Terapia breve focada nas soluções · Entrevista
A Finlândia foi o primeiro país do mundo a fazer a terapia breve focada nas soluções entrar no marco nacional da psicoterapia. Peter Sundman, Ben Furman e Riitta Malkamäki contam a Mark McKergow como isso foi feito: quarenta anos de esforço, uma associação criada em 1995 porque o ministério se recusava a conversar com uma empresa privada, uma advogada que tomou o partido da terapia breve contra o parecer de todos os seus especialistas — e, hoje, a constatação amarga de que os terapeutas reconhecidos fazem terapia longa e individual. O relato vale também como contraponto: foi no mesmo país, mais ou menos nos mesmos anos, que nasceu o Diálogo Aberto.
Tradução não oficial para o português. Esta entrevista é a tradução de SFBT Is Now the Most Commonly Used Therapy in Finland: Interview With Peter Sundman, Ben Furman and Riitta Malkamäki, conduzida por Mark McKergow e publicada no Journal of Solution Focused Practices (2024), doi: 10.59874/001c.118339, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto foi traduzido, rediagramado e provido de subtítulos, e alguns erros tipográficos evidentes do original foram corrigidos — tudo isso constitui modificação da obra nos termos da licença. A figura 1, uma linha do tempo desenhada por Peter Sundman, não é reproduzida aqui; ela se encontra no original, assim como a versão russa da entrevista que a revista disponibiliza junto ao artigo. O endereço eletrônico de contato do entrevistador não foi reproduzido. Esta tradução não foi feita pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo
A Finlândia, país de 5,6 milhões de habitantes, foi o primeiro do mundo a conseguir que a terapia breve focada nas soluções (TBFS) fosse aceita nos marcos e sistemas nacionais de psicoterapia. Nesta entrevista, três praticantes, supervisores e formadores experientes revisitam como isso foi conquistado, o que ajudou e onde está hoje a prática focada nas soluções. Esta entrevista não é apenas uma reflexão histórica: ela interessará muito a quem procura implantar a prática focada nas soluções em seu próprio país, fazer o campo crescer e ponderar os prós e os contras de se engajar com as organizações nacionais estabelecidas.
Palavras-chave: TBFS, Finlândia, associações, credenciamento, qualificações, reconhecimento.
Os participantes
Peter Sundman é um dos pioneiros da abordagem focada nas soluções na Finlândia. Trabalha na área social e da saúde desde 1978, primeiro como assistente social, depois como terapeuta de casal e de família e, desde os anos 1990, como formador, supervisor de trabalho e coach focados nas soluções e, mais tarde, como formador em psicoterapia focada nas soluções. Publicou vários artigos sobre a aplicação da abordagem em diferentes contextos.
Ben Furman é psiquiatra e professor internacionalmente ativo de terapia focada nas soluções. Junto com seu colega de longa data Tapani Ahola, escreveu muitos livros sobre essa terapia, além de serem cofundadores do Helsinki Therapy Institute, onde formaram centenas de profissionais finlandeses na arte da terapia focada nas soluções.
Riitta Malkamäki está fascinada há décadas pelas ideias e pelos modos de trabalhar focados nas soluções. Seu trabalho também tem fortes influências narrativas, como psicoterapeuta formadora e supervisora reconhecida e como coach de capacidade para o trabalho e de liderança. Foi uma entusiasmada integrante da diretoria da EBTA e de muitas associações finlandesas. Vive entre a Finlândia e a Itália, por razões de beleza da vida.
Mark McKergow, que conduziu a entrevista, dirige o Centre for Solutions Focus at Work, em Edimburgo (Escócia), e é o editor-chefe do Journal of Solution Focused Practices.
Antes de começarmos: a TBFS é hoje a forma de psicoterapia mais comumente reembolsada pelo seguro nacional de saúde aqui na Finlândia (segundo os números mais recentes do Instituto Nacional de Saúde Ocupacional).
Ben Furman
Como a prática focada nas soluções chegou à Finlândia?
Peter: Tenho uma imagem para mostrar sobre isso (ver figura 1). Pelo que ouvi dizer, começou nos anos 1970 com John Frykman e suas A-Clinics — era, claro, a terapia breve do Mental Research Institute (MRI). Depois, Elam Nunnally, da equipe do Brief Family Therapy Center de Milwaukee, tinha uma esposa finlandesa; ele vinha para cá todos os anos desde os anos 1970 e começou a formar os centros de orientação familiar da Igreja. Em 1979, a Liga Mannerheim mandou traduzir para o finlandês o livro Mudança (Watzlawick et al., 1974) — o trabalho do MRI foi um precursor da abordagem focada nas soluções. Eles continuaram, e Ben e Tapani Ahola começaram seu instituto de formação nas dependências deles. Então, no fim dos anos 1980, Steve de Shazer e Insoo Kim Berg passaram a vir até aqui; a Universidade Aberta organizou formações com eles, dentro do sistema das universidades de verão. Ben e Tapani começaram a publicar livros por volta de 1985.
Ben: Não havia muita literatura na época, então achamos que era nossa responsabilidade e nosso dever garantir que houvesse literatura e livros disponíveis. Hoje temos umas 50 publicações, em várias línguas.
Peter: Minha própria rede começou no início dos anos 1990, com o instituto TaitoBa; fazíamos formação e supervisão, além de terapia e coaching. Houve também um projeto na fundação de reabilitação VOK, que se tornou parte do grande estudo de Helsinque sobre psicoterapia, importante para levar a abordagem focada nas soluções para dentro da psicoterapia. E então, em 1995, criamos a Ratkes, a associação finlandesa da abordagem focada nas soluções, o que foi uma parte muito importante. No conjunto, acho que um grande grupo de profissionais dedicados introduziu e implantou a abordagem em muitos setores da área social e da saúde.
Ben: A razão inicial pela qual precisávamos de uma associação é que queríamos que a abordagem fosse reconhecida pelo governo, pelo Ministério da Saúde; e eles não falavam com uma empresa privada, queriam falar com uma associação neutra (como haviam feito com todas as outras escolas de psicoterapia). Tivemos, portanto, de criar uma associação para negociar com eles as regras e os regulamentos. Criar a associação não bastou; a luta foi longa de qualquer modo!
Peter: Notei também que outras empresas vinham aplicando as ideias focadas nas soluções na liderança e em outras coisas, na mudança positiva, e isso já desde os anos 1980. A Liga Mannerheim começou pela orientação escolar e tem um centro de reabilitação e projetos em escolas. Então vejam: foram necessários quarenta anos de esforços dedicados para chegarmos onde estamos. Em amarelo, no esquema, coloquei minhas ideias sobre o que foi útil e importante. Isso se deveu a um compromisso coletivo: vinte e cinco pessoas estiveram estreitamente envolvidas desde o início. E, claro, ter bons formadores é importante, assim como ter bons resultados! Depois, aprendemos talvez tarde demais a importância de ter formadores credenciados: isso foi decisivo.
Riitta: Acho que os supervisores são uma parte importante disso. Dirijo uma associação de supervisores na Finlândia, a Suomen Työnohjaajat ry (Story). Temos 3.000 associados, e muitos deles são focados nas soluções, formados em supervisão focada nas soluções. Isso é importante; eles trabalham em áreas muito diferentes, tanto no setor público quanto no privado.
Ben: Na lei finlandesa é obrigatório que os empregadores ofereçam supervisão aos profissionais de saúde mental — é por isso que há tantos deles e que existe um organismo para dar o credenciamento.
Peter: Formamos supervisores há todos esses anos. A formação dura de dois anos e meio a três anos, o que significa que não podemos ensinar apenas técnicas, mas também o pensamento. Há quinze ou vinte anos existe também uma formação de coach, que dura um ano.
Riitta: Para mim foi muito importante que, alguns anos atrás, nosso primeiro-ministro Juha Sipilä tivesse um projeto central de apoio ao trabalho em tempo parcial; ele escolheu a abordagem focada nas soluções para esse grande projeto. Formamos mais de mil orientadores de capacidade para o trabalho em três anos. Eu era a especialista da abordagem nesse projeto, com nosso primeiro-ministro — foi ótimo. Tivemos sorte de viver isso. Foi publicado um artigo a respeito, em inglês (Nevala et al., 2022).
Peter: O governo de Sanna Marin (2019-2023) usou ideias focadas nas soluções para negociar seu programa de governo: começar por mesas-redondas sobre as visões e os objetivos e depois descobrir o que era economicamente possível.
Voltemos ao momento em que a associação Ratkes estava começando, nos anos 1990. Como vocês fizeram isso? Como ajudaram a criar uma associação tão forte?
Ben: Posso contar a história. O organismo ligado ao ministério da saúde, a Autoridade Nacional de Supervisão do Bem-Estar e da Saúde (Valvira), tem a responsabilidade de habilitar médicos, enfermeiros, psicólogos… é ela que dá o estatuto, o direito de usar o título. Assim, psicoterapeuta é um título protegido: não se pode chamar a si mesmo assim sem ser credenciado pelo ministério. As pessoas da equipe que decidiam quais escolas de terapia podiam se candidatar detestavam a ideia de qualquer terapia breve. Todos os especialistas da equipe fizeram de tudo para impedir que a abordagem focada nas soluções fosse aceita. Mas a pessoa que dirigia esse órgão, Aila Lind, não era médica: era advogada. Ela se convenceu de que a terapia breve era uma boa ideia e foi contra os especialistas. Sozinha, quis promover a abordagem como forma de terapia, e conseguiu.
Peter: Lembro que você, Ben, fez circular entre os formadores focados nas soluções um documento com as exigências da formação. O ponto crítico era a “terapia pessoal” — era preciso estar em terapia para se tornar terapeuta. No fim, chamamos isso de “desenvolvimento pessoal” e fizemos em pequenos grupos de apoio. Depois tivemos a primeira formação em 2000; ela continuou e o sistema se desenvolveu.
Riitta: É bastante triste que isso seja uma questão de opiniões pessoais e de pessoas, de contatos e de relações. Não está certo.
Peter: Isso mostra que são necessárias pessoas capazes de conduzir negociações com partes rivais e de fazer lobby para obter reconhecimento público.
Depois, alguém começou a usar o sistema, dentro da comunidade de formação focada nas soluções, para seu próprio ganho e lucro pessoais. O governo decidiu pôr fim a isso e transferir toda a formação em psicoterapia para as universidades.
Ben: Acho que isso aconteceu em outros países também — na Austrália, por exemplo. Se você quer ser psicoterapeuta, precisa ser formado por uma universidade. É assim há vários anos. Não haveria formação alguma sem uma universidade com quem colaborar. Hoje há apenas uma universidade na Finlândia, a Universidade da Finlândia Oriental, que oferece a formação. Agora dizem que todo mundo pode fazer a formação, mas com as universidades ela é mais cara. O preço dobrou. Quando passou para a universidade, disseram que ela ficaria mais ligada à pesquisa; mas não ficou.
Peter: Na universidade de Oulu, com a qual colaborei, conseguimos, no entanto, introduzir alguma pesquisa, na forma de um projeto de microanálise que cada formando realizava como parte de sua formação.
Peter: Nos anos 1990 tínhamos uma bela dinâmica em curso: dávamos formações, os locais de trabalho se interessavam, as negociações com as autoridades davam certo. Mas também crescia uma resistência. Uma revista nacional pôs na capa uma foto de Ben — que tinha então um programa de televisão no horário nobre — tentando desacreditá-lo ao questionar suas credenciais. Deve ter sido terrível para você, Ben.
Ben: Era antes da internet. Não é como hoje, com os ataques em massa nas redes sociais. Eu era uma espécie de influenciador da época (embora a palavra não existisse então).
Riitta: Antes de a abordagem focada nas soluções chegar, o pensamento revolucionário de Franco Basaglia (1924-1980) era popular; era um pensamento muito diferente, que mudou todo o mundo psiquiátrico. E houve o filme Um estranho no ninho; houve muita desinstitucionalização, os muros caíam, e era a hora certa para a abordagem chegar. A atmosfera era propícia.
Peter: Na Finlândia, isso é chamado de “movimento de novembro”, por causa de um episódio de novembro de 1967 em que alcoolistas morriam na neve e os psiquiatras começaram a dizer: “temos de cuidar dessas pessoas”.
Riitta: O livro de Basaglia L’istituzione negata: Rapporto da un ospedale psichiatrico (A instituição negada: relato de um hospital psiquiátrico, Basaglia, 1968) foi muito influente. E L’utopia della realtà (A utopia da realidade) também.
Peter: E você, Ben, estava naquela época literalmente abrindo as portas do hospital psiquiátrico onde trabalhava!
Riitta: O que aconteceu com aquele pensamento revolucionário? A abordagem biológica tomou conta.
Nota da redação do Journal of Solution Focused Practices
Uma nova biografia de Franco Basaglia, muito bem recebida, The Man Who Closed the Asylums: Franco Basaglia and the Revolution in Mental Health Care, de John Foot (2023), acaba de sair em inglês em formato de bolso.
Ben: Ouvi uma palestra de Insoo em 2005 ou por aí, em que ela se referia ao espírito do tempo dos anos 1970 e 1980: as pessoas queriam mudar o mundo, eram politicamente ativas, havia muito desejo de tornar o mundo um lugar melhor. Parar as guerras, parar a opressão das pessoas, liberdade! O movimento da terapia familiar nasceu, o MRI nasceu. A abordagem focada nas soluções é um dos resultados dessa corrente. Insoo dizia que em Milwaukee eles também se inspiravam no que estava acontecendo naquela época.
Peter: Concordo, porque quando me pediram para escrever um material geral de serviço social para as universidades, eu estava preparado para defender minha posição com o material focado nas soluções que havia preparado. Para minha surpresa, todo mundo conhecia ou apreciava — foi aceito. Era visto como parte de um quadro maior, o do empowerment.
Riitta: A abordagem focada nas soluções faz parte do grande, grande mundo. Era o tempo hippie. As pessoas que participavam desses desenvolvimentos visitavam o instituto Esalen, na Califórnia, e visitavam Milton Erickson. No ano passado passei uma tarde com o filho de Milton Erickson e foi muito inspirador. Vi as raízes, o modo como as portas se abriam, e Milton Erickson mudando todo o pensamento, especialmente a compreensão de quem é o especialista e de onde podemos encontrar o poder e a sabedoria para a mudança. Tantas abordagens novas receberam força de crescimento daqueles pensamentos revolucionários e daquelas maneiras tão particulares de trabalhar. Não estamos sozinhos, e a ideia focada nas soluções não surgiu do nada.
Ben: Há um fato triste depois desse período. Na Finlândia, as pesquisas mais recentes mostram que os terapeutas focados nas soluções estão fazendo terapia de longo prazo! E os terapeutas cognitivo-comportamentais também. (Na Finlândia isso quer dizer dois anos ou mais.) O que acontece é que o seguro nacional de saúde dita a duração das terapias. Deveriam ser o terapeuta e o cliente a decidir, é claro. Mas o seguro nacional de saúde garante um mínimo de quarenta sessões por ano durante três anos. E é sempre terapia individual. Há muito poder sobre os terapeutas por causa do mecanismo de reembolso. Na Alemanha não existe TBFS oficial: ela está incluída na terapia “sistêmica”. Adivinhem? A maioria desses terapeutas “sistêmicos” faz terapia individual, e a maioria faz terapia de longo prazo. É um fato triste: mesmo querendo criar um mundo de terapia breve interacional, com envolvimento social das famílias e do ambiente, a força ainda empurra para a terapia individual e longa. Plus ça change, plus c’est la même chose!
Peter: Outra mudança recente é a grande reforma nacional da área social e da saúde de 2023, que transferiu os serviços das comunidades locais para comunidades maiores. Elas começaram a reembolsar terapias curtas de todas as modalidades. Até os psicodinâmicos estão aderindo.
Olhando para trás, se vocês fossem dar alguns conselhos a quem está começando a montar associações nacionais, ou a quem quer crescer e ganhar influência, o que diriam?
Peter: Juntem-se, encontrem um punhado de pessoas que pensem parecido, comecem a formar, comecem a publicar coisas, encontrem parceiros com quem cooperar e trabalhem com as autoridades se os compromissos não forem ruins demais. Nós fizemos formação focada nas soluções durante dez anos antes de a associação começar; criticávamos o sistema, quando poderíamos ter cooperado antes. E então vocês precisam de algumas pessoas influentes que cooperem com vocês, pessoas que confiem em vocês.
Ben: Não teríamos conseguido fazer da abordagem focada nas soluções uma psicoterapia na Finlândia sem a coincidência de que a pessoa que dirigia o organismo nacional era advogada, e não psicóloga, e estava disposta a ir na contramão, a contradizer os especialistas e a negociar um acordo com a associação. (Tenho certeza de que a detestavam!) Encontrei-a uma vez em um avião e ela ria disso. Ela tinha uma posição muito neutra e era leiga; os outros tinham uma mentalidade muito tradicional e achavam que a abordagem focada nas soluções “não era psicoterapia”, que era mais parecida com coaching. Diziam isso porque ela carece, no entender deles, de fundamento teórico.
Peter: Concordo, sempre há acontecimentos fortuitos e coincidências. O que importa é estar preparado para eles.
Ben: A rede é a chave. Nada acontece se você ficar dentro da sua casa de vidro. O lobby é a chave — eu detestava tanto isso, mas é a chave! Basta um professor. O professor Yrjö Alanen (1927-2022) tem um lugar importante na história da psiquiatria finlandesa. Era um psiquiatra que estudou psicanálise, formou-se psicanalista em 1969 e tornou-se professor de psiquiatria na Universidade de Turku. Antes disso, nos anos 1970, trabalhou e pesquisou no Departamento de Psiquiatria do Rochester Medical Center, onde fez amizade com um dos pioneiros da terapia familiar, o doutor Lyman Wynne. Yrjö se inspirou nisso e fez do levar para a Finlândia a ideia de colaborar com as famílias um de seus objetivos. Foi uma figura central do processo de desinstitucionalização dos pacientes esquizofrênicos na Finlândia, nos anos 1970 e 1980, e presidiu a Associação Finlandesa de Saúde Mental de 1978 a 1982. Foi nesse período que iniciou o primeiro programa oficial de formação de três anos, sediado na associação e que levava ao título oficial de terapeuta familiar certificado.
Riitta: É difícil dizer como fazer em outros países, os sistemas são muito diferentes. Em alguns países é preciso dinheiro, em outros não. Acho que o melhor caminho é se reunir e tentar usar o que se tem ao redor. Claro que podemos compartilhar ideias e trabalho, mas isso tem de vir sobretudo do contexto de cada país. Fazer perguntas também pode ajudar.
Ben: A lobotomia foi uma intervenção de muito sucesso: não útil, mas de muito sucesso! O sujeito ganhou um prêmio Nobel por destruir um milhão de cérebros! Então por que ele teve sucesso? Porque a mídia o apoiou. Os jornalistas têm um papel em todos os modismos psiquiátricos — nos bons e nos maus. Isso talvez seja subestimado; há trens em marcha nos quais todo mundo embarca. A última novidade são os psicodélicos — e os jornalistas estão de novo embarcados, espalhando notícias sobre MDMA, LSD ou o que for (que não são eficazes de modo algum e causam muitos problemas).
Peter: Steve, Insoo, Elam Nunnally e outros foram muito generosos ao vir à Finlândia e passar tempo aqui. Acho que há muitos formadores focados nas soluções que estariam dispostos a ajudar quem está começando. Nós, com certeza, estamos.
Riitta: Hoje precisamos de Instagram, TikTok e assim por diante; é tão diferente do que fazíamos. Há cada vez mais gente com belas competências de marketing, mas com competências profissionais nem tão belas.
Ben: Quero apenas repetir esse fato triste: mesmo agora que a abordagem está sendo cada vez mais aceita, há uma tendência a se afastar do trabalho breve e do trabalho comunitário e interacional. Nossas ideias foram engolidas pela cultura da terapia individualista e de longo prazo. Mesmo quando somos aceitos, isso não garante nenhum efeito dos fundamentos e dos pensamentos revolucionários que fizeram nascer toda a ideia no começo. A gente ganha algumas coisas, mas também perde outras.
Peter: Vivemos em um tempo diferente e talvez precisemos de outra coisa hoje.
Riitta: Se você coloca o trabalho novo dentro do sistema antigo…
Ben: Há outro exemplo: existe um movimento de recuperação na psiquiatria, também ele revolucionário. Mas agora a psiquiatria engoliu o movimento e ele se tornou corrente. Todo país deveria tomar cuidado!
Riitta: Um pequeno sinal: quando um terapeuta focado nas soluções chega novo a um serviço, a linguagem é nova. E então, depois de um ano mais ou menos, ele está falando de novo a velha linguagem da terapia — e pensando da maneira tradicional. Se trabalham dentro do sistema antigo, usam o pensamento antigo — é tão triste de ver. Ainda temos muito a fazer para conseguir levar a mudança prática também aos níveis mais amplos dos sistemas organizacionais, embora tenhamos feito um bom começo — de novo, como nos primeiros anos, antes do retorno do poder e do pensamento biológicos e médicos.
Muito obrigado.
Referências
Basaglia, F. (1968). L’istituzione negata: Rapporto da un ospedale psichiatrico. Baldini & Castoldi.
Foot, J. (2023). The Man Who Closed the Asylums: Franco Basaglia and the Revolution in Mental Health Care. Verso Books. https://www.versobooks.com/en-gb/products/79-the-man-who-closed-the-asylums
Nevala, N., Mattila-Wiro, P., Clottes Heikkilä, H., & et al. (2022). Effects of work ability coordinators’ educational program on behavior of professionals. SN Soc Sci, 2, 229. https://doi.org/10.1007/s43545-022-00542-1
Watzlawick, P., Weakland, J. H., & Fisch, R. (1974). Change: Principles of problem formation and problem resolution. W. W. Norton.
Tradução não oficial para o português de “SFBT Is Now the Most Commonly Used Therapy in Finland: Interview With Peter Sundman, Ben Furman and Riitta Malkamäki”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
McKergow, M. (2024). A TBFS é hoje a terapia mais usada na Finlândia: entrevista com Peter Sundman e Ben Furman (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-tbfs-e-hoje-a-terapia-mais-usada-na-finlandia (Obra original publicada em 2024 em Journal of Solution Focused Practices, 8(1); republicada em 2024 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/118339)
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