmações. Ela conseguiu se fundir com a onipotência do grupo e, por fim, internalizar esse poder como seu.
Como recurso externo, os pais do último grupo que conduzi começaram a se encontrar fora do grupo, compartilhando recursos e dicas e desenvolvendo amizades. Paparo e Nebbiosi (1998) afirmam que, entre as experiências poderosas de estar em grupo, está a intensidade com que os grupos regulam os estados afetivos de seus membros. O self não espelhado de Silvia, que lembra o homem trágico de Kohut, ganhou ousadia e se encheu de esperança e de possibilidades graças às forças, às ambições e aos objetivos compartilhados do grupo. Hoje Silvia trabalha, frequenta aulas de inglês e uma igreja do bairro, onde fez algumas amizades, e continua com coragem suas tentativas de fortalecer os vínculos com os filhos rumo a uma família unida.
Com a demanda crescente por serviços de saúde mental culturalmente informados, a terapia de grupo pode preencher a lacuna de serviços e representar uma resposta culturalmente sensível, pois pode se alinhar a culturas interconectadas que priorizam os grupos, a família e os círculos de amizade. Os grupos de apoio terapêutico também oferecem um espaço para romper o ciclo de silêncio e de estigma que muitas vezes acompanha o trauma histórico (Ortega-Williams et al., 2021), permitindo que as pessoas enfrentem e elaborem sua dor coletivamente. Os grupos orientados pela psicologia do self, em particular, oferecem múltiplas oportunidades de reparação e podem promover um senso de comunidade e a internalização da força e dos benefícios de apoio de um coletivo. Essa internalização transmutadora da segurança e da força coletivas pode ser particularmente benéfica para pessoas imigrantes recém-chegadas, que podem viver o isolamento devido a experiências migratórias traumáticas e a uma acolhida frustrante no novo país. Os grupos orientados pela psicologia do self também estão em posição privilegiada para oferecer um cuidado informado pelo trauma, pois ambas as abordagens reconhecem a importância da segurança, da colaboração e da sintonia empática. O espelhamento grupal pode ser especialmente útil para trabalhar os sentimentos de vergonha e isolamento que muitas vezes acompanham o trauma, fortalecendo a conexão e promovendo um ambiente de apoio.
No trabalho com pessoas solicitantes de asilo com trauma prévio, é fundamental levar em conta não apenas as perdas e o estresse traumático associados à fuga do país de origem e à trajetória migratória; igualmente importante é reconhecer as repercussões das perdas e das expectativas frustradas na migração, somadas a novas experiências traumáticas. Isso inclui as interações com sistemas e entidades governamentais que podem ativar vulnerabilidades narcísicas e afetar o self coeso.
Conduzir uma terapia de grupo exige considerar a composição do grupo, seu tamanho e as experiências relevantes de seus membros. As pessoas participantes do último grupo de apoio que conduzi para pais e mães solicitantes de asilo estavam em diferentes etapas de seu percurso de cura e tinham graus variados de envolvimento com sistemas de apoio culturalmente enraizados, como as redes de igreja. Embora um acompanhamento terapêutico prévio e um certo tempo de permanência nos Estados Unidos não fossem requisitos para entrar no grupo, ter membros com experiências diversas, mas relevantes, enriqueceu a compreensão e a aprendizagem de todas as pessoas participantes. Mais especificamente, a presença de pessoas mais avançadas em seu percurso de cura ou mais integradas às novas comunidades fortaleceu o espelhamento e a dinâmica do grupo.
Na minha experiência de trabalho por vídeo com grupos grandes e pequenos de pessoas solicitantes de asilo com experiências traumáticas, os grupos menores, com uma média de 6 a 8 pessoas, permitiram um maior senso de segurança e mais compartilhamento e elaboração do que os grupos maiores. Portanto, os grupos menores podem oferecer mais oportunidades de sintonia empática com as necessidades de objeto grupal em curso e reduzir a frustração empática que pode surgir em grupos maiores. Ao facilitar sessões de grupo por vídeo, é essencial considerar as limitações e as possibilidades inerentes ao uso da tecnologia, sempre respeitando as diretrizes estabelecidas. Nos meus grupos, usei o chat do Zoom, o que permitia às pessoas participantes comunicar suas experiências por escrito quando tinham dificuldade de verbalizá-las. Essa abordagem recebeu retornos positivos, o que mostra o valor de oferecer diferentes vias de compartilhamento e de fortalecer o vínculo. É importante observar, porém, que nossas sessões por vídeo enfrentaram limitações, decorrentes sobretudo de problemas de conexão de membros do grupo. Essas interrupções às vezes prejudicavam a sintonia geral entre as pessoas participantes.
Embora este artigo tenha se concentrado principalmente nos desafios psicológicos enfrentados por pais e mães centro-americanos em relação à separação e à reunificação familiar, é essencial reconhecer que há outras complexidades a considerar na facilitação de grupos, como a dinâmica grupal. A dinâmica grupal abrange um conjunto de fatores, como padrões de comunicação, dinâmicas de poder, origens culturais e papéis individuais dentro do grupo. Esses elementos influenciam significativamente a forma como o grupo interage e avança.
Além disso, quem facilita grupos deve prestar atenção a possíveis conflitos, às necessidades individuais e à atmosfera geral do grupo. Criar um ambiente seguro e inclusivo, promover a participação ativa e favorecer uma comunicação eficaz são aspectos fundamentais para garantir uma experiência de grupo positiva.
Por fim, em consonância com uma abordagem baseada nas forças, as equipes de serviço social, terapeutas e demais profissionais de saúde mental que trabalham com famílias solicitantes de asilo devem integrar de forma proativa a avaliação das forças e incorporar esses atributos ao cerne de suas estratégias de intervenção. Apesar dos desafios e das barreiras internas e externas que as pessoas imigrantes enfrentam na busca de seus objetivos e sonhos, o processo migratório também é marcado pela esperança, pela determinação e pelas forças de quem o empreende, como ilustra o caso composto. Como observado anteriormente, as pessoas imigrantes muitas vezes deixam para trás ambientes familiares, redes de apoio e contextos culturais, embarcando em uma trajetória repleta de incertezas e adaptações. Seja motivada por aspirações econômicas, seja pela busca de segurança, a decisão de migrar exige uma coragem profunda. Esse otimismo e essa determinação muitas vezes permitem que as pessoas imigrantes se orientem em paisagens desconhecidas e contribuam de forma significativa para suas novas comunidades.
Desde o surgimento dos grupos terapêuticos na década de 1940, demonstrou-se que os grupos produzem resultados terapêuticos equivalentes aos da terapia individual (Yalom e Leszcz, 2020). No entanto, as instituições de ensino e de formação oferecem poucas oportunidades de aprendizagem do trabalho terapêutico em grupo. Com o aumento da demanda por serviços terapêuticos, as instituições de ensino precisam priorizar a formação em trabalho de grupo para preparar adequadamente psicoterapeutas. Além disso, a ampliação dos estudos psicodinâmicos nos programas de mestrado é fundamental para preparar melhor quem está em formação para mergulhar no complexo funcionamento inconsciente da mente e lidar de forma eficaz com as questões de transferência e contratransferência, inerentes a toda prática clínica e decisivas na exploração da dinâmica grupal no trabalho com pessoas imigrantes. As equipes de serviço social, terapeutas e demais profissionais de saúde mental com interesse em facilitar grupos também devem buscar supervisão ou consultoria, participar das formações existentes ou recorrer à extensa literatura sobre grupos em busca de orientação e conhecimento.
As pesquisas futuras sobre o impacto da separação familiar forçada devem explorar o impacto de longo prazo sobre o apego entre pais e filhos e o efeito dos estressores biopsicossociais externos sobre o processo de reconstrução desse apego. Embora este artigo tenha se concentrado nos aspectos traumáticos das experiências de separação familiar forçada e nas respostas dos pais em termos de saúde mental, as pesquisas futuras devem explorar as forças, a resiliência e o crescimento pós-traumático das famílias por meio de marcos como o do trauma histórico e do crescimento pós-traumático. Para continuar compreendendo as experiências das pessoas solicitantes de asilo e oferecendo apoio em grupo por uma lente psicodinâmica, explorações futuras podem incluir o exame da terapia de grupo pela teoria intersubjetiva da psicologia do self, para investigar a influência das subjetividades dos membros do grupo e da pessoa terapeuta do grupo na cocriação da experiência terapêutica e da cura.
A política de tolerância zero é uma das muitas políticas governamentais nocivas que prejudicam o bem-estar físico e psicológico das pessoas imigrantes. Dado o impacto considerável dos fatores sociopolíticos sobre a psique, é primordial que os serviços de saúde mental se mantenham atualizados sobre novas políticas de imigração que possam provocar uma resposta traumática. As políticas que prejudicam o direito das pessoas solicitantes de asilo de pedir asilo, como a separação familiar forçada ou a detenção de famílias, precisam ser enfrentadas e contestadas para atenuar seus efeitos nocivos sobre a saúde mental das pessoas imigrantes. Como comunidade de saúde mental, é essencial não apenas responder com serviços, mas também defender os direitos das pessoas solicitantes de asilo e engajar-se na análise crítica e no ativismo para contestar essas políticas e promover práticas de imigração mais humanas e justas.
Os pais e as mães centro-americanos solicitantes de asilo que tiveram os filhos separados deles pela política de tolerância zero sofreram uma dor e um sofrimento psíquico significativos, incluindo trauma, em consequência da separação forçada promovida pelo governo e da posterior reunificação com os filhos. É preciso dar mais atenção ao impacto da separação sobre os pais para tratar adequadamente suas cicatrizes psicológicas. Suas feridas profundas exigem intervenções que estejam em sintonia com suas referências culturais e sejam informadas pelo trauma, oferecendo validação, caminhos de elaboração e oportunidades de internalizar os aspectos positivos de um coletivo depois de uma acolhida traumatizante nos Estados Unidos. Reconhecer a ligação inerente das pessoas a grupos como a família e a comunidade, em que a identidade coletiva influencia a identidade pessoal, ressalta o potencial da terapia de grupo para pessoas solicitantes de asilo marcadas por experiências traumáticas que romperam a coesão de seu self.
Ao oferecer um ambiente seguro e acolhedor e a alquimia das narrativas compartilhadas, das conexões empáticas e da afirmação de uma experiência coletiva, os grupos terapêuticos orientados pela psicologia do self, em particular, podem facilitar a reconstrução de um senso de identidade e de pertencimento.
Além disso, a sinergia entre os princípios da psicologia do self e o enquadre da terapia de grupo ressoa profundamente com os desafios complexos que as pessoas solicitantes de asilo muitas vezes enfrentam. A ênfase da psicologia do self na empatia, no espelhamento, na gemelaridade, na idealização e na internalização transmutadora se alinha naturalmente com algumas das necessidades centrais de cura de pais e mães solicitantes de asilo. Para os pais centro-americanos que sofreram um golpe em seu self coeso, a internalização transmutadora do grupo de apoio pode simbolizar força e segurança semelhantes às de la familia (a família) ou de la comunidad (a comunidade), que representam valores culturais familiares.
As equipes de serviço social, terapeutas e demais profissionais de saúde mental com interesse em implementar grupos de psicologia do self podem se familiarizar com a extensa literatura sobre a psicologia do self e sua extensão aos grupos e buscar consultoria e supervisão quando necessário. Apoiar famílias solicitantes de asilo vai além de uma resposta clínica. Recomenda-se às equipes de serviço social, terapeutas e demais profissionais de saúde mental que se engajem no trabalho por justiça social para desmontar sistemas opressivos, defender políticas justas e informadas pelo trauma e mobilizar as comunidades.
Complexe Systémique: a reter
O artigo tem o mérito de colocar o Estado dentro do sistema: a separação forçada não é um simples acontecimento de vida, é uma decisão política que se imprime na relação entre pais e filhos, até na rejeição que Silvia lê nas filhas. A constatação clínica mais útil é talvez o fracasso da psicoeducação: explicar o trauma das crianças a pais e mães já feridos acrescentava mais uma ferida; era preciso primeiro ressonância, e foi o grupo, mais do que a pessoa terapeuta, que a ofereceu. Para a prática sistêmica, duas pistas: pensar o grupo como uma família ampliada substituta que devolve aos pais um senso de competência, e trabalhar a reunificação como uma recomposição de lugares e lealdades (o pai que já estava nos Estados Unidos, a língua, os novos gostos dos filhos), e não apenas como uma questão de apego. Limites: um caso composto, um olhar clínico único e engajado, nenhuma avaliação formal e crianças que não têm voz. Para ler junto com o artigo sobre Padres Ayudando a Padres, uma intervenção construída com pais e mães centro-americanos e com o artigo sobre migração, perda ambígua e rituais.
Notas do original
1 Domínguez (2022) descreve o trauma sistêmico infligido às pessoas solicitantes de asilo como tentativas orquestradas de causar dano a grupos específicos em diferentes contextos, instituições e administrações políticas.
2 A expressão “imigrante não autorizado”, também conhecida como “imigrante indocumentado”, designa uma pessoa que entra no país sem a documentação exigida pelas leis de imigração desse país (Capps et al., 2020).
3 Fatores de expulsão são condições ou circunstâncias do país de origem de uma pessoa que a incentivam a sair. Fatores de atração são condições de um país de destino que incentivam as pessoas a se mudar para lá (Rosenblum e Brick, 2011).
4 Na psicologia do self, as feridas narcísicas designam situações ou experiências que perturbam ou danificam o senso de valor próprio e a autoestima de uma pessoa (Kohut, 2013).
Agradecimentos. As famílias centro-americanas separadas pela política de tolerância zero despertam em mim uma imensa admiração. Apesar de um trauma e de uma dor imensos, essas famílias demonstram força, coragem, determinação, fé e esperança inabaláveis. Quero expressar minha gratidão às pessoas, colegas e mentoras, que me deram um apoio essencial durante a redação deste artigo. Um agradecimento especial a Ora Nakash, que orientou minha pesquisa, pela orientação excepcional, pelas ideias e pelo apoio incansável. Também agradeço à minha supervisora clínica, Dra. Lourdes Mattei, e à saudosa Dra. Maria Oliva, que me acompanhava na universidade, pelos retornos calorosos e pelas contribuições valiosas, que influenciaram minha reflexão entre a prática clínica e a pesquisa. Minha profunda gratidão vai também aos membros do ALIVE, o laboratório de pesquisa do meu estágio, coordenado por German Cadenas, ao meu grupo de mentoria e escrita, à minha turma do programa Health Policy Research Fellows e a Gabriela Gonzalez-Barajas, responsável pelo coaching, pelo apoio, pela gemelaridade e pelo espelhamento.
Conflitos de interesse. A pessoa que assina o artigo declara não ter nenhum conflito de interesse a revelar.
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Tradução não oficial em português de Luchando Junt@s Por Una Familia Unida (Lutando em conjunto por uma família unida): reconstruir o self coeso de pais e mães migrantes e a cura comunitária após uma separação familiar nos Estados Unidos – uma perspectiva da psicologia do self, de Cheryl Aguilar, Clinical Social Work Journal, vol. 53, no 3 (2025), doi: 10.1007/s10615-024-00923-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Luchando Junt@s Por Una Familia Unida (Fighting Together for a United Family): Rebuilding the Cohesive Self of Immigrant Parents and Community Healing after a Family Separation in the United States – A Self Psychology Perspective”, publicado em Clinical Social Work Journal (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Aguilar, C. (2025). Luchando Junt@s Por Una Familia Unida (Lutando em conjunto por uma família unida): reconstruir o self coeso de pais e mães migrantes e a cura comunitária após uma separação familiar nos Estados Unidos – uma perspectiva da psicologia do self (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/luchando-junt-s-por-una-familia-unida-reconstruir-o-self-coeso-de-pais-e-maes-migrantes (Obra original publicada em 2024 em Clinical Social Work Journal, 53(3), 336-350 (2025); republicada em 2025 por Clinical Social Work Journal, https://link.springer.com/article/10.1007/s10615-024-00923-4)
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