História · O experimento de Rosenhan
Imagine o seguinte: você está internado num hospital psiquiátrico. Quanto tempo levaria, na sua opinião, para convencer a equipe médica de que está melhor e pode sair? É exatamente essa suposta evidência que David Rosenhan veio rachar, a ponto de abalar toda uma parte da psiquiatria nos anos 1970.
Intuitivamente, costuma-se responder “não muito tempo”. Achamos que, se nos comportarmos normalmente, a realidade acabará por se impor.
Rosenhan parte de uma pergunta simples, quase ingênua, e explosiva justamente por isso: como se distingue, concretamente, uma pessoa sã de uma pessoa doente? E em que momento aquilo que acreditamos observar diz mais sobre o sistema de observação… do que sobre a pessoa observada?
Rosenhan recruta oito pessoas sem transtorno psiquiátrico. Elas se apresentam em diferentes hospitais psiquiátricos e relatam um sintoma: dizem ouvir vozes, ou ruídos, na cabeça. Nada mais. Resultado: são internadas. A partir daí, a orientação é simples: comportar-se de maneira perfeitamente normal e tentar sair o mais rápido possível.
Se o sistema funcionasse como imaginamos, o raciocínio seria: o sintoma desapareceu, a observação não encontra nada de patológico, a hipótese pode ser abandonada. Num mundo ideal, o rótulo cairia tão rápido quanto foi colado.
Só que não é isso que acontece. Muito rapidamente, diagnósticos são atribuídos — o mais frequente no relato desse experimento: a esquizofrenia. E aí tudo vira, porque, uma vez colado o rótulo, ele se torna um par de óculos. E esses óculos colorem tudo.
A partir do diagnóstico, cada comportamento dos pseudopacientes é interpretado pelo prisma da patologia. Um comportamento banal se transforma em sinal clínico. Uma intenção neutra vira indício. Uma contradição vira prova adicional. Alguns exemplos ficaram famosos — e são arrepiantes porque são plausíveis.
Esse mecanismo tem nome na psicologia social e cognitiva: uma vez instalada uma hipótese, a mente — e as instituições — passam espontaneamente a procurar o que a confirma e a requalificar o que a contradiz. O diagnóstico deixa de ser apenas uma hipótese de trabalho. Ele se torna uma grade de leitura totalizante.
É esse o ponto incômodo: o erro não é apenas possível… ele se torna coerente. O sistema se sustenta, se autovalida, porque transforma os contraexemplos em novos argumentos. E quanto mais faz isso, mais sólido parece. Não é uma crítica simplista aos indivíduos. É uma crítica dos contextos e da potência dos enquadres.
Depois da publicação dos resultados, alguns responsáveis por instituições psiquiátricas reagem com raiva e desafio: “Muito bem. Mande pseudopacientes agora, e você verá que a gente identifica.” Rosenhan aceita o princípio… e depois anuncia que enviou pessoas.
As equipes entram em alerta. Elas examinam, avaliam, filtram. Ao longo dos meses, cerca de quarenta pessoas são identificadas como suspeitas, às vezes dispensadas, às vezes rotuladas como fraudadoras.
A reviravolta
Rosenhan revela então que não enviou ninguém. Esse radar, tão orgulhoso de estar afiado, detectou sobretudo… a sua própria expectativa.
Quando se espera simuladores, aumentam-se mecanicamente os falsos positivos. Vemos o que procuramos ver. Essa segunda parte é quase mais vertiginosa que a primeira, porque mostra que o problema não é só superestimar a doença, mas fabricar certezas nos dois sentidos, conforme o clima, a pressão e o relato dominante do momento.
É aqui que o experimento fica realmente interessante para as nossas vidas cotidianas, os nossos casais, as nossas famílias, as nossas instituições e até os nossos atendimentos. Assim que colamos um rótulo, mudamos a maneira como percebemos a pessoa. E, de modo ainda mais discreto, mudamos a maneira como a pessoa se percebe.
Numa família, isso aparece bem cedo: “Ele é o agitado.” “Ela é a sensível.” “Esse é o difícil.” “Essa é a madura.” “Esse é o palhaço.” Alguns rótulos parecem positivos, mas também aprisionam: o forte, a boazinha, o responsável. Outros são francamente desqualificantes, e a sua violência se vê de imediato.
Em todos os casos o mecanismo é o mesmo: congela-se uma pessoa numa descrição, e essa descrição vira um roteiro. Depois, tudo o que acontece é relido por esse roteiro. No casal é igual: “Você é egoísta.” “Você é histérica.” “Você é frio.” “Você é incapaz.” A partir daí, cada gesto vira “prova” e cada tentativa de nuance vira “manobra”. Já não se discute um comportamento num contexto: debate-se uma identidade.
O objetivo não é dizer que os transtornos não existem, nem que os diagnósticos são inúteis. Eles podem guiar, estruturar, proteger, abrir direitos, organizar cuidados. O problema começa quando o diagnóstico deixa de ser uma ferramenta e vira uma definição da pessoa.
Essa é uma ideia que os terapeutas narrativos formalizaram com potência notável: a externalização do problema. Em outras palavras, separa-se a pessoa daquilo que lhe acontece. Para de se confundir “quem você é” com “o que você está atravessando”. Em vez de “sou ansioso”, exploramos como a ansiedade se convida, quando ela ganha terreno, o que ela tenta proteger, quando recua, e o que a pessoa já faz para resistir a ela.
O rótulo
Uma descrição congelada, que vira roteiro: um julgamento sobre o ser.
A dinâmica
Uma descrição viva, que descreve um movimento: uma curiosidade sobre o funcionamento.
O experimento de Rosenhan, quer o abordemos como um eletrochoque histórico, como uma crítica das instituições ou como uma lição de psicologia social, deixa um rastro duradouro: não é apenas a pessoa que “tem um problema”. É a relação entre uma pessoa, um contexto e uma grade de leitura que fabrica aquilo que acreditamos ver.
O relato completo do experimento, com as suas duas etapas, é contado em imagens logo abaixo — em francês.
Como citar este artigo
Besse, J. (2026, 25 de janeiro). O experimento que abalou a psiquiatria: Rosenhan. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-experimento-que-abalou-a-psiquiatria-rosenhan
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