Journal of Solution Focused Practices · Pesquisa
A resiliência vicária é o que o profissional de ajuda ganha ao ver os seus clientes ficarem de pé diante do trauma. Na Bolívia, os trabalhadores dos serviços municipais de proteção da família (SLIM) recebem as vítimas de violência em condições precárias, mal pagos, às vezes sem contrato. Marcos Pérez Lamadrid e Adam Froerer lhes propuseram quatro vídeos curtos, quatro tarefas e uma sessão de grupo focada nas soluções, em plena pandemia. Entre 41 participantes, o grupo formado progrediu nas sete subescalas do inventário de resiliência vicária, com ganhos significativos em recursos, autoconsciência e reconhecimento da espiritualidade. Um estudo piloto, o primeiro do gênero na América do Sul, a ler com os seus limites – e com a sua conclusão: esses profissionais são o seu próprio instrumento de trabalho, e são insubstituíveis.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Solution Focused Brief Therapy and Vicarious Resilience in Bolivian Protective Family Services Workers, de Marcos Pérez Lamadrid e Adam Froerer, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2022), doi: 10.59874/001c.74999, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, com as duas tabelas apresentadas em fichas, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Os profissionais que ajudam são insubstituíveis, pois são os seus próprios instrumentos de trabalho, que forjam na experiência e na inspiração, no calor e na intensidade das lutas para cumprir as suas responsabilidades desafiadoras.
Marcos Pérez Lamadrid e Adam Froerer
Resumo
A resiliência vicária (RV) é definida como os efeitos positivos que os cuidadores experimentam na sua vida pessoal, na sua vida profissional e na sua visão de mundo como um todo, decorrentes de testemunhar a resiliência que os clientes demonstram ao enfrentar as suas experiências traumáticas. Esta pesquisa é um estudo piloto quase experimental sobre como a terapia breve focada nas soluções (TBFS) influencia a resiliência vicária dos trabalhadores do sistema de proteção da família (SLIM) na Bolívia. O Inventário de Resiliência Vicária (VRI) foi administrado num desenho pré-teste/pós-teste a um grupo experimental (aplicando a TBFS) e a um grupo de controle (formação habitual). Ambos os grupos experimentaram um aumento da resiliência vicária, mas o grupo de TBFS teve melhoras estatisticamente significativas em três subescalas do VRI: (a) recursos, (b) reconhecimento da espiritualidade e (c) autoconsciência. Duas outras subescalas do VRI se aproximaram da significância estatística para o grupo de TBFS: a esperança inspirada pelos clientes e a consciência do poder. Espera-se que, com uma amostra maior, essas subescalas também tivessem sido estatisticamente significativas. Pesquisas adicionais são necessárias para generalizar os resultados deste estudo piloto a uma população maior.
Palavras-chave: resiliência vicária, terapia breve focada nas soluções, recursos, espiritualidade e autoconsciência.
O Estado Plurinacional da Bolívia está situado na América do Sul. Segundo o censo de 2012, a Bolívia tem uma população de 10,1 milhões de habitantes. A língua oficial é o espanhol, mas há mais de 36 línguas, das quais as mais usadas são o aimará e o quéchua, especialmente na região ocidental (Instituto Nacional de Estadística, 2015).
Os dados nacionais sobre a violência na Bolívia preocupam as autoridades. Segundo o Observatório de Gênero, em 2020, entre março e maio, foram registrados 2.935 casos de violência. Em resposta a esses registros, políticas públicas foram concebidas na esperança de eliminar esse problema. Uma das mudanças instituídas para enfrentar essa violência é a criação de serviços de proteção da família, administrados de forma independente pelos diversos municípios. Como cada município trata dessas questões de forma independente, não há dados coletivos reunidos. Pesquisas são necessárias para saber o que está acontecendo com esses trabalhadores e para determinar o que é preciso para apoiá-los numa tarefa tão desafiadora.
Os serviços legais integrais municipais (SLIM, pela sigla em espanhol) são as “organizações encarregadas de gerir os casos de violência e de realizar campanhas de prevenção” (Ley, 2013, p. 348). Cada unidade SLIM é composta por três grandes áreas de serviço: jurídica, psicológica e serviço social. Cada uma dessas áreas conta com no mínimo dois profissionais, num total de pelo menos seis trabalhadores SLIM por unidade.
Os profissionais dos SLIM são responsáveis pela recepção de todos os casos, pela avaliação de cada situação, pela intervenção especializada e pelo acompanhamento correspondente (Ministerio de Justicia, 2017). Todo esse trabalho é realizado de maneira coordenada e multidisciplinar, apoiado por um marco legal em nível nacional. Apesar desse atendimento coordenado, cada escritório SLIM depende do município (isto é, dos prefeitos das suas respectivas cidades e vilas) no qual trabalha. Essa dependência local significa que os recursos econômicos, os contratos e as abordagens operacionais dependem de políticas e procedimentos individuais de combate e tratamento da violência (Ley, 2013).
Como os escritórios SLIM, assim como outras instituições que trabalham para prevenir a violência e atender as pessoas por ela afetadas, ainda não estão consolidados com políticas e procedimentos padronizados, há uma tendência dos municípios a reduzir os fundos dessas organizações. Os cortes orçamentários regulares e o subfinanciamento dessas agências tornam precários o suporte da infraestrutura e a aquisição dos suprimentos necessários, e muitas vezes resultam em pessoal insuficiente (Defensoría del Pueblo, 2018).
As áreas rurais enfrentam também desafios adicionais para manter uma força de trabalho adequada. Nessas áreas, os contratos de trabalho nos escritórios SLIM são frequentemente limitados a apenas três meses, e no máximo a um ano. Como os trabalhadores SLIM precisam de emprego e de renda, muitas vezes continuam trabalhando depois de expirado o contrato, sem receber salário. Trabalham na esperança de ter o contrato renovado. Se for renovado, é incerto se os salários atrasados acumulados durante o período sem contrato serão pagos (Departamento de Investigación Postgrado e Interacción Social, 2020).
Espera-se que cada escritório SLIM tenha pelo menos um psicólogo, um advogado e um assistente social, mas isso muitas vezes não acontece. É comum que pessoal de outras áreas do município seja designado para “administrar esse serviço”, além de manter as suas próprias responsabilidades habituais. Em outras ocasiões, um escritório SLIM pode ser obrigado a se virar com uma força de trabalho inadequada. Isso faz com que os funcionários restantes fiquem sobrecarregados e mal pagos, cumprindo as tarefas associadas a mais de uma função. É importante notar que essa situação de falta de pessoal expõe os trabalhadores e as agências SLIM a contestações judiciais e queixas. Dada a natureza sensível do trabalho (isto é, lidar com violência e trauma), os trabalhadores podem ser alvo de contestações judiciais pela sua incapacidade de dar atenção adequada a essas situações sensíveis.
Além dos desafios jurídicos, os trabalhadores SLIM podem encontrar outras situações traumáticas, como desastres naturais, experiências violentas (por exemplo, sequestro), roubo, abuso sexual etc. (Tedeschi et al., 2004). Essas condições obrigam os trabalhadores a utilizar as suas próprias estratégias de enfrentamento e os seus recursos pessoais diante desses desafios: eles precisam recorrer às suas próprias reservas de resiliência, ou capacidade de superar a adversidade (Becoña, 2006). Uma adversidade extrema, como a enfrentada pelos trabalhadores SLIM, pode estar associada ao trauma e resultar em sentimentos de insegurança, desconexão e medo. Muitas vezes esses sentimentos são agravados pela preocupação de que a(s) experiência(s) traumática(s) se repita(m). Muitas vezes, enquanto os trabalhadores SLIM atendem pessoas que atravessam e enfrentam experiências traumáticas, eles lidam simultaneamente com os seus próprios desafios, agravados pelas situações precárias do seu local de trabalho.
Sem diminuir os efeitos negativos que a experiência do trauma pode ter, parece que o trauma pode resultar em desfechos que são mais do que apenas efeitos negativos. Como dizem Ai e Park (2005), as pessoas que vivem algo traumático podem ser enfraquecidas pelo trauma, mas também podem desenvolver melhores recursos e habilidades ao trabalhar para lidar com os impactos do trauma. De fato, a resiliência e um enfrentamento mais adaptativo também podem ser os desfechos de viver experiências traumáticas e de ajudar os outros a lidar com elas.
Claramente, mais atenção poderia ser dada à maneira como os indivíduos lidam com essas situações e desenvolvem resiliência adicional com apoio psicoterapêutico (O’Hanlon, 2011). Da mesma forma, mais atenção poderia ser dada à maneira como os trabalhadores SLIM podem se beneficiar vicariamente ao se concentrar no crescimento e na resiliência das pessoas com quem trabalham. Conversas com os trabalhadores SLIM com ênfase nas forças, nos recursos e na resiliência poderiam ser usadas para apoiar os clientes, os trabalhadores SLIM, e para reforçar os aspectos e os resultados positivos do seu trabalho. Em vez de serem puxados cada vez mais para baixo pelo peso dos desafios, os trabalhadores SLIM podem ser fortalecidos e ajudados ao se concentrar na resiliência.
A resiliência vicária (RV) são os efeitos positivos que os cuidadores experimentam na sua vida pessoal, na sua vida profissional e na sua visão de mundo como um todo, decorrentes de testemunhar a resiliência que os clientes demonstram ao enfrentar as suas experiências traumáticas (Engstrom et al., 2008). Os profissionais de cuidado podem experimentar um aumento de felicidade, alegria, senso de satisfação ou admiração pelos seus clientes, ao ouvir sobre a capacidade destes de lidar de maneira significativa com experiências difíceis e traumáticas. Os pesquisadores que descreveram pela primeira vez o construto de resiliência vicária acompanharam terapeutas que trabalhavam com clientes lidando com o trauma em diferentes culturas e em mais de uma língua (Hernández-Wolfe, 2012). Eles descreveram os clínicos que experimentavam resiliência vicária como pessoas que gostavam do seu trabalho, que valorizavam fazer parte de uma coconstrução na qual o sistema social do cliente era levado em conta, e que gostavam de testemunhar pessoas não apenas sobrevivendo, mas lidando bem com o trauma (Hernández-Wolfe).
Apesar dos impactos positivos de olhar para a resiliência vicária, há outros indicadores que mostram impactos negativos sobre os profissionais que se esforçam para ajudar os clientes a lidar com o trauma. Esses impactos negativos sobre os profissionais podem incluir o esgotamento emocional, a fadiga por compaixão e o esgotamento por compaixão, todos levando a déficits do praticante e a baixos benefícios para o cliente (Franza et al., 2020; Saborio & Lechiner, 2015; Pehlivan, 2018). Pesquisadores mostraram que muitos clínicos podem experimentar um ou mais desses sintomas, ao mesmo tempo em que sentem alguma satisfação com o seu trabalho com clientes traumatizados. Eles sugeriram que os clínicos também podem experimentar crescimento pós-traumático e/ou satisfação por compaixão (Arias & Garcia, 2019; Buceta et al., 2020; Hernández-Wolfe & Acevedo, 2018). Killian (2008) demonstrou, contudo, que não parece haver nenhuma correlação estatística entre esses diversos construtos. Isso significa que os clínicos podem experimentar um ou mais deles simultaneamente. A resiliência vicária parece particularmente útil como foco por causa das suas implicações de longo alcance para o trabalho dos terapeutas.
Com o tempo, os pesquisadores que estudaram a resiliência vicária passaram a medir a sua presença com o uso do Inventário de Resiliência Vicária (VRI; Engstrom et al., 2017). Eles mostraram que os clínicos com altos níveis de resiliência vicária apresentavam aumento de recursos, abertura para mudar a maneira de trabalhar com os clientes, maior autoconsciência, capacidade de implementar práticas de autocuidado levando a menos estresse e esgotamento, maior capacidade de sentir esperança inspirada pelos clientes, maior reconhecimento do valor da espiritualidade e dos sistemas de crença que transcendem o indivíduo, e maior capacidade de reconhecer o poder e a sua própria posição social. Cada um desses elementos também contribuía para a redução da intelectualização excessiva, do medo, da fadiga, da reatividade e da distração dos clínicos.
As exigências complexas sobre os trabalhadores SLIM e o seu contexto de trabalho desafiador podem aumentar o seu esgotamento e a sua fadiga. É por essa razão que nos perguntamos se ajudá-los a desenvolver resiliência vicária aumentaria a sua capacidade de lidar com a incerteza de cada caso que atendem e a sua capacidade de enfrentar as exigências contextuais das suas circunstâncias desafiadoras. Como a terapia breve focada nas soluções (TBFS) é uma abordagem baseada em recursos, centrada nos desfechos desejados e na esperança, que muitas vezes leva a maior resiliência, esperávamos que fosse útil aos trabalhadores SLIM enquanto trabalham para lidar com os seus próprios desafios e ajudar clientes que enfrentam experiências muito difíceis e traumáticas.
A terapia breve focada nas soluções (TBFS) foi desenvolvida nos anos 1980 em Milwaukee, Wisconsin, no Brief Family Therapy Center, por um grupo de terapeutas liderado por Steve de Shazer e Insoo Kim Berg. A TBFS é uma abordagem alternativa do trabalho clínico, fundada em evidências empíricas substanciais (De Jong & Berg, 2008; Ratner, 2012). A TBFS se baseia em conversas coconstruídas entre o cliente e o clínico. Essa perspectiva de coconstrução significa que é importante que os clínicos incorporem o que o cliente diz em cada afirmação que fazem, e que essas palavras incorporadas sejam geralmente embutidas em perguntas, e não em afirmações ou diretivas (Froerer et al., 2018).
A TBFS é orientada para a descrição e se concentra na presença da transformação desejada que o cliente quer como resultado de uma dada sessão. Essa descrição centrada na transformação incorpora diferentes aspectos do passado, do presente ou do futuro da vida do cliente, e estabelece inspiração ao conectar os recursos, as habilidades e a agência do cliente à descrição do manejo da incerteza do trauma (Connie, 2021). Desse modo, a noção de transformação desejada e a agência associada a alcançar essa transformação são elementos de esperança (Courtnage, 2020).
A esperança é uma entidade conversacional primordial na TBFS, refletida numa relação terapêutica positiva (Froerer et al., 2019). A esperança é cultivada ao permitir intencionalmente que o cliente assuma o papel principal, especialmente no que diz respeito ao conteúdo das conversas (Ratner et al., 2019). No caso específico do trabalho com pessoas que lidam com o trauma, essa prática geralmente muda o papel do praticante de vitimologista para resilientologista (von Cziffra-Bergs, em Froerer et al., 2018).
Dada a base de evidências e o foco na resiliência da TBFS, este estudo procurou compreender se a exposição à TBFS tinha impacto nos níveis de resiliência vicária dos trabalhadores dos sistemas de proteção da família (SLIM) na Bolívia.
Para investigar se a terapia breve focada nas soluções tinha influência nos níveis de resiliência vicária, foi usado um desenho piloto, quase experimental, pré-teste/pós-teste, com dois grupos. O grupo de controle era um grupo sem tratamento / formação habitual, enquanto o grupo experimental recebeu uma intervenção de TBFS entre as medições do pré-teste e do pós-teste.
Um total de 42 participantes bolivianos foram incluídos neste estudo. Para participar do estudo, as pessoas precisavam atender aos seguintes critérios de inclusão: (a) ser adulto com 18 anos ou mais, (b) ser empregado dos serviços legais integrais municipais (SLIM), ou fazer parte da equipe SLIM-UMSA (que pode incluir assistentes sociais, advogados e outros profissionais), e (c) ler e escrever fluentemente em espanhol.
Os participantes acabaram se autosselecionando para o grupo de tratamento ou para o grupo de controle. Pediu-se aos participantes que assistissem a quatro vídeos de formação em TBFS e realizassem quatro tarefas no seu próprio ritmo, associadas aos vídeos. Em seguida, todos os participantes que completaram as quatro tarefas foram convidados a participar de uma sessão de formação em TBFS. Cada pessoa presente na sessão de TBFS foi incluída no grupo de tratamento, enquanto todas as outras foram colocadas no grupo de controle. Apenas duas pessoas (8%) do grupo de controle entregaram alguma tarefa.
No fim, o grupo de controle tinha 24 participantes e o grupo focado nas soluções tinha 17 participantes. Embora essa seja uma maneira incomum de formar grupos num estudo de pesquisa, por causa da natureza piloto deste estudo, ela pareceu a melhor maneira de determinar o impacto da formação focada nas soluções para os trabalhadores SLIM. Além disso, vale notar que um participante do grupo de controle teve pontuações que diferiam drasticamente das do restante dos participantes. Por causa desses resultados discrepantes, os pesquisadores decidiram não incluir esse participante nos resultados gerais do estudo; portanto, apenas 41 participantes foram incluídos na análise final.
Todos os participantes, independentemente do grupo de pesquisa, receberam a Escala de Resiliência Vicária (VRS; Killian, Hernández-Wolfe et al., 2017) tanto no pré-teste quanto no pós-teste. Cada uma das 27 perguntas é composta por uma questão do tipo Likert com opções de resposta que vão de zero a cinco. As opções de resposta para cada pergunta incluem: 0 = Não experimentei isso; 1 = Experimentei isso em grau muito pequeno; 2 = Experimentei isso em grau pequeno; 3 = Experimentei isso em grau moderado; 4 = Experimentei isso em grau elevado; e 5 = Experimentei isso em grau muito elevado. Conforme os resultados da análise fatorial durante o desenvolvimento do instrumento, as pontuações da VRS são divididas em sete subescalas diferentes e também são somadas para uma pontuação global da VRS. As sete subescalas incluem: (a) aumento de recursos, (b) mudanças nos objetivos de vida, (c) aumento da autoconsciência, (d) esperança inspirada pelos clientes, (e) aumento do reconhecimento da espiritualidade, (f) aumento da consciência do poder e (g) aumento da capacidade de permanecer presente.
Para a intervenção de TBFS, foi usado um programa psicoeducativo. O programa de intervenção de TBFS incluía quatro vídeos curtos de formação sobre a TBFS, com cerca de quatro minutos cada. Além disso, uma tarefa a ser realizada no próprio ritmo era dada aos participantes ao fim de cada um dos quatro vídeos. Esses vídeos e tarefas foram administrados uma vez por semana durante um total de quatro semanas. Por fim, uma sessão de grupo focada nas soluções foi realizada com as pessoas que assistiram a todos os vídeos e completaram todas as tarefas. Essa sessão foi realizada uma semana depois do último vídeo e da última tarefa. Essa sessão e os vídeos de formação tinham por objetivo ensinar aos praticantes como utilizar a TBFS no seu trabalho com os clientes. Apenas os participantes que completaram todos os vídeos e todas as tarefas participaram da sessão de grupo de TBFS e foram posteriormente considerados o grupo de tratamento para fins de análise.
Todos os participantes tiveram a opção de completar a formação em TBFS. Os participantes se autosselecionaram para o grupo de TBFS ao completar todas as tarefas associadas e participar da sessão de grupo virtual síncrona. A sessão de grupo se baseou na seguinte pergunta: Suponha que daqui a seis meses estejamos lidando melhor, da maneira que gostaríamos, e nos tornando a melhor versão da nossa equipe no SLIM. Essa melhora também influencia a maneira como tratamos as pessoas que ajudamos. Que sinais os nossos clientes notam, que lhes dizem que isso aconteceu? Este estudo incluiu as seguintes fases. Fase 1: medição inicial com a VRS; fase 2: intervenção de TBFS; fase 3: medição final com a VRS; fase 4: análise dos dados e geração dos resultados.
Os resultados deste estudo foram calculados comparando o grupo focado nas soluções com o grupo de controle. As diferenças foram identificadas por meio de um teste t para amostras pareadas. Um teste t pareado identifica se há uma diferença significativa entre as mudanças de resiliência vicária dos dois grupos. A VRS, com os seus 27 itens (α = 0,98), mostrou uma diferença estatisticamente significativa em três das sete subescalas e na pontuação global entre os dois grupos.
Embora o grupo de controle e o grupo experimental tenham mostrado algumas melhoras, nenhuma das melhoras do grupo de controle foi estatisticamente significativa, enquanto alguns dos resultados do grupo focado nas soluções foram estatisticamente significativos. A tabela 1 mostra a melhora das pontuações brutas (do pré-teste ao pós-teste) e as melhoras em porcentagem (também do pré-teste ao pós-teste) para o grupo focado nas soluções.
Tabela 1 — Resultados do grupo experimental, pré-teste / pós-teste (porcentagens)
Para cada subescala da resiliência vicária: porcentagem média no pré-teste → no pós-teste; valor médio no pré-teste → no pós-teste.
É importante notar que as pontuações aumentaram em todas as subescalas da resiliência vicária no grupo focado nas soluções. No entanto, houve aumento estatisticamente significativo em apenas três subescalas: aumento de recursos, aumento da autoconsciência e aumento do reconhecimento da espiritualidade (ver tabela 2). Duas outras subescalas se aproximaram da significância estatística: esperança inspirada pelos clientes (p = 0,06) e aumento da consciência do poder (p = 0,09). É provável que o pequeno tamanho da amostra deste estudo piloto tenha afetado a possibilidade de alcançar significância estatística. Também é provável que aumentar o tamanho da amostra afetasse a significância das outras subescalas não significativas.
Tabela 2 — Estatísticas descritivas e teste t de igualdade de médias
Para cada subescala, na ordem: grupo de controle (média e desvio-padrão no pré-teste; média e desvio-padrão no pós-teste; t), depois grupo de TBFS (média e desvio-padrão no pré-teste; média e desvio-padrão no pós-teste; t).
* p < 0,05; ** p < 0,01.
Como mencionado anteriormente, as pontuações de cada uma das subescalas aumentaram para o grupo de TBFS (experimental). As pontuações do grupo de controle também aumentaram em seis das sete subescalas; a exceção foi a escala de esperança inspirada pelos clientes, que diminuiu de 12,04 para 11,88 (ver tabela 2). Embora essa mudança não tenha sido estatisticamente significativa, ela leva a questionar por que a esperança inspirada pelos clientes pode ter diminuído. Falaremos mais sobre isso na seção de discussão do artigo, sobretudo porque essa mesma subescala esteve perto da significância estatística no grupo experimental de TBFS. A maior mudança no grupo experimental foi observada na subescala de aumento da autoconsciência.
É importante notar também que duas subescalas não foram estatisticamente significativas, nem se aproximaram da significância: mudança nos objetivos de vida e aumento da capacidade de permanecer presente. Não nos surpreendeu a falta de mudança nos objetivos de vida, dada a brevidade da intervenção e o fato de que essa não era a sua intenção. No entanto, surpreendeu-nos a falta de mudança na capacidade de permanecer presente relatada pelos participantes. Falaremos mais sobre isso na seção de discussão abaixo.
Os profissionais do grupo de tratamento com TBFS melhoraram as suas pontuações em todas as subescalas da medida de resiliência vicária, indicando assim que aumentaram a sua resiliência vicária global. Isso, por si só, é importante e valioso. Apesar do pequeno tamanho da amostra, podemos ver que mesmo uma pequena exposição à TBFS pode ajudar a aumentar a resiliência vicária de clínicos que trabalham em algumas das circunstâncias mais difíceis. Esses achados são coerentes com o que Froerer et al. (2018) expuseram. Os clínicos que trabalham com os sucessos dos seus clientes (algo que foi destacado na formação em TBFS deste grupo) provavelmente se tornarão cada vez mais resilientes com o tempo.
Faz sentido que profissionais de ajuda experimentem um senso maior de recursos (um dos achados estatisticamente significativos do estudo) depois de receber formação em TBFS. Dispor de ferramentas adicionais, de perguntas adicionais a fazer e de uma perspectiva diferente ajudaria a aumentar a capacidade dos trabalhadores SLIM de se engajar com os clientes de maneiras novas e diferentes. Esse achado também é compreensível, já que vários participantes relataram um aumento do reconhecimento da espiritualidade no seu trabalho (resultado que será discutido abaixo). Poder recorrer à espiritualidade como apoio pode aumentar a probabilidade de sentimentos de recursos. A espiritualidade pode ser um dos recursos que os participantes se sentiram mais capazes de utilizar depois da sessão de TBFS. Isso reforça a ideia de permitir que os participantes discutam e levem a sessão para onde ela lhes for útil (de Shazer et al., 2007). Dado o foco da TBFS nos recursos, especificamente na forma da conversa sobre recursos (George et al., 2017), é compreensível que os clínicos também experimentem um aumento da resiliência vicária ao notar os seus próprios recursos. A literatura sobre os fatores comuns menciona que os clínicos que parecem confiantes têm mais probabilidade de ter clientes que experimentam resultados positivos (Kort et al., 2021).
Esse achado foi surpreendente, e não era algo que nós, como pesquisadores, esperávamos ver nos resultados. Contudo, dado o que mencionamos acima na seção sobre o aumento de recursos, faz algum sentido que isso apareça neste estudo. Este estudo não se centrou especificamente na espiritualidade, mas a inclusão da espiritualidade não era excluída se os participantes iniciassem a conversa. Dado que a Bolívia é, em grande parte, uma cultura católica sincrética, faz sentido que esse seja um recurso que eles utilizariam para se ajudar em tempos de trauma e dificuldade. Como mencionaram Edelkott, Engstrom, Hernández-Wolfe e Gangsei (2016), a resiliência vicária pode levar a mudanças na autopercepção, nas relações interpessoais e nas filosofias de vida.
Como notado acima, a pontuação de esperança inspirada pelos clientes diminuiu no grupo de controle. Isso pode se dever à expectativa dos clínicos de “consertar” os problemas das pessoas. Isso pode indicar que esses profissionais têm a crença de que o clínico é o especialista e de que não deveriam receber nada do cliente, mas, ao contrário, que o cliente deveria receber coisas do clínico. Isso destaca um componente vital da abordagem da TBFS, a saber, que o cliente e o clínico coconstroem uma nova realidade por meio da linguagem. É importante notar que essa mesma subescala se aproximava da significância estatística para os participantes da TBFS. Isso pode indicar que uma mudança de perspectiva pode ter resultado da intervenção de TBFS na qual os participantes do grupo experimental se engajaram.
Esses achados são particularmente impressionantes por causa do curto prazo deste estudo piloto. Os participantes do grupo de tratamento tiveram apenas um tempo limitado para aplicar a TBFS ao seu trabalho real com os clientes. Parece razoável considerar que um tempo maior entre o pré-teste e o pós-teste (mesmo que apenas alguns meses), junto com uma formação supervisionada na implementação da TBFS com os clientes, poderia levar a resultados ainda mais robustos nas medidas de pesquisa da resiliência vicária. Esses achados mais robustos poderiam, por sua vez, apoiar desenvolvimentos nas políticas e nos procedimentos reais de formação dos trabalhadores dos SLIM – algo que seria muito significativo!
Além disso, como notado acima, a subescala de capacidade de permanecer presente não mudou muito nem para o grupo experimental nem para o grupo de controle. Algumas razões possíveis para que as pessoas ainda não conseguissem permanecer presentes são que elas ainda eram obrigadas a ir trabalhar em meio à COVID (isso pode ter sido uma variável de confusão que não pudemos controlar, devido ao momento do estudo). Esses profissionais não receberam máscaras nem outros protocolos de segurança relacionados à COVID; no entanto, eram obrigados a repassar equipamentos de proteção aos membros da comunidade. Isso significa que, embora pudessem trabalhar pelo bem-estar dos seus clientes, não conseguiam garantir muito bem o seu próprio bem-estar. Esses profissionais também não tinham permissão para ficar em casa quando doentes (mesmo que pudessem estar infectados pela COVID-19), e não tinham seguro-saúde que pudesse mitigar alguns dos seus sintomas de forma mais eficaz. Esse grupo de pessoas tinha muitas outras preocupações pessoais que podem ter confundido os resultados do estudo. Por essas razões, os achados significativos em muitas das outras subescalas são ainda mais impressionantes. Apesar dessas preocupações pessoais persistentes, os participantes da TBFS ainda assim foram capazes de aumentar os seus próprios recursos, de ser inspirados pelos seus clientes e de aumentar o seu reconhecimento da espiritualidade, enquanto o grupo de controle não foi capaz de obter esses mesmos ganhos. Vale notar também que, como alguns dos trabalhadores SLIM do grupo de controle completaram partes da formação em TBFS (alguns assistiram a partes dos vídeos e alguns completaram partes das tarefas), mas não completaram tudo para serem incluídos no grupo experimental, é provável que a sessão de grupo de TBFS ao fim do protocolo tenha tido um papel significativo nas melhoras do grupo focado nas soluções. Valeria a pena investigar isso mais com pesquisas adicionais.
Embora este estudo seja o primeiro do gênero na América do Sul, e embora haja alguns resultados promissores, é importante reconhecer as limitações deste estudo. A natureza piloto deste estudo significa que o tamanho da amostra foi pequeno e limitado; portanto, esses resultados devem ser interpretados com cautela. Os leitores devem ter cuidado para não generalizar esses desfechos a todos os trabalhadores da linha de frente. Pesquisas adicionais com uma amostra maior e mais diversificada aumentariam a confiança nesses resultados. Além disso, como mencionado anteriormente, o momento deste estudo, durante a pandemia de COVID-19, introduziu variáveis de confusão que podem ter afetado os achados do estudo. Seria benéfico repetir este estudo em tempos sem COVID, para determinar se os achados são coerentes com estes. Mais uma vez, apesar dos achados promissores, os resultados deste estudo devem ser interpretados com cautela, e os leitores devem ter cuidado para não atribuir toda a mudança apenas à intervenção de TBFS, embora pareça que essa intervenção teve impacto para o grupo de tratamento com TBFS.
A TBFS parece aumentar a resiliência vicária mesmo dos clínicos recém-expostos. A TBFS parece aumentar os recursos, a consciência de si e a consciência do papel da espiritualidade. Esperamos que esses resultados contribuam de forma positiva para o corpo crescente da literatura sobre resiliência vicária. Além disso, como este estudo piloto mostra uma ligação preliminar entre a resiliência vicária e a terapia breve focada nas soluções, espera-se que seja possível e provável que essa ligação possa ser demonstrada não apenas com os trabalhadores SLIM, mas também replicada em outros contextos clínicos e de serviço. Pesquisas adicionais sobre a ligação entre resiliência vicária e foco nas soluções seriam muito valiosas.
Em conclusão, a terapia breve focada nas soluções, mesmo em pequena dose, serviu para aumentar a resiliência vicária dos trabalhadores SLIM na Bolívia. No entanto, como diz Hernández-Wolfe (2016), seria uma falácia afirmar que essa melhora ocorre espontaneamente; por isso é importante destacar a necessidade urgente de melhorar as condições de trabalho dos servidores públicos, levando em conta que eles não são trabalhadores substituíveis como em outros tipos de empregos administrativos, pois, ao acumular experiência e inspiração dos relatos de sobrevivência dos clientes, desenvolvem apreço pela diversidade e pela inclusão, além da criatividade para gerar pontes entre as brechas sociais. Em outras palavras, os profissionais que ajudam são insubstituíveis, pois são os seus próprios instrumentos de trabalho, que forjam na experiência e na inspiração, no calor e na intensidade das lutas para cumprir as suas responsabilidades desafiadoras. Procedimentos como a TBFS ajudam a garantir que esse desenvolvimento seja consistente.
Complexe Systémique: para lembrar
Um estudo piloto a ler como tal: grupos autosselecionados (os que completaram tudo formam o grupo de TBFS), 41 participantes, uma intervenção minúscula (quatro vídeos de quatro minutos, quatro tarefas, uma sessão de grupo por videoconferência), durante a pandemia. O que ele traz está menos nos valores de p do que no seu objeto: a resiliência vicária, o lado positivo do trauma vicário, medida em profissionais de ajuda cujas próprias condições de trabalho são traumatogênicas. A pergunta do grupo é uma pergunta do milagre coletiva, projetada a seis meses e observada pelos olhos dos clientes. Ler junto com a revisão de literatura de Eads e Lee sobre os resultados da abordagem com sobreviventes de trauma, e com John Henden sobre a passagem da sobrevivência ao florescimento.
Referências
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Tradução não oficial para o português de Solution Focused Brief Therapy and Vicarious Resilience in Bolivian Protective Family Services Workers, de Marcos Pérez Lamadrid e Adam Froerer, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 6, n.º 1 (2022), doi: 10.59874/001c.74999, sob licença CC BY 4.0. Tradução e formatação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Solution Focused Brief Therapy and Vicarious Resilience in Bolivian Protective Family Services Workers”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Pérez Lamadrid, M., & Froerer, A. (2022). Terapia breve focada nas soluções e resiliência vicária em trabalhadores bolivianos dos serviços de proteção da família (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/tbfs-e-resiliencia-vicaria-em-trabalhadores-bolivianos-dos-servicos-de-protecao-da-familia (Obra original publicada em 2022 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 6, n° 1 (2022); republicada em 2022 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/74999)
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