Red Sistémica · Psicoterapia
O futuro da terapia familiar está indissoluvelmente ligado à sua co-evolução harmoniosa com as demais disciplinas do continuum biopsicossocial: epidemiologia social, neurociências, psiconeuroendocrinologia, genética e genômica. As pesquisas recentes nesses campos se desenvolveram qualitativa e quantitativamente, abrindo, na sua interface sistêmica com os processos familiares, questões novas e fascinantes, e oferecendo ao nosso campo a ocasião – e talvez a necessidade – de explorá-las. Para isso, porém, é preciso que desenvolvamos uma postura de abertura e de acolhimento ao diálogo transdisciplinar.
“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, a idade da sabedoria e também da loucura; a época das crenças e da incredulidade; a era da luz e das trevas; a primavera da esperança e o inverno do desespero.”
Charles Dickens, Um Conto de Duas Cidades (1859)
A terapia familiar, que pertence ao território conceitual das ciências sociais e das ciências do comportamento, teve origens não muito distantes, nutrida (e, de certa forma, gerada) pela eclosão de lentes qualitativamente inéditas: a teoria da comunicação e da informação, a cibernética, a linguística, a antropologia estrutural, ora em combinação, ora em oposição ao paradigma psicanalítico. No entanto, uma vez dados os seus primeiros passos, e mais ainda ao chegar à adolescência – e comportando-se como tal –, esse híbrido estranho entre as humanidades e a ciência que é a terapia familiar prosseguiu sua evolução não apenas como se constituísse um território independente – algo razoavelmente necessário durante certo período de seu crescimento, no desenvolvimento de sua identidade profissional –, mas autoalimentado, exibindo uma arrogância insular que garante as batalhas entre abordagens e entre escolas – os pequenos territórios geram de bom grado batalhas campais – assim como o empobrecimento que resulta de sua alienação de uma rica vizinhança pluridisciplinar.
Quanto à banalidade das batalhas internas – e não consigo resistir à tentação de remeter o leitor a um velho artigo meu em que zombo dessas lutas (Sluzki, 1983) –, vale a pena lembrar uma metanálise conduzida há mais de quinze anos por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Madison, que suscitou uma controvérsia salutar quando de sua publicação (Wampold, Mondin et al., 1997; ver também Messer e Wampold, 2002), e na qual foram analisadas de maneira cumulativa múltiplas pesquisas que comparavam os resultados terapêuticos de diversas escolas de psicoterapia. Os autores chegaram à conclusão de que, empiricamente, “todas merecem um prêmio” (3), maneira indireta de aludir à heterogeneidade das premissas, das metodologias e das variáveis dependentes que encontraram ao tentar metanalisar a profusão de pesquisas sobre resultados em psicoterapia a que tiveram acesso.
Quinze anos depois, o panorama das terapias e de sua eficácia se parece ainda mais com aquela corrida de regras arbitrárias a que esses autores aludiam ironicamente em seu artigo. É preciso excetuar dessa afirmação as avaliações que tomam como indicador sintomas específicos, tais como o “transtorno de pânico com agorafobia”, sendo a eventual melhora medida, por exemplo, pelas variações da escala de ansiedade de Hamilton (por exemplo Lueken, Straube, Konrad et al., 2013). Vale a pena acrescentar que, na maioria desses estudos, quando se compara a melhora produzida pela terapia com a das pessoas que estão apenas em lista de espera, a vantagem da terapia é surpreendentemente modesta.
De fato, para parafrasear por minha vez o parágrafo inicial do romance Um Conto de Duas Cidades (Dickens, 1859) que cito em epígrafe, estes são o melhor dos tempos e estes são o pior dos tempos no vasto campo de nossa atividade profissional.
Entre os argumentos a favor do “melhor dos tempos” está o fato de que, ainda que subsistam feudos regidos por interesses comerciais, a grande maioria das terapias familiares – usem ou não uma linguagem sistêmica para se descrever e se prescrever, definam-se ou não explicitamente como breves em sua prática – solidificou suas bases conceituais e tentou, com certo sucesso, desenvolver metodologias consensuais para sua prática, para além da simples intuição ou da falta de autocrítica. O desenvolvimento dos modelos baseados na narração contribuiu muito para essa crescente abertura do diálogo entre orientações, atenuando as fronteiras entre mundo interno e mundo interacional, entre indivíduo e sociedade, e atenuando a certeza quanto à realidade, à luz das premissas construcionistas. Além disso, as terapias familiares – geralmente breves na prática – estenderam-se substancialmente a muitos serviços públicos de saúde mental, aumentando a eficiência da prestação de serviços sem diminuir sua qualidade.
No entanto – a sombra do “pior dos tempos” começa a despontar –, as afirmações do parágrafo anterior ainda têm uma base claramente ideológica, uma vez que não podem ser sustentadas por avaliações empíricas de grande porte que mostrassem a validade comparada dessas metodologias nem a eficácia dessa prestação – com a importante exceção de avaliações como as da eficácia das terapias cognitivas para a redução de sintomas específicos (entendendo-se que essa eficácia foi na maioria das vezes comparada a uma lista de espera, e não a outras formas de psicoterapia).
Ao saco do “pior dos tempos” é preciso acrescentar outros fatores, a saber:
Mas não joguemos toda a culpa no mundo que nos cerca. Um quantum de autocrítica não é apenas necessário: é salutar.
A lista do “pior dos tempos” contém em seu próprio texto a semente de uma era nova para a terapia familiar: os desenvolvimentos da genética, da epigenética e da genômica, as descobertas sobre a plasticidade neuronal e, de modo mais geral, os avanços das neurociências que ocorrem em nossa vizinhança disciplinar estão indissoluvelmente ligados a uma concepção holística, sistêmica, do ser humano-em-contexto, base de nossa disciplina.
Para isso, é necessário rever e questionar a mitologia de nosso foco autonomista, visitar algumas das zonas vizinhas (muitos de cujos habitantes talvez se mostrem tão territoriais e hostis à nossa visita quanto nós nos mostramos à deles) e, erguendo a bandeira pacifista e integradora da interdisciplina, explorar zonas de interpenetração conceitual e pragmática possível em pesquisas sistêmicas.
A questão da interpenetração é complexa, pois exige um esforço de integração multidimensional – no qual exploramos a extraordinária orquestração de processos neurofisiológicos, epigenéticos, neuroendócrinos, evolutivos, psicossociais e socioepidemiológicos – incluindo, sim, as dinâmicas familiares. Isso supõe reuniões intertribais nas quais, como nas cerimônias de encontro dos povos originários, trocamos e nos familiarizamos com lentes e linguagens bastante descontínuas em suas origens (6), ao mesmo tempo que lutamos contra nossa tentação de nos definir como a causa e todo o resto como um efeito… ou o inverso. Para mudar de metáfora no meio do caminho: imagine-se ouvindo uma sinfonia e perguntando-se “quem segue quem, os violinos seguem os violoncelos e os oboés, ou é o contrário?”. Pergunta idiota se queremos desfrutar do concerto, mas tentadora, e às vezes até pertinente para os momentos da sinfonia em que um ou outro instrumento assume a dianteira!
Permitam-me conduzir uma visita guiada a algumas de nossas tribos vizinhas e oferecer, de forma extremamente sumária e incompleta, uma amostra de avanços espetaculares em alguns desses territórios, destacando sua complementaridade com nosso mundo centrado nos processos interpessoais. Faço-o em tom amistoso, evitando as disputas territoriais e a tentação mencionada acima de subordinar esses territórios ao nosso ou, inversamente, de definir o campo “psi” como subordinado aos substratos neurobiológicos (7) ou às variáveis macrossociais.
Vejamos, em primeiro lugar, a profusão de informações oferecida pelas pesquisas do campo da epidemiologia social, disciplina que correlaciona dados de contexto com a saúde, a doença e a mortalidade. A esse respeito, múltiplos estudos demonstraram o impacto de atributos sociais tais como a integração social, a coesão social, o capital social, o apoio interpessoal, as condições de trabalho, o desemprego, a aposentadoria, a discriminação (de gênero, racial, de orientação sexual, de outros atributos) e a opressão política – medidos isoladamente ou em estudos multiníveis – sobre a saúde, a capacidade de se recuperar de doenças e a sobrevivência dos indivíduos. E essa associação é em parte mediada pela rede social pessoal, em particular a família (Berkman e Kawachi, 2000; Kawachi e Berkman, 2003; Cohen, Underwood e Gottlieb, 2000; Sluzki, 1996; e outros). E alguns dos mecanismos dessa mediação são explorados de maneira integrativa (ver por exemplo Uvnas-Moberg, 1997), inclusive o efeito salutogênico das relações afetuosas (por exemplo Holt-Lunstad, Birmingham e Light, 2008; Floyd, Boren, Hannawa et al., 2009; Grewen, Girdler, Amico et al., 2005).
A extraordinária riqueza dos dados que decorrem desse tipo de pesquisa abre caminhos e gera questões interdisciplinares que nos dizem respeito, tais como, por exemplo:
E tantas outras.
Mencionemos agora, saltando para outra vizinhança, as pesquisas epigenéticas (isto é, a modificação dos efeitos genéticos pelo ambiente); mais precisamente, o impacto recíproco entre inclinação genética e meio familiar. Certas pesquisas alojadas nessa interface constituem um modelo de explorações que tentam decifrar o peso do genético e do ambiental (e, para uma exploração aprofundada do impacto potencial dos estudos genômicos sobre a saúde mundial, ver o Comitê Consultivo de Pesquisa em Saúde da OMS, 2002). Merecem ser mencionados em particular os estudos sobre fratrias que exploram as variáveis relativas tanto à semelhança quanto às diferenças entre irmãos (Reiss, 2000), assim como aqueles centrados nas crianças com risco elevado de inclinação para a esquizofrenia (filhos de uma mãe com diagnóstico de esquizofrenia, o que multiplica estatisticamente por dez a probabilidade), adotadas e criadas por famílias sem patologia específica em sua ascendência: constatou-se que a inclinação genética só se expressa nas crianças adotivas de “risco elevado” adotadas por famílias cuja interação as situa no extremo dos traços de rigidez ou de caoticidade interacional (Tienari, Wynne e Wahlberg, 2006; Wahlberg, Wynne, Hakko et al., 2004; Wynne, Tienari, Nieminen et al., 2006; Wynne, Tienari, Sorri et al., 2007; Sluzki, 2007a e 2007b). Merecem também ser incluídas nesse setor as pesquisas sobre gêmeos monozigóticos (Segal, 2012) separados ao nascer e criados por famílias diferentes – gêmeos de semelhanças estupendas e de diferenças igualmente estupendas, produto da diferença do contexto familiar de criação.
Essas pesquisas dão uma ideia de estratégias de investigação aplicáveis a tantos outros campos do comportamento, amálgama do que é herdado (como inclinação) e do que é incorporado no mundo social familiar e, depois, extrafamiliar.
Visitemos agora sumariamente os estudos endócrinos, vizinhos em certos aspectos pouco inéditos, já que os hormônios aparecem com frequência em nossas metáforas quando não em nossa existência (ver a esse respeito, por exemplo, a importante contribuição panorâmica de Wolkowitz e Rothschild, 2003). No entanto, para além da metáfora e da endocrinologia tradicional, as pesquisas que correlacionam flutuações endócrinas e conduta social num sentido ou noutro ainda estão apenas em seus começos.
Tomemos por exemplo pesquisas que mostram que as taxas de estradiol nas mulheres permitem prever uma maior atração pelos traços dos homens que exibem caracteres de masculinidade associados à testosterona quando essas mulheres estão próximas da ovulação, e não em qualquer outro momento do ciclo menstrual. Isso sugere não apenas que as mulheres têm um interesse diferente pelo acasalamento em momentos distintos de seu ciclo menstrual – informação talvez já conhecida, vista sua expressão pragmática na vida de muita gente –, mas que existe também uma flutuação nos traços que lhes parecem mais atraentes. Por sua vez, os homens com testosterona mais elevada têm mais sucesso junto às mulheres (medido pelo número de mulheres diferentes por mês) do que aqueles com testosterona mais baixa – o que pode coincidir com traços físicos mais atraentes, ou então indicar que os primeiros são mais insistentes em sua corte e melhores em detectar mulheres em ovulação (Peters, Simmons e Rhodes, 2008; Roney e Simmons, 2008). De fato, propõe-se atualmente que o beijo não é apenas um ato de comunhão de interesse, de amor ou de intenção, nem apenas um estimulante da circulação pélvica ativado pelos feromônios: é também um veículo de troca de informações sobre o estado de saúde (por meio, por exemplo, da halitose), mas também sobre a dominância dos hormônios em circulação (ver por exemplo Floyd, Boren, Hannawa et al., 2009). E, para acrescentar um nível de imbricação, tudo indica que o desenvolvimento da empatia nos estágios precoces do amor romântico é facilitado ou entravado por variáveis cumulativas nos alelos dos genes ligados aos receptores de ocitocina (ver por exemplo Schneiderman, Kanat-Maymon, Ebstein et al., 2013).
Se essas pesquisas estabelecem certa direcionalidade, trata-se de estudos que não exploram a direcionalidade inversa, nem os processos de interação entre direcionalidades; tudo isso permanece aberto à exploração, inclusive, por exemplo, a possibilidade de estudar as mudanças hormonais geradas por intervenções terapêuticas com casais.
Quanto à maneira como a arquitetura hormonal contribui para regular os comportamentos parentais, o quebra-cabeça das combinações hormonais se esclarece um pouco quando se estuda o equilíbrio variável entre os ímpetos de acasalamento e os ímpetos de alimentação e de cuidado, e a agressão entre sua vertente antagônica e sua vertente protetora. Constatou-se, por exemplo, que as taxas de testosterona têm um efeito modulador sobre o equilíbrio entre o ímpeto procriativo (de acasalamento sexual) e o do cuidado com os bebês. Nas mulheres, a testosterona é mais elevada nas solteiras do que nas casadas e, embora seja ainda mais baixa no momento do parto, ela aumenta à medida que seus bebês crescem, em particular para além dos três anos (Barrett, Tran, Thurston et al., 2013). Por sua vez, a testosterona diminui nos homens em relação estável cuja companheira acaba de ter um bebê, e mais ainda se eles prestam cuidados a esse bebê (Gettler, McDade, Feranil et al., 2011). No entanto, a testosterona circulante aumenta com o choro do bebê – inteiramente no tom de uma reação de agressão defensiva (van Anders, 2013). Mas o efeito hormonal é mais complexo, pois outros hormônios entram em jogo. Sabe-se, por exemplo, que a prolactina é mais elevada nas mulheres que acabam de dar à luz, estimulando esse hormônio as glândulas mamárias. Ora, acontece que os homens, por sua vez, têm uma taxa de prolactina mais elevada quando estão em relação estável do que quando não estão, e mais elevada ainda naqueles que têm filhos pequenos (Gettler, McDade, Feranil et al., 2012; van Anders, 2013; van Anders, Goldey e Kuo, 2011) (6).
Introduzamos aqui duas ou três questões, para estimular a imaginação de pesquisadores potenciais:
As flutuações hormonais operam, isso já foi documentado, sobre terrenos que foram orientados por experiências emocionais anteriores. De fato, a correlação estreita entre experiências negativas na infância, duração do aleitamento nas mulheres, depressão pós-parto e variações hormonais foi bem documentada. O que estudos muito recentes acrescentaram é que essa associação é moderada, ou talvez mediada, pela presença de um polimorfismo de um nucleotídeo específico, isto é, por uma inclinação genética específica (Jonas, Mileva-Seitz, Girard et al., 2013).
Valeria a pena avaliar a carga genética – em termos de inclinações – nos pacientes que responderam à terapia, comparados àqueles que permanecem impermeáveis a tais mudanças em contextos de vida específicos.
Passemos agora a alguns dos numerosos estudos recentes sobre o que Eric Kandel chamou, num livro recente de extrema importância (Kandel, 2005), a “biologia da mente”. Há duzentos anos publicam-se muitos estudos que associam traços específicos do comportamento a estruturas cerebrais – do apogeu da frenologia no século XIX, com seus mapas cerebrais que especificavam uma área para cada emoção, cada virtude e cada vício, até os mapeamentos mais recentes de localizações cerebrais por ressonância magnética funcional. Vale a pena sublinhar que muitos estudos neurobiológicos atuais – deixando de lado os que analisam o efeito de lesões cerebrais específicas sobre o comportamento humano – não aspiram a especificar nem causa e efeito, nem subordinação (para além dos estudos de lesões cerebrais específicas que determinam áreas de processamento, tais como a área occipital onde se processa a visão ou a área de Broca onde se processa parte da linguagem): eles estabelecem apenas uma correlação. No entanto, certas pesquisas recentes sobre a neuroplasticidade permitem estabelecer uma direcionalidade interessante.
A esse propósito, vale a pena lembrar os já célebres estudos conduzidos por imagem por ressonância magnética funcional junto aos taxistas londrinos (Maguire, Woollett e Spiers, 2006; Woollett e Maguire, 2011). O primeiro estudo da série comparou taxistas a motoristas de ônibus dessa cidade. Essas duas amostras foram escolhidas porque a obtenção de uma licença de taxista em Londres exige seguir uma formação rigorosa, com duração de três a quatro anos, no curso da qual os candidatos devem memorizar em detalhe o traçado extremamente complexo das ruas, vielas e atalhos dessa capital – cidade que, por existir desde tempos muito remotos, constitui a antítese de um traçado urbano razoável. Nesse estudo, a amostra-controle era constituída por motoristas de ônibus dessa mesma cidade, os quais, embora igualmente expostos às tensões e às experiências irritantes do trânsito urbano, seguem apenas alguns itinerários fixos e têm exigências mínimas de memorização. Nessas ressonâncias funcionais, os taxistas apresentam um aumento da espessura cortical – um acréscimo estrutural de matéria cinzenta – na parte média posterior do hipocampo, comparados aos da amostra-controle, uma vez homogeneizadas as demais variáveis. Mais ainda, esse volume aumenta à medida que aumenta sua experiência. Essa comparação permitiu descartar como variável o estresse da direção na via pública – comparável nas duas amostras – e estabelecer que a pesquisa permitia, com toda a probabilidade, designar a localização neurofuncional de representações espaciais complexas. Um segundo estudo comparou as ressonâncias funcionais de taxistas antes e depois de sua formação e, mais uma vez, quanto mais avançada a formação, maior a espessura da matéria cinzenta nessas zonas cerebrais específicas.
Essa pesquisa fornece uma prova de imensa importância sobre a neuroplasticidade e nos permite entrever a viabilidade de mudanças estruturais pela experiência – o que indica que a experiência modifica a conectividade das áreas cerebrais a ela associadas de uma maneira ou de outra.
Mais ainda, estudos muito recentes de mesma orientação (Heim, Mayberg, Mletzko et al., 2013) produziram resultados não apenas fascinantes em si mesmos, mas diretamente pertinentes para nossa prática profissional. Quando se compara a ressonância funcional de mulheres adultas que sofreram na infância abusos sexuais repetidos ou traumáticos à de mulheres sem essa história, as primeiras mostram uma redução da espessura de matéria cinzenta nas zonas que correspondem à representação somatossensorial das áreas genitais no córtex cerebral. Levando em conta a maior frequência das disfunções sexuais nas mulheres vítimas de abusos sexuais durante a infância, esses estudos fornecem uma ilustração a mais da neuroplasticidade no curso do desenvolvimento em função da experiência, sob a forma de uma espécie de adaptação cortical que, diria eu de modo interpretativo, protege a menina do processamento sensorial das experiências de abuso, modificando a representação cortical de maneira muito específica. Essa mesma adaptação defensiva tem o inconveniente de se traduzir, na vida adulta, por uma prevalência bem mais elevada de disfunções sexuais – anorgasmia, dispareunia, promiscuidade. E a especificidade é tal que, quando se compara essa amostra a outra, composta por mulheres que foram vítimas de abusos emocionais mas não sexuais durante a infância, estas últimas não apresentam redução da espessura – isto é, do número e da complexidade das conexões – nessa área, mas em outras áreas cerebrais que se consideram associadas à autoavaliação e à autopercepção.
Essas pesquisas fornecem uma prova empírica da neuroplasticidade do cérebro, esclarecendo processos neurofuncionais que associam experiências traumáticas da infância a disfunções da vida adulta, pressuposto frequente de nossa atividade profissional.
Levando em conta essa evidência, entre muitas outras, algumas questões merecem ser exploradas: a atividade terapêutica com pacientes que sofreram na infância abusos sexuais ou abusos emocionais – atividade que inclui frequentemente uma ativação das conexões entre essas experiências e seus correlatos emocionais até então bloqueados – se reflete em um aumento do volume de substância cinzenta, um enriquecimento das conexões neuronais, nessas zonas? E, se isso ocorre:
Passemos a discutir sumariamente uma linha de pesquisa que já está incorporada à retórica de nosso campo profissional. Refiro-me à descoberta, conduzida por pesquisadores da Universidade de Parma (Rizzolatti e Craighero, 2004; Gallese e Sinigaglia, 2011; ver também uma atualização em Hunter, Hurley e Taber, 2013), dos neurônios-espelho, um sistema funcional que parece replicar não apenas as ações do outro – e, por consequência, a aprendizagem por imitação –, mas o significado das ações, permitindo a construção do mapa mental do outro, isto é, da intersubjetividade. Os estudos realizados com pessoas diagnosticadas como autistas e, em menor grau, com Asperger, mostram uma carência marcada desse sistema funcional. No entanto, todas manifestam reações empáticas emocionais, frequentemente com animais. Vem aqui em nosso socorro uma diferenciação proposta por pesquisadores interdisciplinares da Universidade de Haifa (Shamay-Tsoory, Aharon-Peretz e Perry, 2009; Shamay-Tsoory, 2011), que parecem ter demonstrado a existência de dois neurossistemas independentes, correspondentes à distinção entre as duas modalidades de empatia conhecidas como empatia emocional e empatia cognitiva; a primeira está ligada ao sistema de neurônios-espelho, com um substrato anatômico e uma idade filogenética mais antigos que a segunda. Os estudos realizados junto a pacientes portadores de lesões cerebrais focais em diversas áreas tendem a confirmar essa suposição.
Esses estudos fascinantes sobre o sistema dos neurônios-espelho foram popularizados no mundo “psi” de uma maneira inaudita e utilizados frequentemente em associações hipotéticas, como se mencioná-los nos ornasse com trajes mais críveis ou mais científicos, com a complicação de que muitas vezes contribuíram para supor erroneamente que os substratos neurofuncionais são “os processos subjacentes”, isto é, as “verdadeiras bases”. Por outro lado, a exploração interdisciplinar que se esboça a propósito desses processos abre portas inauditas, de extrema riqueza.
A imbricação sistêmica entre os processos macrossociais, interpessoais, genéticos e neuroendócrinos é profunda, e os avanços parciais em qualquer uma de suas interfaces fazem progredir nossa compreensão dessa articulação entre níveis de análise. Essa perspectiva nos obriga, contudo, a desenvolver e a manter uma lente sistêmica de extrema complexidade, uma vez que cada nível de processo afeta os outros e é por eles afetado, num concerto harmônico, tanto em seu equilíbrio quanto em seu desequilíbrio, ainda que, em momentos-chave, um ou outro desses níveis possa adquirir uma dominância sobre os demais. Nossa responsabilidade de profissionais é não perder de vista a orquestra mesmo quando dirigimos a atenção a um instrumento.
“Nossa responsabilidade de profissionais é não perder de vista a orquestra mesmo quando dirigimos a atenção a um instrumento.”
Carlos E. Sluzki
Essa afirmação vale tanto se centramos nossa atividade principal na clínica, no militantismo institucional ou na pesquisa – distinção também ela artificial já que, como clínicos, devemos ser pesquisadores permanentes, tanto sobre os modelos quanto sobre as interfaces e sobre a eficácia, e impulsionar nossas instituições (mesmo quando elas se reduzem a um consultório isolado) em direções de responsabilidade social – e vale igualmente se nossa ênfase recai sobre a responsabilidade institucional ou sobre a pesquisa.
Fechar-nos em nossa carapaça disciplinar e interagir apenas com aqueles que falam nossa língua e operam com nossas premissas talvez nos ofereça a possibilidade de nos mantermos como seres pensantes, mas corremos o risco de habitar apenas uma cosmogonia confirmatória, solipsista.
Nós, terapeutas familiares e terapeutas breves, não somos mais o caçula na família das ciências do comportamento, o bebê que pode se dar ao luxo de ser o centro das atenções e a estrela do espetáculo. Se nossa atividade central é a prática clínica – como é o caso da maioria dos terapeutas familiares –, isso exige que mantenhamos ou que desenvolvamos uma prática crítica, politicamente engajada e atualizada, que explore as zonas cinzentas de nosso trabalho com a mesma curiosidade calorosa com que exploramos as zonas ambíguas, problemáticas, excluídas ou oprimidas das narrativas de nossos pacientes; uma prática que agarre pelo rabo nossas teorias da ação e nossas demais intuições clínicas e as transforme em questões claras, suscetíveis de serem traduzidas em pesquisas rigorosas, articuladas com as de disciplinas vizinhas. É preciso também abrir o diálogo com nossos vizinhos e organizar projetos transdisciplinares que ampliem a ótica sistêmica para além dos confins habituais de nosso campo “família”.
Uma prática curiosa, autocrítica, aberta ao diálogo transdisciplinar (e politicamente engajada, argumento não discutido neste artigo mas de igual importância), assegura-nos uma vida profissional mais complicada do que a que nos oferece a ilusão segundo a qual o mapa de nosso território seria o mapa do universo – mas seguramente cheia de desafios fascinantes.
Para lembrar
Estes são o melhor e o pior dos tempos: as bases conceituais das terapias familiares se solidificaram e a oferta pública se ampliou, mas as provas de eficácia continuam escassas, os orçamentos se apertam e a fascinante ascensão das neurociências desviou os financiamentos das ciências do comportamento. A saída não está no fechamento disciplinar: epidemiologia social, epigenética, endocrinologia social e neuroplasticidade colocam todas, em sua interface com os processos familiares, questões que a terapia sistêmica está em condições de tratar – desde que aceite a visita aos vizinhos, sem fazer de seu território o mapa do universo.
Notas do original
Artigo reproduzido da revista Mosaico, n.º 57, fevereiro de 2014.
(1) Apresentação plenária de encerramento, XXXIV Jornadas Nacionais de Terapia Familiar, Federação Espanhola de Associações de Terapia Familiar, Palma de Maiorca, novembro de 2013.
(2) Ver o quadro “Quem é Carlos Sluzki” abaixo.
(3) Os autores empregaram intencional e explicitamente uma frase de um personagem de Alice no País das Maravilhas (Carroll, 1856), o pássaro Dodô, que, depois de julgar uma corrida em que cada corredor podia escolher seu próprio ponto de partida, seu percurso e sua meta, anunciou generosamente que todos os corredores mereciam receber um prêmio.
(4) Não busco dizer com isso que as primeiras sejam negativas, mas que não chamam por sua verificação, de modo que se podem qualificar de incompletas quando não são mistificadoras.
(5) Essa asserção exige que sejam reconhecidas importantes exceções, tais como as mencionadas em revisões antigas (por exemplo Jacobson e Addis, 1993) e recentes (Gurman, 2011) sobre o tema, e volumes substanciais como Sprenkle e Piercy, 2005, e Sprenkle e Chanail, 2012. Devo tornar públicas aqui minha familiaridade com as publicações de autores anglófonos assim como minha ignorância da produção dos pesquisadores europeus, o que enviesará minhas referências e deixará de lado, tenho certeza, muitas publicações meritórias, cujos autores peço que me desculpem por não as incluir em meu sumário panorama.
(6) Debatendo-nos ora com nossa inveja da linguagem mais precisa das chamadas ciências duras, ora com a inveja de nossos vizinhos pela capacidade poética da linguagem de nossa disciplina.
(7) Como fez sem rodeios há alguns anos aquele que era então diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, numa nota intitulada “Compreender os transtornos mentais como transtornos de circuitos” (Insel, 2010).
Quem é Carlos Sluzki
Professor do departamento de saúde global e comunitária e da Escola de Análise e Resolução de Conflitos da Universidade George Mason, Fairfax e Arlington, Virgínia; e professor (clínico) do departamento de psiquiatria da faculdade de medicina da Universidade George Washington, Washington DC, Estados Unidos (csluzki@gmu.edu).
Referências
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Este artigo é a tradução para o português de “El futuro transdisciplinario de la terapia sistémica”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Mosaico, n° 57, février 2014). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Sluzki, C. E. (2023). O futuro transdisciplinar da terapia sistêmica (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-futuro-transdisciplinar-da-terapia-sistemica (Obra original publicada em 2014 em Mosaico, n° 57, février 2014; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/01/30/el-futuro-transdisciplinario-de-la-terapia-sistemica/)
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