Journal of Child and Family Studies · Família
O que vivem as crianças que acompanham a mãe num abrigo para vítimas de violência doméstica? Linda Arnell, Sara Thunberg e Åsa Källström ouviram 12 crianças de 7 a 17 anos na Suécia. A segurança existe, mas sem brinquedos, passeios, escola nem amizades o refúgio logo vira um “depósito seguro”.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A experiência de crianças em abrigos para vítimas de violência doméstica na Suécia, de Linda Arnell, Sara Thunberg e Åsa Källström, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2026), doi: 10.1007/s10826-025-03232-7, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; os trechos de entrevista com várias vozes são apresentados em forma de diálogo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Embora ficar num abrigo para vítimas de violência doméstica por um período possa ser necessário para garantir a segurança das crianças, isso muitas vezes tem um custo; por isso, os abrigos precisam ser adaptados para atender às necessidades das crianças.
Linda Arnell, Sara Thunberg e Åsa Källström
Resumo
O conhecimento sobre as experiências de crianças que ficam em abrigos para vítimas de violência doméstica (VD), e sobre sua qualidade de vida enquanto vivem ali, é limitado. Este estudo tem como objetivo examinar como as crianças descrevem a permanência em abrigos para vítimas de VD na Suécia e identificar aspectos importantes dessas experiências, tanto positivos quanto negativos. Usou-se a análise temática para analisar 12 entrevistas com crianças de 7 a 17 anos. Os resultados mostram que o ambiente do abrigo, as atividades e as relações sociais são importantes para a qualidade de vida dessas crianças e que, quando faltam, há o risco de que se sintam entediadas e isoladas. Assim, embora ficar num abrigo para vítimas de VD por um período possa ser necessário para garantir a segurança das crianças, isso muitas vezes tem um custo; por isso, os abrigos precisam ser adaptados para atender às necessidades das crianças.
Palavras-chave: atividades, crianças, abrigos para vítimas de violência doméstica, casas-abrigo, relações sociais
Pontos-chave
Os abrigos para vítimas de violência doméstica (VD), ou casas-abrigo para mulheres, têm papel crucial no atendimento às necessidades de mulheres e crianças submetidas à VD. São frequentemente vistos como lugares seguros que oferecem proteção, e a permanência num abrigo pode melhorar a segurança percebida, a saúde mental e o estresse das mulheres, em geral com poucas desvantagens (Yakubovich et al., 2022). As crianças costumam acompanhar a mãe ao abrigo e, em geral, também viveram violência significativa. Entre as crianças que vivem em abrigos, 80% a 90% testemunharam violência e cerca de 50% foram alvo direto de violência em casa (Fernández-González et al., 2018). Essa violência aumenta o risco de problemas para a criança, desde questões emocionais, como ansiedade, depressão e retraimento social, até dificuldades comportamentais, como violência e outros comportamentos que violam normas (por exemplo, Sternberg et al., 2006; Vu et al., 2016). Esses riscos evidenciam a necessidade de proteger as crianças da VD, e os abrigos podem oferecer essa proteção. Nesse contexto, nosso estudo se concentra nas experiências das crianças que ficam em abrigos para vítimas de VD.
A maioria das crianças valoriza a segurança que um abrigo pode oferecer (Chanmugam, 2011; Øverlien, 2011a; Thunberg et al., 2022). A pesquisa mostrou que, nos últimos anos, as equipes dos abrigos adotaram uma perspectiva centrada na criança, que leva em conta a situação das crianças durante a permanência e as apoia junto com as mães (Côté et al., 2022; Eriksson, 2010). As próprias crianças dizem que a equipe é legal (Øverlien, 2011b). Num estudo com adolescentes que moravam em abrigos, Chanmugam (2011) também constatou que o ambiente relacional e o próprio meio do abrigo, incluindo as outras famílias que ali moravam e o sentimento de camaradagem, eram importantes para esse público jovem.
No entanto, ficar num abrigo também traz desafios para as crianças. Por exemplo, elas muitas vezes vivem a vida no abrigo como passiva e lenta, com regras rígidas, e frequentemente não podem frequentar a escola (Chanmugam, 2011; Øverlien, 2012). As crianças também costumam expressar desagrado com as regras do abrigo, que as restringem, incluindo as regras sobre horário de voltar, hora de dormir e supervisão parental (Chanmugam, 2011). Além disso, Thunberg et al. (2022) constataram em sua revisão que as restrições relativas à segurança podem afetar negativamente outras áreas da vida dessas crianças, como a possibilidade de ir à escola ou de fazer atividades extracurriculares, e as relações sociais. Pinto et al. (2019) também constataram que crianças que viviam em abrigos apresentavam níveis mais altos de sintomas internalizantes e externalizantes do que crianças que viviam em casa com a mãe e o parceiro agressor. Assim, não se pode dar por certo que os abrigos sejam apenas positivos para as crianças.
Além disso, pesquisas como as de Øverlien (2011b) e de Vass e Haj-Yahia (2021) mostraram que as crianças que se mudam para abrigos com a mãe carecem de informação e, por isso, têm dificuldade para entender por que precisaram sair de casa, para onde iam ou o que deviam levar. Elas também se preocupam com o estado emocional da mãe e com as reações emocionais de irmãos e irmãs, bem como com o que pode acontecer quando saírem do abrigo. Tudo isso pode deixá-las confusas e ansiosas. Depois da mudança para um abrigo, as crianças também podem ter dificuldade para manter os vínculos com os pais. Depois da mudança, podem ter poucas oportunidades de viver o vínculo com o pai, enquanto o contexto físico do abrigo permite que crianças e mães se envolvam em práticas emocionais e corporais, como abraços e atividades compartilhadas (Henze-Pedersen, 2021). No entanto, Vass e Haj-Yahia (2023) constataram que a exposição anterior à violência contra a mãe continua a afetar as crianças, mesmo durante a permanência no abrigo. Elas são afetadas não só pela violência em si, mas também pelas consequências das experiências da mãe, que podem influenciar negativamente o bem-estar das crianças e sua relação com a mãe (Vass e Haj-Yahia, 2023).
Além disso, algumas crianças passam por várias permanências em abrigos. Isso pode se dever à exposição prolongada à VD e levar a rupturas nas relações próximas e a interrupções repetidas na frequência à pré-escola e à escola (Selvik e Øverlien, 2015). Assim, numa perspectiva internacional, a experiência de mudar para um abrigo e viver nele pode trazer para as crianças tanto benefícios quanto desafios. É preciso lembrar que, embora proteger as crianças da violência seja importante, sua qualidade de vida depende de múltiplas dimensões, que as próprias crianças destacam. Ainda assim, o conhecimento sobre as experiências das crianças com o ambiente do abrigo e sobre sua qualidade de vida enquanto vivem ali é limitado, e antes do nosso projeto nenhuma pesquisa havia sido feita sobre as experiências das próprias crianças em abrigos para vítimas de VD na Suécia.
Na Suécia, cerca de uma em cada dez crianças vivencia alguma forma de violência física entre os pais em algum momento da infância ou adolescência, e muitas dessas crianças também sofreram alguma forma de maus-tratos diretos por parte de um adulto (Cater et al., 2015; Jernbro et al., 2023). Tanto a exposição à VD quanto sua gravidade aumentam o risco de sintomas de estresse pós-traumático (EPT), ansiedade e depressão, além de autolesão e outros problemas não clínicos (Cater et al., 2015). Embora a maior parte da violência entre os pais na Suécia pareça ser bidirecional, a violência (e os ataques verbais) dos pais contra as mães tende a ser mais grave e associada a pior saúde mental a longo prazo nos filhos (Miller et al., 2014). Por isso, a VD de que tratamos neste artigo diz respeito principalmente à violência dos pais contra as mães. Na Suécia, as crianças expostas à VD costumam ter dificuldade para dar sentido à violência do pai, e às atitudes e comportamentos dele depois, porque partem do pressuposto de que os pais devem ser bons e cuidadosos e de que a violência é ruim e algo de que se deve arrepender (Arnell e Källström, 2023).
Não há estatísticas definitivas sobre quantas crianças ficam em abrigos para vítimas de VD na Suécia, mas, segundo o Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar (2020), cerca de 6.500 adultos e 6.200 crianças ficaram em abrigos em 2020. A permanência média é de cerca de dois meses (Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar, 2020), mas pode variar de poucos dias a alguns anos. Em 2020, 54% dos abrigos suecos eram geridos por organizações sem fins lucrativos, 37% por empresas privadas e 9% por municípios (Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar, 2020). Os tipos de acomodação também variam e incluem apartamentos ou acomodações compartilhadas, em que as famílias em geral têm o próprio quarto, mas dividem cozinha e sala, e não há exigência nem recomendação de programas específicos para crianças. Isso significa que as condições de vida e as experiências de permanência podem diferir entre as crianças, por exemplo quanto às relações sociais no abrigo. Na Suécia, as equipes dos abrigos enfatizam a importância de criar um ambiente seguro, digno e com cara de lar (Ekström e Hvenmark, 2025).
Os direitos das crianças em relação à violência e à permanência em abrigos na Suécia foram fortalecidos de várias maneiras nos últimos anos. Por exemplo, os direitos das crianças expostas à VD como vítimas de crime foram reforçados na Lei de Serviços Sociais em 2007 (cap. 5, § 11, 2001:453), expor uma criança à violência contra seu genitor passou a ser crime em 2021 (Código Penal sueco, 1962:700), e uma nova legislação para fortalecer especificamente os direitos das crianças em abrigos entrou em vigor em 2024 (Lei 2024:79 sobre o acolhimento de crianças em moradia protegida). No entanto, ainda se sabe muito pouco sobre como esse contexto e os esforços recentes para fortalecer os direitos das crianças expostas à VD afetam suas experiências nos abrigos. Por isso, neste estudo buscamos contribuir para a área examinando como as crianças descrevem a permanência em abrigos para vítimas de VD na Suécia e identificando aspectos importantes, positivos e negativos, dessas experiências para sua qualidade de vida. Fizemos isso analisando entrevistas com 12 crianças de 7 a 17 anos por meio da análise temática desenvolvida por Braun e Clarke (2006).
Este estudo faz parte do projeto Artigo 19: o que a moradia protegida significa para crianças vítimas de violência. Baseia-se em 12 entrevistas com crianças que viveram num abrigo para vítimas de VD junto com a mãe, e em alguns casos com irmãos e irmãs, depois de deixar um lar violento. As crianças, quatro meninos e oito meninas, tinham de 7 a 17 anos na época das entrevistas, com mediana de idade de 10,6 anos. A duração da permanência variou de três meses a três anos. Seis crianças tinham ficado em apenas um abrigo, uma criança em dois abrigos, e as outras cinco em três a oito abrigos. Todas as crianças tinham ficado em abrigos com acomodação compartilhada, com cozinha e sala comuns, por exemplo, mas algumas também tinham ficado em abrigos em que a família tinha o próprio apartamento e não dividia espaço com outros adultos ou crianças. Segundo as narrativas das crianças, os abrigos com acomodação compartilhada em geral tinham áreas de brincar reservadas, atividades estruturadas e equipe com foco nas crianças, enquanto o acolhimento em apartamento era menos estruturado e muitas vezes envolvia menos contato com a equipe do abrigo. Oito crianças ainda viviam num abrigo na época da entrevista, e quatro tinham saído havia pouco. As crianças vinham de oito famílias diferentes, e as entrevistas foram feitas individualmente, com foco na narrativa de cada criança e em sua experiência específica de viver num abrigo. Dez crianças tinham fugido da violência cometida pelo pai, e duas, da violência do padrasto.
O recrutamento das crianças começou no fim de 2020, mas foi dificultado pela pandemia de covid-19, que limitou o acesso aos abrigos nesse período. Por isso, as entrevistas foram realizadas entre março de 2022 e junho de 2023, a maioria depois do outono de 2022, quando as últimas restrições foram suspensas na Suécia. Recrutamos as crianças com a ajuda das equipes de abrigos para vítimas de VD na Suécia. A equipe informava as mães sobre o estudo e, se as mães consideravam a participação adequada, elas informavam os filhos e perguntavam se tinham interesse. Havendo interesse, as mães nos contatavam, a nós, a equipe de pesquisa, diretamente ou por meio da equipe do abrigo. Combinávamos em conjunto um horário e um lugar de encontro onde mães e crianças se sentissem em segurança. Ali mesmo, dávamos às mães e às crianças (de forma adequada à idade) informações detalhadas sobre o estudo, oralmente e por escrito, e respondíamos a qualquer dúvida sobre a participação. Se a mãe então consentisse, assinava um termo de consentimento por escrito para a participação do filho ou da filha, ou dos filhos. Depois, perguntava-se a cada criança se queria participar, informando que podia fazer uma pausa a qualquer momento, pular perguntas ou interromper a entrevista se quisesse. Se a criança desse seu assentimento verbal, a entrevista começava.
Realizamos as entrevistas num lugar escolhido pela mãe, onde ela e a criança se sentissem em segurança. As entrevistas se estruturavam em torno das cinco fases pelas quais passam as mulheres e as crianças que vivem em abrigos, conforme formuladas por Rösare (2015): (1) a chegada e o primeiro dia no abrigo, (2) a primeira semana no abrigo, (3) a continuação da permanência no abrigo, (4) o período final no abrigo e (5) o período depois da saída do abrigo. No entanto, usamos esses temas de forma flexível nas entrevistas, deixando as crianças falarem com relativa liberdade, em vez de seguir uma ordem cronológica. Para permitir que as crianças contassem sua própria história, baseamos as entrevistas em perguntas abertas que as convidavam a descrever suas experiências, por exemplo: “Você pode me contar como foi ficar no abrigo?” ou “Você pode descrever como era o abrigo?” As narrativas das crianças eram então completadas com perguntas de aprofundamento, para compreender melhor suas experiências e, às vezes, para confirmar que tínhamos entendido a história. Durante as entrevistas, também convidávamos as crianças a desenhar, se quisessem, e oferecíamos café ou limonada e biscoitos. As entrevistas duravam de 25 a 60 minutos, aproximadamente, dependendo do quanto a criança queria falar. Em geral, com adolescentes, a entrevista durava mais.
As entrevistas foram analisadas tomando como referencial e guia as seis fases da análise temática de Braun e Clarke (2006; ver também Braun e Clarke, 2013, 2022). As seis etapas são: (1) familiarizar-se com os dados, (2) gerar códigos iniciais, (3) buscar temas, (4) revisar os temas, (5) definir e nomear os temas e (6) produzir o relatório. Essas fases podem ser entendidas como um processo, com idas e vindas entre as etapas, e foi assim também que conduzimos esta análise. Mais especificamente, começamos o processo de análise enquanto a primeira e a terceira pessoas que assinam alternavam a condução das entrevistas e sua transcrição (isto é, quem não havia conduzido a entrevista a transcrevia), para se familiarizar com os dados. Depois, as três pessoas que assinam se aprofundaram nos dados lendo e relendo as transcrições para identificar códigos iniciais e discutindo possíveis temas que representassem bem os dados. Como o objetivo do estudo era explorar as experiências das crianças no abrigo, deixamos de lado as partes das entrevistas sobre a fuga da violência e sobre o período posterior à mudança do abrigo para uma moradia própria. Em seguida, a primeira pessoa que assina organizou os códigos num esquema de codificação compartilhado, com referência a cada criança. Depois, as três pessoas que assinam revisaram e discutiram os temas e sua correspondência com os códigos até chegarem a um acordo de que correspondiam ao conteúdo das narrativas.
Revisamos e definimos os temas, os subtemas e seus nomes em discussões conjuntas. Por fim, na sexta etapa, a primeira pessoa que assina redigiu o relatório dos resultados, apresentado a seguir, que descreve as narrativas das crianças sobre suas experiências em abrigos para vítimas de VD. Usamos trechos para ilustrar os resultados, e a tradução do sueco para o inglês foi feita pela própria equipe; depois, os trechos foram revisados por uma pessoa revisora falante nativa de inglês, que também teve acesso aos trechos originais para comparação, com o objetivo de tornar a tradução o mais precisa possível.
Obtivemos aprovação ética da Autoridade Sueca de Revisão Ética (Dnr. 2020:04561, com alterações Dnr. 2021-03242, 2021-06928-02). Como o projeto inclui crianças com experiências de violência dentro da família, muitas delas vivendo com identidade protegida, tivemos de lidar com muitas questões éticas. A sensibilidade do projeto influenciou todo o processo, do planejamento inicial ao recrutamento, à coleta e ao tratamento dos dados e à redação deste manuscrito. As três pessoas que assinam já atuaram no apoio a vítimas, uma como voluntária de apoio a vítimas de crimes, outra na equipe de um abrigo para vítimas de VD e a terceira como membro do conselho de outro abrigo, mas nenhuma delas ficou num abrigo, nem na infância nem na vida adulta. Ao longo do estudo, nos beneficiamos de nosso trabalho anterior no apoio a vítimas e de nossas pesquisas anteriores com jovens vítimas de crimes. Para garantir que os achados permanecessem ancorados nas experiências vividas pelas crianças, e não em nossas próprias preconcepções, fizemos um esforço consciente de focar nas descrições e nos significados trazidos por quem participou, tanto durante as entrevistas quanto na análise.
Durante as entrevistas, pelo bem-estar das crianças, demos atenção especial às suas expressões verbais e não verbais. As mães e as crianças receberam informações por escrito sobre onde buscar ajuda e apoio. As crianças também tiveram a opção de ter uma pessoa “de confiança” com elas durante a entrevista, e três crianças escolheram a presença da mãe. Além disso, as equipes dos abrigos que tinham colaborado no recrutamento também ajudaram a atender às necessidades de apoio e segurança das mães e das crianças. Para proteger a identidade das mães e das crianças, usamos pseudônimos na apresentação dos resultados a seguir. Também retiramos detalhes específicos, como nomes de lugares e de organizações, para proteger a identidade de quem participou.
Durante o processo de codificação, três temas principais surgiram das descrições das crianças sobre a permanência num abrigo para vítimas de VD: ambiente do abrigo, atividades e relações sociais. As crianças descreveram a vida no abrigo em termos tanto positivos quanto negativos. Disseram que o ambiente do abrigo, as atividades e as relações sociais eram importantes para sua qualidade de vida e que, quando faltavam, corriam o risco de se sentir entediadas e isoladas. As crianças que tinham vivido em mais de um abrigo tendiam a descrever cada abrigo de maneira bastante diferente, tanto quanto ao ambiente quanto às condições e ao número de atividades e de relações sociais. Apresentamos a seguir os três temas separadamente, buscando iluminar os aspectos positivos e negativos das permanências em abrigos tal como descritos pelas crianças (Tabela 1).
Tabela 1 — Descrição dos temas derivados da análise
Para cada tema e subtema: exemplos de códigos.
As entrevistas mostram que as crianças destacavam em suas narrativas a segurança e as condições básicas, como um ambiente limpo e higiênico, mas também falavam de aspectos negativos que arriscavam criar uma sensação de isolamento. Quanto à segurança, todas as crianças disseram ter vivido e valorizado a segurança do abrigo. Falavam da segurança em relação à proteção, a se preocupar menos e a viver num lugar livre da violência que tinham vivido em casa. Por exemplo, Mattias, um menino de nove anos, expressa: “Eu estava bem naquela época [antes de ir para o abrigo], mas me sinto muito melhor aqui […] É muito mais seguro e melhor, e a gente pode ficar com a equipe.” Outro exemplo, que mostra como as crianças falavam do seu bem-estar em relação à segurança, vem de Sebastian, um menino de 17 anos: “É bom chegar num ambiente assim, eu, eu tive meu próprio quarto, então era mais tipo eu podia ficar sozinho, longe de tudo, então foi bom.”
Esses exemplos das narrativas de Mattias e Sebastian ilustram aspectos positivos de estar num lugar seguro, comuns a todas as crianças, qualquer que fosse a idade, o fato de o agressor ser o pai ou o padrasto, ou o número de abrigos em que tinham vivido. Embora a segurança possa ser entendida como uma condição básica para as crianças no abrigo, em alguns casos as crianças também falavam especificamente das condições básicas em relação ao padrão e à limpeza dos abrigos. Quando essas condições faltavam, as crianças descreviam o padrão baixo e um ambiente sujo ou pouco higiênico como prejudiciais à permanência, como mostra a narrativa de Lisa.
Era, bom, um quarto pequeno com talvez, tinha três camas, e o chuveiro não estava nada limpo, aí a mãe teve que insistir durante dias que a gente não queria ficar no quarto e que a gente podia trocar de quarto porque estava tão, bom, sujo que a gente não queria tomar banho. Eu não conseguia tomar banho porque a gente estava acostumada com tudo limpo e tal, então a gente ficou vários dias sem tomar banho. (Lisa, menina, 15 anos)
Como ilustram os comentários de Lisa, as narrativas das crianças sobre um ambiente limpo e higiênico podem ser entendidas como a descrição de condições básicas para viver num abrigo. Além disso, as crianças destacavam o padrão dos quartos, os móveis, os brinquedos e as áreas de brincar como condições básicas importantes para a vida no abrigo. Quando descritas em termos positivos, como espaços limpos, um quarto grande o bastante para toda a família e um lugar para brincar, as crianças falavam dos abrigos de modo positivo, descrevendo-os como divertidos e dizendo que tinham gostado de ficar ali. Quando essas condições básicas para a vida das crianças faltavam, a vida no abrigo era, ao contrário, muitas vezes descrita como tendo efeito negativo e sendo monótona, entediante e socialmente isoladora, como mostra a narrativa de Freja.
Eu não podia sair, então era muito triste porque era muito, eu não conseguia meio que me mexer. Essa foi meio que a parte mais difícil, porque eu acho legal ficar ao ar livre. […] E aí, agora, no último lugar onde eu estava, eu não pude ir à escola durante seis meses. (Freja, menina, 11 anos)
Como mostra a narrativa de Freja, a vida num abrigo pode ser vivida como entediante e isoladora; por exemplo, quando não é possível passar tempo ao ar livre ou ir à escola. Esse isolamento precisa ser entendido em relação às regras e normas de segurança que devem ser seguidas por causa da ameaça que pesa sobre as famílias. A segurança e a proteção das crianças, que elas valorizam muito, precisam, portanto, ser ponderadas com as consequências negativas que o isolamento acarreta.
Em resumo, as narrativas das crianças revelam a importância da segurança e das condições básicas nos abrigos para que a permanência seja uma experiência positiva. Ainda assim, suas narrativas mostram que viver num abrigo também pode ser vivido como entediante e isolador e pode ter efeitos negativos na qualidade de vida, sobretudo se não houver possibilidade de frequentar a escola e faltarem atividades.
As narrativas das crianças revelam não só a importância do ambiente do abrigo, mas também a das atividades, mais especificamente das atividades ao ar livre e das coisas com que brincar ou se ocupar no tempo livre, como brinquedos, bichos de pelúcia ou videogames, como destacou Mehmet (menino, 10 anos): “É legal que dá pra pegar jogos emprestados aqui, Nintendo e PS4.” Quando essas coisas faltavam, porém, as crianças descreviam a permanência no abrigo como entediante, o que revela aspectos negativos dessas permanências, como exemplifica a narrativa de Elin:
Eu queria que eles dessem pra gente talvez uns brinquedos ou alguma coisa pra gente pelo menos poder fazer alguma coisa. Ou pelo menos ajudassem a gente a fazer umas atividades ou coisa assim. Não precisa ser nada enorme, mas pelo menos pra gente poder fazer alguma coisa e não ter que ficar só sentada lá no abrigo, entediada. (Elin, menina, 11 anos)
As narrativas das crianças ressaltam a importância das atividades e de coisas para fazer no tempo livre, como ilustra Elin. Outro aspecto importante é a oportunidade de sair, como ilustrou Freja, acima, e aqui contrastado com suas experiências em outro abrigo.
No último abrigo em que eu estive, eu podia sair. Tinha um pátio, enorme, era tipo o jardim mais incrível, tão grande, onde a gente podia ficar, mas não passar do limite, e aí eu ganhei uma bicicleta, então a gente andou muito de bicicleta e tal. (Freja, menina, 11 anos)
Como mostra a narrativa de Freja, a vida num abrigo pode ser bem divertida e agradável se for possível sair ou fazer atividades como andar de bicicleta, mas, quando é preciso ficar dentro de casa (por razões de segurança), ela se torna entediante e isolada. As atividades disponíveis, sobretudo a possibilidade de ficar ao ar livre, costumam ser descritas em termos positivos, como mostra a narrativa de Camilla.
A melhor coisa era que lá dava pra, só a gente morava lá e a gente pôde fazer um monte de passeios. A gente foi ao [nome de um parque de diversões] e a gente foi na casa de banhos, a gente foi num parquinho. A gente fez um monte de coisa divertida. (Camilla, menina, 7 anos)
Como mostram essas narrativas, as atividades são de grande importância para as crianças. Mais especificamente, as crianças mais novas muitas vezes enfatizavam a importância de ter brinquedos, uma cama elástica e áreas de brincar reservadas no abrigo. Já as mais velhas tendiam a destacar o valor de um Wi-Fi confiável, de manter contato com as amizades pelas redes sociais e de atividades ao ar livre, como andar de bicicleta, ir à biblioteca ou tomar um sorvete, ou mexer na mobilete. No entanto, a maioria das crianças também falava da falta de coisas para fazer e do tédio ou isolamento dentro de casa, por causa das medidas de segurança que interrompiam o cotidiano. Assim, as regras e restrições de segurança de um abrigo também têm seus lados negativos, restringindo as oportunidades de as crianças fazerem atividades dentro e fora de casa.
Para a maioria das crianças, a possibilidade de manter contato com as amizades e com a família não é limitada apenas pelas precauções de segurança, mas também está relacionada à mudança da antiga casa para um novo lugar, muitas vezes distante de onde viviam antes. As amizades e a equipe do abrigo, ou novas amizades na cidade para onde se mudaram, tornam-se assim muito importantes para as crianças. Algumas crianças que vivem em abrigos com acomodação compartilhada também fazem amizades no abrigo, como explicou Lilly (menina, 7 anos): “A gente faz muitos amigos, com quem a gente mora [no abrigo]. [Nome] e [nome] são minhas amigas.” As outras famílias acolhidas são, portanto, importantes, mas as crianças também disseram que é difícil fazer amizade quando talvez não haja crianças da mesma idade ou com os mesmos interesses, como no caso de Natasha.
Eu não posso chamar ninguém pra vir aqui, e também não posso contar a verdade direito, então era tipo só sim mas, eu não preciso ter amigos, eu posso esperar até o ensino médio. Só faltava um ano. Mas agora eu sinto que não vai dar certo, que eu preciso ter alguém do meu lado, e eu tenho uma amiga que é da minha escola. Mas eu quero mais […] então eu queria que alguém da minha idade chegasse [ao abrigo] só pra eu poder ficar próxima dela assim, então eu fiquei de olho. Mas ninguém chega. […] Aí eu não precisaria ter explicado tudo pra ela. Ela ia me entender mais, digamos assim. (Natasha, menina, 14 anos)
Como destaca a narrativa de Natasha, fazer novas amizades num lugar novo não é fácil por causa das precauções de segurança: não se pode dizer onde se mora, levar amizades ao abrigo nem contar sobre a própria situação de fuga. Sua narrativa revela também o desejo de uma amiga da mesma idade com quem se conectar e compartilhar experiências, algo que não havia acontecido.
Para as crianças que não fazem amizades no abrigo, ou que não podem ir à escola nem fazer atividades fora do abrigo, as relações ficam limitadas. Algumas crianças disseram passar tempo só com a mãe e os irmãos, sem mais ninguém com quem conviver. A narrativa de Elin é um exemplo disso.
Então era bem chato não poder encontrar muita gente e tal, mas a gente ainda podia sair pra fazer compras e coisas assim. E aí a gente via outras pessoas, mas não conversava. (Elin, menina, 11 anos)
Como mostra a narrativa de Elin, as relações sociais das crianças às vezes eram muito limitadas; não conseguiam encontrar as antigas amizades e a família nem desenvolver novas relações no novo lugar. No período inicial no abrigo, por causa das precauções de segurança, isso parece ter sido particularmente difícil, e às vezes quase não interagiam com ninguém além da mãe e, quando havia, dos irmãos. Algumas crianças, porém, descreveram como, depois de um tempo, às vezes retomaram o contato com a família, como avós, como mostra a narrativa de Jill (menina, 8 anos) quando perguntamos se ela podia encontrar alguém fora do abrigo:
Jill: É, a gente encontrou minha avó. Mas os outros não.
Pessoa entrevistadora: E quem são os outros, então? Quando você diz os outros não.
Jill: [Nome do avô], a namorada do vovô.
Pessoa entrevistadora: Então vocês puderam encontrar algumas pessoas, mas não todas?
Mãe: A gente não pôde, não. O vovô não. Só a vovó. […]
Pessoa entrevistadora: Como você se sentiu? Sem poder encontrar eles.
Jill: Foi triste a gente não poder. A gente queria que todo mundo pudesse morar no mesmo lugar em [nome da cidade].
Assim, reconectar-se com a família fora do ambiente do abrigo, depois do período inicial, é muito importante. No entanto, as precauções de segurança necessárias tornam difícil para as crianças manter contato com a família fora do abrigo, e mais ainda com as amizades. É raro que possam se encontrar pessoalmente; em vez disso, escrevem ou falam por telefone. Há exceções, porém, para as poucas crianças que conseguem ficar num abrigo perto de onde moravam antes. Embora também tenham de lidar com riscos à segurança, em alguns casos ainda podem ir à escola e ver as antigas amizades.
As crianças também falaram da equipe do abrigo, que parecia ter papel importante no cotidiano delas. Os membros da equipe eram descritos como facilitadores do acesso à escola e organizadores de atividades, como ilustra Mattias (menino, 9 anos).
Pessoa entrevistadora: Você disse que gosta da equipe.
Mattias: É divertido ficar com eles e eles são legais.
Pessoa entrevistadora: Eles costumam organizar coisas pra fazer?
Mattias: Sim, às vezes a gente faz linguiça na grelha, e teve o “dia do waffle”, aí a gente fez waffles, e a gente faz hambúrguer na grelha também.
Além de facilitar o acesso à escola, organizar atividades e, como ilustra Mattias, brincar junto, a equipe era muitas vezes quem as crianças mais tendiam a procurar (além da mãe) quando tinham dúvidas ou precisavam de apoio. Isso pode ser ilustrado pela resposta de Natacha quando perguntamos se havia algo de que ela não gostava na saída do abrigo:
Que eu perca o contato com a equipe. Porque, mesmo que eles não estejam na minha vida faz tanto tempo, meio que foram eles que mais me ajudaram, então me deixa meio triste perder o contato, porque eu não quero. Porque eles meio que me ajudaram tanto, então eles são uma parte enorme da minha vida agora. (Natacha, menina, 14 anos)
As narrativas das crianças sugerem que a equipe do abrigo era uma figura importante, embora seu papel fosse descrito de forma diferente conforme a idade da criança. As crianças mais novas tendiam a descrever a equipe como gentil e disposta a brincar, enquanto as mais velhas enfatizavam o papel da equipe como adultos de confiança a quem podiam pedir apoio. Essas perspectivas diferentes evidenciam o papel multifacetado das equipes dos abrigos no atendimento às necessidades das crianças de diferentes idades. Houve, porém, duas crianças que relataram experiências negativas com a equipe, entre elas Lisa (menina, 15 anos), que disse: “Tinha uma mulher que trabalhava lá; ela era muito má.”
Havia também uma pessoa que todas as crianças disseram não querer encontrar, ou em relação a quem tinham sentimentos ambivalentes: o agressor, que em geral era o pai. Duas ou três das crianças mais novas mencionaram sentir falta do pai, ao mesmo tempo que se preocupavam ou tinham medo de encontrá-lo. Duas ou três das mais velhas tinham tentado manter contato enviando mensagens, mas ainda assim diziam não querer encontrá-lo pessoalmente.
Em resumo, as relações sociais ganharam importância nas narrativas das crianças, mas nem sempre eram fáceis de manter, muitas vezes estavam ausentes e às vezes eram complicadas ou negativas. As narrativas ilustram a importância de poder manter contato com as amizades e a família fora do abrigo e também de ter relações seguras e de apoio no abrigo, com a equipe e com outras crianças. As narrativas mostram ainda que algumas crianças raramente encontravam alguém além da equipe, da mãe e dos irmãos.
De modo geral, os temas que identificamos nas narrativas das crianças confirmam pesquisas anteriores e contribuem para a área ao constatar que, na Suécia, como já se havia constatado em outros países, a permanência num abrigo para vítimas de VD, embora necessária para a segurança das crianças, muitas vezes tem um custo. Especificamente, as crianças do nosso estudo relataram sentir-se seguras no ambiente do abrigo, o que é coerente com pesquisas anteriores (Arnell e Thunberg, 2025; Chanmugam, 2011; Øverlien, 2011a; Thunberg et al., 2022). No entanto, seus relatos não retratavam o abrigo como um “porto seguro”; na ausência de atividades significativas, brinquedos, oportunidades de brincar ao ar livre e condições básicas como espaço adequado para a família e um ambiente limpo, a imagem transmitida era mais a de um lugar de “depósito seguro”. Essas condições básicas, raramente enfatizadas na literatura anterior, revelaram-se fundamentais para as crianças. Nosso estudo contribui, assim, para a área ao pôr em primeiro plano a importância desses elementos básicos, cuja ausência tem impacto negativo na qualidade de vida das crianças durante a permanência nos abrigos.
A forma como as crianças entrevistadas neste estudo descreveram o isolamento, as regras do abrigo e as restrições às relações sociais que muitas vezes acompanham a permanência num abrigo também está em linha com pesquisas anteriores (Chanmugam, 2011; Øverlien, 2012; Thunberg et al., 2022). A análise revela, por exemplo, a importância das amizades e sua frequente ausência, já que muitas vezes as crianças não tinham ninguém da mesma idade para brincar ou conversar no abrigo. Ainda assim, nossos achados sugerem que, embora as relações com familiares pudessem muitas vezes ser mantidas ou restabelecidas, com o apoio da mãe, por cartas ou telefonemas, as amizades (anteriores) das próprias crianças frequentemente faziam falta e eram afetadas negativamente pela mudança para o abrigo. Pode-se supor que isso esteja relacionado às medidas de segurança com que conviviam por causa das ameaças de violência e, em alguns casos, à mudança para um lugar muito distante de casa. Assim, é essencial para a qualidade de vida que as crianças em abrigos tenham acesso a atividades de lazer estruturadas e à escola junto com outras crianças da mesma idade. Essas trocas proporcionam interação social e apoio de pares.
Além disso, as narrativas mostram que essas crianças tiveram experiências diferentes e falaram de aspectos positivos e negativos dos abrigos onde ficaram. Por exemplo, ao viver num abrigo com acomodação compartilhada, as oportunidades de fazer amizades e de receber apoio da equipe eram valorizadas. Por outro lado, ter o próprio apartamento significava não precisar se preocupar com o que outras crianças sentiam ou faziam, nem dividir brinquedos e espaços com elas. Assim, nossos achados revelam a importância do ambiente do abrigo, das atividades e das relações sociais para as crianças durante a permanência, e que suas experiências podem variar conforme tenham ou não oportunidades de brincar, passar tempo ao ar livre ou encontrar amizades e família. Em linha com os achados de Woodward e Joseph (2003), isso sugere que, se os abrigos conseguirem ampliar a experiência de segurança e proteção das crianças, bem como sua capacidade de agir, seu controle e sua liberdade no cotidiano, as crianças terão melhor qualidade de vida. No melhor dos casos, isso pode levar a mudanças, favorecendo a libertação, o crescimento e o bem-estar das crianças que vivem em abrigos.
Embora nosso material empírico seja limitado demais para permitir uma análise estruturada ao longo do tempo, pode-se levantar a hipótese de que a sensação de segurança começa a se desenvolver mais ou menos imediatamente após a chegada ao abrigo e que a adaptação, com o estabelecimento das condições básicas e a descoberta das oportunidades de brincar, também pode começar logo depois da chegada. Ainda assim, pode levar algum tempo para se acostumar à nova situação no abrigo e construir relações de confiança com as outras famílias acolhidas e com a equipe (Thunberg e Arnell, 2025). Embora isso não estivesse totalmente claro nas entrevistas, consideramos provável que o tédio ou o isolamento se desenvolvam mais tarde, dependendo de fatores como a oferta de oportunidades de atividades, de brincadeiras etc. ser ou não suficientemente estimulante para a criança. Da mesma forma, é possível que seja a mudança para o abrigo que provoque a interrupção das relações sociais e da escolaridade, e que explorar as possibilidades de relações sociais com outras crianças ou com a equipe do abrigo, assim como os deveres de casa, sejam estratégias posteriores para lidar com essas interrupções. Se essas estratégias não funcionarem, as crianças podem sofrer angústia prolongada, sentir falta das amizades e/ou ter de repetir semestres na escola.
O processo de permanência no abrigo também precisa ser discutido em relação às múltiplas permanências que muitas crianças vivem por causa de ameaças repetidas. Para compreender o processo da vida num abrigo, é preciso perceber que cada nova mudança significa que as crianças e as mães têm de recomeçar do zero, incluindo a chegada a uma nova cidade, ficar um tempo sem ir à escola, conhecer uma nova equipe no abrigo e, mais uma vez, deixar brinquedos e amizades por um lugar novo e desconhecido. Em linha com Selvik e Øverlien (2015), argumentamos, portanto, que a permanência num abrigo não pode ser entendida nem como linear nem como uma ruptura temporária; precisa, antes, ser entendida como um processo de interrupções repetidas que afetam a qualidade de vida das crianças. Além disso, a qualidade de vida e o bem-estar das crianças envolvem algo mais do que a mera ausência de problemas como a violência, e geralmente se centram na visão subjetiva das pessoas sobre a própria saúde e as circunstâncias de vida. Ao falar de sua qualidade de vida, as crianças incluem não só dimensões como segurança e proteção, mas também capacidade de agir e controle no cotidiano, liberdade, diversão e saúde física (Grip et al., 2014). Na mesma linha, Woodward e Joseph (2003) sugerem que ter uma sensação de libertação, liberdade, enfrentamento e controle é importante para o crescimento após a violência. Por isso, é importante garantir que o ambiente se torne o mais estável e previsível possível para essas crianças, apoiando sua segurança, sua capacidade de agir e seu controle (Grip et al., 2014; Hauge e Kiamanesh, 2019).
O pequeno número de entrevistas com crianças limita nossa capacidade de identificar possíveis diferenças entre crianças de gêneros ou idades diferentes. Essa é uma limitação comum nas pesquisas com crianças em abrigos para vítimas de VD. Apesar disso, o principal ponto forte do estudo é que as entrevistas foram feitas diretamente com uma amostra de difícil acesso, de crianças de diferentes gêneros e idades, e não por meio de entrevistas indiretas com as mães ou com profissionais. As narrativas das crianças nos permitiram explorar diretamente suas experiências. Ainda assim, são necessárias mais pesquisas baseadas nas descrições das próprias crianças sobre suas experiências, em diferentes países e sistemas de bem-estar social, e este estudo contribuiu em certa medida para preencher essa lacuna de conhecimento. Também é importante conhecer as perspectivas das equipes dos abrigos e do corpo docente, especialmente após a implementação da nova legislação na Suécia, bem como a perspectiva de membros da família ampliada que perdem o contato por causa da ameaça representada pelo agressor.
Em relação à VD, tanto as mães quanto as crianças têm pouco poder para influenciar sua situação. Não só são elas que precisam se mudar, como as consequências vão além e afetam a qualidade de vida das crianças. Acrescentando um nível social a essa discussão, é evidente que o sistema de proteção desenvolvido mundialmente tem limitações quando se trata de atender aos direitos e às necessidades das crianças e de seus pais. As crianças que vivem em abrigos têm direito não só à proteção contra a violência, mas também ao desenvolvimento, à escola etc. (Thunberg et al., 2022). O Estado também deve implementar todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais adequadas para dar a cada criança, e às pessoas que cuidam dela, o apoio necessário, de acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (Nações Unidas, 1989).
Nosso achado de que a escola representa um desafio significativo para muitas crianças que vivem em abrigos está em linha com pesquisas anteriores e as amplia, como as de Ekström e Hvenmark (2025). Esse estudo constatou que a qualidade dos abrigos não inclui apenas a relação entre mãe e criança, mas também “que garantir que essas crianças também possam frequentar a escola durante a permanência num abrigo constitui uma verdadeira medida de qualidade” (2025, p. 7). Nosso estudo acrescenta a essa compreensão ao destacar que as próprias crianças expressam preocupações semelhantes. Elas ressaltam a importância de manter o acesso à educação durante a permanência, o que sugere que essa é uma área crítica a ser melhorada. Embora nossa pesquisa não seja comparativa, nossos achados também dialogam com os de Øverlien e Selvik (2025), que mostram que crianças em abrigos na Noruega não recebem a educação a que têm direito. A negação do acesso à educação coloca as crianças em abrigos em risco de atraso escolar, o que pode afetar sua qualidade de vida a longo prazo. Há grande necessidade de encontrar formas de resolver isso, por exemplo com ensino remoto ou escolarização nos próprios abrigos quando não for seguro para as crianças frequentar a escola presencialmente.
Algumas crianças do nosso estudo disseram sentir falta do pai, ao mesmo tempo que se preocupavam ou tinham medo de encontrá-lo. Isso evidencia um desafio particular: lidar com perspectivas potencialmente divergentes entre mães e crianças. Enquanto as mães que vivem em abrigos muitas vezes enfrentam exigências conflitantes, entre a necessidade de proteger os filhos de um pai violento e as pressões externas para manter o contato entre pai e filhos (Andersson, 2024), as crianças, sobretudo as menores, podem não ter consciência dos riscos e das preocupações de segurança envolvidos. Isso ressalta a importância de garantir que tanto as autoridades responsáveis pelo acolhimento quanto as equipes dos abrigos estejam bem informadas sobre as circunstâncias, as necessidades e as preferências de cada criança, tendo a segurança como prioridade número um. As mães às vezes também se sentem obrigadas a deixar o parceiro agressor ou a aceitar o acolhimento num abrigo sob a ameaça de que, do contrário, os filhos possam ser acolhidos institucionalmente (Andersson, 2024). Nesses casos, as exigências de contato entre pai e filhos podem minar a intenção protetora da permanência no abrigo e complicar a implementação das medidas de segurança, sobretudo quando o tribunal concedeu direito de visita (Andersson, 2024). Se uma mãe aceita o acolhimento num abrigo principalmente para evitar a retirada dos filhos, mesmo sem acreditar que seja o meio mais eficaz de evitar a violência, isso também precisa ser reconhecido por quem é responsável pelos acolhimentos e pelas equipes dos abrigos. É crucial reconhecer essas dinâmicas complexas ao planejar intervenções que realmente priorizem a segurança e a qualidade de vida das mães e das crianças.
Com base em nosso material, sugerimos que os abrigos precisam ser mais bem adaptados às necessidades das crianças, tanto na chegada quanto durante a permanência. Assim, as diferentes rotinas e métodos de apoio às crianças desenvolvidos pelos abrigos deveriam ser avaliados, para que os exemplos de boas práticas possam ser usados em nível nacional. Queremos enfatizar que os abrigos para vítimas de VD não são um problema em si; são uma solução para a violência dos homens. Se os abrigos são a melhor solução é outra questão, já que as crianças em geral são afastadas não só da violência, mas também de suas amizades, da escola e da família ampliada. Precisamos encontrar formas de proteger as crianças da VD sem obrigá-las a sair de casa e a perder seu ambiente familiar de vida e de escola, o corpo docente, as amizades e os membros da família ampliada, os próprios brinquedos e as atividades de lazer. Para tornar isso possível, sugerimos que quem formula as políticas investigue e encontrem formas de proteger as crianças da VD agindo sobre o agressor e afastando-o, em vez de arrancar as crianças de casa. Isso, porém, deve se dar sob a condição de que a segurança delas possa ser garantida (ver, por exemplo, Diemer et al., 2017) e sem custos para outras dimensões da qualidade de vida das crianças.
Complexe Systémique: a reter
O abrigo protege, e essa é sua razão de ser; mas, visto pelas crianças, a proteção tem um preço que o sistema não contabiliza. As regras de segurança cortam a escola, as amizades, a família ampliada e às vezes o simples direito de sair. Numa leitura sistêmica, o estudo lembra que a segurança não é um estado, mas um contexto de vida: uma criança precisa de um espaço limpo, de brincadeira, de pares e de adultos disponíveis para que o acolhimento se torne um lugar onde crescer. Ele também torna visíveis as tensões do sistema familiar em crise: um pai de quem se sente falta e de quem se tem medo, uma mãe dividida entre a proteção e as pressões para manter o contato, uma equipe que vira figura de apego e depois desaparece na saída. As permanências múltiplas transformam a proteção em rupturas repetidas. A proposta final, afastar o agressor em vez de desenraizar as crianças, questiona nossos dispositivos. Os limites: doze crianças, sobretudo meninas, na Suécia, sem acompanhamento ao longo do tempo. Para ler junto com a revisão sobre o que as crianças expostas à violência doméstica valorizam nos encontros com o serviço social e com o estudo sobre o lar depois de um homicídio conjugal.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe agradece às crianças por participarem deste estudo e compartilharem suas histórias e experiências, e às mães e às equipes dos abrigos que dedicaram seu tempo valioso a ajudar no projeto.
Financiamento. Publicação em acesso aberto financiada pela Universidade de Umeå. Este trabalho teve apoio da Autoridade Sueca de Apoio a Vítimas de Crimes (Brottsoffermyndigheten), subsídio n.º 03395/2020. Os achados e conclusões são de responsabilidade exclusiva da equipe de pesquisa, e o financiador não participou da pesquisa.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
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Tradução não oficial em português de A experiência de crianças em abrigos para vítimas de violência doméstica na Suécia, de Linda Arnell, Sara Thunberg e Åsa Källström, Journal of Child and Family Studies, vol. 35, no 1 (2026), doi: 10.1007/s10826-025-03232-7, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Children’s Experiences of Staying at Domestic Violence Shelters in Sweden”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Arnell, L., Thunberg, S., et Källström, Å. (2026). A experiência de crianças em abrigos para vítimas de violência doméstica na Suécia (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-experiencia-de-criancas-em-abrigos-para-vitimas-de-violencia-domestica-na-suecia (Obra original publicada em 2025 em Journal of Child and Family Studies, 35(1), 264-274 (2026); republicada em 2026 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-025-03232-7)
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