Red Sistémica · Entrevista
O problema da violência na família e no casal volta sempre ao centro da cena. A promulgação de uma nova lei sobre o tema e o desfecho trágico, quase simultâneo, de um caso célebre reacenderam o debate. Nesta entrevista, Silvia Mesterman, psicóloga com trajetória reconhecida nesse campo, descreve sua abordagem da violência familiar, insistindo nos aspectos ideológicos do problema e na posição do terapeuta, para além dos aspectos técnicos. Ela compartilha seu trabalho, e escreveu vários livros, com Cecilia Grosman, advogada especialista em direito de família, que comenta, na sequência da entrevista, alguns aspectos específicos da lei de proteção contra a violência familiar.
“O abuso físico não é negociável: em um primeiro momento, precisamos conseguir que ele cesse. Só depois nos deslocamos para as diferentes etapas do processo.”
Silvia Mesterman
Nota da redação de Perspectivas Sistémicas
O caso célebre mencionado na introdução é o do ex-campeão mundial de boxe Carlos Monzón que, no momento de sua morte, cumpria pena pela morte de sua ex-esposa Alicia Muñiz. A lei em questão é a lei argentina n.º 24.417 de proteção contra a violência familiar, comentada por Cecilia Grosman em um artigo separado.
Em termos gerais, quais são os fundamentos teóricos que guiam seu trabalho sobre a violência familiar?
O ponto de partida é um modelo contextual que articula, com base em uma epistemologia cibernética, componentes individuais, familiares e socioculturais.
Se trabalhamos com a ideia de totalidade, damos uma atenção particular aos aspectos ideológicos da questão. Como terapeutas familiares, sabemos que a formação das famílias se apoia em um conjunto de pressupostos que circulam na sociedade e que se expressam, de maneira específica, nos diferentes grupos sociais e em cada família em particular.
Alguns desses pressupostos correspondem a concepções culturais atuais, explicitadas na linguagem social, como o princípio de igualdade na relação homem-mulher, a livre escolha fundada no amor e a educação dos filhos sem coerção.
Esses pressupostos explícitos coexistem com pressupostos implícitos, herdados de etapas sociais anteriores, que agem de maneira subjacente e que, no caso da violência familiar, determinam a ação. Os implícitos pertencem ao que se chama de ideologia patriarcal, que afirma uma desigualdade por natureza na qual o homem é superior à mulher e detém, consequentemente, um poder maior. A mulher e os filhos são propriedade do homem que, no exercício de seus direitos, tem o poder de discipliná-los e educá-los, e pode recorrer a todo tipo de castigo para alcançar esses fins.
Essa ideologia patriarcal, caracterizada pelo autoritarismo, é a base sobre a qual se apoia o desenvolvimento da violência doméstica, a qual, como se vê, está ligada a estruturas hierárquicas de gênero e de idade que formam relações de subordinação e de dominação. Esses sistemas familiares funcionam sob o signo de uma coesão predominante, sem nenhuma possibilidade de diferenciação entre seus membros. Neles circulam regras que amputam a autonomia e que definem um “poder ser” somente sob a imposição de um outro. A rigidez que caracteriza essas estruturas faz com que as pessoas se relacionem apenas em termos de funções. É assim que elas recortam sua identidade: cada um “é” pela presença do outro.
Esse modo de funcionamento permite que os atos de abuso passem despercebidos e sejam registrados como “naturais” e/ou “normais”.
Do mesmo modo, a presença de uma situação externa, cotidiana, repetida, cada vez mais sutil, de consenso, confere legitimidade aos atos violentos e anula os possíveis mecanismos de controle social.
Quando se fala de violência, faz-se referência a um ciclo que se repete no tempo. Qual é a sua visão desse aspecto?
Para simplificar, vou responder à pergunta apenas quanto à violência homem-mulher, pois o ciclo da violência contra as crianças apresenta aspectos específicos.
O ciclo da violência é um paradigma útil para pensar o fenômeno e, sobretudo, para compreender melhor quais são os mecanismos que o perpetuam e as razões centrais pelas quais as mulheres, que são majoritariamente as vítimas da violência física, permanecem com o parceiro.
Segundo esse esquema, a violência ocorre em situações cíclicas que podem ser relacionadas a três fases, cuja duração ou intensidade variam conforme o caso: 1) o acúmulo de tensão, 2) a fase aguda das agressões, 3) a calma “amorosa”.
A fase 1 é a da elevação da tensão nas relações de poder estabelecidas. O deslocamento das expectativas ligadas aos estereótipos de gênero põe em risco a estabilidade do sistema, na medida em que atinge a estabilidade de seus membros. Quando a tensão alcança seu ponto de tolerância máxima, chega a fase 2, a das agressões. Isso significa que, ao longo de trocas recorrentes, cada vez mais tensas, a violência física emerge nos momentos em que a relação de dominação e de subordinação precisa ser reconfirmada. O golpe desferido pelo homem deve ser visto como um ato de impotência diante da possível perda de um poder real ou jamais alcançado, e não como uma simples demonstração de força. Os resultados da fase crítica das agressões reconfirmam a identidade de cada um, fundamentalmente baseada na relação mulher fraca e passiva / homem forte e ativo. Na medida em que os dois estão ligados apenas em termos de funções, cada um conserva um reconhecimento de si mesmo enquanto o outro não deixar de ser o que “deveria” ser.
A fase 3 é radicalmente oposta à fase 2. Em termos relacionais, ela se distingue por uma conduta de arrependimento e de afeto por parte do homem violento, e pela aceitação da mulher, que acredita em sua sinceridade. Nessa etapa predomina uma imagem idealizada da relação, conforme aos modelos convencionais de gênero. Depois, mais cedo ou mais tarde, tudo recomeça e a fase 1 volta à cena. Por fim, o ciclo da violência física quase sempre se acompanha de uma violência emocional muito mais difícil de identificar e de quantificar, mas que não é menos agressiva e perigosa. Do mesmo modo, em uma proporção muito alta de casos, a violência é unicamente psíquica. Esse tipo de violência ocorre essencialmente na fase 1, de acúmulo de tensão, e se caracteriza por trocas desqualificadoras, indiferença, desconfirmações, ameaças e insultos, entre outros. Quando chega o ponto de tensão máxima, a descarga se produz sob a forma de gritos, raiva, fúria, golpes contra objetos, portas batidas, saídas de casa etc. Em seguida reaparece a etapa da calma, que fecha e renova o ciclo. A detecção desse circuito de violência emocional é importante porque uma concepção difundida associa a ideia de violência apenas à violência física, deixando de lado um número muito grande de situações de abuso.
Para lembrar
Para Silvia Mesterman, o golpe não é, em primeiro lugar, uma demonstração de força, mas um ato de impotência: ele surge quando a relação de dominação precisa ser reconfirmada, e reconfirma ao mesmo tempo a identidade congelada de cada um. E a violência psíquica, que segue o mesmo ciclo, é muito mais frequente e muito mais difícil de identificar do que a violência física.
De que maneira você aborda o tratamento da violência no casal?
Na medida em que o fenômeno da violência responde a uma articulação de instâncias, é indispensável abordá-lo com um enfoque interdisciplinar. Em diferentes momentos e em diferentes circunstâncias, a participação de várias disciplinas é requerida, simultaneamente ou de maneira escalonada no tempo. Não vou me deter nas características que uma equipe interdisciplinar deve reunir, mas quero destacar como fundamentais a necessidade de compartilhar um quadro teórico, a distinção clara entre as competências de cada disciplina e, por fim, a reflexão permanente sobre o tema em questão, sobre o papel profissional e sobre os aspectos pessoais engajados na tarefa. Do lado da psicologia, vemos que o problema implica o recurso, conjunto ou alternado, a diferentes modalidades de intervenção conforme o caso. Assim, trabalhamos no desenvolvimento de projetos de sensibilização e de conscientização, na criação de redes de apoio, em grupos de ajuda mútua para mulheres e para homens, em terapias de grupo e individuais, e em terapias familiares e de casal, atendendo os membros juntos, por subsistemas ou individualmente. O objetivo comum dessas alternativas de intervenção é uma revisão da ideologia patriarcal, assim como um processo de deslegitimação e de desnaturalização da violência e um aumento de sua visibilidade.
O processo terapêutico se desenrola em torno de um conjunto de momentos que avançam em espiral, produzindo, ao longo de todo o tratamento, um efeito cumulativo (ver o quadro mais abaixo). Esse processo é concebido como uma atividade que se desenvolve principalmente no diálogo, e não como uma ação de intervenção sobre o indivíduo. Nessa postura, o terapeuta tenta se inserir na construção do mundo da família, do casal ou da pessoa, para suscitar propostas de olhares alternativos. As técnicas que utilizamos são variadas e incluem, entre outras, a narração de contos, o humor, o jogo, a encenação, o uso de imagens metafóricas e os diálogos relacionais.
Um dos temas mais discutidos na abordagem da violência familiar é o do tratamento conjunto ou individual dos membros do sistema. Qual é a sua opinião?
Em princípio, considero que a violência deve ser controlada antes que qualquer outro trabalho possa ser empreendido. O tema principal é, portanto, a violência, e só depois a atenção aos diferentes aspectos da relação.
O abuso físico não é negociável e, consequentemente, em um primeiro momento, precisamos conseguir que ele cesse. Em seguida, nos deslocamos para as diferentes etapas do processo, mantendo como foco principal a questão de gênero, que implica uma valorização do lugar da mulher e sua equiparação ao do homem. A terapia conjunta é possível quando o homem aceitou cessar a violência e a mulher quer prosseguir a relação. Isso só é viável se a situação for analisada no contexto da ideologia patriarcal e com a intenção clara de encontrar uma formulação alternativa que conduza a novos comportamentos. Caso contrário, o efeito dos atendimentos conjuntos pode levar, o homem em particular, a se esquivar de sua responsabilidade e a reforçar a ideia justificadora dos fatos como resposta a uma suposta provocação. Em resumo, penso que a terapia familiar e a terapia de casal são extremamente produtivas e realizáveis, desde que o terapeuta conheça as implicações da ideologia em seu trabalho.
Para terminar, qual é o lugar do terapeuta e quais são suas características essenciais?
O terapeuta ocupa um lugar central na terapia da violência familiar. Da maneira como ele faz uso de sua posição depende, em parte significativa, a eficácia do tratamento. Uma ideia de base é que as pessoas possuem seus próprios recursos e sempre encontram uma saída. O terapeuta desenvolve e reorienta esses recursos favorecendo habilidades e aptidões. Para isso, ele precisa correr riscos semelhantes aos que espera dos pacientes. O principal risco é estar disposto a engajar sua pessoa. Isso significa que tanto sua ideologia quanto suas qualidades pessoais são os recursos mais preciosos de que dispõe. Pelo uso de seu self, o terapeuta se inclui nos vínculos com os pacientes e se exclui deles, ocupando ora o lugar de ativador, ora o de observador externo das situações. Em outros casos, ocupa o lugar de modelo. Esse papel dinâmico deve lhe permitir uma gama múltipla de movimentos: entrar nas relações e sair delas, fazer uso de sua autoridade, brincar e se retirar, permanecer central ou periférico etc. Tudo isso exige do terapeuta uma grande plasticidade, um uso flexível de si mesmo, um engajamento ideológico (em particular nas questões ligadas ao gênero) e uma disposição pessoal importante para a mudança e para a reconsideração permanente de sua tarefa, a fim de detectar as ressonâncias e os isomorfismos que se infiltram constantemente e obstruem a ação. O trabalho sobre a própria pessoa tornou-se para mim um aspecto fundamental. Nesse sentido, em todas as atividades que conduzo há muito tempo (tanto supervisão de equipes quanto formação), não me ocupo apenas do problema da violência nos casos apresentados, mas também do que acontece com a pessoa do profissional (ou dos profissionais) envolvido na situação.
Nota da redação
Silvia Mesterman conta entre seus formadores o mestre italiano Maurizio Andolfi (ver Perspectivas Sistémicas n.º 22, julho-agosto de 1992), com quem estudou e continua a se treinar no uso de sua própria pessoa em sua prática da terapia familiar.
Base segura de apoio e de continência. Flexibilidade e controle máximo da condução do processo. Condições relativas à cessação dos atos de violência.
Processo de diferenciação individual e subsistêmica. Valorização. Desenvolvimento da autoestima e da igualdade. Desenvolvimento da responsabilidade.
Circulação de significados relativos aos estereótipos de gênero. Confronto de ideologias. Desnaturalização.
Extensão à família de origem e às outras pessoas significativas. Ruptura do isolamento e do silêncio. Visibilização da violência.
Incorporação do controle social. O contexto terapêutico como deslegitimação da impunidade.
Consolidação da diferenciação, da autovalorização e da autoestima.
Quem é Silvia Mesterman
Silvia Mesterman é psicóloga e terapeuta familiar. Professora titular na Universidade de Belgrano e no mestrado em direito de família da Universidade de Buenos Aires, dirige com Cecilia Grosman o Centro Interdisciplinario de la Familia, instituição dedicada à pesquisa, à prevenção, à formação e ao atendimento nas problemáticas de família e de gênero: violência, adoção, divórcio, mediação etc.
A entrevista foi realizada por Horacio Serebrinsky, doutor em psicologia, diretor da ESA (Escuela Sistémica Argentina).
Esta entrevista é a tradução para o português de “Clínica de la Violencia Familiar. Entrevista a Silvia Mesterman”, publicada pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 35, mars-avril 1995). Traduzida e republicada com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Serebrinsky, H. (2022). Clínica da violência familiar. Entrevista com Silvia Mesterman (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/clinica-da-violencia-familiar-entrevista-com-silvia-mesterman (Obra original publicada em 1995 em Perspectivas Sistémicas, n° 35, mars-avril 1995; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/27/clinica-de-la-violencia-familiar-entrevista-a-silvia-mesterman/)
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