Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Contemporary Family Therapy · Terapia familiar
Como mostrar que uma sessão fez algo se mover? Leoš Zatloukal, Pavlína Jurníčková e Jacek Szczepkowski apresentam a análise recursiva de quadros, nascida dos trabalhos de Bradford Keeney, que mapeia os deslocamentos de uma conversa terapêutica ao longo de uma estrutura em três atos. Fundamentos batesonianos, oito etapas práticas, um sistema de transcrição e um exemplo tirado de uma sessão de Insoo Kim Berg fazem do texto um guia para estudar a mudança o mais perto possível da sessão.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A análise recursiva de quadros como método de pesquisa sobre o processo de mudança em psicoterapia, de Leoš Zatloukal, Pavlína Jurníčková e Jacek Szczepkowski, publicado na Contemporary Family Therapy (Springer) (2026), doi: 10.1007/s10591-025-09754-y, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela 1 é apresentada em forma de lista; as duas figuras são reproduzidas na versão original em inglês, com legendas traduzidas; o trecho da sessão é apresentado em forma de diálogo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Uma sessão terapêutica útil costuma incluir várias transições entre os atos 1, 2 e 3, nos dois sentidos, antes de se estabilizar finalmente no ato 3.
Leoš Zatloukal, Pavlína Jurníčková e Jacek Szczepkowski
Resumo
Este artigo trata da análise recursiva de quadros (RFA, Recursive Frame Analysis), método de pesquisa qualitativa desenvolvido para analisar deslocamentos discursivos em sessões terapêuticas. Primeiro, são abordadas as origens filosóficas desse método e seu lugar no campo da metodologia de pesquisa. Em seguida, discutem-se considerações práticas sobre “como aplicar” esse método no contexto da pesquisa sobre o processo de mudança. O artigo detalha como distinguir quadros e galerias nas conversas, registrar os movimentos dentro de uma “estrutura em três atos” e anotar as circularidades nas sessões terapêuticas. Além disso, apresenta algumas ideias originais e estimulantes sobre essa metodologia de pesquisa, com um breve exemplo tirado de uma pesquisa com RFA.
Palavras-chave: psicoterapia, pesquisa sobre o processo de mudança, análise recursiva de quadros, psicologia discursiva, pesquisa qualitativa
A pesquisa em psicoterapia lida com duas questões fundamentais. A primeira diz respeito ao resultado (“A terapia foi benéfica?”), e a segunda, ao processo (“Como a terapia se desenrolou?”). Essas questões remetem aos dois grandes tipos de pesquisa nessa área: a pesquisa de resultados e a pesquisa de processo (Timulak, 2008). A pesquisa de resultados se concentra em nossa capacidade de identificar e medir com precisão se a mudança terapêutica desejada ocorreu (Goodheart et al., 2006; Timulak, 2008). Essa questão anda inevitavelmente junto com outra, que busca entender como a mudança ocorreu (Goodheart et al., 2006; Kazdin, 2009). A questão do “como” não só nos leva à pesquisa de processo (Timulak, 2008), como também coloca uma questão crítica para a pesquisa de resultados. No contexto da metodologia científica, não basta concluir por um resultado, nem mesmo postular uma relação causal entre o resultado e o diálogo terapêutico, sem compreender o processo de mudança e oferecer uma explicação lógica para ele (Elliott, 2010; Kazdin, 2009; Watson & McMullen, 2016).
O campo da “pesquisa sobre o processo de mudança” se dedica a responder a essa questão-chave, situando-se na interseção entre a pesquisa de resultados e a pesquisa de processo (Elliott, 2010; Greenberg, 1986; Watson & McMullen, 2016). Entre os delineamentos de pesquisa mais reconhecidos nesse campo está, segundo Elliott (2010), o delineamento microanalítico de processo sequencial. Esse delineamento qualitativo oferece uma visão detalhada e direta do processo de mudança, por se concentrar nas conversas que fundamentam cada troca comunicacional. Elliott destaca a importância desse delineamento:
A pesquisa de processo sequencial é, ainda assim, uma abordagem intuitivamente atraente, próxima da prática, capaz de fundamentar inferências causais sólidas sobre processos importantes de mudança terapêutica. Por isso, precisa ser aceita como uma linha-chave de evidências a favor da prática baseada em evidências… Curiosamente, a pesquisa de processo sequencial tem sido até hoje predominantemente quantitativa. A pesquisa microanalítica qualitativa é pouco desenvolvida e, a meu ver, deveria ser usada mais amplamente. (Elliott, 2010, p. 129).
Numerosos métodos se baseiam no delineamento microanalítico de processo sequencial, como a análise do fluxo discursivo (Nitti et al., 2010), a análise da conversa (Kondratyuk & Peräkylä, 2011; Peräkylä et al., 2008; Sutherland et al., 2014), os sistemas de codificação narrativa (Gonçalves et al., 2011, 2017), a microanálise (Bavelas, 2012; De Jong et al., 2020) e a análise dialógica de sequências (Tikkanen et al., 2013). A análise recursiva de quadros (RFA), discutida neste artigo, é outro método baseado no delineamento microanalítico de processo sequencial. Este artigo pretende apresentar tanto o pano de fundo teórico quanto as aplicações práticas do método. Dividimos o processo de realização de uma RFA em oito etapas, semelhantes às usadas na psicologia discursiva (Lester et al., 2018). Embora saibamos que as etapas não se sucedem de forma linear, mas se sobrepõem, elas podem orientar todo o processo, em especial para quem está começando na pesquisa. Embora algumas publicações já descrevam a RFA (Chenail, 1995; Keeney et al., 2015), essa divisão é nova na literatura sobre a RFA. Este texto também oferece inovações, sobretudo na apresentação dos resultados (visualização), e vínculos com outros métodos de pesquisa.
A RFA foi inicialmente desenvolvida como uma ferramenta para anotações clínicas, para a observação atenta do discurso terapêutico e para gerar possibilidades novas e criativas para as ações e intervenções de terapeutas (Keeney, 1990; Keeney & Keeney, 2012b). Desde então, tornou-se um método de pesquisa qualitativa autônomo, adequado ao exame minucioso da mudança terapêutica (Chenail, 1995; Keeney et al., 2015).
Um fundamento teórico importante para o desenvolvimento desse método de pesquisa está nas obras de Bateson (1979, 2000), Goffman (1986) e Spencer-Brown (1994). Ele também se apoia nas teorias dos sistemas complexos, que alguns trabalhos consideram essenciais para a pesquisa sobre processos de mudança (Hayes & Andrews, 2020; Schiepek et al., 2015, 2019). Nesse sentido, a RFA se baseia principalmente na cibernética de segunda ordem (Chenail, 1991; Keeney, 1983, 1987; Keeney & Keeney, 2012a; von Foerster, 2002). Outros referenciais teóricos centrais incluem o construcionismo social (Gergen, 2015; Chenail, 1991; Keeney & Keeney, 2012b) e a teoria das artes performáticas (Keeney, 1990, 2009). Abordaremos com mais detalhe os fundamentos teóricos da RFA nesses três domínios: (1) pressupostos epistemológicos, (2) construcionismo social e psicologia discursiva, e (3) artes performáticas.
Podemos afirmar que a RFA se baseia em três premissas epistemológicas interligadas, tal como formuladas por Bateson (Bateson, 1979, 2000; Keeney & Keeney, 2012a): (1) a importância das distinções, (2) a teoria dos tipos lógicos e (3) o princípio da recursividade (circularidade).
Segundo Bateson, o ato de distinguir ou de reconhecer diferenças1 é o processo fundamental do desenvolvimento do conhecimento. Bateson afirma que toda informação “consiste em diferenças que fazem diferença” (Bateson, 1979, p. 99). Spencer-Brown apresenta uma perspectiva semelhante: “Tomamos como dadas a ideia de distinção e a ideia de indicação, e o fato de que não podemos fazer uma indicação sem traçar uma distinção.” (Spencer-Brown, 1994, p. 1). Essas diferenças moldam a maneira como nós, seres humanos, compreendemos o mundo (Bateson, 1979; Keeney & Keeney, 2012a). É fundamental perceber o ato de fazer distinções como um processo criativo: as distinções são criadas, e não entidades preexistentes à espera de serem descobertas (Keeney & Keeney, 2012a). Assim, a terapia e o uso da RFA na pesquisa são processos essencialmente criativos (Keeney & Keeney, 2012a).
As distinções podem permanecer simples ou existir em formas mais complexas, criando assim os chamados “quadros”. Como formularam Keeney et al.: “Uma distinção que se redistingue suficientemente torna-se um quadro, um contexto que acolhe as reentradas contínuas das redistinções subsequentes” (Keeney et al., 2015, p. 9). Os termos “quadro” e “contexto” mencionados na frase anterior são entendidos como sinônimos na RFA (Chenail, 1995; Keeney et al., 2015).
Segundo Bateson, um quadro pode ser análogo ao conceito matemático de conjunto, sendo a diferença fundamental aquela entre o elemento do conjunto e o próprio conjunto (e, logicamente, o conjunto não pode ser elemento de si mesmo, sob pena de surgir um paradoxo). Bateson (2000) identifica algumas funções típicas dos quadros, como a exclusividade (ao incluir certas mensagens ou ações significativas num quadro, excluem-se certas outras), a inclusividade (ao excluir certas mensagens, incluem-se outras), a relação com as premissas (um quadro participa da avaliação da pertinência das mensagens que contém), a função metacomunicativa (um quadro dá pistas sobre como interpretar as mensagens que contém; ao mesmo tempo, uma mensagem metacomunicativa pode redefinir o quadro) e o “duplo enquadramento” (a ideia de que há sempre outros quadros dentro ou fora dos quadros, de modo que os quadros constituem uma certa hierarquia; não há como escapar do enquadramento e do reenquadramento). Acompanhar as mudanças na hierarquia dos quadros e, ocasionalmente, introduzir mudanças de hierarquia numa conversa terapêutica é uma habilidade fundamental da prática terapêutica. A análise dos quadros e de suas relações é uma atividade fundamental da pesquisa sobre o processo de mudança com o método RFA.
Segundo Bateson (2000), a relação entre o quadro (o contexto) e os elementos desse contexto tem caráter circular (recursivo). O processo contínuo de distinção leva naturalmente a novas diferenciações e significações:
A dinâmica do distinguir, a reentrada contínua da distinção que distingue, é a recursão, a circularidade que opera sobre si mesma, encarnando o movimento circular que cria circularidade. A recursão não é repetição, mas reentrada circular com o uso e a produção de uma ordem diferente de circularidade. (Keeney & Keeney, 2012a, p. 87).
Keeney e Keeney ilustram a recursão evocando o Ouroboros, o conhecido símbolo da serpente que morde a própria cauda. Uma metáfora talvez mais adequada é a espiral, que encarna ao mesmo tempo o movimento circular e a progressão. Essa ênfase na circularidade reflete o modo como elementos de interações anteriores são redescobertos e reutilizados, e como quadros conversacionais podem se transformar em elementos de outros quadros, e vice-versa. Documentar essas reentradas circulares dos quadros no discurso é uma parte importante da metodologia da RFA.
O construcionismo social é uma fonte teórica importante da RFA (Keeney & Keeney, 2012b). Já em seu artigo de 1987, Keeney defendia uma “compreensão ecossistêmica do discurso” e escrevia:
Os construtivistas proporiam que “Como você age é o que você vê”. A RFA vai um passo além e nos lembra que “Como você age é consequência de com quem você está interagindo”. A percepção é, portanto, um acontecimento social, que vai de grupos sociais simples, em que uma pessoa interage consigo mesma, a sistemas mentais mais complexos que envolvem partes de muitas pessoas. (Keeney, 1987, p. 26).
Essa afirmação está em sintonia com o construcionismo social e o distingue do construtivismo (radical) (Anderson, 1997; Gergen, 2015). Os princípios básicos do construcionismo social podem ser resumidos brevemente assim: (1) uma postura crítica diante de uma realidade aparentemente “dada” ou “objetiva”, (2) uma atenção constante aos contextos históricos e culturais que moldam nosso conhecimento e (3) a convicção de que os significados e o conhecimento são criados nas conversas (construção social da realidade), com ênfase no papel da linguagem nesses processos de produção de sentido (Burr, 2003; Gergen, 1985, 2015; Lock & Strong, 2010).
Entre as tradições de pesquisa estreitamente ligadas ao construcionismo social (e em particular à RFA) está a psicologia discursiva (Edwards & Potter, 1992; Chenail, 1995; Chenail & Duffy, 2011; Keeney et al., 2015; Potter & Hepburn, 2007). Uma definição possível de “discurso” afirma: “O discurso é um meio fundamental de ação. É o meio por meio do qual versões do mundo são construídas e tornadas urgentes, ou retrabalhadas como triviais e irrelevantes… O discurso se define, da forma mais simples, como textos e falas enquanto partes de práticas sociais.” (Potter & Hepburn, 2007, p. 275-276). Assim, o discurso pode ser visto como um verbo, e não apenas como um substantivo (Potter & Hepburn, 2007). A descrição de “quadros” (ou “contextos”) apresentada acima está ligada a essa interpretação do discurso, assim como a relação recursiva e mutuamente construtiva entre distinções e quadros.
A psicologia discursiva é uma metodologia de pesquisa flexível e aberta que, assim como a RFA, nasce da filosofia construcionista social e se concentra nos aspectos performativos das conversas (Edwards & Potter, 1992; Lester et al., 2018; Potter & Wetherell, 1987). Embora sua metodologia seja influenciada sobretudo pela análise da conversa (Wooffitt, 2005), ela também utiliza diversos outros métodos (Edwards & Potter, 1992; Lester et al., 2018; Wiggins, 2017), em especial para incorporar à análise os níveis micro e macro do discurso (Nikander, 2007; Wooffitt, 2005).
As artes performáticas têm sido citadas com frequência como fonte de inspiração da RFA. Bradford Keeney, um dos criadores da RFA, é pianista e compositor de jazz. Ele concebe as profissões de ajuda como tendo um caráter artístico (Keeney, 1990, 2009). Seu interesse pelas artes performáticas o levou, com colegas, a criar um método que capta a qualidade da “performance” de quem conduz a terapia junto com a progressão da conversa. Essa orientação para a performance é fortemente sustentada pelo construcionismo social:
A performance é uma das práticas de ponta da teoria construcionista social… A virada performativa está relacionada ao apagamento das fronteiras entre arte e ciência, literário e científico, real e virtual, natureza e criação… Ela volta a teoria sobre si mesma e questiona as fronteiras entre pesquisa, prática e teoria… A performance é a noção construcionista social da produção de sentido como processo comunitário, na medida em que ocorre na linguagem e no diálogo. (Bava, 2005, p. 172 e 174).
Para a equipe que criou a RFA, o processo de mudança numa conversa de ajuda se revela no modo como a pessoa atendida conversa sobre sua situação com quem a atende. Se mudanças puderem ser identificadas nessas conversas, elas podem se manifestar na vida das pessoas atendidas fora da terapia (Gonçalves et al., 2011; Chenail, 1995; Nitti et al., 2010). Chenail compara a RFA a um aparelho auditivo, que permite ouvir sons que de outro modo passariam despercebidos. Do mesmo modo, a RFA pode ajudar, na pesquisa e na terapia, a reconhecer numa conversa significados ou diferenças que de outro modo seriam considerados sem sentido ou mero “ruído” (Chenail, 1995, p. 4). O modelo da “peça em três atos” de Field, usado na RFA, funciona como um aparelho auditivo para detectar mudanças no discurso terapêutico (Keeney, 2009; Keeney et al., 2015).
Esse modelo em três atos sugere que a performance criativa exige deslocamentos progressivos por três atos: um ato de abertura, seguido de um ato intermediário que faz a ponte para o ápice da performance num ato final (Keeney, 2009). Essa estrutura simples em três atos ajuda a identificar se alguma mudança ocorre numa conversa terapêutica, passando do ciclo original de experiência empobrecida (ato 1), pela exploração de novas possibilidades (ato 2), até o desenvolvimento e a consolidação da mudança e dos recursos (ato 3). O processo completo pode ser resumido da seguinte forma:
No entanto, a transição entre os atos, na terapia, não é nem linear nem unidirecional. O princípio da recursividade, ou circularidade, continua valendo, o que implica que o movimento entre os atos se dá de forma um tanto cíclica ou giratória: do círculo vicioso, em que se fica preso num problema ou encerrado num quadro empobrecido ou patológico (Keeney et al., 2012), para um círculo virtuoso, mais desejável e construtivo. A equipe que criou a RFA descreve assim os diferentes atos desse movimento:
Precisamos, repetidas vezes, lembrar a nós mesmos que nem uma sessão nem a própria vida seguem um enredo linear em linha reta. As pessoas vão e voltam entre quadros, pegam saídas laterais e, sobretudo, andam em círculos, ou em outras formas de meandros em laço… Pôr em movimento um círculo virtuoso de interação é o primeiro objetivo da transformação e da mudança. Mantê-lo em movimento é o segundo. O objetivo final é deixá-lo em paz para que continue a se alimentar de maneira positiva e rica em recursos. (Keeney et al., 2015, p. 35-36).
Além de não ser linear, a transição entre os atos também não é unidirecional. O segundo ato às vezes é descrito como a etapa “intermediária” ou “de ponte” (Keeney, 1990, 2009) e pode ser comparado ao movimento de um pêndulo (Keeney et al., 2015). Ao entrar no ato 2, uma conversa de ajuda parece se afastar da fragilidade do quadro empobrecido em direção a algo criativo e potencialmente benéfico para a pessoa atendida. Esse movimento, porém, é apenas um primeiro passo, que pode voltar ao quadro empobrecido original, como faz um pêndulo, ou “fundir-se” no ato 3, levando ao reforço e à consolidação da mudança e à criação de um novo quadro rico em recursos (Keeney, 2009).
Uma sessão terapêutica útil costuma incluir várias transições entre os atos 1, 2 e 3, nos dois sentidos, antes de se estabilizar finalmente no ato 3. Por outro lado, uma sessão terapêutica mal conduzida tende a ficar presa no ato 1, ou a voltar a ele depois de algumas tentativas de avançar para o ato 2 e, possivelmente, para o ato 3.
Conduzir a conversa da sessão para quadros benéficos está em sintonia com numerosas pesquisas que destacam a importância dos fatores “extraterapêuticos”, “de vida” ou “do cliente” na mudança terapêutica (Duncan et al., 2004, 2010; Sprenkle et al., 2013; Wampold, 2001). Esses fatores não são generalizáveis, porque variam de uma pessoa atendida para outra e surgem uma pessoa de cada vez, num contexto específico (Duncan, 2010). Exemplos incluem habilidades, conhecimentos, motivação e apoio social da pessoa, mudanças de emprego ou de relações próximas, espiritualidade, traços pessoais etc. Embora os fatores do cliente sejam difíceis de quantificar, é de importância vital identificá-los e “ativá-los” como recursos para a mudança terapêutica, qualquer que seja a abordagem terapêutica utilizada (Duncan, 2010; Flückiger et al., 2009). Em outras palavras, as abordagens terapêuticas oferecem muitas maneiras de passar de quadros empobrecidos para quadros mais ricos em recursos. A RFA é um dos métodos de pesquisa em psicoterapia capazes de captar “evidências conversacionais/discursivas” (Strong et al., 2008) dos recursos e dos contextos benéficos que emergem durante a conversa (Keeney et al., 2015).
Poucas publicações descrevem como usar a RFA. Ainda assim, elas mostram que o uso da RFA como metodologia de pesquisa não é fixo nem rigidamente manualizado, e que há muitas maneiras de realizá-la (Cotton, 2010; Chenail, 1995; Keeney, 1990; Keeney et al., 2015; Pelak, 2016; Peng, 2014). Essa flexibilidade é intencional e reflete a noção radical de “autoinclusão” de quem pesquisa (Keeney et al., 2015). Neste texto, descrevemos a RFA em oito etapas gerais que se sobrepõem, semelhantes às usadas na psicologia discursiva (Keeney et al., 2015; Lester et al., 2018; Wiggins, 2017): (1) objetivo de pesquisa, (2) coleta de dados, (3) processamento dos dados, (4) transcrição, (5) análise dos dados, (6) apresentação dos resultados e formas de visualização da RFA, (7) métodos de análise complementares e (8) gestão da qualidade da pesquisa.
A RFA é geralmente usada para analisar o nível performativo do uso da linguagem nas conversas. Portanto, qualquer tipo de conversa pode ser submetido à RFA (Keeney et al., 2012). No entanto, ela não pode ser usada para estudar diretamente percepções ou quaisquer outras “entidades internas” pressupostas, próprias das pessoas que participam de uma conversa, nem para classificar essas “entidades” (Chenail & Duffy, 2011; Keeney et al., 2015). Em geral, os estudos que adotam a RFA como metodologia formulam seus objetivos em termos relativamente amplos e os desenvolvem com a ajuda de questões de pesquisa complementares (Keeney et al., 2015; Lester et al., 2018). Nos estudos sobre o processo de mudança em psicoterapia que utilizam a RFA, a questão de pesquisa costuma se centrar nos deslocamentos do discurso terapêutico, mostrando como a mudança ocorreu durante a sessão. Questões de pesquisa mais específicas podem ser formuladas, reformuladas ou acrescentadas a partir do trabalho efetivo com os dados. Essa abordagem permite maior flexibilidade à pesquisa e o foco indutivo tipicamente associado às estratégias de pesquisa qualitativa (Lester et al., 2018).
A coleta de dados está diretamente ligada ao objetivo de pesquisa. De modo geral, a RFA procura trabalhar com dados que ocorrem naturalmente, que existiriam mesmo que não fossem coletados para fins de pesquisa (Potter & Hepburn, 2005; Wiggins, 2017). Uma fonte típica, e inteiramente “naturalista”, de dados para a RFA são as gravações de sessões terapêuticas (Chenail, 1995; Lester et al., 2018). Idealmente, para a RFA, as gravações em vídeo são preferíveis, pois permitem captar tanto os aspectos verbais quanto os não verbais da conversa. No entanto, também é possível usar apenas gravações de áudio para obter percepções valiosas sobre as mudanças no discurso terapêutico (Chenail, 1995; Rudes et al., 1997).
Esta fase está estreitamente ligada à anterior. Durante o processamento, os dados são armazenados, compartilhados, organizados, transcritos e anotados (Lester et al., 2018; Miles & Huberman, 1994). O processamento dos dados precisa ser feito de modo transparente, estruturado, legal e ético, o que inclui a proteção da confidencialidade das pessoas atendidas. A natureza orientada para a performance da RFA exige que a equipe de pesquisa oscile constantemente entre as gravações, as transcrições e os procedimentos analíticos (Chenail, 1995; Keeney et al., 2015). Por isso, estabelecer o sistema de processamento dos dados é um passo crucial para o sucesso futuro.
Como já dito, as gravações precisam ser transcritas. A transcrição é um elemento crucial do processo de análise (Chenail, 1995; Wiggins, 2017). Ela oferece uma “base sólida para a análise” (Nikander, 2007), permite uma verdadeira exploração empírica (Keeney & Keeney, 2012b) e aumenta a transparência do estudo (Nikander, 2007). É importante notar, porém, que as transcrições não podem substituir a base de dados primária (O’Connell & Kowal, 1995). A análise deve sempre incorporar simultaneamente as transcrições e as gravações (Lester et al., 2018).
A transcrição poderia ser incluída na fase anterior (processamento dos dados), mas, por sua importância e pelo tempo que exige, costuma ser tratada como uma fase de pesquisa à parte (Lester et al., 2018). Ao transcrever as gravações, pode-se seguir um dos sistemas de transcrição estabelecidos, como o sistema Jefferson (Jefferson, 2004), ou desenvolver um sistema próprio, que se torna então uma ferramenta crucial para se familiarizar com os dados (Lester et al., 2018). Ao decidir qual sistema de transcrição usar, é essencial considerar o uso previsto da transcrição no estudo e lembrar qual será o público do texto resultante (Mergenthaler & Stinson, 1992; O’Connell & Kowal, 1995). Também é essencial equilibrar a atenção aos detalhes e o número de símbolos e comentários de transcrição, levando em conta a viabilidade, a inteligibilidade e a “elegância intelectual” da transcrição (Mergenthaler & Stinson, 1992).
Os estudos com RFA usam mais comumente transcrições simples, com um número mínimo de comentários e símbolos (Cotton, 2010; Chenail & Duffy, 2011; Keeney et al., 2015; Peng, 2014). Seguindo as recomendações de O’Connell e Kowal (1995) e de Keeney et al. (2015), e à luz de nossa própria experiência, recomendamos o seguinte sistema (tabela 1).
Tabela 1 — Sistema de transcrição para a RFA
Esse sistema de transcrição simples permite gerar transcrições bastante detalhadas e inteligíveis. Todos os elementos essenciais, exceto a ênfase ligada à entonação, que tornaria a transcrição complexa demais, são incorporados como simples comentários entre parênteses. Ao mesmo tempo, essas transcrições servem como ferramentas de referência que complementam as gravações originais. Por isso, todos os comentários nelas contidos pretendem funcionar como indicadores de acontecimentos intrigantes e significativos da conversa: eles convidam quem analisa a confrontar esses momentos importantes com a gravação original. Graças à inclusão regular de marcações de tempo, essa forma de transcrição também facilita a navegação rápida pela gravação. Outros símbolos de transcrição também podem ser integrados ao sistema, caso seja preciso acompanhar aspectos específicos da conversa na pesquisa.
Chenail define a RFA como “um tipo de análise sequencial que ajuda a pesquisa a notar deslocamentos semânticos numa conversa” (Chenail, 1995, p. 7). Ao longo da RFA, é possível acompanhar o conteúdo (o que é dito), a consequencialidade (a sequência do que é dito e seu impacto) e o processo (a passagem de um tema a outro) da conversa, incluindo o modo como cada participante usa a linguagem para criar deslocamentos no discurso (Edwards & Potter, 1992; Chenail, 1995; Wiggins, 2017). Essas observações podem ser incorporadas diretamente às transcrições, usando diferentes tipos ou cores de texto para distinguir as interpretações das transcrições brutas (Chenail & Duffy, 2011; Keeney et al., 2015; Wiggins, 2017). Pode-se usar um software adequado (p. ex., ELAN) ou diversos métodos de visualização da RFA, mencionados na próxima seção do artigo. Segundo Chenail, a RFA usa quatro níveis básicos de análise: semântico, sequencial, pragmático e consensual2 (Chenail, 1995; Chenail & Duffy, 2011).
O nível semântico da análise se concentra em captar os elementos portadores de sentido: os quadros e sua organização hierárquica. A pesquisa com RFA estuda a “anatomia” de uma conversa, ou sua estrutura significativa (Keeney, 1990; Rambo et al., 1993). Ela observa e capta nuances detalhadas: as distinções e sua organização em quadros, ou em níveis superiores do discurso, que a RFA chama de “galerias”, “alas” e “museus” (Chenail & Duffy, 2011; Keeney, 1990). Esses termos um tanto inusitados designam uma hierarquia de quadros por meio da metáfora da visita a um museu. Examinar quadros individuais pode ser comparado a ver pinturas dispostas em galerias, que fazem parte de unidades maiores, as alas do museu, e tudo faz parte do museu como um todo. A maneira mais simples de fazer a análise semântica é captar os temas da conversa (que muitas vezes formam quadros na conversa) e agrupar temas semelhantes em níveis superiores do discurso. É importante não tratar os quadros como unidades fixas, mas acompanhar as mudanças e as reentradas dos quadros ao longo de toda a conversa.
O princípio-chave dessa fase de análise é permanecer o mais próximo possível dos dados originais, por exemplo usando sistematicamente a linguagem da conversa observada para nomear os quadros (Keeney, 1990; Keeney et al., 2015) e evitando, sempre que possível, interpretações generalizadas ou uma terminologia revisada. No entanto, ao nomear galerias ou outros níveis superiores do discurso, como essa fase envolve certo grau de generalização e de agrupamento temático de quadros afins, essa regra estrita não se aplica. Essa questão talvez tenha levado a equipe que criou a RFA a preferir, em trabalhos posteriores, visualizações de quadros individuais, sem representar as galerias ou outros metaquadros gerais (Keeney et al., 2015). Por outro lado, criar galerias, alas e museus na análise semântica torna o “mapa” da sessão mais fácil de compreender. Podemos também observar que, mesmo em seu livro mais recente, a equipe que criou a RFA usa esquemas de metaquadros que incluem quadros (Keeney et al., 2015, p. 187, 235, 261).
O nível sequencial da análise, que vem em seguida, se concentra no desenvolvimento gradual dos quadros interacionais ao longo do tempo. Em outras palavras, observa como esses quadros se sucedem cronologicamente (Chenail & Duffy, 2011). Como já dito, o sentido de um quadro se define por sua relação com outros quadros, os que o precederam e os que virão depois (Chenail, 1995; Keeney & Keeney, 2012a). Estreitamente ligado ao anterior, esse nível de análise examina as transições entre quadros, notando como alguns quadros funcionam como “aberturas” ou “fechamentos” de outros (Chenail, 1995; Keeney, 1990). A análise sequencial também evidencia as relações recursivas (circulares) entre quadros. Isso se vê, por exemplo, quando certos quadros reaparecem em novos contextos e podem influenciar e modificar as relações entre diferentes quadros ou contextos dentro da hierarquia mais ampla de contextos (Keeney et al., 2015).
O nível pragmático da análise se concentra no domínio da “ação social” ou da “função da linguagem” (Edwards & Potter, 1992; Lester et al., 2018; Wiggins, 2017). Ele examina como as pessoas que participam de uma conversa terapêutica contribuem para a mudança dos quadros. Como já mencionamos, a RFA utiliza a “estrutura da peça em três atos” de Field, adequada para registrar qualquer atividade criativa, incluindo as conversas terapêuticas (Keeney, 2009; Keeney et al., 2015). No contexto das conversas terapêuticas, a estrutura da peça em três atos permite reconhecer qualquer deslocamento a partir do quadro empobrecido original (ato I), pela emergência de novas possibilidades (ato II), em direção ao reforço e à consolidação da mudança numa experiência rica em recursos (ato III). Esse nível de análise também identifica como as mudanças ocorrem entre os atos, que participantes da conversa contribuíram para a mudança e por quais meios.
Embora a equipe que criou o método RFA não mencione diretamente a análise consensual, o ideal é aplicar a RFA em equipes de pesquisa (Chenail, 1995; Peng, 2014). O objetivo é favorecer o desenvolvimento de uma compreensão compartilhada das conversas estudadas por meio de trocas entre os diferentes membros da equipe, chamadas de “sessões de dados” (data sessions) (Hill, 2011; Wiggins, 2017). É o que se conhece como nível consensual da análise, que traz novas percepções enriquecedoras e facilita a troca de perspectivas variadas, levando a uma compreensão mais nova e mais complexa do objeto estudado. Isso está em sintonia com os princípios epistemológicos das teorias socioconstrutivistas importantes para a RFA e, sobretudo, aumenta a “confiabilidade” ou a “validade” do estudo (Elliott et al., 1999; Hill, 2011).
Todos os níveis de análise mencionados acima, talvez com exceção do consensual, correspondem aos principais focos da análise sequencial na psicologia discursiva. Eles são representados pelas perguntas “o quê”, “quando” e “como” (Wiggins, 2017). Ao longo de todo o processo de RFA, quem analisa transita continuamente entre eles.
Na apresentação dos resultados da RFA, a ênfase está na visualização da estrutura da conversa terapêutica. Dá-se atenção especial a seus aspectos performativos, à circularidade das construções e reconstruções de quadros e aos momentos de desenvolvimento criativo e de mudança. Diversas formas de visualização da RFA correspondem a esses objetivos. Pode ser uma simples “cadeia” de quadros ligados, o agrupamento de quadros em metaquadros (chamados de “galerias”, “alas” etc.) ou a colocação de um quadro dentro de outro, trocando suas posições interna e externa no esquema quando necessário (para exemplos, ver Cotton, 2010; Chenail & Duffy, 2011; Keeney, 1990; Keeney et al., 2015; Peng, 2014). Não existe um sistema de apresentação unificado; por isso, as equipes que usam a RFA são incentivadas a criar novas maneiras de apresentar seus resultados, de acordo com o foco de sua análise e as necessidades de sua pesquisa (Keeney et al., 2015).
Queremos apresentar aqui a forma de apresentação da RFA que utilizamos. Essa apresentação é especialmente adequada para documentar a dinâmica evolutiva de uma conversa terapêutica, o que é importante para a pesquisa sobre o processo de mudança. Essa visualização capta a oscilação do discurso da conversa entre os atos de uma “estrutura em três atos” (figura 1; Keeney et al., 2015).

Como exemplo de mapa de RFA, usamos a sessão conduzida por Insoo Kim Berg, cofundadora da terapia breve focada nas soluções (TBFS). Nessa sessão, a terapeuta trabalha com Carl, um jovem de 17 anos que tentou suicídio na noite anterior. A figura 2 mostra um mapa detalhado da primeira parte da sessão, do início (tempo no vídeo: 5min31) até o enunciado número 128 (tempo no vídeo: 17min33)3.

A primeira coluna à esquerda mostra o número do enunciado na transcrição, e pode incluir também o tempo da gravação, para facilitar a busca e acompanhar melhor a duração da sessão. Num relatório de pesquisa típico, a transcrição completa ficaria acessível para que o público leitor pudesse examinar como quem analisa constrói os quadros e as galerias. A transcrição completa não foi incluída aqui por falta de espaço; apresenta-se apenas um breve exemplo (ver abaixo). Os quadros e as galerias são então representados nas três colunas identificadas com os atos. Num mapa de RFA, os quadros podem ser listados separadamente ou agrupados em galerias mais gerais. Este exemplo inclui tanto quadros individuais quanto sua organização em galerias.
O mapa de RFA mostra como o discurso oscilou entre os atos ao longo do tempo. Como o esquema demonstra, as mudanças na performance discursiva não seguem um processo linear simples e direto. Ao contrário, há numerosos retrocessos e avanços ao longo da sessão (ver as galerias 4 e 5; também logo após o enunciado 128, onde o trecho termina, a conversa voltou ao ato II, e foram necessários cerca de dez minutos a mais para retornar ao ato III).
Esse esquema pode ser feito com a simples função de tabela disponível em quase todo editor de texto. Também é possível usar setas entre os quadros, de preferência coloridas. Os quadros aparecem em células delimitadas, e as linhas deixadas em branco dão a oportunidade de inserir notas sobre os deslocamentos entre quadros. Esse método de visualização da RFA tem uma desvantagem: não representa com precisão a natureza circular do processo de mudança. Tentamos compensar essa desvantagem numerando os quadros e anotando entre parênteses o número do quadro quando um quadro reentra num novo quadro. Marcadores particularmente significativos de mudança no discurso são os momentos em que quadros antes empobrecidos reentram em quadros ricos em recursos (ver 8.1., 9.1., 9.2.).
Esse mapa de RFA permite um exame detalhado da evolução e do desenrolar de uma conversa ao longo do tempo, no contexto de uma “estrutura em três atos” (do ato I ao ato III e vice-versa). A análise das transições discursivas entre os atos mostra que tanto a terapeuta quanto o cliente iniciaram esses deslocamentos nos dois sentidos. No entanto, a terapeuta iniciou os deslocamentos do ato I para o ato II, ou do ato II para o ato III, com frequência significativamente maior do que o cliente. Uma investigação mais aprofundada mostra que ela usou principalmente perguntas ou enunciados empáticos para facilitar essas transições. Em contrapartida, o principal iniciador dos deslocamentos no sentido inverso, do ato III para o ato II ou do ato II para o ato I, era em geral (embora não exclusivamente) o cliente, ao trazer narrativas saturadas pelo problema. O exemplo a seguir, tirado da transcrição da sessão, mostra a maneira de distinguir os quadros e as transições entre eles.
Exemplo (de Shazer et al., 2007, p. 113-115).
37) Carl: (com lágrimas nos olhos) Até que eu inclinei a cabeça para trás e fiz minhas últimas orações, ou sei lá. E aí eu simplesmente comecei a cortar; e dá para ver bem aqui (mostra o pescoço à terapeuta).
38) Insoo: Sim. É. Sim, estou vendo, sim.
39) Carl: … e tenho sorte de estar vivo hoje. Sabe, de poder falar sobre isso, porque eu não sabia que tinha uma faca mais afiada do lado, mas peguei aquela faca porque era a maior.
40) Insoo: É.
41) Carl: Então eu achei que ia fazer mais estrago, ou algo assim.
42) Insoo: Certo.
43) Carl: Então eu só, não sei; agradeço a Deus todo dia, sabe. (pausa)
44) Insoo: Então, o que ajudou? O que ajudou para que não fosse até o fim? (aponta para o próprio pescoço)
45) Carl: É, quer dizer, não sei. Quer dizer, quando eu estava… a faca não estava… não era tão afiada, era tipo uma faca de manteiga ou algo assim.
46) Insoo: É. (parece surpresa)
47) Carl: Era só, sabe, e aí eu fiz de um jeito que cortasse mais forte, então na verdade eu fiz força.
48) Insoo: É.
49) Carl: Então. (pausa)
50) Insoo: E você está dizendo que essa não é a primeira vez. Já aconteceu outras vezes também.
51) Carl: Já aconteceu outras vezes, mas essa é a pior.
52) Insoo: Essa é a pior até agora.
53) Carl: É. Outras vezes foi tipo me queimar com um ferro de passar, ou algo assim, tipo bem aqui.
54) Insoo: É. Nossa.
55) Carl: … ou algo assim.
56) Insoo: É.
57) Carl: Quer dizer, vinham todo tipo de pensamento na minha cabeça…
58) Insoo: É.
59) Carl: … que eu, sabe, eu só peço a Deus para não pensar mais neles. Eles simplesmente, sabe, eles simplesmente aparecem sempre que, sabe, eu estou me sentindo deprimido ou algo assim, sabe, suicida, sabe.
60) Insoo: Certo. Então, como você conseguiu chegar à escola hoje?
61) Carl: Bom, essa também é uma longa história.
62) Insoo: Que noite… quer dizer, foi uma noite terrível a que você teve.
63) Carl: Uma noite terrível mesmo.
64) Insoo: Como você conseguiu chegar na hora à escola?
65) Carl: Bom, na verdade é meio incrível, porque enquanto todo esse conflito acontecia, eu estava na casa da minha tia…
66) Insoo: É.
67) Carl: … e eles queriam que eu dormisse lá. Disseram: você precisa descansar, ou sei lá.
68) Insoo: Sim.
69) Carl: Eu disse não, quero voltar para casa para poder levantar e ir à escola de manhã.
70) Insoo: Meu Deus.
71) Carl: Porque eu ainda não faltei nenhum dia na escola. Pelo menos… bom, dois dias, mas esses foram contados, sabe, como se, sabe, eu estivesse lá.
72) Insoo: É.
73) Carl: Como quando eu ia ao médico ou algo assim.
74) Insoo: É.
75) Carl: Mas eu já entrei duas vezes, sabe, na lista de frequência perfeita.
76) Insoo: Mas, depois de uma noite terrível como a de ontem, você ainda assim foi à escola.
77) Carl: É.
78) Insoo: E você me ajudou; você está tentando me ajudar hoje… hoje de manhã. E você até participou do grupo, com um grupo grande de pessoas.
79) Carl: Grande. (sorri)
80) Insoo: Um grupo muito grande de pessoas. Você é muito extrovertido, muito inteligente, se expressa muito bem. Fiquei absolutamente impressionada quando vi… o que ouvi hoje de manhã e agora, porque não tive oportunidade de falar com você, estava tudo muito corrido. E você simplesmente conseguiu meio que deixar isso de lado.
81) Carl: Certo.
O trecho começa no quadro 3.7, em que o cliente descreve a história terrível da tentativa de suicídio da noite anterior. A terapeuta (Insoo) propõe passar ao ato II com uma pergunta centrada no que ajudou Carl a não se ferir mais (enunciado 44). Esse convite abre uma nova galeria (4), que poderia abrir um caminho para os recursos do cliente. No entanto, Carl descreve que a faca não era afiada o bastante (enunciados 45 e 47), ao que a terapeuta responde com validação, embora, ao mesmo tempo, se note alguma surpresa. Após uma breve pausa, Insoo segue com um foco muito pouco característico dela na ocorrência do problema no passado, o que pode ser visto como um passo atrás, para o ato I. A própria Insoo comenta esse passo como uma avaliação informal do risco de suicídio (de Shazer et al., 2007, p. 114). De todo modo, trata-se de um movimento do ato II para o ato I iniciado pela terapeuta, o que é raro nessa sessão. O novo convite ao ato II vem outra vez da terapeuta, no enunciado 60, quando ela se concentra em como Carl chegou à escola depois de uma noite tão difícil. Mais adiante na sessão (sobretudo no quadro 8.1), a escola surge como um recurso-chave, que oferece a Carl motivação e apoio em situações difíceis. Esse recurso é depois mobilizado, ou “ativado”, durante a conversa (no quadro 14.2, que não consta do trecho do mapa de RFA da figura 2 e se situa no ato III, Carl descreve a escola como uma “segunda casa” e, junto com outros recursos, como estratégias de enfrentamento (galeria 18), o reconhecimento de sinais de alerta (galeria 17) ou uma nova visão de si mesmo (galeria 20), ela forma um conjunto interligado de elementos significativos para a mudança terapêutica).
A RFA, por si só, fornece um “mapa”, ou uma “partitura”, útil de uma conversa terapêutica, permitindo uma visão aprofundada de todo o processo conversacional (Keeney et al., 2015). No entanto, dependendo dos objetivos do projeto de pesquisa, ela pode ser enriquecida com outras ferramentas e procedimentos analíticos, em especial diversos tipos de análise da conversa (Bavelas, 2012; De Jong et al., 2020; Fitzgerald, 2013; Korman et al., 2013). Esses métodos costumam ser demorados e exigentes, por isso é crucial selecionar para exame a parte mais relevante da sessão. É essencialmente a questão de pesquisa que orienta essa decisão. Se nosso objetivo é analisar momentos de mudança no discurso, provavelmente devemos nos concentrar nas sequências que abrangem os três atos em sequência (de preferência sem retrocessos). No caso apresentado, selecionaríamos os momentos de deslocamento discursivo da galeria 5 à galeria 8 (que abrangem os três atos), analisando especificamente a passagem da galeria 5 para a 6 e da galeria 7 para a 8. Nessa perspectiva, a RFA funciona como uma estratégia de amostragem eficaz, e o mapa de RFA indica onde concentrar a atenção detalhada.
Outro método de análise amplamente utilizado, estreitamente ligado à análise da conversa, é a “análise de quadros” de Keeney (Chenail & Duffy, 2011; Keeney, 1990). Esse método incorpora um sistema potencialmente complexo para analisar e transcrever as relações entre diferentes quadros e suas mudanças ao longo do tempo. O modelo da ação discursiva (DAM, Discursive Action Model), bem conhecido na psicologia discursiva (Edwards & Potter, 1992; Lester et al., 2018; Wiggins, 2017), oferece outro método de análise adequado. O DAM permite concentrar-se em três níveis: (a) ação, (b) fato e interesse e (c) responsabilização. Explorar os recursos discursivos (Wiggins, 2017) pode ser um elemento adicional interessante para a análise por RFA. No futuro, talvez seja possível observar as mudanças discursivas entre os atos por meio de sistemas automatizados baseados em IA (Imel et al., 2015; Smink et al., 2019).
A pesquisa que utiliza o método RFA deve sempre incluir a gestão da qualidade. Já existem numerosas diretrizes que apoiam o monitoramento da qualidade da pesquisa qualitativa em geral (Denzin & Lincoln, 2005; Lincoln & Guba, 1985; Silverman, 2004). Também há diretrizes especialmente adequadas à gestão da qualidade das análises discursivas (Avdi & Georgaca, 2007; Lester et al., 2018; Tseliou, 2013). Uma análise detalhada de cada critério de qualidade está além do escopo deste artigo. Ainda assim, podemos resumir brevemente alguns aspectos relevantes para as RFA em termos de cuidado com a qualidade da pesquisa:
A RFA é um método de pesquisa que permite visualizar os processos conversacionais, favorecendo uma compreensão mais profunda deles. Identificar fatores influentes nesses processos pode beneficiar todas as pessoas que participam dos diálogos terapêuticos, pois pode ajudar a tornar as sessões mais relevantes para as pessoas atendidas. A equipe que desenvolveu a RFA afirma que essa abordagem poderia ajudar a fortalecer o aspecto “artístico” ou “performativo” dessas conversas de ajuda (Keeney et al., 2012). Ela oferece um retorno imediato sobre a performance de quem conduz a sessão, porque torna evidente se o discurso progrediu ou se a sessão ficou travada. Ao mesmo tempo, essa equipe observa que esse tipo de pesquisa é, em si, uma arte, o que sugere que as duas estão entrelaçadas.
A prática da análise não é diferente da performance ao vivo que ela estuda, pois, ao se esforçar para discernir e acompanhar a mudança, ela também está realizando a mudança. A RFA pede a quem pesquisa que interaja de forma criativa com o discurso examinado, inspirando uma ação que cria distinção. Esse mapeamento é mais do que um traçado; é uma dança com uma linha de ação passada, de um modo que dá vida presente tanto ao mapa indicado quanto ao território distinguido, cada um fazendo emergir quadros generativos para o outro. Discernir a vida numa sessão orientada para a mudança exige uma pesquisa cuja performance ganhe vida. Precisamos reentrar na busca de mudança que a pessoa atendida e quem a atende percorreram primeiro. Nessa re-busca, podemos descobrir que nossa compreensão, e nosso modo de participar de sua construção, também estão mudando. (Keeney et al., 2012, p. 70).
O vínculo circular, ou recursivo, entre prática, pesquisa e teoria é importante para todo o campo da psicoterapia, e a RFA poderia dar uma contribuição benéfica a ele.
Complexe Systémique: a reter
Para a clínica sistêmica, o interesse da RFA está em tornar visível o que se percebe na sessão sem conseguir mostrar: o momento em que a conversa deixa o quadro empobrecido do problema, se aventura em direção a outra coisa e depois volta a ele ou se estabiliza em outro lugar. O mapa em três atos proposto pela equipe tcheca e polonesa se constrói com uma simples tabela e se lê como uma partitura. O trecho da sessão de Insoo Kim Berg com Carl, de 17 anos, no dia seguinte a uma tentativa de suicídio, oferece uma ilustração marcante: uma pergunta sobre como ele conseguiu chegar à escola abre um recurso que atravessará toda a sessão. O método também pode servir para rever as próprias gravações e identificar quem inicia os avanços e os retrocessos. Seus limites são assumidos: não há um manual único, a notação depende do olhar da equipe, a apresentação em colunas achata a circularidade e o artigo, metodológico, oferece apenas um breve exemplo, sem estudo completo. Para ler junto com o argumento a favor de filmar a própria prática e com a análise da conversa das repetições no diálogo aberto.
Notas do original
1 Bateson usa o termo “diferença”, enquanto Spencer-Brown e Keeney usam o termo sinônimo “distinção”.
2 Chenail distingue explicitamente apenas os três primeiros níveis de análise (semântico, sequencial e pragmático); o nível consensual está incluído de forma mais implícita em seus escritos, pela referência ao trabalho das equipes que analisam juntas as gravações de sessões terapêuticas (Chenail, 1995; Chenail & Duffy, 2011).
3 Uma gravação em vídeo dessa sessão está disponível no DVD didático I’m glad to be alive…: Working with suicidal youth (SFBTA). A transcrição completa da sessão está no livro More than Miracles, no capítulo “My real self” (de Shazer et al., 2007, p. 111-132). Infelizmente, a numeração dos enunciados não consta da transcrição do livro.
Financiamento. Publicação em acesso aberto apoiada pelas instituições participantes do Acordo Transformativo CzechELib.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
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Tradução não oficial em português de A análise recursiva de quadros como método de pesquisa sobre o processo de mudança em psicoterapia, de Leoš Zatloukal, Pavlína Jurníčková e Jacek Szczepkowski, Contemporary Family Therapy, vol. 48, no 2 (2026), doi: 10.1007/s10591-025-09754-y, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista, figuras em inglês). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Recursive Frame Analysis as a Method of Psychotherapy Change Process Research”, publicado em Contemporary Family Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Zatloukal, L., Jurníčková, P., et Szczepkowski, J. (2026). A análise recursiva de quadros como método de pesquisa sobre o processo de mudança em psicoterapia (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-analise-recursiva-de-quadros-como-metodo-de-pesquisa-sobre-o-processo-de-mudanca (Obra original publicada em 2025 em Contemporary Family Therapy, 48(2), 185-197 (2026); republicada em 2026 por Contemporary Family Therapy, https://link.springer.com/article/10.1007/s10591-025-09754-y)
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