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Red Sistémica · Família e aprendizagem

Disfunções do aprender na família

De 251 famílias recebidas em entrevista de diagnóstico, 81 foram tratadas em terapia familiar sistêmica; 21 casos foram reunidos para esta pequena pesquisa. Os pais consultavam por “transtornos de aprendizagem” ou de “comportamento”; a constante, porém, era a dificuldade que tinham em governar a criança em casa. Wanda Santi descreve a identificação dessas situações, um modelo de trabalho centrado apenas nos pais e o que acontece com as dificuldades escolares quando não são tratadas diretamente.

Autora Wanda SantiPrimeira publicação Perspectivas Sistémicas, n.º 1, 1988Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

Esta proposta consiste em trabalhar sobre os métodos e os resultados de uma pequena pesquisa sobre as disfunções do aprender.

De 251 famílias recebidas em entrevista para o seu diagnóstico, 81 delas receberam um tratamento familiar sistêmico. Entre estas, 21 casos foram reunidos para a pesquisa aqui apresentada.

251
famílias recebidas em entrevista de diagnóstico
81
receberam um tratamento familiar sistêmico
21
casos reunidos para a pesquisa aqui apresentada

Motivo da consulta

Em todos os casos, ele era definido pelos pais como “transtornos de aprendizagem” e/ou “transtornos de comportamento” na escola ou em casa.

Uma vez reunidos os casos para o estudo e a pesquisa, constatou-se que a constante era a dificuldade de governo que esses pais encontravam com as crianças em casa. Consultavam a pedido da escola, ou porque um dos dois, ou ambos, sentiam ter fracassado na sua tentativa de controle do paciente identificado, o qual “é difícil de lidar, perturba a vida familiar de diferentes maneiras e, em muitos casos, é também objeto de queixas sobre a sua conduta na escola ou na pré-escola”.

Chamam-se disfunções do aprender porque há uma perturbação no fato de ensinar e de aprender a integrar e a respeitar as regras de conduta social transmitidas pelos pais. Há uma dificuldade em aprender-mudar-integrar, como resposta a uma orientação parental “pouco clara”, a qual, por sua vez, é alimentada circularmente pela complexidade da conduta dessas crianças. Ela é definida como “pouco clara” porque se trata, segundo o nosso estudo, de uma orientação educativa imprecisa, mutável, hesitante, feita de pedidos e de exigências inadequadas, produto do desacordo que sempre aparece entre os estilos dos dois pais. Estilos que tanto um quanto o outro veem como um erro do cônjuge, e não como uma visão diferente do mundo ou das coisas.

“Há uma dificuldade em aprender-mudar-integrar, como resposta a uma orientação parental pouco clara, a qual, por sua vez, é alimentada circularmente pela complexidade da conduta dessas crianças.”

Wanda Santi

O sistema familiar

  • Raiva ou decepção de um dos pais, ou de ambos, em relação ao paciente identificado.
  • Desacordo explícito ou mascarado quanto ao que é “bom” para a criança.
  • Sérias dificuldades em pôr limites.
  • Desacordo sobre a maneira de intervir ou de ajudar nas tarefas e nas obrigações escolares.
  • Acreditam que se pode educar sem frustrar.
  • Buscam o consentimento da criança sobre as suas próprias condutas educativas.
  • Na maioria das vezes, as mães se sentem responsáveis pela dificuldade, ou são designadas como tal pelo pai.
  • Sentem a criança como ingovernável, “quase possuída ou dominada por alguma coisa”.
  • Oposição quanto ao método a empregar com a criança.
  • Colocam de bom grado a consulta como uma espécie de “arbitragem”.
  • Interações mutuamente desqualificantes entre os pais.
  • Um dos pais ocupava com frequência o lugar da criança na sua própria família de origem.
  • Costumam falar da escola de maneira desqualificante, e mais ainda da política educativa do país.
  • O P. I. (paciente identificado) demonstra pouca preocupação durante as entrevistas, como se estivesse ausente; interage interrompendo os pais.
  • O P. I. em geral adota uma atitude provocadora (na adolescência).

Modelo de trabalho

Uma ou duas entrevistas familiares conjuntas exploratórias, no curso das quais:

  • recorta-se claramente o motivo da consulta;
  • pergunta-se a cada pessoa a opinião que tem a respeito;
  • investigam-se as soluções tentadas;
  • informa-se sobre o estilo de vida familiar;
  • as atividades que compartilham, e se há outra coisa que tenham dificuldade em administrar.

Trabalha-se sobre: a delimitação das fronteiras, uma ordem hierárquica adequada e as demais manobras estruturais destinadas a clarificar e a discriminar para “pôr ordem”.

Vale a pena lembrar que a palavra transtorno significa: “inversão da ordem das coisas; perturbação; virar as coisas de cabeça para baixo”.

Observa-se o poder equilibrador da conduta sintomática, foco estabilizador da situação conjugal (Madanes, 1984).

Ao fim da segunda entrevista conjunta, anunciamos aos pais que, por ora, continuaremos a nos reunir somente com o casal parental. Esse movimento é em si mesmo reestruturante, uma vez que os pais geralmente apresentam o P. I. como “possuído” por uma força (fora do seu controle) que leva a criança a desenvolver essas condutas. Ao trabalhar somente com o casal (Bowen, 1974), mostramos que a responsabilidade dessa mudança caberá aos adultos, já que a “capacidade efetora” de estabelecer uma ordem nova está nas mãos dos pais.

Na entrevista seguinte com os pais, explicita-se o interesse de trabalhar juntos, para que seja o casal parental que, através da vida cotidiana compartilhada, modifique a situação que o preocupa (é assim que se redefine o “transtorno” que motivou a consulta). O casal pode resolvê-lo por conta própria: deixa automaticamente de se considerar impotente e incompetente (como havia chegado) e passa a uma posição ativa, mas sistematizada, dirigida e garantida por uma pessoa especialista com a qual está estabelecendo um pacto de colaboração. Fazemos aliança com a zona livre de conflito dos pais, para trabalhar aumentando a função de transformação que todo sistema possui.

Trabalha-se com os pais sobre os seus modelos familiares de origem, sobre o desejo de repeti-los ou de modificá-los, sobre a pequena ou grande diferença que existe entre os modelos de um e de outro, e sobre o que lhes é possível negociar para harmonizar os seus critérios apesar das suas posições diferentes — indicando-lhes essa atitude como a condição básica da eficácia do seu trabalho “ordenador”.

Sabemos que por trás de toda criança sintomática há problemas de casal (Bergman, 1985); conforme o grau de conflito conjugal, manobraremos portanto de modo a obter o mais cedo possível o seu compromisso de colaboração, sugerindo-lhes abordar essa circunstância como a otimização do rendimento de uma das suas funções de casal, a função parental, deixando por ora de lado a função conjugal. Ao trabalhar sobre a sua falta de acordo parental, o campo se abre para nós rumo a um espaço onde é possível planejar e passar à ação. Uma ação que — diz-se ao casal — ele não empreenderá enquanto não tiver plena convicção de que se trata de uma posição compartilhada, porque é nova, criada conjuntamente, e nada tem a ver com os seus desacordos anteriores. Ela visa diretamente a retomar o controle.

Pede-se a eles um relato bem detalhado de um dia comum da família, registrando claramente o que se passa com a criança com problemas. Aparecem então sempre múltiplas situações em que não conseguiam obter respostas adequadas aos seus pedidos, e mostra-se a eles a ineficácia dos escalonamentos em que se engajavam. Essas interações concretas permitem trabalhar diretamente enquadrando a atividade dos adultos, para que respondam melhor às exigências de cada circunstância, mesmo as mais ínfimas da conduta das crianças. Nós três estudamos em conjunto as dificuldades de controle ou de orientação, e estabelece-se uma ordem de prioridades com vistas a um programa de conduta clara.

Essas entrevistas entusiasmam e divertem o casal, porque são como um jogo que o tornará mais eficaz.

Conforme a idade do P. I. e as características específicas do problema apresentado, diferentes estratégias são concebidas. Planejam-se os limites e os controles que serão estabelecidos, quem os colocará em prática e como, as tarefas específicas nas quais se implica a figura parental mais periférica, assim como espaços e atenções mais adaptados às necessidades da criança ou dos seus pais.

Pede-se ao casal que mantenha um caderno de anotações no qual registre por escrito os acordos e as combinações, a fim de poder retomá-los a cada desvio. Ali figurarão também os comentários e as reações de cada parte, assim como tudo o que parecer importante. O casal é informado sobre o caráter privado e confidencial do que é dito e decidido nessa entrevista e nas seguintes.

Nos encontros seguintes, o trabalho recai sobre o que se passou no intervalo: as dificuldades, os êxitos, as reações, as respostas, etc. Cuida-se de manter sempre o foco na proposta inicial. É habitual que por volta da sétima entrevista se manifeste um relaxamento notável do clima inicial da família, acompanhado de uma atitude crescente de eficácia e de progresso nos pais, que desenvolvem em geral condutas isomórficas em outros domínios da sua vida (*).

Os tratamentos são curtos: oscilam em geral entre 10 e 15 entrevistas. Os encontros são a princípio semanais, depois se espaçam e passam a ser quinzenais.

Uma vez obtida certa mudança, encoraja-se os pais a continuar desenvolvendo esse modelo de forma autônoma e a telefonar eventualmente se surgir uma dificuldade. Aconselha-se que retomem contato três ou seis meses mais tarde, a título de seguimento.

É muito frequente que telefonem duas ou três vezes nos dias que se seguem ao fim do trabalho, para se tranquilizar ou por questões menores que um telefonema resolve.

Para lembrar

O deslocamento decisivo se resume a um gesto: depois de duas entrevistas familiares conjuntas, recebem-se apenas os pais. Essa retirada da criança do dispositivo é em si mesma reestruturante, pois recoloca a “capacidade efetora” do lado dos adultos, ali onde os pais a julgavam perdida em proveito de uma força que possuía a criança.

Conclusões

Podemos dizer que os pais aprenderam a ensinar às crianças a reaprender e a obedecer, “acomodando-se” a normas de vida comum. É o casal parental que dirige, estabelecendo assim a ordem hierárquica adequada. Retoma a condução de maneira ordenada. É o apoio material e afetivo da família que formou e a instância responsável pela educação das crianças (Haley, 1973). A mudança rumo a uma vida comum agradável foi acompanhada, de modo paralelo, por uma conduta semelhante na escola. A colocação adequada de limites e de regras também dispôs as condições indispensáveis ao aprender em outros domínios. Sem que se tenha trabalhado especificamente sobre os problemas de aprendizagem, estes melhoraram e depois desapareceram. Essa situação mostraria uma reação isomórfica no contexto escolar.

Nota do original

(*) Em dois dos casos, estabeleceu-se um contato telefônico com o corpo docente.

Referências

H. Aponte: “La Entrevista Familia-Escuela: Un enfoque Eco-Estructural”. Family Process, 1978.

M. Bowen: “Uso de la teoría familiar en la práctica clínica”. Artículo en Tratamiento de la Familia de J. Haley. Ediciones Toray, Barcelona, 1974.

P. Ditton, R. Jay Green, M. Singer: “Desviaciones de la Comunicación: Una comparación entre padres de alumnos con trastornos de Aprendizaje y Normales”. Family Process, Abril, 1987.

J. Haley: Terapia para Resolver Problemas, Amorrortu Editores, 1980.

— Terapia no Convencional, Amorrortu Editores, 1980.

— Trastornos de la Emancipación Juvenil y Terapia Familiar, Amorrortu Editores, 1985.

C. Madanes: Terapia Familiar Estratégica, Amorrortu Editores, 1984.

S. Minuchin y Fischman: Técnicas de Terapia Familiar, Editorial Paidós, 1984.

Steinberg, Laura: “Integración y normalización escalar del niño con trastornos de aprendizaje”. Coloquio a cargo de la Cátedra de Pedagogía Diferencial de la Facultad de Filosofía y Letras, Universidad Nacional de Buenos Aires, Argentina. Segundo Simposio sobre Trastornos de Aprendizaje Escolar, 1985.

Análise estatística dos dados

1. Objetivo

Pesquisa estatística realizada a posteriori do trabalho terapêutico. Trata-se de ver se são encontrados resultados significativos, apesar do pequeno tamanho da amostra.

2. População e amostra

A população é constituída pelas crianças e pelos adolescentes que, como P. I. (paciente identificado), são o motivo da consulta de famílias que chegam por transtornos de aprendizagem ou transtornos de comportamento na escola e/ou em casa (descritos em 4.2). Tamanho da amostra: 11 crianças e 10 adolescentes (n = 21).

3. Delineamento utilizado

Descritivo.

4. Definição das variáveis

4.1. Variáveis independentes

Sexo.

Faixa etária: comporta duas categorias — crianças (até 12 anos) e adolescentes (mais de 12 anos).

4.2. Variáveis dependentes

A

Transtornos de comportamento em casa

Desajuste expresso como não respeito às normas e aos limites fixados como desejáveis pelos pais no âmbito do lar.

B

Transtornos de comportamento na escola

Desajuste assinalado pela equipe docente, expresso como não respeito às regras de vida comum com o corpo docente, a turma, e/ou aos objetivos e normas da instituição.

C

Transtornos de aprendizagem

Dificuldade expressa no não cumprimento dos objetivos de formação previstos no programa, fixados pelo corpo docente e/ou pela escola.

D

Sucesso-fracasso

Do tratamento e da técnica aplicada.

Este artigo é a tradução para o português de “Disfunciones del aprender en la familia”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 1, 1988). Traduzido e republicado com a autorização da revista.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Santi, W. (2022). Disfunções do aprender na família (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/disfuncoes-do-aprender-na-familia (Obra original publicada em 1988 em Perspectivas Sistémicas, n° 1, 1988; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/20/disfunciones-del-aprender-en-la-familia/)

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