Journal of Solution Focused Practices · Prática
“Escutar é importante” circula há muito tempo na gestão e na liderança e, mesmo assim, pouquíssimas pessoas sabem o que realmente acontece enquanto escutam. Apoiando-se na Microanálise do diálogo face a face, Elfie J. Czerny e Dominik Godat mostram que escutar é algo que fazemos de modo visível, audível e interativo — e que aquilo que confirmamos com um aceno de cabeça ou um “mhmm” orienta o que o outro vai continuar contando. Dois trechos de conversas de liderança mostram como uma mesma frase de abertura leva ora a uma descrição de problema, ora a uma exceção, conforme o que o ouvinte recolhe.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de How Your Listening Affects Your Conversations, de Elfie J. Czerny e Dominik Godat, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n. 2 (2021), doi: 10.59874/001c.75048, sob licença CC BY 4.0. A revista o publica como “RE-PRINT ARTICLE”: o texto apareceu primeiro em alemão no blog da Leadership Network Lucerne, da Escola Superior de Ciências Aplicadas de Lucerna, e são os próprios autores que o republicam aqui em inglês, sob essa licença. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto foi traduzido e rediagramado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Nota dos autores
Este artigo foi publicado originalmente em alemão no blog da Leadership Network Lucerne, da Escola Superior de Ciências Aplicadas de Lucerna.
Muito obrigado a Heather Fiske pelo apoio na edição da versão inglesa do texto.
Complexe Systémique · no atlas
Este é o terceiro de três textos que os mesmos autores dedicaram à comunicação no mesmo número da revista. Os outros dois também estão no atlas: A comunicação hoje: Watzlawick e companhia estavam errados?, sobre o modelo emissor-receptor e os cinco axiomas da comunicação, e O grande mal-entendido: nem tudo é comunicação!, sobre o primeiro axioma e a indústria da linguagem corporal que se construiu sobre ele.
“Escutar é importante.” Embora essa afirmação circule há muito tempo na gestão e na liderança, pouquíssimas pessoas sabem o que realmente acontece quando escutam. Ou você sabe como influencia, com a sua escuta, o que é dito em uma conversa?
Frases como “Eu não fiz nada, apenas escutei” ou “Meus colaboradores só me falam de problemas” deixam claro que pouquíssimos gestores enxergam a relação entre a escuta e aquilo que é dito. E isso apesar de a escuta e os seus efeitos já terem sido pesquisados cientificamente.
A escuta é muitas vezes entendida como algo passivo. Como algo que não tem qualquer efeito sobre a história que está sendo contada. No entanto, as pesquisas da Microanálise do diálogo face a face (Microanalysis of Face-to-Face Dialogue; Bavelas & Gerwing, 2011), que recorre à análise de vídeo para investigar o que acontece nas conversas momento a momento, mostram que escutar é algo que fazemos de modo visível, audível e interativo.
Como ouvintes, fazemos muita coisa nas conversas:
Na Microanálise do diálogo face a face, chamamos esses sinais visíveis e às vezes também audíveis, que mostram que estamos escutando, de respostas de ouvinte genéricas e específicas. As respostas de ouvinte genéricas são comportamentos como acenar com a cabeça, o “mhmm” ou o sorriso, que usamos também em outras conversas. Elas mostram ao outro que estamos escutando. As respostas de ouvinte específicas relacionam-se especificamente ao conteúdo do que está sendo dito. Repetir uma palavra precisa ou parte de uma frase é, por exemplo, uma resposta de ouvinte específica.
O que fazemos enquanto escutamos é interacional:
Não são apenas as respostas de ouvinte presentes que influenciam a conversa. Quando faltam ou surgem no momento errado, isso também pode ser bastante desconcertante.
Você certamente já passou por isso: você está contando algo e o outro, talvez ocupado com o celular ou com o computador, não reage ao que você diz — nenhum contato visual, nenhum aceno de cabeça, nenhuma resposta de ouvinte — ou então reage em momentos estranhos, por exemplo com um “mhmm, mhmm” depois de uma pergunta que você acabou de fazer. Você provavelmente vai se perguntar se o outro está ouvindo ou entendendo você. Talvez até pergunte. E é muito provável que essa falta de respostas de ouvinte afete a qualidade da história que você está contando.
Bavelas et al. (2000) mostraram exatamente isso em seu estudo. Dividiram os narradores em dois grupos. Os narradores de um grupo eram escutados atentamente. No outro grupo, os ouvintes tinham de contar as palavras que começavam com a letra “T”. As histórias contadas foram gravadas em vídeo. As gravações foram então mostradas a uma plateia que devia avaliar quem eram os melhores contadores de histórias.
O resultado não surpreende: os ouvintes atentos produziam respostas de ouvinte normais, que encorajavam os narradores a prosseguir com a história. Já os ouvintes distraídos reagiam menos ao que era dito. Como consequência, os narradores que não foram escutados com atenção foram avaliados como contadores de histórias significativamente piores.
Como ouvintes, colaboramos o tempo todo com o nosso interlocutor. A qualidade do relato está diretamente relacionada à nossa escuta atenta. Se você quer ouvir boas histórias, então precisa escutar com atenção.
Mas em que você deve concentrar a sua atenção? Naquilo sobre o que você quer ouvir mais. Escutar é algo que aprendemos desde cedo e que fazemos naturalmente. “Isso nós sabemos fazer. Não precisamos aprender isso à parte”, você talvez objete agora. Por um lado, é verdade. Por outro, você pode influenciar o conteúdo da conversa com a sua escuta.
Não conseguimos escutar de modo neutro. A pesquisa em microanálise mostra que aquilo que escutamos faz diferença. Ouvimos com frequência de gestores que seus colaboradores só falam de problemas (Jordan et al., 2013). Quando então analisamos com eles suas conversas de liderança, fica claro que eles contribuem de forma significativa, com a sua escuta, para aquilo que é dito. Eles confirmam, por exemplo com um aceno de cabeça ou um “aha”, quando se fala de problemas, e não quando os colaboradores falam de exceções ou de objetivos. Isso encoraja os colaboradores a prosseguir com a descrição do problema. Ou então os gestores incluem sobretudo, em suas próprias falas, os aspectos negativos do que foi dito, em vez das palavras que já vão em uma direção desejada.
Exemplo 1, da análise de uma conversa de liderança
Colaborador — “No momento, não está indo muito bem.”
O gestor confirma — “Mhmm”
O colaborador prossegue com a descrição do problema — “Não é tão simples, porque…”
Variação:
Colaborador — “No momento, não está indo muito bem.”
O gestor escuta as exceções — “No momento? Isso quer dizer que antes estava melhor?”
O colaborador explica — “Sim, estava melhor dois meses atrás…”
Exemplo 2, da análise de uma conversa de liderança
Colaborador — “Eu não quero mais isso.”
O gestor confirma — “Ah, ok.”
O colaborador prossegue com a descrição do problema — “Pois é, sabe, porque…”
Variação:
Colaborador — “Eu não quero mais isso.”
O gestor escuta as exceções — “Ah, você não quer mais isso. O que você quer no lugar?”
O colaborador explica — “Eu preferiria…”
Concentre-se naquilo sobre o que você quer ouvir mais. Vale a pena! Se você quer ouvir mais sobre exceções, mais sobre o que já funciona, mais sobre os objetivos dos seus colaboradores ou sobre suas esperanças e desejos, mais sobre seus sucessos, etc., então treine a sua escuta.
Escute especificamente esses elementos. Confirme esses elementos nas falas do seu interlocutor com respostas de ouvinte genéricas e específicas. Você verá suas conversas evoluírem pouco a pouco nessa direção.
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em alemão: www.sfontour.com/mikroanalyse
Referências
Bavelas, J., Coates, L., & Johnson, T. (2000). Listeners as co-narrators. Journal of Personality and Social Psychology, 79(6), 941-952. https://doi.org/10.1037/0022-3514.79.6.941
Bavelas, J., & Gerwing, J. (2011). The listener as addressee in face-to-face dialogue. The International Journal of Listening, 25(3), 178–198. https://doi.org/10.1080/10904018.2010.508675
Jordan, S. S., Froerer, A. S., & Bavelas, J. B. (2013). Microanalysis of positive and negative content in solution-focused brief therapy and cognitive behavioral therapy expert sessions. Journal of Systemic Therapies, 32(3), 46–59.
Tradução não oficial para o português de How Your Listening Affects Your Conversations, de Elfie J. Czerny e Dominik Godat, Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n. 2, 2021, 10.59874/001c.75048, sob licença CC BY 4.0; republicação, pelos próprios autores, de um texto publicado primeiro em alemão no blog da Leadership Network Lucerne. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “How Your Listening Affects Your Conversations”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Czerny, E. J., & Godat, D. (2021). Como a sua escuta afeta as suas conversas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/como-a-sua-escuta-afeta-as-suas-conversas (Obra original publicada em 2021 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n° 2; republicada em 2021 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75048)
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