Red Sistémica · Psicopatologia
Convidada pela Escuela Sistémica Argentina, a pesquisadora mexicana Lourdes Eguiluz apresenta a primeira fase de uma pesquisa realizada na UNAM com cem estudantes de psicologia: medir a ideação suicida, avaliar o clima social que reina em suas famílias e ver como essas duas dimensões se respondem. Ela expõe os resultados, muitas vezes contraintuitivos, e o que eles dizem dos fatores familiares de proteção. Segue-se um diálogo com o público sobre a transmissão, o segredo, a morte voluntária e sua inscrição cultural.
“Da morte não há retorno. Perguntemo-nos antes se vale a pena fazer ouvidos moucos a esses pedidos de socorro.”
Lourdes Eguiluz
Nota da redação
A Dra. Lourdes Eguiluz, professora e pesquisadora da UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México — Escuela Nacional de Estudios Profesionales Iztacala), no campo da terapia familiar e da clínica de educação e desenvolvimento, e responsável pelo projeto de pesquisa “Saúde, família e ambiente”, foi convidada pela ESA (*) (Escuela Sistémica Argentina), em agosto de 2003, a expor seu trabalho de pesquisa e de atendimento sobre um tema da maior importância: a ideação suicida e o clima social familiar nos jovens. Segue abaixo a edição da conferência e do diálogo que se seguiu com o público. A isso se acrescentam algumas passagens de um artigo da Dra. Lourdes Eguiluz, bem como suas referências bibliográficas.
Começarei esta conversa falando brevemente do que faço na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), onde sou professora e pesquisadora há vinte e cinco anos. A matéria que leciono na graduação é a metodologia da pesquisa. No início, ensinávamos nossos alunos a fazer pesquisa dentro de um quadro comportamentalista. A teoria comportamental lança sobre o ser humano um olhar que dele faz uma espécie de robô respondendo aos estímulos de seu ambiente. Pouco a pouco, no entanto, deixamos para trás os modelos positivistas para compreender e explicar o ser humano, e o que acontece com as pessoas, a partir de um novo paradigma. Isso implica necessariamente uma mudança de método.
O método experimental revelou-se extremamente eficaz para a pesquisa no campo das ciências físicas e naturais; nem por isso é o mais adequado para estudar a complexidade humana. As novas maneiras de pesquisar, fundadas na hermenêutica, na etnografia, na fenomenologia e na dialética, implicam necessariamente uma visão qualitativa dos fenômenos. Gostaria de marcar algumas diferenças entre essas duas epistemologias. O quantitativo é enumerativo (descreve e conta apenas os fenômenos), ao passo que o qualitativo é construtivo (constrói subjetivamente a realidade); o quantitativo interessa-se pela verificação, o qualitativo pela produção de conhecimento; o conhecimento quantitativo é dedutivo, o segundo é indutivo; o quantitativo apresenta-se como um conhecimento objetivo, enquanto o conhecimento oriundo do método qualitativo sabe-se e aceita-se como proveniente de um sujeito que interpreta e descreve os fatos, e que é portanto necessariamente subjetivo.
Trabalhar com uma metodologia qualitativa e empregar suas ferramentas não é, contudo, tão simples quanto aplicar um questionário e dele extrair dados estatísticos. Os métodos qualitativos nos obrigam a refletir ao longo de todo o processo, fazem-nos compreender as coisas levando em conta o contexto em que se produzem e, sobretudo, nos comprometem mais na pesquisa, porque aceitamos de saída a proposição do célebre cibernético Heinz von Foerster, que lembrava que “o pesquisador está sempre presente naquilo que observa”.
A pesquisa que lhes apresento é a primeira parte de uma pesquisa bem mais ampla, que vai do quantitativo ao qualitativo, do simples ao complexo, e que comporta não apenas o estudo do que se passa, mas também uma proposta de solução para os problemas detectados.
Começamos a primeira fase em maio passado; o projeto completo durará cerca de dois anos. A primeira parte é quantitativa e visa saber se os jovens estudantes apresentam ideação suicida, conhecer o clima social que reina em sua família e compreender como esses dois fatores podem estar ligados. Tanto a detecção da ideação suicida quanto a avaliação do clima social familiar serão feitas com o auxílio de dois instrumentos de medida escolhidos por sua alta validade e confiabilidade.
Definimos a ideação suicida como aqueles pensamentos intrusivos e repetitivos que versam sobre a morte que se infligiria a si mesmo, sobre as formas de morte desejadas, bem como sobre os objetos, as circunstâncias e as condições em que a pessoa se propõe morrer.
Formulamos a hipótese de que os jovens matriculados nos cursos da área da saúde — medicina, enfermagem, psicologia, odontologia —, por trabalharem com pessoas e se manterem o mais próximo possível da dor humana, são mais propensos a pensar na morte do que os estudantes dos demais cursos. Retemos também como variável importante a família de origem: se o clima social familiar é positivo, não haverá pensamentos suicidas, ou estes só se apresentarão de maneira muito esporádica.
As pesquisadoras Medina Mora e González-Forteza, do Instituto de Saúde Mental, indicam que o suicídio pode ser compreendido como um processo que começa com a ideia de tirar a própria vida, passa pela tentativa ou pelas tentativas de suicídio e se conclui com a morte que a pessoa se inflige, isto é, com o suicídio consumado.
Consideramos que esse processo poderia ser interrompido se o detivermos, ou seja, se o identificarmos já em sua primeira fase. Ao identificar os jovens que obtêm os escores mais elevados, ficamos em condições de lhes propor uma terapia breve sistêmica. Essa última fase também faz parte da pesquisa: as sessões de terapia seriam gravadas em vídeo a fim de serem analisadas e de fornecer dados que nos permitam identificar não apenas as causas, mas as situações que levaram esses jovens a considerar o suicídio como uma opção. Nessa etapa, empregaríamos as entrevistas em profundidade e os relatos de vida, ferramentas próprias da pesquisa qualitativa. Com essa última fase, fecharíamos assim as três partes que compõem o processo: pesquisa, ensino e atendimento. A saber:
A medida e a detecção da ideação suicida.
Uma pesquisa voltada para o atendimento: a prática clínica com finalidade de prevenção.
A transmissão do modelo de terapia breve sistêmica aos alunos de pós-graduação em terapia familiar.
Gostaria de lhes comunicar alguns dados que encontramos a respeito da ideação suicida. No congresso de que participei recentemente na cidade de Salta, colegas nos diziam que, em certas regiões da Argentina, ocorrem suicídios em pessoas cada vez mais jovens; não sei se vocês têm conhecimento disso. Constatamos, no entanto, que, embora o suicídio tenha sido estudado por diferentes ciências e a partir de quadros teóricos distintos, não se conseguiu esclarecer por que as pessoas recorrem ao suicídio, nem que características apresentam as pessoas que a ele são propensas.
Alguma coisa se produz nas grandes cidades como Tóquio, Nova York ou Cidade do México, onde as pessoas recorrem ao suicídio como a uma maneira de escapar de situações difíceis; isso se deve provavelmente à situação econômica, mas possui também um correlato social. A família de que o sujeito faz parte pode ser um desencadeador ou um continente da conduta suicida.
A morte por suicídio constitui, depois dos acidentes, a segunda causa de mortalidade entre os jovens de quatorze a vinte e quatro anos. As estatísticas publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística, Geografia e Informática são dados que precisamos enfrentar, ainda que não gostemos de falar da morte. Muitas pessoas consideram que não se deve falar dela, pretendendo assim mantê-la à distância, ou mesmo negá-la. Certas teorias psicológicas sustentam que a ideação suicida expressa verbalmente é uma forma de chantagem; aqui é preciso ser prudente. Eu diria que deveríamos parar para refletir sobre a validade de tal argumento, pois o erro não tem lugar: da morte não há retorno. Perguntemo-nos antes se vale a pena fazer ouvidos moucos a esses pedidos de socorro.
Em outra pesquisa que havíamos realizado em 1995 sobre o suicídio, encontramos que certas pessoas que a ele recorriam haviam vivido recentemente o suicídio de alguém próximo — pai, irmão, primo — ou haviam sabido que uma pessoa afetivamente próxima tirara a própria vida. Tudo se passa então como se o suicídio se transmitisse por contágio.
Outro fator associado à conduta suicida é a baixa autoestima, que está ligada à depressão. Uma e outra estão correlacionadas com a ideação suicida e com o suicídio consumado. Constatou-se igualmente que a facilidade de acesso a armas de fogo ou a outros objetos perigosos favorece a passagem da ideia ao ato. Outros fatores intervêm: a solidão, as dificuldades econômicas, os problemas com os pais, com os colegas. As perdas em geral, sejam econômicas, emocionais ou afetivas, podem levar ao pensamento suicida.
Constatou-se que as pessoas que tiveram uma infância marcada pela violência, ou cuja história comporta abusos físicos ou sexuais, tendem a amplificar os acontecimentos negativos que sobrevêm na vida adulta. Por exemplo, a perda de um ente querido terá sobre elas um impacto bem maior do que sobre uma pessoa que não viveu experiências traumáticas na infância.
Outro elemento importante que identificamos diz respeito às relações familiares. As pessoas que vivem em uma família onde a comunicação é de boa qualidade, onde é possível falar e ser escutado, não têm tanta probabilidade de tirar a própria vida quanto os jovens que vivem em uma família desarticulada, autoritária, onde a comunicação não existe. A família é um fator importante para a maioria dos jovens: o ajustamento emocional é melhor quando essas famílias são coesas, expressivas, e quando favorecem a independência de seus membros. As famílias aglutinadas demais, ou excessivamente autoritárias, que não favorecem a independência, em que os filhos têm mais dificuldade de se desprender e se veem limitados em suas possibilidades de crescimento, podem também levar ao suicídio como forma de fuga.
Para lembrar
Do lado dos fatores de proteção, a família não age por sua simples presença, mas pela qualidade daquilo que nela circula: uma família coesa, expressiva, em que se pode falar e ser ouvido, e que sustenta a independência de seus membros, está associada a um melhor ajustamento emocional. Ao contrário, a aglutinação e o autoritarismo, que entravam o desprendimento e o crescimento, estão entre as configurações em que o suicídio pode aparecer como uma saída.
Isso quanto a tudo o que se refere à pesquisa anterior, o que se tornou hábito chamar de “estado da arte”. Vamos agora falar da pesquisa que realizamos.
O objetivo desta pesquisa era avaliar o clima social que reina na família dos jovens estudantes e relacioná-lo com a ideação suicida.
Cem jovens participaram de maneira voluntária, com idades entre dezessete e vinte e seis anos, todos estudantes da graduação em psicologia.
Dois instrumentos foram aplicados a esses jovens: a escala de ideação suicida elaborada por Roberts e a avaliação do clima social familiar de Moos. A aplicação dos dois instrumentos durou entre quarenta e cinco minutos e uma hora. A escala de ideação suicida avalia a presença de sentimentos e de pensamentos que versam sobre a morte. A escala de clima social familiar, por sua vez, serve para conhecer as características da família e avalia três aspectos importantes: a relação ou coesão, o desenvolvimento e, por fim, a estabilidade. Na parte “relações” são avaliadas a coesão, a expressividade e o conflito, com todos os fatores importantes do registro relacional; no aspecto “desenvolvimento” são avaliadas a autonomia, a orientação para a realização, a dimensão intelectual, a dimensão sociorrecreativa e a moralidade-religiosidade. E por fim a estabilidade, em que são avaliados a organização e o controle.
Os instrumentos foram aplicados na sala de aula, com a autorização tanto dos professores quanto dos alunos, que se ofereceram voluntariamente para respondê-los.
Os resultados nos indicam que 51% dos estudantes de psicologia pensaram no suicídio ao menos uma vez ao longo da última semana, o que é uma cifra extremamente elevada. Esclareço que essa avaliação foi feita ao fim do semestre; seria preciso aqui proceder a uma replicação para verificar se, aplicando os mesmos instrumentos em outro momento do semestre, os dados variam.
Entre as mulheres avaliadas, 47% apresentaram alguns dos sintomas da ideação suicida ao longo da semana que precedeu a avaliação, contra 63,6% entre os homens: os homens, portanto, pensam mais no suicídio do que as mulheres. Esse dado contradiz o que se encontra na literatura, onde se indica que as mulheres pensam mais em tirar a própria vida, fazem mais tentativas, mas não tiram a própria vida tanto quanto os homens.
Ao analisar o perfil da amostra que apresenta ideação suicida, constatamos que o sintoma relatado com mais frequência era aquele que indica o sentimento de não poder seguir adiante: 22,8% dos homens relataram ter tido pensamentos que versavam sobre a morte durante um a dois dias na semana que precedeu a avaliação, contra apenas 15,4% das mulheres com a mesma persistência. Na escala de clima familiar, foram obtidas correlações entre as dez subescalas; como eu dizia no início, essa escala avalia vários fatores, e calcularam-se portanto as correlações entre eles: encontra-se uma forte correlação entre os fatores que compõem a prova de clima social.
As correlações entre a escala de ideação suicida e a de clima social familiar revelaram-se negativas, o que significa que, quando os escores são elevados nos domínios do clima familiar, os escores de ideação suicida são baixos. Os três fatores que aparecem mais elevados — ou seja, aqueles que não favorecem a ideação suicida — são:
Segundo esses resultados, as pessoas que apresentavam o risco de ideação suicida mais elevado eram os sujeitos do sexo masculino, o que concorda com os resultados encontrados em uma pesquisa que eu mesma havia conduzido em 1995 — ainda que a comparação não possa ser direta, uma vez que ali foram utilizados instrumentos de medida diferentes.
Em outra pesquisa, também realizada no México por González-Forteza, encontrou-se, no entanto, que as mulheres apresentam uma prevalência mais elevada de ideias suicidas, o que se costuma atribuir a razões culturais, já que os homens não falam de seus sentimentos depressivos mesmo quando os experimentam. Talvez não os admitam porque veem neles uma fraqueza; os homens, no México, são “muito machos”… e portanto não se autorizam esses sentimentos, de modo que lhes parece preferível negá-los ou transformar a depressão em agressão.
Estudar a ideação suicida é bastante complexo, porque muitas pessoas ignoram que a apresentam, ou não querem refletir seriamente sobre isso. Existem muitos comportamentos que conduzem à morte ao cabo de um longo processo e que não são considerados atos suicidas propriamente ditos: por exemplo, uma pessoa diabética que não cuida de si; os transtornos alimentares como a bulimia ou a anorexia são formas de suicídio, mas a mais longo prazo.
Muitos costumes de nossos povos ancestrais, como os astecas ou os incas, estão ligados à morte. Celebram-se rituais em 2 de novembro; ornam-se os túmulos com flores de cempasúchil, essas flores de um amarelo alaranjado que crescem nessa estação; preparam-se também os pratos de que o falecido gostava; monta-se um altar dos mortos com velas e a fotografia da pessoa que partiu, sem contar uma série de tradições que mostram que nossos povos aceitavam a morte como uma parte da vida. No museu de antropologia da Cidade do México encontra-se uma escultura talhada em ônix cuja metade do rosto é um crânio e a outra metade uma carne viva, o que dá a pensar que, para as culturas pré-hispânicas, a vida e a morte pertenciam a uma mesma unidade. Isso se perdeu: pusemos a morte de lado, ela está separada, cindida da vida. Hoje, ninguém quer falar dela, ninguém quer tê-la presente no espírito.
Uma das dificuldades que encontramos na pesquisa é que muitos jovens, quando lhes expúnhamos o objetivo do estudo, diziam não querer ser avaliados. Isso dá a pensar que existe uma recusa em relação à morte: “não me faça pensar que vou morrer, porque isso me deixa mal”. A recusa é total; não se pode aceitar que morrer faça parte da condição humana — e no entanto é a única certeza que temos.
Aqui se encerra a apresentação da pesquisa, mas eu gostaria de abrir um diálogo com vocês sobre esse tema. Alguém deseja fazer uma pergunta ou um comentário?
Eu queria lhe perguntar se você encontrou, em algum momento, uma correlação entre o fato de ser filho de pessoas que tiraram a própria vida e uma tendência nesses próprios filhos.
Lourdes Eguiluz: essa questão não foi colocada diretamente nesta pesquisa, porque utilizamos instrumentos já constituídos; mas, na pesquisa de 1995, uma de minhas preocupações se aproximava um pouco do que você sublinha, pois acredito que aí há um aprendizado, e penso que é possível que alguém que tenha vivido essa experiência também tente fazê-lo. Mas existe igualmente a possibilidade da reflexão e da mudança, e de nunca passar ao ato. O suicídio é algo que geralmente se esconde na maioria das famílias, porque é uma situação muito penosa e dolorosa, e para alguns até desonrosa. Isso torna mais difícil qualquer ajuda terapêutica, quando não se sabe claramente o que se passou; mas o mais estranho é que a simples suspeita pode conduzir ao mesmo resultado.
O fato de esconder o suicídio é bastante ancestral. Sabe-se que, na Grécia clássica, enterravam-se os que haviam tirado a própria vida separando do resto do corpo a mão que cometera o ato. Socialmente, é malvisto; quase todas as culturas manifestam uma recusa em relação ao suicídio, nem sempre em relação à morte, mas me parece que em relação ao suicídio, sim, em geral. Salvo quando ele reveste um caráter mais espiritual, religioso, de doação de si; em contrapartida, o suicídio “tradicional”, aquele em que a pessoa tira a própria vida num sentido mais egoísta, é de fato recusado.
Lembro-me de uma pesquisa sobre o número de suicídios nos Estados Unidos, na qual aparece que a taxa mais elevada se encontra entre os médicos, e em particular entre os psiquiatras; associou-se isso à síndrome de burnout ligada ao trabalho clínico dos psiquiatras. Ora, considerando sua pesquisa, pareceria que os estudantes de psicologia, antes mesmo de terem qualquer experiência clínica, já apresentam uma predisposição elevada; parece, portanto, que a escolha do curso pode estar relacionada a isso, e não apenas o desgaste…
Lourdes Eguiluz: o que você diz me parece muito interessante. O fato de os estudantes de psicologia terem uma ideação elevada antes mesmo de terem tido a experiência terapêutica dá a pensar que os profissionais de saúde têm mais risco suicida do que outros profissionais, o que poderia ser condicionado por um dado preexistente.
Coloquemos agora a pergunta que costumo fazer aos alunos que entram no primeiro ano: “Por que você está aqui?”, ou “Por que você decidiu estudar psicologia?” A maioria vai lhes responder duas coisas: “Porque quero ajudar os outros” e “Porque quero ajudar a mim mesmo”. Com essa última resposta, vocês constatarão que é provável que esses jovens tenham um problema de identidade, que tenham sofrido violências físicas ou agressões muito fortes, que tenham sido atingidos no plano sexual; são jovens que já carregam uma problemática muito séria, ligada à identidade e à personalidade.
O tema é interessante para uma pesquisa mais aprofundada: com o que você diz, acredito que valeria a pena saber por que esses jovens querem estudar psicologia e não outra disciplina.
Quando um adolescente brinca com a morte, por exemplo em esportes de risco, e acaba se matando, pode-se considerar que se trata de um suicídio ou de um acidente?
Lourdes Eguiluz: eu diria que oficialmente é um acidente, mas que psicologicamente seria um suicídio a longo prazo, como no caso dos esportes de risco: coisas que a sociedade autoriza, mas que sabemos que expõem a pessoa a um grande perigo. A pergunta que se impõe seria: por que ela decidiu tornar-se toureiro, ou piloto de corrida? É aí que seria preciso procurar, pois uma vez que isso se tornou uma profissão, é muito difícil que as pessoas reconheçam que correm um risco — assim o policial, o bombeiro…
Fenômenos como o samurai, os camicases, a semântica do sacrifício humano, têm outra significação…
Lourdes Eguiluz: a avaliação do ato suicida depende das épocas e das culturas: é muito diferente conforme o suicídio seja considerado um ato de coragem ou um grande descrédito. Depende, portanto, da ideia que dele se faz, do sentido que se lhe dá: ele será autorizado ou não. É a conotação social que põe o sinal de mais ou o sinal de menos sobre o suicídio; não é a pessoa isolada, mas a pessoa dentro do grupo social.
Quanto aos meios empregados para o suicídio, você encontrou diferenças entre os homens e as mulheres?
Lourdes Eguiluz: os meios que danificariam a imagem são pouco empregados pelas mulheres; os homens buscam uma morte mais violenta, recorrem à arma de fogo. Se uma mulher desse um tiro em si mesma, ela o daria no coração, ao passo que o homem o dá na cabeça: é muito simbólico — nos homens, “são as ideias que explodem”, na mulher, “são os sentimentos que explodem”. O homem não se preocupa com o estado em que ficará seu cadáver, a mulher sim; a mulher é mais teatral, recorre por exemplo ao veneno, faz mais tentativas sem levá-las a termo; o homem, por sua vez, diz “eu me suicido”, ponto final, e o faz; a mulher, essa, tenta várias vezes.
Notas do original
(*) Perspectivas Sistémicas agradece aos diretores da ESA, Sr. H. Serebrinsky e Sr. M. Ceberio, o convite dirigido à Dra. Lourdes Eguiluz para esta conferência.
Este artigo foi publicado no n° 78 de Perspectivas Sistémicas (setembro-outubro de 2003).
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Este artigo é a tradução para o português de “Ideación suicida”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 78, septembre-octobre 2003). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Eguiluz, L. (2022). Ideação suicida nos jovens e clima social familiar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/ideacao-suicida-nos-jovens-e-clima-social-familiar (Obra original publicada em 2003 em Perspectivas Sistémicas, n° 78, septembre-octobre 2003; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/07/14/ideacion-suicida/)
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