Prática · Sistêmica no atendimento individual
Quando convidei Ivy Daure para falar de terapia sistêmica individual, eu sabia que o título provocaria reações. Colocamos “sistema” e “indivíduo” na mesma frase, ainda que a sistêmica tenha nascido de uma ruptura com a centralidade do indivíduo isolado. E, no entanto: no dia a dia, há pessoas que chegam sozinhas… com histórias de vínculos.
Minha posição é simples: trabalhar com uma pessoa é sempre trabalhar com um sistema. A questão não é “é possível?”, e sim como fazer isso com rigor.
O que me chamou a atenção em Ivy é sua maneira de assumir plenamente essa tensão sem traí-la. Ela a coloca como uma evidência clínica: se um sistema é um conjunto de interações, modificar a posição de um elemento é provocar ajustes no todo. E esse trabalho pode começar aqui e agora, com a pessoa presente… e com todas as que a acompanham em filigrana.
“Como manter a sistêmica acesa numa sala em que há apenas duas cadeiras?”
A verdadeira questão
Para mim, a resposta está numa bússola simples, que compartilho com Ivy: comunicação, relação, contexto. São os fundamentos da abordagem sistêmica, e eles não se apagam quando a sala de espera se esvazia.
Desde o telefonema, a música já está lá: como essa história se conta, para quem, com que palavras, com que não ditos? Quais gestos se repetem, quem se alia a quem, quem se sacrifica, quem se cala “para não criar problema” e ainda assim os cria? Em que cenário tudo isso se ancora — família de origem, trabalho, instituições, cultura, lutos e nascimentos — e de que maneira esse cenário ao mesmo tempo restringe e autoriza?
Concretamente, recebo uma pessoa e me apresento como um leitor de vínculos. Digo isso de forma simples: “Aqui vamos falar de você e das suas relações. Os efeitos vão aparecer em você e ao seu redor.” Isso já muda algo: deixamos a lógica de “consertar alguém” por uma ecologia mais fina — cuidar dos vínculos.
Um lápis, às vezes, um esquema esboçado na margem do caderno: um mini-genograma que começa, não para enfeitar, mas para dar rosto aos ausentes muito presentes. Quero saber quem conta, quem falta, quem pesa, quem protege. Quero ouvir como se nomeiam os lugares e como se ocupa cada um deles.
O centro do trabalho está, em seguida, numa maneira de perguntar. As perguntas circulares têm essa delicadeza: elas deslocam sutilmente a câmera. “Se eu perguntasse à sua irmã o que ela notou em você nas últimas semanas, o que ela diria?” Em uma frase, passamos do “eu sofro” para um campo de interações.
As respostas tecem uma cartografia: quem alerta quem, quem acalma, quem anula o alerta em nome do apaziguamento — e produz o efeito inverso. O sintoma deixa então de ser “o meu problema” para aparecer como uma função dentro de uma rede, uma tentativa (às vezes cara) de regular algo maior.
Gosto também de pensar em voz alta. Não como alguém que sabe, mas como um companheiro de pensamento. Proponho hipóteses, com prudência, de forma reversível, com a humildade de colocá-las sobre a mesa para que as viremos juntos. Quando uma hipótese acerta em cheio, ela mexe com o corpo: um suspiro, um “ah, é isso”, um riso triste.
Então a colocamos à prova no real — uma mensagem a enviar, uma conversa a tentar de outro jeito, um ritual mínimo a introduzir na semana. Nada de espetacular; concretude relacional. E voltamos para ver o que isso produziu na pessoa e ao redor dela. O essencial está aí: manter o olho aberto para os efeitos sistêmicos do menor passo.
Há momentos em que esse trabalho exige coragem, a da confrontação cuidadosa. Ser sistêmico no atendimento individual não significa alinhar-se à versão do ausente trazida por quem está presente. É sustentar uma aliança com o sistema tanto quanto com a pessoa — o que às vezes me obriga a nomear o ponto cego. Imponho-me então três perguntas bem simples antes de falar.
Se for para brilhar, eu me calo. Se for para proteger uma criança, para desfazer uma dinâmica perigosa, eu vou — com tato. A sistêmica exige essa ética da palavra: falar já é agir dentro do sistema.
Às vezes os familiares se recusam a vir. Durante muito tempo vivi isso como um impasse; hoje vejo aí uma porta lateral. Uso de bom grado o que chamo de restituições leais: a pessoa avisa que está em atendimento e depois compartilha um elemento escolhido do que trabalhamos. É um gesto de transparência, uma mão estendida.
Estranhamente — ou logicamente — esse simples ritual reabre a comunicação onde ela havia congelado. Acontece de, aos poucos, a família aparecer. Outras vezes não, mas o sistema se move mesmo assim: observam-se menos mal-entendidos, uma diminuição da escalada, um arranjo mais suave dos lugares de cada um. Fico feliz com esses deslocamentos modestos; muitas vezes são eles que sustentam as casas.
Quando penso na suposta controvérsia — a terapia sistêmica pode ser feita individualmente? —, percebo que ela se apaga sozinha se ficarmos o mais perto possível do vivo. O que encontro, sessão após sessão, são pessoas habitadas por vínculos: lealdades visíveis ou secretas, pactos tácitos, feridas e tesouros transmitidos.
Nunca recebo um indivíduo “puro”, sem laços nem contexto; recebo uma pessoa-em-relação. Trabalhar com ela já é trabalhar com os outros. Por capilaridade, por efeito de limiar, por regulação progressiva. E quando chega o momento de abrir a porta a um cônjuge, a um pai, a um filho, esse passo se inscreve naturalmente num caminho que já era sistêmico.
Este texto não é uma defesa de “fazer individual em vez de familiar”. É um convite a sustentar juntos o respeito pela tradição e a ousadia do presente. A permanecer fiéis ao espírito — pensar interações, circuitos, contextos — mais do que a uma forma única. A aceitar que a sistêmica, se quiser continuar exata, precisa continuar móvel. Como a vida. Como nós.
Agradeço a Ivy por sua clareza tranquila. Ela me lembrou que a sistêmica não é uma fortaleza, e sim uma casa com portas. Algumas se abrem para uma sala em que a família se reúne. Outras dão para um cômodo mais íntimo, com uma única cadeira ocupada. Em uma como na outra, nossa tarefa não muda: cuidar do vínculo. Nossa conversa — em francês — está abaixo.
Como citar este artigo
Besse, J. (2025, 28 de setembro). É possível fazer terapia sistêmica individual?. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/e-possivel-fazer-terapia-sistemica-individual
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