Family Process · Terapia familiar

Reações químicas, nadadores se afogando, manuais do proprietário: o poder das metáforas na terapia de casal

Dois produtos incolores que, misturados, começam a soltar fumaça; um cliente faminto diante de um garçom que não vem; um nadador que se debate contra o salva-vidas. Arthur C. Nielsen, da Universidade Northwestern e do Instituto Psicanalítico de Chicago, abre seu repertório de imagens acumulado em cinquenta anos de prática. A aposta: metáforas não para cada sintoma, mas para fazer casais, e estudantes, compreenderem as teorias sistêmicas, psicodinâmicas e comportamentais que guiam a terapia.

Autores Arthur C. Nielsen (Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento, Universidade Northwestern, Evanston; Chicago Psychoanalytic Institute e Institute for Clinical Social Work, Chicago)Primeira publicação Family Process, 17 de fevereiro de 2026Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Reações químicas, nadadores se afogando, manuais do proprietário: o poder das metáforas na terapia de casal, de Arthur C. Nielsen, publicado na Family Process (Wiley) (2026), doi: 10.1111/famp.70120, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As três figuras (cartum do parque de Yellowstone, vaso de Rubin, armadilhas chinesas de dedos) não são reproduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

As metáforas não são simples figuras de linguagem: elas saturam nossa linguagem e nosso pensamento.

Arthur C. Nielsen

Resumo

Em muitos anos de trabalho com casais, descobri que certas metáforas, tiradas de imagens, filmes, histórias, piadas, letras de canções, resultados de pesquisa e acontecimentos da minha vida, podem ser especialmente eficazes e memoráveis para esclarecer e normalizar as experiências diversas de casais em sofrimento. Ao relacionar o que acontece na terapia com situações mais familiares, pude fortalecer a aliança terapêutica num contexto que, de outro modo, poderia parecer estranho, doloroso ou até ameaçador. De modo mais amplo, as metáforas enriqueceram meu repertório terapêutico e me permitiram ajudar os casais a se experimentarem mutuamente como mais amorosos e solidários. Embora muitos outros tenham feito essa descoberta e oferecido metáforas elucidativas para problemas específicos dos clientes (depressão, procrastinação, disfunções sexuais), este artigo é singular por oferecer metáforas destinadas a ajudar clientes e estudantes a compreender melhor as teorias complexas (sistêmicas, psicodinâmicas, comportamentais-psicoeducativas) que sustentam nosso trabalho. Depois de uma breve revisão da literatura, descrevo metáforas que se mostraram especialmente úteis para esse fim. Postos esses exemplos, exploro o tema de modo mais amplo, discuto os múltiplos benefícios do uso de metáforas na terapia e ofereço sugestões técnicas para empregá-las com eficácia.

Nota de tradução. Como indica o autor (nota 2), cada metáfora discutida está em itálico, assim como outras metáforas da linguagem cotidiana encontradas pelo caminho. As epígrafes estão traduzidas.

1. Introdução

Tendemos a ver a metáfora como um bordado literário, o que o poeta Mark Doty chama de “a cobertura do bolo do sentido”. Mas, na verdade, é simplesmente a linguagem em seu estado natural, sobretudo quando tenta avaliar o desconhecido comparando-o com o conhecido. [itálicos acrescentados]

— Joe Moran (2019, 53)

Isso nos leva a uma das funções-chave das histórias: ligar as pessoas e transmitir a história, bem como as lições ou as habilidades necessárias à sobrevivência e à adaptação. Os seres humanos são animais que contam histórias.

— Nancy Kulish (2022, 831)

Em grande parte, nossa compreensão do amor é metafórica, e o compreendemos principalmente por meio de conceitos de outros tipos naturais de experiência: VIAGENS, LOUCURA, GUERRA, SAÚDE etc.

— Lakoff e Johnson (1980, 49)

Reações químicas, nadadores se afogando, manuais do proprietário: o que têm a ver com as intervenções na terapia de casal? Tudo! Em muitos anos de trabalho com casais (Nielsen 2016, 2017a, 2017b, 2022, 2023, 2024), descobri que certas metáforas como essas, tiradas de imagens, filmes, histórias, piadas, letras de canções, resultados de pesquisa e acontecimentos da minha vida, foram especialmente eficazes e memoráveis para esclarecer e normalizar as experiências diversas de casais em sofrimento. E, como os seres humanos são feitos para ser receptivos às histórias (Gottschall 2012), os relatos e as metáforas têm um poder especial quando tentamos ajudar casais a melhorar a relação e a compreender o processo da terapia.

Depois de resumir brevemente a literatura pertinente, descreverei metáforas que se mostraram especialmente úteis, para mim e para outros, tanto no trabalho clínico quanto no ensino. Embora muitos outros tenham contribuído para esse tema e dado exemplos elucidativos para problemas específicos dos clientes (depressão, procrastinação, disfunções sexuais), este artigo é singular por oferecer metáforas destinadas a ajudar clientes e estudantes a compreender melhor as teorias complexas (sistêmicas, psicodinâmicas, comportamentais-psicoeducativas) que sustentam nosso trabalho.

Postos exemplos específicos, resumirei os benefícios entrelaçados do uso de metáforas na terapia e farei algumas recomendações técnicas sobre a melhor maneira de empregá-las. No conjunto, defenderei que as metáforas são essenciais às competências clínicas, apoiando-me num amplo corpo de trabalhos existentes e nos meus cinquenta anos de experiência clínica.

2. Contexto, literatura e definições

Desde o trabalho seminal dos linguistas Lakoff e Johnson (1980), as metáforas deixaram de ser vistas como meros ornamentos retóricos e passaram a ser consideradas centrais para o pensamento, a linguagem e a experiência emocional humanas. A compreensão moderna da metáfora é, portanto, complexa e se situa no cruzamento da linguística, da filosofia, da antropologia, da poesia, da retórica, da interpretação dos sonhos, da hermenêutica, do construcionismo social, da neurobiologia, das ciências cognitivas, da psicologia em sentido amplo e, o que nos interessa aqui, da psicoterapia.

A literatura sobre metáforas em psicoterapia é vasta e rica em exemplos clínicos interessantes. Tirei proveito da leitura de grande parte dela. Na sua revisão, Torneke (2017) concluía: “Qualquer que seja o modelo de tratamento, todos parecem concordar quanto à importância da metáfora como ferramenta terapêutica” (p. 2). Perto do fim deste artigo, voltarei a esses pontos de concordância. Quanto à pesquisa mais formal, uma revisão recente da pesquisa em psicoterapia sobre o tema (McMullen e Tay 2023) encontrou muitos estudos em que os clientes relatavam mais benefícios quando os terapeutas empregavam metáforas, o que converge com um estudo mostrando que os oncologistas que usavam mais metáforas eram mais bem avaliados pelos pacientes (Casarett et al. 2010). Claro, importa que a metáfora convenha à situação clínica, mas tanto a literatura clínica quanto a pesquisa formal, mais limitada, mostram o poder das metáforas na prática clínica.

Os leitores que desejarem aprofundar o tema apreciarão as fontes a seguir, que, juntas, mostram como o estudo da metáfora se tornou uma atividade intelectual difundida e fecunda entre psicoterapeutas de muitas orientações (Aragno 2009; Atwood e Levine 1991; Barker 1985; Burns 2001, 2007; Gottschall 2012; Katz 2013; Lankton e Lankton 1989; Papp 2014; Rosenblatt 1994; Torneke 2017).

O termo metáfora vem do grego antigo metaphorá, “transferência” ou “transporte”: uma metáfora é uma figura de linguagem em que uma palavra ou expressão de um domínio (a fonte) serve para descrever algo de outro domínio (o alvo), destacando características comuns. Zhou et al. (2017) escrevem, por exemplo:

Na metáfora conceitual “o casamento é uma viagem”, o domínio-alvo é “o casamento” e o domínio-fonte é “a viagem”. A metáfora implica as seguintes correspondências: o casal corresponde aos viajantes. A relação do casal é entendida como uma companhia de viagem. O casal tem um destino e, como viajantes, compartilham o mesmo objetivo. As dificuldades da relação correspondem aos obstáculos da viagem. (p. 67)

O valor das metáforas está na sua capacidade de dar sentido a experiências complexas ou pouco familiares, descrevendo-as por meio de algo familiar. As metáforas colocam a experiência “em palavras novas” e nos permitem conceber coisas familiares de maneira incomum e coisas incomuns de maneira familiar. Muitas vezes, elas abalam concepções rígidas ou limitantes ao reenquadrá-las.

Neste artigo, seguindo os autores citados e as tradições terapêuticas, emprego metáfora em sentido amplo, para designar todos os casos em que uma coisa serve para representar outra. Essa definição inclusiva, às vezes chamada de “figurativa”, permite ver metáforas nas parábolas, nos contos, nos filmes, nas histórias inventadas pelo terapeuta (Barker 1985; Burns 2001, 2007), na terapia narrativa de casal e de família (Combs e Freedman 1990; Skerrett 2022; White 2007), na escultura familiar (Papp et al. 2013), na ludoterapia (Haen 2020; Lankton e Lankton 1989), na arteterapia (“uma imagem vale mais que mil palavras”), nos relatos pessoais e em muito mais: tantos meios de ajudar os clientes a ver sua experiência sob novos ângulos.

Como os autores citados acima, passei anos colecionando e testando metáforas úteis. Descobrir que outros tinham feito o mesmo me deu uma espécie de confiabilidade entre avaliadores quanto ao valor desse esforço e me incentivou a compartilhar uma seleção da minha própria coleção, que é abundante.

Como desenvolverei adiante, algumas metáforas vêm do terapeuta, outras dos clientes, e algumas são cocriadas. As que vêm dos terapeutas podem ser chamadas de “prescritivas”: algumas são “de estoque”, prontas para uso, outras são criadas no momento. Estas, por sua vez, podem visar um problema específico do paciente (por exemplo, o desejo sexual, comparando o que o inibe ou o facilita aos freios ou ao acelerador de um carro) ou um conceito terapêutico (como a transferência, comparando-a a um mapa oculto)1. Embora grande parte da literatura se concentre na primeira categoria, por exemplo Burns (2001, 2007), em que se encontra uma história ou parábola para quase todos os problemas, este artigo trata sobretudo da segunda subcategoria: metáforas que um terapeuta de casal pode ter “à mão” para facilitar a compreensão de conceitos centrais para a cura. Examinamos agora essas metáforas, agrupadas conforme esclarecem as três grandes abordagens da terapia de casal: sistêmica, psicodinâmica, e comportamental e psicoeducativa (Nielsen 2016, 2017a). É o coração do meu artigo, e a maioria dos leitores deve achar o que segue mais fácil de engolir, útil na prática e às vezes até divertido de ler.

3. Metáforas sistêmicas

Os processos de casal desadaptativos são uma marca das relações em sofrimento e um dos melhores preditores da deterioração conjugal, o que faz deles um alvo central da terapia de casal (Gottman et al. 1998; Lebow et al. 2012). No início desta discussão, note-se como a linguagem técnica do nosso campo toma emprestado da cibernética, da arquitetura e da governança para caracterizar as interações entre parceiros. Termos como estrutura, processo, retroalimentação, homeostase, hierarquia, polarização e ciclos (viciosos ou de vulnerabilidade) sugerem, todos, que as interações repetitivas e organizadas são mais que a soma das psicologias individuais dos parceiros. Essa teoria de campo ajuda a reenquadrar e a externalizar os problemas do casal, reduzindo a defensividade e a culpabilização, ao mesmo tempo que ressalta que as dificuldades conjugais são geralmente, se não sempre, cocriadas. As metáforas desta seção visam esclarecer e melhorar os processos do casal.

3.1 As aulas: preparar o cenário2

No início da terapia, muitas vezes comparo as sessões conjuntas a aulas de música, de esporte ou de dança. Digo: “Se vocês estão aprendendo piano, tênis ou dança de salão, não basta contar ao professor ou ao treinador o que vocês fazem. Ele precisa ver vocês fazendo para ajudá-los a progredir. Do mesmo modo, vocês conversarem um com o outro enquanto eu observo e tento ajudar é o ponto de partida para consertar e fortalecer a relação.”

Essa metáfora das aulas me permite definir meu papel como o de um instrutor, professor ou treinador: alguém que cria um espaço seguro onde os clientes podem correr riscos no caminho do domínio e, com o tempo, tocar sozinhos. Às vezes emprego a metáfora vizinha do personal trainer, alguém que encontra você regularmente e o leva além da sua zona de conforto. Quando uso essas imagens, recorro às minhas próprias experiências com treinadores e terapeutas, em momentos em que precisei expor problemas arraigados confiando que estaria em segurança. A metáfora das aulas transmite esperança, direção e apoio da minha parte, como professor experiente. Ela contrasta fortemente com a que os clientes muitas vezes alimentam de modo semiconsciente: eu como juiz de um tribunal conjugal. Essa imagem do tribunal é tão frequente e tão prejudicial que muitas vezes nego explicitamente que se aplique.

Outras metáforas ajudam a estruturar a terapia e a esclarecer o processo interpessoal do casal. Invoco muitas vezes a dança a dois (com suas conotações não verbais de reciprocidade, partilha do poder, prazer ou constrangimento possíveis), a negociação entre países (quando é preciso fazer concessões ou sacrifícios) ou a metáfora freudiana da arqueologia (para descrever a busca das origens ocultas ou inconscientes dos problemas).

Quando ensino aos estudantes que talvez precisem abordar temas evitados (como a ausência de vida sexual de um casal), conto a história do meu professor de dança no ensino fundamental. Vendo os meninos e as meninas enfileirados em lados opostos da sala, ele anunciou que era hora de escolher um par e começar. Essa imagem ressalta o papel do terapeuta em facilitar conversas necessárias, mas desconfortáveis.

3.2 A música e a letra: distinguir o processo do conteúdo

Quando os parceiros começam a falar um com o outro, concentro-me nos seus processos interpessoais desadaptativos: suas danças ou seus ciclos de vulnerabilidade (Scheinkman e Fishbane 2004). Todas as escolas de terapia de casal fazem isso, ainda que difiram na maneira de fazê-lo. Aqui, ressalto a diferença entre processo e conteúdo nos desentendimentos do casal evocando a diferença entre a música e a letra das canções: a música transmite a emoção e pode ser distinguida da letra. As palavras sempre importam, claro, mas a linguagem corporal e o tom de voz muitas vezes as eclipsam, porque transmitem a posição emocional de quem fala em relação a quem escuta.

Embora essa distinção pareça lógica para a maioria dos clientes, muitos têm dificuldade com a ideia de que um “sistema” possa ter propriedades emergentes, muitas vezes destrutivas e amplificadoras, que não se podem atribuir inteiramente a uma só pessoa. As metáforas a seguir ajudam os clientes a apreender a natureza sistêmica de suas dificuldades.

3.3 As reações químicas: explicar a causalidade mútua e a destrutividade

Para mostrar como os dois parceiros geralmente contribuem para os problemas da relação e para reduzir as acusações mútuas, comparo os parceiros a dois reagentes inofensivos e incolores, em béqueres separados. Misturados, esses reagentes podem sofrer uma transformação espetacular: ficar tão quentes que explodem, gelados ou malcheirosos. Um dos reagentes poderia pensar: “Eu estava ótimo antes, nem quente, nem frio, nem malcheiroso. Essa mudança repentina, em que não me reconheço, deve ser culpa desse outro maldito produto químico!” Essa metáfora mostra de modo marcante que o processo de grupo não se reduz ao comportamento individual, e é próxima da vivência dos clientes, que muitas vezes se sentem vítimas inocentes do parceiro.

3.4 Os círculos viciosos e sua pontuação: responder a “Quem começou a briga?”

Quando descrevo os círculos viciosos, uma metáfora universal na terapia de casal, já familiar à maioria dos clientes, observo que as pessoas geralmente pontuam seu relato começando por uma falta que atribuem ao parceiro. Beth pode dizer que sua raiva de Fred vem de ele não ter chamado o encanador, como tinha prometido. Fred pode admitir isso a contragosto, mas explicar que não chamou porque estava chateado por Beth não ter feito amor com ele havia duas semanas. Beth pode então responder que não tinha vontade porque Fred falha tantas vezes nas promessas sobre as tarefas domésticas, como chamar o encanador! Afirmo então que os dois têm razão, mas que a pontuação individual deles, seu relato do que desencadeou tudo e quando, é muitas vezes arbitrária. Vemos essas mesmas brigas circulares se desenrolarem em tempo real nos nossos consultórios, onde o ponto de partida de um ciclo pode ser vivido de modo diferente por cada parceiro.

3.5 Clientes famintos e garçons indiferentes: normalizar a perseguição e as exigências desagradáveis

A escalada muitas vezes implica que um parceiro, ou os dois, se torne cada vez mais barulhento, impaciente ou agressivo: cobra, culpabiliza ou xinga. Essas tentativas ineficazes de influenciar o outro tendem a surgir e a se intensificar quando o parceiro parece não responder. Os terapeutas podem normalizar esse comportamento contraproducente reenquadrando-o de modo sistêmico. Uma metáfora que uso põe em cena um cliente faminto num restaurante tentando atrair a atenção de um garçom indiferente. Primeiro, o cliente espera educadamente. Depois, faz sinais. Em seguida, chama com calma. Por fim, grita. Muitas vezes, os dois parceiros são mais bem compreendidos como clientes famintos que se dirigem a garçons indiferentes.

3.6 Nadadores se afogando, oxigênio psicológico e sintonia: o pânico e a raiva quando as necessidades não são atendidas

Como o cliente faminto, a metáfora do nadador se afogando ilustra o pânico, a incapacidade de se expressar e a possível combatividade paradoxal (bem conhecida dos salva-vidas) que podem surgir quando as pessoas se sentem privadas de oxigênio psicológico. Na maioria das vezes, os dois parceiros se parecem com nadadores se afogando, cada um desesperadamente em busca de socorro e atenção, o que lembra o uso frequente que Heinz Kohut fazia do oxigênio como metáfora das necessidades relacionais fundamentais (por exemplo, 1984).

A metáfora do nadador se afogando é especialmente útil quando alguém não foi ouvido: ela se parece com a roda que range cada vez mais alto quando não é lubrificada; com o despertador que continua tocando quando quem dorme não acorda para desligá-lo; ou com o motorista ignorado que explode de raiva no trânsito. Em todos esses casos, o ingrediente que falta é a sintonia receptiva, metáfora central de grande parte da psicoterapia contemporânea, como quando se sintoniza um rádio analógico na estação certa. Essa receptividade, que reconhece com precisão que existe um problema, na maioria das vezes ajuda a trazer de volta a calma.

3.7 Chefes microgerenciadores, pais assustados e canários na mina: um controle desagradável e repetitivo causado pela ansiedade

Embora muitos perseguidores batam na porta fechada por necessidades não atendidas de amor, apoio ou companhia (o oxigênio psicológico de Kohut), outros o fazem por ansiedade, como certos chefes microgerenciadores (“Se não cumprirmos esse prazo, perdemos o contrato!”). Os clientes que trabalharam em organizações entendem essa metáfora, que os afasta da arena conjugal e normaliza a cobrança de um cônjuge ansioso (por exemplo, sobre a necessidade de cuidados médicos do parceiro). Com outros clientes, descrevo como os pais gritam espontaneamente com os filhos quando sentem um perigo (uma criança correndo para a rua), ou como o olfato apurado da minha esposa detectou certa vez um vazamento de gás perigoso numa casa que estávamos visitando (um verdadeiro canário na mina de carvão).

3.8 O imperador e o rouxinol: os estragos do microgerenciamento

Embora uma parte do microgerenciamento possa ser normalizada, ele também pode ser excessivo e levar (ironicamente) a uma não cooperação passivo-agressiva. Para mostrá-lo, conto o conto de Hans Christian Andersen sobre o imperador da China, que aprendeu que precisava abrir a gaiola do pássaro canoro que tinha capturado, porque o pássaro lhe dissera que isso era necessário para que cantasse para ele.

3.9 Bombeiros diante de incêndios florestais, castelões que erguem a ponte levadiça: normalizar o distanciamento e a fuga

Assim como a perseguição raivosa que se intensifica pode parecer justificada em certas situações, a fuga também pode. O retraimento se torna mais compreensível e mais aceitável quando se lembra que os bombeiros diante de um incêndio florestal descontrolado às vezes precisam recuar temporariamente. E que aldeões atacados por inimigos estrangeiros vão, compreensivelmente, refugiar-se no castelo e erguer a ponte levadiça. Ajudar os clientes a compartilhar suas razões para se retrair, em vez de simplesmente atribuir o retraimento a um “medo da intimidade”, muitas vezes aprofunda o tratamento. A metáfora da ponte levadiça também ressalta a circularidade: se os perseguidores vêm em paz, quem se distancia não precisará erguer a ponte levadiça.

3.10 Colegas de equipe e cocapitães: algumas dificuldades dos grupos de dois

Tendo jogado muito tênis em duplas, comparo muitas vezes o casamento a um esporte de equipe, em que os resultados são compartilhados e em que é preciso certo grau de abnegação (“Não existe eu em equipe!”) e de paciência (é preciso apoiar o parceiro, mesmo e sobretudo depois que ele errou feio).

Para manter a coesão da equipe, surge também o problema de chegar a um acordo sobre uma estratégia e uma linha de ação num grupo de dois (uma questão quase universal na terapia de casal), situação que chamo de o problema dos cocapitães e que ilustro observando como seria difícil se um navio se aproximando de um iceberg tivesse dois capitães debatendo se devem virar a bombordo ou a estibordo. É por isso que os navios têm um só capitão, ao passo que a equidade no casamento exige que cada parceiro tenha voz (outra metáfora útil) e aceite o desafio dos dois cocapitães.

3.11 Duetos, irmãos de armas, colaboradores: algumas vantagens dos grupos de dois

Embora ser cocapitães possa trazer problemas, há momentos em que duas cabeças pensam melhor que uma, em que intérpretes cantam em dueto com harmonia ou em que soldados sentem um laço especial de respeito e proteção. Essas metáforas podem ser usadas quando o estresse aumenta, por exemplo por causa do trabalho ou dos filhos, e os parceiros precisam colaborar e trabalhar juntos. Dan Wile, aliás, fez da colaboração o objetivo metafórico central da sua perspicaz terapia de casal (Wile e Kaufmann 2021).

4. Metáforas psicodinâmicas

Uma vez identificados os ciclos problemáticos, os terapeutas podem explorar mais a fundo a psicologia que os alimenta e causa o sofrimento relacional (Nielsen 2017b).

4.1 O cartum do parque de Yellowstone: as questões ocultas

A figura 1 mostra um casal que avança pela vida, representado caminhando pelo parque de Yellowstone, potencialmente perigoso. Como esse casal, nossos casais encontram, muitas vezes de surpresa, uma questão de superfície (uma lava-louças mal arrumada, uma conta inesperada ou a visita de um parente difícil) que mexe com algo mais profundo, muitas vezes inconsciente e mais significativo (uma questão de controle, dinheiro, compromisso ou reconhecimento). No início da terapia, muitas vezes mostro essa imagem para ilustrar a ideia central das questões ocultas: as brigas importantes de casal nunca são “por nada”, mas geralmente envolvem preocupações muito fundamentais, muitas vezes fora do campo da consciência.

Figura 1. O parque de Yellowstone: as questões ocultas (muitas vezes inconscientes). Reproduzida com autorização do livro Fighting for Your Marriage (2001), de Markman, Stanley e Bloomberg. Desenho de Ragnar Storaasli. Figura não reproduzida.

4.2 A casa sendo transportada, as pranchas do TAT e o vaso de Rubin: subjetividades divergentes

Para mostrar como um mesmo acontecimento pode ser vivido de maneira diferente, fonte frequente de conflito no casal, descrevo uma cena do filme The Story of Us (A história de nós dois): um casal à beira da separação leva os filhos para uma colônia de férias quando o trânsito é retardado por uma casa sendo transportada. Os pais percebem a casa corretamente, mas de modo diferente. A mãe vê nela um obstáculo, preocupa-se com o atraso e propõe pegar outro caminho. O pai vê nela uma oportunidade de aliviar o clima num momento de estresse familiar e faz uma piada sobre alguém fazendo cocô no banheiro da casa. A cena, exemplo da polarização deles em outros domínios, termina com o casal se olhando em silêncio, com dor e desaprovação. Quando casais discutem sobre “o que realmente aconteceu”, uso essa cena de filme para ressaltar a ideia construtivista de que muitos acontecimentos não têm sentido fixo.

Outras vezes, faço o mesmo ponto observando que pessoas podem reagir de modo diferente ao mesmo filme ou à mesma prancha do Teste de Apercepção Temática (TAT). Às vezes mostro aos casais a imagem do vaso de Rubin (figura 2), pergunto o que veem e observo que a resposta certa é AO MESMO TEMPO um vaso E dois rostos. Essas metáforas fundamentam minha intervenção “Vocês dois têm razão”, que valida as realidades subjetivas divergentes dos parceiros. A metáfora da prancha do TAT também mostra como os clientes tiram conclusões precipitadas sobre o parceiro, seja por falta de informação, seja porque estão sendo acionados e agitados por experiências transferenciais repetidas (ver a seção seguinte).

Figura 2. O vaso de Rubin. Figura não reproduzida.

4.3 Alergias, mapas, configurações padrão, manuais do proprietário e ombros doloridos: as sensibilidades transferenciais

Para transmitir o conceito de expectativas transferenciais negativas que provocam reações emocionais intensas, muitas vezes idiossincráticas, comparo-as a alergias da infância (por exemplo, à penicilina, ao amendoim ou a picadas de abelha). Assim como uma pessoa já picada por uma abelha pode reagir gravemente a uma nova picada, uma pessoa abandonada cedo na vida pode reagir intensamente à viagem de negócios de um cônjuge. Mostro como essas alergias decorrem de mapas interiores inconscientes (se seu mapa mostra monstros marinhos, você vai evitar se lançar ao mar!) ou das configurações padrão de um computador. Esses mapas e essas configurações muitas vezes escapam à nossa consciência: na metáfora do computador, porque foram definidos de fábrica; nos clientes, porque remontam à infância. Enquanto não se tornam conscientes, podem parecer inevitáveis, como em “A vida é assim”.

Os mapas dos clientes incluem não só imagens de si e dos outros interagindo em cenários traumáticos, mas também crenças sobre a possibilidade de que isso mude e de que alguém venha ajudar, pois incluem expectativas de resiliência e de segurança de apego. A terapia permite aos clientes verificar se seus mapas ainda se aplicam, se a história se repete ou se repetirá, mesmo quando isso parece arriscado, como quando Colombo navegou literalmente por águas desconhecidas.

A terapia de casal permite que os parceiros aprendam as alergias, os mapas e as configurações um do outro, aquisição preciosa, já que, ao contrário dos carros, os parceiros não vêm com manual do proprietário. E, para favorecer a empatia por essas sensibilidades, lembro aos clientes que eles evitariam dar um tapinha no ombro dolorido do parceiro se soubessem que estava machucado.

4.4 Tartarugas, coelhos, castelos e remédios caseiros: defesas e mecanismos de enfrentamento

Muitas metáforas normalizam as defesas de autoproteção. Além dos bombeiros que recuam mencionados acima, falo muitas vezes de tartarugas (que se escondem no casco), de coelhos (sempre alertas, prontos para fugir) e de castelos (já mencionados, com suas muralhas e pontes levadiças, que levam os parceiros a atacar ou a se retrair). Uso os remédios caseiros para designar diversos estilos de enfrentamento, perfeccionismo, autoacusação, consumo pesado de álcool, casos extraconjugais, e menciono seus efeitos colaterais, como a cirrose causada pelo alcoolismo, a solidão do parceiro causada pelo excesso de trabalho e o divórcio causado pelos casos.

4.5 Oxigênio, grupos alimentares básicos e linguagens do amor: dar imagem às necessidades interpessoais fundamentais

Ajudar parceiros a satisfazer mutuamente suas necessidades humanas fundamentais de empatia, cuidado, receptividade, ajuda, entusiasmo etc. está no cerne de uma abordagem da terapia de casal inspirada na psicologia do self (Leone 2008). Já citei a metáfora evocativa do oxigênio para caracterizar essas necessidades. Também se pode descrevê-las como grupos alimentares básicos (Shaddock 2000) ou linguagens do amor (Chapman 1992), duas imagens que ajudam a individualizar o que pode estar faltando numa relação específica.

5. Metáforas comportamentais e psicoeducativas

Embora a maioria dos casais não espere seguir um roteiro preciso nas “conversas difíceis” (o termo consagrado dos especialistas em negociação), ensinar-lhes o valor de planos estruturados e a importância de evitar “o que vem naturalmente” pode melhorar nitidamente os resultados.

5.1 As luvas do cirurgião, o checklist do piloto e as regras de Robert: seguir regras pode ajudar

Quando casais objetam que seguir regras para as conversas difíceis lhes parece artificial, às vezes lhes dou razão e depois lembro como os cirurgiões ganham ao usar luvas e os pilotos ao usar checklists antes do voo. Para mostrar como as reações instintivas podem se voltar contra nós, faço a demonstração de uma armadilha chinesa de dedos (figura 3), da qual só se escapa resistindo à reação óbvia. Mas a metáfora que acho mais certeira para o trabalho com casais, a que normaliza a necessidade de contenção para obter melhores resultados, é a das Robert’s Rules of Order, o código de procedimento das assembleias deliberativas, que me serve para lembrar aos clientes que reuniões de negócios ou de comissão bem-sucedidas não são brigas generalizadas.

Figura 3. Armadilhas chinesas de dedos. Figura não reproduzida.

5.2 Os golpes de luta: o valor de nomear as opções de comportamento

Antes de aprender luta nas aulas de educação física do ensino médio, eu imaginava a luta simplesmente como duas pessoas que se agarram e rolam pelo chão. Mas, quando me ensinaram golpes de luta com nome, testados pelo tempo, como a pegada de perna ou o meio-nelson, logo entendi que eles faziam uma enorme diferença. O mesmo vale para a luta conjugal, em que conhecer estratégias conversacionais específicas, como usar mensagens em “eu” ou evitar dar conselhos não solicitados, pode ser extremamente útil.

5.3 Apelos à autoridade, direção perigosa, jogadores de basquete, oradores, boxeadores e humor: outras comparações para as conversas difíceis

Quando passo ao ensino das boas práticas de falar e escutar, recorro à autoridade, a situações semelhantes de bom senso e ao senso de humor dos clientes. Tomo emprestada a autoridade das pesquisas de John Gottman (Gottman et al. 1998) e do Harvard Negotiation Project (Fisher et al. 1981), citando muitas vezes a famosa recomendação de Fisher: “Seja duro com o problema e suave com a pessoa.”

Comparo as conversas difíceis à direção em condições perigosas, em estradas com gelo, no escuro ou em curvas fechadas, e observo que é útil desacelerar e prestar atenção. Para os casais, isso significa “transformar uma história curta numa história longa” (Scheinkman e Fishbane 2004), explorando (na terapia e depois sozinhos) os significados ocultos, os pontos sensíveis e as necessidades não atendidas.

Lembro aos clientes que “não planejar é planejar o fracasso” e os incentivo a conhecer seus objetivos finais (como um jogador de basquete que mira a cesta ou um golfista o fairway). Sugiro que ainda podem funcionar mesmo quando estão, com razão, ansiosos (como quando se faz um discurso importante ou se saca para fechar a partida), ou ao mesmo tempo ansiosos e com raiva (como um boxeador ou um soldado).

Acima de tudo, insisto na importância da curiosidade e da escuta empática, compartilhando este aviso bem-humorado: “Os únicos que escutam quando um casal briga… são os vizinhos!”

5.4 Relatos pessoais, eu como cliente satisfeito: encorajar

Às vezes, quando os clientes continuam ambivalentes quanto a seguir minhas sugestões para se comunicar melhor ou resolver problemas, compartilho relatos pessoais para reforçar minha mensagem. Digo: “Quando minha esposa Sheila e eu saímos, amigos às vezes perguntam: ‘Sheila, sabemos que o Art ensina tudo isso, mas como ele é de verdade numa briga?’ Na maioria das vezes, Sheila reforça minha credibilidade dizendo: ‘Ele vira outra pessoa; ele muda de marcha.’” Explico que consigo isso seguindo certas regras, em particular ficando curioso e dando prioridade à escuta empática. O que quero mostrar é que eu mesmo sou um cliente satisfeito, e não apenas alguém que dá conselhos do banco de reservas, recitando as últimas dicas de autoajuda.

5.5 Gottman, a jardinagem e as linguagens do amor: incentivar as interações positivas

Muitos dos casais que atendo pararam de se elogiar, de se abraçar ou de ter uma sexualidade satisfatória. Nos casos menos extremos, simplesmente dão o outro por garantido. Quando trabalho para reavivar a positividade (Nielsen 2016, capítulo 14), muitas vezes identificando a linguagem do amor de cada parceiro, às vezes cito o resultado das pesquisas de Gottman segundo o qual os casamentos bem-sucedidos se caracterizam por uma predominância das interações positivas sobre as negativas. Também comparo o casamento a um jardim que exige cuidados constantes, ou conto uma piada que ilustra o mesmo princípio: um homem (pouco sensato) diz à esposa: “Eu já disse uma vez que te amava. Se eu mudar de ideia, te aviso.”

6. As intervenções metafóricas: benefícios entrelaçados

Meu interesse pelas metáforas se desenvolveu organicamente ao longo dos anos. Como outros antes de mim, descobri que as metáforas não só tornam os conceitos difíceis compreensíveis, próximos da vivência e memoráveis, como também, em diversas combinações, podem:

  • Incentivar a esperança e sugerir alternativas. Os relatos sobre outros que se beneficiaram, inclusive o terapeuta como cliente satisfeito, e as referências à pesquisa científica, que sugerem a competência do terapeuta, mostram todos a saída da escuridão conjugal. As metáforas e as histórias podem incentivar a suportar as dificuldades, a tentar algo novo no caminho de objetivos exigentes ou, ao contrário, a aceitar experiências dolorosas e a se recuperar delas (Atwood e Levine 1991; Burns 2001).
  • Normalizar comportamentos desagradáveis ou vergonhosos e expressar empatia por eles. Quem grita ou não quer falar tem suas razões. Compartilhar nossas próprias dificuldades pode reduzir as transferências que fazem do terapeuta um juiz. As piadas sobre casais podem universalizar as dificuldades, como a tirada “Os únicos que escutam… são os vizinhos”. Essas abordagens reduzem a vergonha e abrem a porta para a exploração das questões subjacentes. Em termos de psicologia do self, as metáforas muitas vezes oferecem experiências de objeto do self de espelhamento empático e de gemelaridade, que permitem aos clientes se sentirem compreendidos por outros que enfrentaram dificuldades semelhantes, e ligados a eles.
  • Aumentar as chances de que as intervenções sejam lembradas. Minha experiência clínica converge com as pesquisas de Martin et al. (1992) e ecoa a observação de Gottschall (2012, 118): “Os sacerdotes e os xamãs do mundo sabiam o que a psicologia viria a confirmar: se você quer que uma mensagem se enterre na mente humana, coloque-a numa história.”
  • Aliviar o clima e acalmar as águas deslocando a ação. Como na ludoterapia ou quando se mencionam filmes, a maioria das metáforas cria uma distância psicológica em relação ao momento presente e abre espaço para a reflexão terapêutica (Combs e Freedman 1990; Haen 2020; Lankton e Lankton 1989; Torneke 2017). Como observou Littman (Barker 1985, vii): “O ensino direto de leis e princípios do comportamento muitas vezes encontra resistência… As novelas, as fábulas e as parábolas têm a vantagem de nos falar de nós mesmos de maneira indireta e, portanto, mais aceitável.”
  • Intensificar ou revelar a emoção ou ligações inconscientes quando os clientes estão controlados demais, intelectualizam ou se fecham. Em vez de acalmar as águas, algumas metáforas, pensemos nos nadadores se afogando ou nos bombeiros que recuam, são muitas vezes cheias de ação. Como muitos sugeriram (por exemplo, Atwood e Levine 1991; Bucci 2001), essas metáforas ajudam a provocar uma ativação emocional, essencial para o sucesso terapêutico em geral (Lane et al. 2022), em particular com sobreviventes de traumas (Stern 2009).

7. Sugestões técnicas

O uso hábil das metáforas exige misturar e combinar os elementos que acabam de ser descritos, ora para acalmar as coisas, ora para esquentá-las, sempre concedendo à nossa mente a liberdade, que Ogden (1997) chama de rêverie, de buscar em nossa própria mente e na linguagem dos nossos clientes metáforas que não só captem o momento com empatia, mas também facilitem o progresso terapêutico. Para preparar este artigo, recorri a uma ampla reserva de metáforas, escolhendo as que uso com mais frequência e que se mostraram terapêuticas. Embora estas tenham dado provas, outras surgem no momento. Essas metáforas espontâneas, vindas de lembranças, filmes, canções, da história ou de piadas, muitas vezes me surpreendem, sobretudo quando emergem do meu passado distante. No entanto, quando surgem, geralmente correspondem ao estado de ânimo e à questão do momento.

Assim, embora eu ofereça sugestões específicas, ferramentas para suas caixas de ferramentas terapêuticas, vocês devem se sentir livres para usar todas as metáforas que possam surgir no momento para esclarecer questões específicas à medida que aparecem. As metáforas mais eficazes se afinam com a linguagem e a experiência de vida dos clientes, evocando sua profissão (maquinista, advogado, médico, professor, músico), seus passatempos (dança, caminhada, golfe, jardinagem) ou suas experiências (viagens frequentes, militância política, participação num conselho escolar). As metáforas ideais correspondem à história, à cultura e às crenças religiosas da pessoa. Quando se trabalha entre culturas ou entre gerações, as melhores metáforas muitas vezes vêm da cultura ou da geração do outro, ainda que algumas metáforas, como o casamento enquanto viagem compartilhada, pareçam universais. Além dessa metáfora da viagem, um estudo japonês (Zhou et al. 2017) encontrou o casamento representado como uma união física, uma criação comum, um empreendimento, um par de sapatos e o chá (porque o chá pode ser ao mesmo tempo amargo e agradável), e um estudo chinês (Dunn 2004) acrescentou a imagem dos pauzinhos (que sugere parceiros iguais e distintos trabalhando em colaboração rumo a um objetivo comum).

Para que as intervenções se fixem, muitas vezes mostro aos casais as imagens mencionadas neste artigo. Se elas ressoam, entrego ou envio cópias por e-mail. Alguns casais as prendem na geladeira.

Claro, não compartilho cada imagem que me vem à mente, e às vezes modifico os personagens das minhas histórias pessoais ou recorro ao noticiário, à literatura ou ao cinema. Embora esses exemplos possam parecer mais seguros, muitas vezes são menos poderosos para atenuar a vergonha e favorecer o vínculo. Do mesmo modo, às vezes penso numa piada que reflete uma combinação da minha contratransferência e da psicologia do casal, mas escolho não compartilhá-la. Mesmo quando não se prestam a ser compartilhadas, essas associações livres muitas vezes me dão uma ideia do que está acontecendo no momento ou do que exigirá atenção mais tarde. E alguns clientes não querem ouvir histórias, pessoais ou não; então adapto minhas palavras à receptividade deles.

Muitos clientes produzem suas próprias metáforas elucidativas. Por exemplo, um casal que descrevi em detalhe (Nielsen 2024) deu às suas brigas repetitivas um nome bem-humorado inspirado no Monty Python: Reginald, realizando assim o mantra metafórico de Dan Siegel, “Nomear para domar!” (Siegel e Bryson 2011). Esse nome bem-humorado lhes permitia desacelerar, mudar de marcha e usar as habilidades e a compreensão adquiridas na terapia. Outro cliente falava de um parente que tinha parado recentemente de usar uma peruca para esconder a calvície, gesto que meu cliente admirava e ao qual se referiu depois no nosso trabalho para se tornar mais seguro de si e mais aberto emocionalmente com a esposa.

Embora a pesquisa sugira que a origem de uma metáfora na terapia importa pouco, as metáforas cocriadas muitas vezes se tornam temas úteis que atravessam os tratamentos bem-sucedidos (McMullen e Tay 2023; Torneke 2017). Um exemplo da minha prática nasceu quando me ocorreu comparar a incapacidade de um homem de largar uma relação autodestrutiva a uma águia agarrada a um peixe pesado demais para carregar, que acaba se afogando. Eu sabia que o cliente era um pescador apaixonado, e ele me respondeu que tinha de fato visto uma cena assim. Judeu profundamente engajado, ele depois aprofundou a metáfora ligando-a a uma imagem bem mais sombria: a dos judeus da Alemanha nazista que não reconheceram o perigo a tempo e perderam a vida. Como as metáforas de Reginald e da peruca, essa metáfora poderosa passou a fazer parte da nossa linguagem comum.

Certas metáforas dolorosas ou trágicas vindas dos clientes, como certas imagens de pesadelo, se transformam na terapia. Esse processo é mais visível nos exemplos de escultura de casal de Papp (Papp 1983; Papp et al. 2013), em que, por exemplo, um casal King Kong/Fay Wray e um casal policial/criminoso se tornaram menos polarizados e mais felizes. Mas tais transformações também ocorrem espontaneamente. Uma cliente minha, que se descrevia como “o cachorro da família”, amada mas não prioritária, foi aos poucos adquirindo um estatuto pleno e acabou se vendo, e sendo vista, como uma parceira adulta em pé de igualdade.

8. Discussão

Como mostra Summers (2013):

Os linguistas Lakoff e Johnson (1980) defenderam de forma convincente que a metáfora não é apenas uma figura de linguagem usada sobretudo por poetas e romancistas, mas um modo de pensar inscrito no nosso sistema conceitual… Para retomar a ilustração mais discutida de Lakoff e Johnson, “Discussão é guerra” mostra que pensamos a discussão como pensamos a guerra: buscar ganhar terreno, defender a própria posição, ver a posição do outro como indefensável. (p. 69)

A metáfora discussão é guerra poderia, infelizmente, aplicar-se a muitos casais que procuram terapia. Minha metáfora da terapia de casal como aulas é bem mais esperançosa. De modo mais amplo, seguindo Lakoff e Johnson, vê-se que as metáforas não são simples figuras de linguagem: elas saturam nossa linguagem e nosso pensamento, e algumas são especialmente úteis para esclarecer dinâmicas terapêuticas de outro modo difíceis de apreender. As metáforas apresentadas neste artigo dão vida a conceitos que a maioria de nós acha difíceis, em particular: (a) que grande parte da experiência humana é cocriada, não linear e emergente, em vez de simplesmente conduzida por um parceiro agindo sobre o outro; (b) que o sentido dos acontecimentos é muitas vezes oculto, subjetivo, divergente e enraizado em sensibilizações precoces; e (c) que muitas pessoas ignoram que é preciso usar regras de comunicação com um parceiro íntimo e não conhecem os métodos práticos para melhorar suas interações.

Claro, essas ideias não têm nada de novo para os leitores desta revista. Mas, como os parceiros atribuem comumente suas dificuldades a um “outro” recalcitrante ou malévolo, e podem lutar até a morte sobre “o que realmente aconteceu”, as metáforas discutidas aqui são especialmente úteis para ajudar os terapeutas de casal a tratar a causalidade circular cocriada. Ao mostrar que “são precisos dois para dançar o tango”, essas imagens, reagentes químicos inocentes, clientes famintos e garçons desatentos, bombeiros que recuam, ajudam a fazer do processo interacional do casal a questão central, no que Michael White (2007) chamou de “conversa externalizante”.

As ideias psicodinâmicas se tornam mais vivas e mais memoráveis quando os terapeutas descrevem como indivíduos interpretam de modo diferente o mesmo filme, o vaso de Rubin ou uma prancha do TAT, e quando comparam as sensibilidades transferenciais a alergias da infância ou a configurações padrão de um computador.

Por fim, a necessidade de estrutura nas conversas difíceis pode ser lançada por metáforas tiradas de outros domínios: os cirurgiões que usam luvas, os pilotos que usam checklists antes do voo e a maioria das reuniões de negócios que seguem as regras de Robert.

9. Conclusão

Desde a Antiguidade, as parábolas ajudaram a tornar universais e memoráveis os desafios relacionais para nós, animais que contam histórias. Como a parábola do bom samaritano, muitas nos exortam a amar o próximo mesmo quando é difícil. Espero que este artigo tenha fornecido a vocês um conjunto de metáforas prontas para uso e despertado a vontade de criar as suas. Com a ajuda dos seus clientes, incentivo vocês a cocriar metáforas sem jargão, estimulantes e empáticas, imagens que esclareçam o que bloqueia o progresso dos casais e o que poderia sustentar seu caminho rumo a parceiros mais conscientes de si e mais solidários.

Complexe Systémique: a reter

Este texto de um clínico de formação psicanalítica tem interesse sistêmico direto: metade das suas imagens serve para desfazer a causalidade linear. Os reagentes químicos, a pontuação da briga de Beth e Fred, o cliente faminto e o garçom indiferente, a ponte levadiça que deixa de ser erguida quando o outro vem em paz: tantas maneiras de mostrar ao casal que o problema está no circuito e não em um dos dois, o que Michael White chamava de conversa externalizante. A outra contribuição é a distinção entre metáforas “de estoque” e metáforas cocriadas: as mais poderosas vêm dos próprios clientes (Reginald, a águia e o peixe), e quem conduz a terapia ganha ao falar a língua da profissão, dos passatempos e da cultura deles. Limite assumido: é uma colheita de experiência, apoiada numa literatura ainda escassa em pesquisa formal. Ler com o artigo sobre o uso da metáfora com um casal diante do divórcio, que acompanha uma única metáfora ao longo de toda uma consulta, e com o artigo sobre o manejo dos conflitos do casal na sessão, para os momentos em que a briga acontece diante do terapeuta.

Notas do original

1 Para um belo artigo que mostra o valor de uma metáfora prescritiva desse tipo para ajudar pacientes a superar o medo de vacinas, ver Trogen (2017). A metáfora usada, a vacinação com um componente viral, e não o vírus completo e perigoso, produz uma “impressão digital viral” que mais tarde permitirá ao organismo identificar e combater um verdadeiro vírus criminoso que se introduza: ela pertence às duas categorias, já que visa um problema do paciente e ajuda explicando um mecanismo de cura.

2 Pus em itálico cada metáfora discutida, como aqui com as aulas. Além disso, para mostrar como as metáforas são onipresentes no discurso cotidiano, pus em itálico outras que aparecem pelo caminho neste artigo.

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Tradução não oficial em português de Reações químicas, nadadores se afogando, manuais do proprietário: o poder das metáforas na terapia de casal, de Arthur C. Nielsen, Family Process, vol. 65 (2026), doi: 10.1111/famp.70120, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (figuras não reproduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Chemical Reactions, Drowning Swimmers, Owner’s Manuals: The Power of Metaphors in Couple Therapy”, publicado em Family Process (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Nielsen, A. C. (2026). Reações químicas, nadadores se afogando, manuais do proprietário: o poder das metáforas na terapia de casal (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/reacoes-quimicas-nadadores-se-afogando-manuais-do-proprietario-o-poder-das-metaforas-na-terapia-de-casal (Obra original publicada em 2026 em Family Process, 65(1) (2026); republicada em 2026 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.70120)

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