Child & Family Social Work · Serviço social
Do que precisa uma criança exposta à violência doméstica para achar útil um encontro com o serviço social? Na Universidade de Örebro, na Suécia, Martina Vikander e Åsa Källström revisaram 18 estudos que dão voz às crianças. Surgem quatro dimensões: requisitos básicos, inclusão, reconhecimento e, de modo mais inesperado, prazer.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O que as crianças expostas à violência doméstica valorizam nos encontros com o serviço social: uma revisão sistemática orientada para a prática, de Martina Vikander e Åsa Källström, publicado na Child & Family Social Work (Wiley) (2024), doi: 10.1111/cfs.13073, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas; a figura permanece em inglês, com legenda traduzida; as equações de busca da Tabela 1 são reproduzidas em inglês. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As crianças têm menos probabilidade de revelar a violência se se culpam por ela.
Martina Vikander e Åsa Källström
Resumo
Crianças expostas à violência doméstica correm um risco maior de muitos tipos de problemas, a curto e a longo prazo. O serviço social pode limitar esses riscos se o apoio e a ajuda oferecidos forem percebidos como valiosos pela criança. Esta revisão teve como objetivos identificar o que as crianças expostas à violência doméstica valorizam nos encontros com o serviço social, sugerir como esse conhecimento pode ser usado na prática por profissionais dedicados a essas crianças e identificar e propor áreas prioritárias para pesquisas futuras. Uma síntese de 18 estudos revela que, nos encontros com o serviço social, as crianças expostas à violência doméstica valorizam (1) requisitos básicos, (2) inclusão, (3) reconhecimento e (4) prazer. Esta revisão oferece à prática um amplo leque de possibilidades para atender aos desejos e às necessidades dessas crianças. No entanto, são necessárias pesquisas comparativas para facilitar a adaptação e distinguir, entre os elementos valorizados pelas crianças, aqueles que são pré-requisitos essenciais para ajudá-las a revelar suas experiências e/ou favorecer sua recuperação daqueles que são menos cruciais, mas ainda assim valorizados.
Ser exposto à violência doméstica na infância muitas vezes não se limita a presenciar violências infligidas a outros membros da família: implica também um risco maior de ser vítima direta de violência física ou sexual e de desenvolver diversos problemas, incluindo estresse pós-traumático a curto e longo prazo, ansiedade, depressão, outros problemas emocionais ou comportamentais e dificuldades na escola e nas relações sociais (por exemplo, Holt et al., 2008; Vu et al., 2016). Limitar as consequências dessa exposição é, portanto, da maior importância. No entanto, embora viver a violência doméstica na infância inclua conviver com ela em muitas formas, temê-la e ter de enfrentá-la, também pode incluir pontos de virada, transições e esperança no futuro quando a mãe sai da relação abusiva (Arai et al., 2021). O apoio social é um fator-chave de proteção, resiliência e enfrentamento (Geffner et al., 2003; Guille, 2004; Owen et al., 2007). Algumas evidências sugerem que falar sobre as experiências de violência doméstica pode prevenir e reduzir os problemas das crianças expostas (Graham-Bermann et al., 2011; Jouriles et al., 2009). Por legislações recentes em países como Inglaterra, Suécia e País de Gales, as crianças expostas à violência doméstica são reconhecidas como vítimas por direito próprio, e o serviço social tem a responsabilidade de lhes oferecer proteção e apoio.
Atender às necessidades das crianças expostas à violência doméstica impõe diversos dilemas e desafios ao serviço social. Em primeiro lugar, as necessidades das crianças são variadas. Algumas precisam ser protegidas da violência, mas têm os recursos de que precisam para se recuperar (Howell et al., 2010), enquanto outras podem desenvolver problemas internalizantes e/ou externalizantes (Holt et al., 2008). Como não é possível conhecer as experiências, as preferências e as necessidades de uma criança num primeiro encontro, há quem defenda que a sensibilidade ao trauma é crucial (Levenson, 2017). Ao mesmo tempo, são raras as pesquisas que consideram o ponto de vista das próprias crianças sobre o que julgam útil nos encontros com profissionais (cf. Arai et al., 2021). Em segundo lugar, para que o serviço social possa proteger e apoiar as crianças, é preciso que elas revelem suas experiências. Mas as crianças tendem a manter a violência doméstica em segredo, e só cerca de metade delas revela sua exposição (Graham-Bermann et al., 2011; Howell et al., 2015). O fato de a revelação ser considerada útil ou prejudicial parece depender das reações dos outros (Ullman, 2011). Em terceiro lugar, oferecer apoio às crianças não garante que elas o percebam como apoio e como algo de que possam se beneficiar. Thunberg (2022) defende que o apoio deve ser adaptado à percepção de cada jovem sobre o que ajuda em seu contexto social. Por fim, avaliar a exposição de uma criança à violência doméstica e suas consequências é complexo, e pode parecer mais fácil se concentrar no risco físico e na segurança do que na exposição global da criança (LaLiberte et al., 2010). Profissionais pouco sensíveis podem retraumatizar as vítimas (Thompson, 2017). Por isso, o serviço social precisa conduzir os encontros com crianças expostas à violência doméstica com cautela e sensibilidade.
Programas voltados à violência doméstica mostraram melhorar a capacidade das crianças de lidar com o estresse e os conflitos, tratar sintomas de estresse traumático e transtornos de comportamento, apoiar a relação mãe-criança e oferecer apoio prático a mães e crianças (por exemplo, Graham-Bermann et al., 2007; Jouriles et al., 2001). As avaliações costumam se concentrar em sintomas e transtornos de saúde das crianças; no entanto, as próprias crianças muitas vezes incluem noções mais amplas na sua compreensão do sucesso de uma intervenção (cf. Howarth et al., 2015). Esses aspectos foram em parte incluídos em estudos sobre as experiências de crianças em abrigos para vítimas de violência doméstica (por exemplo, Jarvis et al., 2005). O serviço social pode encontrar crianças expostas à violência doméstica em encontros formais ou informais com diferentes finalidades. Com esta revisão, buscamos, portanto, ir além do conhecimento sobre quais programas, modelos, métodos e/ou técnicas podem contribuir para reduzir sintomas ou melhorar o bem-estar, e focar no que as crianças expostas à violência doméstica valorizam nos encontros formais com o serviço social, além de oferecer uma síntese legível das pesquisas disponíveis nessa área. Acreditamos que isso pode ajudar o serviço social a “levar devidamente em consideração” os pontos de vista e as opiniões das crianças, em conformidade com o artigo 12 da Convenção das Nações Unidas (1989).
O objetivo geral desta revisão foi explorar as experiências e percepções que as crianças expostas à violência doméstica têm do serviço social. A principal questão de pesquisa foi identificar o que as crianças valorizam nos encontros formais com o serviço social. Os objetivos complementares foram sugerir como esse conhecimento poderia ser usado na prática e identificar e propor áreas prioritárias para pesquisas futuras.
A seguir, apresentamos primeiro como buscamos responder ao nosso objetivo e, depois, a resposta propriamente dita, estruturada em torno de quatro temas.
Para garantir a transparência, esta revisão sistemática foi realizada de acordo com as diretrizes PRISMA para revisões sistemáticas (ver Page et al., 2021).
Os estudos precisavam atender a cinco critérios de inclusão: (1) ser revisados por pares, (2) ser empíricos, (3) ter como respondentes crianças expostas a violência ou abuso entre os pais (designados nesta revisão como violência doméstica), (4) focar nas experiências ou percepções das crianças sobre encontros formais com o serviço social em razão de sua exposição à violência doméstica e (5) estar escritos em inglês.
Assim, foram excluídos os estudos baseados apenas em respondentes adultos ou em documentos, bem como os estudos sobre outros problemas sociais (por exemplo, maus-tratos infantis, abuso de substâncias ou transtornos mentais), sobre a violência fora da família ou sobre encontros com a polícia, o sistema de saúde ou abrigos para vítimas de violência doméstica. Revisões e artigos teóricos também foram excluídos, assim como os estudos focados apenas em efeitos de intervenções ou no comportamento das crianças nos encontros com o serviço social ou em sua forma de lidar com eles. Estudos não escritos em inglês ou não acessíveis por serviços on-line ou pela biblioteca universitária também foram excluídos.
Para identificar os estudos relevantes, realizamos uma busca eletrônica nas bases de dados Social Services Abstracts, ASSIA e PsychINFO. Nenhuma restrição de datas foi adotada. A Tabela 1 apresenta as quatro combinações de termos de busca utilizadas e os resultados por base de dados.
Tabela 1 — Buscas nas bases de dados
Combinações de termos pesquisadas no título, nas palavras-chave ou no resumo (limite adicional: revisão por pares), com o número de resultados no Social Service Abstracts, no ASSIA e no PsychINFO. As equações de busca são reproduzidas em inglês.
No processo de seleção, os estudos provenientes das buscas nas bases de dados foram exportados para o software Zotero. Todas as etapas do processo de inclusão se basearam nos critérios de inclusão e exclusão e começaram com a triagem dos títulos relevantes feita pela pessoa que assina em primeiro lugar. Os estudos restantes foram então examinados pelos resumos. A pessoa que assina em primeiro lugar examinou 80% dos resumos, e a que assina em segundo lugar, 20%. Os estudos ainda incluídos foram lidos na íntegra pelas duas pessoas da equipe. As decisões de inclusão e exclusão foram tomadas em conjunto, para reforçar a validade do processo. Estudos com profissionais do serviço social em abrigos para vítimas de violência doméstica foram excluídos, por causa das condições e possibilidades diferentes de construir vínculo com as crianças que vivem ali, em comparação com o serviço social que só encontra as crianças em encontros formais. Para identificar outros estudos, a pessoa que assina em primeiro lugar examinou as listas de referências dos estudos incluídos. Dois estudos adicionais foram incluídos por esse processo, pois atendiam aos critérios de inclusão.
Para avaliar a qualidade dos estudos incluídos, criamos uma lista de verificação com oito itens considerados importantes para garantir a qualidade da revisão: tamanho da amostra, transparência da análise e verificação cruzada, viés de pesquisa, apresentação coerente dos resultados, consideração da idade e do gênero das crianças, do momento do atendimento e da exposição à pessoa agressora, bem como dos efeitos que esses fatores poderiam ter sobre o resultado. Segundo nossa lista, os estudos podiam receber no máximo 12 pontos. Dois estudos receberam menos de cinco pontos e foram, por isso, excluídos. Com esse processo, 18 estudos empíricos foram incluídos na revisão. Uma visão geral do processo de seleção é apresentada na Figura 1.

Os estudos foram analisados por meio de análise de conteúdo interpretativa, comumente usada para examinar textos ou conjuntos de dados existentes (Ahuvia, 2001). Esse método foi usado para codificar sistematicamente o conteúdo manifesto, latente e contextual dos estudos incluídos. Em certa medida, o método se assemelha à síntese temática, comumente usada em revisões sistemáticas qualitativas que buscam identificar aplicações para a prática e as políticas (cf. Drisko, 2020). Como a síntese temática, a análise de conteúdo interpretativa também pode ser usada para agregar e resumir os resultados em temas (cf. Ahuvia, 2001; Drisko, 2020). No entanto, ela também se assemelha à síntese interpretativa, cujo objetivo geral é ampliar ou aprofundar resultados anteriores, por exemplo, levando em conta o contexto (cf. Drisko, 2020). A análise de conteúdo interpretativa foi escolhida para permitir considerar os diversos contextos e a heterogeneidade das crianças participantes dos estudos originais incluídos nesta revisão.
Na etapa inicial, a pessoa que assina em primeiro lugar releu os estudos incluídos para identificar unidades de sentido sobre as experiências e percepções das crianças em relação ao serviço social. As unidades consistiam em uma ou mais frases de citações das pessoas participantes do estudo original ou de interpretações de sua equipe. As unidades de sentido identificadas foram extraídas e registradas em um protocolo. Na segunda etapa, a pessoa que assina em primeiro lugar condensou as unidades de sentido em códigos. A pessoa que assina em segundo lugar revisou os códigos, e as duas os modificaram em conjunto. Na terceira etapa, a equipe analisou conjuntamente os códigos em busca de padrões e os classificou em 13 subtemas. Na quarta etapa, o mesmo procedimento foi usado para analisar e agrupar os subtemas em quatro temas principais distintos. Na quinta etapa, foi realizada uma análise adicional dos resultados para buscar padrões subjacentes relacionados à idade das crianças, ao momento do atendimento e ao tipo de serviço prestado.
O conjunto de pesquisas revisado abrangia uma amostra de 404 crianças, das quais 84 identificadas como meninos e 88 como meninas, sem informação sobre gênero para 232 participantes. As crianças tinham de 4 a 19 anos e haviam tido contato com o serviço social em funções de aconselhamento, de investigação em direito de família ou de investigação para os serviços de proteção à criança (SPC), ou nos serviços sociais. A maioria das crianças foi recrutada por meio do serviço que lhes prestava apoio. Dos 18 estudos incluídos nesta revisão, 16 usaram métodos qualitativos e 2 um delineamento de métodos mistos. Os dados foram coletados principalmente por entrevistas individuais ou em grupo. Uma apresentação detalhada dos estudos incluídos está na Tabela 2.
Tabela 2 — Visão geral dos artigos incluídos
Para cada estudo: crianças participantes, serviço prestado, momento do atendimento, exposição à pessoa agressora, método e país.
a Artigos do mesmo estudo. b Informação ausente ou pouco clara. c Artigos do mesmo estudo. d Estudantes do ensino médio; a idade exata não é informada; segundo o sistema escolar dos EUA, esses estudantes teriam aproximadamente 14 a 18 anos.
Vale notar que, embora os estudos de Eriksson (2009, 2012) usem o mesmo conjunto de dados, assim como os de Cater (2014) e de Källström e Thunberg (2019), eles foram incluídos por explorarem aspectos diferentes dos dados.
A síntese dos dados dos 18 estudos incluídos gerou quatro temas principais (dimensões) sobre o que as crianças valorizam em suas interações com o serviço social: (1) requisitos básicos, (2) estratégias de inclusão, (3) reconhecimento e (4) prazer. Em cada dimensão, identificamos de dois a quatro elementos diferentes. Eles podem ser vistos na Tabela 3.
Tabela 3 — Dimensões e elementos do que as crianças valorizam nos encontros com o serviço social
Os estudos indicaram que os requisitos básicos valorizados pelas crianças expostas à violência doméstica eram ter acesso a alguém do serviço social, contar com um espaço seguro para os encontros e ser atendidas por uma pessoa que consideravam digna de confiança.
Os estudos demonstraram que as crianças valorizavam ter acesso fácil ao serviço social ou um contato iniciado pelo serviço social diante de preocupações com a criança (Beetham et al., 2019; Coburn e Gormally, 2014; Roy et al., 2021; Stanley et al., 2012). Coburn e Gormally (2014) constataram que as crianças valorizavam poder entrar em contato com o serviço social por conta própria e ter por perto um escritório que pudessem visitar. A facilidade de acesso e a disponibilidade dos profissionais e de suas organizações foram consideradas importantes (Coburn e Gormally, 2014; Roy et al., 2021). Roy et al. (2021) constataram que as crianças comparavam a disponibilidade de quem fazia o acompanhamento das crianças com a da equipe escolar e de outros profissionais do serviço social: “[…] a pessoa responsável pelo acompanhamento das crianças era percebida como oferecendo uma continuidade de apoio que não existia em outros lugares, inclusive na escola ou nos serviços sociais para crianças” (Roy et al., 2021, p. 7). Isso indica que ter serviços à mão, como nas escolas, pode não ajudar se as crianças não perceberem os profissionais como acessíveis. É crucial informar as crianças sobre os serviços disponíveis para que saibam a quem recorrer, e esses serviços também precisam ser acessíveis para elas.
Curiosamente, nenhum dos estudos com crianças de seis anos ou menos tratou da acessibilidade. Talvez porque crianças pequenas raramente têm a capacidade ou a oportunidade de procurar o serviço social por conta própria, e seu acesso a ele se dá quase exclusivamente por meio de adultos. Por isso, a acessibilidade talvez não seja algo que elas valorizem na mesma medida.
Um fio condutor comum aos estudos foi que crianças de todas as idades consideravam crucial um espaço seguro, livre de violência e seguro o bastante para falar de suas experiências (Callaghan et al., 2019; Pernebo e Almqvist, 2016; Roy et al., 2021; Willis et al., 2010). A importância de um espaço seguro provavelmente está ligada às suas experiências de condições de vida inseguras. Como resumiram com precisão Pernebo e Almqvist (2016, p. 125), “as crianças deste estudo não pareciam presumir que a segurança fosse algo garantido, já que afirmavam explicitamente apreciar estar seguras e protegidas da violência e das ameaças enquanto estavam no grupo”. Além disso, dois estudos destacaram que as crianças percebiam o aconselhamento em grupo como um espaço seguro (Callaghan et al., 2019; Roy et al., 2021). Isso pode se dever a encontrar regularmente os mesmos pares e as mesmas pessoas que coordenam o grupo, o que cria uma sensação de segurança, estabilidade e previsibilidade que muitas vezes falta em casa (Pernebo e Almqvist, 2016; Roy et al., 2021). Pernebo e Almqvist (2016) enfatizaram que a sensação de segurança podia ser reforçada por um ambiente previsível, como se reunir na mesma sala, com os mesmos móveis. Além disso, McCarry et al. (2021) constataram que algumas crianças apreciavam se encontrar em um ambiente escolar, que nem sempre era a própria escola. Assim, o ambiente físico em que as crianças encontram o serviço social pode reforçar de várias maneiras sua sensação de segurança.
Crianças expostas à violência doméstica muitas vezes sentem uma desconfiança geral em relação a adultos e autoridades, enraizada em medos ou experiências passadas de quebra de sigilo (Cater, 2014; Eriksson, 2009), apoio inadequado (Stanley et al., 2012; Swanston et al., 2014) ou resposta excessivamente zelosa (Cater, 2014). Talvez por isso muitos estudos tenham enfatizado a importância de as crianças encontrarem profissionais que considerem dignos de confiança (Callaghan et al., 2019; Coburn e Gormally, 2014; McCarry et al., 2021; Pernebo e Almqvist, 2016; Perry e Frampton, 2018). Pernebo e Almqvist (2016) observaram que crianças pequenas em aconselhamento de grupo consideravam os profissionais dignos de confiança quando pareciam ter boas intenções e agir com responsabilidade. Do mesmo modo, outros estudos constataram que as crianças consideravam os profissionais dignos de confiança quando ofereciam apoio e ajuda (Callaghan et al., 2019; Coburn e Gormally, 2014; McCarry et al., 2021). O nível de confiança pode influenciar a disposição de revelar informações sensíveis: “estar em um ambiente de confiança permitia que as pessoas participantes se expressassem e revelassem coisas que antes não se sentiam capazes de discutir” (Callaghan et al., 2019, p. 530). Em alguns casos, porém, é necessário construir uma relação positiva com a pessoa do serviço social para que as crianças confiem nela (Cater, 2014; McCarry et al., 2021). De modo geral, as crianças valorizam profissionais com quem podem contar, em quem podem confiar e que priorizam manter o sigilo, a não ser que as consultem antes. Estabelecer confiança com as crianças exige tempo e esforço do serviço social.
A acessibilidade do serviço social e sua possibilidade de oferecer um espaço seguro e ajuda exigem que a organização priorize as necessidades das crianças expostas à violência doméstica. No entanto, cada profissional pode tomar decisões inclusivas com base nas outras dimensões mencionadas por essas crianças.
Muitas crianças enfatizaram a importância da inclusão nos encontros com o serviço social, o que envolvia vários elementos, como acesso à informação, flexibilidade, escolha e empoderamento.
Os estudos destacaram que as crianças valorizavam profissionais que lhes davam informações sobre sua situação (Coburn e Gormally, 2014; Eriksson, 2009; Eriksson, 2012; Stanley et al., 2012), explicadas de forma adequada à idade e compreensível para elas (Coburn e Gormally, 2014; Eriksson, 2009). No entanto, muitas crianças, sobretudo as menores, não recebem informação adequada (Beetham et al., 2019; Cater, 2014), o que pode se tornar uma fonte de preocupação (Beetham et al., 2019). Embora algumas crianças tentem lidar com isso fazendo perguntas ou olhando as anotações dos profissionais (Eriksson, 2012), é preciso reconhecer o desequilíbrio de poder entre as crianças expostas à violência doméstica e o serviço social. Cabe ao serviço social compartilhar informações com as crianças, considerando que isso pode aliviar seu estresse e sua ansiedade.
As crianças também valorizavam profissionais descritos como flexíveis, empáticos e sensíveis às suas necessidades (Cater, 2014; Eriksson, 2012; Källström e Thunberg, 2019). A flexibilidade se referia em especial à disposição dos profissionais de adaptar o formato do encontro às necessidades e ao estado emocional das crianças (por exemplo, Eriksson, 2012; Källström e Thunberg, 2019). Por isso, é crucial que o serviço social seja atento aos sinais das crianças e adote uma abordagem adequada à idade, que permita às crianças influenciar o encontro e a conversa (por exemplo, Eriksson, 2012). Isso aumenta a chance de as crianças perceberem o encontro como significativo, o que pode prevenir resistências (McManus et al., 2013; Phillips e Phillips, 2010). Por exemplo, Källström e Thunberg (2019) relataram que muitos adolescentes tinham dificuldade de se expressar verbalmente e achavam úteis as perguntas diretas para falar de suas experiências. Assim, o serviço social precisa estar disposto a ajustar o formato do encontro à idade e às necessidades da criança.
Outro elemento de inclusão que emergiu dos estudos foi a noção de escolha, que incluía a possibilidade de participar do aconselhamento nos próprios termos, sem se sentir pressionado a dizer ou fazer algo (Beetham et al., 2019; Callaghan et al., 2019; Cater, 2014; Coburn e Gormally, 2014; Pernebo e Almqvist, 2016). As crianças valorizavam poder tomar decisões sobre sua participação (Coburn e Gormally, 2014), o que pode lhes dar uma sensação de controle. No entanto, pode haver situações em que não seria apropriado envolver as crianças nas decisões, como em intervenções de proteção agudas, embora elas ainda possam ser incluídas em certas etapas do processo. Cater (2014) descreveu uma forma de envolver as crianças nas decisões sobre o aconselhamento: algumas foram incentivadas pelo serviço social e por outros adultos a experimentar e depois decidiram se continuariam. Por outro lado, crianças a quem não se deu escolha nos encontros com o serviço social, durante o aconselhamento ou em investigações de direito de família, tinham mais probabilidade de se recusar a falar ou de não participar de forma alguma (Cater, 2014; Eriksson, 2012). De modo geral, dar às crianças a possibilidade de fazer escolhas sobre sua participação pode aumentar sua sensação de controle e tornar a interação com o serviço social mais significativa e positiva.
Os estudos identificaram várias ações do serviço social que podem empoderar as crianças, como levá-las a sério e não tratá-las como inferiores (Beetham et al., 2019; Callaghan et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019; Swanston et al., 2014; Willis et al., 2010). Empoderar as crianças pode ter um impacto positivo em sua autoconfiança e em sua capacidade de experimentar coisas novas (Callaghan et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019). Além disso, segundo Willis et al. (2010), “o respeito e a sensibilidade a aspectos de seu mundo vivido podem servir de base para o autoempoderamento dos adolescentes e para facilitar a cura de feridas que não são apenas físicas” (Willis et al., 2010, p. 556).
O serviço social também pode empoderar as crianças ajudando-as a se voltar para as possibilidades futuras, criando esperança e facilitando o processo de enfrentamento (Callaghan et al., 2019). Stanley et al. (2012) enfatizaram a importância de o serviço social oferecer proteção às crianças e a suas famílias, para não reforçar nas crianças a sensação de impotência diante da violência da pessoa agressora. Receber proteção é, portanto, importante para a segurança e o bem-estar das crianças, mas também para sua sensação de controle e sua autoconfiança. Assim, essas crianças valorizam quando o serviço social as inclui na definição do enquadre dos encontros e reconhece suas experiências dentro desse enquadre.
O reconhecimento inclui reconhecer a necessidade das crianças de falar sobre a violência, ter suas experiências validadas, compreender os limites de suas responsabilidades e ter suas diferentes identidades reconhecidas.
As crianças valorizavam, no serviço social, a facilidade de acesso, a simpatia e a facilidade de conversar (Coburn e Gormally, 2014; Fotheringham et al., 2013; Roy et al., 2021), bem como a boa escuta (Källström e Thunberg, 2019; Perry e Frampton, 2018; Stanley et al., 2012). Falar com o serviço social sobre as violências vividas fez muitas crianças se sentirem melhor e as ajudou a tomar distância dessas violências (Källström e Thunberg, 2019; McManus et al., 2013; Pernebo e Almqvist, 2016; Perry e Frampton, 2018). Källström e Thunberg (2019, p. 556) constataram que “os jovens descreviam como um alívio e um prazer não precisar mais, agora, depois do aconselhamento, pensar na violência o tempo todo”. Ainda assim, algumas crianças preferiam não pensar na violência nem falar dela (Åkerlund e Sandberg, 2017; Pernebo e Almqvist, 2016), talvez por medo de que traumas passados ressurgissem ao pensarem em suas experiências (Källström e Thunberg, 2019; Pernebo e Almqvist, 2016). Algumas crianças não sentiam elas mesmas a necessidade de falar da violência, mas reconheciam seu valor e incentivavam outras a fazê-lo (Åkerlund e Sandberg, 2017). De todo modo, alguém do serviço social que possa ser um interlocutor é valorizado por muitas crianças e poderia ajudá-las a lidar com suas experiências difíceis.
Os estudos mostraram que as crianças desejavam ser validadas pelo serviço social, o que envolvia escuta ativa e compreensão de suas experiências de violência (Willis et al., 2010; Fotheringham et al., 2013; Stanley et al., 2012; McManus et al., 2013; Swanston et al., 2014; Pernebo e Almqvist, 2016; Beetham et al., 2019; Callaghan et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019; McCarry et al., 2021). Apesar de serem diretamente afetadas pela violência, muitas crianças relataram experiências de não serem ouvidas (Eriksson, 2009; McCarry et al., 2021; Swanston et al., 2014), de não terem sido acreditadas ao revelar a violência ao serviço social (Eriksson, 2009) e de terem de responder repetidamente às mesmas perguntas (Beetham et al., 2019). Tais experiências indicam falta de validação. Em vez de uma atitude de desconsideração, as crianças desejavam profissionais que as deixassem à vontade por meio da compreensão (Willis et al., 2010; Fotheringham et al., 2013) e de uma atitude sem julgamentos (Källström e Thunberg, 2019; Stanley et al., 2012). Stanley et al. (2012) e Källström e Thunberg (2019) demonstraram que a validação era possível quando o serviço social levava as crianças a sério e respondia de forma adequada à gravidade de sua situação. Assim, as crianças que vivem com violência doméstica muitas vezes têm suas necessidades e opiniões ignoradas. Profissionais que as escutam, compreendem e validam podem ajudar a mudar isso e fortalecer a aliança.
Vários estudos mostraram que as crianças em aconselhamento valorizam que o serviço social as ajude a compreender sua situação e os limites de sua responsabilidade em relação à violência (Callaghan et al., 2019; Fotheringham et al., 2013). Crianças expostas à violência doméstica podem se culpar por não terem impedido a violência e o envolvimento dos serviços públicos. A ameaça implícita de serem retiradas de casa pode afetar negativamente seu bem-estar. Ajudar as crianças a perceber que não são responsáveis pode aliviar esse peso e melhorar seu bem-estar. No entanto, Phillips e Phillips (2010) advertiram que o serviço social pode enfrentar resistências ao abordar a responsabilidade da pessoa agressora pela violência, sobretudo quando as crianças se recusam a falar da violência ou a reconhecê-la. Por isso, é valioso que o serviço social ajude as crianças a aliviar o peso da responsabilidade, mas isso pode ser difícil se as crianças não revelaram a violência. As crianças têm menos probabilidade de revelar a violência se se culpam por ela, o que destaca a importância de aliviar a autoculpabilização como etapa crucial do processo de revelação.
Estudos sobre aconselhamento também mostraram que as crianças expostas à violência doméstica apreciavam profissionais que reconheciam suas várias identidades, sem reduzi-las à de vítima de violência (Beetham et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019; Phillips e Phillips, 2010) nem, no caso dos meninos expostos à violência doméstica, à de possível futuro agressor (Phillips e Phillips, 2010). Fotheringham et al. (2013) constataram que as crianças valorizavam profissionais que se esforçavam para conhecê-las. Outros estudos indicaram que as crianças apreciavam profissionais que conversavam sobre outros aspectos de sua vida e as respeitavam (Beetham et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019; Phillips e Phillips, 2010). Como afirmaram Beetham et al. (2019), “eles não queriam que o grupo atrapalhasse outras coisas em sua vida, como as aulas, ver os amigos e outras atividades” (p. 571). Assim, o momento das sessões de aconselhamento deve ser considerado, pois elas raramente precisam acontecer de imediato. Além disso, o serviço social deve mostrar interesse pela vida das crianças e por seus interesses em todos os encontros, qualquer que seja o serviço prestado. Embora o reconhecimento, em suas muitas formas, seja apreciado pelas crianças expostas à violência doméstica, elas também valorizam momentos de prazer nesses encontros.
Como mostraram os estudos, as crianças apreciavam se divertir e fazer atividades durante os encontros com o serviço social.
Os estudos revisados contêm numerosos relatos de diversão e brincadeira como experiências positivas no aconselhamento, o que indica que esse é um aspecto central do prazer para as crianças (Beetham et al., 2019; Callaghan et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019; Pernebo e Almqvist, 2016). Atividades não eram necessárias para se divertir, e algumas crianças preferiam se divertir na relação (Beetham et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019; Pernebo e Almqvist, 2016). Brincar juntos podia reduzir a seriedade da conversa e criar uma atmosfera mais confortável (Callaghan et al., 2019; Källström e Thunberg, 2019). Källström e Thunberg (2019) observaram que isso ajudava as crianças a pensar menos na violência, ainda que por um momento. Pernebo e Almqvist (2016) sugeriram que isso também podia ter um efeito reparador sobre as crianças. Assim, crianças que vivem interações divertidas podem se sentir bem no momento, e os efeitos positivos também podem durar além do encontro.
As crianças também valorizavam as atividades como elemento de prazer durante o aconselhamento e também nas investigações de direito de família. Essas atividades incluíam atividades artísticas (Callaghan et al., 2019; Eriksson, 2012; Fotheringham et al., 2013; Källström e Thunberg, 2019; Pernebo e Almqvist, 2016), jogos (Källström e Thunberg, 2019), um lanche (Eriksson, 2012) e atividades físicas como a dança (Callaghan et al., 2019). As atividades eram especialmente apreciadas por crianças agitadas, com dificuldade de ficar sentadas (Eriksson, 2012; Beetham et al., 2019; Callaghan et al., 2019), o que é comum entre crianças expostas à violência doméstica. As atividades cumpriam diferentes funções nos encontros: simbolizavam acolhimento e cuidado, facilitavam que as crianças falassem de suas experiências, desviavam sua atenção da violência ou permitiam uma pausa completa em relação a ela (ver Beetham et al., 2019; Eriksson, 2012; Källström e Thunberg, 2019; McManus et al., 2013). No entanto, McManus et al. (2013, p. 298) descreveram que, “apesar de muitas das atividades terem sido concebidas para facilitar as conversas sobre o abuso, algumas crianças não sentiam que tinham passado tempo suficiente falando de sua experiência”. Isso indica que as atividades não são apreciadas por todas as crianças e podem desviar demais a atenção do assunto, o que mostra a importância de atentar para as necessidades individuais.
Em resumo, esta revisão mostra que as crianças expostas à violência doméstica valorizam dimensões que vão das condições organizacionais prévias ao que o serviço social pode lhes oferecer e às decisões tomadas durante o encontro.
Os principais resultados desta revisão das pesquisas sobre o que as crianças expostas à violência doméstica valorizam nos encontros com o serviço social são que elas valorizam (1) requisitos básicos, (2) inclusão, (3) reconhecimento e (4) prazer. Alguns desses temas e elementos se interligam. Por exemplo, ao dar informação a uma criança, a pessoa do serviço social pode promover seu empoderamento, e oferecer uma atividade durante o encontro pode ser uma forma de mostrar flexibilidade. É possível que alguns elementos valorizados pela criança exijam outros; por exemplo, um espaço seguro, confiança, um bom interlocutor e validação podem ser necessários antes que se possa abordar a questão da responsabilidade pela violência. Alguns desses resultados podem estar ligados ao fato de nosso estudo tratar de crianças, por exemplo, valorizar um formato flexível e o prazer, o que pode ser particularmente pertinente e importante para jovens. Outros resultados muito provavelmente refletem as necessidades e os desejos de vítimas de violência, como valorizar um espaço seguro, confiança e reconhecimento pela validação, ser aliviado da responsabilidade pela violência e ter suas diferentes identidades reconhecidas. Além disso, alguns elementos exigem recursos organizacionais, sobretudo tempo: por exemplo, que a pessoa do serviço social seja acessível, possa encontrar a criança várias vezes para construir confiança e, talvez, que os encontros durem o suficiente para permitir atividades; mas a maioria corresponde a ações que cada profissional pode escolher realizar em qualquer encontro.
Os estudos incluídos nesta revisão parecem bastante coerentes no que relatam. Embora nenhum estudo relate todos os temas ou elementos, muitos relatam elementos semelhantes, o que resulta em um amplo leque de possibilidades para a prática atender aos desejos e às necessidades das crianças. Os resultados indicam assim como a sensibilidade ao trauma (Levenson, 2017) pode ser posta em prática para atender às necessidades, preferências e desejos das crianças expostas à violência doméstica. O que os elementos identificados têm em comum é que todos são potencialmente relevantes para profissionais dos serviços sociais, dos serviços de proteção à criança, da polícia, das escolas, dos serviços de saúde ou de ONGs que encontram crianças vítimas em seu trabalho, e muitos deles podem ser usados nos encontros sem nenhum custo adicional para a organização. Ao desenvolver sua prática de acordo com os resultados desta revisão, o serviço social poderia interagir com essas crianças de maneiras que elas valorizam e, assim, aumentar as atuais baixas taxas de revelação de experiências de violência doméstica (cf. Graham-Bermann et al., 2011; Howell et al., 2015; Ullman, 2011). Isso também poderia ajudar a reduzir a distância entre o que é oferecido às crianças e o que elas percebem como apoio capaz de beneficiá-las (cf. Humphreys et al., 2011; Thunberg, 2022). Países sem políticas e sistemas desenvolvidos em matéria de violência doméstica podem ler nossos resultados como um incentivo a desenvolver serviços que ofereçam lugares seguros e acessíveis para falar da violência de forma confidencial.
Acreditamos que incorporar à condução dos encontros o conhecimento sobre o que as crianças valorizam deveria ser um objetivo da prestação de serviços, sobretudo quando as crianças foram vitimizadas por pais que deveriam tê-las protegido. É razoável supor que profissionais que incorporam à sua prática os elementos valorizados pelas crianças aumentem sua possibilidade de construir vínculo. Por isso, a partir dos resultados desta revisão, é possível fazer perguntas como: quais dos elementos encontrados neste estudo podem ser incorporados às investigações e entrevistas dos serviços de proteção à criança? Quais podem ser incluídos em modelos de apoio estruturados por manual? Se isso tende a aumentar a eficácia dos serviços e a melhorar o bem-estar das crianças é uma questão empírica. No entanto, este estudo não pode ajudar a prática a entender quais elementos são os mais cruciais nem a estabelecer prioridades entre eles. Ele não identifica se alguns dos elementos identificados são pré-requisitos essenciais para que as crianças se abram sobre suas experiências, em oposição a elementos que as crianças valorizam, mas que poderiam ser considerados opcionais, e não essenciais. Assim, nossos resultados apoiam o apelo de LaLiberte et al. (2010) por formações centradas em formas de envolver e apoiar jovens que vivem ou viveram violência doméstica.
A revisão também revela que muitas questões ainda precisam ser respondidas pela pesquisa. Primeiro, essa é uma área pouco pesquisada, e, portanto, mais pesquisas são necessárias e seriam valiosas para uma compreensão mais completa. Segundo, algumas crianças, como as muito pequenas ou as crianças com deficiência, são invisíveis na pesquisa. Terceiro, a informação sobre o gênero das crianças participantes nem sempre foi especificada, e vários estudos incluíram uma ampla faixa etária sem especificar se os resultados diferiam conforme a idade. Quarto, faltam completamente estudos comparativos na área, por exemplo em relação às experiências das crianças, ao momento da violência, aos tipos de consequências (cf. Holt et al., 2008) e aos recursos para resistir e/ou se recuperar (cf. Howell et al., 2010). Também se justificam estudos que examinem a existência de diferenças de idade, gênero ou cultura. Além disso, como nossos resultados se parecem muito com os encontrados em pesquisas com crianças maltratadas por um dos pais ou por outras pessoas (Jernbro et al., 2017; Lev-Wiesel et al., 2014; Ungar et al., 2009), também poderia valer a pena esclarecer se a natureza da vitimização das crianças está relacionada ao que elas valorizam nos encontros com o serviço social. Pesquisas quantitativas poderiam contribuir para compreender melhor se crianças de diferentes idades ou contextos culturais, expostas a diferentes formas de violência ou a outros crimes, valorizam elementos diferentes e quais são mais valorizados que outros. Esses elementos são igualmente importantes para todas as crianças, ou poderiam ser hierarquizados? Alguns elementos valorizados podem compensar a falta de outros? Por exemplo, dois estudos mostraram que, mesmo quando não se ofereciam às crianças estratégias de inclusão, elas ainda podiam perceber o encontro como positivo e se sentir reconhecidas (Cater, 2014; Eriksson, 2009). Esse conhecimento poderia ser valioso para o serviço social que busca aprimorar seu apoio e orientá-lo a determinar se “um mesmo tamanho não serve para todos”, como sugeriram Prinz e Feerick (2003), ou se o que as crianças expostas à violência doméstica valorizam é bastante geral.
Outra linha de pesquisa sugerida por este estudo é investigar se algum desses elementos está relacionado à recuperação das crianças após viverem violência doméstica. Manuais que equilibram de modo diferente, de um lado, as técnicas e, de outro, elementos comuns como flexibilidade, aceitação e empatia são adequados a diferentes contextos de prestação de serviços? Faz diferença para a resiliência ou a recuperação das crianças que o serviço social aborde ativamente ou não esses elementos? Eles são mais ou menos importantes para a recuperação das crianças do que métodos específicos, sobretudo quando se incluem os sintomas e transtornos de saúde das crianças, bem como as noções mais amplas que as próprias crianças incluem na sua compreensão do sucesso de uma intervenção (cf. Howarth et al., 2015)?
Algumas deficiências desta revisão merecem atenção. O que podemos relatar depende dos detalhes apresentados pelas equipes dos 18 estudos incluídos. Por exemplo, a duração e a gravidade da violência a que as crianças desses estudos foram expostas muitas vezes não são claras. Além disso, os estudos variam na clareza com que discutem a representatividade de seus resultados para as populações pesquisadas, e não refletem proporcionalmente o problema em escala global. Pedimos também que se note que, embora esta revisão inclua 18 estudos publicados, eles se baseiam em apenas 16 conjuntos de dados. Pela natureza do nosso estudo, acreditamos que nossos resultados não são afetados por isso. Além disso, embora alguns elementos valorizados pelas crianças tenham sido identificados em um número maior de estudos, não afirmamos que esses elementos sejam mais importantes do que os identificados em menos estudos. O ponto forte da revisão é o processo de busca estruturado e abrangente que foi realizado, e a visão geral abrangente, ainda que breve e concentrada, da área. Outros pontos fortes do estudo são que ele se baseia em informações vindas das crianças e, portanto, permite uma compreensão a partir da perspectiva de quem é diretamente afetado, e que oferece um conhecimento que vai além dos estudos originais e pode ser valioso para o desenvolvimento futuro do apoio a essas crianças.
Nos encontros com o serviço social, as crianças expostas à violência doméstica dão valor a certos requisitos básicos, como acessibilidade, um lugar seguro e confiança. Além disso, as crianças apreciam a inclusão, que podem viver ao receber informação e por meio de flexibilidade, escolhas e empoderamento. Outro aspecto importante para elas é o reconhecimento: ter profissionais que sejam bons interlocutores, que as validem, que ajudem a aliviar o peso da responsabilidade e que reconheçam as diferentes identidades da criança. Por fim, as crianças também valorizam o prazer, que encontram ao se divertir e fazer atividades durante o encontro.
Profissionais que trabalham com essas crianças devem levar em conta esses elementos, pois incorporá-los pode ajudar as crianças a se sentirem mais à vontade e criar uma relação positiva com quem as acompanha. Isso, por sua vez, poderia ajudar as crianças a se sentirem mais confortáveis para revelar suas experiências e permitir que os profissionais lhes ofereçam um apoio adequado às suas necessidades singulares.
Não está claro qual desses elementos é o mais importante nem se abordá-los ativamente na prática faz uma diferença significativa. Por isso, são necessárias mais investigações para compreender melhor o impacto que esses elementos podem ter sobre as crianças e como os profissionais podem usá-los para aprimorar seu trabalho.
Complexe Systémique: a reter
O mérito desta revisão é partir do que as crianças dizem, e não do que os programas medem. O que elas valorizam é menos uma técnica do que um enquadre relacional: um lugar seguro e previsível, uma pessoa confiável que mantém o sigilo, uma informação na medida delas, o direito de escolher, a validação do que viveram, ser aliviadas de uma responsabilidade que não é delas, ser vistas para além da condição de vítima e até momentos de diversão. Para a clínica sistêmica, a lição reencontra uma intuição antiga: é a qualidade da relação que torna a fala possível, e a criança que se acredita responsável pela violência vai se calar. A prudência continua necessária: poucos estudos, em geral britânicos ou suecos, crianças muito pequenas e com deficiência ausentes, e nenhuma hierarquia entre elementos indispensáveis e elementos apenas apreciados. Para ler junto com o artigo sobre o lugar da criança nos serviços de terapia familiar após a violência familiar e com o artigo sobre díades mãe-filha expostas em conjunto à violência doméstica.
Notas do original
Agradecimentos. Esta revisão foi financiada pelo Forskningsrådet om Hälsa, Arbetsliv och Välfärd (FORTE, processo no 2019-01470). Os resultados e as conclusões são trabalho da equipe de pesquisa, e o financiador não participou da pesquisa.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
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Tradução não oficial em português de O que as crianças expostas à violência doméstica valorizam nos encontros com o serviço social: uma revisão sistemática orientada para a prática, de Martina Vikander e Åsa Källström, Child & Family Social Work, vol. 29, no 1 (2024), doi: 10.1111/cfs.13073, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “What children exposed to domestic violence value when meeting social workers: A practice-oriented systematic research review”, publicado em Child & Family Social Work (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Vikander, M., et Källström, Å. (2024). O que as crianças expostas à violência doméstica valorizam nos encontros com o serviço social: uma revisão sistemática orientada para a prática (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-que-as-criancas-expostas-a-violencia-domestica-valorizam-nos-encontros (Obra original publicada em 2023 em Child & Family Social Work, 29(1), 287-298 (2024); republicada em 2024 por Child & Family Social Work, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/cfs.13073)
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