Red Sistémica · Entrevista
Ele tem 84 anos e continua trabalhando, com o mesmo prazer. Há mais de quarenta e cinco anos pratica a terapia familiar e forma terapeutas. É um mestre e um mito da terapia familiar. Seu nome é Salvador Minuchin.
“A verdade é que toda terapia é narrativa.”
Salvador Minuchin
Nota da redação
Este texto é um trecho. A entrevista completa pode ser lida no n.º 91 da Perspectivas Sistémicas, nas bancas, nas livrarias ou por assinatura.
A entrevista acontece num cenário pouco habitual: dentro do museu Guggenheim de Bilbao, num canto discreto. Faz calor. Minuchin está com roupa informal, calçando tênis confortáveis e usando uma viseira. Pat, sua esposa, que o acompanha em suas viagens há longos anos, já saiu para ver as exposições com Itziar e Juanjo. Almoçamos muito bem no próprio museu, e bebemos um pouco de txakoli, não muito, só o suficiente para falar dos produtos locais e relaxar um pouco. Minuchin não quer me dedicar muito tempo: quer ver o museu, visitar a nossa Escola e depois voltar a San Sebastián. E, além disso, não gosta de entrevistas.
Você gosta de entrevistas, Salvador?
Não, não gosto. Mas vamos fazer uma coisa. Vamos fazer como quando se recebe alguém que foi trazido à força para a consulta. Costumo dizer a eles: “Olha, sei que você está aqui porque estão te obrigando. Comigo acontece exatamente a mesma coisa, não tenho outra escolha a não ser fazer isso. Então, já que não podemos evitar passar esse momento juntos, vejamos o que podemos tirar de positivo dele.”
Minuchin fala com um sotaque argentino acentuado, com voz suave e num ritmo pausado. Algumas palavras lhe custam a traduzir, mas são poucas se pensarmos no número de anos que ele vive nos Estados Unidos. Hoje ele mora na Flórida, para onde se retira boa parte dos aposentados e onde, ao que parece, se vive muito bem. Apesar disso, Sal e Pat não param de viajar.
Para lembrar
Diante de um interlocutor que não escolheu estar ali, Minuchin não força nada: ele nomeia a obrigação compartilhada (“eu também não tenho outra escolha”) e propõe tirar algo de positivo do momento passado juntos. A mesma manobra lhe serve com os pacientes trazidos à força para a consulta.
Sei que você não chega diretamente dos Estados Unidos. De onde você vem?
Dei um seminário na Suécia. Depois fomos ver uma amiga em Amsterdã, passamos seis dias em Paris, e ficaremos aqui duas semanas. Depois voltamos para casa. Havia muita gente no seminário na Suécia; aqui também, acho que vai ficar lotado. Há alguns anos, parece que na Europa há mais interesse pelo meu trabalho do que nos Estados Unidos.
É pelo menos a impressão que temos aqui. Acredito que o seu modelo, o modelo estrutural, é muito utilizado por aqui, sobretudo no sul da Europa, enquanto nos Estados Unidos a terapia narrativa parece ter ocupado quase todo o terreno. Como você viu o desenvolvimento, a utilização do seu modelo?
Numa conferência que dei em Londres há seis meses, comecei dizendo: eu não sou um terapeuta estrutural. Para mim, é um rótulo que foi necessário numa época, porque estávamos construindo uma teoria nova e havia uma necessidade de diferenciação. Era em parte uma questão econômica: Jay Haley tinha sua escola estratégica e Murray Bowen tinha não sei mais qual… Cada um criava seu rótulo, tinha seus alunos, e era um processo competitivo em que se construíam castelos cercados de fossos; e isso foi necessário, era o começo de uma nova posição teórica, ideológica.
Estávamos criando um novo paradigma, com um conjunto de pensamentos globais. Os formados saíam das universidades com um pensamento individual, e foi por isso que foi preciso criar as escolas: a escola estrutural; os de Milão fizeram a escola milanesa, que depois chamaram de escola sistêmica; e então eu tinha uma escola estrutural, e eles uma escola sistêmica.
Precisávamos criar divisões e dissensões. Depois vem a escola narrativista, que também cria uma dicotomia. A verdade é que toda terapia é narrativa. Que o construcionismo tenha se apoderado do rótulo narrativo e o tenha feito seu, como o estrutural se tornou meu, foi uma necessidade do processo; mas hoje é um erro.
Na realidade, por falar em construtivismo…
Ontem
Os rótulos (estrutural, estratégica, sistêmica, narrativa) eram necessários para fundar um paradigma novo e se diferenciar: castelos cercados de fossos.
Hoje
Manter essas divisões é um erro: toda terapia é narrativa, e o próprio Minuchin recusa o rótulo de “terapeuta estrutural”.
Quem é Salvador Minuchin
Desde seus primeiros trabalhos com delinquentes e suas famílias na escola Wiltwyck de Nova York, nos anos 1960, até sua longa direção da Philadelphia Child Guidance Clinic, Minuchin foi provavelmente o mais renomado – e o mais imitado – dos terapeutas familiares. Ele é hoje, sem nenhuma dúvida, o terapeuta familiar mais reconhecido e uma parte incontornável da história viva da terapia familiar no mundo, com sua influência se estendendo não apenas aos países ocidentais, mas também aos países do Leste e à China.
Sua obra publicada é monumental: ao clássico inaugural Famílias: funcionamento & tratamento sucederam-se Family Therapy Techniques, escrito com H. C. Fishman, Family Healing, Family Kaleidoscope, Mastering Family Therapy: Journeys of Growth and Transformation, para citar apenas alguns de seus livros mais importantes, até a obra atualmente no prelo, A Four-Step Model for Assessing Couples and Families. Traduzidos para o espanhol e para a maioria das línguas, são textos obrigatórios nos centros e nas universidades onde se ensina psicoterapia, psiquiatria ou ciências sociais. Ele fundou em Nova York uma instituição de formação de terapeutas, hoje chamada Minuchin Center for the Family, onde formou profissionais de saúde mental e, durante mais de uma década, travou batalha contra a burocracia da proteção à infância da cidade de Nova York, tentando aplicar suas ideias sobre os sistemas familiares para reformar o sistema de acolhimento, desenvolvendo um programa de famílias acolhedoras.
Quem é Roberto Pereira
Roberto Pereira é médico psiquiatra, diretor da Escuela Vasco-Navarra de Terapia Familiar (Escola Basco-Navarra de Terapia Familiar).
Esta entrevista é a tradução para o português de “La importancia de la Terapia Familiar. Entrevista a Salvador Minuchin”, publicada pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 91). Traduzida e republicada com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Pereira, R. (2022). A importância da terapia familiar. Entrevista com Salvador Minuchin (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-importancia-da-terapia-familiar-entrevista-com-salvador-minuchin (Obra original publicada em 2022 em Perspectivas Sistémicas, n° 91; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/08/01/la-importancia-de-la-terapia-familiar-entrevista-a-salvador-minuchin/)
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