Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Journal of Solution Focused Practices · Opinião
Vinda de caçadores-coletores e tornada senhora de um planeta finito, a nossa espécie continua pensando em termos de ameaça: detectar o problema, resolvê-lo, esgotar o recurso, passar ao território seguinte. Steve Flatt, formador britânico, propõe ler a abordagem focada nas soluções como algo mais do que uma técnica de aconselhamento: a quarta revolução cognitiva da espécie, depois da explosão cultural, da agricultura e do Iluminismo. Um texto de opinião sem rodeios, que convoca Hobbes, Mithen, Raworth e Rushkoff, e que lembra a reserva que fundamenta a prática: não sabemos quase nada das pessoas que ajudamos.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de The Fourth Cognitive R/Evolution, de Steve Flatt, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2024), doi: 10.59874/001c.125337, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelo autor nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original faz fé.
Resumo. A humanidade está num ponto de virada da sua evolução. Muitos indivíduos e grupos percebem que é necessária uma mudança. Este artigo ilustra as dificuldades que a evolução criou no pensamento humano, produzindo assim muitos dos obstáculos que enfrentamos hoje. O pensamento linear de resolução de problemas já não é adequado para criar uma ecologia, uma economia ou uma sociedade sustentáveis. A humanidade precisa olhar para além do problema e ter criatividade quanto ao tipo de mundo que quer. Resolver problemas pela competição e pelo conflito não é eficaz. Uma mudança eficaz só acontecerá pela cooperação, pela comunidade e pela conexão, para desenvolver um mundo sustentável. A mudança de paradigma no pensamento vai das abordagens centradas no problema às abordagens centradas nas possibilidades.
Palavras-chave: evolução, futuros, cognição, sustentabilidade, sobrevivência
Em 2023, o Secretário-Geral da ONU descreveu assim o estado do mundo:
“Começamos 2023 diante de uma confluência de desafios sem paralelo nas nossas vidas. As guerras se arrastam. A crise climática arde. A riqueza extrema e a pobreza extrema campeiam. Divisões geopolíticas épicas minam a solidariedade e a confiança globais. Este caminho é um beco sem saída. Precisamos de uma correção de rumo…” (Nações Unidas, 2023)
Me pergunto como poderia ser essa correção de rumo. Suponhamos que, em vez de pensar em problemas e ameaças, como a evolução nos ensinou ao longo de toda a evolução das espécies neste planeta, começássemos a pensar de uma forma mais baseada nas possibilidades. O que seria diferente? O que notaríamos que nos diria que, como espécie, evoluímos no nosso pensamento até o ponto de considerar não só as possibilidades diante de nós, mas também as consequências das nossas ações?
Neste momento, a humanidade está se lançando, a si própria e ao planeta, numa série catastrófica de mudanças que provavelmente sujeitarão a terra e muitas das suas criaturas, humanos incluídos, à “vida do homem, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta” (Hobbes, 2008).
Isso é produto do comportamento humano, pois, como disse famosamente Edmund Burke,
“A história consiste, na sua maior parte, nas misérias trazidas ao mundo pelo orgulho, a ambição, a avareza, a vingança, a luxúria, a sedição, a hipocrisia, o zelo desenfreado e todo o cortejo dos apetites desordenados” (Burke, 1790, p. 116).
Homo sapiens sapiens (isto é, nós) evoluiu para ser uma espécie de mente voltada para a ameaça. Jerry Fodor disse isso bem ao observar: “é, sem dúvida, importante prestar atenção ao eternamente belo e verdadeiro. Mas é mais importante não ser comido” (Fodor, 1985). O nosso pensamento tem sido fundamentalmente centrado no problema, e o nosso passado de caçadores-coletores nos ensinou a usar, jogar fora e seguir em frente quando os recursos locais para a existência se esgotavam.
Douglas Rushkoff aponta esse processo de destruição no seu livro Survival of the Richest. Quando cinco dos homens mais ricos da terra seguiram o exemplo de Elon Musk colonizando Marte,
“Peter Thiel revertendo o processo de envelhecimento, ou Sam Altman e Ray Kurzweil carregando as suas mentes em supercomputadores, eles estavam se preparando para um futuro digital que tinha muito menos a ver com tornar o mundo melhor do que com transcender por completo a condição humana e se isolar de um perigo muito real e presente: mudanças climáticas, subida do nível do mar, migrações em massa, pandemias globais, pânico nativista e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia se resume realmente a uma coisa: fuga.” (Rushkoff, 2018)
Os nossos sistemas evolutivos, e um em particular, o mecanismo de sobrevivência, criaram um conflito cognitivo à medida que o cérebro crescia e evoluía. Escrevi e falei sobre isso em outros lugares (Flatt, 2018, 2021) e explorei como isso nos torna ansiosos (Flatt, 2017). Os mecanismos de sobrevivência nos serviram bem durante milhões de anos, mas, apesar da sua flexibilidade e das suas qualidades epigenéticas, não conseguiram se adaptar ao que é provavelmente o tempo de mudança mais rápida da atividade social e econômica humana desde que a humanidade tomou consciência de si. Os últimos duzentos ou trezentos anos, possivelmente até apenas os últimos 30 ou 40, produziram mais mudança e mais exigência de flexibilidade humana do que todo o resto do tempo em que o Homo sapiens esteve no planeta. No entanto, o que vemos pelo mundo é um fechamento das mentes, um recolhimento, e uma resposta de ameaça amplificada diante do “outro”. Como apontam Dyke e McKay (2023):
“Há também o potencial de uma virada negativa nas sociedades humanas, causando mais instabilidade financeira, deslocamentos, conflitos ou polarização. [Isso] poderia até provocar uma mudança para um sistema social caracterizado por mais autoritarismo, hostilidade e alienação, que poderia descarrilar por completo as transições para a sustentabilidade.”
Há muitas pessoas, notadamente na prática focada nas soluções, com os seus vários papéis por todo o planeta, que pensam de outra forma e querem ver uma abordagem do futuro mais planejada e ponderada, tanto no sentido imediato como na perspectiva mais ampla das gerações futuras. McKergow (2023) desenvolve no seu blog a expressão muito descritiva “aproximar e afastar o zoom” e ilustra os benefícios dessa abordagem multiperspectiva.
Chamo isso de quarta r/evolução cognitiva. A primeira revolução cognitiva foi uma “explosão cultural entre 60 000 e 30 000 anos atrás, quando apareceram as primeiras artes, as tecnologias complexas e a religião. A segunda foi a ascensão da agricultura há 10 000 anos, quando as pessoas começaram pela primeira vez a plantar culturas e a domesticar animais” (Mithen, 1996). A terceira é relativamente recente, o Iluminismo dos séculos XVII e XVIII, que deu origem às teorias seculares modernas da psicologia e da ética propostas por pensadores como John Locke e Thomas Hobbes, e a teorias políticas radicais (Duignan, 2024).
É preciso uma forma de ir além da abordagem voltada para a ameaça descrita acima por Rushkoff (2018), uma abordagem empregada por quem tem poder e influência nos setores políticos, econômicos e industriais de todo o mundo. Esse grupo poderoso usa o pensamento de caçador-coletor para manter as suas posições, o seu poder ou a sua riqueza, muitas vezes à custa das pessoas sobre quem tem poder e influência, e esse grupo tende a estar voltado para a ameaça e para a autoproteção. Está disposto a sacrificar populações para tentar garantir o seu próprio futuro, se concentrando nas ameaças a si próprio em vez das possibilidades para os outros.
A necessária mudança de paradigma no pensamento tem de ocorrer não só nas profissões de ajuda, mas em todas as disciplinas, especialmente na política e na economia. O sistema econômico atual se baseia no pensamento de caçador-coletor e busca um crescimento permanente para sobreviver. À medida que os recursos do planeta se esgotam, o crescimento se torna cada vez mais difícil de alcançar, e esse modelo começa a falhar. Raworth (2017) cita Todd Johnson, advogado norte-americano:
“Trata-se de ampliar o poder econômico dos poucos aos muitos e de mudar a mentalidade da indiferença social para o benefício social.” (Raworth, 2017, p. 191)
No seu livro Economia Donut, Raworth fornece muitas provas claras de como as economias, locais e globais, precisam mudar para integrar a sustentabilidade para o planeta e para os seres humanos. Fornece também uma direção clara sobre como a economia precisa mudar para um modelo sustentável. Algumas empresas industriais estão alterando os seus processos para desenvolver formas mais sustentáveis de usar materiais (Black, 2024). A Green Dreamer fornece muitos exemplos excelentes do tipo de empresas que fazem esse trabalho (Green Dreamer, 2023). E Cormac Russell fornece muitos exemplos de comunidades que buscam formas novas e mais sustentáveis de ser, baseadas na comunidade (Russell, 2020).
No entanto, qualquer progresso em curso (e há muito) é constantemente minado pela tendência divisiva do populismo nas suas várias formas, que explora o sentimento de ameaça profundamente enraizado na psique humana para se tornar tribal e alienar o “outro”. Há muitas opiniões sobre a natureza e o impacto negativo do populismo na população e no planeta (embora haja quem pense que o populismo pode ser algo positivo, por exemplo Murray (2020), que escreve sobre as guerras culturais, e um leque de opiniões do blog da London School of Economics (2017)).
Progredir exige uma mudança não só no pensamento econômico mas também no pensamento político. A classe política já não pode estar em competição pessoal, nacional e internacionalmente; terá de começar a cooperar de forma significativa, o que exige uma mudança de mentalidade para o pensamento das possibilidades, a mediação e a negociação, com base numa visão dos resultados mais amplos para todas as pessoas, ajustando depois esses resultados aos objetivos mais estreitos de uma população local. Como ilustra Cormac Russell (2020), retomando uma frase de Alfie Kohn (1986):
“A regra do consumismo, que promove a competição em vez da cooperação, é esta: ‘Para eu ganhar, você tem de perder.’” (loc. 804)
Além disso, os sistemas democráticos atuais se baseiam na questão de curto prazo da reeleição. Veja-se Ben Ansell (2023) e a sua Reith Lecture The Future of Democracy para observações sobre o foco da classe política, que com demasiada frequência é a reeleição pessoal daqui a dois anos.
As mudanças climáticas são um bom exemplo de onde é necessário um pensamento político radical: a maioria da comunidade científica continua pensando em limitar a subida da temperatura a 1,5 °C, e a resposta política é limitar as emissões de carbono. Mas será esse o objetivo final? Certamente uma visão mais sensata seria olhar para o tipo de planeta que queremos e depois considerar o que precisamos fazer para alcançá-lo, por exemplo mais energias renováveis, o recrescimento das florestas, economias circulares etc. No entanto, tudo isso vai contra o pensamento de curto prazo usado na política e na economia, baseado no modelo econômico desenvolvido pela primeira vez na década de 1850, por vezes chamado Econ 101, e ainda hoje ensinado em todo o mundo (Raworth, 2017, p. 8). Esse modelo se baseia no crescimento e sustenta uma economia que exige cada vez mais recursos para se manter, de volta à economia de caçador-coletor.
A essência da r/evolução que proponho é o que conhecemos bem como prática e pensamento focados nas soluções (PFS), competência duramente conquistada para a maioria de nós, seja qual for a forma como a praticamos. A ideia de fazer perguntas para alcançar um resultado continua sendo estranha para a maioria das pessoas. A posição padrão, para a maioria, é resolver o problema à sua frente, em vez de pensar para além dele, na visão mais ampla do que seria o sucesso. A diferença radical é que a boa prática FS toma posição e considera múltiplas perspectivas de possibilidade. A “analogia da floresta”, advertência de Mark McKergow, ajuda a descrevê-lo (McKergow, 2021, p. 82). Ele fala das perspectivas diferentes de três pessoas (artista, sobrevivencialista, botânica) que atravessam uma floresta e têm experiências muito diferentes. É uma excelente forma de pensar tanto as perspectivas como as possibilidades de interação.
Devo, contudo, fazer aqui uma reserva muito poderosa, que vai direto à raiz da PFS. Seja qual for a situação em que nos encontremos na nossa prática, aceitamos que não sabemos praticamente nada do contexto, dos fundamentos, das razões do comportamento nem sequer das motivações com que trabalhamos, quer aproximemos ou afastemos o zoom. Sócrates observou habilmente que “o único conhecimento de que estou certo é o conhecimento de que nada sei” (Fine, 2008). É isso que obriga a prática focada nas soluções a se manter fiel às perguntas em que o modelo se baseia, em vez de tentar ocupar o lugar da especialidade e adivinhar e interpretar ações, palavras e motivações no quadro de algum modelo psicológico subjacente desenvolvido a posteriori num ambiente acadêmico reflexivo.
Para ilustrá-lo, Stephen Mithen (1996) escreveu sobre centenas de milhares de anos de desenvolvimento do cérebro humano no seu livro The Prehistory of the Mind. Ali escreve, sob o título “um novo papel para a consciência”:
“Um traço crítico da mudança para uma mente cognitivamente fluida foi uma mudança na natureza da consciência. Segui os argumentos de Nicholas Humphrey de que a consciência (reflexiva) evoluiu como traço crítico da inteligência social: permitia aos nossos antepassados prever os comportamentos dos outros indivíduos. Mas, tal como qualquer outro microdomínio da inteligência social, a consciência não era acessível ao pensamento nos outros domínios cognitivos; não há razão para esperar que os primeiros humanos tivessem consciência do seu próprio conhecimento e dos seus processos de pensamento relativos ao mundo não social.” (Mithen, 1996, p. 266)
Essa afirmação tem consequências profundas para o mundo social de hoje e precisa ser um pouco desdobrada. Mithen se refere a trabalhos que discutem a natureza da vida em grupo e a razão do desenvolvimento de uma capacidade que conhecemos como “teoria da mente”, que Mithen descreve como um módulo (Mithen, 1996, p. 76), na terminologia de Cosmides e Tooby (1987). A teoria da mente é a capacidade de compreender que as outras pessoas têm estados mentais, como crenças, intenções e emoções, que podem ser diferentes dos nossos. É um conceito muito estimado por quem gosta de falar de empatia e da capacidade de empatizar com os outros.
No entanto, essa teoria da mente reflete o nosso desenvolvimento, em termos evolutivos, em pequenos grupos (raramente maiores do que 150), capazes de armazenar uma quantidade significativa de informação sobre um número relativamente pequeno de indivíduos à nossa volta. Isso funciona bem em pequenos grupos de caçadores-coletores, mas já não é funcional no mundo moderno, onde encontramos frequentemente centenas e possivelmente milhares de pessoas. Nos comunicamos também com pessoas de quem sabemos pouco ou nada, e tendemos a usar a informação armazenada no nosso mecanismo de sobrevivência para determinar os nossos comportamentos em relação aos outros. Se essa informação fosse específica do indivíduo com quem nos comunicamos nesse momento, a teoria da mente funcionaria perfeitamente. (Veja-se o famoso artigo de Thomas Nagel de 1974, Como é ser um morcego?, para a filosofia por trás dessa ideia.)
A realidade é que conhecemos muito poucas pessoas assim tão bem, muitas vezes hoje em dia não mais do que 10 ou 20 pessoas no nosso círculo íntimo, mas usamos a nossa própria experiência para desenvolver esquemas e estereótipos que determinam o nosso comportamento em quase todas as situações. São atalhos rápidos e grosseiros para não sermos comidos e assim continuarmos vivos.
Para a maioria das pessoas hoje, pelo menos na Grã-Bretanha e em geral no mundo ocidental, o grau de exposição a uma ameaça existencial física é, felizmente, relativamente raro. Como observou Steven Pinker (2011),
“Acredite ou não, a violência vem declinando durante longos períodos. E hoje provavelmente estamos vivendo a época mais pacífica da existência da nossa espécie.”
Apesar disso, os meios de comunicação jornalísticos continuam agarrados ao famoso comentário de William Randolph Hearst sobre a reportagem: se sangra, é manchete (Best, 2021). O mecanismo de sobrevivência de um ser humano é primitivo, baseado no medo e na evitação, e apenas vagamente ligado à nossa consciência. As nossas ações são muitas vezes instintivas, atacar ou fugir, baseadas no medo do outro e no desejo de buscar segurança no aqui e agora. A natureza não nos deu grande aptidão para pensar no futuro. Em grande parte do tempo passado em trabalho clínico de qualquer tipo, em particular na psicologia, o passado é muito claramente o foco de todo o trabalho com os indivíduos.
Além disso, a disciplina histórica nos diz que precisamos aprender com o passado, embora não esteja claro o que o passado pode nos dizer sobre a situação atual, pois esta é a primeira vez na história humana em que não conseguimos resolver os nossos problemas atuais nos expandindo e passando a novo território.
Já não podemos manter esse tipo de pensamento voltado para trás, para a ameaça e para o medo do outro, que dominou a nossa existência no planeta desde que desenvolvemos a autoconsciência.
Então, qual é a alternativa? Há hoje milhares de organizações voltadas para o futuro e trabalhando num paradigma orientado para o futuro, embora muito poucas tenham níveis significativos de influência sobre governos, grandes empresas ou nações. Há muitas visões do futuro, algumas apocalípticas, algumas esperançosas, algumas até alcançáveis, mas falta um ingrediente fundamental a todas essas abordagens: quase todas continuam supondo que teremos um sistema econômico e político semelhante, baseado num estilo de pensamento e em meios de troca que exigem crescimento e lucro constantes. Infelizmente, o crescimento constante não é possível num sistema finito.
Para mudar os nossos sistemas políticos e econômicos da forma radical necessária, precisamos começar a pensar e a nos comportar de outra forma, a ver a nós mesmos e a todas as outras espécies do planeta de uma forma radicalmente diferente. Continuamos criando e fazendo evoluir tecnologias aplicadas através da lente do caçador-coletor. Se quisermos entrar num futuro de segurança, cooperação, colaboração e conexão, não é a tecnologia que precisamos mudar, somos nós mesmos. Essa pode bem ser a transição mais difícil que os seres humanos já tiveram de fazer. Será necessário reconhecer e superar as nossas naturezas algo paranoicas e voltadas para a ameaça, e começar a olhar para o mundo através da lente da possibilidade, através de uma lente de pensamento focado nas soluções. Como descreve James Martin (2007) em The Meaning of the 21st Century:
“No início do século XXI, a humanidade se encontra num rumo não sustentável, um rumo que, a menos que seja mudado, conduzirá a catástrofes de consequências terríveis. Ao mesmo tempo, estamos desbloqueando formidáveis capacidades novas que poderiam conduzir a vidas muito mais empolgantes e a civilizações gloriosas. Este poderia ser o último século da humanidade, ou o século em que a civilização zarpa rumo a um futuro muito mais espetacular.” (p. 4)
Esse “futuro espetacular” não será impulsionado pelo pensamento de caçador-coletor, centrado no problema e voltado para a ameaça, nem pela resolução dos problemas imediatamente à nossa frente, mas exigirá uma revolução na forma como pensamos. Essa revolução, a quarta r/evolução cognitiva, exige uma mudança massiva na forma como percebemos o mundo, percebemos a nós mesmos e pensamos no futuro.
Um exemplo muito simples de como o progresso tecnológico nos escapa é o da inteligência artificial (IA). Essas ferramentas fantásticas não têm propósito nem motivação intrínsecos; a forma como são usadas depende inteiramente dos usos que os seres humanos lhes dão. Um martelo é um pedaço de metal perfeitamente benigno, útil para pregar pregos, até ser virado contra outra criatura. A IA é perfeitamente benigna, até estar em mãos mal-intencionadas. A IA usada por processos de pensamento de caçador-coletor se torna perigosa. Use-se a IA de forma centrada nas possibilidades e esperançosa, e ela poderá produzir milagres.
A mente humana está no mesmo ponto. Podemos continuar usando a nossa abordagem de caçador-coletor voltada para a ameaça e nos destruir lentamente, a nós e ao planeta; ou podemos escolher a alternativa. O meu receio é que, para muitas pessoas em posições de poder pelo planeta, essa alternativa seja estranha demais e exija renúncia demais ao controle para acontecer nesta geração. Ainda assim, precisamos trabalhar por um futuro sustentável, mais seguro e mais cooperativo, não para nós mesmos mas para os nossos filhos e os filhos deles. Considero que desenvolver uma mentalidade que busca soluções e está voltada para o futuro, diametralmente oposta àquela para a qual evoluímos, é a forma de consegui-lo.
Talvez um pequeno sinal fosse uma maior divulgação do trabalho bem-sucedido que já está sendo feito, em vez de criar medo divulgando apenas o que sangra! Em outras palavras, prestar atenção ao que funciona, e não ao que não funciona. Há uma montanha de trabalho a fazer, nos ajudando a pensar mais claramente sobre nós e sobre o mundo de possibilidades à nossa volta, em vez da ameaça ou do problema imediatamente à nossa frente. Não percamos mais tempo.
Submetido em 2 de novembro de 2023, aceito em 24 de outubro de 2024.
Complexe Systémique: para reter
Mais um apelo do que uma demonstração, e Flatt o assume: a PFS se torna aqui uma antropologia, a saída do cérebro de caçador-coletor, o que dá margem à objeção de que ninguém sai da sua espécie por uma técnica de entrevista. O que vale a leitura está em duas passagens. Primeiro a “reserva muito poderosa”, que traz o grande afresco de volta à escala do consultório: não sabemos quase nada das pessoas que ajudamos, e é por isso que nos atemos às perguntas. Depois a crítica da teoria da mente, calibrada para cento e cinquenta rostos e inoperante diante de milhares de desconhecidos, daí os estereótipos como atalhos de sobrevivência. Na sistêmica, um eco direto de Bateson e da ecologia da mente. Para ler com Mudar a nossa maneira de pensar a mudança, a TBFS 2.0 de McKergow e Colmar e Sing sobre o cérebro.
Referências
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Tradução não oficial em português de The Fourth Cognitive R/Evolution, de Steve Flatt, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n.º 2 (2024), doi: 10.59874/001c.125337, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem o editor respondem por esta tradução; a versão original faz fé.
Tradução não oficial para o português de “The Fourth Cognitive R/Evolution”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Flatt, S. (2024). A quarta r/evolução cognitiva (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-quarta-r-evolucao-cognitiva (Obra original publicada em 2024 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 8, n° 2 (2024); republicada em 2024 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/125337)
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