Red Sistémica · Entrevista
Nesta entrevista, conduzida e apresentada por Richard Simon, editor-chefe do Family Therapy Networker, Salvador Minuchin fala da psicoterapia tal como ele a vê: passa em revista, com acuidade, os novos desenvolvimentos da terapia familiar e sua própria evolução como terapeuta e como pessoa, suas mudanças, suas qualidades e seus limites ao longo dos anos, matizando suas opiniões com anedotas e relatos quase confessionais.
“Sem Minuchin, a terapia familiar poderia ter ficado no nível batesoniano da intelectualidade ou no nível ericksoniano do mistério.”
Cloé Madanes
Já faz quase vinte anos que vi Salvador Minuchin trabalhar pela primeira vez. Na época, eu era um jovem recém-formado, que havia assumido alguns meses antes seu primeiro cargo clínico. Na universidade, eu tinha lido, é claro, os livros de Minuchin (Families of the Slums e Famílias: funcionamento & tratamento), que eram, até onde eu sabia, textos praticamente sagrados, mas nunca o tinha visto fazer terapia pessoalmente. O campo familiar estava no auge de sua fase messiânica – “temos-que-mudar-o-mundo” – e Minuchin, em sua oposição feroz à ortodoxia psiquiátrica, era ao mesmo tempo seu líder visionário e seu clínico sábio.
Minha viagem à Philadelphia Child Guidance Clinic, para um workshop de introdução à terapia familiar estrutural que Minuchin estava dando, era portanto muito mais do que a busca de um certificado. Era uma peregrinação ao lugar que Minuchin havia transformado na Meca da terapia familiar, uma iniciação aos mistérios de colocar as abstrações voláteis da teoria dos sistemas a trabalhar para transformar vidas.
De pé diante de uma plateia de 200 terapeutas, Minuchin, homem compacto e vivo, com um sotaque latino tão marcado quanto seu bigode preto, exalava um ar brusco e diretivo, na contramão da cultura tradicionalmente pacifista da psicoterapia. Que o céu protegesse quem tropeçasse numa pergunta inaceitável ou tentasse dizer algo gentil sobre a psicanálise. Parecia-me a pessoa mais segura de si que eu já tinha conhecido, como se tivesse escalado a montanha, contemplado a Verdade e descoberto que a encarnava. Era, evidentemente, exatamente o tipo de herói que eu procurava. E quando começou a explicar uma estratégia clínica citando um livro do século XVI intitulado O Caminho do Samurai, a última reserva que eu poderia ter se desfez por completo.
A peça central do workshop foi uma sessão de terapia familiar ao vivo, transmitida à plateia por um circuito fechado de televisão. Assim que a entrevista começou, a aura intimidadora de Minuchin se dissipou e ele se transformou numa espécie de cão de caça terapêutico – paciente, respeitoso, infinitamente curioso, muitas vezes brincalhão, surpreendentemente amável, mas sobretudo absolutamente dedicado a dar conta do quebra-cabeça que mantinha o problema que a família tentava resolver. Às vezes Minuchin se recostava na poltrona e dava longas tragadas no cigarro enquanto interrogava a família. Hiperatento a cada gesto, a cada pausa, a cada mudança de humor, Minuchin parecia absorver a informação por todos os poros enquanto prosseguia seu interrogatório.
O fato é que, uma vez que se viu Salvador Minuchin trabalhar, uma pequena parte dele permanece indelevelmente viva em algum lugar dentro de nós. Ao longo dos anos fundadores da terapia familiar, ele se tornou o modelo com o qual a comunidade terapêutica comparava seu melhor trabalho, e, diante de um fracasso lamentável com uma família, a pergunta era o que Minuchin teria feito. Desde seus primeiros trabalhos com delinquentes e suas famílias na escola Wiltwyck, em Nova York, nos anos sessenta, até sua longa direção da Philadelphia Child Guidance Clinic, ele foi provavelmente o terapeuta familiar mais renomado – e mais imitado – do mundo.
Nos últimos quinze anos, embora tenha continuado a escrever sobre terapia familiar, a conduzir workshops e a dirigir um pequeno centro de formação em Nova York, Minuchin aparentemente foi buscar novos mundos para conquistar. Passou alguns anos viajando e se interessando pela escrita teatral, para ver se conseguia transpor sua aptidão para o drama do consultório para o palco do teatro. Durante mais de uma década, travou batalha com a burocracia da proteção à infância da cidade de Nova York, tentando aplicar suas ideias sobre os sistemas familiares à reforma do sistema de acolhimento.
Hoje, aos 75 anos, ele fala com certa perplexidade de sua reputação de carisma no consultório. Cinquenta anos de experiência com famílias suavizaram o fio da certeza absoluta que outrora dava ao seu trabalho seu senso de urgência. Nestes tempos, ele se vê menos como o defensor de um método clínico ou de uma teoria em particular do que como o meta-observador filósofo de uma profissão que ele, quase como ninguém, ajudou a criar, e pela qual continua a se sentir responsável. Acaba de concluir seu nono livro, Mastering Family Therapy: Journeys of Growth and Transformation (Dominar a terapia familiar: caminhos de crescimento e transformação), escrito com nove pessoas que ele supervisionou, que oferece seu olhar atual sobre o estado da formação em terapia familiar.
Nesta entrevista, Minuchin reflete sobre os últimos desenvolvimentos da terapia familiar, discute sua própria evolução como clínico e oferece sua perspectiva sobre quase cinquenta anos de história desse campo.
Como você situaria seu trabalho em relação às abordagens que hoje têm a preferência dos jovens terapeutas?
Acho que estou muito mais interessado na exploração do conflito do que muita gente na terapia de hoje. Minha terapia nasceu da terapia ativa dos anos sessenta, com todo o seu otimismo e sua energia, seu experimentalismo, sua criatividade e sua candura. Eu trago o drama familiar para dentro do consultório. Encorajo os membros da família a interagirem diretamente entre si, com a convicção de que a família é a arena onde as pessoas podem se expressar em toda a sua complexidade. A interação familiar, com todo o seu potencial de destruição e também de cuidado, continua portanto ocupando o centro da cena na minha prática.
Mas a terapia atual desconfia da minha marca de intervencionismo terapêutico. Parece haver a crença de que é impossível, em terapia, produzir mudanças específicas e objetiváveis na família. Quer-se evitar toda intervenção e fazer da terapia uma simples conversa entre pessoas. As perguntas feitas dão às pessoas a possibilidade de reconsiderar significados e valores que até então tinham como “dados” ou normativos. As correntes “centradas na solução” e narrativas dizem: “Não abordemos os problemas. Abordemos as soluções.” Mas nesse processo, parece-me, a terapia acaba confinada a uma postura colaborativa e simétrica. Adeus à liberdade de brincar, de dar sua opinião, de ser no consultório a pessoa complexa e de múltiplas facetas que se é fora dele. Tudo o que resta é interrogar a distância, com respeito.
Janet Malcolm escreveu certa vez na New Yorker: “Observar uma sessão de Minuchin, ou seu vídeo, é assistir a uma peça solidamente construída, bem dirigida e magnificamente interpretada.” Você parece ter prazer em tratar situações explosivas em terapia. O que o atrai nisso?
Acho que o que me levou à terapia familiar foi a excitação. Cada família representava um quebra-cabeça excitante. Quando eu trabalhava com delinquentes e suas famílias na escola Wiltwyck, nos anos sessenta, o desafio particular era ajudá-los a encontrar meios concretos de calibrar suas relações. Fazíamos questão de ajudar famílias desorganizadas a colocar mais ordem em suas relações. Então interrompíamos uma briga na família para dizer: “Quando a sua mãe fala, você não pode falar. Bom, agora você pode responder.” A ênfase estava na direção. Naquela época, Virginia Satir havia desenvolvido uma terapia muito popular que enfatizava o cuidado e a maternagem. Mas sentíamos que, nas famílias que atendíamos, as pessoas já sabiam cuidar. O problema era que os pais eram ineficazes para assumir o controle dos filhos. O que lhes faltava era a constância que lhes teria permitido dar aos filhos um senso de autoeficácia.
Boa parte da sua reputação de mestre terapeuta se deve à sua capacidade de conseguir que famílias aparentemente resistentes façam o que você lhes pede. Como você conseguia isso?
Na época em que escrevi Families of the Slums, eu transbordava de paixão política pela defesa da população pobre. Eu tinha um fervor enorme e as pessoas respondiam a ele. A equipe inteira estava, naquele momento, formidavelmente cheia de esperança quanto à possibilidade de ajudar as famílias pobres a ganhar competência naquele laboratório social que era a família. Apoiávamo-nos em técnicas que implicavam entrar no conflito e sair dele, observar a sessão e participar dela ao mesmo tempo. Dizíamos então: “Mãe, fale com o Jimmy e encontre um jeito de garantir que ele realmente escute.” O objetivo era levar os pais a exercerem sua competência num domínio em que pudessem ter sucesso. Quanto mais crescia o sentimento de competência, mais crescia a escuta. Nossa ingenuidade, na época, era que ainda não conseguíamos ver além dos limites da família e reconhecer o impacto da cultura mais ampla. Isso veio depois.
Quando penso nos vídeos didáticos que você realizou na Philadelphia Child Guidance Clinic, o que me impressiona é a arte da pequena vitória – atravessar uma batalha infernal para conseguir que uma pessoa da família faça algo que nunca havia feito antes. De todos os casos que você tratou, há algum que continua presente para você?
Há um vídeo famoso de uma jovem anoréxica comendo uma salsicha. Era uma situação familiar terrível. Havia essa moça, Carol, cujo peso estava tão baixo que ela corria perigo. Então eu disse aos pais dela: “Se ela não comer, vai morrer. Vocês são os pais. Não a deixem morrer. Façam alguma coisa.” Assim, tentei ajudar a família a descobrir um novo padrão de interação criando uma crise na qual os pais tinham que fazer algo novo para o casal. Esses pais se encontravam agora diante de uma situação impossível. A mãe começa dizendo: “Carol, eu quero que você coma”, mas pouco depois ela e o pai começam a brigar, e então eu digo: “Olhem o que está acontecendo agora. Carol continua sem comer.” E os pais então se voltam contra a filha: “Você vai comer!” E a comida deixa de ser o assunto; as questões de poder, de autonomia e de controle tornam-se o tema central dessa transação. Nesse ponto, torna-se possível entrar apoiando a autonomia da filha, não em torno do comer, mas em torno do que seus pais estão fazendo.
Mas como você evitava ficar preso na luta de poder?
Em terapia, é preciso caminhar pelos dois lados da rua. Ao mesmo tempo em que leva os pais a assumirem o controle, você fala também da autonomia da filha. Explica que exercer bem a parentalidade não é só controlar, é também dar espaço. E enquanto encoraja a autonomia da filha, fala com ela da necessidade dos pais de serem respeitados. Trazer o conflito para dentro do consultório é apenas o primeiro passo no questionamento do padrão antigo e no movimento dos pais para fora do mundo da filha. Talvez eu esteja pensando nessa família em particular porque Carol me ligou há alguns meses para dizer que seu pai, que ela não via havia 25 anos, estava morrendo e queria falar comigo uma última vez. Depois de todos esses anos, ele ainda se sentia ligado a mim e ao que havia acontecido na terapia. De certa forma, falar comigo no fim da vida era uma maneira de fechar o círculo. Muitas vezes me surpreendo com o tempo que a lembrança da terapia permanece na vida de uma família.
Sua habilidade para manejar o conflito parece se dever ao seu talento para convencer cada uma das partes de que você está com ela. O que impede as famílias de verem você como um manipulador?
Para que as pessoas aceitem minhas intervenções, elas precisam saber que eu realmente as vejo. Precisam dizer a si mesmas: “Sim, sou eu mesmo. Sim, ele me enxergou de verdade.” Acho que o que permite isso é que eu realmente me importo com elas. Assim que trabalho com uma família, fico absolutamente preocupado com ela. Sofro com ela. Choro com ela. Quando Jay Haley escreveu sobre Milton Erickson, insistiu em suas intervenções inventivas e em seu manejo da hipnose e da metáfora. Mas quando se assiste aos vídeos de Erickson com as pessoas que ele atendia, o que se vê antes de tudo é um homem absolutamente bondoso.
Para lembrar
“Caminhar pelos dois lados da rua”: Minuchin sustenta ao mesmo tempo o controle parental e a autonomia da adolescente. O conflito trazido para o consultório não é um fim em si, mas o primeiro passo para deslocar um padrão antigo. E o que torna suas intervenções aceitáveis, diz ele, não é a técnica: é que as pessoas sentem que ele realmente as vê e se importa com elas.
Desde os primeiros tempos da terapia familiar estrutural, você foi considerado o campeão da abordagem do aqui-e-agora para a mudança. Por isso fiquei surpreso ao ler, no seu novo livro: “Tentamos revisitar a história familiar.”
Acredito que, para compreender o presente, é preciso sempre fazer incursões no passado, de modo a se libertar dele. A psicanálise também acreditava nisso, mas para ela a exploração do passado era aberta e tomava muito tempo – “Primeiro, fale-me do seu pai. Agora, fale-me da sua mãe.” E continuava-se explorando, mais e mais, tecendo esses fios para construir uma interpretação do presente. Minha ideia de como explorar o passado era diferente. Eu a via não como uma exploração intelectual, mas como uma busca de respostas novas. Começa-se por ver a estreiteza das respostas das pessoas no presente, e pergunta-se: “Onde essa estreiteza foi aprendida?” Depois explora-se o passado, buscando algo muito específico e muito focado. A exploração é a busca da solução que tornará a pessoa mais complexa no presente.
O que você procura, exatamente, nessa exploração?
Explica-se às pessoas que as famílias transformam as pessoas em especialistas. A especialidade pode ser: “Preciso me defender da crítica”, ou “Me aceitam quando ajudo os outros”, ou “Me reconhecem quando venço”. Cada uma dessas etiquetas do self vem com uma perspectiva sobre os papéis complementares que os outros adotam, e com algumas estratégias preferidas para enfrentar a vida. As pessoas desenvolvem assim um estilo de transação com seus próximos significativos e, mesmo que existam outras alternativas, é nessa que se especializam. Como terapeuta, olha-se para o passado para ver como ele criou limitações que já não são úteis agora. E diz-se à pessoa: “Vamos usar esse conhecimento para libertar você das restrições que já não lhe servem.”
Esse conhecimento, em si mesmo, liberta as pessoas?
É, fundamentalmente, o conceito de distorção paratáxica de Harry Stack Sullivan: a ideia de que não se responde realmente ao presente, mas que se o vê com antolhos que se esqueceu de estar usando. E a terapia, em suma, diz: “Vamos tirar esses antolhos.”
O que você acha da afirmação de Jay Haley em seu último livro: “Em vez de supor que o insight sobre as causas passadas produz a mudança, é melhor pensar que a mudança produz o insight sobre o passado”?
Acho que ele está errado e que tem razão. Sou um homem velho, mas ainda tenho lembranças de infância que não podem ser apagadas. Algumas são desconfortáveis e eu gostaria de apagá-las, mas elas não desaparecem, embora eu tenha mudado e esteja mais rico de experiência. Conheço a maneira como essas experiências precoces continuam a organizar meu pensamento hoje. Mas, até certo ponto, sou capaz de marginalizá-las de modo que não sejam significativas na minha maneira de funcionar. Elas continuam fazendo parte de mim, e eu continuo acreditando, de verdade, na importância da compreensão do passado, de modo a dar às pessoas a liberdade de tirar seus antolhos e ver como o passado organiza o presente. Desse ponto de vista, discordo de Jay Haley. Mas também acho que ele tem razão. Acontece ainda outra coisa quando se trabalha com a memória. Não só isso muda a maneira como a pessoa observa o presente, mas também rearranja o passado.
Jay Haley
Não é o insight sobre o passado que produz a mudança; é a mudança que produz o insight.
Salvador Minuchin
Ele está errado e tem razão: compreender o passado liberta dos antolhos, mas trabalhar a memória também rearranja o próprio passado.
O que você quer dizer?
Acho que rearranjamos continuamente nosso passado. Terapeutas como Milton Erickson, às vezes introduziam deliberadamente, pela hipnose, velhas lembranças que na realidade nunca haviam acontecido. Mas mesmo fora da terapia, isso acontece automaticamente, o tempo todo. Vou dar um exemplo. Há alguns anos, visitei meu antigo colégio, na Argentina, onde encontrei uma senhora da minha idade que me perguntou o que eu estava fazendo ali. Respondi, metaforicamente: “Estou caçando fantasmas”, que é um jeito muito argentino de falar. No decorrer da conversa, descobrimos que tínhamos estudado no colégio na mesma época. Mas embora ela tivesse me dito seu nome, eu não conseguia lembrar quem ela era. Mais tarde, fui à secretaria do colégio e pedi o registro das turmas da época. No momento em que vi o nome dela no registro, a lembrança dela adolescente entrou completamente em foco. Evidentemente, sua presença de adulta interferia na minha lembrança. De repente, todo tipo de lembranças que não me haviam voltado em 50 anos me voltaram, não na forma competitiva e tímida em que eu as havia vivido originalmente, mas da perspectiva de alguém mais velho que olha para trás. Minha memória criou naquele momento algo muito diferente a partir de lembranças mais antigas do mesmo período.
Então você acha que “recuperamos” lembranças sem cessar?
Sim, acho. Um erro frequente em terapia é acreditar na imutabilidade das lembranças. Acredito que estamos sempre criando lembranças; é um processo normal e natural. Aquilo com que não concordo é a ideia de que, uma vez que essas lembranças aparecem em terapia, elas representam a verdade ou a realidade. Em terapia, é preciso tomar cuidado para não ver as lembranças como uma verdade imutável.
Desde nossa última entrevista, há 12 anos, o que você descobriu sobre o que é exercer bem a terapia?
Ao longo desses 12 anos, a certeza que eu tinha quando era mais jovem desapareceu. Já não acredito que detenho a verdade e me tornei mais tolerante com os outros pontos de vista. Conheço-me melhor, e sei que quando algo novo aparece no campo, minha primeira resposta é me opor a ele, e que só depois começo a integrá-lo. Minha primeira resposta ao movimento feminista foi reagir negativamente ao que eu via como estridência, tanto mais que eu era o alvo de muitas de suas críticas no campo. Mas aprendi a integrar muitas das ideias feministas. E no entanto ainda tenho dificuldades com o construtivismo, como eu dizia há pouco; aconteceu-me algo semelhante com o trabalho de Michael White e de Steve de Shazer. Começo com oposições polêmicas, depois me dirijo à assimilação daquilo que considero útil.
Então, por exemplo, o que você acha útil na terapia centrada na solução?
Gosto de olhar para além dos problemas, na direção das soluções, dizendo às pessoas que atendo: “O que aconteceria se um dia você acordasse de manhã e seu problema tivesse desaparecido? Como seria isso?” Às vezes uso essas perguntas, assim como integrei boa parte do que se escreveu em terapia familiar, em particular as ideias de Jay Haley e de Carl Whitaker. Hoje, tecnicamente, sou muito mais complexo do que quando era um terapeuta mais jovem. Grande parte disso, é claro, é fruto da idade. À medida que se envelhece, todas as certezas se transformam em pontos de interrogação. Começa-se também a fazer perguntas fundamentais, como: “O mundo seria diferente se eu não existisse?” O apego à própria contribuição particular diminui então.
Como você assimilou elementos do feminismo no seu trabalho?
As feministas me fizeram tomar consciência de que eu havia encerrado as mulheres em categorias estreitas e de que minhas etiquetas para as mulheres continham preconceitos de gênero: para mim, a preocupação de uma mãe podia facilmente ser descartada como “superproteção”. Eu me centrava no homem, que assegurava a direção, e na mulher, que assegurava o cuidado, e no meu trabalho insistia na importância da direção tomando o cuidado como dado. Acho que já não faço isso. Estou mais atento às mensagens que as etiquetas veiculam e presto atenção àquilo que privilegio. Mas continuo trabalhando, sistematicamente, observando como os dois membros do casal se disparam mutuamente em suas interações. Sempre pensei que trabalhar com o homem era um meio importante de atraí-lo para a família, de torná-lo mais participativo e de aliviar as cargas da mulher; mas hoje cuido mais de garantir que a voz dela seja ouvida, que sua dor se expresse e que sua necessidade de respeito seja compreendida.
E a abordagem narrativa?
Você se lembra de Nathan Epstein?
Claro.
Nathan Epstein tinha uma qualidade extraordinária: inspirava os membros da família e os transformava rapidamente em talmudim.
Em que sentido?
Talmudim – literalmente, significa “estudantes”, mas eu entendo como “alunos do rabino”. Epstein dizia às pessoas que atendia: “Quero que vocês estudem a sua família”, e, de uma maneira ou de outra, dava um jeito de criar uma atmosfera viva de pesquisa intelectual na qual cada membro da família se engajava. A externalização possui a mesma capacidade de reduzir a emotividade e de colocar as pessoas numa posição de pesquisa sobre os efeitos do mundo sobre elas, ao mesmo tempo em que reforça as possibilidades intelectuais de algo novo. Ela dá às famílias a ideia de que o inimigo está fora delas e de que os membros da família estão okay, fazendo frente comum contra as forças de fora. Acho isso muito inteligente e muito bom.
Você assimilou então essas diversas influências, mas acredita que a terapia realmente mudou muito?
Teoricamente, faço o que sempre fiz. Continuo procurando a maneira como as transações ordinárias da família sustentam o conflito. De certa forma, continuo dizendo às pessoas: “Há em vocês mais possibilidades do que vocês pensam. Vamos procurar um caminho para ajudar vocês a sair dessa estreiteza.” Mas as maneiras como digo isso hoje são menos dramáticas do que eram. Faço mais perguntas e dou menos prescrições.
Quando você olha para a terapia familiar de hoje, o que mais o incomoda na direção que o campo está tomando?
Deixe-me fazer um desvio para responder a essa pergunta. Acho que o que a terapia faz é levar as pessoas a responderem às ferramentas utilizadas. Assim, se minha ferramenta favorita é a pergunta “Imagine que um dia o problema tenha desaparecido”, vou ter que moldar na pessoa uma fala articulada que responda a essa ferramenta. O mesmo acontece com as perguntas de externalização. Lembro-me de ter visto Michael White conduzir uma sessão didática de terapia narrativa, mas era como observar um cão pastor trabalhando. Ele empurrava as pessoas através de uma série de perguntas construídas com o objetivo de fazê-las ver sua história de maneira mais positiva, que era o que ele queria para elas. A terapia muda a velha história e convence a pessoa de que a nova história é mais verdadeira do que a antiga. Em terapia, sempre oferecemos uma linguagem a quem nos procura, e dizemos: “Vamos começar a ver a sua vida nessa linguagem, e eu lhe darei soluções nessa linguagem.” Eu faço isso. Todo mundo faz isso. O que me incomoda hoje é que, como campo, nos interessamos tanto por essas técnicas terapêuticas e pela nossa linguagem particular que prestamos pouca atenção ao sistema família-terapeuta e à pessoa terapeuta como instrumento de mudança.
Por que você acha que o campo tomou essa direção, rumo ao que você chama de postura terapêutica “não intervencionista, restrita”?
Fala-se em fazer uma terapia “mais respeitosa”, que não imponha os preconceitos de quem atende. Mas não acho que se trate de mais respeito pelas pessoas atendidas. Acho que isso se deve a mudanças na perspectiva social. Como parte desta sociedade pessimista, a classe terapêutica perdeu seu otimismo e só tem agora fracas expectativas de mudanças efetivas.
Isso inclui você?
Não.
Como você escapou disso?
Cresci como filho de imigrantes num mundo em expansão, onde as pessoas sentiam que à força de trabalho era possível realizar seus sonhos e dominar seu destino. Para muita gente hoje, essas crenças parecem ingênuas. Talvez eu ainda faça parte do século XIX. Mas acho que também é importante que, anos atrás, eu tenha deixado de me pensar como terapeuta familiar e tenha me interessado pela maneira como as competências da terapia sistêmica podem ser aplicadas ao mundo mais amplo. Passei da reflexão sobre a pequena unidade familiar à reflexão sobre as possibilidades de agir sobre instituições mais vastas. Assim, trabalhando num campo onde há novas possibilidades, ainda sou otimista. Estou explorando com o Departamento de Saúde Mental de Massachusetts maneiras de tornar mais eficaz a terapia domiciliar (home-based), que é o tipo de desafio que eu adoro. Se eu trabalhasse unicamente como terapeuta, provavelmente teria tido que responder às limitações do mercado como qualquer outra pessoa. Estaria remendando abordagens terapêuticas alternativas mais fáceis de usar, ou métodos simples que permitissem formar pessoas a um custo menor.
Como você percebe hoje sua relação com o campo da terapia?
Antes eu influenciava o campo a partir do centro. Hoje, faço isso a partir da periferia. Agora sou um ancião. Apoio outras pessoas que, na minha opinião, fazem um trabalho interessante. Acho que faz parte de ser uma pessoa idosa ser crítico. Penso também que a geração mais antiga é portadora da história oral do campo, e é por isso que me sinto mal quando jovens terapeutas não reconhecem a influência de pessoas como Murray Bowen, Virginia Satir, Jay Haley, Carl Whitaker e Lyman Wynne.
Você se sente satisfeito com sua vida, aos 75 anos?
Eu pensava que aos 75 anos ia me aposentar e me tornar um avô em tempo integral. Mas a aposentadoria não é um nicho agradável para mim. Outras pessoas, aos 75 anos, acham que é hora de pintar, de tocar piano. Mas isso não é suficiente para mim nesta etapa. Patty e eu nos mudamos para Boston para ficar perto dos nossos filhos e da nossa neta. Minha relação com minha neta é muito, muito especial. Há aí, portanto, uma renovação. Mas sou alguém que gosta de ajudar os outros. Não acho muito útil olhar demais para o passado ou se projetar demais no futuro. Estou em relação com a imediatez do presente. Mesmo estando financeiramente tranquilos, preciso trabalhar para me manter intelectualmente, e porque gosto disso. Depois de todos esses anos, se uma família liga e quer vir fazer terapia comigo, isso ainda me dá prazer.
Para lembrar
Cada ferramenta terapêutica molda a maneira de responder a ela: a pergunta do milagre pede uma fala articulada, a externalização uma postura investigativa. Para Minuchin, o perigo não é a técnica em si – “eu faço isso, todo mundo faz isso” – mas o esquecimento do sistema família-terapeuta e da pessoa terapeuta como instrumento da mudança.
“Não creio ter visto alguma vez uma mãe se sentir ofendida por ele ao final de uma sessão – por mais que ele a tenha feito passar por maus bocados. Uma observadora feminista pode objetar, mas não a própria mulher. É uma diferença crucial.”
Jay Haley
“Sem Minuchin, a terapia familiar poderia ter ficado no nível batesoniano da intelectualidade ou no nível ericksoniano do mistério.”
Cloé Madanes
Esta entrevista é a tradução para o português de “Es mucho más complicado. Entrevista a Salvador Minuchin”, publicada pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 46, 1996-1997 (d’après The Family Therapy Networker)). Traduzida e republicada com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Simon, R. (2022). É muito mais complicado. Entrevista com Salvador Minuchin (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/e-muito-mais-complicado-entrevista-com-salvador-minuchin (Obra original publicada em 1996 em Perspectivas Sistémicas, n° 46, 1996-1997 (d’après The Family Therapy Networker); republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/28/es-mucho-mas-complicado-entrevista-a-salvador-minuchin/)
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