Casal · Desgaste do cotidiano
Na complexidade das relações humanas, alguns problemas se infiltram de maneira insidiosa e fragilizam a relação do casal sem que se perceba. Como terapeuta de casal, constato regularmente que dinâmicas subterrâneas contaminam os vínculos afetivos, muitas vezes bem antes de os parceiros tomarem consciência delas.
Este artigo leva você aos bastidores das relações de casal e propõe chaves para identificar e prevenir essas armadilhas invisíveis. São também essas dinâmicas que se trabalham em terapia de casal.
Para além dos contos de fadas das comédias românticas, o casal é um verdadeiro contrato social. Historicamente, os papéis eram simples: o homem trabalhava fora, enquanto a mulher cuidava do lar. Hoje, mesmo com a evolução da sociedade, certas desigualdades persistem. Os números falam por si:
Esse desequilíbrio persistente cria um bug social, fusão de antigos modelos patriarcais com novas expectativas de igualdade. Apesar de carreiras que caminham para o equilíbrio, as mulheres continuam assumindo a maior parte das responsabilidades domésticas e familiares.
Essa situação gera uma dupla jornada de trabalho: uma profissional, remunerada, seguida de uma segunda em casa, invisível mas igualmente exaustiva. Essa carga mental permanente mina pouco a pouco a dinâmica do casal, gerando fadiga, frustração e tensões.
A carga mental representa o conjunto das tarefas invisíveis de planejamento e organização. Ela costuma se traduzir em frases como:
Essa desigualdade, muitas vezes não intencional, instala um desequilíbrio em que um pensa por dois, enquanto o outro age pontualmente, sem perceber o peso do fardo carregado pelo parceiro.
A gestão financeira dentro do casal continua sendo um assunto delicado. Seja na divisão das despesas, na diferença de renda ou nas decisões de investimento, o dinheiro pode criar tensões latentes.
A verdadeira questão não é o dinheiro em si, mas a percepção do poder que ele confere. Os desequilíbrios financeiros podem, inconscientemente, instaurar uma dinâmica de dominação ou de dependência, afetando o equilíbrio emocional e relacional do casal.
Em um casal, cada parceiro acumula inconscientemente dívidas simbólicas:
Essas dívidas emocionais, muitas vezes não verbalizadas, podem se tornar tóxicas se não forem reconhecidas e discutidas. É essencial falar abertamente sobre elas para evitar que esses desequilíbrios se instalem de forma duradoura.
Para evitar que essas tensões invisíveis destruam o seu casal, eis alguns pontos de referência:
Quem faz o quê? Por quê? Tornar visível a divisão real das tarefas é um primeiro passo.
Assegurem-se de que cada um está de acordo com a divisão, em vez de suportá-la por hábito.
Nomear e valorizar o que o outro faz, inclusive o que não se vê, alimenta o vínculo.
Falem das diferenças sentidas antes que se tornem tóxicas e se instalem de forma duradoura.
Para lembrar
Um casal saudável não é uma contabilidade estrita, mas uma equipe unida em que a transparência e o diálogo são essenciais.
Na época da publicação deste artigo, uma formação intitulada “Les nouveaux terrains de la thérapie de couple” (Os novos terrenos da terapia de casal) era proposta nos dias 5 e 19 de abril de 2025 a terapeutas de casal, psicólogos, mediadores familiares e assistentes sociais: uma abordagem sistêmica centrada em temas essenciais como o trabalho, o dinheiro, as tarefas domésticas e a coexistência.
Essas armadilhas invisíveis do cotidiano são analisadas em detalhe no vídeo abaixo — em francês.
Como citar este artigo
Besse, J. (2025, 23 de fevereiro). Os problemas de casal que desgastam no dia a dia. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/os-problemas-de-casal-que-desgastam-no-dia-a-dia
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