Journal of Family Therapy · Terapia familiar

A experiência das equipes de terapia multissistêmica com famílias racializadas na Inglaterra

Por que as famílias racializadas concluem com menos frequência a terapia multissistêmica? A equipe de Nadia Khan, na Royal Holloway (Universidade de Londres), reuniu sete grupos focais com 22 terapeutas e responsáveis pela supervisão de MST na Inglaterra. O resultado é um modelo de dez códigos, em que a desconfiança em relação às instituições, as diferenças de aculturação, o racismo vivido e a língua pesam tanto quanto a técnica, e em que a pessoa terapeuta se torna ponte cultural.

Autores Nadia Khan (Departamento de Psicologia Clínica, Royal Holloway, Universidade de Londres); Simone Fox (King’s College London e South London and Maudsley NHS Foundation Trust); Emily Glorney (Departamento de Direito e Criminologia, Royal Holloway, Universidade de Londres)Primeira publicação Journal of Family Therapy, 14 de julho de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A experiência das equipes de terapia multissistêmica com famílias racializadas na Inglaterra, de Nadia Khan, Simone Fox e Emily Glorney, publicado na Journal of Family Therapy (Wiley) (2025), doi: 10.1111/1467-6427.70000, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas, e os pontos-chave foram colocados no quadro do resumo; a figura é reproduzida na versão em inglês, com legenda traduzida; uma citação cortada em duas na versão on-line (seção 3.7) foi reunida num único trecho. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Documentar as considerações culturais representa um meio-termo adequado entre relativismo cultural e absolutismo cultural.

Nadia Khan, Simone Fox e Emily Glorney

Resumo

A juventude racializada está sobrerrepresentada no sistema de justiça criminal, mas tem menos chances de ser encaminhada a serviços de apoio, de ter acesso a eles e de se engajar neles. As famílias que vivem mais desconfiança cultural e mais desvantagens são provavelmente as que não concluem a terapia multissistêmica (MST). Este estudo explorou a experiência das equipes de MST na Inglaterra para compreender melhor o engajamento e a mudança das famílias racializadas na MST. Sete grupos focais (n = 22) embasaram uma teoria fundamentada construtivista. Dez códigos teóricos foram usados para construir um modelo de engajamento e mudança na MST para famílias racializadas: o acesso à MST; a relação da família com a ajuda; a construção de uma aliança terapêutica; a estrutura e o funcionamento da família; aculturação e identidade; o contexto familiar desempoderado; o trabalho de mediação cultural; o fortalecimento do poder de agir das famílias; poder e língua dentro da família; e o trabalho com intérpretes. Os resultados ampliam pesquisas anteriores realizadas com jovens e figuras parentais de minorias racializadas e evidenciam barreiras sistêmicas ligadas ao poder, à cultura e à língua.

Pontos-chave

  • Dar atenção à desconfiança cultural e oferecer às famílias um espaço de apoio para refletir sobre os efeitos do racismo sistêmico.
  • Ajudar as famílias a se orientar nas instituições e a contestar o racismo.
  • Considerar a definição de regras básicas para a tradução, a fim de não excluir indiretamente as figuras parentais que não falam inglês.
  • Usar ensino, reflexão e formação para que terapeutas se tornem capazes de conduzir conversas que ajudem as famílias a situar suas experiências no contexto social e histórico.

1. Introdução

A juventude racializada está sobrerrepresentada no sistema de justiça criminal da Inglaterra e do País de Gales (Ministry of Justice; MoJ 2021): em 2019, respondia por 51% das pessoas nas instituições penais para jovens (MoJ 2021), embora corresponda a 14% da população geral de 15 a 21 anos. Essa juventude tem mais probabilidade de ter vivido desvantagens socioeconômicas e experiências adversas na infância, associadas a pouco envolvimento com os estudos ou a formação profissional e, depois, à entrada em condutas infracionais (Junger-Tas 2001). Apesar de apresentar necessidades maiores que as da juventude branca, a juventude racializada tem menos chances de procurar apoio terapêutico, de ter acesso a ele e de se engajar nele (O’Brien et al. 2009), o que perpetua o baixo engajamento com os serviços de saúde mental nas comunidades racializadas (Delphin-Rittmon et al. 2015; Maura e Weisman de Mamani 2017). Há a obrigação de demonstrar melhor a capacidade das intervenções psicossociais de atender às necessidades culturais dessas famílias e desses jovens, para quem uma intervenção terapêutica poderia mudar as chances e as trajetórias de vida.

Uma dessas intervenções é a terapia multissistêmica (MST), um tratamento familiar e comunitário criado para reduzir os acolhimentos fora de casa de adolescentes de 11 a 17 anos em situação considerada “de risco” de acolhimento institucional ou de privação de liberdade por comportamentos antissociais e/ou agressivos (Henggeler et al. 2009). Terapeutas de MST atuam em equipes pequenas, com uma pessoa responsável pela supervisão e outra pela consultoria, e trabalham de modo intensivo durante três a cinco meses com os sistemas em torno da pessoa jovem, principalmente as figuras parentais. O objetivo é dar a elas condições de apoiar a pessoa jovem e de reduzir os comportamentos antissociais e/ou agressivos, assim como os fatores que os mantêm, em todos os contextos. Afirma-se que a MST atende às necessidades de grupos culturalmente diversos com base em pesquisas que mostram sua eficácia em ensaios com proporções relativamente altas de pessoas participantes racializadas (Butler et al. 2011; Painter e Scannapieco 2009) e na ausência de efeito moderador da etnia sobre a MST (Johnides et al. 2017). No entanto, uma metanálise (van der Stouwe et al. 2014) indicou que a MST era mais eficaz para a juventude branca do que para a juventude racializada, um resultado talvez mascarado pelo tamanho reduzido das amostras dos estudos individuais.

Dois estudos qualitativos (Bunting et al. 2021; Fox et al. 2017) sugerem que considerações culturais são necessárias para o sucesso da MST, especificamente nos comportamentos que motivam o encaminhamento, no sentimento das famílias de serem compreendidas culturalmente por uma pessoa terapeuta respeitosa e na presença de uma pessoa terapeuta que funcione como “ponte cultural”, situando o comportamento da pessoa jovem dentro da cultura dominante. Também é importante apoiar a pessoa jovem no desenvolvimento de uma identidade cultural própria (Bunting et al. 2021). Contudo, os dois estudos trabalharam com jovens e figuras parentais que tinham nascido no Reino Unido ou residiam no país havia pelo menos dez anos, e excluíram famílias que não falavam inglês, famílias que não concluíram o tratamento (Fox et al. 2017) e jovens em acolhimento fora de casa ou em risco para si ou para outras pessoas (Bunting et al. 2021). Assim, as experiências de aculturação dessas amostras talvez não reflitam as das famílias racializadas que enfrentam dificuldades na MST.

Pessoas racializadas têm dificuldade de acesso aos serviços gerais de saúde mental, ou não são encaminhadas a eles (Cooper et al. 2013), por pouco conhecimento da ajuda disponível (Messent e Murrell 2003) ou por vieses ligados à suposta proficiência linguística ou ao grau de cooperação (Betancourt et al. 2005). Os dados sobre o engajamento de pessoas racializadas na MST são limitados; sabe-se apenas que famílias negras e hispânicas nos Estados Unidos tinham probabilidade significativamente maior de ter o caso encerrado de forma negativa (por exemplo, por falta de engajamento ou nova infração) do que os grupos brancos não hispânicos e multirraciais (Boxer 2011). Mas esse estudo trabalhou com famílias que foram encaminhadas à MST e a iniciaram, e talvez não reflita as que não se engajaram.

A língua e a aculturação também importam para o engajamento e a mudança na MST. Um estudo não encontrou diferenças nos resultados da MST, em emprego e reincidência, entre famílias falantes nativas de neerlandês (nos Países Baixos) e famílias não nativas quando se usavam intérpretes (van der Rijken et al. 2016), ao contrário das conhecidas dificuldades do trabalho com intérpretes em saúde mental (por exemplo, Bauer e Alegría 2010; Raval e Tribe 2014). Os resultados com familiares atuando como intérpretes não foram muito diferentes dos obtidos com intérpretes de ofício, o que se atribuiu ao aproveitamento de um papel duplo no apoio à família (Ho 2008). No entanto, pouco se sabe sobre como intérpretes são usados na MST (van der Rijken et al. 2016).

O presente estudo procurou compreender melhor as dificuldades de engajamento e de tratamento enfrentadas pelas famílias racializadas na MST na Inglaterra. Diante da dificuldade de chegar às famílias que não concluíram a MST e das dificuldades com intérpretes, foram exploradas as narrativas das equipes de MST. Isso permitiu compreender as famílias que tiveram contato com a MST sem chegar a um engajamento pleno, as que superaram as dificuldades e concluíram a MST, e aproveitar o ponto de vista singular das equipes para explorar o trabalho com intérpretes (Raval 2003). Buscou-se diversidade étnica entre terapeutas e responsáveis pela supervisão de MST, para favorecer a expressão de vozes pouco ouvidas e uma compreensão matizada das dificuldades de engajamento e de tratamento das famílias racializadas, e para corrigir uma limitação das pesquisas existentes, feitas sobretudo com terapeutas da maioria branca. A pesquisa visava explorar os fatores ligados ao engajamento e à mudança das famílias racializadas na MST, incluindo as chamadas “difíceis de alcançar” (Begum 2006), isto é, que não falam inglês e enfrentam dificuldades de engajamento e de tratamento.

2. Método

2.1 Delineamento e ética

Utilizou-se a metodologia da teoria fundamentada (grounded theory; Charmaz 2006). Recorreu-se a grupos focais para estimular a reflexão sobre como o privilégio racial molda a realidade (Laszloffy e Hardy 2000) e para que pessoas com pouca sensibilização, conhecimento ou formação pudessem acrescentar pontos ao que outras levantavam e debatê-los (Barbour e Morgan 2017).

A aprovação ética foi concedida pela Royal Holloway, Universidade de Londres. Obtiveram-se a aprovação do comitê de ética em pesquisa e a aprovação local de cada um dos locais de pesquisa.

2.2 Recrutamento e participantes

Adotou-se uma estratégia de amostragem intencional e teórica. Foram visadas equipes de MST etnicamente diversas, para corrigir limitações da literatura existente (amostras de terapeutas majoritariamente brancas), reduzir nos grupos focais as disparidades de poder baseadas na raça e apoiar o espírito da pesquisa, voltado a dar voz às minorias étnicas. A pessoa que assina em segundo lugar exerce a função de consultoria em MST e entrou em contato com equipes de todo o Reino Unido para identificar locais de pesquisa pertinentes (equipes que aplicavam a MST e tinham experiência de trabalho com famílias etnicamente diversas, incluindo famílias que não falam inglês). Identificadas as equipes adequadas, entrou-se em contato com as pessoas responsáveis pela supervisão nos locais de MST, pedindo que informassem terapeutas sobre a pesquisa e o convite para participar.

Como se debate se a saturação dos dados deve ser considerada “uma meta ou uma realidade” (Willig 2013, 37), o presente estudo adotou a noção de “suficiência teórica” (Dey 1999). Para chegar à suficiência teórica, as categorias devem explicar suficientemente os dados sem ser forçadas a caber em categorias predeterminadas, o que se adapta melhor à teoria fundamentada (Charmaz 2006; Dey 1999).

Ao todo, o recrutamento reuniu 22 terapeutas e responsáveis pela supervisão de MST, em locais de três regiões da Inglaterra (as Midlands, a Grande Londres e o Noroeste). As informações demográficas estão na tabela 1. Londres é a região mais diversa da Inglaterra do ponto de vista étnico e religioso, seguida pelas Midlands na proporção de pessoas que se identificam como de origem asiática, negra ou mista; as Midlands têm a maior proporção de pessoas que declaram a religião sikh e muitas pessoas que se identificam como cristãs (Office for National Statistics 2022). O Noroeste tem uma alta proporção de pessoas que se identificam com o grupo étnico paquistanês e como muçulmanas (Office for National Statistics 2022). O grupo participante refletia a diversidade das regiões incluídas, com presença de pessoas de origem britânica sul-asiática.

Tabela 1 — Características demográficas da amostra

Número de participantes (N = 22).

  • Função profissional. Terapeuta de MST: 16; responsável pela supervisão de MST: 6.
  • Região. Midlands: 11; Grande Londres: 8; Noroeste: 3.
  • Gênero. Mulher: 16; homem: 5.
  • Faixa etária. 20 a 29 anos: 7; 30 a 39 anos: 7; 40 a 49 anos: 5; 50 a 59 anos: 3.
  • Etnia. Branca britânica: 8; sul-asiática ou britânica sul-asiática: 6; negra, africana, caribenha ou britânica negra: 6; outro grupo étnico autodeclarado: 2.
  • Religião. Sem religião: 8; cristã: 7; budista: 1; hindu: 2; muçulmana: 2; sikh: 1.
  • Identidade nacional. Britânica: 18; outra: 3.
  • Língua. Apenas inglês: 14; várias línguas faladas: 8.
  • Tempo de experiência em MST. Menos de 6 meses: 3; 6 a 12 meses: 4; 12 a 24 meses: 2; mais de 24 meses: 13.
  • Proporção de famílias de minorias étnicas nos casos atendidos no ano anterior. Menos de 25%: 7; 25% a 50%: 5; 50% a 75%: 6; 75% a 100%: 4.
  • Proporção de famílias que não falam inglês nos casos atendidos no ano anterior. Menos de 25%: 20; mais de 25%: 2.

2.3 Materiais

O roteiro dos grupos focais se baseou na literatura. As perguntas de estímulo eram abertas e sem julgamento, para favorecer relatos autênticos (Charmaz 2006). Como verificação de credibilidade (Elliott et al. 1999), o roteiro foi revisado com uma figura parental racializada, com inglês limitado, que tinha concluído a MST. A moderação interveio apenas parcialmente para guiar a discussão.

2.4 Procedimento

Antes dos grupos focais, o tema geral foi comunicado às pessoas que haviam dado consentimento, para aproveitar ao máximo o tempo passado em conjunto (McLeod 2011). Sete grupos focais foram realizados nas sedes das equipes; cada um reuniu de duas a cinco pessoas e durou cerca de 75 minutos. Os encontros foram gravados em áudio e transcritos literalmente.

2.5 Abordagem analítica

A versão construcionista social da teoria fundamentada de Charmaz (2006) foi escolhida por ser a mais adequada para marcar distância das descrições e ideias existentes. Uma compreensão dos processos terapêuticos inserida num quadro cultural ocidental pode negligenciar ou distorcer as experiências das famílias racializadas. Isso vale ainda mais para quem não fala inglês ou enfrenta dificuldades de engajamento e de tratamento. A teoria fundamentada de Charmaz (2006) favorece a reflexão sobre a marca de quem pesquisa, assim como a consideração das realidades sobrepostas de cada parte envolvida, da supervisão à pessoa terapeuta, a intérprete, a figura parental e a pessoa jovem. De modo semelhante, a terapia sistêmica, alinhada aos princípios construcionistas sociais, põe em evidência o papel do poder através dos sistemas.

A codificação inicial serviu para dividir os dados em segmentos linha a linha usando gerúndios, para garantir que a análise continuasse guiada pelos dados (Charmaz 2006). Os códigos iniciais mais frequentes ou mais significativos foram usados para sintetizar e explicar segmentos maiores de dados (códigos focalizados), antes que surgissem conceitos. Apenas os dados relativos à cultura, à etnia ou à raça foram levados adiante. As comparações entre códigos, conceitos e casos levaram à revisão dos dados anteriores e das ideias emergentes.

Todas as transcrições foram codificadas pela pessoa que assina em primeiro lugar. A transcrição de um grupo focal foi codificada de forma independente por toda a equipe de pesquisa, com concordância substancial. As pessoas que assinam em segundo e terceiro lugar fizeram uma verificação de credibilidade, revisando os códigos teóricos e o modelo e dando retorno sobre coerência, clareza e linguagem.

Uma pessoa participante e uma pessoa atendida pela MST foram consultadas sobre os códigos teóricos e consideraram que os temas refletiam, em linhas gerais, sua experiência. Strauss e Corbin (1998) observam que o modelo final pode não se ajustar perfeitamente à experiência de cada participante, mas deve ser reconhecível e aplicável.

2.6 Reflexividade

A pessoa que assina em primeiro lugar é britânica sul-asiática, de segunda geração de imigração, do norte da Inglaterra. O desenvolvimento do projeto foi em grande parte inspirado pelo que ela viveu ao crescer. Compreender os efeitos, na saúde mental e nas relações, de estar entre duas culturas, muitas vezes profundamente opostas, tinha para ela uma ressonância pessoal. Da mesma forma, ver muitos rapazes paquistaneses e bangladeses da comunidade local entrarem num caminho de criminalidade e de saúde mental precária criava um forte vínculo emocional com o trabalho. Suas experiências relativas à justiça social, à cultura e à identidade informaram a pesquisa. Essa posição foi reexaminada periodicamente, e o olhar crítico adotado pelas pessoas que assinam em segundo e terceiro lugar foi especialmente útil para conduzir o processo de pesquisa. Essas duas pessoas são britânicas brancas, vivem em regiões da Inglaterra com populações diversas e conhecem a desproporção de minorias étnicas no sistema de justiça criminal e algumas das dificuldades de acesso a intervenções de base psicológica. A equipe de pesquisa não pretendia se engajar num processo hermenêutico de dar sentido às experiências das pessoas participantes no trabalho com famílias racializadas, mas estava aberta a discussões sobre cultura e identidade, participava delas e tinha em mente os problemas das aplicações transculturais de modalidades terapêuticas ocidentais. Ao longo de todo o processo de pesquisa, a equipe procurou estar atenta às próprias posições e à forma como elas poderiam influenciar a análise e a interpretação dos dados.

3. Resultados

Foram gerados dez códigos teóricos, compostos de códigos focalizados e iniciais (ver a tabela 2). O modelo de teoria fundamentada dos fatores que influenciam o engajamento e a mudança das famílias racializadas, do ponto de vista das equipes de MST, é apresentado na figura 1. Os processos de engajamento e de mudança não eram distintos, pois os códigos teóricos que emergiram (com exceção do acesso) diziam respeito aos dois processos. O engajamento formava a base a partir da qual se construía a mudança, mas a relação era interdependente e bidirecional: o trabalho durante o tratamento podia fortalecer ou enfraquecer o engajamento.

Tabela 2 — Fatores associados ao engajamento e à mudança na MST com famílias racializadas

Para cada código teórico: códigos focalizados e, entre parênteses, exemplos de códigos iniciais.

Antes do encaminhamento

  • Acesso. Representação das famílias racializadas (descrever os casos atendidos; falta de representação); problemas de encaminhamento (ter opiniões enviesadas; desconhecer o critério de admissão); relações com a comunidade local (confiança que se constrói e gera mais encaminhamentos; não retratar famílias diversas).

A entrada no serviço

  • A relação da família com a ajuda. Experiências negativas com outros serviços (hostilidade antiga com a assistência social; falta de sensibilidade cultural); famílias que olham a MST com desconfiança (relutância em compartilhar informações; genograma percebido como interrogatório); famílias que veem a MST como invasiva (a MST choca com o valor dado à privacidade; a intensidade e a abordagem, valorizadas, diferenciam a MST).
  • Construir uma aliança terapêutica. Construir o engajamento e reparar a confiança (estar em sintonia com a falta de confiança no sistema; perseverar diante das dificuldades de engajamento); a marca da origem étnica da pessoa terapeuta (famílias que se sentem incompreendidas por terapeutas da maioria branca; ver os benefícios da diferença).

O início do tratamento

  • Estrutura e funcionamento da família. Choques de valores culturais (valorizar uma disciplina mais rígida; recusar-se a “mimar” a pessoa jovem); interpretar diferenças de comunicação (ver vozes alteradas como agressividade; compreender diferenças de calor emocional).
  • Aculturação e identidade. Tensões e conflitos decorrentes de diferenças de aculturação (pais envergonhados; jovem com raiva); compreender as ameaças à identidade da pessoa jovem (não se identificar com uma identidade étnica ou nacional; identificar dificuldades de jovens de origem mista).
  • O contexto familiar desempoderado. Desafios de uma desvantagem social em várias camadas (enfrentar dificuldades econômicas; as necessidades de moradia vêm em primeiro lugar); experiências de racismo (descrever o racismo institucional e as falhas sistêmicas; a mudança parece inútil).

Durante o tratamento

  • O trabalho de mediação cultural. Trabalhar com a resistência (equilibrar o respeito e a implementação da mudança; trabalhar dentro do quadro da cultura da família); favorecer a tomada de perspectiva (conduzir conversas; pais com medo de perder a cultura de origem).
  • Fortalecer o poder de agir das famílias. Enfrentar a desigualdade sistêmica (dar aos pais condições de se orientar nas instituições; sentir-se sem capacidade de promover mudanças).
  • Língua e poder. Considerar as diferenças de proficiência linguística dentro das famílias (ter menos poder na família; a pessoa terapeuta se alinha com o genitor que fala inglês).
  • Trabalhar com intérpretes. Disponibilidade de intérpretes num trabalho de crise (descrever as dificuldades dos plantões; descrever as dificuldades do trabalho intensivo); recorrer a familiares para interpretar (ver a família como uma ponte cultural eficaz; considerar as implicações de proteção e de risco); um trabalho eficaz com intérpretes na MST (intérprete que entende o modelo; descrever a perda de comunicação); criar e manter uma aliança terapêutica diante de múltiplos sistemas (famílias que se sentem julgadas por intérprete; emaranhamento de intérprete com a família).
Modelo dos fatores que influenciam o engajamento e a mudança na terapia multissistêmica para famílias racializadas
Figura 1. Modelo dos fatores que influenciam o engajamento e a mudança na MST para famílias racializadas (esquema original em inglês)

“Acessar a MST”, “a relação da família com a ajuda” e “construir uma relação terapêutica” pareciam decisivos para lançar as bases do engajamento na entrada no serviço e no início do tratamento. A partir dessa base, e já em tratamento, a conceituação da “estrutura e do funcionamento da família”, da “identidade e aculturação” e do “contexto familiar desempoderado” surgiu como consideração importante. Esses fatores constituíam o conteúdo e os desafios do trabalho realizado pela pessoa terapeuta atuando como “ponte cultural”, e o processo de mudança se iniciava, desde que houvesse engajamento ativo. Os processos recíprocos no centro incluíam a conceituação do contexto familiar desempoderado, que sustentava as tentativas de “fortalecer o poder de agir” do sistema familiar. Para famílias que não falam inglês, as considerações de poder e língua no “trabalho com intérpretes” eram necessárias para determinar o progresso. Os dados mostraram que a relação da família com a ajuda e a relação terapêutica serviam de pano de fundo para um engajamento e uma mudança efetivos.

Há semelhanças com as teorias fundamentadas que modelam as perspectivas sobre a MST de jovens de segunda geração (Bunting et al. 2021) e de figuras parentais racializadas (Fox et al. 2017), especificamente o sentimento das famílias de serem compreendidas culturalmente por uma pessoa terapeuta respeitosa, a presença de uma pessoa terapeuta que funcione como “ponte cultural”, situando o comportamento da pessoa jovem dentro da cultura dominante, e o apoio à pessoa jovem no desenvolvimento de uma identidade cultural própria. Aqui se apresenta em detalhe apenas o material que amplia as pesquisas anteriores.

3.1 Acesso

As pessoas participantes reconheciam que as famílias racializadas estavam sub-representadas nos serviços de MST do Reino Unido (“os encaminhamentos nem chegam, para começar”, part. 21, grupo 7), e que isso talvez se devesse a “como a assistência social enxerga as famílias… eles não as veem como adequadas [ao programa]” (part. 14, grupo 5). Construir relações e vínculos com a comunidade local superava a dificuldade de acesso e levava a um aumento dos encaminhamentos.

3.2 A relação da família com a ajuda

O racismo sistêmico parecia afetar as famílias racializadas ao longo de toda a sua experiência com a MST, a ponto de algumas famílias serem descritas como “antiprofissionais” (part. 17, grupo 6). As pessoas participantes descreviam famílias que se sentiam “deixadas na mão pelo sistema” (part. 11, grupo 4) e uma hostilidade antiga em relação à polícia e à assistência social. Essa falta de confiança era vista como decisiva para a relutância das famílias racializadas em compartilhar informações e se engajar plenamente no processo:

Lembro que, quando a gente estava fazendo um genograma e explorando os membros da família, era tipo: “Mas por que vocês precisam saber desse parente, por que precisam saber da tia e do tio… e onde eles moram, esse tipo de coisa”. Eles veem isso como bem invasivo […] por que vocês precisam saber de x, y e z. (part. 2, grupo 1)

A etnia da pessoa terapeuta também era objeto de reflexão em relação ao engajamento: “Ela está bem brava com a mãe por trabalhar com gente branca… ela vê as pessoas brancas como parte do sistema… é a escola dela… é a assistência social, e é a polícia […] ‘tipo, por que você está trazendo esses brancos pra nossa casa?’” (part. 16, grupo 6).

Havia a percepção de que as atitudes de busca de ajuda nas comunidades eram moldadas por valores culturais de privacidade que entravam em choque com a abordagem da MST; para algumas pessoas participantes, as visitas domiciliares eram estigmatizantes e a MST, invasiva.

3.3 Construir uma aliança terapêutica

O foco da MST no engajamento (“fazer o que for preciso”) levava naturalmente a considerar a cultura e a importância de estar em sintonia com a falta de confiança no sistema e de responder a ela: “… levamos boas 12 semanas para passar pela porta… e acho que por causa da determinação da pessoa terapeuta e da consideração real pela história da família […] outros serviços teriam desistido” (part. 22, grupo 7).

Terapeutas consideravam que a semelhança étnica com as famílias favorecia um vínculo mais forte, graças à compreensão e ao respeito mútuos. Muitas pessoas reconheciam que as famílias achavam que terapeutas de outra origem não podiam compreender sua experiência. Por outro lado, admitia-se que a diferença podia favorecer uma abordagem curiosa, “sem saber pressuposto” (part. 16, grupo 6), atenuar julgamentos baseados em padrões culturais e evitar o alinhamento com a pessoa jovem ou com os pais. Sobre famílias inter-raciais, uma pessoa terapeuta de minoria étnica refletiu: “Eu realmente senti que mudava a dinâmica da relação quando a mãe [branca] estava presente. Se ela achou… que era uma ameaça ou se sentiu julgada por se sentir excluída, de algum modo, desse aspecto da família, especialmente quando se fala de questões de cultura” (part. 7, grupo 3).

3.4 Estrutura e funcionamento da família

As estruturas familiares tradicionais (pais responsáveis pelas decisões e mães pela criação dos filhos, estilo autoritário, expectativas rígidas em relação ao filho) desafiavam o alinhamento dos pais previsto no modelo da MST: “A mãe disse claramente ‘Eu não sou britânica’… e queria deixar claro que ‘Eu não sou britânica e vocês estão tentando me fazer, tipo, mimar ele’, então havia um choque evidente…” (part. 4, grupo 2).

As pessoas participantes percebiam que os pais se referiam à própria criação, o que gerava um fosso geracional e cultural, descrito como “um espelho, de certa forma, [do] que a pessoa jovem está enfrentando” (part. 13, grupo 4). Os pais pareciam viver uma ameaça à sua identidade cultural:

A mãe estava muito brava com o sistema no Reino Unido […] e disse: “Minha mãe podia…”, basicamente se referindo a castigo físico… “mas eu não posso fazer nada aqui, não tenho poder nenhum, não posso fazer nada, não posso fazer nada… o sistema vai ficar do lado da criança e quem vai se encrencar sou eu”… (part. 4, grupo 2)

As pessoas participantes descreviam a dificuldade de se equilibrar entre respeitar a cultura e implementar a mudança: “A gente acaba batendo de frente… é como se a gente simplesmente empacasse, e eles dizem ‘não, não é assim que a nossa família funciona, não vamos fazer isso’…” (part. 8, grupo 3). Terapeutas também tinham em mente a privacidade, a vergonha e o segredo como obstáculos ao engajamento, ligados ao estigma de trabalhar com serviços profissionais.

3.5 Aculturação e identidade

Muitas vezes ligadas aos comportamentos que motivavam o encaminhamento, as diferenças de aculturação entre pais e jovens levavam, segundo as pessoas participantes, a conflitos familiares. Comportamentos considerados culturalmente inaceitáveis, como o uso de álcool e drogas, deixavam os pais envergonhados e ressentidos. Por outro lado, as pessoas jovens pareciam ter raiva dos pais, que as envergonhavam: “… se o pai ou a mãe não fala inglês… nas reuniões… os jovens ficam sentados ali com cara de fúria contra os pais, ou… podem achar engraçado que os pais pareçam não entender as coisas ou não consigam se comunicar com assistentes sociais ou professores” (part. 1, grupo 1).

As pessoas participantes também falavam das pessoas jovens como “divididas” (part. 17, grupo 6), obrigados a “negociar” (part. 3, grupo 2), algo com que muitas pessoas terapeutas negras e asiáticas se identificavam. Algumas se perguntavam se as dificuldades de identidade levavam jovens a entrar em gangues.

Em algumas famílias inter-raciais, a identidade da pessoa jovem estava intrinsecamente ligada ao contexto familiar, e a etnia da pessoa terapeuta se cruzava com essa dinâmica:

[A] menina era mestiça, mas estava numa família totalmente branca, e a questão apareceu em torno do cabelo e dos produtos para cabelo, porque as crianças tinham cabelo afro-caribenho… e era curiosa a dinâmica da mãe e dos avós comigo, achando que eu meio que… sabia mais, mas num sentido ruim. Eles diziam: “o tipo de cabelo não deveria importar… isso não importa pra nós, não vemos isso como um problema”. (part. 7, grupo 3)

3.6 O contexto familiar desempoderado

Além de moldar a relação da família com a ajuda, o racismo sistêmico afetava a pessoa jovem e levava a um sentimento de desilusão, com a mudança parecendo inútil, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” (part. 15, grupo 5): “A polícia visava aquele garoto mais do que qualquer outro com quem já trabalhei… Não sabemos o impacto que isso teve naquele jovem” (part. 3, grupo 2).

3.7 O trabalho de mediação cultural

Era importante conduzir conversas sobre as questões de aculturação que geravam tensão na família, incluindo a pessoa jovem nas sessões e promovendo a compreensão entre pais de etnias diferentes:

[O pai] se considerava curdo e tinha enfrentado bastante racismo na vida… e acho que o melhor que ele tirou da MST… foi conseguir conversar melhor com a esposa, que era britânica branca, sobre essas questões… e sobre como elas o afetavam na forma de exercer a paternidade. (part. 20, grupo 7)

Adotar uma posição neutra ao lado da família às vezes ajudava a superar diferenças de valores. Terapeutas usavam pesquisas e medidas de resultado para mostrar a melhora aos pais e relatavam trabalhar dentro do quadro da cultura da família:

Tratava-se de não desqualificar o estilo de criação dela e aquelas tradições, mas de tentar adaptá-los […] ela dizia… “ele não me respeita, nenhum respeito”… ele não fazia na hora o que a mãe pedia. Havia uma pequena discussão… eles batiam de frente… e alguns minutos depois ele fazia, e eu chamei isso de “respeito atrasado”: “olha, ele está mostrando um respeito atrasado”, e ela e ele se apegaram muito a essa expressão. (part. 10, grupo 4)

3.8 Fortalecer o poder de agir das famílias

As pessoas participantes fortaleciam o poder de agir das famílias ajudando-as a ter voz e a se comunicar de forma eficaz, e fazendo a ponte com outros serviços quando necessário: “como funciona o sistema de assistência social, como funcionam os serviços no Reino Unido e que serviços havia… ajudá-los a entender a que reunião se esperava que fossem… o que deviam fazer para se preparar” (part. 2, grupo 1). No entanto, a falta de confiança e o medo minavam a disposição das famílias de recorrer à polícia: “A mãe não chamava a polícia quando o filho sumia… Ela me contava todas essas experiências, dizendo: ‘nós não somos ingleses, eles não vão fazer nada por nós’” (part. 19, grupo 6). A contestação de práticas opressivas também durava pouco: “era impressionante como o diretor da escola mudava de perspectiva quando eu estava lá… mas assim que eu não estava, tudo voltava ao que era, então, sabe, que poder a gente tem numa situação dessas?” (part. 5).

3.9 Diferenças de aculturação em minorias linguísticas

Algumas pessoas participantes refletiram sobre o desequilíbrio de poder: os pais falavam inglês, traduziam e detinham o poder, enquanto as mães, que cuidavam ativamente da criação, não falavam. Terapeutas se viam, sem querer, alinhando-se com o genitor que falava inglês e apoiando-se nele, excluindo o genitor que não falava. Quando a língua era uma barreira, era difícil envolver no trabalho o genitor que, no entanto, cuidava dos filhos:

Chamar alguém para traduzir durante o dia para trabalhar com a mãe, e depois torcer para que a mãe passasse a mensagem [ao pai], não funcionou muito… porque também havia um grande desequilíbrio de poder […] então, mesmo trabalhando com a mãe e tentando chegar até ela, a gente meio que não conseguia chegar lá. (part. 8, grupo 3)

3.10 Trabalhar com intérpretes

As sessões na casa da família com intérprete criavam dinâmicas pouco úteis, com as famílias se sentindo julgadas. Por exemplo, “era um intérprete homem… e a mãe e a irmã mais velha sentiam que ele falava com elas de cima para baixo” (part. 5, grupo 2) e “as famílias podem ficar bem ansiosas porque talvez conheçam a pessoa da comunidade” (part. 9, grupo 4) evidenciam as questões de gênero e de proximidade comunitária na gestão da vergonha. Além disso, a capacidade de resposta da MST (lidar com situações de crise, sessões marcadas em cima da hora) fazia com que intérpretes frequentemente não estivessem disponíveis. Familiares traduziam, mas as pessoas participantes tinham consciência dos conflitos de interesse, e as preocupações de proteção eram difíceis de abordar nesse contexto. Ainda assim, terapeutas consideravam útil, nas circunstâncias certas, recorrer a um familiar para interpretar:

a filha traduzia […] Ela foi criada como britânica, então entendia culturalmente de onde a gente vinha, mas também sabe o que a cultura dela diz e consegue ver desse ponto de vista também… ela entendia de onde os pais dela vinham (part. 7, grupo 3)

4. Discussão

Esta pesquisa buscou explorar as perspectivas das equipes (terapeutas e responsáveis pela supervisão) sobre os fatores ligados ao engajamento e à mudança das famílias racializadas na MST na Inglaterra. Nos dez códigos teóricos, houve semelhanças com as teorias fundamentadas que modelam as perspectivas sobre a MST de jovens de segunda geração (Bunting et al. 2021) e de figuras parentais racializadas (Fox et al. 2017), mas o olhar das equipes ampliou essa compreensão.

4.1 O contexto: desigualdade estrutural e relação da família com a ajuda

Vieses de quem pode encaminhar famílias à MST foram identificados como possível barreira de acesso. Isso está em consonância com as disparidades raciais na identificação de necessidades de saúde mental e na oferta de apoio a jovens em conflito com a lei (Spinney et al. 2016): as questões de saúde mental são menos reconhecidas na juventude negra (Dalton 2009), e as condutas infracionais e criminosas da juventude racializada são consideradas pouco passíveis de intervenção (Mansion e Chassin 2016). A falta de acesso soma-se à desvantagem já vivida pela juventude racializada (e pelas figuras parentais) e aumenta o risco ao desenvolvimento (Baglivio e Epps 2016), perpetuando um ciclo de desigualdade em saúde.

A desconfiança cultural e o racismo sistêmico pesavam no engajamento das famílias na MST e aumentavam o medo, deixando-as pouco dispostas a recorrer à polícia ou a compartilhar informações (por exemplo, da Silva Rebelo et al. 2018). Os resultados estão de acordo com Bunting et al. (2021), que identificaram entre jovens sentimentos de marginalização social, mas sugerem que os impactos do racismo sistêmico podem ser mais imediatos e profundos como considerações para a MST. Em consonância com Mulvey (2010), as pessoas participantes destacaram a importância de estar em sintonia com a falta de confiança no sistema e procuraram fortalecer o poder de agir das famílias para se orientar nas instituições e contestar o racismo, fazendo advocacy quando necessário. Os resultados aqui evidenciam, porém, o papel de terapeutas de MST que fazem “o que for preciso” para compreender, engajar e apoiar as famílias, tendo em mente a semelhança ou a diferença étnica com cada família para apoiar a construção de confiança e engajamento na MST. Usar ensino, reflexão e formação para que terapeutas se tornem capazes de conduzir conversas que ajudem as famílias a situar suas experiências no contexto social e histórico pode ser uma oportunidade de desenvolver práticas antirracistas explícitas na MST.

4.2 Diferenças culturais de estrutura familiar, hierarquia, funcionamento e identidade

As diferenças de valores culturais emergiram com força nesta pesquisa, e menos em Bunting et al. (2021) e Fox et al. (2017), talvez porque suas amostras incluíam apenas pessoas nascidas no Reino Unido ou residentes havia pelo menos dez anos, provavelmente mais habituadas à cultura individualista britânica. As pessoas participantes refletiram sobre o desafio de equilibrar o respeito à cultura familiar e a pressão pela mudança. Isso remete a um debate mais amplo entre relativismo cultural e absolutismo cultural: o direito de ser diferente versus o direito à proteção igual contra danos. Sawrikar e Katz (2014) argumentam que, para transitar de modo eficaz entre esses polos, é preciso formar as equipes sobre os riscos associados a cada um. Pender demais para o absolutismo cultural é ser “cego à cor” e arriscar envergonhar as famílias ao ver problemas que podem ser explicados pela diferença cultural (por exemplo, perceber uma disciplina mais rígida como maus-tratos). Por outro lado, o relativismo cultural corre o risco de não intervir e perpetuar danos, já que os problemas são atribuídos à diferença cultural. A precariedade desses julgamentos fica evidente quando se considera o contexto: muitas famílias já se sentem culpabilizadas pelo contato com a proteção à infância (Cunningham e Henggeler 1999), enquanto outras podem procurar proteger sua herança e sua identidade cultural de ataques num país anfitrião hostil (McGoldrick e Hardy 2008).

Como em Fox et al. (2017) e Bunting et al. (2021), o papel de “ponte cultural” da pessoa terapeuta era importante e, aqui, visto como capaz de atenuar a experiência de culpabilização. Sem se limitar à tarefa de situar o comportamento da criança na cultura britânica, este estudo destacou a importância de trabalhar dentro do quadro da cultura da família e de estar em coerência com as estruturas de autoridade e os papéis existentes.

4.3 O poder da língua: dinâmicas familiares e desafios da interpretação

O uso de intérpretes trazia desafios, como perda de comunicação e imprecisões (por exemplo, Bauer e Alegría 2010), mas também possíveis barreiras ao engajamento quando as famílias percebiam julgamento vindo da própria cultura. Algumas pessoas terapeutas relataram que recorrer a familiares (que não os pais) para interpretar podia ser benéfico para mediar entre culturas e gerações diferentes, em linha com uma pesquisa que não encontrou diferença nos resultados entre intérprete profissional e familiar na MST (van der Rijken et al. 2016). Ainda assim, surgiram preocupações com a ética e os riscos de recorrer a jovens para interpretar, e sabe-se que jovens que interpretam para a família sentem o grande peso de ter de apoiá-la a se adaptar e a funcionar na comunidade anfitriã (Morales et al. 2012).

Além disso, a proficiência em inglês dentro da família, muitas vezes com os pais falando com mais fluência do que as mães, era vista como fonte de mais discórdia sistêmica e de aspectos pouco úteis da hierarquia, com impacto negativo no estilo de coparentalidade. Há uma preocupação particular com a influência de terapeutas monolíngues que consolidam diferenças de poder dentro de famílias multilíngues, dificultando a participação de todos os membros (Ali 2004). Softas-Nall et al. (2015) sugerem que é vital que terapeutas monolíngues usem intérpretes de forma consistente e discutam o papel e a função da língua e do multilinguismo na família, inclusive seus impactos na terapia. Terapeutas bilíngues ou biculturais poderiam amenizar algumas dessas dificuldades, mas isso dificilmente é viável em equipes pequenas de MST e em áreas onde vivem pessoas de muitas etnias e culturas (como reflete a amostra desta pesquisa).

4.4 Limitações e pesquisas futuras

As equipes de MST se ofereceram voluntariamente para participar e podem ter procurado evitar um julgamento negativo sobre seu trabalho ou sua competência. Embora seja importante considerar a influência da branquitude (a vantagem estrutural e a internalização da cultura branca como norma) no silenciamento de participantes de grupos racializados, o estudo conseguiu reunir seis grupos focais etnicamente diversos, o que provavelmente reduziu as disparidades de poder baseadas na raça.

Outra limitação é o pressuposto de que as pessoas racializadas formam um grupo homogêneo. A variedade cultural e étnica na Inglaterra e nas regiões estudadas nesta pesquisa é enorme; culturas diferentes estão sujeitas a estruturas de poder sociais e políticas diferentes, que provavelmente produzem respostas igualmente variadas à MST. Este estudo, porém, adota a visão de que as minorias étnicas nas sociedades ocidentais compartilham uma identidade social e política (Bhui et al. 2007), necessária para trabalhar por um objetivo comum de reduzir a desigualdade na atenção à saúde mental.

São necessários mais estudos quantitativos para comprovar as taxas de acesso e de abandono das famílias racializadas na MST. Para aprimorar a prática, seriam úteis pesquisas qualitativas que explorem como as famílias que não falam inglês se engajam na MST e como a competência cultural é trabalhada na relação entre terapeuta e supervisão.

4.5 Implicações para a formação e a implementação

O modelo produzido por esta pesquisa deve orientar a implementação e a prática nas diferentes etapas do percurso da família na MST. Quanto às dificuldades de acesso à MST e à relação da família com a ajuda, a parceria MST UK&I Network pode trabalhar com os parceiros de implementação para remover barreiras ao encaminhamento de famílias racializadas. Desde então, a parceria da rede desenvolveu uma formação específica, para todas as equipes, sobre o trabalho com famílias de origens culturais diversas. Essa formação aborda os temas que surgiram em torno do engajamento e da mudança. Todas as equipes são obrigadas a concluí-la. Também foi criado um grupo de trabalho de Igualdade e Diversidade, que reúne integrantes da parceria da rede MST e parceiros de implementação de diversas origens étnicas. Esse grupo busca tratar os temas levantados por esta pesquisa e responder a eles com um plano de ação claro.

5. Conclusão

Ao usar grupos focais para explorar a experiência das equipes de MST que trabalham com famílias racializadas, este estudo produziu resultados que evidenciam o papel central do poder, da diferença cultural e da língua no engajamento e na mudança. Muitos dos resultados se apoiam em intervenções e práticas da MST individualizadas segundo as necessidades de cada família, num modelo atento ao engajamento de grupos marginalizados com necessidades complexas. Este estudo incorpora ao modelo da MST detalhes culturais e indicações específicas sobre como trabalhar com minorias étnicas. Documentar as considerações culturais representa um meio-termo adequado entre relativismo cultural e absolutismo cultural: a diversidade social e cultural é valorizada ao lado dos benefícios de práticas universais que protegem o bem-estar das famílias.

Complexe Systémique: a reter

O estudo tem o mérito de deslocar a questão da eficácia para a do engajamento: antes de saber se a MST funciona para as famílias racializadas, é preciso saber se elas entram no tratamento e em que condições permanecem nele. As equipes descrevem uma desconfiança que nada tem de resistência individual: ela é herdeira de encontros fracassados com a polícia, a escola e a assistência social, a ponto de o próprio genograma poder ser vivido como um interrogatório. Daí uma leitura decididamente sistêmica, que inclui o contexto institucional no problema apresentado. Dois pontos interessam diretamente à clínica. A língua redistribui o poder na família: ao se apoiar no genitor que fala inglês, muitas vezes o pai, marginaliza-se sem querer quem cuida da educação no dia a dia, muitas vezes a mãe. E a tensão entre respeito à cultura e proteção da criança não se resolve de uma vez por todas: ela se trabalha caso a caso, dentro do quadro da família. Limites: quem fala são as equipes, não as famílias, e elas se ofereceram como voluntárias. Para ler junto com o artigo sobre as competências multiculturais de terapeutas de cor e com o artigo sobre a interseccionalidade na terapia familiar.

Notas do original

Agradecimentos. A equipe de pesquisa agradece às pessoas participantes e a Georgia Merchant pela leitura das versões preliminares.

Conflitos de interesse. Uma das pessoas que assinam este artigo também exerce a função de consultoria em MST e trabalha em estreita colaboração com algumas das equipes convidadas a participar da pesquisa. As entrevistas foram anonimizadas antes que essa pessoa tivesse acesso a elas.

Referências

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Tradução não oficial em português de A experiência das equipes de terapia multissistêmica com famílias racializadas na Inglaterra, de Nadia Khan, Simone Fox e Emily Glorney, Journal of Family Therapy, vol. 47, no 3 (2025), doi: 10.1111/1467-6427.70000, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Practitioner Experiences of Working With Racially Marginalised Families in England Using Multisystemic Therapy”, publicado em Journal of Family Therapy (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Khan, N., Fox, S., et Glorney, E. (2025). A experiência das equipes de terapia multissistêmica com famílias racializadas na Inglaterra (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-experiencia-das-equipes-de-terapia-multissistemica-com-familias-racializadas-na-inglaterra (Obra original publicada em 2025 em Journal of Family Therapy, 47(3), e70000 (2025); republicada em 2025 por Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/1467-6427.70000)

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