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Red Sistémica · Terapia familiar

A terapia familiar comunitária

Nascida em Hartford, no Connecticut, a terapia familiar comunitária busca um método que ligue, em um mesmo quadro de referência terapêutico, as questões clínicas e as questões sociais. Ramón Rojano expõe aqui seus fundamentos: uma pesquisa realizada com vinte e cinco pessoas atendidas no passado, na qual a terapia quase nunca é citada entre as causas da melhora; três ordens de vínculos terapêuticos, do consultório à comunidade; uma intervenção em três níveis – terapia, acesso aos recursos e desenvolvimento de lideranças; e a figura do “terapeuta cidadão”, que trabalha lado a lado com as pessoas atendidas, sua família e seu bairro.

Autor Ramón Rojano, MD, MPH, diretor do Departamento de Serviços Humanos da cidade de Hartford (Connecticut)Primeira publicação Perspectivas Sistémicas, n.º 59, novembro de 1999-fevereiro de 2000Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

“Se, há quarenta anos, reconheceu-se a necessidade de olhar o indivíduo no contexto de seu sistema familiar, o novo século nos traz a necessidade de funcionar a partir de uma plataforma mais ampla, alargando por conseguinte o campo da intervenção terapêutica.”

Ramón Rojano

Introdução

As duas últimas décadas do século XX trouxeram consigo não só mudanças drásticas nas políticas relativas à prestação de serviços de saúde e de assistência social, mas também mudanças nas condições e nos estilos de vida dos indivíduos e das famílias.

A necessidade de produzir cada vez mais, a existência de horários de trabalho diferenciados, a pressão produzida por obrigações múltiplas e às vezes conflitantes, as mudanças na composição das famílias e a presença de numerosos problemas socioeconômicos são outras tantas realidades que marcaram os estilos de comunicação, a tipologia, as funções e os rituais familiares, e que engendraram ao mesmo tempo novos problemas e necessidades emocionais diferentes. A realidade tornou-se mais imprevisível do que nunca. Os indivíduos sentem a necessidade imperiosa de se adaptar, de competir, de ter sucesso ou, simplesmente, de sobreviver. A violência ou as adições funcionam agora como uma espécie de cavernas existenciais nas quais muita gente busca refúgio contra seus sentimentos de inadequação, tentando assim situar-se, para existir, em um espaço psicológico mais previsível. Noções como o amor, a paz e a harmonia estão cada vez mais distantes e fugidias. O sonho de “vencer na vida” tornou-se cada vez mais difícil de definir e de alcançar. O mundo avança em um ritmo muito acelerado e muita gente tem a sensação de abandono à própria sorte.

É uma era nova, em que as pessoas podem encontrar nas prateleiras dos supermercados guias de autoterapia. Pessoas que sobreviveram a abusos sexuais contam abertamente sua história e recebem, no ar, os conselhos de programas de rádio ou de televisão. Enquanto isso, os terapeutas enfrentam não só a burocracia da medicina pré-paga, que lhes fixa limites e lhes define e prescreve as restrições e as regras de conduta terapêuticas, mas também uma clientela cada vez mais cética, que exige resultados mais rápidos e mais eficazes. A realidade nos apresenta uma nova série de situações e de desafios que levam a concluir que, evidentemente, os estilos e os objetivos terapêuticos não podem mais ser formulados como antes. Se, há quarenta anos, reconheceu-se a necessidade de olhar o indivíduo no contexto de seu sistema familiar, o novo século nos traz a necessidade de funcionar a partir de uma plataforma mais ampla, alargando por conseguinte o campo da intervenção terapêutica.

A terapia familiar comunitária: uma abordagem para o tempo presente

A terapia familiar comunitária (TFC) nasceu da necessidade de buscar um método que permitisse ligar as questões clínicas e as questões sociais no interior de um mesmo quadro de referência terapêutico. Fundamentalmente, a TFC é orientada para a produção de poder por meio da intervenção. Embora essa necessidade de produzir poder por meio da terapia tenha sido amplamente reconhecida, as intervenções sempre estiveram mais ligadas à geração de um poder intrínseco do que extrínseco. Ainda que se continue a admitir a importância de trabalhar com as redes familiares e sociais para produzir poder extrínseco, na prática esse trabalho foi deixado nas mãos de outras profissões. Vários ofícios, como os case managers (gestores de casos) ou os community outreach workers (pessoal que presta serviços às pessoas na própria comunidade), emergiram e se banalizaram. A TFC reconhece a importância dessas intervenções e a necessidade, para os terapeutas, de se formar nessas áreas.

A TFC funciona em dois níveis. De um lado, ela trabalha as situações integrando o indivíduo à sua família e ao quadro de referência social que lhe diz respeito; de outro, ela constitui equipes de trabalho cujo objetivo é obter modificações na família ampliada e no ambiente comunitário.

Vinheta clínica · A história de Jennifer

Jennifer tinha oito anos quando foi levada a um centro comunitário de saúde mental porque se recusava a ir à escola havia já três semanas. A agência estadual encarregada da proteção à infância recebera a notificação da escola, com a preocupação adicional de que se tratava, além disso, de uma criança “medrosa e tímida”. Depois de uma avaliação inicial, os membros da agência de proteção decidiram encaminhá-la para uma psicoterapia, sob um possível diagnóstico de fobia escolar.

Quando a menina veio ao primeiro atendimento com os pais, sentou-se no colo da mãe, à qual se agarrou nervosamente durante quase toda a entrevista. Parecia assustar-se facilmente com a menor iniciativa do terapeuta e saiu do consultório sem ter pronunciado uma única palavra. Dois dias depois, os pais telefonaram para dizer que a menina se recusava a vir ao segundo atendimento. Pressionado pelo sentimento de urgência ligado à ausência escolar, o terapeuta decidiu ir no dia seguinte à casa da família, em seu apartamento. Para sua grande surpresa, ao chegar, constatou que Jennifer estava no pátio, brincando normalmente com uma menina afro-americana que morava no apartamento vizinho. Pela janela, dava para ouvi-la falar com a vizinha, correr e rir enquanto brincava.

Era igualmente evidente que, nas ruas em volta, havia atividades de gangue. Quando o terapeuta fez perguntas sobre a gangue, os pais mudaram radicalmente de humor e se mostraram nervosos e preocupados. Descreveram então a situação de terror que viviam; infelizmente, segundo eles, essa gangue, composta de jovens adultos, decidira instalar seu comércio de venda de drogas exatamente em frente ao apartamento deles. Em geral, a gangue começava a operar ao cair da noite e ficava ali todos os dias até tarde da madrugada. Além disso, tinha decidido manter a família com medo para que ela não dissesse nada a ninguém. Quase com lágrimas nos olhos, a mãe descreveu dois episódios em que, enquanto caminhavam na rua, os membros da gangue lhes atiraram rojões acesos que explodiram bem perto deles. Foi por isso que decidiram andar muito pouco na rua. Só saíam para as diligências indispensáveis e assistiam aos cultos religiosos com a ajuda dos membros da igreja pentecostal à qual pertenciam. Membros da igreja se encarregavam de buscá-los em casa e de levá-los praticamente a todos os lugares. Todas as noites, contaram, Jennifer quase não conseguia dormir e se debruçava frequentemente na janela por causa do barulho lá fora.

Nesse momento, a interpretação do caso havia mudado radicalmente. Estava claro que a situação da menina estava estreitamente ligada ao seu ambiente imediato. Assim, ao discutir o caso em detalhe com os pais, chegou-se à conclusão de que Jennifer se recusava a ir à escola por medo de voltar e encontrá-los mortos.

O caso de Jennifer é um exemplo entre as numerosas famílias que, dia após dia, enfrentam inúmeros problemas sociais nos bairros pobres das cidades norte-americanas. Muitas dessas famílias vivem quase sitiadas pela violência das ruas, aprisionadas em apartamentos insalubres e cercadas pelas realidades cruéis de ambientes socialmente tóxicos, praticamente isoladas por completo dos benefícios da sociedade moderna. Com frequência, elas também têm de lidar com os restos emocionais de experiências traumáticas passadas, situação que por si só afeta seu estado mental. Frequentemente, o desespero se apodera delas e elas não parecem ter nem a motivação nem a energia necessárias para lutar a fim de melhorar sua vida.

Diante dessa situação surge, impõe-se, uma pergunta-chave:

essas situações devem ser abordadas a partir da terapia familiar? Nós, terapeutas, temos um serviço a oferecer a essas famílias? Pode-se responder que sim, com otimismo. É claro, no entanto, que para ganhar eficácia diante desse tipo de situação precisamos alargar o campo de ação da terapia da família e funcionar fora dos formatos terapêuticos tradicionais. Desenvolvido em Hartford, no Connecticut, o modelo aqui apresentado, a terapia familiar comunitária, revelou-se útil em situações como essa. Nessa abordagem, os terapeutas devem demonstrar grande flexibilidade para poder estabelecer outros tipos de relação terapêutica além daqueles aprendidos nas formações tradicionais.

Por que as pessoas atendidas melhoram? Os fatores ligados à melhora clínica

Uma pesquisa circunscrita, realizada em Hartford (Connecticut), analisou as situações de vinte e cinco pessoas, quatro ou cinco anos depois de sua participação em uma terapia. Todas haviam tido uma melhora dos sintomas que motivaram a busca de atendimento e, além disso, uma melhora espetacular de suas condições gerais de vida. Em entrevistas individuais, perguntou-se a essas pessoas quais tinham sido os fatores mais importantes dessa melhora. Para nossa surpresa, a terapia quase não era mencionada como variável importante: outros fatores eram citados como causas de seu bem-estar. Os fatores mais frequentemente mencionados foram os seguintes:

Variáveis

  • o apoio da família próxima;
  • o apoio da rede social;
  • uma boa mentoria;
  • uma experiência positiva de amor;
  • o pertencimento a grupos religiosos;
  • o pertencimento a grupos culturais;
  • o altruísmo;
  • uma posição de liderança;
  • a utilização de recursos comunitários;
  • a elevação do nível de escolaridade;
  • a participação em uma formação profissional;
  • a obtenção de um bom emprego;
  • o aumento da renda;
  • o desaparecimento de fatores de estresse;
  • uma mudança de domicílio;
  • a experiência do sucesso.

Se algumas dessas variáveis foram associadas à intervenção terapêutica, na maioria dos casos foram as próprias pessoas que, por seus próprios meios, haviam desenvolvido outras iniciativas ou obtido recursos suplementares. A conclusão tirada dessa pesquisa foi simples: se essas variáveis têm um impacto tão positivo sobre o estado emocional e sobre a vida das pessoas atendidas, então é lógico incorporá-las desde o início às intervenções terapêuticas. Conceitualmente, esse é um dos pilares fundamentais da terapia familiar comunitária. Se a realidade nos mostra que os dezesseis fatores mencionados têm efeitos curativos, então vale a pena incluí-los no processo terapêutico. Tomemos por exemplo o altruísmo. Constatou-se que ele era um dos fatores mais potentes entre os mencionados. Não só é útil como gerador de autoestima, como induz ainda um senso de responsabilidade pessoal nas pessoas atendidas. A partir do momento em que se ajuda os outros, passa-se a servir de modelo. Esse fator introduz uma pressão positiva para manifestar comportamentos positivos ou para produzir níveis mais altos de realização. Sabendo disso, é possível, na sessão, sugerir ocasiões de exercer o altruísmo ou ajudar a pessoa a se conectar a elas. Outro exemplo: o trabalho. A obtenção de um bom emprego pode certamente produzir uma melhora sintomática, por muitas razões compreensíveis. Assim, os terapeutas podem estar em contato com agências de emprego, contribuindo para abrir portas e criar novas oportunidades para as pessoas atendidas.

Não podemos sonhar com uma psicologia estática e descontextualizada dos acontecimentos atuais e da realidade exterior. A posição da pessoa no mundo ampliou por si mesma o sistema familiar. Não podemos mais falar apenas de família nuclear ou ampliada. A ideia de “aldeia global” tem agora sua representação e seu impacto na psicologia individual e familiar. O indivíduo não é mais somente um “membro” da família, mas também um “cidadão do mundo”. Dominar os recursos e saber funcionar nessa aldeia global são necessidades que antes não apareciam, mas que agora são imperiosas neste fim de século.

Duas novas necessidades emergiram. Uma: a necessidade de conhecer e de utilizar eficazmente os recursos disponíveis; a outra: a necessidade de funcionar globalmente. A necessidade de controlar o ambiente exterior e a necessidade de produzir poder assumem agora uma amplitude considerável. A TFC busca ativamente produzir ou aumentar poder: esse é um de seus objetivos terapêuticos fundamentais.

Para lembrar

Interrogadas quatro ou cinco anos depois, vinte e cinco pessoas atendidas no passado quase nunca citaram a terapia entre as causas de sua melhora: citaram o apoio de pessoas próximas e da rede, uma mentoria, uma experiência de amor, um emprego, uma mudança de casa, o altruísmo, uma posição de liderança. O raciocínio da TFC decorre disso: já que esses dezesseis fatores curam, é melhor fazê-los entrar no processo terapêutico desde a primeira entrevista do que deixá-los ao acaso.

A proposta terapêutica

Mais do que uma técnica específica, a TFC é um molde terapêutico. É uma macroformulação que permite olhar a situação de forma global. A TFC é visionária no sentido de que estabelece para si objetivos elevados, sabendo ao mesmo tempo que esses objetivos talvez não possam ser atingidos em sua totalidade. Considera-se, no entanto, que é preciso ao menos tentar. Para isso, utiliza-se uma metáfora simples: uma nave que vai decolar precisa de vários elementos – uma pista desimpedida, uma carta de navegação precisa, um motor potente, uma fonte de energia –, e é preciso também que o comando da nave tenha boas competências e vontade de navegar. Embora pareça muito simples, essa metáfora torna-se bem complexa uma vez transposta para o plano terapêutico, como era de se esperar. O que ela tem de bom é que permite não se desligar da visão geral da situação. Muitas vezes, os terapeutas se envolvem tão profundamente em situações particulares que se corre o risco de perder de vista o fato de que existem princípios elementares e fundamentais que as pessoas buscam. Por princípio, por exemplo, as pessoas buscam ser felizes. Ninguém vem à terapia apenas para resolver um problema. O problema é formulado dessa maneira porque adquirimos uma forma negativa de olhar a profissão. As pessoas não vão ao médico para que lhes curem uma doença: vão para que lhes retirem um obstáculo que as impede, ou pode impedi-las, de ter uma vida longa, feliz e de grande qualidade. O objetivo final não é retirar os obstáculos, mas a satisfação e a realização pessoal e/ou familiar.

O modelo da terapia familiar comunitária propõe uma plataforma para a ação. Apresentada de maneira simples, quase simplista, essa abordagem é uma combinação de terapia familiar, de intervenções de organização comunitária, de gestão de casos e de programas de liderança. Essa abordagem amplia também o foco da teoria dos sistemas, fazendo-a passar de níveis mono ou bidimensionais a uma perspectiva global e multidimensional.

Uma terapia orientada para a ação e o desenvolvimento

A TFC define a terapia como a facilitação de um processo de autodesenvolvimento pessoal e familiar. Postula-se que uma parte da solução de qualquer problema que se apresente reside no desenvolvimento, pessoal ou familiar, e no desenvolvimento de novas iniciativas, competências ou recursos. A TFC baseia-se no princípio de que todo ser humano deseja viver uma vida de grande qualidade e sempre tem objetivos para o futuro. Em alguns casos, pode-se descobrir que as pessoas tiveram objetivos outrora, mas que renunciaram a eles e se resignaram a não mais persegui-los, julgando-os impossíveis ou pouco realistas. Postula-se que cada pessoa tem motivações de realização. A TFC busca esclarecer ou redefinir esses objetivos. No processo que consiste em motivar a pessoa atendida a lutar por esses objetivos, encontram-se certas dificuldades específicas com as quais é preciso lidar terapeuticamente. Pode ser, por exemplo, que uma mulher de quarenta anos tenha atravessado várias experiências negativas em suas relações de casal. No estilo da TFC, não se pergunta primeiro: “Suas relações de casal correram mal?”, mas: “Qual foi o seu ideal de relação de casal?”. Trabalha-se colocando sempre em primeiro plano a visão, as aspirações e o desejo. Deixa-se que as frustrações ou os outros sentimentos negativos apareçam no curso do processo. Chegar aos sentimentos negativos pelo caminho positivo apresenta grandes vantagens clínicas. Por ser uma terapia de ação e de movimento, a TFC trabalha os aspectos negativos na seguinte perspectiva: “precisamos retirar esses obstáculos mentais para poder obter o que queremos”. Não se aceita tão facilmente um não como resposta.

A experiência clínica nos indica que a grande maioria das pessoas atendidas aprecia essa postura otimista, mesmo que às vezes se oponha vivamente a ela. Logicamente, essa atitude é recebida com desconfiança, às vezes com raiva, e outras vezes com uma ponta de cinismo. Em outros casos, no entusiasmo do momento, algumas pessoas podem reagir com uma atitude falsamente triunfalista. O que se busca é uma espécie de otimismo comedido. Supõe-se que todas as pessoas que vemos têm uma versão pessoal da forma como funcionaram diante de seus objetivos pessoais. Isso não é novo: no passado, sempre tentamos lutar conosco para nos impulsionar adiante. A revisão desses antecedentes vai nos dar a linha a seguir para ganhar eficácia em nossas intervenções.

Três tipos de vínculos

Na busca de paradigmas e de metodologias de ação mais eficazes e menos rígidos, torna-se necessário revisitar o conceito de vínculo terapêutico. De um ponto de vista conceitual ampliado, a relação terapêutica entre terapeuta e família pode ser vista como um vínculo de primeira ordem. Nesse tipo de conexão, a “arte” terapêutica é exercida nos limites do consultório. Ali se pratica o que poderíamos chamar de intervenções “transparentes” ou “neutras”. Desenvolvida por Salvador Minuchin, a introdução do conceito técnico de joining (juntar-se a) no campo da terapia da família constituiu um verdadeiro avanço em sua época. Por meio desse conceito, Salvador Minuchin deu aos terapeutas uma maneira articulada de operar e de fazer a teoria dos sistemas passar do plano conceitual à realidade da prática clínica, estabelecendo além disso o método que permite desenvolver uma relação terapêutica com a família inteira. Segundo Minuchin, assim como a antropologia deve primeiro juntar-se a uma nova cultura antes de poder estudá-la, também a terapia de família deve vincular-se e integrar-se como parte do sistema antes de poder intervir.

Esse joining é praticado como uma arte na qual a pessoa terapeuta “dança” com a família inteira, juntando-se a cada membro ao mesmo tempo que ao sistema como um todo.

No entanto, um quarto de século mais tarde, a realidade nos ensina que os vínculos que se estabelecem apenas nos consultórios e com os membros que vêm às sessões não bastam para ajudar eficazmente as famílias que vivem em situações e ambientes complicados. Evidentemente, o estabelecimento de outros tipos de conexão com outros sistemas é absolutamente indispensável. A terapia familiar comunitária propõe estender o conceito a outros planos. Quando se trabalha com uma concepção ampliada do sistema familiar, indo além da família nuclear e da família ampliada, dois outros tipos de vínculo (joinings) são necessários para poder relacionar-se com os sistemas de prestação de serviços e com a comunidade em geral. A terapia familiar comunitária intervém em um território mais amplo, onde se estabelecem uma análise e um plano de intervenção no ambiente imediato da família.

Os vínculos de segunda ordem

Os vínculos de segunda ordem permitem que terapeutas com competência cultural se aproximem mais das realidades vividas pelas famílias. Nesse tipo de encontro, as famílias são encontradas em seu domicílio, firmam-se alianças com outros serviços da comunidade, formando assim uma equipe comunitária em benefício da família. Aqui a pessoa terapeuta estabelece um vínculo com o sistema familiar ampliado das pessoas atendidas. No vínculo de segunda ordem, espera-se da pessoa terapeuta que estabeleça uma relação efetiva com as agências, instituições, centros, programas, redes familiares ou sociais em geral que sejam necessários para produzir uma mudança real na vida da pessoa atendida e/ou de sua família. Como parte rotineira da intervenção, a pessoa terapeuta constitui uma equipe de trabalho que a ajuda no processo. Baseando-se nas necessidades da pessoa atendida e na disponibilidade de outros sistemas, constrói com essa pessoa (a família) uma rede de apoio específica que podemos chamar de equipe de terapia familiar comunitária.

A terceira ordem

O vínculo de terceira ordem se estabelece com a comunidade em geral. Aqui, a pessoa terapeuta não se limita a prestar serviços: é integrante ativa da comunidade. Esse tipo de perfil, que se poderia chamar de “terapeuta cidadão”, expressa suas opiniões não somente em um nível intelectual afastado do barulho do mundo, mas a partir do território, nas reuniões de bairro, advogando assim para obter soluções coletivas para os problemas que cercam simultaneamente muitas das pessoas atendidas. Espera-se dessa prática que ajude as pessoas atendidas a estabelecer vínculos com sua comunidade imediata. Para isso, torna-se necessário propor alguma forma de formação em liderança, pois não se pode esperar que pessoas tradicionalmente mantidas à margem dos processos de decisão passem, de um dia para o outro, a se expressar publicamente e a agir na luta por seus direitos fundamentais.

Desenvolvimento individual e familiar: a mudança permanente

O desenvolvimento individual e/ou familiar segue um curso histórico ao mesmo tempo que atravessa quatro movimentos ao longo do tempo, a saber:

1

Evolução

Por meio do desenvolvimento normal.

2

Mutação

Devida aos processos específicos da vida.

3

Sublimação/espiritualização

Devida à exposição ao ambiente sociocultural próximo.

4

Transformação

Resultante dos processos de adaptação e de aculturação.

Os comportamentos individuais e familiares devem ser compreendidos como o resultado de níveis múltiplos de combinações e de interações entre esses quatro processos, que são além disso, por si mesmos, perpetuamente mutáveis. Desse ponto de vista, os comportamentos são “posturas circunstanciais” produzidas pela interação entre realidades internas e externas. Ao atravessar permanentemente esses quatro movimentos, os indivíduos e as famílias adotam as “posturas” mais adaptadas a cada momento específico. Segundo essa perspectiva, não existem personalidades nem comportamentos estáticos. Comportamentos que parecem únicos, estilos de funcionamento que parecem intrínsecos a certos indivíduos ou a certas famílias estão sempre em constante transformação, produtos da interação e da reação constantes às circunstâncias sistêmicas, históricas ou ambientais.

Com base nessa teoria, postula-se que, se uma intervenção pode modelar ao mesmo tempo o ambiente exterior e o processo interior de adaptação, então ela pode também obter mudanças fundamentais no comportamento individual ou no funcionamento familiar. Essa mudança pode ser mantida e consolidada se as pessoas atendidas se tornarem ao mesmo tempo líderes de seu próprio processo terapêutico.

No interior desse processo normal de adaptação, os mecanismos seguintes são necessários à manutenção de uma boa saúde mental:

um auto-reflexivo objetivo; um processador de infortúnios; um curador de feridas; um sublimador de dores; um pacificador de conflitos; um compensador de vazios; um controlador de impulsos; um facilitador de comunicação; um gerador de soluções; um manipulador de ambiente; um desenvolvedor de recursos; um propulsor de autoestima; um aculturador social; e um gerador de alegrias.

Visto do ponto de vista familiar-sistêmico, compreende-se que em diferentes momentos do ciclo de vida a família ajuda os indivíduos oferecendo-lhes essas funções ou ajudando-os a desenvolver esses mecanismos. Simultaneamente, nas famílias saudáveis, diferentes membros funcionam como líderes em cada um dos domínios mencionados. Nos sistemas altamente funcionais, um mecanismo de complementaridade entra em ação e a ajuda mútua se organiza nessas tarefas adaptativas. Quando esse processo grupal não existe ou está alterado, as sessões de TFC ajudam as famílias a desenvolver um sistema equilibrado de complementaridade. Postula-se que o sucesso familiar se obtém de três maneiras: 1) se o sistema é capaz de ajudar as crianças a desenvolver as competências mencionadas; 2) se ele oferece a seus membros ocasiões de desenvolver liderança; e 3) se a maioria dos membros está disposta a agir para sair-se bem enquanto família.

A avaliação

A TFC avalia a família em sua totalidade, levando em conta não só os aspectos psicológicos da existência humana, mas também as dimensões sociológicas, culturais e adaptativas. Utilizando essa abordagem, a prática pode integrar todos esses fatores de forma holística, e também do ponto de vista do desenvolvimento. Admite-se que a história e as experiências ambientais específicas não apenas modelam certos comportamentos e certos estilos individuais de comunicação, mas fazem nascer além disso uma dimensão (uma estrutura) adaptativa resultante da interação constante entre os indivíduos e o meio. As condições sociológicas, os fatores de estresse, as experiências traumáticas, as variáveis culturais e os valores espirituais influenciam constantemente a psicologia individual e familiar. A dimensão adaptativa resulta da necessidade de aculturar-se ou de superar situações específicas; é a estrutura pessoal ou familiar na qual os terapeutas intervêm.

A dimensão adaptativa

O trabalho sobre a dimensão adaptativa traz consigo um novo estilo de intervenção clínica. Trata-se de buscar que cada pessoa tome em suas mãos o próprio destino. Para consegui-lo, é indispensável que tome em suas mãos os próprios processos de adaptação. Outros tipos de estratégia terapêutica colocam a pessoa atendida em uma posição passiva: são técnicas que lhe são aplicadas na esperança de que “a técnica” produza resultados sobre as pessoas. Na pior das hipóteses, a pessoa é apenas uma testemunha que espera que a intervenção produza seus efeitos. A TFC trabalha em outro estilo, no qual a pessoa atendida tem o papel principal. Trabalha-se apoiando-se nas competências que já existem. A intervenção se fixa mais nas competências do que nas deficiências. Revisitam-se as experiências passadas em que a família teve sucesso usando seus próprios recursos, e constrói-se sobre essa base. Opera-se reforçando os mecanismos de adaptação, expondo as pessoas a experiências positivas complementares.

A pessoa terapeuta se alia à dimensão adaptativa da pessoa atendida, operando primeiro a partir de dentro e depois se retirando pouco a pouco. Busca-se engendrar constantemente capacidade e autonomia, tentando sempre prevenir a produção de dependência.

As variáveis ligadas aos problemas emocionais

Apresenta-se a seguir a maneira como a TFC conceitualiza a saúde mental ou os transtornos emocionais. As variáveis mencionadas estão escritas em forma negativa. Se forem escritas em forma positiva, compreende-se então que se trata dos aspectos necessários a uma boa saúde mental.

  • uma versão autobiográfica penosa;
  • planos de vida inadequados ou extremamente complicados;
  • uma falha da carta de navegação;
  • processos incompletos de educação ou de enriquecimento;
  • uma supersaturação ou deficiências dos mecanismos de adaptação;
  • ambientes sociais extremamente tóxicos;
  • balanços negativos entre necessidades e recursos;
  • deficiências das fontes de energia ou dos sistemas de retroalimentação;
  • uma posição existencialmente desconfortável na constelação social imediata;
  • um aprisionamento passado e/ou presente em contingências alienantes;
  • carências na experiência da aceitação e/ou do amor;
  • variáveis físicas que comprometem a integridade e/ou a disposição do sistema nervoso central.

Esses fatores não estão classificados por ordem de importância e, em sua maior parte, são descritos de forma metafórica. Esse tipo de apresentação propõe de fato uma maneira de construir a história. Espera-se dessa formulação que tenha três componentes de base:

1. que ela não seja culpabilizante; 2. que possa ser bem compreendida e assimilada; e 3. que convide à ação. Dado que a terapia familiar comunitária busca sempre constituir uma equipe de trabalho com a pessoa atendida, o desenvolvimento de uma linguagem comum é indispensável.

Sem negligenciar a importância dos fatores biológicos (fator 12), a TFC explora em cada situação os onze outros fatores. Se forem constatadas dificuldades em um ou vários deles, estabelece-se um plano de intervenção. Por exemplo, ao trabalhar com pessoas de baixa renda em ambientes urbanos, é muito frequente constatar que uma parte do problema se deve ao fato de as pessoas atendidas estarem constantemente expostas ao fator 6 (ambiente social tóxico). Se essa for a constatação, então uma parte da intervenção deve orientar-se para a eliminação ou a redução desse fator negativo.

As estratégias terapêuticas

A terapia familiar comunitária trabalha em três níveis simultaneamente: 1. a terapia individual e/ou familiar; 2. o acesso aos recursos comunitários e sua utilização; 3. o desenvolvimento de lideranças. Os objetivos gerais de cada nível de intervenção são apresentados de forma resumida no quadro seguinte:

I

Terapia individual e/ou familiar (vínculo de primeira ordem)

Reedição da autobiografia; reformulação das descrições; busca de paradigmas saudáveis; descoberta e utilização das competências.

II

Acesso aos recursos comunitários e utilização destes (vínculo de segunda ordem)

Serviços de gestão de casos; ativação da rede social nuclear; utilização dos recursos disponíveis; acesso a oportunidades de mobilidade social.

III

Desenvolvimento de lideranças (vínculo de terceira ordem)

Desenvolvimento de competências de liderança; reposicionar-se no contexto social; fazer valer seus direitos de cidadão; ajudar a si mesmo ajudando outras pessoas.

As intervenções de primeira ordem

Elas compreendem a aplicação de técnicas tradicionais e não tradicionais de terapia individual, grupal ou familiar. Nesse domínio, a TFC não edita prescrições sobre o método de intervenção a ser empregado: cada terapeuta é livre para utilizar as estratégias ou as técnicas que preferir. Em contrapartida, postula-se que, seja qual for o método utilizado, o objetivo fundamental dessa intervenção é criar paradigmas saudáveis que facilitem a ação e convidem a ela. É um domínio no qual muitos terapeutas trabalharam ao longo dos anos. Muitas técnicas se mostraram eficazes para produzir transformações no que se chama de sistemas de crenças, paradigmas, mitos, imagens, valores, temas ou descrições familiares. Essas intervenções de primeira ordem são necessárias para retirar os obstáculos conceituais que entravam o desenvolvimento da autoestima ou da motivação para agir. Em muitos casos, vemos famílias urbanas cujo estado mental se caracteriza por uma combinação de tristeza pelo que se passou antes, de ansiedade pelo que está acontecendo e de paranoia pelo que pode acontecer. Da mesma forma, conceitualizações inadequadas de acontecimentos históricos ou de circunstâncias ambientais certamente paralisam as famílias ou tendem a produzir conflitos suplementares. As intervenções que facilitam o desenvolvimento de descrições mais saudáveis e mais funcionais estão sempre na ordem do dia. Por exemplo, uma pessoa que passou por vários problemas e traumatismos em sua vida pode ver a si mesma como uma “vítima”. Mesmo que tenha realmente sido vitimizada, a percepção de seu ser global como vítima tem certamente consequências sobre sua forma de funcionar social ou profissionalmente. Se redefinirmos a pessoa como uma “sobrevivente”, essa descrição nos fala das competências individuais ou dos recursos que ajudaram essa pessoa a sobreviver. A primeira descrição convida à passividade e ao desamparo; a segunda convida à ação e à realização.

É necessário revisitar os temas ligados aos lutos não resolvidos, às perdas, à vergonha, aos sofrimentos, aos rancores, às frustrações ou aos sentimentos de desespero. Em todos esses casos, é preciso desenvolver novas descrições que não só ajudem a tratar as situações passadas, mas que convidem além disso a seguir adiante.

Uma das técnicas utilizadas no repertório da TFC é o que se chama de videoterapia. Essa técnica consiste em gravar toda a história de uma pessoa em uma fita de vídeo. Espera-se que toda a história seja contada de forma resumida em quarenta e cinco ou no máximo sessenta minutos. A câmera enquadra unicamente a pessoa atendida. Atrás da câmera, a pessoa terapeuta conduz a entrevista fazendo perguntas sequenciais e precisas, à maneira de uma reportagem que filma a crônica de uma vida. A entrevista é feita depois de duas sessões ou mais, quando já se conhece um pouco a pessoa. Nas sessões seguintes, as duas partes reveem a fita a fim de reeditar a biografia. Em seguida, se necessário, grava-se outro vídeo com uma versão melhor da história. Ver-se contando a própria história em um vídeo revelou-se de grande impacto para as pessoas atendidas: isso lhes dá o sentimento de ter domínio sobre a própria vida. Se não se pode mudar os acontecimentos do passado, pode-se ao menos controlar a maneira como a história é interpretada. Pode-se além disso aumentar o autoconhecimento e planejar melhor o futuro.

As intervenções de segunda ordem

No vínculo de segunda ordem, espera-se da pessoa terapeuta que estabeleça uma relação efetiva com as agências, instituições, centros, programas ou redes familiares ou sociais em geral, necessários para produzir uma mudança real na vida da pessoa atendida e/ou de sua família. Como parte rotineira da intervenção, a pessoa terapeuta constitui uma equipe de trabalho que a ajuda no processo. Baseando-se nas necessidades da pessoa atendida e na disponibilidade de outros sistemas, constrói com essa pessoa (a família) uma rede de apoio específica que podemos chamar de equipe de terapia familiar comunitária.

Mesmo que cada nova situação requeira uma equipe particular, pode ser que alguns membros sejam constantes. Espera-se que, ao longo do tempo, a pessoa terapeuta tenha estabelecido relações com outros serviços da comunidade; em outras palavras, que dedique tempo a constituir sua própria rede de apoio. Sejam a polícia, os serviços de liberdade condicional, o serviço social, a assistência social, a saúde ou outros serviços, é necessário que constitua sua própria base. Nesse grupo de “parcerias”, escolhe os apoios de que precisa e lhes acrescenta os membros do sistema familiar ampliado dispostos a ajudar.

Por exemplo, no caso de Jennifer, o terapeuta reconheceu que tinha duas opções para ajudar a menina: ou conseguia que a gangue deixasse o bairro, o que parecia um empreendimento insensato, ou advogava para tentar obter uma moradia mais segura para a família. Optou pela segunda e iniciou um processo de ação associando-se a uma funcionária do serviço de habitação que, impressionada com o relato que o terapeuta lhe fez da situação da menina, decidiu tratar o caso como uma urgência. Nesse meio-tempo, só com a ideia de que o problema ia se resolver, a menina já havia recomeçado a ir à escola. Quatro semanas depois, a família estava instalada em um apartamento melhor, em uma rua mais tranquila. Quando o terapeuta foi visitar a família em sua nova moradia, a menina se aproximou dele afetuosamente e o agradeceu por sua intervenção. Em uma entrevista posterior no consultório, concluiu-se por encerrar o acompanhamento, com a possibilidade de voltar a consultar no futuro se necessário.

A montagem da equipe de TFC

Examinemos o conceito de trabalho em equipe a partir de um exemplo.

O senhor Brown e seu filho foram levados ao atendimento pela senhora Porter, agente de uma agência comunitária que presta serviços em uma escola local. Johnatan, uma criança de onze anos, havia sido mais uma vez suspenso da escola, onde cursa o quarto ano, por ter brigado em sala de aula. Essa história já se repetiu tantas vezes ao longo dos últimos cinco anos que a família e a equipe escolar estão muito desnorteadas e não sabem o que fazer.

Durante a sessão, o terapeuta se dá conta de que precisa da senhora Porter como membro da equipe. Além de atuar em várias escolas, entre elas a de Johnatan, a senhora Porter mora no mesmo bairro que a família: ela pode portanto ser potencialmente muito útil. Antes da sessão, o terapeuta já havia convidado Teresa, uma estudante estagiária em terapia de família que atua no centro de desenvolvimento para mulheres da cidade, no mesmo prédio onde a sessão acontece. Enquanto a senhora Porter espera lá fora, a sessão transcorre normalmente. Ficamos sabendo que a mãe se sente muito frustrada. Johnatan explica que o provocam com frequência para levá-lo a brigar e que ele “tem” de responder. Parece que o menino está preso em um sistema, na escola, no qual as outras crianças se divertem fazendo-o brigar regularmente. Mas a situação se agrava, pois o atendimento ocorre no mês de outubro, apenas seis semanas depois do início do ano letivo, e a criança já foi suspensa por um total de dez dias. Se fosse suspenso por mais cinco dias, perderia imediatamente o ano. Essa realidade faz com que haja um verdadeiro sentimento de urgência no atendimento. É por essa razão que o terapeuta se dispôs a montar uma equipe de trabalho que começaria a funcionar imediatamente. Além do recrutamento de Teresa e da senhora Porter, a criança foi posta em contato com Kevin, um agente do serviço municipal de lazer, a quem se pediu que passasse algumas horas com ele para lhe mostrar as possibilidades de se divertir de que dispunha em seu próprio bairro.

Ao fim do dia, a família já contava com quatro novos membros da rede, que iriam servir de recursos suplementares. Teresa ficou encarregada de trabalhar com a senhora Brown, de estabelecer uma aliança com ela e de ajudá-la a lidar com a situação; a senhora Porter recebeu a missão de manter a supervisão geral do caso, cuidando para que a família comparecesse aos atendimentos necessários; Kevin ficou encarregado de ligar Johnatan a um centro de jovens onde ele poderia brincar e conviver com outras crianças de sua idade de uma maneira mais adequada.

Ao término dessa intervenção inicial, se o problema não estava resolvido, a senhora Brown ao menos parecia mais contente. Ela não estava mais sozinha: dispunha de uma equipe de trabalho que iria ajudá-la com suas dificuldades.

A equação é simples. Para resolver situações graves, são necessários sistemas de alta tensão, mais fortes do que os problemas. Trata-se de equilibrar as cargas. Nesse caso, a amplitude do problema ultrapassava as forças da senhora Brown, uma mulher abandonada pelo marido, que lutava com quatro filhos e um trabalho em tempo integral. Era preciso portanto contrabalançar as cargas produzindo mais tensão, mais energia positiva na família.

A TFC busca igualmente dar mais poder à prática terapêutica. É importante levar em conta a necessidade de romper a solidão de quem atende em sua sala ou em seu consultório, diante de situações difíceis. Qualquer interpretação ou qualquer recomendação feita uma vez por semana não bastará para mudar situações difíceis. O trabalho fica mais leve se montarmos equipes de trabalho, que devem ser conduzidas pela própria pessoa atendida.

A família verdadeira, ou rede nuclear

Desde a mais tenra idade, e como parte do processo natural de socialização, um novo “sistema familiar” começa a fazer parte da vida de todo indivíduo. Isso é mais palpável na vida adulta, quando se chega à realidade de que não se pode mais esperar – e às vezes não se deseja mais – o apoio dos membros da família de origem. Na prática, cada pessoa desenvolve o que podemos chamar de “família do adulto” ou “rede nuclear”. As relações com os membros dessa nova “família” podem reproduzir os estilos relacionais anteriores, ou revelar-se bem mais potentes e mais influentes do que aquelas que eram mantidas antes no lar de origem. Às vezes, essas relações preenchem vazios que existiram durante longos anos.

Essas redes nucleares, ou “famílias verdadeiras”, cumprem as seguintes funções: facilitar e ajudar a satisfazer as necessidades básicas; oferecer um apoio emocional; oferecer um círculo social amigável e enriquecedor; oferecer uma companhia de qualidade para o prazer e o divertimento; facilitar ocasiões de realização de si; e proporcionar experiências de afeto e/ou de amor.

Na busca do desenvolvimento do poder da família, o trabalho com a rede nuclear pode ser uma das ferramentas mais úteis de que dispomos. Muito já se escreveu sobre o poder do amor ou da amizade. Frequentemente, as amizades se tornam as relações mais significativas e mais úteis que as pessoas têm. No caso de comunidades de pessoas de baixa renda, as relações entre as equipes profissionais e as pessoas atendidas têm um impacto maior, em particular para quem vive em condições muito precárias. Por exemplo, uma enfermeira de um posto de saúde, um padre ou um pastor podem facilmente tornar-se “membros da família adulta” de uma dada pessoa atendida. A TFC intervém não só ajudando as pessoas a construir ou a desenvolver sua rede nuclear, mas também buscando ampliar sua utilização e o acesso a ela.

As intervenções de terceira ordem

Ao analisar as vinte e cinco situações da pesquisa mencionada acima, constatou-se que quase todas as pessoas que haviam conseguido mudar sua vida de uma maneira ou de outra tinham desenvolvido posições de liderança em sua comunidade. Essas situações mostram que poderia existir uma correlação direta entre o grau de domínio exercido sobre o ambiente imediato e a capacidade de controlar as próprias emoções ou de resolver problemas pessoais ou familiares. Essa constatação pode explicar por que é tão difícil motivar certas pessoas atendidas a seguir as recomendações terapêuticas, ou mesmo simplesmente a vir aos atendimentos. Parece que as pessoas se sentem tão “vencidas” pelas realidades de seu ambiente que já perderam a esperança de que as coisas possam realmente mudar. Elas então não têm nem a energia nem a vontade necessárias para tentar melhorar sua vida. No entanto, o exercício do altruísmo e da compaixão pode constituir uma força interna que engendra a motivação para fazer alguma coisa. De certa maneira, é mais fácil ajudar os outros do que ajudar a si mesmo. Quando uma pessoa passa a ajudar alguém, sua posição social muda automaticamente: nesse momento, ela deixa de ser alguém disfuncional para tornar-se alguém que estende a mão a outros.

Como se viu, são necessários programas nos quais as pessoas se formem oficialmente como líderes, aprendendo assim a produzir soluções para os problemas da comunidade. O programa dessas formações deve compreender: a comunicação, as relações interpessoais, a fala em público, o desenvolvimento de programas, a gestão de projetos, os direitos civis, a autogestão eficaz, a organização de grupos, a condução e a coordenação de reuniões, e outros temas semelhantes.

Esses programas de liderança, que de fato existem em muitas comunidades, foram desenvolvidos para meios profissionais ou membros das classes médias e altas, com acesso exclusivo a eles. A TFC recomenda que tais oportunidades sejam desenvolvidas para outros segmentos da população. Trabalhando em colaboração com diversas pessoas, agências ou instituições, os terapeutas podem contribuir para criar essas ocasiões em sua comunidade. Por exemplo, em Hartford, tivemos a oportunidade de criar o Instituto de Liderança para Pais. Esse instituto tornou-se hoje um programa de sucesso, que já foi transposto para treze cidades do estado de Connecticut e para dez outros estados do país. O instituto oferece uma formação de seis a oito meses, em sessões de quatro horas por semana. Em turmas de cerca de vinte pessoas, os pais aprendem as competências mencionadas acima em um clima caloroso e harmonioso. Só no Connecticut, mais de quinhentos pais já se formaram. O que é impressionante não é apenas que boa parte dessas pessoas tenha assumido posições ativas de líderes em sua comunidade, mas que muitas outras tenham relatado uma melhora impressionante de seu estado emocional. Parece que esse tipo de formação tem efeitos positivos sobre a saúde mental das pessoas, mesmo sem acesso a serviços terapêuticos.

Reflexões e recomendações finais

Como foi demonstrado em numerosos casos, a terapia familiar comunitária é um estilo de intervenção que produz resultados positivos com pessoas e situações muito diversas. Importa no entanto sublinhar que o exercício efetivo dessa terapia não requer apenas uma formação teórica e prática: requer além disso uma mudança de atitude em relação ao campo da saúde mental e em relação à forma de se relacionar com as pessoas atendidas em geral. Segundo a TFC, elas são vistas como parte essencial da equipe de trabalho e como protagonistas de sua própria vida. É também necessário reconhecer os limites do alcance de nossas intervenções tradicionais e a necessidade de aliar-se a outros para obter bons resultados.

Uma boa terapia familiar comunitária se faz lado a lado com as pessoas atendidas, sua família e sua comunidade. Da mesma forma, quem encarna o “terapeuta cidadão”, a partir de sua própria esquina e de diversas maneiras, torna-se uma liderança comunitária: alguém que acredita firmemente no potencial do ser humano e que está sempre disposto a lutar para obter um mundo melhor para todo mundo.

Quem é Ramón Rojano

Ramón Rojano, MD, MPH, é atualmente diretor do Departamento de Serviços Humanos da cidade de Hartford (Connecticut). É além disso professor de terapia de família na Universidade Central de Connecticut, professor honorário do programa de doutorado em psicologia clínica da Universidade de Hartford e professor visitante da Universidad del Norte, na Colômbia.

Nota do original

Este artigo foi publicado no n.º 59, novembro-fevereiro de 1999/2000, de Perspectivas Sistémicas.

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Este artigo é a tradução para o português de “Terapia familiar comunitaria”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 59, novembre 1999-février 2000). Traduzido e republicado com a autorização da revista.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Rojano, R. (2022). A terapia familiar comunitária (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-terapia-familiar-comunitaria (Obra original publicada em 1999 em Perspectivas Sistémicas, n° 59, novembre 1999-février 2000; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/28/terapia-familiar-comunitaria/)

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