Journal of Solution Focused Practices · Entrevista

O estado da prática e da pesquisa focadas nas soluções no Irã

Uma revisão de escopo publicada pelo Journal of Solution Focused Practices apontou o Irã como o país de onde veio, em 2022, o maior número de pesquisas publicadas sobre a abordagem focada nas soluções. Andreea M. Żak e Mark McKergow, da redação da revista, perguntaram a Roghieh Nooripour de onde isso vinha. Ela descreve uma introdução sem fundador, dezenas de professores traduzindo os mesmos livros, uma abordagem presente na clínica, na escola, na universidade e nas empresas sem ser oficialmente reconhecida, e uma pergunta: o que acontece com a pergunta do milagre quando não se pode atender o indivíduo sem a família?

Entrevista realizada por Andreea M. Żak e Mark McKergowPrimeira publicação Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n. 1, 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português. Esta entrevista é a tradução de The State of Solution Focused Practices and Research in Iran: Interview With Dr Roghieh Nooripour, de Andreea M. Żak e Mark McKergow, publicada no Journal of Solution Focused Practices (2024), doi: 10.59874/001c.120192, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto foi traduzido para o português, rediagramado e provido de subtítulos, as perguntas dos entrevistadores receberam composição própria, e o resumo e a nota biográfica da entrevistada foram colocados em destaques. Os emojis de bandeira que acompanham o título na revista, e que ali sinalizam a existência de resumos traduzidos, não foram reproduzidos; os endereços de e-mail de contato e o link para o perfil ResearchGate da entrevistada tampouco. Alguns erros tipográficos evidentes do original foram corrigidos silenciosamente. Tudo isso constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Resumo

Este artigo apresenta a entrevista conduzida por Andreea Żak (editora de pesquisa do JSFP) e Mark McKergow (editor do JSFP) com Roghieh Nooripour sobre o estado da prática e da pesquisa focadas nas soluções no Irã. A ideia da entrevista surgiu a partir da revisão de escopo publicada no JSFP, que apontava o Irã como o país de onde veio o maior número de pesquisas publicadas em 2022, segundo a SFA PubList da EBTA. Roghieh Nooripour teve a gentileza de conversar conosco e de compartilhar as informações de que dispunha sobre a introdução, a difusão, a pesquisa e a aplicação da abordagem focada nas soluções no Irã.

Palavras-chave: Irã, pesquisa, publicações, família.

Quem é Roghieh Nooripour

Roghieh Nooripour é professora assistente do Departamento de Aconselhamento da Universidade Azad Islâmica, campus de Qazvin, em Qazvin, Irã.

Roghieh Nooripour é uma pesquisadora e acadêmica de alto nível em psicologia do aconselhamento. É doutora em aconselhamento pela Universidade Alzahra, em Teerã, onde também concluiu estudos de pós-doutorado. Suas excepcionais capacidades de pesquisa lhe valeram o reconhecimento como estudante-pesquisadora de destaque. Foi pesquisadora visitante na Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, com apoio financeiro da Fundação Nacional de Elites do Irã. Seus interesses de pesquisa abrangem áreas variadas: mindfulness, estresse, saúde mental, intervenções sobre qualidade de vida e psicometria. Publicou seus trabalhos em revistas acadêmicas de referência e apresentou seus resultados em congressos nacionais e internacionais. Foi membro da Fundação Nacional de Elites do Irã. Além de suas contribuições à pesquisa, é uma educadora e mentora dedicada: ministra cursos de psicologia do aconselhamento e supervisiona estudantes de pós-graduação. Seu compromisso com a melhoria da vida de indivíduos e famílias se reflete em seu trabalho clínico e nos workshops que conduz sobre psicologia e saúde mental. Suas contribuições excepcionais ao campo lhe renderam reconhecimento, incluindo os prêmios de estudante-pesquisadora de destaque e de melhor artigo. No conjunto, é uma figura respeitada da psicologia do aconselhamento, que faz avançar continuamente o conhecimento em seu campo e promove o bem-estar psicológico.

Andreea M. Żak, do consultório particular “Differently”, em Wadowice, Polônia, é editora de pesquisa do Journal of Solution Focused Practices. Mark McKergow é diretor do Centre for Solutions Focus at Work, em Edimburgo, Escócia, e editor do Journal of Solution Focused Practices.

Uma introdução sem fundador

Roghieh, gostaríamos de começar agradecendo por você ter aceitado nosso convite para dar uma entrevista ao Journal of Solution Focused Practices (JSFP). Como já dissemos no convite, estamos ambos impressionados com a quantidade de pesquisas conduzidas e publicadas por todo o Irã. Você poderia nos contar como a abordagem focada nas soluções começou no Irã?

Primeiro, quero agradecer por este convite; estou muito feliz por poder falar sobre a terapia breve focada nas soluções (TBFS). Como acontece com muitas outras abordagens no Irã, a introdução da abordagem focada nas soluções é resultado do esforço coletivo de muitos formadores e professores universitários, que conduziram muitas pesquisas e publicaram muitos artigos. Tudo isso se deve ao papel significativo que ela desempenha, especialmente na promoção da saúde mental, entre outros impactos importantes. É o que explica o grande volume de pesquisas produzidas, sobretudo no contexto clínico. No Irã, como em muitos outros países do Oriente Médio, vemos um aumento de artigos de pesquisa nos últimos 20 anos. Fiz uma busca na literatura e não consegui encontrar um único nome que se destacasse. Posso supor que a introdução da abordagem focada nas soluções é produto da colaboração de muitos praticantes, educadores, pesquisadores e muitos outros profissionais, como conselheiros, psicólogos ou psiquiatras, todos trabalhando para aplicar a abordagem de maneira sensível à cultura.

Parece de fato um empreendimento coletivo. Também notamos, como você diz, que há muitos autores que publicam coletivamente. Existem autores mais prolíficos, ou autores de renome?

É difícil dizer quem foi a primeira pessoa a introduzir a abordagem no Irã, porque muitas pessoas se dedicaram a ela ao mesmo tempo. Algumas são mais prolíficas do que outras. Há muitos professores em universidades ministrando aulas e conduzindo estudos sobre essa abordagem. Prefiro, no entanto, não mencionar nomes, pois são meus colegas. Posso dizer que muitas pessoas desenvolveram a abordagem no Irã ao mesmo tempo e trabalharam em sua aplicação e em seu estudo de maneira sensível à cultura. Muitos também integraram a abordagem focada nas soluções a outras abordagens, como a arteterapia ou a musicoterapia, ou a compararam com a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Quero acrescentar ainda que muitos livros foram traduzidos no Irã, por muitos professores.

Você poderia mencionar alguns dos livros traduzidos mais populares?

Solution Focused Anxiety Management. A Treatment and Training Manual, de Ellen Quick (2013); Solution Focused Brief Therapy in Schools, de Johnny Kim, Michael S. Kelly e Cynthia Franklin (2017); Solution-Focused Therapy: Theory, Research & Practice, de Alasdair Macdonald (2011); Solution-Focused Brief Therapy with Families, de Thorana Nelson (2018); Solution Focused Narrative Therapy, de Linda Metcalf (2017); e Mastering the Art of Solution Focused Counseling, de Jeffrey T. Guterman (2014).

A clínica, a escola, a universidade, a empresa

É bom saber que a abordagem focada nas soluções está tão difundida no Irã que é difícil nomear uma única pessoa. Parece que ela tem ampla distribuição pelo país. Existe algum polo específico de pesquisa ou de aplicação, em determinados contextos ou regiões?

A abordagem focada nas soluções é amplamente aplicada no Irã em contextos muito diversos. No contexto clínico, é usada por profissionais e praticantes de saúde mental para problemas variados. No contexto educacional, professores, educadores e conselheiros recorrem a ela para lidar com o comportamento dos alunos ou como recurso de ensino. Alguns serviços comunitários se apoiam na TBFS para empoderar pessoas e famílias que enfrentam problemas sociais. No contexto organizacional, ela também é usada por gestores e por conselheiros de carreira. Universidades como a Universidade de Teerã ou a Universidade Shahid Beheshti desempenham um papel importante no ensino da abordagem. Vejo que muitos colegas meus usam os livros traduzidos para ensinar aos estudantes, e conduzimos também muitos workshops sobre TBFS no nível universitário. Para profissionais como conselheiros, psicólogos ou psiquiatras, a Associação Iraniana de Psicologia oferece apoio ao uso dessa abordagem na prática. Centros de pesquisa de muitas universidades se dedicam à saúde mental, ao aconselhamento ou aos serviços de psicologia. Eles pesquisaram a aplicação da TBFS para melhorar, por exemplo, a saúde mental, ao lado de outras abordagens. Vejo, no entanto, que alguns centros de pesquisa iranianos estão mais voltados para a abordagem focada nas soluções. Hoje muitas pessoas usam essa abordagem em sua vida. Eu mesma trabalho em um centro de aconselhamento e vejo que muitas pessoas vindas de áreas de formação muito diversas, como a engenharia ou os estudos de medicina, também leram livros focados nas soluções e aplicam a abordagem em sua vida. Muitas pessoas instruídas no Irã conhecem essa abordagem e tentam usá-la em suas vidas.

Parece muito difundida em várias instituições governamentais, como centros de aconselhamento, centros comunitários, universidades. Isso significa que ela é oficialmente reconhecida como abordagem terapêutica ou psicoterapêutica? Se sim, é reconhecida como abordagem em si mesma, ou sob o guarda-chuva da abordagem sistêmica?

A TBFS não tem reconhecimento nem recomendação oficial para a prática da psicoterapia ou do serviço social. Ainda assim, seu uso crescente sugere uma aceitação e uma efetividade cada vez maiores. Muitos artigos em persa, ou farsi, tratam dessa abordagem, e por muitas razões: seu conteúdo, por exemplo, que é focado nas famílias, nas soluções, e não apenas nos problemas. Muitos terapeutas de casal ou terapeutas conjugais usam essa abordagem em sua pesquisa ou em sua aplicação clínica. Sabemos que há muitas outras abordagens, usadas por muitos outros profissionais. Muitas abordagens, no entanto, não são sensíveis à cultura, de modo que não podemos usá-las para terapia familiar ou de casal. No Irã, ao contrário, temos muita pesquisa focada na aplicação da TBFS à satisfação ou ao ajustamento conjugal, à motivação conjugal ou à qualidade de vida. Muitos profissionais conhecem essa abordagem, e não apenas conselheiros ou psicólogos. Por isso temos muitos recursos, artigos e livros em farsi ou persa.

Parece que a abordagem focada nas soluções é bastante conhecida no Irã, em ambientes variados. Isso é algo específico dessa abordagem ou é semelhante à difusão de outras abordagens, como a terapia narrativa, a TCC ou talvez a terapia focada nas emoções (EFT)?

Posso dizer que a TBFS é tão conhecida quanto a TCC. Muitas pessoas conhecem as duas. Atualmente, muitos pesquisadores preferem combinar a TBFS com a TCC ou com a EFT. Não sei dizer qual delas é mais famosa entre os iranianos, porque cada uma dessas abordagens tem seus adeptos, que a estudaram e a usaram em seu trabalho profissional. Penso, no entanto, que ela é amplamente conhecida por profissionais como educadores, conselheiros, psiquiatras e psicólogos. Pelos artigos, vejo que muitos preferem combinar a TBFS com a TCC, a EFT ou outras abordagens.

O que mostra a pesquisa

Você mencionou pesquisas comparativas, além da aplicação em contextos variados. O que a pesquisa mostra sobre a efetividade da abordagem focada nas soluções no Irã?

Li muitos artigos e teses de doutorado ou dissertações de mestrado dedicados à efetividade da abordagem focada nas soluções, ou que comparavam sua efetividade com a da TCC ou da EFT. Há muitos artigos sobre a efetividade da TBFS no Irã. A maioria é publicada em língua farsi; para alguns deles, o resumo é traduzido para o inglês. A pesquisa sobre efetividade foi conduzida principalmente em centros hospitalares ou em serviços sociais. Muitos pesquisadores também usam a abordagem focada nas soluções em contexto de pesquisa. Apesar de a abordagem não ser oficialmente reconhecida, os resultados positivos indicados pela pesquisa baseada em evidências, a formação e o ensino profissionais disponíveis, com informações sobre os protocolos de aplicação, e a colaboração entre muitos pesquisadores sustentam o uso dessa abordagem em contextos de pesquisa, clínicos e universitários, inclusive como abordagem psicoterapêutica. Eu mesma uso a TBFS no campo da adoção e da saúde mental de adolescentes em centros de reeducação.

Como praticante, como você vê os clientes responderem à abordagem focada nas soluções?

Pela minha experiência, durante minha pesquisa sobre TBFS com adolescentes de centros de reeducação, pude ver que os adolescentes têm boa aceitação dessa abordagem tal como aplicada em formato de grupo. Ao aplicá-la, concentrei-me nas forças dos adolescentes e na construção de suas próprias soluções. Foi muito interessante para mim ver como adolescentes com alto risco comportamental acolhiam a colaboração com seu conselheiro ou psicólogo, quando este trabalhava sobre suas forças, e não sobre suas fraquezas. Foi muito interessante para mim que eles se voltassem para a exploração emocional e acolhessem essa abordagem.

Você mencionou protocolos para aplicar a abordagem focada nas soluções. Esses protocolos são focados nas soluções em sentido estrito, ou são adaptados ao contexto cultural?

Usei tais protocolos com meus colegas durante pesquisas. Para isso, usamos livros em farsi e outras referências iranianas. Era muito importante para nós que a aplicação se apoiasse na cultura. Por isso usamos muitos livros para montar o protocolo. Um desses protocolos se baseava no livro More than Miracles. The State of the Art of Solution-Focused Brief Therapy, de de Shazer, Dolan, Korman, Trepper, McCollum e Berg (2007). Usamos a versão traduzida desse livro ao trabalhar com os adolescentes dos centros de reeducação.

Vocês fizeram ajustes nos protocolos?

Usamos o protocolo apenas para algumas tarefas, por exemplo falar sobre emoções, falar sobre o futuro ou falar sobre os pais. Falamos sobre como eles imaginavam sua vida futura, já que os adolescentes viviam em um centro de reeducação na época da pesquisa. Lemos muitos protocolos e decidimos usar este para falar sobre a vida futura, sobre a carreira futura. Não fizemos mudanças importantes, porque não queríamos alterar o protocolo.

Na pesquisa há uma forte tendência a estudar a efetividade da abordagem focada nas soluções em formato de grupo – mesmo quando se examina sua eficácia em terapia de casal. Isso também prevalece na prática, ou é específico da pesquisa?

Penso que eles usam a TBFS em contextos de grupo sem alterá-la muito, tanto na pesquisa quanto em sua prática. Talvez tenham suas próprias razões para fazê-lo.

Instituições, e as razões de tanta pesquisa

Existe uma associação nacional, ou algo semelhante, onde as pessoas da abordagem focada nas soluções se reúnem?

Sim, há muitas instituições não governamentais trabalhando nesse assunto. Como muitas outras abordagens, a TBFS tem seus adeptos, de modo que vemos uma multidão de pessoas trabalhando nisso. Não posso mencionar nomes exatos. Como psicóloga iraniana do aconselhamento, vejo que há no Irã muitas pessoas e instituições trabalhando, especialmente em Teerã, com a TCC e a TBFS. Não existe instituição voltada apenas para a TBFS. Há muitas instituições que acolheram a abordagem focada nas soluções ao lado de outras abordagens. Pelo fato de a cultura e o contexto iranianos se apoiarem na família e na comunidade – a sociedade é coletivista –, há muitas instituições que usam a TBFS.

Qual é o segredo, na sua opinião? Há tanta pesquisa sendo feita em nível acadêmico! Que recomendação de boa prática você daria a praticantes e pesquisadores do mundo inteiro que quisessem alcançar um nível semelhante?

A TBFS mostrou efetividade no tratamento de uma ampla gama de problemas de saúde mental, em tempo muito breve. É, portanto, um tema muito atraente para a pesquisa, por seu caráter prático e por sua eficiência em pouco tempo. A TBFS pode ainda ser usada em contextos muito diversos; assim, muitos pesquisadores têm a oportunidade de usá-la em contextos variados, como o clínico ou o organizacional. Ela não é limitada – pode ser aplicada a uma diversidade de populações. Para essa abordagem, dispomos de prática baseada em evidências, vinda da pesquisa e da literatura, sobre como a TBFS ajuda as pessoas a mudar seu comportamento. A TBFS também põe a ênfase no empoderamento, na colaboração e nas forças do cliente. Penso que é por esses fatores que muitas pessoas usam a abordagem focada nas soluções em suas pesquisas.

Melhores esperanças, e adaptação à cultura

Quais são suas melhores esperanças para o futuro da TBFS no Irã e também internacionalmente?

Minha melhor esperança para essa abordagem é que a TBFS conquiste mais profissionais de saúde, tanto no Irã quanto no mundo. À medida que mais praticantes se familiarizarem com seus princípios e suas técnicas, poderão aplicá-la para melhores resultados junto aos clientes. O ajuste da TBFS à cultura é, além disso, muito importante para seu uso efetivo no Irã. Espero que cada vez mais praticantes iranianos a usem de maneira sensível à cultura e trabalhem em consonância com os valores culturais da população local e com a essência da TBFS. E, por fim, espero que haja mais formação profissional e mais treinamentos educacionais para praticantes, terapeutas, conselheiros e psicólogos. Espero ver o estabelecimento de mais programas no Irã para atender à demanda crescente por qualificação. Espero que usemos a TBFS para todos os problemas de saúde mental, porque ela pode ser usada para empoderar os clientes e mostrou-se utilizável para populações e problemas muito diversos, por exemplo nos contextos clínico, escolar ou organizacional. Espero poder ver seu desenvolvimento em contextos variados, como o educacional, os serviços sociais e muitos outros, tanto no Irã quanto internacionalmente. A pesquisa e a aplicação prática mostraram sua eficiência no contexto iraniano. Espero, portanto, que cada vez mais clínicos e terapeutas usem essa abordagem em seu trabalho profissional.

Você mencionou a necessidade de uma aplicação da abordagem sensível à cultura; que adaptações culturais você recomendaria?

É muito importante que nos voltemos para as culturas, os valores e as normas de cada sociedade. Por exemplo, quando uso a pergunta do milagre, procuro me concentrar cada vez mais na cultura. Para toda cultura, é importante que reconheçamos seus pontos-chave quando trabalhamos para empoderar as pessoas. Na cultura iraniana, é muito importante que não negligenciemos a família: isso quer dizer que devemos atender o indivíduo junto com sua família e trabalhar não apenas para empoderar o indivíduo, mas também para empoderar a família. Isso se deve ao fato de que, no contexto iraniano, a família tem forte influência sobre o indivíduo e, portanto, não devemos negligenciá-la. Por exemplo, ao usar a pergunta do milagre, é muito importante não negligenciar a família. Eu mesma uso a família em meu contexto profissional.

No contexto iraniano, a família tem forte influência sobre o indivíduo e, portanto, não devemos negligenciá-la.

Roghieh Nooripour

O que ainda está por construir

Há algo mais que deveríamos saber sobre a aplicação da abordagem focada nas soluções no Irã, e que você gostaria de compartilhar com o mundo?

Sabe, é muito importante para mim que entendamos como a TBFS se harmoniza com as culturas, os valores, as crenças. Esses aspectos culturais são muito importantes na comunicação com todas as partes da estrutura familiar e no comportamento de busca de ajuda. Deveríamos, por exemplo, destacar como a TBFS pode se integrar às práticas e aos valores culturais; e é muito importante mostrar para quem ela é aceitável. Além disso, se pudéssemos ter uma plataforma para compartilhar nossas percepções sobre os desafios e os êxitos do uso da TBFS, isso nos daria lições valiosas para outras culturas e outros contextos semelhantes. Isso supõe considerar várias barreiras, como os recursos limitados ou o estigma, que são importantes para os comportamentos de busca de ajuda. Outra coisa é que oferecer informação por meio de workshops e cursos sobre TBFS, on-line ou em outros formatos, poderia ser muito valioso para profissionais, estudantes e também para organizações interessadas em aprender cada vez mais sobre essa abordagem. Para os futuros praticantes e pesquisadores, é muito importante que tenhamos estudos de caso e seus resultados após a intervenção com TBFS, para ver quais são os êxitos e os fracassos.

Uma última coisa: poderíamos também destacar as oportunidades de colaboração e de intercâmbio sobre pesquisa e prática da TBFS entre o Irã e outros países. Poderíamos ter alguma plataforma para compartilhar experiências e aprendizados, e ter interações acadêmicas. Isso daria visibilidade tanto aos praticantes internacionais quanto aos iranianos que usaram a TBFS em seu trabalho. Poderíamos também ter congressos ou projetos de pesquisa em colaboração voltados apenas para a TBFS, em formato individual ou de grupo. Penso que esses aspectos são muito importantes e poderiam ajudar mais pessoas interessadas na TBFS.

Há algo mais que não perguntamos e que valeria a pena perguntar?

Esta é uma grande oportunidade para mim de falar sobre TBFS. Dou aula em uma universidade, então podemos ter colaborações. Para as turmas dos meus estudantes de graduação, por exemplo, podemos antecipar se eles têm interesse em aprender TBFS. Para os estudantes, seria muito interessante ter a oportunidade de ouvir sobre a TBFS com formadores internacionais, mesmo em webinários on-line. A maioria deles não tem falta de informação sobre TCC, porque há muitos livros e webinários. Se os estudantes de graduação se familiarizarem com a TBFS, ficarão mais propensos a aprender cada vez mais no mestrado ou no doutorado. Atualmente eles não têm muitos webinários sobre TBFS.

Muito obrigado.

Referências

Guterman, J. T. (2014). Mastering the art of solution-focused counseling. John Wiley & Sons. https://doi.org/10.1002/9781119221562

Kim, J., Kelly, M., & Franklin, C. (2017). Solution-focused brief therapy in schools: A 360-degree view of the research and practice principles. Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/acprof:oso/9780190607258.001.0001

Macdonald, A. (2011). Solution-focused therapy: Theory, research & practice (2nd ed.). Sage Publications. https://doi.org/10.4135/9781446288764

Metcalf, L. (2017). Solution focused narrative therapy. Springer Publishing Company. https://doi.org/10.1891/9780826131775

Nelson, T. S. (2018). Solution-focused brief therapy with families. Routledge. https://doi.org/10.4324/9781351011778

Quick, E. K. (2013). Solution focused anxiety management: A treatment and training manual. Academic Press.

Complexe Systémique · Nota da tradução

A entrevista foi submetida em 10 de junho de 2024, aceita em 17 de junho e publicada em 24 de junho de 2024. O endereço eletrônico indicado na bibliografia original para o livro de Ellen Quick, truncado no arquivo da revista, não foi reproduzido. O livro More than Miracles é citado pela entrevistada em sua edição inglesa; foi uma tradução persa dessa obra que ela diz ter utilizado.

Tradução não oficial para o português de “The State of Solution Focused Practices and Research in Iran: Interview With Dr Roghieh Nooripour”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Żak, A. M., & McKergow, M. (2024). O estado da prática e da pesquisa focadas nas soluções no Irã (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-estado-da-pratica-e-da-pesquisa-focadas-nas-solucoes-no-ira (Obra original publicada em 2024 em Journal of Solution Focused Practices, 8(1); republicada em 2024 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/120192)

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