Red Sistémica · Terapia familiar
Partindo de um diálogo do Dom Quixote – o do galé que escreve sua autobiografia e não pode terminá-la enquanto sua vida não terminar –, Ricardo Ramos apresenta os dois desafios da terapia narrativa: a impossibilidade de uma história pessoal completa, que obriga a passar da história exaustiva à história suficiente, e o problema da enunciação, que faz do relato um ato dirigido a alguém e não uma expressão. Daí ele extrai uma leitura da pós-modernidade em que já não prevalece a veracidade de uma versão, mas sua pertinência.
Nota da redação
A Red Sistémica publica este texto sob o título “Fragmento”: trata-se de um trecho de um artigo mais longo, cuja versão completa saiu em Perspectivas Sistémicas, n.º 89. Traduzimos aqui o trecho tal como foi republicado.
“Narrar é um ato, não uma expressão; não é relatar acontecimentos, é o acontecimento de relatar acontecimentos.”
Ricardo Ramos
No decorrer de suas aventuras em La Mancha, dom Quixote trava conhecimento com um galé de ambições literárias chamado Ginés de Pasamonte, autor de uma autobiografia picaresca que, segundo a firme convicção desse pitoresco personagem, eclipsaria o Lazarilho.
– E como se intitula o livro? perguntou dom Quixote.
– A Vida de Ginés de Pasamonte, respondeu o interessado.
– E está terminado? perguntou dom Quixote.
– Como poderia estar terminado, respondeu ele, se minha vida ainda não está?
Essa citação do Quixote apresenta o primeiro desafio com que a terapia narrativa deve se confrontar: a impossibilidade de uma história pessoal completa. Não se pode aspirar a uma história completa, nem da pessoa, nem dos problemas, nem da intersecção dos dois; porque a vida das pessoas vai continuar e o futuro dos problemas não pode ser previsto.
A história completa, exaustiva, que a opção consultiva (McNamee e Gergen, 1992) exige – saber bem o que aconteceu, para poder prescrever com conhecimento de causa o que deve ser feito – tem de ceder lugar à história suficiente, que é sempre suficiente por ora, por enquanto, se nada se complicar; e com a qual o que se pode esperar é que os problemas (e as pessoas) mudem o suficiente para que se possa continuar a viver com eles (e, no caso das pessoas, por si mesmas). Ou, nos termos de Anderson e Goolishian (1988): “os problemas não se resolvem; eles se dissolvem”.
Mas a citação do Quixote não é do Quixote. É a citação de uma citação. Ela vem do prólogo – curiosamente intitulado “Prólogo em torno do final” – de um livro dedicado ao tema do “fim do romance”, de um autor, este espanhol: Mario Kunz (1997).
E ela está aqui para colocar em pauta o segundo problema com que a terapia narrativa se confronta: o problema da enunciação. Narrar é um ato, não uma expressão; não é relatar acontecimentos, é o acontecimento de relatar acontecimentos. E isso não se faz para traçar o retrato de um autor, mas para cativar um público; para conquistá-lo, para fazê-lo fazer algo que, ainda que vagamente, temos interesse em que ele faça (Ramos, 2001).
Assim, não se narra como e o que se quer, mas como e o que se pode; são as condições de produção do discurso (QUEM consegui ser para você, para poder assim lhe dizer O QUÊ – Pêcheux, 1969), e não a necessidade expressiva, ou a atualização da narrativa pessoal ou da visão de mundo, que dão conta do que acaba nos sendo contado.
A citação do Quixote acima é universal e estava ali para impressionar. Já a citação da citação do Quixote era para iniciados. Estava ali para pôr em evidência o conhecimento local, o conhecimento à disposição apenas dos conhecedores (de um texto pouco comum neste caso, de uma situação particular em outro), o conhecimento nativo, o conhecimento de “quem está por dentro”.
Pois o que é notável no pós-modernismo não é que “tudo vale”; é que, dado o caráter contingente de qualquer versão, o que deve prevalecer não é a veracidade de uma sobre a outra, mas a pertinência de uma e não das outras, levando em conta o que, a cada momento, temos em mãos.
No mundo social, não há lugar para a posição de observador (e, portanto, para a distância objetiva sobre a qual se funda “a verdade”), mas apenas para a de ator – ainda que um ator reflexivo.
Para lembrar
Dois deslocamentos estruturam a clínica narrativa tal como Ricardo Ramos a apresenta aqui. Primeiro, renunciar à história exaustiva em favor da história suficiente: suficiente por enquanto, e suficiente para que a vida continue com os problemas. Depois, considerar o relato como um ato dirigido a alguém: o que se conta depende do que o narrador conseguiu ser para seu interlocutor, e não de uma necessidade de expressão. Daí o critério que substitui a verdade: não qual das versões é verdadeira, mas qual é pertinente aqui e agora.
Quem é Ricardo Ramos
O Dr Ramos é psiquiatra e terapeuta familiar, médico adjunto do Hospital de Sant Pau, em Barcelona, supervisor, docente e professor do mestrado em terapia familiar da Escola de Terapia Familiar do Hospital de Sant Pau, e coordenador do Laboratório de Comunicação Humana da Unidade de Psicoterapia desse hospital. É autor da obra Narraciones vividas, narraciones contadas (ed. Paidós).
Nota do original
(*) Este artigo é uma reprodução do original publicado no n.º 12/13 de Redes, junho de 2004. O texto completo saiu em Perspectivas Sistémicas, n.º 89.
Este artigo é a tradução para o português de “Las nuevas intervenciones. Nuevos métodos narrativos en terapia familiar”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Redes, n° 12/13, juin 2004). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Ramos, R. (2022). As novas intervenções. Novos métodos narrativos em terapia familiar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/as-novas-intervencoes-novos-metodos-narrativos-em-terapia-familiar (Obra original publicada em 2004 em Redes, n° 12/13, juin 2004; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/08/01/las-nuevas-intervenciones-nuevos-metodos-narrativos-en-terapia-familiar/)
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