Ferramenta sistêmica · Crenças cruzadas

O jogo das crenças cruzadas: uma ferramenta versátil para a terapia sistêmica

As crenças profundas influenciam nossas relações, nossos comportamentos e nossa maneira de interagir com o mundo. Herdadas da nossa história pessoal ou moldadas por experiências marcantes, elas costumam formar padrões que aprisionam indivíduos, casais ou famílias em dinâmicas repetitivas e conflituosas. Diante desses desafios, o jogo das crenças cruzadas, desenvolvido por Stessie Fougeroux, oferece uma resposta inovadora, adaptada a diversos contextos terapêuticos.

Uma ferramenta inspirada na sistêmica

O jogo das crenças cruzadas se apoia nos conceitos sistêmicos desenvolvidos por Mony Elkaïm, em particular o de duplo vínculo recíproco. Esse mecanismo descreve como nossas crenças profundas podem se reforçar mutuamente em nossas relações, criando círculos viciosos de conflitos ou mal-entendidos.

O jogo, composto por cartas específicas para cada tipo de terapia (individual, de casal e familiar), permite trazer essas crenças à luz, trabalhá-las em um enquadre seguro e criar um espaço propício à transformação.

Um jogo, três contextos terapêuticos

1. Na terapia familiar

No contexto familiar, o jogo das crenças cruzadas permite explorar as dinâmicas relacionais entre os diferentes membros. Cada participante seleciona cartas que refletem suas crenças, tais como: “Eu não posso ser reconhecido(a)”, “Eu sempre tenho que escolher”, “Eu só posso ser rejeitado(a)”.

Por meio dos cenários propostos no verso das cartas, os membros da família descobrem como suas crenças podem interagir e se reforçar mutuamente. Um adolescente pode, por exemplo, expressar uma crença como “Eu não tenho valor”, enquanto um dos pais percebe que age de uma maneira que, sem querer, valida essa crença.

Ao trabalhar essas interações, a família pode desenvolver novas formas de se comunicar, fortalecer os vínculos e criar uma dinâmica mais harmoniosa.

2. Na terapia de casal

Para os casais, o jogo é particularmente útil para identificar e desarmar os duplos vínculos recíprocos. Tomemos como exemplo crenças como “Eu nunca estou à altura” e “Faça o que eu fizer, nunca está bom”.

O terapeuta guia os parceiros por cenários que ilustram essas crenças e os ajuda a encontrar respostas que não as amplifiquem. Esse processo favorece uma melhor compreensão mútua, desenvolve a empatia e oferece ao casal ferramentas concretas para romper os ciclos repetitivos de conflito.

3. Na terapia individual

Na terapia individual, o jogo das crenças cruzadas ganha uma dimensão muito particular. O terapeuta interpreta ao mesmo tempo o papel dos parceiros de comunicação do paciente (colegas, pessoas próximas, membros da família) e o do próprio paciente. Esse duplo papel permite ao paciente:

  • observar suas próprias reações diante dos comportamentos dos outros;
  • compreender como pode, inconscientemente, colaborar com reações que reforçam suas próprias crenças limitantes.

Tomemos o exemplo de uma crença como “Eu só posso ser abandonado(a)”. Ao simular uma situação fictícia, o terapeuta pode mostrar como certos comportamentos do paciente (uma atitude defensiva ou distante, por exemplo) contribuem para ativar nos outros respostas que validam essa crença. Esse trabalho ajuda o paciente a desenvolver uma consciência maior do seu papel nas interações e a experimentar reações alternativas.

Por que três conjuntos de cartas?

Stessie Fougeroux concebeu três conjuntos de cartas distintos para responder às necessidades específicas de cada enquadre terapêutico. Cada conjunto reflete as realidades do contexto visado, permanecendo fiel ao referencial sistêmico que sustenta o jogo.

Terapia de casal

Cenários centrados nas dinâmicas conjugais e nas interações do dia a dia.

Terapia familiar

Situações que envolvem vários membros de uma família, adaptadas a configurações diversas.

Terapia individual

Exemplos que se aplicam à vida pessoal, profissional e social.

As etapas do jogo

Seja qual for o contexto em que é utilizado, o jogo das crenças cruzadas segue etapas semelhantes:

  1. Seleção das crenças: cada participante escolhe as crenças que ressoam com sua vivência.
  2. Identificação das crenças centrais: por meio de um questionamento circular, os participantes identificam as crenças principais de cada um, favorecendo a empatia.
  3. Jogo em torno das situações: por meio de cenários fictícios, os participantes aprendem a responder às crenças do outro sem reforçá-las.
  4. Prescrição de tarefas: o trabalho continua em casa, com exercícios concretos que visam integrar os aprendizados da sessão.

Uma ferramenta que transforma a terapia

O jogo das crenças cruzadas não se limita a tornar visíveis as crenças limitantes: ele convida indivíduos, casais e famílias a experimentar novas formas de pensar e de interagir. Apoiando-se na criatividade e na empatia, permite iniciar mudanças profundas e duradouras.

Quer ir mais longe?

Adquirir o jogo das crenças cruzadas

Artigo: o artigo da revista Thérapie familiale, no Cairn

Livros: Vivre en couple. Plaidoyer pour une stratégie du pire e Si tu m’aimes, ne m’aime pas. Approche systémique et psychothérapie.

Para ver o jogo na prática e ouvi-lo apresentado em detalhes, o vídeo — em francês — está abaixo.

Como citar este artigo

Besse, J. (2024, 1º de dezembro). O jogo das crenças cruzadas: uma ferramenta versátil para a terapia sistêmica. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-jogo-das-crencas-cruzadas-uma-ferramenta-versatil-para-a-terapia-sistemica

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